O Capitão Inglês Recusou Cumprimentar Pelé Antes do Jogo. No Apito Final, Foi Ele Quem o Abraçou

O capitão inglês parado no centro do campo do Wembley não sabia o que tinha acabado de fazer. Os outros 100.000 adeptos que enchiam aquele estádio em Londres também não sabiam. Só seis pessoas naquele estádio entendiam o que significava recusar cumprimentar Pelé antes de um jogo por causa da cor da sua pele. E nenhuma delas era inglesa.

Ninguém imaginava que 90 minutos depois esse mesmo capitão pararia o jogo no meio de uma jogada. Levantaria a mão, pedindo ao árbitro para esperar, caminharia até Pelé e abraçá-lo-ia na frente de toda a Inglaterra, não com pena, não com culpa, com respeito conquistado da única forma que importava em campo.

Aconteceu a 10 de Fevereiro de 1963 e esta é a história que ninguém contou direito. Não foi mal entendido, não foi momento de tensão, não foi um acidente protocolar, foi uma recusa deliberada, filmada, testemunhada por 100.000 pessoas, de apertar a mão a um jogador negro antes de um jogo amigável entre Inglaterra e Brasil. Nada na carreira de Bob Thompson fazia pensar que acabaria assim.

tinha 28 anos, era capitão da seleção inglesa, tinha jogado três Campeonatos do Mundo, era respeitado, era líder, era o tipo de jogador que a imprensa inglesa chamava de verdadeiro cavalheiro do futebol. Mas naquela tarde fria de Fevereiro, ele cometeu o erro que o perseguiria pelos próximos 90 minutos e que o mudaria para sempre.

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A partir daqui a história avança lentamente. Tudo o que aconteceu naqueles 90 minutos precisa ser contado sem pressa. Porque há questões a que só esta história responde. Quantas vezes Pelé teve de provar a sua humanidade antes que o talento falasse mais alto que a cor da pele? [pigarreia] Em que momento um homem se apercebe que o preconceito que carregou toda a vida não é força, mas fraqueza? Qual o custo de reconhecer publicamente que estava errado sobre alguém que julgou antes mesmo de conhecer? Estamos em Londres, a 10 de fevereiro de

1963 Não há câmaras em todos os ângulos. Não há redes sociais. Não há replay imediato. A BBC filmava com três câmaras fixas. O que acontecia em campo ou ficava registado na memória de quem lá estava ou desaparecia para sempre. Pelé tinha 22 anos, 3 anos de Mundial, mais de 400 golos, reconhecido no mundo inteiro, menos em Inglaterra, porque na Inglaterra o futebol era ainda branco e quem não era tinha de provar três vezes mais que merecia estar ali.

Bobby Thompson tinha certezas. Certeza que O futebol inglês era superior, certeza que a disciplina valia mais do que o talento e certeza que não ia apertar a mão a um jogador negro antes de um jogo. Não porque detestasse, mas porque foi criado assim e nunca questionou. Mas naquela tarde, Thompson descobriu que as certezas não sobrevivem a 90 minutos contra Pelé.

A delegação brasileira desembarcou no aeroporto de Hathrow às 14 horas do dia 8 de fevereiro de 1963, numa sexta-feira gelada. O céu de Londres estava cinzento, carregado, com aquele frio húmido que entra pelos ossos. Pelé desceu do avião da Varigue utilizando sobretudo castanho, cachicol branco e uma mala de couro na mão.

Tinha 22 anos e já carregava três temporadas de Taça do Mundo no currículo. Mas quando pisou solo inglês, sentiu algo diferente. Não foi a recepção fria da imprensa, nem o clima gelado. Foi o olhar. O olhar de quem olha, mas não vê. De quem reconhece o nome, mas não reconhece a pessoa. De quem sabe quem é, mas decide conscientemente que não importa tanto como os outros.

Havia jornalistas ingleses à espera, uns 15, não muitos. estavam ali mais por obrigação do que por interesse. Um deles, do Daily Mail, aproximou-se com o bloco de notas na mão. Perguntou algo em inglês demasiado rápido. Pelé não percebeu bem, sorriu educadamente, acenou. O jornalista anotou alguma coisa e foi-se embora.

não insistiu, não fez segunda questão, apenas foi. Coutinho estava ao lado, tinha 27 anos, jogava no Santos com Pelé desde 1958. Conhecia bem aquele olhar. Já tinha visto noutras excursões pela Europa. Percebeu também? Disse baixo, só para Pelé ouvir. Aqui é diferente, Pelé. Aqui vamos ter que provar tudo de novo. Pelé não respondeu, apenas acenou com a cabeça e seguiu para o autocarro que os levaria ao hotel.

O autocarro era um layand vermelho de dois andares, adaptado para delegação. Cheirava a diesel e a couro velho. Os bancos eram duros, estofados em tecido castanho. Pelé sentou-se à janela, Coutinho ao lado, Garrincha, três filas atrás, Didi à frente, à conversa com o técnico Aimoré Moreira.

O trajeto até ao hotel durou 40 minutos. Pelé olhou pela janela o tempo todo, vendo Londres passar, edifícios de tijolo vermelho, céu baixo, pessoas de sobretudo andando rápido nos passeios, carros pretos, tudo muito organizado, muito limpo, muito diferente de Santos, muito diferente do Brasil. Sentia algo no ar, não conseguia nomear.

Não era hostilidade aberta, era algo mais subtil. Era a sensação de não ser bem-vindo, de estar a ser tolerado, não recebido, de estar ali porque o protocolo exigia, não porque alguém realmente o queria. No hotel, a recepcionista cumprimentou o delegação com o ensino profissional. sorriu, entregou as chaves, indicou os quartos, mas quando Pelé se aproximou do balcão para lhe tirar a chave, ela hesitou apenas meio segundo.

Olhou para ele, olhou para o livro de reservas, olhou de novo, depois entregou a chave sem sorrir, sem dizer nada para além do número do quarto. Pelé pegou na chave, quarto 412. subiu com Coutinho. O quarto era pequeno, duas camas de solteiro, um armário de madeira escura, uma janela que dava para a rua, cheiro a mofo e sabonete.

Pelé largou a mala na cama, sentou-se, olhou para as próprias mãos. Coutinho sentou-se na outra cama, ficou em silêncio. Sabia que não precisava de dizer nada. Passados ​​alguns minutos, Pelé levantou-se, disse: “Vou tomar banho.” Coutinho disse: “Depois descemos para jantar”. Pelé acenou, entrou na casa de banho, fechou a porta, ficou parado debaixo do duche durante 15 minutos, a água quente escorrendo, lavando o frio, lavando o cansaço da viagem, lavando aquela sensação de não pertença que colava na pele.

Sabia que no dia seguinte, no jantar oficial seria pior e estava certo. Na noite de 9 de fevereiro, véspera [pigarreia] do jogo, houve um jantar oficial no Hotel Savoi, um dos mais tradicionais hotéis de Londres. Cinco estrelas. Luxo discreto, salão de festas com candelabros de cristal, mesas redondas cobertas com toalhas brancas engomadas, talheres de prata, taças de cristal.

Cheirava a perfume caro e charuto. Delegação brasileira, delegação inglesa, dirigentes da FA. imprensa, cerca de 200 pessoas. Pelé estava sentado na mesa sete, longe da mesa principal. A mesa principal era a número um no centro do salão, elevada cerca de 10 cm acima das outras. Lá estavam os dirigentes da EFA, o técnico inglês Alf Ramsey, o capitão Bobby Thompson, alguns jogadores ingleses titulares e dirigentes da CBD.

Bob Thompson estava à direita de Ramsey, tinha 28 anos, cabelo loiro penteado pro lado, rosto anguloso, olhos azuis, usava fato cinzento, gravata azul marinha, postura ereta, educação irrepreensível. O tipo de inglês que a Inglaterra gostava de mostrar ao mundo. Pelé estava na mesa sete com Coutinho, Pep Zito e mais três jogadores brasileiros.

Mesa afastada, longe dos holofotes, longe das câmaras, como se fossem convidados de segunda classe. Durante todo o jantar, dirigentes ingleses circularam pelas mesas, cumprimentando, conversando, fazendo política. Passaram pela mesa de Didi, pararam, conversaram, riram, apertaram mãos, passaram pela mesa de garrincha, pararam, fizeram perguntas, tiraram uma fotografia, passaram pela mesa de Newton Santos, pararam, elogiaram a Taça de 58, recordaram a final.

Quando passaram pela mesa de Pelé, cumprimentaram com um aceno educado, sorriram de protocolo e seguiram. Não pararam, não conversaram, não fizeram perguntas, apenas acenaram, como se ele fosse apenas mais um, como se o nome não tivesse importância quando a pele era negra. Pelé comeu em silêncio, sopa de legumes, rosbef, batatas, pudim.

Não reclamou, não fez cena, não disse nada aos companheiros, mas guardou. Guardou cada olhar que passou por ele sem parar. Guardou cada aceno frio que não virou conversa. Guardou cada cumprimento que não veio. Coutinho apercebeu-se, tentou meter conversa sobre o jogo do dia seguinte. Pelé respondia com monossílabos. Sim, não. Talvez.

Não tinha vontade de falar. só queria que aquele jantar terminasse. E quando terminou, às 22 horas, Pelé foi o primeiro a levantar-se da mesa e subir para o quarto. Mas a noite ainda não tinha acabado porque às 22:30 Bobby Thompson subia ao quinto andar do hotel, ia para o quarto do técnico Alf Ramsey. Tinha sido convocado.

Ramsey queria conversa particular com o capitão. Depois do jantar, Bobby Thompson subiu pro quarto do treinador Alf Ramsey no quinto piso do hotel. Bateu à porta. Ramsey abriu. Estava de calças de pijama e camisa branca, gravata desapertada, cabelo grisalho despenteado. Tinha 43 anos. Era treinador da seleção inglesa desde 1962 e tinha uma filosofia, disciplina acima de tudo.

O quarto era maior que o dos jogadores, cama de casal, secretária de madeira, poltrona de couro. Ramsey indicou a poltrona a Thompson e sentou-se na beira da cama. Acendeu um cigarro, deu duas passas, depois falou: “Amanhã é um jogo amigável, mas não Quero que o trate como um amigável. Os brasileiros vêm aqui para nos humilhar. Vem mostrar que o futebol deles é superior e não o é.

É bonito, é vistoso, mas não é eficiente. Não ganha taça jogando bonito, ganha com disciplina. E é isso que você, como capitão, precisa passar para a equipa. Thompson ouvia em silêncio, sentado na poltrona, mãos nos joelhos, postura ereta. Ramsey continuou. No cumprimento antes do jogo, seja firme, seja educado, porque a imprensa vai estar a olhar.

Mas deixe claro que não são bem-vindos aqui, que estão em Wembley, na nossa casa, e que aqui se joga à nossa maneira. Thompson franziu a testa, perguntou: “Como assim deixar claro?” Ramsey deu mais uma passa, soltou o fumo devagar, olhou Thompson nos olhos e disse: “Use o seu julgamento. Sabe quem merece respeito e quem não merece.

” Thompson compreendeu ou achou que entendeu. Sabia o que Ramsey estava dizendo sem dizer. Sabia que Ramsey não ia falar abertamente, mas sabia que existia uma hierarquia não escrita, uma ordem natural das coisas. E por esta ordem, jogadores brancos vinham primeiro. Os jogadores negros tinham que provar mais, ter mais paciência, aceitar menos.

Thompson tinha sido criado assim numa Inglaterra de 1930 numa família de classe média de Liverpool. Pai trabalhava no porto, mãe era doméstica, seis irmãos, casa pequena, educação rígida, respeito pela hierarquia, cada um no seu lugar. Pretos faziam trabalho manual, brancos comandavam. Não era ódio, era apenas a forma como as coisas eram.

Ninguém questionava e Thompson nunca tinha questionado até àquele momento. Quando saiu do quarto de Ramsey às 23 horas, Thompson voltou para o próprio quarto. Deitou-se, ficou a olhar para o teto, pensando naquilo que o técnico tinha dito, pensando no que ia fazer no dia seguinte, pensando se estava certo.

Mas a dúvida durou pouco, porque no fundo Thompson acreditava que estava a fazer o certo. Estava a defender a sua terra, estava mostrando quem mandava, estava a colocar as coisas no lugar. Dormiu tranquilamente, acordou às 8 horas, tomou café, desceu para almoço com o time. Concentração às 13 horas, saída para o estádio às 13:30, chegada a Wembley às 14h15.

O jogo estava marcado para começar às 15 horas. Às 14:30, as duas equipas estavam nos vestiários. Inglaterra de um lado, Brasil do outro. Pelé estava sentado no canto direito do balneário brasileiro. Sempre se sentava ali. Chuteiras atadas, meias puxadas, camisola amarela da seleção com o número 10 nas costas.

Aimoré Moreira, o técnico, passou as instruções. Falou sobre a marcação, sobre saída de bola, sobrestimar a Inglaterra, mas Pelé não ouvia. estava com a cabeça noutro lugar, pensando no jantar, nos olhares, nos cumprimentos que não vieram, guardando tudo, transformando-se em combustível. Às 14:50, o árbitro bateu à porta, avisou que era hora.

As equipas saíram dos vestiários, entraram no túnel, Inglaterra de vermelho, Brasil de amarelo, lado a lado, sem trocar uma palavra. sem olhar um para o outro. Às 14:55, as duas equipas posicionaram-se no centro do campo para foto oficial e cumprimento. O relvado do Wembley estava perfeito. Verde uniforme, relva cortada curto, linhas brancas bem marcadas, céu nublado, frio de 8º, 100.

000 mil pessoas nas bancadas, bandeiras inglesas esvoaçante, barulho ensurdecedor. Pelé estava na ponta da fila brasileira do lado esquerdo, Bob Thompson na ponta da fila inglesa. Do lado direito, os dois iam encontrar-se no meio. O protocolo era simples. Tinha sido assim em todos os jogos que Pelé tinha participado. Os dois capitães cumprimentavam-se primeiro, apertavam a mão, trocavam flâmulas, posavam para a foto.

Depois, cada jogador cumprimentava o adversário que tinha à sua frente. Aperto de mão, rápido, educado, protocolar. Pelé estendeu a mão, olhou Thompson para os olhos, à espera do aperto. Thomson olhou para a mão estendida, olhou para o rosto de Pelé, hesitou dois segundos e passou direto. Virou ligeiramente o corpo, ignorou a mão estendida e cumprimentou Didi, que estava atrás de Pelé.

Pelé ficou com a mão estendida no ar durante três segundos, olhando Thompson afastar-se, processando o que tinha acabado de acontecer. Não em câmara lenta, em tempo real, rápido, brutal, público. Baixou a mão lentamente, não disse nada, não fez escândalo. Não chamou o árbitro, não se queixou, apenas olhou Thompson afastar-se, cumprimentando os outros jogadores brasileiros.

sorridente, educado, protocolar, como se nada tivesse acontecido. Coutinho viu, estava dois jogadores atrás de Pelé, viu tudo. Garrincha viu, O Didi viu, o Nilton Santos viu, ninguém disse nada, mas todos sentiram. Sentiram a humilhação, sentiram o desrespeito, sentiram a raiva a subir. Pelé voltou paraa posição, respirou fundo, olhou para o chão, depois olhou para a baliza da Inglaterra e decidiu.

Decidiu que ia responder, não com palavras, não com queixa, não com processo, com futebol, da única forma que importava, da única forma que Thompson ia perceber. O árbitro apitou. O jogo começou e Pelé começou a responder não com palavras, com futebol, com cada toque, com cada movimento, com cada decisão, transformando a humilhação em superioridade, transformando a dor em génio, transformando o desrespeito em lição.

Aos 3 minutos de jogo, Pelé recebeu a bola na intermediária. O Didi tinha tocado para ele. Pelé dominou de costas. Thompson veio marcar. Chegou forte. Pelé rodou, deixou a bola passar entre as pernas dele. Caneta. Thompson ficou parado, sem reação. Pelé acelerou, tocou para Garrincha na direita. Garrincha cruzou, a defesa cortou.

Aos 7 minutos, Pelé recebeu de novo, desta vez mais à frente. Zona de três quartos. Thomson a marcar de perto. Pelé fingiu que ia para a esquerda. Thompson acompanhou. Pelé cortou para a direita, deixou Thompson desequilibrado. Finalizou de fora da área, a bola passou perto para fora, mas foi finalização forte, bem colocada. Aviso.

Aos 12 minutos, surgiu o primeiro golo. Zito recuperou a bola a meio-campo, tocou para o Didi. Didi lançou Pelé nas costas da defesa inglesa. Pelé arrancou. Thompson tentou acompanhar, não conseguiu. Pelé era mais rápido, mais explosivo. Entrou na área. Thompson chegou por trás, tentou travar. Pelé cortou para o lado, deixou Thompson sentado no chão, literalmente sentado, caído de cu na relva.

Pelé cruzou o rasteiro. Vavá chegou a finalizar de primeira. Golo! 1-0. Wembley ficou em silêncio. 100.000 pessoas caladas, processando, não acreditando. Thompson levantou-se lentamente, limpou a grama do calção vermelho, não olhou para Pelé, não conseguia. Mas sentiu. Sentiu que tinha acordado algo que não deveria ter acordado.

Sentiu que aquilo não era só jogo, era resposta, era um ajuste de contas. O jogo continuou. A Inglaterra tentou pressionar, tocou a bola, criou, mas o Brasil segurava e quando recuperava a bola procurava o Pelé. Sempre. Toda a bola ia para ele por ordem, por decisão coletiva, por justiça. Aos 28 minutos, Pelé marcou.

Coutinho recuperou a bola na esquerda, tocou para Didi. O Didi viu Pelé a pedir, lançou. Pelé dominou no peito. Thompson veio marcar. Pelé rodopiou. Pela terceira vez no jogo, deixou Thompson para trás. Desta vez com uma finta simples. Corpo para a esquerda, bola para a direita. Thompson mordeu, Pelé acelerou, entrou na área, finalizou cruzado no canto direito, sem hipóteses para o guarda-redes. 2-0.

Pelé não festejou, não abriu os braços, não gritou, não correu, apenas virou. Olhou para Thompson. 3 segundos. Thompson olhou de volta. Pela primeira vez olhou de verdade e viu algo nos olhos de Pelé que o fez engolir seco. Não era raiva, não era ódio, era pena. Como se Pelé estivesse a olhar para uma criança que não compreende o que fez de errado.

Como se estivesse a dizer sem palavras, julgaste-me. Agora aguenta. Wembley continuava em silêncio. A adeptos ingleses não sabiam como reagir. Estavam a ver o melhor jogador do mundo destruindo a sua defesa, mas não conseguiam aplaudir porque Pelé não era deles. Porque Pelé era diferente, porque Pelé não se enquadrava naquilo que achavam que um jogador deveria ser.

O árbitro apitou o intervalo aos 45 minutos. Brasil 2, Inglaterra zero. Pelé tinha participado diretamente nos dois golos, tinha driblado Thompson quatro vezes, tinha finalizado três, tinha mostrado em 45 minutos porque era considerado o melhor do mundo. As equipas caminharam pro vestiário. foi à frente, Thompson atrás, distantes, sem trocar olhares, sem trocar palavras, mas os dois sabendo que algo tinha alterado, que aqueles 45 minutos não eram apenas futebol, eram algo maior.

No intervalo, o balneário brasileiro estava eufórico, jogadores a festejar, a rir. Aimoré Moreira pedindo calma, dizendo que faltavam 45 minutos, que não podia relaxar, mas todos sabiam. Sabiam que o jogo estava ganho. Sabiam que Pelé estava imparável. Sabiam que aquilo não era a sua vitória, era a justiça.

Pelé estava sentado no canto, quieto, a beber água, toalha ao pescoço. Coutinho se aproximou-se, sentou-se ao lado, disse baixinho: “Estás a destruí-lo? Pelé não respondeu, apenas acenou. Coutinho continuou. Mais 45 minutos. Não pára. Pelé olhou para ele e disse também baixinho: “Não vou parar.” Do outro lado do corredor, no balneário inglês, o clima era diferente.

Silêncio pesado, constrangedor. Thompson estava sentado no canto sozinho, não falava com ninguém. Os companheiros comentavam sobre como travar Pelé, tentavam discutir tática, marcação mais forte, dobrar a marcação, jogar mais duro. Alf Ramsey entrou, falou durante 5 minutos, pediu concentração, pediu entrega, pediu que não deixassem os brasileiros fazer mais golos, mas não olhou para Thompson, nem sequer referiu o seu nome, porque sabia, sabia que Thompson estava a ser humilhado, sabia que era consequência da orientação que tinha dado, mas não ia

voltar atrás, não publicamente. Thompson ouvia tudo, mas não processava. Estava a repassar mentalmente os 45 minutos que tinha acabado de jogar. Três dribles sofridos, dois golos de participação direta de Pelé. E pior, a forma como Pelé olhava para ele antes de cada jogada. Não era ódio. Thompson conhecia o ódio.

Tinha jogado contra argentinos raivosos, contra alemães agressivos, contra italianos violentos. Sabia como era quando alguém te odiava em campo, vinha forte, cuspia, praguejava, provocava. Pelé não fazia nada disso. Pelé apenas olhava. E aquele olhar era pior que qualquer insulto, porque era pena. como se Thompson fosse demasiado pequeno para perceber o que estava a acontecer.

E talvez fosse. Pela primeira vez na vida, Bob Thompson questionou-se se o que tinha aprendido sobre o respeito estava errado, se o que pensava que era hierarquia natural era apenas preconceito, se aquilo a que chamava tradição era apenas ignorância, mas era tarde demais para voltar atrás ou não? O árbitro bateu à porta, avisou que faltavam 5 minutos.

Thompson levantou, ajeitou o uniforme, respirou fundo, saiu pro segundo tempo, decidido a pelo menos tentar travar Pelé, tentar recuperar a dignidade, tentar mostrar que não era tão pequeno como o olhar de Pelé dizia que era, mas não conseguiu. O segundo tempo começou às 16 horas. A Inglaterra tentou reagir, pressionou, tocou na bola com mais velocidade.

Finalizou por duas vezes nos primeiros 5 minutos, mas o Brasil segurava e quando recuperava a bola, procurava Pelé de novo, sempre. Aos 12 minutos da segunda tempo, Pelé recebeu na esquerda. Thompson veio marcar, desta vez determinado. Chegou forte, sem medo. Pelé dominou. esperou que Thompson chegasse.

Quando Thompson estava a 1 metro, Pelé fez o movimento, cortou para dentro, deixou Thompson para trás pela quinta vez passou por mais um defesa e tocou para Garrincha, que chegava livre à direita. Garrincha finalizou, golo! 3-0. Thompson parou no meio do campo, mãos na cintura, olhando para o chão.

Não tinha mais nada a fazer, não tinha mais para onde fugir, não tinha mais como esconder. Aos 25 minutos, Pelé fez o seu segundo. Didi lançou. Pelé dominou no peito. Thomson tentou travar. Pelé rodopiou. Pela sexta vez deixou Thompson para trás. Desta vez, com um movimento simples. Um giro do corpo. Nada de espetacular. Nada exagerado, mas eficiente. Letal.

Pelé finalizou rasteiro. Ao canto, golo! 4 a 0. O Wembley estava mudo. 100.000 pessoas a ver a maior goleada que a Inglaterra sofria em casa numa década. Vendo o capitão inglês ser humilhado por um jogador negro. vendo tudo o que achavam que sabiam sobre futebol ser destruído em 70 minutos. Thompson estava destruído. Não fisicamente.

Fisicamente ainda aguentava, mas mentalmente estava acabado. Cada vez que Pelé driblava, não festejava, não provocava, não gritava, não fazia nada, apenas olhava. E aquele olhar dizia tudo: “Julgaste-me sem me conhecer. Você desrespeitou-me sem motivo. Agora aguenta. Agora aprende. Aos 38 minutos da segunda parte, Pelé fez o terceiro dele.

Zagalo lançou bola longa. Pelé arrancou. Thompson tentou acompanhar, não conseguiu. Pelé era mais rápido, sempre foi. Dominou no peito. A bola saltou. Pelé finalizou de vólei. A bola entrou no ângulo. Imparável. 5 a 0. Hat trick. Humilhação completa. Thompson ficou parado, a observar Pelé a festejar com os companheiros.

Pela primeira vez, Pelé festejou, abriu os braços, sorriu, abraçou Coutinho, abraçou Garrincha, porque sabia, sabia que tinha dado a resposta, sabia que tinha provado, sabia que tinha conquistado o respeito dos única forma que importava. E Bob Thompson também sabia. Sabia que tinha sido destruído, sabia que tinha sido humilhado, sabia que tinha errado.

E pela primeira vez na vida, sentiu algo que nunca tinha sentido. Vergonha. Vergonha de ter julgado alguém pela cor da pele. Vergonha de ter recusado um aperto de mão. Vergonha de ter sido pequeno quando podia ter sido grande. O jogo continuou. Faltavam 7 minutos. A Inglaterra já não tinha forças. Brasil apenas administrava, tocava na bola, segurava, aguardando o apito final.

Mas aos 42 minutos da segunda parte, algo aconteceu. Algo que ninguém esperava, algo que mudaria tudo. Aos 42 minutos da segunda parte, com o marcador em 5-0, Pelé recebeu uma bola na intermediária. Zito tinha tocado para ele. Pelé dominou, ia rodar, ia driblar outra vez, ia fazer mais um, porque ainda tinha 4 minutos, ainda dava tempo para marcar mais.

Ainda ia a tempo de aumentar a humilhação, mas Thompson veio marcar, desta vez diferente. Não veio forte, não veio agressivo, veio devagar, quase hesitante, como se não quisesse marcar, como se quisesse fazer outra coisa. Pelé percebeu, olhou. Thompson estava a 3 m a caminhar, não a correr, e tinha a mão levantada, não em direção à Pelé.

em direção ao árbitro. Thompson levantou a mão, pediu ao árbitro para esperar. O árbitro, um suíço chamado Hans Schneider, olhou, não compreendeu. Achou que Thompson estava ferido, apitou, parou o jogo. 100.000 pessoas em silêncio absoluto. Ninguém sabia o que estava a acontecer. Jogadores brasileiros pararam, jogadores ingleses também. Todos a olhar para Thompson.

Todos à espera, Thompson caminhou até Pelé devagar, seis passos, parou na à sua frente, a um metro de distância, olhou nos olhos de Pelé, respirou fundo e estendeu a mão. Pelé olhou para a mão alargada, não entendeu. Olhou pros olhos de Thompson, procurando o sarcasmo, procurando provocação, procurando armadilha. Não encontrou.

Encontrou outra coisa. encontrou vergonha, encontrou arrependimento, encontrou reconhecimento. Thompson disse em inglês autos o suficiente para quem estava perto ouvir. I was wrong, I’m sorry. Eu estava errado. Peço desculpa. Pelé continuou olhando. Três segundos a processar, decidindo. Podia recusar, podia virar as costas, podia fazer com Thomson o que Thompson tinha feito com ele.

Podia humilhar de volta, mas não o fez. estendeu a mão, apertou-a de Thompson com firmeza, sem sorrir, sem perdoar completamente, mas aceitando, aceitando o pedido de desculpas, aceitando o reconhecimento. Thompson não largou a mão, puxou Pelé e abraçou-o no meio do campo, no meio de Wembley, perante 100.

000 1 ingleses em frente das câmaras da BBC, na frente do mundo, reconhecendo publicamente que tinha errado, que tinha julgado mal, que tinha desrespeitado quem não deveria, que tinha sido pequeno quando podia ter sido grande. O abraço durou 5 segundos. Quando o largou, Thompson olhou para Pelé mais uma vez. acenou com a cabeça.

Pelé acenou de volta e os dois voltaram para o jogo. O árbitro apitou, o jogo recomeçou, mas ninguém prestava atenção. Todos ainda a processar o que tinham acabado de ver. Um capitão inglês pedindo desculpas públicas a um jogador brasileiro negro. Em 1963, em Wembley, perante 100.000 pessoas.

3 minutos depois, o árbitro apitou o final. Brasil 5, Inglaterra zero. Maior goleada da Inglaterra em casa em anos. Maior humilhação que o Wembley tinha visto. Mas ninguém falava do placar, todos falavam do abraço. Os Os jogadores brasileiros festejaram, abraçaram o Pelé, levantaram-no nos ombros, deram a volta olímpica. Pelé deixou, pela primeira vez deixou-se carregar, porque sabia que aquela vitória não era só dele, era de todos.

Era de todos os que já tinham sido julgados pela cor da pele. Era de todos os que já tinham tido que provar três vezes mais. era de todos que já tinham sido desrespeitados sem motivo. Do outro lado do campo, Thompson caminhava sozinho para o balneário, cabeça baixa, não de vergonha da derrota, de vergonha do que tinha feito, de vergonha de ter necessitado de levar 5 a 0 para compreender que o respeito não tem cor, mas tinha entendido e isso de alguma forma importava.

No dia seguinte, a imprensa inglesa não sabia como reportar o que tinha acontecido. Estávamos a 11 de fevereiro de 1963, segunda-feira. Os jornais tinham fechado edição às 23 de horas de domingo. Tinham pouco tempo para processar, para compreender, para decidir como contar. O Times, o jornal mais tradicional de Inglaterra, publicado na capa: Inglaterra perde 5 a 0, mas o capitão ganha respeito.

A manchete era ambígua, não explicava como, não explicava porquê, apenas dizia que Thompson tinha ganho respeito, como se perder por 5-0 fosse forma de ganhar alguma coisa. The Guardian, mais progressista, escreveu: “Tompson pede desculpas públicas a Pelé em gestos sem precedentes. Foi mais direto.” Referiu o pedido de desculpas, mencionou o abraço, mas não explicou o que tinha gerado aquilo.

Não referiu a recusa inicial, não explicou o contexto. Diário Mail publicou: “Brasil humilha a Inglaterra com goleada histórica”. Focou-se no marcador, nos golos, na atuação de Pelé. Três golos, três assistências, atuação dominante, mas não referiu o abraço, nem uma linha. O Daily Express foi mais longe, publicou.

Pelé mostra porque é chamado de rei, elogiou, reconheceu, mas também não referiu o abraço, não referiu Thompson, não referiu nada para além do futebol, porque em 1963 em Inglaterra estas coisas não se falavam. O racismo não era tema de jornal, não era assunto de debate público, não era algo que se discutia abertamente, se ignorava, varria-se para debaixo do tapete, se fingia que não existia, mas existia.

E quem lá estava sabia, quem viu sabia. Os 100.000 que estavam em Wembley sabiam. Os jogadores brasileiros sabiam, os jogadores ingleses, sabiam. E Bob Thompson sabia. sabia que aquele abraço não apagava o erro, não desfazia a humilhação, não curava a dor, mas era o início de algo, o início de compreender que o respeito não tem cor, que talento não tem raça, que a humanidade não precisa de pele branca para ser reconhecida.

Nos dias seguintes, Thompson recebeu cartas, centenas, algumas a elogiar, dizendo que tinha sido corajoso, que tinha feito a coisa certa, que tinha mostrado carácter. Outras criticando, dizendo que se tinha rebaixado, que tinha envergonhado a Inglaterra, que tinha dado o braço a torcer aos brasileiros.

Thompson não respondeu nenhuma, apenas guardou, leu todas. E cada uma confirmava o que ele já sabia, que a Inglaterra estava dividida, que metade compreendia, metade não, e que ele quisesse ou não se tornara símbolo de algo maior. Pelé regressou ao Brasil três dias depois, no avião da Varigue, sentado à janela, olhando as nuvens, pensando em tudo o que tinha acontecido, ao jantar, no cumprimento recusado, nos cinco golos, no abraço, em tudo.

Coutinho estava ao lado, perguntou: “Achas que ele mudou?” Pelé não respondeu de imediato, ficou olhando paraa nuvem, pensando, depois disse: “Não sei se ele mudou”. Mas ele percebeu e às vezes é por aí que a mudança começa. Coutinho não perguntou mais nada porque sabia que Pelé tinha razão. Depois do jogo, Pelé foi cercado pela imprensa brasileira no balneário do Wembley.

Repórteres da Rádio Nacional, do Jornal dos esports, da Manchete Desportiva. Todos queriam saber do abraço, sobre Thompson, sobre o que tinha dito, sobre o que Pelé tinha sentido. Pelé estava sentado no banco, chuteiras ainda nos pés, camisola amarela encharcada de suor, toalha ao pescoço, respondeu apenas. Ele pediu desculpa. Eu aceitei. Fim. Um repórter insistiu.

Mas o que sentiu quando ele se recusou-se a cumprimentá-lo antes do jogo? O Pelé olhou para o repórter 3 segundos [ressonando] e disse: “Senti que ia ter que provar de novo e provei.” Outro repórter perguntou: “Acha que isso foi racismo?” Pelé não respondeu, apenas levantou-se, disse que ia tomar banho e saiu.

Não quis falar mais, não quis transformar aquilo numa manchete. Não quis usar a dor para ganhar atenção, não quis ser a vítima porque não o era. Tinha respondido, tinha provado, tinha conquistado respeito e isso bastava. No autocarro de volta para o hotel, Pelé sentou-se ao lado de Coutinho. O autocarro estava em silêncio, todos cansados, todos satisfeitos, todos sabendo que tinham participado em algo maior do que uma simples vitória.

Coutinho olhou para Pelé, perguntou baixo, só para ele ouvir. Você acredita que ele mudou? Pelé olhou pela janela, vendo Londres passar. as luzes da cidade, os edifícios, as pessoas que andam nos passeios, a vida normal de uma cidade que acabara de testemunhar algo extraordinário, sem saber bem o que era, respondeu sem tirar os olhos do janela.

Não sei se ele mudou, mas ele compreendeu. E, por vezes, é por aí que a mudança começa. Coutinho não perguntou mais nada porque sabia que Pelé tinha razão. Sabia que o respeito não se pede, não se exige, se conquista. E Pelé tinha conquistado o respeito de Bobby Thompson da única forma que importava, jogando, mostrando, provando, fazendo o que sempre fez.

sendo melhor, sendo maior, sendo Pelé. No hotel, Pelé subiu para o quarto, tomou banho, deitou-se na cama, ficou a olhar para o teto, repassando tudo na cabeça, o jantar, o cumprimento recusado, os cinco golos, o abraço, tudo. Não sentiu raiva, não sentiu ódio, não sentiu vontade de vingança, sentia apenas cansaço.

Cansaço de ter de provar, de ter de mostrar. de ter de conquistar o respeito três vezes mais do que os outros, mas também sentia algo mais. Sentia que tinha feito a diferença, que aquele jogo, aquele abraço, aquele momento tinha mudado algo, nem que fosse na cabeça de uma pessoa, nem que fosse na cabeça de Bob Thompson. E talvez isso bastasse.

Dormiu cedo, acordou às 8, desceu para o café, comeu pão com manteiga e tomou café com leite. A delegação embarcaria às 14 horas. Vou de volta para o Brasil. Chegada ao Rio no dia seguinte. No aeroporto, alguns jornalistas ingleses estavam à espera. Queriam última declaração, última palavra, última frase. Pelé disse apenas: “Foi uma honra jogar em Wembley.

Obrigado pela hospitalidade”. e entrou no avião, sentou-se à janela, Coutinho ao lado, Garrincha, três filas atrás, Didi à frente. O avião levantou voo às 14:30, sobrevoou Londres. Pelé olhou pela janela, vendo a cidade tornar-se pequena. vendo o Wembley aparecer lá em baixo, pequeno, distante, parte do passado, fechou os olhos, encostou a cabeça à janela e dormiu.

Quando acordou, 6 horas depois estavam a sobrevoar o Atlântico escuro lá fora, apenas nuvens e oceano. Coutinho dormia ao lado. Garrincha ressonava atrás. Pelé ficou acordado, olhando pela janela. pensando, sabendo que voltaria a Inglaterra outras vezes, que jogaria outros jogos, que defrontaria outros adversários, que provaria outras vezes, porque era isso, era sempre isso.

Provar, mostrar, conquistar, três vezes mais, sempre três vezes mais. Mas naquele 10 de Fevereiro de 1963, em Wembley, perante 100.000 1 pessoas. Pelé não teve de provar três vezes, teve de provar uma com cinco golos, com seis dribles, com uma exibição que a Inglaterra jamais esqueceria. E no final conseguiu algo que nenhum resultado consegue dar.

Conseguiu que um homem reconhecesse publicamente que estava errado, que tinha julgado mal, que tinha desrespeitado quem não devia. conseguiu que Bob Thompson baixasse a cabeça, estendesse a mão e pedisse desculpas no meio do campo, perante todos, e isso, de alguma forma valia mais do que qualquer troféu. Não.

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