Sabe aquele clichê batido de filme de terror de Hollywood, onde o demônio, o vampiro ou qualquer entidade maléfica simplesmente entra em pânico perante o solo sagrado? Aquele momento em que o monstro vê uma igreja, um crucifixo ou um templo e foge gritando como se a própria pele estivesse derretendo em contato com o ar? Durante anos, nós sentávamos no sofá, comíamos nossa pipoca e pensávamos: “Nossa, que exagero. Que roteirista mais preguiçoso”. Pois é, meus caros leitores, a ficção tem um talento assustador para se tornar realidade no Brasil. Um fato empírico incontestável provou que a sétima arte sempre teve razão. Uma figura de peso da nossa República fugiu em pânico total de um evento religioso na cidade de São Paulo. Esta entidade, vinda diretamente das profundezas acarpetadas do Palácio do Planalto, atende pelo nome de Luiz Inácio Lula da Silva. E ele escapou da Marcha Para Jesus exatamente como o diabo foge da cruz.
Para entender esse verdadeiro exorcismo político que se desenrolou em praça pública, precisamos olhar para as ruas com as lentes da realidade nua e crua, sem os filtros da grande mídia tradicional. Se o presidente lá pisasse, a sensação era de que a sola do seu sapato italiano faria subir uma fumaça preta na mesma hora. Portanto, preparem o balde de pipoca, separem a água benta – quem sabe um galão de vinte litros seja mais apropriado – porque o que aconteceu em São Paulo não foi apenas um evento cristão. Foi, nas palavras dos próprios protagonistas, a materialização de uma verdadeira guerra espiritual e política.
O roteiro do evento parecia ter sido escrito por um mestre da comédia dramática, pois o nível de entretenimento foi digno de cinema. A dinâmica em cima do trio elétrico foi a representação visual perfeita do atual abismo que divide o Brasil. De um lado, brilhando sob o sol da direita política, tivemos o Senador Flávio Bolsonaro sendo carregado nos braços do povo. Ele foi ovacionado como se fosse o próprio Elvis Presley da teologia da prosperidade. Do outro lado da moeda política, o nosso líder do Executivo, o presidente que parece governar de dentro de um estúdio blindado, deu aquele famoso, clássico e milenar “migué”. Lula fugiu do evento mais rápido do que o super-herói Flash após tomar três latas de bebida energética, deixando seus fiéis eleitores (se é que havia algum ali) no vácuo. Para não deixar a cadeira totalmente vazia, mandou um representante que ficou mais isolado, deslocado e triste do que o Batman em um ensolarado churrasco de Dia dos Pais.
Vamos começar analisando o lado direito desse fronte de batalha. Flávio Bolsonaro fez a sua grande estreia na Marcha Para Jesus, e a recepção foi um fenômeno que precisa ser estudado. Ele foi absolutamente ovacionado. O calor do público foi tão intenso, a vontade de estar perto era tão bizarra, que os seguranças suavam frio. Pareciam figurantes de um filme de zumbis tentando, desesperadamente, conter uma horda incontrolável. Houve o clássico empurra-empurra, aquele padrão de portão de Enem nos minutos finais, porque cada cidadão ali presente queria garantir uma selfie com o senador. A máquina de marketing já operava a todo vapor, tanto que já se viam fiéis usando bonés personalizados com os dizeres “Flávio Presidente 2026”. A engrenagem política não para de girar, e o calor das ruas mostrou que o motor está mais quente do que nunca.
Mas há um detalhe crucial nessa história, um pormenor que fez os analistas da grande mídia tradicional chorarem no banho frio. Essa foi a primeira grande aparição pública do “01” após o vazamento do áudio envolvendo o empresário ligado ao projeto do filme “Dark Horse”. Lembra daquele clima de “deu ruim”? Aquele momento em que os comentaristas políticos, ostentando caras de velório em canais de notícias 24 horas, juravam de pés juntos que Flávio iria se trancar na batcaverna e nunca mais ver a luz do sol? Pois é, erraram feio. O homem não apenas apareceu em público, como subiu no trio elétrico principal com a postura de quem domina o palco. E não veio sozinho: trouxe a tiracolo o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.
Tarcísio, que vinha ensaiando nas últimas semanas um distanciamento estratégico, aplicando esquivas retóricas dignas do lutador Anderson Silva no auge de sua carreira, acabou irremediavelmente colado a Flávio. O senador quebrou o gelo, arrastou o governador para o centro dos holofotes e, com o microfone em mãos, mandou a real com uma retórica teológica poderosa. Declarou abertamente que o Brasil vive uma grande guerra espiritual e profetizou, para delírio da multidão, que o “mundo do mal” será expulso do governo deste país ainda este ano. Foi um golpe de mestre. Flávio Bolsonaro simplesmente virou o jogo em um evento para milhões de pessoas, deixando cristalino que, no mar do eleitorado cristão, ele não apenas nada de braçada, mas faz hidroginástica e saltos ornamentais de olhos vendados.
Os números corroboram o espetáculo. Pesquisas recentes indicam que Flávio detém uma fatia esmagadora das intenções de voto entre os evangélicos em um eventual embate no segundo turno. Enquanto a direita surfa nessa onda gigantesca, o atual presidente amarga números tão baixos que, se fosse uma partida de futebol, os locutores já teriam pedido para encerrar o jogo por piedade. O desespero bate forte nos corredores do Palácio do Planalto.
E é aí que você, cidadão atento, pagador de impostos que sustenta a máquina estatal, se pergunta: “Mas e o governo federal? Não enviaram absolutamente ninguém para representá-los?”. Ah, eles enviaram. Enviaram o Advogado-Geral da União, o inesquecível Jorge Messias. Sim, o lendário “Bessias”, o homem eternizado como o pombo-correio da ex-presidente Dilma Rousseff, aquele que carrega o papel impresso dos momentos mais tensos da nossa história política recente. A cena em cima do trio elétrico foi de cortar o coração. Se você tiver um pingo de empatia, chora de rir ou de pena.

Enquanto Flávio Bolsonaro brilhava no lado esquerdo do trio, reluzindo ao lado de Tarcísio e do prefeito Ricardo Nunes – parecendo a formação original dos Vingadores da direita –, o nosso querido Messias ficou espremido no canto direito. Isolado. Triste. Sozinho. Ele olhava para o horizonte com aquele olhar perdido de quem está apenas calculando mentalmente o cardápio do almoço para passar o tempo. Ele parecia, de forma hilária e trágica, aquela criança que a mãe coloca de castigo no cantinho da disciplina bem no meio da festa de aniversário do primo rico. Todo mundo pulando no pula-pula, comendo brigadeiro, e o Messias ali, estático, rezando fervorosamente para que as horas passassem mais rápido do que a nossa inflação.
Mas a cereja no topo desse bolo de constrangimento ainda estava por vir. O ápice do evento não foi o silêncio de Messias, mas a sua fala. Quando os jornalistas, com aquela maldade saudável e peculiar da profissão, perguntaram a ele o que achava de estar dividindo o mesmo trio elétrico com Flávio Bolsonaro – o mesmo senador que o havia “jantado com farofa” durante sua sabatina no Senado Federal –, Messias respirou fundo. Ele buscou nos confins da sua mente toda a sabedoria jurídica e teológica possível e soltou a seguinte pérola: afirmou que a mesa de Jesus é para judeus e gentios, é para Pedro, para Tiago e… para Judas. Sim, ele disse que até Judas estava compartilhando a mesa de Jesus.
Vamos dar um “freeze frame” nesse exato momento. Congele a imagem e absorva a magnitude da gafe. O representante oficial do governo federal vai ao maior evento cristão do país e, numa tentativa desastrada de apaziguamento diplomático, invoca a figura de Judas – o apóstolo que traiu o mestre por 30 moedas de prata e que, coincidentemente, andava com a turma dos cobradores de impostos do Império Romano. A ironia é tão fina que chega a cortar. Se a carapuça serviu para o governo que mais cria e aumenta impostos desde a Idade Média, deixaremos para os historiadores decidirem. O fato é que Messias tentou forçar uma pose de pacificador, mas sua linguagem corporal gritava socorro: “Pelo amor de Deus, me tirem daqui, me deem um paraquedas!”. Foi, sem dúvida, lindamente constrangedor de se assistir.
Agora, precisamos abordar o elefante gigantesco no meio da sala: a ausência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O recordista absoluto de desculpas esfarrapadas da história da Nova República simplesmente amarelou. Deu linha na pipa. A desculpa oficial, registrada em um telefonema prévio com o apóstolo Estevam Hernandes, é um primor de audácia retórica. Lula alegou que não participa de atos religiosos em época de eleição para “não tirar proveito político de uma coisa sagrada”.
Respira fundo. O homem cuja imagem pública foi meticulosamente forjada pelo mais puro marketing político agora diz que não quer misturar fé e voto. A ironia é palpável. O povo brasileiro conhece a verdade nua e crua: Lula não foi à Marcha para Jesus porque ele simplesmente não sai às ruas sem controle absoluto do ambiente. O atual mandatário vive enclausurado em bolhas palacianas, pulando de hotéis seis estrelas, com lençóis de fios egípcios, para ambientes de estúdio fechados com plateia rigorosamente selecionada e controlada. Ele tem um pavor visceral de ser cobrado pelo povo real. E esse pânico de levar uma vaia histórica, que ecoaria pelos quatro cantos do país, triplica quando o público do evento é majoritariamente conservador e cristão.
Até mesmo a imprensa mais amigável e governista precisou admitir nas entrelinhas: ele não quis aparecer para não ser hostilizado. Ponto final. Não há zelo teológico nessa decisão; há apenas um frio cálculo político feito em uma planilha de Excel. O que mais irrita o senso comum é a cara de pau desse governo em tentar emplacar a narrativa do “estado laico” quando lhes convém. Há poucos dias, o mesmo presidente ajoelhou-se para fotos na Basílica da Sagrada Família, em Barcelona, encenando uma devoção de dar inveja a atores de novelas do horário nobre. Esqueceram disso? E não para por aí. Quem tem memória lembra muito bem de Lula transformando o sagrado Círio de Nazaré, e até mesmo velórios familiares, em palanques políticos escancarados, discursando com o microfone em punho. Naquelas ocasiões, a mistura de religião e política era perfeitamente aceitável. Mas agora, diante de um público que não reza pela sua cartilha, a militância vem com o papo higienizado de que o Estado não deve se misturar com a Igreja. Usaram as instituições religiosas como “puxadinhos” sindicais durante décadas, e agora querem dar lição de moral.
O clima com os evangélicos azedou, e azedou de vez. Uma rodada recente de pesquisas da Atlas Intel trouxe à luz uma realidade amarga para o Planalto: a rejeição de Lula entre os eleitores evangélicos atingiu a marca astronômica e bizarra de 85,5%. É um dos piores índices já registrados na história recente para um presidente no meio do mandato. Em fevereiro, a situação já era dramática, beirando os 75%. O que significa que o desgaste não estacionou; ele está em queda livre.
E por falar em fevereiro, vale a pena recordar o que aconteceu naquela época. Tivemos aquele famigerado desfile de escola de samba em São Paulo que decidiu retratar policiais e alas que remetiam ao público cristão de forma altamente controversa e pejorativa. Os cristãos, com toda a razão, sentiram-se desrespeitados e atacados. A resposta do governo? Um distanciamento silencioso, enquanto figuras de destaque aplaudiam a “cultura”. O engajamento com o público evangélico despencou ladeira abaixo. O presidente fez questão de marcar presença na Marquês de Sapucaí durante o Carnaval, mas a Marcha para Jesus não mereceu sequer uma passada rápida. Essa dualidade diz absolutamente tudo o que precisamos saber sobre o perfil e as prioridades reais de sua agenda. No camarote VIP do Carnaval, blindado e cercado de apoiadores, ele seria celebrado. Na Marcha para Jesus, cercado pelo povo real, o risco era incalculável.
Sejamos sinceros: a justificativa da pureza eleitoral é fraca demais. Lula não evitou a Marcha para Jesus por zelo; evitou por instinto de sobrevivência política. A metáfora do filme de terror se encaixa perfeitamente aqui. Se ele pisasse naquele trio elétrico, a pressão seria tamanha que o clima seria irrespirável para ele.
Em resumo, a Marcha para Jesus deste ano não foi apenas uma celebração de fé. Foi o retrato em alta definição da atual correlação de forças no Brasil. Flávio Bolsonaro provou que possui musculatura política robusta, sobreviveu rindo a crises de bastidores, alinhou o governador de São Paulo ao seu lado e demonstrou que a direita navega com vento a favor e mar calmo no oceano do eleitorado cristão.
Enquanto isso, Jorge Messias pagou o pato da semana governamental. Ficou largado no canto do pensamento do palco e passou pelo vexame supremo de invocar o nome de Judas para justificar o injustificável. E Lula? Lula permanece firme em sua posição de “presidente de estúdio”. Continua trancafiado em uma redoma de plástico, cercado por assessores, acólitos e fotógrafos oficiais que filtram a realidade. Eles sabem que as ruas não têm roteiro, não aceitam cortes e são ruidosas. A religiosidade seletiva do atual governo só aparece na época das campanhas eleitorais, quando é preciso sorrir para a foto e prometer milagres econômicos. Mas quando o evento é autêntico, orgânico e conservador, as cortinas se fecham e o Palácio da Alvorada se transforma em um bunker. Fica claro que, para alguns, governar é apenas um espetáculo de ilusionismo, onde o povo real não tem lugar na plateia.