A TRAGÉDIA que MATOU ELIS REGINA aos 36 ANOS — Ele Estava Lá
Havia um homem na vida da Elis Regina naquela época. O seu nome era Samuel e foi ele que estava do outro lado da linha na manhã do dia 19 de janeiro de 1982, quando ouviu a voz dela começar a desaparecer no telefone. A Elise falou com ele e no meio da conversa a voz foi ficando arrastada lentamente até cair no silêncio.
Ele ligou de novo. Ligou de novo, largou tudo e saiu a correr para casa dela. Quando chegou, a porta do quarto estava trancada. Ele arrombou aquela porta com a ajuda do filho mais velho da Eliz, um rapaz de 11 anos, encontrou-a caída no chão. Ajoelhou-se, soprou ar para a boca dela, gritou o seu nome, tentou tudo que um homem pode tentar, mas já era tarde, 36 anos.
E talvez esteja a se perguntando a mesma coisa que o Brasil inteiro se perguntou naquele dia. Como é que ninguém salvou a Elis? Como assim? Ninguém socorreu a maior voz deste país há tempo. Eu conto-te agora e tu nunca mais esquece. Do lado de dentro daquela porta trancada só tinha ela. E do lado de fora, dentro do apartamento, só tinha três crianças pequenas.
A mais nova de 4 anos, o do meio de seis e o mais velho dos 11. Era só o que tinha em casa naquela manhã. Quando Samuel finalmente conseguiu chegar até ela, o tempo já tinha passado. Não tinha mão no mundo capaz de trazer a Elise de volta. Foi por isso é que ninguém a salvou. E foi essa a tragédia. Você conhece esta mulher? A voz dela morou dentro da sua casa toda a vida, no rádio do carro, na novela das 8, nas suas tardes de domingo.
E nessa manhã, ela estava no chão de um quarto em São Paulo, com os dois filhos menores a brincar do lado de fora da porta, à espera que a mãe acordasse e nenhum deles sabia ainda. Se já passou dos 50, lembra-se do dia em que essa notícia chegou? Lembra-se de onde você estava quando ouviu? Ninguém quis acreditar. Era cedo demais.
Era grande demais. era demasiado viva para ter morrido. Hoje vou contar-te seis coisas sobre a Elis, Regina. Seis coisas que a televisão te contou pela metade ou não te disse nunca. Eu não te vou dar uma reportagem. Eu vou sentar-me aqui do seu lado e contar-lhe baixinho como quem conta um segredo guardado há muito tempo.
A primeira, a mulher que enfrentou o general na cara, que chamou os militares de gorila na frente do Brasil inteiro. Esta mulher, quando era menina, chegou à frente de um microfone e não conseguiu cantar. A maior voz deste país começou muda e vai perceber porquê. A segunda, o tamanho exato da glória dela. Por doer à maneira que doeu, precisa de saber de que altura ela despenhou-se.
A terceira, o que estava a acontecer com a Eliz meses antes dessa manhã. Não, a cantora, a mulher, a mãe recém separada, com três crianças e sem conseguir dormir. Isso quase ninguém viu. A quarta-feira, o dia. 19 de janeiro, o telefone que ficou mudo do outro lado da linha e a porta que um menino de 11 anos teve de ajudar a arrombar. Eu vou contar-te como foi.
Devagar. A quinta, o que ficou para trás. Há um filho dela que disse já adulto, que não se consegue lembrar da própria mãe direito, só flashes. E o que ele falou sobre isso aperta o peito do qualquer um. E a sexta, essa é a que muda tudo. Em 2023, a Elise Regina voltou a cantar 41 anos depois de morrer.
E quem cantava ao lado dela era precisamente aquela menina de 4 anos que brincava no chão da sala à espera que ela acordar. Quando entender como isso foi possível, já não se esquece. E já te aviso, há uma parte dessa história lá para o meio que é difícil de ouvir. Prepara-te, mas fica aqui comigo porque é só no fim que tudo faz sentido. Eles Regina Carvalho Costa nasceu em Porto Alegre no dia 17 de março de 1945.
Filha de um pai calado, o Romeu, e de uma mãe de pavio curto, a dona Er, gente simples de uma cidade fria lá no sul do país. Mas desde pequena que a menina tinha uma coisa que ninguém naquele bairro tinha. Quando ela abria a boca, o mundo em redor parava para escutar. Imagina aquela casa.
Um pai que falava pouco, quase nada. Daqueles homens da antiga que guardavam tudo para dentro e uma mãe forte de génio difícil que punha ordem no mundo na base do olhar. Foi entre estes dois modos, os silêncios do pai e o fogo da mãe que a eles cresceu. E não é difícil perceber de onde veio depois aquela mistura que assustava.
Uma mulher que era ao mesmo tempo que o tempestade. Só que antes do mundo parar para escutar, houve um dia em que o mundo quase não não ouviu nada. Porto Alegre, 1952. Umas crianças de 7 anos é levada até uma rádio para cantar. Pensa no tamanho daquilo. Uma menina de 7 anos num estúdio de adultos com aquele microfone enorme à frente dela, daqueles antigos, de metal, mais alto que a cabeça dela.
O silêncio do estúdio, os técnicos à espera, o ponteiro do relógio andando e todos olhando para ela esperando o som sair. E aqui entra a primeira coisa que te prometi. A maior voz que o Brasil já teve aos 7 anos de idade gelou, a garganta fechou, não saiu som nenhum. Pânico. A menina que um dia ia gritar contra toda uma ditadura, no início não conseguia cantar nem para uma rádiozinha de bairro.
Ela ficou ali parada, com a voz presa por dentro do corpo, o coração a bater na boca, sentindo aquela vergonha quente que sobe pelo rosto da gente quando travamos à frente dos outros. Guarda isso, porque lá mais para a frente isso vai explicar muita coisa sobre a mulher que ela virou, sobre a força que ela teve de aprender a pôr para fora no grito, no peito de corpo inteiro e sobre o preço que essa força foi cobrar-lhe lá no fim.
A faísca, porém, ninguém conseguiu a pagar. Tinha alguma coisa dentro daquela menina que era maior do que o medo. Aos 11 anos, a Elise já estava no clube do Guri na Rádio Farropilha, o programa que revelava as crianças que cantavam no sul. E ali a menina que tinha travado não travou mais. A voz saiu e quando saiu toda a gente entendeu na altura em que aquilo não era voz de criança comum.
Era demasiado grande para caber numa rádio de Porto Alegre. Era demasiado grande, na verdade, para caber em qualquer lugar. E aí a história acelera da forma como a vida acelera quando alguém nasce com um grande destino nas costas. Em 1959, ainda adolescente, a Eli fez as malas, deixou Porto Alegre e foi para o Rio de Janeiro gravar os primeiros discos.
No início, não foi fácil. O país ainda não tinha compreendido o que tinha em mãos. Ela cantou num programa de rádio, num programa de televisão, frequentou o beco das garrafas, aquele cantinho do rio onde a bossa nova estava a nascer e onde se cruzava toda a gente que ia fazer a música brasileira.
Foram anos de formiga de quem sobe degrau a degrau sem atalho. Depois veio o São Paulo. A menina virou-se moça. A rapariga foi atrás de uma coisa que ela própria ainda não sabia, o tamanho. E foi aí finalmente que veio o dia em que o O Brasil inteiro descobriu de uma vez o que o pessoal do Sul já sabia há anos. 1965, um festival na televisão na TV Excelor.
Naquela época, o festival de música era acontecimento nacional. A família inteira sentava-se em frente da televisão preto e branco para ver. E numa dessas noites, uma zagaúcha de 20 anos subiu ao palco para cantar uma canção chamada Arrastão. A Eli cantou de braço aberto, de mão para cima, de corpo inteiro, com uma força que ninguém tinha visto numa cantora até então.
Ela jogava a musiquiz para dentro da casa das pessoas, como quem joga a alma. O que aconteceu nessa noite? Um terramoto. Da noite para o dia, aquela menina de Porto Alegre tornou-se a cara da nova música brasileira. Veio o programa dela na TV Record, O Fino da Bossa. E o país que Nês nem sabia o nome dela na véspera. Agora não conseguia mais desligar o aparelho quando ela aparecia.
Você talvez tenha visto. Talvez a sua mãe tenha visto. Foi assim que ela entrou na vida dos brasileiros. E não. E logo a seguir ao arrastão, veio uma parceria que entrou paraa história. Aí juntou-se com outro grande cantor, o Jair Rodrigues. E os dois gravaram um disco ao vivo chamado Dois na Bossa. Este disco fez uma coisa que nenhum disco brasileiro tinha feito antes.
Vendeu 1 milhão de exemplares. 1 milhão. Numa época em que comprar um disco era um luxo de pouca gente. Da noite para o dia, a Elise tornou-se a maior cantora do país e foi ali na televisão, no fino da boossa, ao lado do Jair, que ela criou aquele maneira de cantar que se tornou a marca dela para sempre.
Levantava os braços, rodava as mãos no ar, cantava com o corpo inteiro, como se estivesse a apanhar a música no ar com as mãos e entregando ela dentro da sua casa. Quem viu uma vez nunca mais se esqueceu. E vieram as músicas. Ah, as canções. Para um pouco e pensa em quantas tardes da sua vida tiveram a voz da Eliz no fundo sem ti nem perceber.
Madalena, atrás da porta, águas de Março, como os nossos pais, o bêbado e a equilibrista. eram as músicas que tocavam quando se passava a ferro, quando estavas de coração só partido, quando estava apaixonada, quando estava estava no carro com a janeja lá aberta e o vento a bater, a voz daquela mulher passou a fazer parte da vida íntima de milhões de brasileiros que nunca puseram os olhos nela pessoalmente.
Ela estava dentro da a sua cozinha sem nunca lá ter posto os pés. Foi nessa altura que ela ganhou os dois alcunhas que carregou para a vida inteira. Vinícius de Morais, o poeta, vendo aquela jovem de baixa estatura e génio explosivo, chamou-lhe pimentinha. E o povo vendo aquela maneira de cantar que parecia que queria arrancar o tecto à casa, chamou-lhe furacão.
Mas todo o furacão, sabe-o melhor que ninguém, transporta uma coisa por dentro, uma força que constrói e que também consome. Enquanto o Brasil só via o brilho, só via a explosão. Já lá estava escondida bem no início a semente do que ia acontecer 17 anos depois, numa manhã de janeiro que ninguém esperava. Os anos 70 chegaram e a Elizou um caso à parte, a cantora do país, assim no singular, com artigos definidos, a única que ocupava aquele lugar.
Quando a Eliz gravava um disco, o disco transformava-se numa faixa sonoro da vida de todo o país. Quando ela punha o pé num palco, o palco era demasiado pequeno para ela. Não tinha festival, não havia programa, não havia teatro que coubesse o tamanho daquela voz e daquela presença. Deixa-me dar-te uma ideia do que era aquilo.
A fama de então funcionava de forma diferente da de hoje, desta de número e seguidor na internet. Era uma coisa que entrava na casa de todos ao mesmo tempo, pela rádio e pela televisão e que todo o país ouvia junto na mesma hora, na mesma emoção. Quando a eles lançava uma música, no dia seguinte todo o Brasil estava a cantar aquilo no autocarro, na fila do açoug, na cozinha.
Talvez você mesma estivesse. E pode estar se perguntando: “Mas o que é que tinha de tão especial na voz dela?” Afinal? Eu te explico, à minha maneira. Não era só afinação, não era só potência, era um jeito. A Eli pegava numa música e transformava aquilo num pequeno teatro de 3 minutos. Num verso, ela sussurrava baixinho, como se tivesse a contar um segredo no seu ouvido.
No verso seguinte, ela explodia, abria a garganta e parecia que ia deitar abaixo a parede da sala. Ela brincava com o tempo, segurava uma palavra um instante a mais, só para fazer-te esperar. Saboreavas cada sílaba como quem saboreia uma boa comida de domingo. Quando a Eli cantava uma canção triste, chorava-se sem saber porquê.
Quando ela cantava uma alegre, levantavas-te da cadeira. Era uma voz que mexia com a gente lá no fundo, no peito, num lugar que a música quase nunca alcança. E tem uma coisa sobre a Eliz comenta, mas que mostra o tamanho dela. Ela não era só uma voz bonita, tinha um faro raro para descobrir gente nova.
Foi a Eli que pegou pela mão e apresentou ao Brasil compositores que hoje são gigantes da a nossa música. O Milton Nascimento, o Ivan Lins, o João Bosco e o próprio Belkior, que ainda vai ouvir falar outra vez daqui a pouco. Ela escutava música de um desconhecido qualquer, sentia que tinha ali ouro escondido lá dentro, punha aquela voz por cima e pronto, o desconhecido tornava-se nome nacional.
A Elice fez a sua carreira e de quebra fez a carreira de meio mundo juntamente com a dela. E no meio de toda esta glória, ela também amava, sofria e brigava como qualquer mulher. O primeiro grande amor foi o Ronaldo Bôcoli, um compositor de bossa nova, 16 anos mais velho que ela. Casaram em 1967, quando a Eléis tinha 22 anos foi-nos um casamento de querelas homéricas, muitas vezes em público, porque a pimentinha não levava desaforo paraa casa de homem nenhum.
Desse amor nasceu o João Marcelo, o primeiro filho, em 1970. E quando este casamento acabou, a Elise já tinha-se apaixonado por outro, o pianista da própria banda, o César Camargo Mariano. Com o César, o casamento surgiu a par de uma parceria musical de verdade. Os dois, com os músicos da banda, criaram uma das sonoridades mais bonitas que a música brasileira já produziu.
E desse amor vieram os outros dois filhos, o Pedro em 1975 e a Maria Rita em 77. Grava bem estes dois nomes, o Pedro e a Maria Rita, porque são estes dois mais novos que vão estar mesmo no centro da parte mais difícil de toda esta história. Em 1974, aconteceu uma daquelas coisas que só acontece uma vez na história de um país.
A Elizou até Los Angeles, nos Estados Unidos, e gravou um disco ao lado de Tom Jobim, o maior compositor que o Brasil já produziu, o homem da Rapariga de Panema. Era pimentinha de igual para igual com o génio. Desse encontro saiu Águas de Março, aquela que vai dizendo é pau, é pedra, é o fim do caminho e que até hoje é estudada no mundo inteiro como uma das coisas mais belas que a música já fez em qualquer parte do planeta.
Mas ser a Eliz época não era simples como hoje parece, de longe. Porque o Brasil vivia debaixo de uma ditadura militar. Havia gente sendo presa, torturada, exilada, desaparecendo por muito menos do que cantar uma canção. E a Elise era engajada. Ela criticava o regime, ela chamava os militares de gorila na cara.
Mas depois vem uma parte desta história que muita gente prefere esquecer e que mostra como aquela época era um campo minado. Em 1972, no ano em que o Brasil comemorava os 150 anos da independência, o governo militar pressionou a maior cantora do país para gravar uma chamada de televisão, convocando o povo a cantar o hino nacional numa grande festa cívica.
Conta-se que houve mesmo ameaça de prisão se ela se recusasse. A Elis gravou e pagou um preço altíssimo por isso, porque à esquerda, os artistas, a turma que estava do lado dela sentiu-se traída. O carunista Rinfil, que tinha um irmão exilado, fugido do país para não ser morto, pegou na Elis e enterrou-a simbolicamente num cemitério que ele desenhava no jornal, os citérios dos que tinham-se vendido ao regime.
Imagina o tamanho disso. A mulher que dizia palavrões general de gorila a ser acusada pelos próprios companheiros de se terem ajoelhado à ditadura. E a conta veio em praça pública. No festival Fo 73, em São Paulo, num teatro lotado, a Elise subiu ao palco e foi vaiada. Gente gritando coisas como Vai Cantar nas Olimpíadas do Exército.
A maior voz dos Brasil, humilhada perante todo o mundo, ao vivo. Foi tão pesado que outro artista, Caetano Veloso, precisou pedir do meio da plateia que respeitassem-na e respeitassem a música brasileira. A eles ficou presa no meio de um fogo cruzado, vigiada e pressionada pelo regime de um lado e atacada, vaiada, enterrada pelos próprios amigos do outro.
E ninguém parava para ver o quanto aquilo magoava por dentro uma mulher que só queria, no fundo, poder cantar em paz. E foi mais ou menos nesta fase, ferida pelos dois lados, que a Elizes fez talvez o trabalho mais belo de toda a carreira dela. Em dezembro de 1975, ela estreou um espetáculo chamado Falsos Briljantes, no Teatro Bandeirantes, em São Paulo.
Guarda o nome deste teatro, por favor, guarda, porque ele vai voltar nesta história e quando voltar vai doer. Neste espetáculo, com música, teatro e até um clima de circo, a Eliz contava a história da própria vida em cima do palco, da menina que cantava nas rádios de Porto Alegre até à estrela que ela tinha virado.
Ela cantava, ela representava, ela trocava de figurino em frente ao público, ela ria e chorava ali. Foi um sucesso tão absurdo que ficou em cartaz mais de um ano. Mais de 250 apresentações, quase 300.000 pessoas passaram para ver. E foi nesse espetáculo que a Elisa apresentou pro Brasil uma música que ia colar para sempre em nome dela.
Uma música de um compositor cearense ainda quase desconhecido chamado Belkior. O nome da música era Como os nossos pais. Decora esse título também, porque é com esta música, exatamente com ela, que esta história vai terminar. De uma forma que ninguém, em 1975 poderia sequer sonhar. E presta atenção nesta ironia que só a vida sabe arrumar.
Tal como os nossos pais, é uma música que fala exatamente disso, de pais e filhos, de uma geração a olhar para outra, de como acabamos parecido com quem veio antes, quer se queira quer não. A Elice cantou esta canção sobre pais e filhos em 1975, com os seus três filhos ainda pequeninos em casa.
Quase 5 anos depois, ia ser precisamente essa música, esta sobre pais e filhos, a escolhida para juntar a voz dela com a voz de uma das filhas. Mas isso é lá no fim. Cada coisa no seu. E a redenção Zesis, depois de toda aquela humilhação pública, veio também por uma música. Em 1979, ela gravou o bêbado e a equilibrista de João Bosco e Aldir Blan.
A letra pedia nas entrelinhas o regresso dos exilados, incluindo a do irmão do próprio Enfi lá do México, e chorava as viúvas, dos que tinham morrido às mãos da repressão. Quando a eles chamou o Enfio para ouvir a gravação o homem que tinha enterrado, ela emocionou-se tanto, mas tanto, que ligou na mesma hora para o irmão exilado e disse uma frase que ficou para a história.
Agora temos um hino e quem tem um hino faz uma revolução. Naquele instante, a Elise e o Enfio fizeram as pazes. E aquela música deixou de ser uma música. Tornou-se o hino de um país inteiro pedindo amnistias, pedindo os filhos de volta, pedindo o fim de tudo aquilo. A voz que tinha sido vaiada num palco tornou-se a voz da liberdade de um povo.
Esse era o tamanho dela. E não pense que a Eliza era grande só dentro do Brasil. Percorreu a Europa, cantou em Milão, em Roma, em Paris, em Barcelona. E lá fora ela fazia questão de dizer aos estrangeiros uma coisa que ela transportava no peito, que o Brasil não era só aquele país do carnaval e do futebol que eles imaginavam, que o Brasil tinha uma música séria, profunda, de gente grande.
A Elise era assim, defendia o seu país e a música dela com a mesma fúria com que cantava. Encarava general, encarava público que vaiava, encarava crítico estrangeiro de cara lavada. A única coisa que ela não conseguia encarar ali no fundo, no escuro, era o próprio cansaço. Mas isso o Brasil só ia descobrir tarde demais.
E aqui entra a segunda coisa que eu prometi-te, o tamanho exato desta glória. Entre 1960 e 1,80, a Eliz gravou 18 discos de estúdio e mais seis em direto. 18 discos. Cantou ao lado de Tom Jobim. revelou o compositor que hoje é gigante, como Belkior, o Ivan Lins, o Milton Nascimento, foi capa de tudo, foi recorde de assistência, foi o maior nome de cada festival em que entrou.
Empurrou, com a sua própria voz o fim de uma ditadura militar. Aos 35 anos de idade, era, sem qualquer discussão possível, a maior cantora que aquele país já tinha produzido em toda a sua história. Era tudo isso. Guarda bem esta imagem dela no topo do mundo, porque em Janeiro de 82 tudo isto terminou numa única manhã.
Mas tem uma coisa que o brilho sempre esconde. Lembra-se da menina de 7 anos que travou na frente do microfone lá no início dessa história? Pois é, aquela força toda que ela aprendeu a colocar para fora, o furacão, o grito, a entrega de corpo inteiro em cada música tinha um preço caro e o preço era pago longe das câmaras dentro de casa, quando as luzes apagavam-se e a plateia ia embora para casa dormir.
Por fora, em 1980, a vida da Elice parecia perfeita, famosa como ninguém neste país. casada com César Camargo Mariano, um dos maiores pianistas que o Brasil já teve, três filhos lindos, uma carreira no topo absoluto. Era a foto de uma mulher que tinha tudo o que uma pessoa pode sonhar em ter.
E é exatamente por isso que o que vem agora é tão difícil de compreender. Porque quem tem tudo isto, como é que chega ao chão de um quarto sozinha aos 36 anos de idade? A resposta começa em 1981. O casamento com o César acabou. E quando acabou, a Elice ficou com a parte mais pesada e mais bonita ao mesmo tempo. Os três filhos, o João Marcelo, de 10 anos do seu primeiro casamento com o compositor Ronaldo Bôcoli.
O Pedro de cinco e a Maria Rita, a mais nova, ainda pequenina, com três para 4 anos de idade. Para um segundo, imagina o quadro. Uma mulher recém separada, três crianças pequenas dentro de casa, cada uma com uma necessidade, e ao mesmo tempo a maior cantora do país, com um espectáculo marcado, disco novo para gravar, público esperando do outro lado do Brasil, jornalista atrás de entrevista, todo o mundo a querer um pedaço dela.
Quantas mulheres que conhece que já tiveram que segurar o mundo às costas sozinhas? Pois é. A Elise era uma delas, só que com o país inteiro de olho. Se a voz da Elis parte fez da sua vida em algum momento, se já cantou junto com ela num rádio, numa festa, a lavar a loiça numa tarde qualquer, faz uma coisa por mim.
Deixa o o teu like aqui em baixo e subscreve o canal. Não é por número, é para essa história chegar a mais pessoas que cresceu a ouvi-la. Agora vem comigo devagar, porque é aqui que tudo começa a mudar. Havia uma Elis que o Brasil inteiro conhecia, a do palco, a do grito, a do furacão, a que enfrentava a general.
E havia uma outra Eliz quase ninguém via. A mãe que chegava a casa de madrugada depois do concerto com a maquilhagem ainda no rosto e ainda passava à porta do quarto dos filhos para ver se estavam a dormir direitinho. A mulher de 36 anos que carregava sozinha o peso de ser ídolo de um país de dia e mãe de três crianças de noite, sem terem quem revesasse com ela.
Agora preciso te contar a terceira coisa que te prometi. A fratura na vida da Elice não não tem nada de escândalo, de quezília pública, de traição de novela. É uma coisa silenciosa destas que acontecem dentro de casa e quase ninguém vê. E comum, demasiado comum. Talvez doa tanto precisamente por isso. A maior voz do O Brasil, no auge absoluto de tudo, era uma mulher exausta, acabada de separar, a cuidar de três filhos, cobrada para ser perfeita em palco e perfeita em casa, sem ninguém para dividir o peso da verdade. E nos últimos tempos, ela tinha
começado a não conseguir dormir mais. E aqui, tudo o que admirava na pimentinha muda de sentido. Aquela força em palco, aquele jeito de cantar como se toda a vida dependesse de cada nota. Não era só talento, era uma mulher a dar tudo o que havia, todos os santos dias, até não sobrar mais nada para ela própria.
O furacão que encantava o Brasil estava por dentro ficando sem chão e ninguém via, porque um furacão só se vê de fora. E é a partir daqui que a Eliz deixa de ser a estrela inalcançável lá no céu e vira uma pessoa, uma pessoa de carne e osso, parecida com tanta gente que te conhece, uma mulher cansada que sorria nas fotos, talvez parecida consigo em alguma fase da sua vida.
No meio desta casa cheia e cansada, tinha um menino prestando atenção a tudo, o João Marcelo, mais velho, 11 anos. A idade em que já compreendemos quase tudo o que acontece à volta, mas ainda não tem força nenhuma para carregar o que entende. Guarda o nome dele, por daqui a pouquinho vai ser este menino de 11 anos que vai precisar de fazer a coisa mais pesada que uma criança pode fazer na vida.
Lembra-se do telefone que eu lhe contei lá no início? Daquela voz que foi desaparecendo na linha numa manhã de janeiro? Pois é, esta manhã está a chegar. Mas antes de te levar de volta para ela, preciso de te levar mais para trás ainda. Algumas semanas, para os dias que a televisão nunca mostrou. Os dias em que a maior voz do Brasil estava em silêncio, chegando ao fim, sem que ninguém percebesse, porque o fundo do poço da Elizonteceu longe de qualquer holofote, sem manchete nenhuma.
Foi uma coisa de madrugada, quando toda a casa dormia e ela ficava acordada sozinha. O apartamento no bairro do Jardim Paulista ficava quieto depois das crianças apagavam. E era ali, no escuro, que aparecia eles que ninguém via. A mulher que tinha cantado para estádios cheios, para milhares de pessoas que gritam o nome dela, passava as madrugadas acordada, andando de uma divisão para outra da casa, sem conseguir desligar a cabeça.
Olha que contraste cruel. De dia, 20.000 pessoas. De madrugada, ela e o silêncio, o furacão parado, sem palco, sem plateia, sem grito, apenas a casa sossegada e o cansaço de uma vida inteira vivida no volume máximo. E cada noite parecia mais pesada que a anterior. Menos sono, mais cobrança dela própria, sempre dela própria, antes de qualquer outra pessoa.
tinha disco novo para pensar, tinha três filhos para criar bem, tinha o peso de ser a eles regina 24 horas por dia, todos os dia, sem nunca ter o direito de ser só uma mulher de 36 anos, com vontade de descansar um pouco. E não tinha do lado dela quem dividisse esse peso de verdade.
E o relógio que já ninguém via estava a correr. Faltavam poucos dias, poucos. E a eles seguia a vida normal, os compromissos, os filhos, a casa, o pequeno-almoço, sem saber que estava tão perto do fim. Ninguém sabia. Não veio aviso nenhum, nenhum sinal escrito no céu, nenhuma música triste a tocar ao fundo para avisar que era o último ato.
E é por isso, talvez, que esta história mete-nos tanto medo, porque não foi tragédia anunciada daquelas que dá para ver chegar de longe e preparar-se. Foi a vida comum banal de cada dia, que de repente num instante sem pedir licença, tornou-se o pior dia de sempre. E aqui vou plantar-te uma coisa.
Guarda bem, porque ela volta lá no fim e quando voltar tu vai sentir um arrepio a subir pela nuca. Naquelas semanas ninguém imaginava o que estava para vir, nem a eles. Mas tem uma coisa que hoje sabemos e que em 1982 era completamente impossível de imaginar. A voz da Eliz não ia parar quando ela parasse. Essa voz ia continuar a passar na rádio, no cinema, dentro da casa dos brasileiros por 40, 50 anos.
E um dia, num lugar e de um maneira que ninguém naquela época conseguiria nem sonhar, ela ia voltar a cantar ao vivo, lado a lado, com alguém que naquele preciso momento ainda era uma criança pequena a brincar no chão da casa dela. Segura firme essa informação. Por fora, os dias continuavam comuns, como em qualquer casa.
Tinha café na cozinha de manhã, tinha a Maria Rita pedindo colo, da maneira que uma criança de 4 anos pede. Tinha o Pedro de cinco correndo pela sala atrás de não sei o quê. Estava o João Marcelo a chegar da escola com a mochila às costas. Uma casa de mãe com três filhos, igual a tantas que já conheceu na vida, igual talvez à sua.
E ninguém olhando de fora imaginava que aquela mulher, fazendo as coisas mais comuns do mundo, estava tão perto do fim. E essa é, no fim de contas, a parte mais cruel da tudo. A Eliz enchia teatros com 20.000 pessoas a gritar o nome dela até ficarem roucas. Mas na altura mais difícil de madrugada dentro de casa, ela estava sozinha com o seu próprio cansaço.
Lembra-se da menina de 7 anos que travou em frente ao microfone com a voz presa por dentro? 40 anos depois tinha de novo uma coisa entalada no peito dela, mas o que travava agora não saía com um grito nem com aplauso, era o peso de uma vida inteira sem pausa. E há uma frase, uma frase real gravada que a Elise disse mais ou menos duas semanas antes dessa manhã.
foi numa das últimas entrevistas grandes que ela deu num programa da TV Cultura falando sobre os discos que tinha gravado, sobre o que ia sobrar dela depois de ela ir, disse-lhes com aquela lucidez que por vezes assustava nela. É o único legado, certo? A longevidade do disco é uma coisa que pode servir de testemunha de defesa, como também pode lascar uma condenação histórica. Duas semanas.
Foi só o que separou esta frase da manhã do dia 19. E quando ouvir lá à frente o que aconteceu com a voz dela depois, tu vai voltar a essa frase e vai perceber porque é que eu te pedi para guardá-la. Esse era o fundo do poço da Elise Regina. E olhe que não tinha a ver com dinheiro, nem com vergonha de nada. Era uma das mulheres mais mais admiradas de todo o país, no topo absoluto de tudo.
Exausta, sem dormir, agarrada ao mundo às costas sozinha. E há duas semanas do fim, sem que ninguém se apercebesse, nem ela própria. E aqui entra a quarta coisa que te prometi. O dia em que tudo mudou, naquela manhã que eu te contei lá no início. Agora vou levar-te para dentro dela, inteira, devagar. 19 de janeiro de 1982, uma terça-feira comum de verão.
Na noite anterior, a Elis tinha recebido alguns amigos em casa. Estava abalada, cansada, com a cabeça pesada de tudo o que carregava e mais uma vez conseguiu dormir direito. Já sabe como a começou a manhã seguinte. O Samuel ao telefone, a voz da Elice ficando arrastada até desaparecer na linha, ele ligando de novo e de novo e saindo correndo paraa casa dela com o coração na mão.
Mas o que encontrou quando entrou naquele apartamento? Isso eu ainda não te disse bem. A cena, à primeira vista parecia normal, boa demais para ser o que era. O Pedro de 6 anos e a Maria Rita, de quatro estavam brincando na sala, tranquilos, espalhados pelo chão com os brinquedos deles, à espera que a mãe acordasse, porque para duas crianças daquela idade era apenas mais uma manhã em que a mãe tinha dormido até mais tarde.
Como mãe cansada às vezes dorme. A porta do quarto da Eli estava fechada e não abria. O Samuel chamou João Marcelo, o menino de 11 anos, o mais velho. E foram os dois, um homem adulto e uma criança, que arrombaram aquela porta juntos. Pensa nisso. Um rapaz de 11 anos a ajudar a derrubar a porta do quarto da própria mãe.
A Eli estava no chão, não respirava. As mãos dela já estavam frias, mas o corpo ainda estava quente. O Samuel ajoelhou-se ali ao lado e tentou trazê-la de volta, fazendo respiração boca a boca, gritando o nome dela no meio do quarto. Eles, eles, como se a força do grito pudesse desfazer o que já tinha acontecido. E enquanto gritava do outro lado daquela porta arrombada, duas crianças pequenas continuavam ali à espera, sem compreender o barulho, sem compreender a correria, levaram a Elizas para o hospital, mas já era tarde, não havia
mais o que fazer. Ao meio-dia daquele no dia 19 de janeiro, a maior voz que o Brasil já teve foi declarada morta, 36 anos de idade. Depois vieram os exames e a conclusão foi das mais difíceis de aceitar, precisamente porque não tinha vilão para culpar, nem conspiração nenhuma por trás. Foi uma overdose acidental, uma mistura de bebida com cocaína e calmantes numa só noite no corpo de uma mulher exausta que não tinha histórico daquilo, que não era viciada de coisa nenhuma.
Teve quem desconfiasse do relatório na altura, até porque ele foi assinado pelo mesmo médico legista que anos antes tinha mascarado a morte do jornalista Vladimir Herzog. Mas os biógrafos que estudaram a fundo a vida dela são unânimes e descartam tanto a teoria do assassinato como a do suicídio. Foi um acidente.
O produtor Nelson Mota, que com ela conviveu durante anos, resumiu de uma forma que fica. Elis faleceu por acidente. Alguma coisa que só Deus sabe que correu mal ali. Foi uma combinação que em quase qualquer outra noite talvez não te tivesse feito nada demais. Naquela noite no corpo cansar dóes daquela mulher fez tudo.
Eu vou parar aqui um segundo porque esta parte merece o silêncio. Pensa naquela cena de novo, mas não na cantora. Esquece a estrela por um instante. Pensa nas duas crianças. O Pedro e a Maria Rita, 6 e 4 anos, a brincar no chão da sala, do lado de fora de uma porta fechada, à espera a mãe acordar para fazer o café, sem compreender, sem saber que do outro lado daquela porta, a vida deles já tinha mudado para sempre e que nunca mais nada ia ser igual.
Só queriam que a mãe levantasse. Deixa isso assentar um momento, não tenha pressa, porque é uma imagem que depois de entrar na cabeça da gente já não sai. Naquele meio-dia, o O Brasil não perdeu apenas uma cantora. Perdeu a voz que tinha cantado pela liberdade dele, que tinha enfrentado o general na cara, que tinha embalado uma geração inteira desde o berço até ao casamento.
Mas três crianças perderam uma coisa que nenhum disco, nenhum hino, nenhuma homenagem, nenhuma estátua ia conseguir devolver. Perderam a mãe. E eu pergunto-te, de coração, já parou para pensar no que fica dentro da cabeça de uma criança de quatro anos que esperou pela mãe acordar? E a mãe nunca mais acordou? A notícias caíram sobre o país como um raio em céu limpo. Ninguém acreditava.
Era demasiado nova, demasiado grande, demasiado viva para ter morrido assim. Do nada, as rádios interromperam a programação para dar o aviso. A televisão parou. Nas ruas, gente que nem se conhecia parava para confirmar com o outro se era verdade. Vizinha batia à porta de vizinha. O telefone tocava na casa de todos ao mesmo tempo, como se cada brasileiro tivesse perdido alguém de dentro da própria casa, alguém da própria família.
Por, de um certo modo era isso mesmo. A Eli vivia na casa de todos pela voz. E, nesse meio-dia, a casa do Brasil inteiro ficou em silêncio de uma só vez. O velório foi no teatro Bandeirantes, em São Paulo. E aqui, atenção, porque é de cortar o coração. Lembra-se deste teatro? Foi exatamente ali 7 anos antes de a Alice tinha subido ao palco para contar, cantando, rindo e chorando, a história da própria vida no falso espetáculo brilhante.
O mesmo palco onde ela tinha mudou de figurino, contando quem ela era, de onde ela tinha vindo. O mesmo palco que esteve em cena mais de um ano com a casa cheia. Agora recebia o caixão dela. 15.000 pessoas passaram por ali para se despedir. Gente comum que nunca tinha falado com ela, mas que sentia que estava a perder alguém da própria família.
E quando o corpo dela seguiu pro cemitério do Morumbi, 100.000 pessoas acompanharam o cortejo pelas ruas da cidade. 100.000 pessoas a andar atrás dela. O Brasil inteiro parou para chorar a Pimentinha. Eu sei que esta parte aperta o coração. Se chegou até aqui comigo, faz uma coisa por mim. Escreve aqui em baixo nos comentários o nome de uma canção da Elizou a sua vida.
Pode ser uma só. Quero ler cada uma delas. E se esta história te está a tocar, subscreve o canal e fica comigo, porque ainda falta a parte mais importante de todas, a parte que quase ninguém te contou sobre o que aconteceu depois, porque a história das não terminou naquele meio-dia de janeiro. Por mais estranho que pareça, foi ali que começou a parte mais surpreendente de toda esta história, a parte que envolve aquelas três crianças e uma voz que simplesmente se recusou a morrer.
E aí a vida teve de continuar. Mas diz-me uma coisa, como é que continua? Numa casa onde na semana anterior tinha uma mãe a trautear na cozinha. De repente tinha três crianças e um silêncio que não cabia em lado nenhum. O João Marcelo com 11 anos que tinha ajudado a arrombar aquela porta e que ia carregar aquela cena para o resto da vida.
O Pedro com seis que ainda esperava a mãe aparecer no corredor a qualquer momento, dizendo que tinha sido tudo um engano. E a Maria Rita, com quatro, demasiado pequena para compreender que a mamã foi para o céu, queria dizer que ela não ia voltar nunca mais para o pequeno-almoço, nunca mais. Lá fora, o Brasil chorou a perda do ídolo e logo seguiu a vida, como o mundo sempre faz, porque o mundo não pára ninguém.
Mas dentro daquela casa, a perda não tinha data para terminar. Ela voltava no aniversário sem a mãe, na formatura sem a mãe, no dia de festa sem a mãe e voltava também, sem aviso em cada música dela que tocava na rádio no meio de uma tarde qualquer, enchendo a casa com a voz de quem já não estava ali. E aconteceu uma coisa estranha com a Eliz depois de ela morrer.
Em vez de ser esquecida, como acontece com quase toda a gente, ela só foi crescendo. Cada ano que passava, o O Brasil entendia um pouco mais o tamanho do que tinha perdido nessa manhã. A menina de Porto Alegre, que travou na frente do microfone, virou com o tempo um consenso nacional, uma daquelas poucas coisas em que todos concordam naquele país.
A maior cantora que ele já produziu, sem discussão, sem rival à altura. E os três filhos cresceram, cada um à sua maneira, cada um carregando o peso e a herança daquele nome enorme nas costas. E depois aconteceu uma coisa bonita e dorida ao mesmo tempo, um a um. Todos os três foram parar exatamente ao mesmo lugar de onde a mãe deles nunca tinha conseguido sair.
A música, ó, como se a música fosse a única forma que eles encontraram de estar perto de uma mãe que já não estava ali. O João Marcelo tornou-se produtor musical, montou gravadora e anos mais tarde ia cuidar com as próprias mãos da obra da própria mãe, relançando, remasterizando os discos dela, incluindo o lendário Elias Tom, para as novas gerações poderem ouvir.
Imagina o que é? Um filho a passar a vida adulta cuidando da voz da mãe que perdeu o menino. O Pedro virou-se cantor e ainda novo formou uma banda juntamente com o irmão mais velho. E a Maria A Rita, a mais nova, foi estudar para fora, nos Estados Unidos e só muito mais tarde teve a coragem de cantar profissionalmente, como se ela precisasse de anos, de muitos anos, para reunir a coragem de enfrentar a comparação inevitável com a mãe.
Mas quando ela finalmente abriu a boca para cantar, o O Brasil sentiu um arrepio, porque tinha qualquer coisa ali na voz da filha que lembrava demasiado a voz da mãe. E aí vem a quinta coisa que te prometi, a coisa que ficou e que nunca teve forma de ser resolvida. Aqui não há arrependimento da Eliz contar.
Ela não teve tempo nem de se arrepender de nada. Foi tudo demasiado rápido. O que ficou por resolver foi o tempo. O tempo que ela e os filhos não tiveram juntos, o tempo que foi roubado deles naquela manhã. Anos depois, já adulto, já cantor de respeito, com uma carreira própria, o Pedro Mariano deu uma entrevista falando da mãe e ele disse uma frase que resume esta dor toda numa só.
Ele disse com aquelas palavras dele próprio. Tenho na a minha memória flashes dela, mas nada muito claro, o que é muito frustrante. Pára nesta frase, um segundo: Deixa-a pesar. Um homem adulto, filho da mulher, cuja voz todo o país conhece de cor, de tanto ouvir na rádio. E ele mal consegue lembrar-se da própria mãe.
Ele tinha 6 anos quando ela partiu. O que sobrou para ele foram flashes soltos e nem sabe bem se são lembranças de verdade dele com ela ou se são imagens que viu depois na televisão, igual a qualquer outro brasileiro. Olha o tamanho da crueldade disto. conhece a Elise Regina, a cantora, como o Brasil inteiro conhece, mas a mãe, a mãe dele, quase não teve tempo de guardar dentro da memória.
E o mais velho, o João Marcelo, aquele menino de 11 anos da porta, fez uma coisa já adulto que talvez seja o gesto mais belo e mais doído desta história inteira. Em 2019, escreveu um livro sobre a mãe e o título do livro é o que mais dói. Repara bem no título. Ele chamou-lhes e eu, de 11 anos, 6 meses e 19 dias com a minha mãe.
Contou dia por dia o tempo exato que teve com ela. Por quando que teve foi pouco, guarda cada dia como um tesouro e conta. Conta nos dedos, conta no calendário para não esquecer. 11 anos, 6 meses e 19 dias. Foi tudo o que ele teve e ele sabe que de cor. Os filhos cresceram, tornaram-se adultos, casaram, tiveram os seus próprios filhos.
A Elis virou estátua, virou nome de teatro, tornou-se matéria de escola, tornou-se capítulo de livro de história da música. Parecia que a história tinha encontrou finalmente o seu fim possível, uma lenda eterna lá no alto e uma família que aprendeu a duras penas, ano após ano, a viver com ausência. A saudade tinha encontrado o seu lugar.
Mas aí em 2023 aconteceu uma coisa que ninguém, ninguém neste mundo poderia ter imaginado. Lembras-te daquele pormenor que eu te pedi para guardar lá no meio do vídeo sobre a voz que não ia morrer junto com ela? Chegou a hora dele. Então deixa-me te contar como é que a Elis Regina vive hoje.
Por quê? Por mais estranho que pareça falar assim de uma mulher que faleceu em 1982, nunca se foi verdadeiramente embora deste país. Ela vive cada vez que alguém liga o rádio e como os nossos pais começa a tocar. Vive na voz que embala o bar de madrugada quando toca o bêbado e a equilibrista. Vive nas escolas, nos documentários, na boca de cada cantora nova que aparece a dizer que sonha em cantar como a Eliz.
Lembra-se da menina de 7 anos que travou em frente ao microfone lá no início desta história toda? Pois é. A voz que quase não saiu naquele dia virou a voz que nunca mais parou de tocar nesse país. Este é o tipo de coisa que só a vida sabe escrever. E não foi só na rádio é que ela continuou. A voz dais tornou-se trilha de dezenas de novelas em todas as estações.
Entrou no cinema, em publicidade, em abertura de programa. Há pessoas que nasceram 20, 30 anos depois dela morrer e cresceu a pensar que a Elise era cantora de hoje, de tão presente que aquela voz continuou. Os discos dela nunca saíram de catálogo. E aí está a coisa mais bonita e mais triste ao mesmo tempo. Quanto mais o o tempo passava, mais viva ficava a voz e mais distante ficava a mulher.
A voz não envelheceu um único dia. A mulher parou no tempo para sempre, congelada aos 36 anos. Para todos os que vieram depois, a Elisa é eterna e jovem. Só os três filhos dela é que sabem o preço exacto dessa externidade. E foi essa voz que continuou a tocar depois da morte dela, que tornou possível uma coisa que em 1982 seria pura ficção científica, coisa de filme.
Eu já te vou contar direitinho como foi, mas adianto-te, em 2023, o Brasil inteiro parou em frente da televisão em horário nobre e chorou junto outra vez. Porque é que a Héli voltou? Não em foto antiga, não em gravação velha. Ela voltou cantando, cantando ao vivo com alguém ao lado dela. Segura mais um bocadinho que a gente já chega lá.
Antes, é preciso entender o caminho que a mais nova fez para chegar nesse dia. A Maria Rita, aquela menina de 4 anos que brincava ao lado de fora da porta, cresceu e depois de muito tempo fugindo à comparação com a mãe, ela um dia encarou o microfone, o mesmo objeto onde a Eliz travou de medo aos 7 anos e onde a Eliz brilhou como ninguém depois.
Imagina o peso disto para ela. E quando a Maria Rita cantou, o Brasil ouviu o impossível. Pedaços da Elizha. Ninguém ali estava a imitar ninguém. Aquilo era herança. Era sangue a cantar. E assim os anos foram passando lentamente. A lenda só crescia. Cada nova geração descobria a Eliz à sua maneira e chegava na mesma conclusão de todas as anteriores.
Os filhos tornaram-se artistas respeitados, donos do seu próprio nome, tiveram as suas próprias vidas e os seus próprios filhos. A casa do Jardim Paulista tornou-se passado. A dor virou saudade, que é a dor que já aprendeu a carregar sem chorar todos os dias. Parecia que a história tinha finalmente chegado no seu repouso. Uma cantora eterna no céu da música brasileira.
Uma família que seguiu em frente e o tempo devagar, fazendo o que o tempo sempre faz com tudo. Mas há um objeto que atravessa toda a história, desde o primeiro minuto ao último. O microfone foi diante de um microfone que a menina de 7 anos gelou de medo. Foi agarrada num microfone que a pimentinha gritou contra a ditadura sem medo de nada.
Foi falando num microfone que ela disse duas semanas antes de morrer aquela frase sobre o legado e a longevidade do disco. Ia ser de novo em frente de um microfone que 41 anos depois dessa manhã aconteceria o impensável. Em 2023, procuraram a Maria Rita com uma proposta. E eu queria que se imaginasse o que deve ter passado pela cabeça desta mulher quando ela ouviu o que estavam a oferecer.
A filha que tinha 4 anos quando a mãe morreu, a que mal guarda uma verdadeira recordação, a que cresceu a ouvir a própria mãe pelo rádio, como se a mãe fosses uma estranha qualquer cantando para um país inteiro, menos para ela, pois ofereceram a esta mulher uma coisa que ela nunca, nunca na sua vida inteira, tinha podido fazer. Cantar ao lado da própria mãe.
Esta é a sexta coisa que te prometi. A que muda tudo. Uma grande campanha publicitária usou inteligência artificial para te recriar a voz e a imagem da Eliz Regina e colocou-a a cantar como Nossos Pais em Dueto ali na tela com a Maria Rita. Lembra-se dessa música? Foi a Eli que a apresentou ao Brasil lá em 1975, naquele espetáculo em que ela contava a própria vida em palco.
Quase 50 anos depois, a mesma canção agora cantada por mãe e filha lado a lado, dividindo o mesmo microfone, olhando uma para a outra pela primeira vez na vida, 41 anos depois daquela manhã de janeiro em que tudo se calou. Lembra-se do que eu lhe pedi para guardar lá atrás quando falei das madrugadas dela sem sono? que a voz da Elis ia voltar a cantar um dia num lugar que ninguém em 82 conseguia imaginar e ao lado de alguém que naquela época era ainda uma criança a brincar no chão.
Era isso, era a Maria Rita. A menina de 4 anos que esperou que a mãe acordasse conseguiu finalmente aquilo que nenhum dinheiro do mundo, nenhuma reza, nenhuma vontade tinha podido dar-lhe em 41 anos. Ela ouviu a voz da mãe a responder à voz dela, cantando. Ali do lado houve gente que achou lindo e houve gente que achou que não se devia mexer assim com os mortos, que há coisa que devia ficar quieta.
Esse debate existe e é justo. E não vou aqui dizer quem tem razão, mas garanto-te uma coisa. Nessa noite, os milhões de brasileiros que estavam em frente da televisão não estavam a pensar em tecnologia, nem em certo ou errado. Estavam de mão no peito, a chorar, a ver uma filha cantar com a mãe que perdeu quando tinha 4 anos de idade.
E quem já perdeu a própria mãe, tu que me estás a ouvir, talvez entenda sem precisar de explicação nenhuma, o que aquela mulher deve ter sentido ao ouvir aquela voz de novo, respondendo à dela. E quem sabe o verdadeiro fim desta história seja este. Não a morte, não a tragédia daquela manhã de janeiro, mas uma filha que tinha 4 anos tornou-se mulher de mais de 40, ouvindo a própria mãe cantar ao lado dela.
O que a Maria Rita não teve em vida? O colo. A voz no ouvido, a mãe presente no dia a dia, a vida de um forma torta e impossível. Devolveu um bocadinho quase meio século depois. Não devolveu a mãe, claro, isso não tem como, mas devolveu-lhe a voz por alguns minutos. E para quem nunca teve quase nada da mãe, acredita: alguns minutos podem valer o mundo inteiro.
A eles Regina morreu aos 36 anos no chão de um quarto com os filhos à porta da porta. Isso nunca ninguém vai poder mudar, nem a tecnologia mais avançada do mundo. Mas a voz dela atravessou 41 anos inteiros e voltou a cantar com o filha que mal teve tempo de conhecer. A mãe se foi, a voz não. Tinha uma menina lá em Porto Alegre que não conseguia cantar de tanto medo.
Esta menina virou a maior voz que o Brasil já teve. Fez um país inteiro chorar e cantar junto. Enfrentou o general, foiada e depois redimida. empurrou o fim de uma ditadura e foi-se embora cedo demais, cedo demais, deixando três crianças pequenas e uma saudade que não passou até hoje. Mas no fim de tudo foi a voz dela que ganhou do tempo.
A menina que um dia travou na frente de um microfone, sem conseguir emitir um único som tornou a voz que nem a morte conseguiu calar. Para um zigzum e pensa nisso. Se chegou até aqui comigo, se esta história mexeu de verdade consigo, faz uma última coisa. Não guarda só para si, manda para uma irmã, a uma amiga, ao seu marido, para alguém que também cresceu a ouvir a Eliz na rádio.
Porque há gente que merece ser recordada pelo que viveu de verdade e não só pelo que aparecia na televisão. Inscreve-te, ativa o sininho e fica comigo que amanhã tenho outra história destas para te contar. Yeah.