GONZAGÃO e Gonzaguinha: ÓDIO, sangue e um ACIDENTE mortal… O fim da DINASTIA

Era o rei do baião, o homem que colocou a alma do sertão no mapa. Luís Gonzaga era adorado por milhões, mas dentro da própria casa era um estranho. Abandonou o filho ainda bebé, deixando-o crescer com um vazio que se transformou em ódio feroz e canções carregadas de mágoa. Hoje abrimos o dossier mais doloroso da música popular brasileira.

Descubra a verdade crua por detrás de uma reconciliação que demorou décadas a acontecer. E como o destino, numa viragem cruel e sangrenta, decidiu cortar a dinastia com um acidente que ninguém pôde evitar, exactamente quando o perdão tinha finalmente florescido. Isto não é uma história de glória musical, embora também ser isso.

É a história de uma ferida aberta que durou 40 anos, de um menino que cresceu sem mãe e quase sem pai, criado no monte por padrinhos que o amaram de verdade, mas que nunca poderiam ser o que lhe faltava. de um homem que construiu a sua lenda enquanto destruía sem querer o que tinha de mais próximo.

Por fraqueza, por cobardia, por esta incapacidade que certos homens têm de ficar, que não é maldade, mas produz o mesmo estrago que se fosse. e de outro homem, o filho, que canalizou toda esta raiva na música e em letras que incomodavam o Brasil inteiro, que metiam o dedo na ferida da ditadura, da fome, da injustiça e nas entrelinhas de um pai que nunca soube estar quando precisava estar.

Hoje vai descobrir quatro coisas sobre esta história que muito pouca gente tem claras. Primeiro, o abandono real de Gonzaguinha não foi apenas uma questão de distância física, nem de uma vida itinerante que não deixava espaço para a tua família. Foi uma decisão que envolveu uma madrasta que o humilhava abertamente e um pai que escolhia calar-se quando devia ter falado.

Segundo os anos da Guerra Fria entre os dois, quando Gonzaguinha já era famoso e Gonzagão estava a ser esquecido pelo Brasil. E como é que esta dinâmica de poder invertido mudou tudo entre eles de formas que nenhum dos dois tinha antecipado. Terceiro, o milagre que quase não aconteceu. Como uma mulher que Gonzaguinha tinha razões concretas para odiar, foi quem paradoxalmente estendeu a única ponte que os reuniu.

E quarto, o fim que nenhum dos dois merecia, o acidente numa estrada do Paraná que apagou o último Gonzaga numa manhã de abril, quando a música ainda tinha muito a dizer. E quando o tempo com o pai tinha mal começado a saber a algo que valia a pena guardar. Mas antes você precisa de saber de onde veio este homem, o pai. Porque é aí que tudo começa.

Porque nenhuma história de abandono faz sentido se não percebe primeiro do que é feito quem abandona, de que é feita a terra que o formou e que tipo de homem esta terra produz quando a vida não te não dá nenhum caminho fácil. Luís Gonzaga do Nascimento nasceu a 13 de dezembro de 1912 na fazenda Caiçara, município de Exu, no sertão de Pernambuco, ao pé da Serra do Araripe.

Se já passou por aquela região ou se os seus avós a conheceram, sabe exatamente do que é feita aquela terra. Pó vermelho, sol que esmaga desde antes das 9 horas da manhã, vacas magras à procura de sombra onde não há, cato e mandacaru e uma seca que vem e regressa como se tivesse direito de visita permanente.

Uma terra onde a água é luxo e a migração é um costume tão antigo quanto o próprio Nordeste, onde o retirante que parte em direção ao sul transportando tudo o que tem numa bolsa de lona, ​​é uma figura tão familiar que quase ninguém olha quando passa, porque já viram isso vezes demais. Exu não era um lugar do qual se saía facilmente, e os que saíam às vezes faziam-no para nunca mais voltar, passando o resto da vida carregando aquela terra ao peito, como se o sertão fosse uma marca a ferro que não desaparece nem com os anos, nem com a distância. O pai de Luís Gonzaga,

Januário José dos Santos, era agricultor e acordeonista de oito baixos, conhecido em toda a região como o Mestre Januário. Era um homem duro, de poucas palavras, dos que o Nordeste produz em quantidade porque a terra seca não deixa espaço para a brandura. encontrava na música o único idioma que lhe restava quando as palavras não davam conta do que precisava de ser dito.

Esse legado, esta forma de transformar a dor em ritmo e o silêncio em melodia foi o que deixou ao filho como herança mais valiosa de todas. Luís Gonzaga cresceu ouvindo o pai tocar nas feiras e nos forrós da região, aprendendo desde cedo que a música era a forma que o povo do sertão tinha de processar o que não conseguia processar de outra forma.

A seca, a pobreza, a saudade, o amor que não sabe dizer-se em voz alta, sem parecer uma fraqueza que não se pode dar-se ao luxo de ter. era o mais velho de vários irmãos e desde pequeno já sabia que tinha algo de especial nos dedos. Aquela capacidade de fazer com que as pessoas parassem e ouvissem, de transformar o trabalho em dança e a tristeza em algo suportável por um tempo.

Aos 13 anos, já tocava com uma desenvoltura que surpreendia os mais velhos. comprou a sua primeira concertina com dinheiro emprestado por um coronel local. E isso já diz muito sobre o tipo de relação que sustentava a vida naquele Brasil profundo dos anos 20. A dependência do poder local, o favoritismo, a hierarquia invisível, que ordenava tudo e que determinava quem podia sonhar com algo mais e quem tinha que se contentar em sobreviver.

O O Nordeste daquela época era um mosaico de poder concentrado em poucas mãos e de pobreza repartida em muitas. E Luiz Gonzaga cresceu dentro deste sistema sabendo exatamente qual era o seu lugar na hierarquia e quais os limites desse lugar. Tudo aquele mundo se partiu quando tinha 17 anos. Apaixonou-se pela filha de um influente agricultor e o pai da rapariga não aceitou.

O que aconteceu exatamente naqueles dias é algo que a história oficial resume em poucas linhas, mas quem conhece o Nordeste brasileiro daquela época sabe que uma situação destas naquele contexto podia acabar muito mal para quem não tinha terra nem apelido que o amparasse diante dos que os tinham. Luiz Gonzaga tomou uma decisão que marcaria o resto da sua vida e a vida do filho ainda por nascer.

fugiu, vendeu a acordeão e alistou-se no exército em Fortaleza, colocando quilómetros entre ele e tudo o que tinha conhecido até então. Foram 9 anos de vida militar percorrendo o Brasil de norte a sul, tocando em guarnições e em bares de quartel, aprendendo que o país era muito maior e muito mais diversificado do que havia permitido imaginar.

Aprendendo também que se podia mover, que podia existir em diferentes lugares do sertão que o havia formado, que não estava condenado a ficar em lado nenhum se não quisesse. Esta aprendizagem, que em outro contexto poderia ter sido apenas libertador, viria a ser anos depois o problema central da sua relação com o filho.

Luís Gonzaga aprendeu a mexer-se e nunca aprendeu de vez a ficar quando era necessário ficar. Em 1939, com 30 anos já feitos, deixou o exército e chegou ao Rio de Janeiro à espera embarcar de regresso ao Nordeste. Mas a cidade capturou-o do jeito que o rio capturou milhões de pessoas que chegaram de passagem.

Um soldado disse-lhe que podia ganhar dinheiro como músico. E Luís Gonzaga tomou mais uma daquelas decisões que mudam tudo. Ficou. começou tocando em bares da Lapa, em cabarés do Centro Carioca, interpretando choros, sambas e fox trots, o que o público cosmopolita do Rio dos anos 40 queria ouvir nas noites de diversão. Era bom, era muito bom, mas ainda não era ele.

Ainda estava a tentar ser o que os outros esperavam que fosse, em vez do que realmente tinha para oferecer ao mundo. A grande revelação surgiu em 1941, quando se apresentou no programa de caloiros de Ari Barroso na Rádio Nacional. O programa de Ari Barroso era um daqueles espaços onde se podia ficar famoso numa noite ou cair no esquecimento definitivo sem meio termo possível.

Alguém da plateia pediu que ele tocasse em algo da sua terra. E Luís Gonzaga, em vez de tocar o que se esperava de um artista que queria vencer no rio Cosmopolita dos anos 40, em vez de continuar a imitar o Sudeste como fazia há anos, tocou Vira e Mexe, uma música do puro sertão. A reação foi imediata e estrondosa. O público do Rio de Janeiro, aquele público que preferia o samba carioca e os ritmos importados, parou e ouviu, porque havia algo naquele som de acordeão e abumba que era verdadeiro de uma forma que não se podia ignorar, que vinha de

um lugar que muito pouca gente naquela plateia conhecia de perto e que, por isso mesmo, tinha uma força bruta e uma autenticidade que não se fabricavam em estúdio nenhum. A partir desse momento, Luís Gonzaga compreendeu algo fundamental sobre o seu próprio poder. Ele não estava em copiar o Sudeste, estava em ser exatamente o contrário.

Abandonou os fatos elegantes e adotou o gibão de couro, as perneiras, o chapéu de vaqueiro que o tornaria inconfundível para sempre em qualquer palco do Brasil inteiro. tornou-se o Nordeste encarnado em pessoa, o porta-voz de milhões de Os retirantes nordestinos que tinham chegado a São Paulo e ao Rio em busca de uma vida melhor e que reconheciam na sua música tudo o que tinham deixado para trás: a terra seca, a família, o ritmo dos forrós de sábado à noite nos concelhos do interior que sentiam falta com uma intensidade que só quem migrou

de verdade entende. Mas a Branca, gravada em 1947 com Humberto Teixeira, tornou-se uma das canções mais importantes da história do Brasil. Uma melodia tão poderosa que sobreviveu há décadas, os regimes políticos de todas as cores, crises económicas devastadoras e que continua a ser o hino não oficial do Nordeste até hoje.

A música que toca quando o nordestino quer chorar sem vergonha em terra alheia e quando o Brasil inteiro quer lembrar que tem raízes em terra vermelha e seca e que estas raízes fazem parte do que o torna grande. E foi também em 1947 que nasceu o maior problema da sua vida, o problema que não se resolveria em décadas, o problema que produziria uma das relações mais dolorosas e mais ricas da história cultural brasileira.

Gonzaguinha, o filho, nasceu a 22 de Setembro de 1945, no Rio de Janeiro. A sua mãe era Odaleia Guedes dos Santos, cantora e bailarina do Dança em Brasil, uma mulher talentosa e livre que tinha tido um romance com o já famoso Luís Gonzaga nos anos da sua ascensão à fama. O relacionamento foi intenso, mas não duradouro.

E quando Gonzaguinha veio ao mundo, Gonzagão já tinha outros horizontes em mente. Era o ano do pós-guerra, o ano em que a fama o chamava de todos os cantos do país. E o filho recém-nascido era uma responsabilidade que não se enquadrava bem naquela vida de constante movimento que tinha escolhido, ou, para ser mais preciso, da qual não tinha sabido escolher diferente, porque nunca havia aprendido a ficar.

O que veio depois foi uma sucessão de tragédias domésticas que marcaram Gonzaguinha de formas que ele nunca terminou de processar completamente. Odaleia contraiu tuberculose pouco depois do nascimento do filho. Era a doença da pobreza e da aglomeração dos anos 40 no Rio, a que levava o jovem sem aviso e sem piedade. Gonzaga levou-a para um sanatório em Petrópolis, nas alturas da Serra Fluminense, onde o ar frio e o repouso eram o único tratamento que a medicina da época podia oferecer.

O bebé foi entregue aos padrinhos Xavier e Dina Pinheiro, amigos dos dois. Odaleia chegou a escapar do sanatório em algum momento, tentando voltar para Gonzaga, convencida de que ele a esperava, de que a história entre eles tinha um final diferente do que estava a ser escrito sem o seu consentimento. Não foi assim. Quando ela recuperou o suficiente para sair, Luís Gonzaga já estava com outra mulher, Helena das Neves Cavalcante, uma relação que iniciou-se em julho de 1947 e que terminaria em casamento em 1948.

Odaleia contraiu novamente tuberculose nesse mesmo ano e faleceu. Tinha 22 anos. O seu filho tinha 2 anos e meio e ficou sem mãe da mesma forma que o sertão fica sem chuva. de repente, sem avisar, deixando tudo absolutamente seco. O que se seguiu é um daqueles capítulos que definem o carácter de um homem para sempre, que revelam quem ele realmente é quando se apresenta uma decisão difícil e não há como evitar escolher.

Gonzaga quis levar o menino para viver com ele e com Helena, mas Helena e a mãe rejeitaram a proposta. Um filho nascido de outra relação e ilegítimo segundo a moral da época na casa do marido. A sociedade brasileira dos anos 40 era nesse sentido, tão implacável como qualquer outra. Era uma afronta, uma vergonha, uma complicação que não queriam na vida doméstica que estavam a construir.

E Gonzaga cedeu. E é essa decisão que define tudo o que vem depois. [música] Entregou o filho aos padrinhos Xavier e Dina. continuou a enviar dinheiro para o sustento como quem cumpre uma quota e seguiu com a sua vida como se isso resolvesse o assunto. E aqui começa a primeira revelação que prometi, a do abandono real.

Porque é preciso compreender o que este abandono significou para Gonzaguinha e distingui-lo da versão simplificada que por vezes circula nos perfis biográficos de ocasião. Não foi que o pai desapareceu do mapa completamente. Gonzaga visitava, mandava dinheiro, aparecia de forma intermitente, cumpria o mínimo que se esperava de um homem da sua geração nesta situação, o apoio financeiro, mas não estava presente.

A diferença entre estar presente de verdade e mandar dinheiro é exatamente a diferença entre um pai e um Messenas. E Gonzaguinha cresceu tendo um messenas. Xavier e Dina criaram-no no morro do São Carlos, no Rio de Janeiro, com todo o amor genuíno que tinham. E esse amor foi real e importante para a formação de quem ele se tornou.

Mas não era suficiente para preencher o que faltava. Nunca poderia ser, porque o que faltava não era apenas presença, era a presença específica do pai, que é a única que não tem substituto possível. O monte do São Carlos era e continua a ser um dos tantos montes do rio, onde o Brasil empilha quem não cabe no asfalto das zonas nobres.

Casas que se constróem coladas umas às outras, sem pedir licença nem consultar qualquer planta de urbanismo, subindo pelo monte como podem. Escadas de cimento que o tempo vai desgastando até ficarem mais perigosas do que úteis. O calor húmido do rio, multiplicado pelo adençamento, pela falta de arborização, pelo sol que bate direto nos telhados de zinco e de laje, sem qualquer isolamento.

Um lugar onde as as crianças crescem aprendendo muito rápido as regras não escritas da sobrevivência quotidiano, onde a solidariedade da comunidade convive com a dureza de uma vida sem recursos nem rede de proteção institucional. Gonzaguinha cresceu nesse ambiente sendo o filho do famoso Gonzagão que passava na rádio do Brasil inteiro, mas vivendo a vida do filho de ninguém em termos práticos, criado por padrinhos que não tinham o seu apelido.

Num monte onde a fama do pai era um dado biográfico sem consequências concretas no dia a dia, a adolescência o encontrou rebelde e ressentido, que é exatamente o que qualquer observador razoável teria previsto, dado o contexto. não queria ir viver com o pai, embora em algum momento tenha tentado sem sucesso.

Amava os seus padrinhos com a intensidade de quem sabe que este é o único amor real e estável que tem. E já nessa altura tinha começado a dizer em voz alta o que muitos em redor sussurravam, que Luís Gonzaga não era seu pai biológico. O físico não ajudava em nada a desmentir o boado. Gonzaguinha não se parecia nada com Gonzagão. A dúvida sobre a paternidade biológica era um segredo de polinelo nos círculos que cercavam os dois.

Um rumor que ninguém podia confirmar nem desmentir e que Gonzagão pai nunca resolveu de forma definitiva em vida. Anos depois, se saberia que Gonzagão tinha descoberto ser estéril após o casamento com Helena, o que tornaria a paternidade biológica de Gonzaguinha uma impossibilidade matemática. Mas isso não era algo que se dissesse em voz alta nos anos 1950, nem nos anos 1960.

Guardava-se, sussurrava-se, deixava-se flutuar no ar como uma daquelas perguntas às quais ninguém quer dar resposta definitiva, porque a resposta podia mudar tudo e ninguém tinha certeza de querer carregar o que viria depois. Com 14 anos, Gonzaguinha contraiu tuberculose, a mesma doença que tinha morto a sua mãe, a mesma que tinha perseguiu a sua família desde o início, como se tivesse uma conta pendente com os Gonzaga, que nunca mais acabava de acertar.

ficou à beira da morte e sobreviveu, mas a experiência deixou-o com cicatrizes físicas e emocionais que se somaram as que já transportava desde muito antes. Com 16 anos, Gonzaga decidiu levá-lo para viver com ele na ilha do Governador, onde então vivia com Helena. A convivência foi um desastre desde o primeiro dia.

Helena detestava-o e não fazia o menor esforço para esconder. Humilhava-o, rebaixava-o com aquela crueldade doméstica quotidiana que não deixa hematomas visíveis, mas torna a vida completamente insuportável. Queixava-se da sua presença com uma consistência que impossibilitava qualquer tipo de vida familiar normal. E Gonzagão, pai, em vez de defender o filho com a firmeza que qualquer pai deveria ter, cedia aos caprichos de Helena e acabava por lhe dar razão, mandando o filho de volta para o internato para que a paz doméstica se

restabelecesse. Esta decisão o filho nunca esqueceu e interpretou-a da única forma que fazia sentido dadas as circunstâncias, o pai escolhia-o dela. Sempre, em cada oportunidade que teve para escolher de verdade, escolheu-a a ela. Sinceramente, há algo nisto que ainda hoje causa um desconforto que não desaparece quando se para para pensar.

Um homem que escolhe sistematicamente a companheira acima do filho não está cometendo um erro isolado, está estabelecendo uma hierarquia que o filho aprende muito depressa e que marca a forma como esse filho se vai relacionar com o amor e com o abandono pelo resto da vida. Isto leva-nos à segunda revelação, os anos da Guerra Fria, que na verdade são duas histórias a correr em paralelo durante as décadas de 1960 e 1970 no Brasil e que só se entendem completamente juntas.

Enquanto Gonzaguinha crescia e formava-se como artista, o Brasil à sua volta atravessava um dos períodos mais negros da sua história recente. O golpe militar de 1eiro de Abril de 1964 tinha instalado uma ditadura que duraria 21 anos. A censura, a repressão, os os presos políticos, os exilados, os que desapareceram sem deixar rasto nos porões da repressão.

O medo instalado na vida quotidiana de uma maneira tão profunda que as pessoas aprenderam a se autocensurar antes que alguém mais tivesse de fazer isso por elas. O Brasil que Gonzaguinha conheceu na a juventude era um país onde dizer certas coisas em público podia custar a liberdade, o emprego ou algo pior do que isso.

E foi exatamente neste contexto que encontrou a sua voz artística, que era a voz mais oposta possível à do pai em todos os sentidos. Gonzaguinha estudou no colégio militar do Rio de Janeiro, o que é uma ironia histórica bastante densa se considerarmos que passou boa parte da sua carreira adulta cantando contra o regime militar. Estudou também no liceu Andrews, onde os seus talentos musicais ficaram evidentes para qualquer pessoa que o ouvisse.

Começou a tocar nos bares e teatros da zona sul carioca, que nos anos 1960 eram os laboratórios da bossa Nova e da MPB, aquela música popular brasileira que reunia os filhos da classe média ilustrada que queriam fazer algo politicamente comprometido com os seus violões. fez música para teatro, desenvolveu uma voz própria que tinha a textura áspera de quem viveu perto da dor real desde muito pequeno.

Não era a voz perfeita dos grandes intérpretes da MPB. Era uma voz que funcionava exatamente por ser imperfeita, porque tinha algo de rugoso e urgente que fazia com que as pessoas acreditarem nele quando cantava. Em 1973, gravou o seu primeiro grande álbum, Comportamento Geral, que incluía a canção Homónimo, diretamente censurada pelo regime militar.

A letra era uma crítica tão inequívoca à cultura da obediência cega que o regime promovia e precisava para funcionar que os sensores não tiveram de pensar muito. proibida. Cantar aquilo no Brasil de 1973 não era apenas uma decisão artística, era um ato político com consequências reais, com censura real, com risco real de terminar preso ou exilado, como tinham terminado outros artistas da sua geração, que disseram coisas semelhantes em canções semelhantes.

Gilberto Gil e Caetano Veloso tinham sido presos e forçados ao exílio em 1969. Chico Buark vivia a navegar entre as proibições e as permissões com a capacidade de quem aprendeu a lutar com uma mão atada atrás das costas. Gonzaguinha entrou neste campo sem a cautela estratégica dos mais experientes, com a raiva direta de quem ainda não aprendeu que a guerra longa se ganha com paciência e não com confrontos frontais.

Os festivais de música dos anos 1960 e 1970 no Brasil eram campos de batalha culturais, onde os artistas mediam forças com o regime em tempo real, perante milhões de pessoas coladas à televisão de casa. Porque no Brasil dessa época a televisão era o único espaço público que restava para certas conversações.

Gonzaguinha entrou nesse campo com a intenção de não ceder 1 mm. A sua voz no microfone desses festivais não era a voz treinada do conservatório, era a voz de alguém que tem coisas urgentes a dizer e não pode dar-se ao luxo da elegância quando o tempo aperta. E o público ouvia-o com aquela atenção especial que se dá a quem diz em voz alta o que toda a gente está a pensar, mas ninguém se atreve a pronunciar perante das autoridades.

Lutar pode ser traição com a perna no mundo caminhos. Os álbuns dessa época construíram a imagem de um artista que não pedia licença e que utilizava a música como ferramenta de denúncia com uma precisão que incomodava qualquer pessoa que preferisse olhar para o outro lado. Mas havia também nesta obra uma dimensão pessoal que a crítica da época demorou a ler corretamente e que hoje é mais evidente.

Muitas daquelas canções sobre o abandono, sobre os que vão embora e deixam os outros sem nada, sobre a raiva de quem foi deixado para trás, não eram apenas canções políticas, eram canções autobiográficas disfarçadas da política, que é uma das coisas mais inteligentes que um artista pode fazer quando o que quer dizer é demasiado pessoal para ser dito na primeira pessoa sem proteção.

E aí está o cerne da Guerra Fria com o pai, aquela que nenhum dos dois conseguia resolver porque não era apenas uma guerra pessoal, mas uma guerra cultural. Luiz Gonzaga representava para muitos setores uma imagem do Nordeste romântico e folclórico que o regime militar achava perfeitamente digerível. O vaqueiro com chapéu de couro, a concertina, o baião que fazia a malta dançar e lembrar a terra de origem.

Uma imagem que podia coexistir com a ditadura sem criar problemas, porque falava de tradição e de identidade sem ameaçar a ordem estabelecida. Gonzaguinha, por outro lado, chegou à cena musical com canções que metiam o dedo em todas as feridas que o regime queria manter cauterizadas. Para o público, Gonzaguinha era o filho do rei e esse rótulo perseguia-o em cada entrevista e em cada apresentação.

Mas para ele próprio, essa identidade filial era mais um fardo do que um privilégio. Sabe o que ainda hoje surpreende quando lê as entrevistas dessa época? que Gonzaguinha falava do pai com uma frieza calculada que era exactamente a de quem decidiu não mostrar o que sente, porque mostrar o que sente dá-lhe uma vulnerabilidade que não pode se permitir.

Não dizia que o odiava, não dizia que o amava. Dizia que Gonzagão era uma figura importante da cultura popular brasileira, o que era uma forma de transformar o pai num facto histórico, em vez de uma pessoa real, de anestesiar a ferida com a distância da análise cultural. E a imprensa brasileira dos anos 1970, que não tinha qualquer delicadeza particular na hora de fazer perguntas incómodas, pressionava-o a cada oportunidade para conseguir uma declaração explosiva que vender.

Gonzaguinha nunca deu o que procuravam. O que dava era pior do que uma declaração explosiva. Era uma equanimidade estudada que dizia mais sobre o tamanho da ferida do que qualquer raiva explícita. Houve momentos de tensão pública entre os dois que ficaram registados na imprensa da época.

Gonzaguinha num festival, Gonzagão numa entrevista de rádio e o jornalista de serviço, que perguntava o que cada um pensava do outro e anotava a resposta com a cara de quem já sabia que tinha matéria para a matéria. O rei do baião fazia declarações sobre o filho que oscilavam entre o orgulho genuíno e a incompreensão total.

era carne e sangue seu. Embora os dois soubessem que a afirmação era mais complexa do que parecia em voz alta, mas era também um artista que fazia música que Gonzagão não acabava de entender, com posições políticas que não partilhava e que o colocavam num lugar desconfortável dentro da indústria e dentro do país. Gonzaguinha, por sua vez, nunca mencionava o pai nos palcos durante estes anos, nem para agradecer, nem para atacar.

simplesmente não o mencionava, que é a forma mais completa de apagar alguém da narrativa pública quando se não se pode dar ao luxo de dizer o que realmente pensa. Pessoalmente, acho que esta omissão era o ato de raiva mais poderoso que Gonzaguinha podia cometer a partir da sua posição. Não insultar o Luiz Gonzaga publicamente, não o atacar, não aproveitar cada microfone para dizer o que sentia, mas simplesmente agir como se ele não existisse como referência para a sua própria obra, como se a obra de Gonzaguinha tivesse nascido do nada e não de uma herança e de uma raiva contra

essa herança que o marcavam em cada nota que tocava. para Gonzagão, que havia construiu toda a sua identidade artística na transmissão do que recebera do mestre Januário, que entendia a música como uma linhagem, esta omissão devia ser uma das formas de ferimento mais precisas que podia receber. Entretanto, o que nenhum dos dois tinha calculado é que o tempo tem a sua própria forma de redistribuir o poder dentro dessas relações.

No final dos anos 1970, a situação de Luís Gonzaga era crítica num sentido que ninguém teria antecipado uma década antes. O homem, que tinha sido o rei do baião durante três décadas, estava a ser empurrado para o esquecimento pelas novas gerações. O país tinha mudado profundamente. A urbanização do Brasil, nos anos do milagre económico, tinha transformado o panorama cultural de formas que a indústria fonográfica ainda tentava processar.

O Nordeste folclórico de Gonzagão estava a ser empurrado para as margens por géneros mais novos. A bossa nova tinha capturado a classe média ilustrada. A MPB política tinha atraído a juventude universitária. O tropicalismo de Caetano e Gil havia colocou o Nordeste de volta no mapa cultural, mas a partir de uma perspectiva muito diferente, mais vanguardista e mais urbana do que a de Gonzagão.

E o rock que chegava do Sudeste com toda a energia da juventude que tinha crescido longe das rádios que só tocavam música regional, completava o quadro de uma indústria que tinha mudado de direção, sem avisar. Gonzagão tinha problemas financeiros graves que não eram segredo para ninguém à sua volta. Tocava em pequenas feiras do interior, em eventos onde o cachet era mísero e o público já não era o que enchia os teatros do Rio e de São Paulo décadas antes.

As editoras discográficas, que nos anos 1950 lutavam para tê-lo no catálogo, agora ofereciam-lhe condições que eram quase uma ofensa para alguém da sua trajetória. A indústria do O entretenimento brasileiro tem essa particular capacidade documentada em demasiadas histórias para ser acidental, de utilizar as suas figuras enquanto geram dinheiro e esquecê-las exatamente quando deixam de o fazer, sem gratidão nem vergonha pelo contraste entre as duas atitudes.

Gonzagão estava a viver a segunda etapa desta equação. E vivê-la com 70 anos nas costas, com o corpo começando a falhar e as dívidas crescendo, era uma experiência que só pode ser descrita como uma degradação que não tinha merecido. A ironia brutal é que foi exatamente nesse momento de vulnerabilidade de Gonzagão que aconteceu algo que reconfigurou tudo.

E aqui começa a terceira revelação, a que mais dói quando a compreendemos por completo. Helena, a madrasta, a mesma mulher que tinha maltratado Gonzaguinha durante os anos da adolescência, a que tinha tornado impossível a convivência com o pai, a que tinha sido um dos instrumentos centrais do abandono que marcou a sua infância.

Esta mulher foi buscar o Gonzaguinha. Ele já era um artista reconhecido nos meios da MPB. Tinha estado na capa da revista Veja. As suas canções eram gravadas por artistas que importavam na cena musical brasileira. E Helena, que nunca na vida tinha tratado aquele menino com nenhum tipo de consideração, pediu-lhe que ajudasse o pai, que estendesse a mão, que se lembrasse que Gonzagão o tinha sustentado financeiramente durante todo o a minha infância e que agora era o pai quem precisava do filho para sobreviver na indústria que o estava a deixar para

trás, como se deixam para trás as modas. A ironia de que a pessoa que mais tinha feito para os manter separados fosse agora quem implorava que se unissem, era tão evidente que ninguém na sala precisava de apontá-la. Mas o que aconteceu dentro de Gonzaguinha naquele momento não foi o que a simples lógica da vingança teria ditado.

Segundo quem o conhecia bem, o que nele se movia não foi a satisfação de poder dizer não à mulher que o tornara miserável. O que se moveu foi algo mais difícil de articular. A curiosidade de conhecer o homem real por detrás do mito, o pai real por detrás da ausência. Gonzaguinha havia crescido com a imagem pública de Gonzagão, construído pela imprensa e pelo público, mas nunca com o conhecimento íntimo do homem.

E essa ignorância sobre quem era realmente o seu pai, para além da lenda, era algo que não podia ignorar indefinidamente quando o tempo começava a ameaçar tornar impossível qualquer conversa futura. viajou até Exu, até ao sertão de Pernambuco, até à terra vermelha que tinha formado o pai e que ele próprio nunca tinha pisado antes.

Essa viagem foi, segundo todas as versões disponíveis, um daqueles momentos em que um homem decide que prefere a dor da verdade ao alívio da distância confortável que tinha mantido por décadas. E o encontro em Exu foi exatamente tão tenso e tão carregado emocionalmente quanto se poderia esperar de duas pessoas que se amam e se magoaram tanto tempo.

Gonzaguinha descarregou tudo, não deixou nada por dizer. A raiva dos anos do internato, a humilhação sistemática de Helena e o silêncio cobarde do pai perante esta humilhação. O menino que esperava visitas que chegavam tarde ou não chegavam. O adolescente que teve tuberculose aos 14 anos em parte porque vivia nas condições em que vivia no morro.

Tudo saiu porque Gonzaguinha era exatamente o tipo de pessoa que não conseguia e não queria guardar nada para si quando chegava o momento em que as as palavras eram a única ferramenta disponível. E Gonzagão ouviu isso também precisa de ser dito com a mesma clareza com que se dizem as outras coisas. Porque ouvir quando alguém está a dizer tudo o que fez de errado não é uma coisa pequena.

O rei do baião, um homem da sua geração no sentido mais literal, habituado a que o mundo girasse em torno dos seus tempos e das suas decisões, este homem ouviu o filho sem interrompê-lo nem sair antes de ele terminasse. Houve momentos em que o o silêncio pesava mais do que qualquer palavra, mas Gonzagão não se fechou, não defendeu-se com agressividade, não terminou a conversa antes do tempo, levando consigo a razão que acreditava ter.

E isso foi suficiente para que algo começasse a abrir-se entre os dois que estava clausurado há décadas. Desse encontro nasceu a digressão que mudou tudo. Entre 1979 e 1980, pai e filho fizeram juntos a digressão vida do Viajante, percorrendo o Brasil no mesmo circuito, dividindo cartazes e palcos perante públicos que não acreditavam no que estavam a ver.

Era algo que nenhum dos dois teria conseguido imaginar uma década antes. Os produtores que organizaram a digressão não tinham a certeza de que ia resultar. Dois artistas com públicos tão distintos, com músicas tão diferentes, com uma história pessoal tão complicada e tão pública. Mas o público compreendeu de imediato, porque o público compreende sempre as coisas verdadeiras antes da indústria.

Os espetáculos esgotavam desde o primeiro anúncio. As rádios locais de cada cidade que visitavam transmitiam os concertos ao vivo ou revê-los no dia seguinte com um entusiasmo que nenhum programador de rádio tinha pedido, que nascia da mesma emoção espontânea que os jornalistas sentem quando estão a cobrir algo que importa de verdade.

Havia algo visualmente poderoso em palco que partilhavam Gonzagão com o seu chapéu de vaqueiro e a sua concertina, a figura icónica do Nordeste que o Brasil tinha memorizado em três décadas de rádio. e de discos. Gonzaguinha com a sua guitarra e a sua voz áspera e as suas letras que ainda tinham a textura da raiva, embora a raiva já estivesse a ser processada de formas novas.

Juntos, os dois construíam em palco um diálogo entre gerações, entre o Nordeste folclórico e a MPB política, entre a tradição e a ruptura, que o Brasil da abertura democrática do final dos anos 70 precisava de ver representado em algum lugar. E o facto de que este diálogo acontecia entre pai e filho, entre duas pessoas que tinham passado décadas sem conseguir olhar-se nos olhos, sem querer sair a correr, acrescentava uma camada emocional que nenhum argumentista teria podido inventar, porque a verdade tem aquela coisa que a a ficção nunca consegue replicar

completamente. Há testemunhos de pessoas que viram estes espetáculos falando de momentos em que os dois se olhavam no palco e algo acontecia entre eles que o público conseguia sentir sem conseguir descrever com exatidão. Não era um espetáculo ensaiado até à perfeição técnica. Era algo mais rugoso e mais real do que isso, com todas as arestas que a realidade sempre tem e que a perfeição técnica elimina.

E essa aspereza era exatamente o que o tornava verdadeiro perante os milhares de pessoas que enchiam os teatros e os auditórios por onde passavam. Durante estas viagens, Gonzaguinha fez algo que com o tempo tornar-se-ia um dos documentos mais valiosos da história da música popular brasileira. Gravou aproximadamente 20 horas de conversas com o pai. perguntou de tudo.

A infância em Exu, a relação com o Mestre Januário, os anos no exército, como chegou ao rio, como nasceu a Asa Branca, o que sentia quando tocava para uma multidão de nordestinos no Sudeste que choravam de saudade? E também, inevitavelmente, o que tinha acontecido entre eles, porque tinha escolhido o que tinha escolhido em cada momento que tivera de escolher? O que sentia quando olhava para trás com o perspectiva dos anos que já não podiam ser desfeitos? As respostas de Gonzagão nestas gravações nem sempre foram confortáveis ​​nem heróicas, mas foram

honestas, que era a única coisa que Gonzaguinha estava a pedir naquele momento. Estas gravações serviram de base para o livro de Regina e Cheveria e para o filme que Breno Silveira estrearia décadas depois. São uma janela para a intimidade de dois homens que estavam a conhecer-se de adultos. pela primeira vez com toda a torpeza e toda a emoção que isso implica.

Há nelas momentos de humor, de nostalgia partilhada, de tensão ainda não completamente resolvida e há também frases que ficaram na história cultural brasileira. Gonzagão disse ao filho numa destas gravações: “Acho que a pessoa que mais gosta de mim é você. A coisa mais fixe da minha vida és tu. Sou pai postiço, mas sou pai.

Sou pai postiço, mas sou pai. Nesta frase está tudo: o reconhecimento da dívida, o amor que nunca tinha desaparecido de todo, embora tivesse escondido durante décadas, e a ambiguidade da paternidade biológica que nenhum dos dois queria resolver definitivamente, porque talvez entendessem que a resposta não se alteraria nada do que já existia entre eles e que o que existia entre eles era suficientemente real.

partilharam palcos perante milhares de pessoas que choravam ao vê-los juntos sem conseguir explicar exatamente porquê, ou talvez conseguissem, porque todo o Brasil tinha a sua própria versão desta história, os seus próprios pais ausentes e os seus próprios amores não resolvidos e as suas próprias reconciliações que nunca tinham chegado ou que tinham chegado tarde demais.

Ver Gonzagão e Gonzaguinha no mesmo palco era ver representado algo que o Brasil coletivo carregava por dentro e raramente via convertido em imagem pública, num espetáculo que validava a dor privada de milhões de pessoas que nunca tinham conseguido dizer ao pai o que o Gonzaguinha disse ao seu em Exu. Gonzaguinha voltou daquela tour sendo uma pessoa diferente, mais tranquilo, segundo quem o conhecia, com uma raiva que ainda existia, mas que já não era o motor central de tudo o que fazia.

A diferença entre o Gonzaguinha dos anos 1970 e o dos anos 80 é percetível na música, nas letras, na forma como fala da própria vida nas entrevistas. gravou entre 1980 e 1989 alguns dos seus discos mais importantes e vamos à luta com a perna no mundo revisitado com a perspetiva dos anos. álbuns onde a raiva política ainda estava presente, mas onde também havia espaço para canções de amor, para boleros, para O que é O, que estreou em 1980 no Festival MPB da TV Globo e que conquistou o segundo lugar num festival onde o primeiro lugar já não interessa,

porque a segunda colocação foi suficiente para a transformar em hino de uma geração. A letra de o que é, o que é, fala de uma forma tão precisa sobre a condição humana, sobre o que significa viver com tudo o que viver, implica de amor e de dor e de luta, que o Brasil inteiro a adotou como se cada um a tivesse escrito individualmente.

Isso não se compra. Este não se constrói em estúdio com os melhores produtores do mundo. Isto sai de alguém que viveu algo real e encontrou a forma de transformá-lo em linguagem universal. Elis Regina escolheu as suas canções para gravá-las e esse reconhecimento no O Brasil da época valia mais do que qualquer prémio ou distinção formal que a indústria pudesse entregar.

Quando gravavam uma canção, era porque esta canção tinha algo de verdadeiro e extraordinário. Ponto. Maria Betânia também. A Simone também. O Grêmio das grandes intérpretes brasileiras o havia adotado como um dos seus e que era um tipo de legitimidade que não necessitava de nenhum outro respaldo. Luiz Gonzaga faleceu a 2 de agosto de 1989 no Hospital Santa Joana do Recife aos 76 anos, vítima de complicações derivadas da osteoporose que o tinha deteriorado durante os últimos anos de vida.

Antes de morrer, tinha composto algumas músicas juntamente com o filho, tinha viajado com ele pelo país, tinha tido conversas que durante décadas tinham sido impossíveis. morreu sabendo que o filho o tinha procurado em Exu, quando ainda era tempo de o procurar, que tinha gravado 20 horas de conversas porque queria saber quem era aquele homem antes que não pudesse mais perguntar nada, que o tinha perdoado não da forma fácil de quem faz as pazes para evitar o desconforto, mas da forma difícil de quem realmente compreende e decide que compreende. Isso

é também uma forma de amor, mesmo que venha disfarçado de raiva durante a maior parte do caminho. E aqui vem o momento mais negro desta história. O que talvez esperasse, mas que dói da mesma forma mesmo quando se espera. O luto de Gonzaguinha não foi simples nem ordenado. A decisão de levar o corpo diretamente a Exu para o enterro, saltando o velório em Juazeiro do Norte, onde muita gente esperava despedir-se do rei do baião, foi lida como uma falta de respeito por quem lá estava à espera.

Gonzaguinha tornou-se persona não grata em Juazeiro do Norte por esta decisão. Um título que carregou sem grande angústia, porque nunca foi alguém que tomasse decisões pensando em como ficavam publicamente. Gonzaga foi sepultado em Exu, na terra vermelha do sertão, onde nascera, onde o mestre Januário ensinara-lhe os primeiros acordes, onde tudo tinha começado e onde tudo o que lhe estava relacionado tinha a sua origem mais profunda.

Gonzaguinha voltou a Belo Horizonte, onde vivia com a sua segunda mulher, Luíse e Margarete Martins, a quem todos chamavam Lelete, e com a sua filha mais nova, Mariana. Tinha 43 anos. tinha uma carreira sólida e reconhecida, um selo fonográfico próprio que havia fundado em 1986 exatamente para não depender de ninguém numa indústria que tinha visto tratar o pai com uma crueldade de mercado que não queria experimentar por conta própria.

As suas canções haviam sido gravadas por Elis Regina, por Simone e por Maria Betânia, que é a forma como o Brasil reconhece que um compositor é extraordinário quando as melhores vozes do país querem cantar o que ele escreve. O que é? O que é? Era uma daquelas canções que se instalam no ADN coletivo de uma nação e nunca saem.

continuava a percorrer o Brasil, que é o que os Gonzaga pareciam condenados a fazer, andar por este imenso país cantando para gente que os esperava em cada cidade do norte para o sul. Tinha também uma filha mais velha, Flávia, de um relacionamento anterior. A paternidade o tinha colocado diante de perguntas a que só podia responder olhando para a própria infância.

Que tipo de pai queria ser? Que tipo de presença? As pessoas que o conheciam falam de alguém extraordinariamente presente com os filhos, que ligava de cada cidade em que estava em digressão. A ferida da infância tinha produzido, neste aspecto a reacção oposta ao dano recebido. Esta é a quarta revelação e também a mais cruel das quatro, a que fecha o círculo dessa história de uma forma que o destino não tinha qualquer obrigação de escolher, mas escolheu-se a si mesmo.

Em 28 de abril de 1991, subiu ao palco do Clube Pinheiros de Pato Branco, no estado do Paraná, no sul profundo do Brasil. Era um domingo. Cantou para um público que o recebeu com o carinho de sempre, aquele carinho que se constrói durante anos de dar às pessoas canções que realmente importam. Antes de sair do hotel rumo ao concerto, tinha conversado com os funcionários com a simpatia natural de quem não esqueceu de onde veio.

Disse que estava com saudades de estar com a família em Belo Horizonte. No quarto tinha deixado cartas, cartões e bilhetinhos para quem amava. recordações das cidades por onde tinha passado naquela digressão. Essa forma tão particular de manter o vínculo com quem está longe quando o trabalho obriga a estar sempre em movimento, a ser sempre um viajante, assim como o pai tinha sido antes dele.

Na manhã seguinte ao espetáculo, segunda-feira, 29 de abril de 1991, Gonzaguinha acordou cedo. Precisava chegar a Foz do Iguaçu para apanhar um avião para Florianópolis, onde tinha outro espetáculo marcado. O caminho entre o Pato Branco e Foz do Iguaçu passa pela PR280, uma estrada que atravessa o sudoeste do Paraná entre campos abertos e pequenas cidades.

Uma estrada como tantas do Brasil profundo que os artistas em digressão conhecem de cor porque passaram por elas centenas de vezes sem que acontecesse nada, acumulando quilómetros com a indiferença de quem já não os conta, porque o caminho é sempre o mesmo. Saiu do hotel com o seu empresário Renato Manuel Duarte.

e com Aristides Pereira da Silva. Antes de partir, tirou fotografias com os funcionários do hotel, assinou os últimos autógrafos da sua vida. O Divalmir Rodrigues Júnior, empresário do hotel, ainda se encontra guardado numa pequena moldura no lobby do Província, naquele pato branco que ficou marcado para sempre pelo que aconteceu nessa manhã.

É provável que Gonzaguinha não estivesse pensando nada de especial naquele momento, que estivesse a pensar no espetáculo de Florianópolis, na família em Belo Horizonte, em Lelete e em Mariana e nas cartas que tinha deixado no quarto do hotel para quem amava. No qum 181 da PR280, entre os concelhos de Marmeleiro e Renascença, às 7:20 da manhã do dia 29 de Abril de 1991, o Mons Bord que Gonzaguinha conduzia colidiu de frente contra uma carrinha Ford F4000, que naquele momento realizava uma conversão à esquerda para

entrar numa estrada vicinal. Segundo as versões da polícia, o sol da manhã naquela direção da estrada, naquele horário, pode ter dificultado a visão do condutor da carrinha no momento crítico da manobra. O impacto foi violento e fulminante. Não houve tempo para travar. Não houve tempo para nada. O O dentista Eduardo Cireia passava por aquele troço quando o acidente havia acabado de acontecer.

A polícia já estava no local. Cireia parou. Observou um polícia a revistar uma pochete, à procura de documentos de identidade. No interior [música] estavam 19 notas e um documento. O polícia disse em voz baixa o queia conseguiu ouvir. Esse morreu na hora. O documento pertencia a Luís Gonzaga do Nascimento Júnior. Gonzaguinha tinha 45 anos.

Havia subido a um palco pela última vez 14 horas antes. Tinha assinado o último autógrafo há menos de uma hora. havia dito que estava com saudades de estar com a família. O corpo foi trasladado de avião até Belo Horizonte, onde o esperavam os que o tinham acompanhado nos últimos anos da sua vida. Renato Manuel Duarte sobreviveu ao acidente gravemente ferido.

Aristides Pereira da Silva também. O carro ficou destruído naquele troço da PR280 que ninguém escolheu para ser o cenário de nenhum fim. E o hotel, província de Pato Branco, guardou durante dias as cartas e os cartões que Gonzaguinha tinha deixados no quarto, escritos para pessoas que os esperavam e que nunca os receberiam da sua mão.

A questão da paternidade biológica, aquela que pairava sobre os dois durante décadas, continua sendo oficialmente um mistério sem resposta. Os herdeiros descartaram a possibilidade de fazer um teste de ADN depois da morte de ambos. A pergunta genética ficou em aberto, mas o que ficou fechado, ou pelo menos resolvido da única forma que conta foi outra coisa.

Gonzagão disse ao filho que ele era o melhor da sua vida. E Gonzaguinha fez a viagem até Exu para o ir buscar quando ainda era tempo de o ir buscar. Isso é o que ficou. E que, embora não seja tudo, é suficiente para saber que a história não terminou apenas com sangue numa estrada do Paraná. O legado que os dois deixaram juntos é um daqueles casos em que dois artistas separados não somam, mas multiplicam-se, porque as suas histórias são indissociáveis ​​no fundo.

Luís Gonzaga colocou o Nordeste no mapa cultural do Brasil com uma força que não tem equivalente em nenhuma outra figura da sua geração. Asa Branca é a segunda canção mais conhecida do país, superada apenas por Carinhoso de Pxinguinha. foi recuperado e reclamado pelo tropicalismo de Gilberto Gil e Caetano Veloso nos anos 1960, que o reconheceram como um precursor que tinha entendido antes de todos que a força da música brasileira estava em as suas raízes e não na imitação do que chegava de fora. E essa reivindicação o

devolveu ao público jovem que tinha crescido sem o conhecer. A sua imagem, o vaqueiro nordestino com chapéu de couro e acordeão, é uma das imagens mais reconhecíveis da cultura popular brasileira do século XX. Quando o Brasil quer falar do Nordeste, da seca, da migração, da identidade que persiste na diáspora, recorre a Gonzagão, porque este foi quem encontrou o idioma musical para dizer tudo isto antes que qualquer outro.

Gonzaguinha, por sua vez, deixou uma obra que vai desde a canção de protesto político ao bolero de amor, com composições gravadas pelas melhores vozes da MPB e que continuam a ser interpretadas hoje por artistas de gerações que não chegaram a conhecê-lo em vida. As suas letras têm aquela coisa rara da grande poesia popular. são completamente específicas no contexto do O Brasil do seu tempo e ao mesmo tempo completamente universais no que dizem sobre a condição humana.

O que é, o que é ainda é uma das perguntas mais bonitas que a música brasileira já fez a si mesma. O que é a vida? O que significa viver? O que fica quando tudo passa? A pergunta que Gonzaguinha fez a um microfone e que todo o Brasil absorveu como se fosse sua desde o primeiro dia em que a ouviu, como se estivessem à espera dela sem saber.

O Clube Pinheiros de Pato Branco deu o nome de Gonzaguinha ao seu palco principal, que é a forma como as cidades brasileiras guardam os que passaram por elas uma vez e não voltaram. Em 2012, 21 anos depois do acidente, o realizador Breno Silveira estreou Gonzaga de pai para filho, que levou mais de 1.300.

000 pessoas aos cinemas do Brasil. Breno Silveira tinha demorado 7 anos para conseguir tirar o projeto do papel, enfrentando a desconfiança de quem achava que a história era complexa demais para um ecrã comercial, que os dois protagonistas eram contraditórios demasiado para que o público os amasse sem reservas, que a ambiguidade da A paternidade biológica era um dado demasiado incómodo para se manejar num filme de entretenimento familiar.

Demorou porque a história precisava de ser contada com cuidado, sem simplificar o que era complexo, nem resolver artificialmente o que não tinha sido completamente resolvido. E o resultado foi um filme que o Brasil de 2012 recebeu como se estivesse à espera de -lo desde 1991. Um êxito que tocou algo universal que o Brasil reconheceu de imediato.

A história de um pai que não sabia como ficar e de um filho que não sabia como perdoar. E os dois juntos tentando construir demasiado tarde e sem manual, algo que se assemelhasse à família que nunca tinham tido e que talvez nunca pudessem ter completamente, mas que valia a pena tentar de qualquer maneira. Há algo nesta história que ainda hoje provoca uma raiva tranquila e uma dor que não desaparece completamente quando -lhe a pensar.

Não é a raiva da injustiça ruidosa, mas a das oportunidades desperdiçadas, a dos anos que não voltam, a do tempo que escorrega, enquanto duas pessoas se olham dos extremos do ressentimento e do orgulho, sem conseguir dar o passo que as aproximaria. Gonzaguinha passou 2/3 da existência correndo atrás do pai, querendo que ele o reconhecesse de verdade, construindo uma carreira artística que, em parte era um grito dirigido a um só homem.

E quando finalmente encontraram a forma de existir um com o outro sem se destruir, o tempo que lhes restava foi mínimo, um ano e 9 meses entre a morte de Gonzagão e o acidente na PR280. A vida não é justa para com os que precisam aprender tudo tarde. E aqui entra algo que muito pouca gente considera quando pensa nessa história.

O facto de os dois Gonzagas encontraram-se de verdade, de que houve uma reconciliação real e não apenas a aparência pública de uma reconciliação significa que Gonzaguinha morreu sem o fardo do ódio intacto. Morreu tendo dito o que lhe faltava dizer, tendo ouvido o que precisava de ouvir, tendo gravado 20 horas de conversas com o pai.

Porque queria que a voz daquele homem existisse para sempre, mesmo que o homem já não estivesse. Isso não apaga o acidente, nem torna a perda menos brutal, mas significa que a história dos dois Gonzaga, por mais dor que contenha, não é apenas uma história de destruição e de feridas que nunca fecharam. É também a história de duas pessoas que encontraram a forma, muito à última hora, mas encontraram, de se dizer o que é preciso dizer quando o tempo ainda o permite.

Isso deveria nos dar algo em que pensar, não como moral barata, nem como lição de autoajuda que esquece-se em 5 minutos, mas como questão concreta. Com quem temos em a nossa própria vida aquela conversa pendente que fomos adiando? Porque parece sempre que há tempo, porque parece que o desconforto do momento vale mais do que a possibilidade do que poderia vir mais tarde.

Os dois Gonzaga esperaram décadas para ter a sua e quando tiveram, o tempo que lhes restava para aproveitar o que tinham construído foi mínimo. É isso que faz a PR280 doer tanto. Não só o acidente em si, mas tudo o que o acidente interrompeu exatamente quando tinha começado a ser algo diferente. Quando ouve asa branca hoje, quando aquela melodia abre com a concertina e a voz de Gonzagão canta sobre a seca que levou os animais e que fez o sertão pegar fogo e que o obrigou a partir da sua terra, há algo nesta canção que toca um lugar que vai para além da

música folclórica. Porque agora você sabe que por detrás do rei do baião havia um homem que não soube ficar quando precisava de ficar e que pagou por isso com décadas de um relacionamento partido que teve de reconstruir quase do zero quando já era velho e o filho era adulto e o tempo era cada vez mais escasso para os dois.

A canção fala de um homem que deixa a sua terra porque a seca não lhe dá outra opção, que promete voltar quando chover, quando o verde do sertão florescer de novo. Mas agora já sabe também que Gonzagão era especialista em partir e que o problema de partir quando tem um filho é que o filho não pode esperar que as chuvas cheguem para o pai voltar. O filho cresce enquanto espera.

E o que cresce neste tempo de espera nem é sempre o que o pai imagina. E quando ouve-se o que é, o que é aquela enorme pergunta que Gonzaguinha fez à vida, aquela canção que diz que viver é lutar por aquilo que vale a pena, que é sofrer e amar. E não pode ser tudo ao mesmo tempo, sabe que aquela letra foi escrita por alguém que teve de se responder a perguntas muito difíceis a vida toda.

O que era ele sem a mãe, que faleceu quando tinha 2 anos e meio sem que ele pudesse fazer alguma coisa para o evitar? o que era sem o pai, que estava vivo, mas ausente durante décadas, por razões que conseguia compreender, mas não conseguia perdoar com facilidade. O que era tudo isso junto? A vida, o amor, o ódio, a raiva que se transforma em canção quando não tem mais nenhum outro lugar para ir.

O perdão que chega tarde, mas chega de qualquer forma para os que têm coragem de ir buscá-lo em vez de esperar que ele apareça sozinho. A dinastia dos Gonzaga ficou truncada em 29 de Abril de 1991, numa estrada do Paraná que ninguém escolheu para ser o cenário de nenhum fim. Ficou uma família. Ficaram as canções dos dois, que continuam a ser ouvidas por milhões de pessoas que não viveram os anos em que foram gravadas e que as descobrem hoje com a mesma surpresa de quem encontra algo verdadeiro num mundo cheio de coisas

fabricadas. Ficaram 20 horas de gravações em que um filho que tinha crescido entre o amor e o ódio ao pai o ouvia falar durante horas sobre a própria vida, com a paciência e a curiosidade de quem tinha finalmente decidido que queria saber antes que já não fosse mais possível perguntar. Ficou o filme de Breno Silveira que mais de um milhão de brasileiros viram no cinema e que mais milhões viram depois na televisão e nos serviços de streaming, chorando no mesmo local no momento em que pai e filho se abraçam em palco e o

público do espetáculo chora também porque reconhece naquele abraço algo que lhe pertence. E ficou sobretudo a prova de que o perdão é possível mesmo quando parece que já não há tempo. Embora depois o tempo se mostre igualmente escasso. E embora o destino não tenha nenhuma consideração especial por quem acabou de fechar feridas que estavam abertas há décadas.

Por vezes o tempo é suficiente apenas para o essencial. E o essencial nesta história foi dito.

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