Matar por companhia: O perturbador “vazio” na mente de Dennis Nilsen
Este gajo aqui matou pelo menos 12 homens dentro do próprio apartamento dele. Guardou os corpos ali durante semanas, alguns até durante meses, conviveu com estes cadáveres, cozinhou parte deles. E não foi a polícia que descobriu tudo isto, foi uma sanita entupida no andar de baixo que desbloqueou um dos casos mais negros da história criminal britânica.
Eu sou o Marcos Campos e hoje conto a história de um homem que matou pelo menos 12 rapazes em Londres entre 1978 e 83. manteve os corpos lá dentro da casa dele durante dias e foi descoberto não porque a polícia andava atrás dele, ok? Mas porque, como disse, uma sanita entupiu de um vizinho ali de baixo, não dava mais descarga e depois tudo se desenrolou.
Esta pergunta ou as questões são: como é que um servidor público de carreira, sindicalista, respeitado por alguns, dito arruaceiro por outros, dono, porém de uma cadelinha amada por todos no prédio, torna-se um dos serial killers mais prolíficos do Reino Unido na época. Porque a polícia passou quase 5 anos sem se aperceber de nada, mesmo com várias vítimas a escaparem vivas e indo até à esquadra? E o que este caso tem de tão único que mais de 40 anos depois ainda é estudado por psiquiatras forenses e biógrafos de todo o mundo? Bom,
é o que vamos ver no episódio de novo. Então já fica comigo e vamos aos factos. Existiu uma casa no número 23 da rua Crun Gardens em Muswell Rio. Este morada fica num bairro residencial bem tranquilo no norte de Londres. Sabe destes bairros cheios de casinha geminada, com telhadinho pontiagudo assim, jardim caprichado em frente, aquele tipo de rua onde os vizinhos meio que competem para ver quem tem o relvado mais bonito.
Pois é, o número 23 desta rua era exceção. O jardim estava meio que tomado de mato, a fachada precisava de uma pintura e por dentro a coisa não estava muito melhor não, ok? Em algum momento alguém tinha dividido aquela casa ali em seis estúdios, digamos, para aluguer. E a manutenção era praticamente inexistente ali. Quem cuidava era uma imobiliária ali do bairro, mas a dona da propriedade mesmo vivia do outro lado do mundo.
Provavelmente aquelas pessoas, sabe, que compram para ali fazer negócio, enfim, para alugar e nem sequer punha o pé no lugar. Assim, em fevereiro de 1983, cinco pessoas viviam naquela casa. Quatro no andar térrio, que era um casal. A mulher deste casal era uma empregada de bar e o homem era um pedreiro e também mais duas jovens estrangeiras que partilhavam um quarto.
E na parte de cima, isolado lá no sóton da propriedade, um apartamento ali que foi adaptado de duas divisões com cozinha e casa de banho próprias, morava o Quinto Inquilino. Era um homem de 37 anos, alto, magro, daqueles que andam meio curvados assim, com os ombros para frente, sabe? Era servidor público, trabalhava num posto de atendimento de empregos do governo.
Ele saía cedo de casa, de fato cinzento, e regressava no final do dia, aliás perto ali do início da noite. Levava a cadelinha dele para passear e era praticamente isso, um tipo sossegado ali na dele. Para quem morava em baixo, era o cara do sóton, só silencioso, educado, não recebia muitas visitas, sem grande barulho.
As vizinhas do térrio tinham até subido uma vez lá a casa dele para tomar um café. Isto meses antes do que aconteceu e eu já vos conto. E nessa conversa aí, digamos rotineira, talvez quotidiano, melhor dizendo, coisa de 5 minutos, descobriram que ele preferia ser chamado de 10. Assim, na quinta-feira, 3 de fevereiro de 1983, um tipo chamado Jean Alcock, que era um pedreiro que ali morava no térrio, notou que a sanita ali da parte de baixo estava entupida.
Ele até tentou desentupir com produto caseiro ali qualquer, mas não funcionou. No dia seguinte, então, uma sexta-feira, a A namorada dele deixou um bilhete a avisar os outros para não utilizarem aquele vaso sanitário. Chamaram um encanador que prometeu ir no sábado. Então, este canalizador chegou, tentou arranjar ali com as ferramentas que tinha, mas não conseguiu também.
Ele disse que era trabalho para uma empresa especializada nisso. E havia uma empresa lá em Londres nessa altura aí, a Dino Rod, que era especialista em desentopimento na altura. Aí entra um pormenor que eu diria, há um peso nesta história. A Dino Rod só apareceu na terça-feira, dia 8, 5 dias depois do entupimento.
E nestes cinco dias ali, lá em cima, no apartamento do Sóton, aquele tal Inquilino, o 10, que gostava de ser chamado de 10, não é? estava a viver um episódio muito sinistro e macabro no domingo, ou seja, dois dias antes aí da terça-feira, não é? Ele estava a cortar um pedaço de corpo em quatro partes na sala da sua casa.
Ele tinha posto a cabeça a ferver numa panela, no fogão dele e os outros pedaços que colocou em sacos de plástico e guardou no armário do esconderijo. E tem o pormenor mais bizarro que só ele conhecia, tá? A cada dia que passava com a tal privada entupida, toda a gente reclamando, ele começou a perceber o que poderia tá realmente a acontecer com esse entupimento aí.
Ele sabia muito bem o que ele tinha atirado para aquele vaso nos últimos dias, talvez até últimos meses, e sabia que mais cedo ou mais tarde alguém ia descer àquele bueiro lá fora para ver o que estava a bloquear o cano da casa toda. Ora, quando o técnico daquela empresa, a Dino Rod, finalmente chegou por volta das 18h15 daquela terça-feira, como era inverno, já estava muito escuro.
Mas mesmo assim desceu lá, examinou os canos meio que por cima ali, viu que o problema estava lá no subsolo, na lateral daquela casa tinha uma tampa de boeiro que estava ali meio rachada e ela dava lá para o esgoto. A profundidade deste aí era de mais ou menos 4 m. Então este profissional desceu pelos degraus de ferro ali presos à parede, típico de aqueles subterrâneos de Londres mesmo, sabe? E o Jean Alcoque, o pedreiro que morava ali no primeiro andar, foi dar uma mão para ele, uma ajuda.
Ficou segurando a lanterna lá de cima, apontando para baixo enquanto o profissional descia. E foi nesta descida aí que o canalizador percebeu que tinha um cheiro esquisito ali. Quando ele chegou no fundo, a lanterna iluminou aquela camada esquisita a cobrir o piso. Ele pediu ao Jean para segurar firme a lanterna apontando para aquilo ali.
E ele pegou um pedaço daquilo e levou-o para a superfície para ver melhor. Naquela altura o gajo já sabia que não era um excremento, um pedaço de cocó. Ele era um canalizador que já tinha ali uma certa experiência. Ele percebeu que aquilo era carne, mas ele não sabia do quê, não é? Ele ficou ali cauteloso, muito embora tivesse com algumas dúvidas a surgir na cabeça dele ali, mas podia estar enganado, não é? Ora, nesse dia voltou para casa, ligou para o gerente da empresa e disse o que tinha encontrado.
O gerente combinou voltarem juntos no dia seguinte de manhã para confirmar aquilo ali. E até aí nada de polícia, nenhum alarme assim. Só que tem um detalhe. Antes desse canalizador ir embora, enquanto ele estava ali a subir e tal a escada, fez uma pergunta que até parecia inocente. Ele perguntou se algum morador daquela casa tinha um cão, porque ele disse que às vezes acontece de, não é, alguém jogar ali, de repente um pedaço de carne crua no vaso, pedaço de osso, de galinha, de açogue, sabe, no vaso. Isso aí acaba por entupir
mesmo. 10, o morador ali do Sóton, que tinha descido para ver o que estava a acontecer ali no térmo, não é, toda a gente conversando. Ele respondeu sem hesitar, que tinha assim um cão, uma cadelinha, mas deitar carne na sanita, ele disse que nunca. Então o canalizador agradeceu a resposta e foi-se embora.
E na verdade ele nem desconfiou muito assim pela naturalidade com que o tipo tinha respondido para ele. Naquela mesma noite, ao princípio da madrugada, os vizinhos do térrio ali ouviram algo descendo a escada. Eles ouviram a porta da rua se abrir. Ouam alguém a arrastar a tampa daquele boeiro. Eram sons metálicos raspando.
Depois passos na lateral da casa em direção ao quintal. A namorada do pedreiro coxixou até com ele que estava alguém a mexer no boeiro lá fora e ela apostava que era o rapaz lá de cima. E era mesmo o tinha descido pessoalmente até ao bueiro com a lanterna dele ali com um saco de plástico na mão. Ele tinha apanhado o que conseguiu lá no bueiro.
Atirou os pedaços por cima de uma vedação num terreno baldio que tinha pros fundos da casa ali. O plano que ele tinha era bastante simples. Ele ia cedo depois até uma loja de frangos ali, a Kentucky Fried Chicken, para comprar alguns pedaços ali, com a intenção de deitar nos canos para confundir o canalizador ou quem quer que seja que fosse lá mais tarde.
Mas no fundo ele já tinha desistido desse plano. Aí ele bebeu rum durante toda a noite depois disso e pensou em tirar a sua própria vida, mas acabou por desistir. Também pensou em fugir, mas também não aconteceu. No fim das contas, decidiu apenas esperar. Será que ele estava a sentir que alguma coisa ia correr muito mal para ele? Bom, na manhã seguinte, no dia 9 de fevereiro, o canalizador voltou, então, às 9:15 da manhã.
Levantou a tampa do bueiro, apontou a lanterna e o chão estava agora mais limpo. Ele ficou atónito, não fazia sentido porque nenhuma chuva teria conseguido levar aquilo. E ele já sabia que as sanitas continuavam entupidas. Desceu então de novo para olhar mais de perto, meteu a mão num dos canos secundários ali e puxou outro pedaço de carne.
Quatro pedaços de ossos vieram junto. Quando o canalizador saiu do bueiro, a vizinha ali do Térre, a namorada daquele pedreiro, já estava do lado de fora da casa ali para contar o que ela tinha ouvido juntamente com o O namorado dela naquela madrugada anterior. E foi aí que decidiram chamar a polícia para ver o que estava acontecendo.
Quem chegou foi o detetive Pedro J. Chegou ali por volta das 11 da manhã desse dia. Ele levou os fragmentos que o encarnador tinha encontrado para o hospital Char Cross, onde o professor David Bowen, um patologista forense da Universidade de Londres, examinou tudo às 15h30. Assim, o Bwen confirmou que aquilo era humano. A carne vinha provavelmente da região do pescoço e os ossos eram da mão de um homem.
Com estas informações confirmadas, então, às 16h30 desse dia, o detective J estava de volta ali naquela casa e ele com mais dois colegas, então, esperaram pelo tal 10 chegar do trabalho. Apareceu às 5:40 da tarde e esse era o princípio do fim. Os três polícias subiram com ele até ao apartamento dele ali no sóton, não é? O O detetive J disse que tinha vindo por causa dos canos.
OS demonstrou surpresa, perguntou se eram do controlo sanitário. Aí o detetive J explicou que não, que eram da polícia, que os pedaços encontrados ali no esgoto daquela casa eram humanos. A reação do 10 foi um ó céus, que coisa horrível, mas durou pouco. O Jay olhou nos olhos dele e disse-lhe para parar de enrolar e perguntou onde estava o resto daquele corpo.
E foi aí que o rapaz calmamente apontou para o armário dele no quarto e disse que estava em dois sacos plásticos, que tinham as chaves se eles quisessem abrir. O J disse que nem precisava de abrir, que o cheiro que estava ali já era confirmação suficiente. perguntou se havia mais alguma coisa que ele queria dizer e o homem respondeu que era uma longa história e que ele ia precisar de recuar muitos anos no tempo e que ele queria contar.
Mas na esquadra, no carro, a caminho da esquadra, um dos detetives sentado ao seu lado no banco de trás fez a pergunta que ia ficar registada nos arquivos da Polícia Britânica como um momento de viragem, um dos pontos mais marcantes do caso. Estamos a falar de um ou dois corpos. O 10 respondeu sem alterar o tom de voz que eram 15 ou 16 desde 1978.
O detetive Steve Mcusker ficou no banco de trás e fui a conduzir. E não sei o que levou o Steve a fazê-lo, mas de repente perguntou ao Nilson: “Estamos a falar de um corpo ou serão dois?” E o Nilsen disse: “Nada disso, acho que são 16”. Na sala de interrogatório já, o detetive Jay teve de repetir a pergunta porque é que ele achava que tinha mal entendido.
Aquele homem estava dizendo que tinha morto 16 pessoas desde 1978 e o homem disse que sim, três em Crunley Gardens, esta casa ali do entupimento, certo? E mais ou menos 13, 12 ou 13 no endereço anterior em Mo Rose Avenue em Cricklewood. E este homem, o tal 10, tinha um nome completo e era Denis Andrew Newon, um escocês filho de mãe escocesa e pai noroeguês.
Ele tinha sido militar, tinha sido polícia e nos últimos 8 anos era funcionário público, um tipo competente, articulado, conhecido pelos colegas como sindicalista combativo. Os interrogatórios duraram mais de 30 horas durante essa semana. Ele disse tudo sem ser perguntado num monólogo autobiográfico ininterrupto e assustador.
Os detectives, homens experientes, que tinham visto coisa para caramba na vida, já ficaram em estado de choque com o que relatava, com uma indiferença emocional sinistra até. Mas isto é só a ponta do icebergue para perceber como é que este homem chegou ali naquele apartamento, naquele dia, com pedaços de três pessoas diferentes guardados no armário e na cozinha, como ele entupiu aquele encanamento com restos humanos.
A gente precisa de voltar no tempo até uma aldeia de pescadores no nordeste da Escócia, no inverno de 1951. Dennis Andrew Newson nasceu a 23 de novembro de 1945 em Freburg Aberdincher, que é uma cidade portuária no nordeste da Escócia. A mãe dele, a Bet White, era escocesa e tinha sido eleita rainha do baile da cidade no auge da Segunda Guerra.
O pai era Olave Magnus Nilsen, um soldado noreguês das forças noregueguesas livres que tinham se exilado na Escócia depois da invasão nazista. Os pais do Denis conheceram-se numa rua de Freburg, quando Olave defendeu a Bet de um soldado bêbado que estava a tentar ir para cima dela. Esse encontro aí casual o seu amor entre eles.
Casaram em 2 de maio de 1942. Tiveram três filhos, Olá Júnior, Denis e Sílvia. Mas com o tempo vieram os problemas. O pai passou a estar ausente. Praticamente nunca estava em casa. A família nunca formou uma unidade familiar de verdade. Assim, depois de um tempo, a Bet voltou a viver com os pais dela e os três filhos cresceram na casa dos avós.
A mãe e os três filhos partilharam um único quarto nessa casa. Mãe e filha numa cama, os dois irmãos na outra. Era uma casa muito simples, do avô materno do Denis, um pescador escocês chamado Andrew White. E nessa pequena casa apertada, o homem central da vida de Dennis Nilsen não foi nem o pai ausente, nem a mãe que estava sobrecarregada.
Foi o avô materno Wendre Branco. Pescador, sindicalista, informal, religioso, fervoroso, contador de histórias. Andrew era o oposto exato do pai biológico do Denis. Ele levava o miúdo para passear perto do porto, ensinava-o a empinar pipa feita de papel e também ramos atados com barbante. Levava-o para ver a construção dos barcos, contava histórias do mar que não contava para mais ninguém.
O Denis era o melhor ouvinte que o André tinha. E para o miúdo, o avô não era apenas uma figura querida, era a âncora central da existência do mesmo, segundo o próprio Denis Nilson escreveu décadas depois numa cela de prisão. Em Outubro de 1951, o Andrew White estava sentindo-se demasiado cansado. Ele tinha desistido de cantar no coro local pela primeira vez na vida.
Dizia que não tinha mais força, mas precisava trabalhar e o emprego de pescador exigia bastante esforço. Ele precisava de ir para o mar. Depois despediu-se da família num certo dia, acenou ao neto e embarcou. Nessa mesma noite no barco, recusou uma chávena de chá, uma coisa que nunca tinha feito. Disse pros amigos que estava com má digestão.
Foi depois deitar-se na cama de marinheiro e quando os companheiros o foram acordar, no dia seguinte estava morto, a causa ataque cardíaco. Isso aconteceu no no dia 31 de outubro de 1951. Tinha 62 anos e o Denis nessa altura tinha 5 anos e 11 meses. O corpo do avô Andrew foi trazido de volta para Freburg de comboio e foi velado dentro da própria casa deles, ali no quarto da família mesmo.
Colocaram o caixão aberto em cima de cavaletes no meio da sala. A esposa dele, a avó do Denis, ficou a chorar o velório inteiro, mas ninguém parou para explicar às crianças o que tinha de facto acontecido. Bet, a mãe em algum momento entrou no quarto e perguntou se as três crianças queriam ver o avô. Pegou em cada uma ainda de pijama e levou um a um até à beira daquele caixão.
E aqui há um pormenor que o Brian Masters, o biógrafo que passou anos a estudar este caso, identifica como o eixo de tudo o que veio depois, o elo de tudo isto, o elo central. Quando o miúdo perguntou o que estava a acontecer, a mãe disse que o avô estava a dormir. Não disse que ele tinha morrido. Não usou a palavra morte porque tinha medo de chocar a criança.
Foi uma decisão bem intencionada, claro. E segundo o próprio Nilson escreveu na prisão, foi a decisão que estilhaçou a personalidade dele de forma permanente. Durante meses depois, o miúdo ficou à espera que o avô regressasse. Ninguém voltou a dizer o nome dele. Era como se o Ander White se tivesse evaporado.
E o que se formou na cabeça daquela criança foi uma equação insólita. Se o avô tinha ido para um lugar melhor, como diziam, por que que ele não tinha sido levado junto? Porque estar morto era uma coisa boa, mas fazia toda a gente chorar. E por o pai e o avô, os dois tinham ido embora e deixado-o para trás.
Décadas depois, escrevendo da cela em Brixton, o Nilsen vai dizer que ele passou a vida emocional inteira à procura do avô, que nesse dia, em outubro de 1951, desceram persianas dentro dele, que nunca mais subiram e que, no fundo, ele queria estar dentro daquele caixão a dormir junto com o avô. A infância continuou solitária.
O Dinis era um menino que desaparecia. A mãe precisava até trancar o portão do jardim para impedir que ele saísse ali a vaguear pela rua. Ele cavava por baixo ali do portão na terra e ia na mesma. Ele mesmo se descrevia como um menino infeliz, ruminante, secreto, atingido pela inferioridade. Aos 15 anos, tornou-se alistou-se no exército britânico no corpo de Ctherine, que é o setor que cuidava da alimentação das tropas.
Ele serviu durante 11 anos como cozinheiro do exército, passando por vários batalhões, incluindo um dos mais respeitados da infantaria britânica, que é o Wardio and Sutherland Highlanders. Serviu em vários lugares, incluindo brevemente Berlim Ocidental durante a Guerra Fria. E foi nesse período aí que ele começou a perceber que era homossexual, uma descoberta que encarou com vergonha profunda numa cultura militar britânica dos anos 60, ser gay era um problema grande.
E em 1972, prestes a fazer 27 anos, o Denis decidiu abandonar o exército. Ele tentou reinventar-se, entrou para Polícia Metropolitana de Londres como recruta, mas durou apenas um ano. aquilo também não se encaixou nele. Passou alguns meses a trabalhar como segurança em edifícios governamentais até conseguir em 1974 um emprego num daqueles postos de atendimento ao trabalhador desempregado.
Era um trabalho burocrático, tranquilo, com um salário modesto. E ali acabou por se acomodando. Trabalhou neste tipo de posto durante os 8 anos seguintes, sempre fazendo a mesma coisa, atendendo pessoas que vinha procurar emprego, processando ficha atrás de ficha. E foi nesse momento, nesse mesmo período, que ele descobriu o sindicato.
Ele virou representante dos funcionários, depois presidente da filial local. E dentro dessa função ele encontrou alguma coisa que o exército e a polícia e as coisas que já tinha feito nunca tinham conseguido dar-lhe. Voz. Nas reuniões, o Denis era fiado, articulado, agressivo no debate. Ele defendia colega contra a chefia como se fosse uma causa pessoal dele.
Levava qualquer briga laboral até às últimas consequências. superiores meio que torciam-lhe o nariz, ganhou rapidamente a fama de arruaceiro também, mas os colegas esses gostavam dele, ok? Pelo menos por enquanto. O trabalho, o Denis era considerado um rapaz simpático de conviver, muito inteligente, irónico, sabia fazer rir, dava boas ideias nas reuniões, mas era um tipo específico de simpatia, percebe? aquela que funciona dentro do escritório, durante o horário de trabalho, ali na hora do café, mas que não atravessa, não sai da repartição,
digamos, nenhum colega ali da profissão dele da repartição pública, nunca tinha ido ao seu apartamento para tomar uma cerveja, conversar. Nenhum tinha visto ele em situação social, fora do trabalho. Era o tipo de pessoa que no fim do expediente vira costas, pega ali no casaco e vai-se embora. E ninguém fazia ideia do que ele ia fazer e para onde ia.
Ele era um bom rapaz de conversa, havia muito assunto, mas era sempre sobre o trabalho, sobre o sindicato, sobre as injustiças que ele tava a combater. Confidência mesmo, conversa pessoal, daquelas que só tem com quem te conhece verdadeiramente, com um amigo próximo deste ele não conseguia falar e ele não tinha ninguém para fazer isso com ele.
Em 1976, mudou-se para um apartamento térrio com jardim no número 195 da Avenida Mel Rose em Cricklewood, no noroeste de Londres. E ele foi para aquele endereço aí com um rapaz com quem estava ali a ter uma espécie de relacionamento que, na verdade, durou praticamente nada. O rapaz foi-se embora e ficou ali o Denis com a cadela, a blip, dentro daquele apartamento.
Ele bebia muito, rum com Coca-Cola, ouvia muita música clássica e ópera nos auscultadores dele. Elgar, Mer Brittin, Greg, Tikovsk e algumas faixas de pop sofisticado também, especialmente uma chamada O Super-Homem da Laur Anderson, que tinha um efeito quase hipnótico nele. Ele caminhava com a Blip cão duas vezes por dia em Gladston Park.
Cuidava do jardim, aparentava ser um homem comum, levando uma vida pacata e comum. Mas dentro de casa, em 1978, começou a desenvolver um ritual privado e, de certo modo, bem doentil em frente ao espelho. Um negócio bem bizarro. Veja, ele cobria-se de talco para parecer pálido, esfregava carvão nos olhos, pintava os lábios de azul, criava manchas de sangue falso na pele e deitava-se na cama em frente ao espelho, com a boca aberta, deixando a saliva escorrer, um olhar fixo.
Ele fingia ser um cadáver. Imaginava outro personagem na cena também, um eremita velho que encontrava o seu corpo na floresta, levava para casa, lavava, cuidava, masturbava. No final de 1978, a depressão dele estava no fundo do poço, uma carreira meio que emperrada por causa do ativismo sindical. Os colegas que defendia não retribuíam o apoio.
Não tinha ninguém para passar o Natal com ele. Escreveu anos depois que se sumisse naquele período da sua vida, ninguém ia sequer reparar. Até pelo menos uma semana depois. E aí entra a noite que vira uma chave e muda toda esta história. Em 30 de dezembro de 1978, o Dennis Nilson, as vésperas do ano novo, estava sozinho como de costume, mas nesse dia alguma coisa nele o estava a incomodar.
Estava um pouco angustiado, cansado de ficar em casa. Então decidiu sair, no entanto em vez de ir aos pubs gay que costumava frequentar, foi por Cricklewood Arms, que era um bar irlandês perto da sua casa, um local frequentado por operários, diferente do público a que estava habituado. Ele bebeu umas guines, famosa cerveja por lá, não é? Uma atrás da outra.
No meio da multidão, conversou com várias pessoas. A dada altura da noite, ele começou a conversar com um rapaz que também estava sozinho. Na verdade, era um adolescente magro. Os dois, em algum momento, então, foram para casa do Dinis. Beberam ainda mais, depois foram para a cama juntos. Mas não aconteceu nada sexual.
Os dois, na verdade, desmaiaram, pedrados, provavelmente. Algumas horas depois, o Denis Nilson acordou. Ele olhou para o miúdo que dormia ali do lado dele. Pelas próprias palavras dele escritas anos mais tarde, teve medo de acordar o rapaz com receio de que este levantasse e fosse embora. Medo de ficar completamente sozinho outra vez.
E a ideia de perder aquela companhia era insuportável para ele. Então ele olhou para o chão, viu a gravata dele próprio caída ali entre as roupas, pegou nesta gravata, subiu para cima do miúdo e apertou. O rapaz acordou no meio do estrangulamento, lutou pela sua vida. Os dois caíram da cama, rebolaram pelo alcatifa, derrubaram a mesa de centro com cinzeiros e copos.
Em cerca de 30 segundos, o corpo do jovem amoleceu, mas o rapaz ainda respirava. O Nilsen foi até ao cozinha, encheu um balde com água e voltou. Ele pendurou o miúdo de cabeça para baixo, sobre uma cadeira ali na sala de jantar, enfiou-lhe a cabeça dentro do balde. Aí esperou uma paciência mórbida. as bolhas pararem. Depois o Nilson passou um período enorme, só sentado em choque, talvez, olhando para aquilo.
E quando voltou a mexer-se, iniciou um segundo ato que ainda era mais perturbador. Ele encheu a banheira do apartamento, carregou o corpo até lá, lavou o corpo com detergente, colocou-o na cama, depois cobriu com um lençol e saiu de casa. Assim, comprou uma faca elétrica e uma panela grande numa loja de ferragens, mas quando chegou a casa, achou que aquilo que estava passar-lhe na cabeça era ridículo e acabou por não usar.
O que ele fez foi outra coisa. Vestiu o cadáver com cueca branca e meias novas que tinha guardado no armário. Deitou-se na cama abraçando o corpo. Tentou ter relações íntimas com o cadáver, mas não conseguiu manter a ereção quando sentiu a temperatura a descer. Nos dias seguintes, ele tirou algumas tábuas doalho ali da casa dele e enfiou o corpo lá em baixo.
7 meses e meio depois, a 11 de agosto de 79, ele desenterrou, digamos, o corpo, embrulhou-o em sacos de plástico e queimou numa fogueira lá no quintal dele mesmo. Pôs borracha velha ali no fogo juntos para disfarçar o cheiro. Depois ele esmagou tudo o que ali restava para tornar-se um pó e misturou com a terra do jardim.
Na altura em que o Brian Masters publicou o livro Killing for Company em 1985, este rapaz ainda era anónimo, era conhecido apenas como o jovem irlandês, este rapazinho adolescente que encontrou no Pub, vou paraa casa. E esse adolescente nem era irlandês, ok? Os pais eram, mas na verdade ele tinha nasceu em Londres. Foi só em 2006, 28 anos depois, que a sua identidade foi finalmente confirmada, quando os investigadores estavam a rever ficheiros de pessoas desaparecidas e mostraram uma foto por Nilsen já com 60 anos dentro da prisão. E ele confirmou:
“O rapaz era Stephen Dean Holmes. Ele tinha 14 anos quando perdeu a vida. A história diz que tinha ido a um concerto de rock e depois ia apanhar um autocarro de regressa a casa dos pais dele e que no caminho ali ele acabou por entrar naquele pub para se esconder do frio. Ele era heterossexual, gostava de futebol e de rocha.
Tinha desaparecido naquela noite de 30 de Dezembro de 78 sem deixar qualquer rasto. A sua mãe morreu em 2002 sem nunca saber o que tinha acontecido ao filho dela. Depois dessa primeira noite, o Denis esteve quase um ano inteiro sem matar de novo. Ele tocou a vida como se não tivesse acontecido nada. foi trabalhar para o sindicato, passeava com a cachorra no parque.
Por fora, era um cidadão comum e ele próprio, segundo escreveu depois, chegou a acreditar que aquilo tinha sido um acidente isolado que ele nunca mais ia repetir. Só que em outubro de 1979 aconteceu uma coisa que devia ter mudado o rumo desta história, mas não mudou. O Denis tinha levado para casa um estudante chinês chamado Andrew H.
A dada altura da noite, durante uma conversa sobre sexo, pegou numa gravata e enrolou-se no pescoço daquele rapaz. O R entrou em pânico e conseguiu desembaraçar-se, agarrou um castiçal, atirou na direção do Denis e correu direto para a delegacia. A polícia foi até o apartamento meia hora depois. O R denunciou a tentativa de estrangulamento.
O Dinis, muito calmo, negou tudo. Disse que era apenas uma encenação no meio do sexo e depois veio o erro que custou caro. O R, com vergonha de explicar à polícia o que estava fazendo ali, decidiu não levar o caso adiante. A polícia foi então embora e o caso foi encerrado. Anos depois da cela da prisão, o próprio Denis Nilson escreveu uma frase que chega a dar calafrios.
Disse que tinha sido uma pena que não tivesse sido preso naquela noite. Se a polícia tivesse investigado melhor aquela denúncia daquele aluno, todas as mortes que vieram a seguir poderiam ter sido evitadas. Mas em Dezembro de 1979 chegou o Kenneth Oakendan, um turista canadiano que tinha vindo passar férias em Londres.
Os dois conheceram-se num pubalidades. Simpatizaram na hora ali um com o outro e passaram a tarde inteira juntos a passear pela cidade. O Denis a bancar o anfitrião, mostrando os pontos turísticos. À noite foram para o apartamento do Denis para continuar a conversa. Beberam, ouviram música. Em algum momento depois da meia-noite, com um Wen Dan ali sentado na poltrona a ouvir um disco com os fones de ouvido, o Denis pegou no próprio cabo do fone e usou-o para estrangular o rapaz ali mesmo.
O Denis sentou-se na poltrona do lado, depois pegou nos fones do cadáver, colocou-o no próprio ouvido e ficou ouvindo a sequência inteira do disco com o corpo do Wendy ainda quente ao lado dele. Depois, o Denis colocou o corpo na cama e passou a noite inteira com ele. No dia seguinte, foi enfiado no armário. No outro dia, o Denny saiu de casa, comprou uma máquina polaroide, voltou, posicionou o corpo em várias poses e tirou fotografias.
E durante as duas semanas seguintes, foi tirando o cadáver do esconderijo várias vezes, sentava-o na poltrona do lado da dele, via televisão como se fosse uma companhia. E aqui entra um pormenor que fez com que este caso fosse diferente dos outros. Okenden tornou-se a única vítima que teve o desaparecimento reportado, noticiado nos Jornais Nacionais Britânicos.
O Dinis lia essas notícias e ficava quieto. Anos depois da cela, escreveu que a A morte daquele rapaz canadiano tinha batido nele como uma bomba. A partir dali, tudo isto se tornou um padrão. Em maio de 1980, foi o Martin Duffy, um adolescente de quase 17 anos que tinha fugido de casa no norte de Inglaterra e tinha vindo bater a Londres tentar recomeçar a vida.
Conheceu Denis, foi parar ao apartamento lá da Mel Rosy Aven, o apartamento do Denis que foi estrangulado na cama no meio da madrugada. Em agosto do mesmo ano, foi o Billy Sutterland, um escocês de Edimburgo, conhecido na região como um bebedor pesado. E daí em diante a coisa só piorou. Foram vários outros. A maioria sem nome até hoje.
Eram rapazes jovens, sem abrigo, viciados. Gente que vivia de bico e por vezes prostituía-se. Gente sem documento, sem família, à espera em casa, sem ninguém para dar falta. A última vítima ali no apartamento de Mel Rose Avenue foi um homem chamado Malcolm Barlow em setembro de 1981. E é aqui que aparece o aspecto mais desconcertante deste caso.
Talvez o Nilsen não escolhia as vítimas com cuidado predatório no sentido clássico dos Sirial Killers. Ele convidava qualquer pessoa que aceitasse ir para casa dele. Algumas pessoas iam, dormiam, acordavam de manhã, tomavam café e iam embora vivas. Outras ele simplesmente matava. Por sua conta, foram pelo menos sete tentativas falhadas, gente que escapou ou que ele próprio saiu do transminar.
Algumas dessas pessoas chegaram a procurar a polícia. Em maio de 1980, um escocês chamado Douglas Stewart escapou e foi ter com os polícias. A polícia foi até lá a Mel Rosy Avenue, conversou com Dennis Nilson, ouviu a sua versão, que era apenas uma briga banal de dois homens bêbados e foi-se embora. Nem sequer investigaram.
E aqui está um dos zelos desta corrente criminal, porque quase 5 anos as vítimas conseguiram escapar com vida, procuraram a polícia e foram ignoradas, podemos dizer. O tipo que estava a matar era um servidor público bem-sucedido, articulado, sem registo criminal. As pessoas que escapavam eram jovens marginalizados, digamos, gays, toxicodependentes, prostitutos, bêbados.
A polícia britânica no início dos anos 80 simplesmente não levou isso muito a sério. Entretanto, o jardim da casa ali no número 195 da Mel Ros Aven ia se enchendo-se de cinzas. Nilson fazia fogueiras periódicas, misturava as cinzas com a terra do jardim, quebrava os ossos maiores com uma pá e jogava por cima da vedação num terreno baldil.
Mais tarde, quando a polícia escavou o jardim, em 1983, iam encontrar mais de 1000 fragmentos de ossos. Segundo o próprio Denis Nilson no julgamento, haveria 12 homens mortos na Mel Rosy Avenida. Só aí, mas pode ter sido mais. E anos depois, em 1992, voltou atrás. Chegou-se a contar 15, 16 vítimas, mas disse que o total eram 12 mesmo nesse endereço e no próximo que já vou contar.
Mas o pro detetive Peter J, sempre achou que esta contradição, essa retratação ali não fazia sentido. Mas vamos então conhecer o outro endereço, aquele que abriu esse episódio. Em outubro de 1981, o proprietário do apartamento da Mel Rosy Avenue mandou o Denis para se mudar, pediu a casa. Antes de entregar as chaves, acendeu uma última fogueira no fundo do quintal e queimou tudo o que ainda restava como evidência, talvez.
E segundo o Brian Masters, o autor do livro que conta esta história, tinha ali pelo menos partes de corpos que ainda não se tinham decomposto totalmente. Depois o Dinis pegou num rolo de jardim e passou várias vezes por cima das cinzas esmagando até tornar-se um pó que se misturava com a terra.
Bom, depois disso, mudou para o outro lado de Londres, para um bairro chamado Muswell Hill, e alugou o sóton de uma casa antiga, aquela mesma que abriu o episódio. ténis na cabeça dele. Achava que aquela mudança ia ser o fim do ciclo, porque o apartamento novo não tinha tábua de açoalho que ele pudesse tirar para esconder o corpo, não tinha jardim que pudesse usar só para ele, não havia ali cantinho nenhum onde daria para esconder ou queimar coisas.
E por um momento parecia mesmo que o Denis tinha razão sobre esse pensamento. Em Dezembro de 1981, encontrou um rapaz chamado Kevin Silvester, paralisado de embriagado numa rua. Ele levou o gajo para casa, deu-lhe cama para dormir, alimentou o sujeito ao pequeno-almoço e mandou-o embora vivo. Nilson escreveu que ficou eufórico, pensou que finalmente tinha passado, tinha deixado tudo aquilo para trás, mas não tinha.
A primeira morte novo apartamento aconteceu em Março de 1982, poucos meses depois da mudança. O rapaz chamava-se John Hollet. Era um tipo da rua, daqueles que tinha passado a vida inteira sem chão. Família dele tinha cortado laços com ele, ainda menino aos 13 anos. E desde então o Hollet tinha vivido deambulando, entrando e saindo de abrigo, sendo preso por pequenos furtos, sem nunca conseguir pôr a vida nos eixos.
Quando conheceu o Denis, ele era um adulto já na casa dos 20 e poucos anos, com aquela mania de inventar história sobre si próprio, sobre o passado, para parecer mais importante do que era. Ele falava para qualquer que tinha sido soldado na Guarda Real Britânica, ninguém sabia se era verdade ou não. Provavelmente não era. O próprio O Denis nunca chegou a saber o apelido dele. Pro Denis era apenas John, o guarda.
E foi com este apelido que o nome do rapaz acabou por entrar anos depois nos arquivos do caso. A segunda morte na Crley Gardens veio em setembro do mesmo ano, um homem chamado Grahan Allen. E a terceira vítima foi a 26 de janeiro de 83.º E essa é a que importa para compreender como tudo desabou.
O nome dessa vítima, deste rapaz era Stephen Sinr. Ele tinha 20 anos, era toxicodependente, pesado em drogas e nos pulsos trazia marcas recentes de tentativa de pôr um fim a si mesmo. Era o tipo de rapaz que ninguém ia sentir falta. E foi exatamente por isso que o Dennis escolheu ouvir uma oportunidade nele.
Nestas três mortes lá na Crley Gardens, o método de eliminação do corpo mudou drasticamente. Como ele não tinha o jardim para fazer uma fogueira, nem aalho para esconder o corpo, o Denis começou a fazer uma coisa muito pior. Talvez levasse o corpo para a casa de banho do sótol, punha dentro da banheira, ia desmembrando ali mesmo, cortava os órgãos em pedaços pequenos e ia jogando na sanita e a puxar o autoclismo.
E quando esse processo aí tornava-se demasiado lento, ele pegava nas partes maiores e ia a ferver dentro de uma panela no fogão, a cabeça toda numa panela grande, depois as mãos, os pés, enfim, quando o osso saía limpo, partia-se em pedacinhos pequenos e ia deitando no lixo de casa mesmo.
O camião da câmara municipal passa e recolhe semanalmente. E o que sobrava de ossos grande, como crânio, fêmmeror, ossos do braço, bacia, guardava num baú que tinha no canto da sala ali embrulhado em sacos com sal grosso. Ele cobria tudo aquilo ali com uma cortina vermelha, velha, que ele tinha trazido lá do antigo apartamento. E foi exatamente este esquema que desbloqueou o caso, porque a tubagem da casa de banho do A Soto, como vimos, ficou travada, entupida.
v
Essa tubagem atravessava a casa inteira e ligava-se com o esgoto lá em baixo. Os pedaços de carne e gordura que o Nilsin estava a jogar pelo sanita ficaram presos e entupiram a tubagem. Em Janeiro de 83, depois, depois de matar o Stephen Sincla, o Nilson estava a meio do processo de dissecção quando o sistema entupiu de vez.
No fim de semana, de 5 e 6 de fevereiro, cortou o corpo em quatro partes na sala do apartamento, ferveu a cabeça enquanto a privada do andar de baixo já estava bloqueada. E os vizinhos estavam à espera do canalizador já. Aí foi aquilo que eu contei lá no início. O técnico canalizador desceu o bueiro. À noite o Nilsen estava a tentar tirar os pedaços de lá. O técnico voltou no dia seguinte.
A polícia chegou, esperou que o Denis regressasse do trabalho e foi assim que ele foi finalmente descoberto e preso. O julgamento começou a 24 de outubro de 1983. Foram montadas duas grandes equipas, uma da acusação representando a coroa britânica, e uma da defesa contratada pelos advogados do Nilson.
E o juiz que ia presidir a tudo aquilo era um tipo veterano na magistratura inglesa, conhecido por conduzir casos difíceis e com mão firme. O Nilsen foi acusado de seis assassinatos e duas tentativas de assassinato. Os seis casos escolhidos pela acusação foram aqueles que havia evidência forense suficiente. Kennethend, Martin Duffy, Billy Sutterland, Malcolm Barlow, John Hollet e Stephen Sinclair. O último.
As tentativas de homicídio eram contra Paules, um estudante de 19 anos. da Universidade de Londres, que escapou em novembro de 1981, e contra Douglas Stuart, um rapaz de 26 anos que escapou em novembro de 1980, depois de Nilson ter tentado estrangulá-lo enquanto ele dormia numa poltrona. A estratégia da defesa foi declarar inocência e tentar provar que o Denis tinha alguma forma de transtorno mental que lhe tinha tirado o controlo sobre os próprios atos.
Se esta tese fosse aceite, ele não seria condenado por homicídio, seria condenado por uma figura mais branda que existe na lei britânica, que abriria a porta, então, para ele cumprir pena em hospital psiquiátrico, não em estabelecimento prisional comum. Na prática, significava que ele podia sair em liberdade em cerca de 15 anos.
E aí os psiquiatras divergiram completamente. Os médicos, contratados pela defesa argumentaram que o Denis tinha um distúrbio grave de personalidade, formado lá na infância em Freburg. a morte do avô sem explicação, pai ausente, o facto de se ter descoberto gay que teve de esconder durante toda a vida, principalmente no exército.
Tudo isto, segundo eles, tinha criou nele uma espécie de falso eu, uma fachada que escondia uma mente fragmentada. Mas o psiquiatra contratado pela acusação, rebateu isso. Diz que sim, o Denis tinha personalidade anormal, ninguém consciência final ia matar tantas pessoas. Só que personalidade anormal do ponto de vista da lei não é a mesma coisa que doença mental.
E o que ele tinha visto no comportamento do Denis durante os crimes era exatamente o oposto de alguém fora de si. O tipo encorajava as vítimas a relaxarem, a beberem, a dormirem. Calculava, planeava e executava com frieza, anormal, mas com a cabeça a funcionar perfeitamente. O Júri ficou dividido e em 4 de novembro de 1983, no final da manhã, o juiz avisou que aceitaria o veredicto por maioria.
não precisava de ser unânime. À tarde saiu o resultado. Maioria condenou o Denis em todos os seis casos de homicídio em uma das tentativas de homicídio. Na tentativa contra um dos sobreviventes, o veredicto foi unânime. Todos os jurados acharam o Denis culpado. Vai entender? No final de contas, o juiz sentenciou o Dinis a prisão perpétua com recomendação de cumprir no mínimo, 25 anos antes de poder pedir a liberdade condicional.
Mas em Dezembro de 94, mais de 10 anos depois da sentença, o ministro do Interior britânico reviu o caso e alterou as regras. Transformou a sentença numa coisa chamada lá de whole life tarif, que na prática significa prisão perpétua de verdade, sem possibilidade nenhuma de sair em vida, sem recurso, sem condicional, sem revisão.
O Dinis ia morrer dentro da cadeia. E aí entra a figura de Brian Masters. Brian Masters é o biógrafo inglês que durante o período em que o Denis estava preso aguardando o julgamento, começou a trocar cartas com ele. Foi a partir desta troca de cartas que nasceu o livro mais detalhado sobre este caso, que se chama Killing for Company, que em tradução livre quer dizer matando por companhia e que foi incluindo a fonte principal para produzir este vídeo aqui.
Masters foi o único biógrafo que o Denis autorizou a escrever sobre a sua história. E o motivo do título provém de uma frase que o próprio Nilson escreveu numa das cartas. Disse que matava por companhia, pelo medo absoluto de ser deixado sozinho para que outra pessoa ficasse com ele, quisesse ou não quisesse. Exatamente como escreveu sobre aquele rapaz da primeira noite manhã de 30 de dezembro de 78.
Em 2020, mais de 30 anos depois, uma TV britânica produziu uma minisérie de três episódios chamada 10, alcunha pelo qual Nilsen se auto-nomeava com David Tenent no papel principal, Daniel Maze como Peter Jay, o detetive e Jason Watkins como Brian Masters, o biógrafo. A série escrita por Luckill ficou inteiramente no período entre a detenção e a o julgamento.
Não mostrou nenhum dos crimes que foi uma escolha deliberada para não estetizar a violência. foi premiada e teve uma audiência massiva. Dinis Nilson esteve 35 anos preso. Ele cumpriu pena em vários estabelecimentos. Aprendeu Briley na oficina ali da prisão e passou a traduzir livros. Ele pintava, compunha música no teclado, lia muito.
Escreveu uma autobiografia chamada The History of Drowning Boy, que é uma referência aos próprios conceitos dele sobre a tranquilidade da morte. A autobiografia não foi publicada enquanto ele estava vivo, mas ela saiu póstumamente em 2021. E foi a 10 de maio de 2018 que o Nilsen foi transferido da prisão.
Ele foi transferido de lá para um hospital. Ele apresentava fortes dores abdominais. O diagnóstico foi rotura de aneurisma da aorta abdominal. A cirurgia foi feita, mas desenvolveu um coágulo como complicação pós-operatória e faleceu em 12 de maio de 2018, aos 72 anos. O corpo foi cremado em junho de 2018 num serviço com cinco pessoas presentes, três oficiais de prisão, mais um indivíduo com quem o Nilson tinha correspondido durante anos e mais uma pessoa.
Nenhum familiar compareceu. As cinzas, no no entanto, foram entregues a um familiar, segundo o protocolo do Ministério da Justiça Britânico, e a prisão pagou as despesas do funeral. E dos homens que o Dennis Nilson confessou ter morto, sete ainda continuam não identificados até hoje.
Sete jovens que entraram em algum pub de Londres entre o final dos anos 70 e início dos anos 80. Conheceram um funcionário público simpático, foram para casa dele e nunca mais voltaram. As famílias deles algures no Reino Unido ou da Irlanda, provavelmente já já não estão procurando. Algumas destas famílias talvez nunca tenham começado a procurar.
E o detalhe mais frio desta história, talvez, seja a frase que o próprio Denis escreveu sobre esta primeira morte anos depois, lá na cela. Disse que não sabia porque tinha começado, que tinha passado toda a vida perguntando isso a ele próprio e nunca tinha encontrado a resposta. A pessoa que talvez se tenha aproximado mais de uma resposta foi o Brian Masters.
Para ele, tudo voltava aquele pequeno quarto de Frasurg em outubro de 1951. O caixão aberto, o avô que parecia estar a dormir, a mãe que não disse a palavra morte, ao miúdo de 5 anos e 11 meses que passou meses à espera que o avô voltasse e nunca conseguiu compreender porque é que a a morte era um lugar melhor para o qual ele não tinha sido convidado.
Assim, entre 78 e 83, 12 pessoas, talvez mais 15 foram convidadas por ele. Este foi o especial do Denis Nilsen. Espero que tenham apreciado. Comenta aqui para mim o que achaste.