O Fim de Sabiá: O Cangaceiro que Lampião Enterrou Como um Animal

O Fim de Sabiá: O Cangaceiro que Lampião Enterrou Como um Animal

Há uma cena que os cordéis não costumam contar, não porque não aconteceu, porque desconforta demasiado a narrativa do bandoleiro com código de honra, do justiceiro do sertão, do homem que o povo transformou em herói enquanto ainda respirava. A cena aconteceu na madrugada do dia 23 para 24 de junho de 1930 numa quinta nas margens do Raso da Catarina, depois de uma festa de S.

João que tinha começado com música, canjica, pamonha e milho assado, e que terminou com Lampião a apontar um rifle para o rosto de um dos seus próprios homens e gritando: “Vai para os infernos, cão!” O homem que morreu naquela madrugada não era inimigo, não era polícia, não era volante, não era coronel que tinha mandado matar um parente de Lampião, era Sabiá, cangaceiro do próprio bando.

Antônio Sionário, baiano, sobrinho dos cangaceiros António, e Cirilo de Ingraça, homem que estava a entrar para o bando de Lampião quando este já actuava na Baía. jovem, valente e morreu com os dentes partidos pelo coronhado da espingarda do próprio capitão antes do tiro final, enterrado numa cova de dois palmos que Lampião mandou abrir e depois interrompeu porque considerou funda demais para quem não merecia enterro decente.

 história que os arquivos do cangaço preservaram e que chegou até nós através de relatos de quem lá esteve e de quem ouviu de quem lá esteve, é uma das mais reveladoras sobre o que era candeeiro de verdade. Não o mito, não a lenda que o cordel construiu e que o cinema ampliou. O homem com o seu código, com a sua violência, com os limites que este código impunha e com a forma como ele fazia cumprir esses limites dentro do próprio bando, de uma forma que nenhuma autoridade externa jamais conseguiu fazer de fora.

 Para compreender o que aconteceu nessa noite, o senhor precisa de começar pelo início, pela festa. Era véspera de São João de 1930. O bando tinha chegado à quinta da Vársia, à entrada do Raso da Catarina, e Lampião decidira que haveria festa. Não era impulso de momento, era decisão calculada do tipo que os líderes de grupos sob pressão constante  tomam quando entendem que a moral de combate necessita de combustível para além do medo e da lealdade, que os homens que vivem com arma na mão e perseguição no calcanhar necessitam de momentos em que o

calcanhar descansa. Os cabras tomaram banho, perfumaram-se, enfeitaram-se com o cuidado que os cangaceiros colocavam na apresentação pessoal, porque a indumentária fazia parte da identidade do bando. Era a marca visual que diferenciava membro de Lampião de qualquer bandido comum do sertão. O O próprio Lampião inaugurou nessa noite uma farda nova de mescla azul.

 E os relatos que chegaram preservam este pormenor com a especificidade de quem entendeu que Lampião inaugurando Farda Nova para festa de São João era evento digno de registo. Era o rei se paramentando para ocasião especial. A festa foi em casa de Quinca de João da Vargem, Joaquim Teixeira Lima, que era coiteiro de primeira de Lampião.

Coiteiro era a palavra que o cangaço utilizava para quem oferecia apoio ao bando, abrigo, alimento. informação. A rede de cumplicidade, sem a qual nenhum grupo armado perseguido consegue sobreviver durante longos períodos em território hostil. Ser coiteiro de primeira de Lampião era posição de risco e de honra simultaneamente.

 O tipo de posição que no sertão criava obrigações mútuas que funcionavam melhor do que qualquer contrato formal. Nessa festa, Lampião batizou na fogueira uma das filhas de Quinka, de nome Alexandrina Teixeira Lima. Este pormenor, que parece secundário na narrativa do que viria depois, é humanizante de uma forma que a versão épica do cangaço frequentemente apaga.

 Lampião era padrinho, batizava crianças de coiteiros, criava laços de compadrio, que no sertão eram laços sagrados, que transformavam o relação funcional de protetor e protegido em laço de família espiritual com todas as obrigações que laço de família transportava. A mesma noite que terminaria em morte tinha começado com sacramento. Terminada a festa de S.

João, outro coiteiro chamado Chico Gordo convidou Lampião e os cangaceiros mais graduados para irem a sua casa comer um peru. Lampião aceitou e mandou que os demais esperassem na Lagoa do Rancho, na casa de um terceiro coiteiro chamado Silvestre Cadete Torres, a curta distância. A divisão do grupo naquela noite foi uma decisão logística que parecia corriqueira.

 mas que criou as condições para o que aconteceu depois. Na casa de Chico Gordo, o Peru não foi utilizado. Os convidados estavam empanturrados de canjica, pamonha e milho assado da festa anterior, que são os alimentos de S. João que o sertão celebra com generosidade e que generosidade  exige que se coma até o corpo se queixar.

Quando amanheceu, Lampião e os convidados graduados foram à lagoa do Rancho encontrar os restantes e encontraram Silvestre desesperado. O coiteiro estava chorando. E o que disse a Lampião naquele momento registado nos relatos com a precisão específica que momentos de crise produzem na memória dos testemunhas,  foi simples e devastador.

 Compadre, Sabiá ofendeu a menina filha de João Cabelo. A menina chamava-se Rita Maria de Jesus. Tinha 15 anos. E o Estado em que Lampião a encontrou quando foi verificar pessoalmente o que tinha acontecido é descrito nos registos como lastimável, que no vocabulário do sertão daquela época era o tipo de descrição que não necessitava de mais detalhes para que qualquer pessoa que a ouvisse compreendesse o que tinha acontecido.

 O pai João Caraibeira ou João Cabelo, como era conhecido, estava com as queixas de quem tinha sido ofendido, de uma forma que o sertão nordestino de 1930  considerava entre as piores afrontas possível a honra de uma família. E a menina chorava com aquele choro que não necessita de palavras para ser compreendido.

Lampião ficou furioso. A palavra que os relatos usam não é sinónimo de aborrecido ou irritado. É a palavra exata furioso. com aquela fúria específica do homem que tem código e que acaba de ver o código violado a partir de dentro para fora, que não é apenas agressão ao valor que o código protege, mas desafio à autoridade de quem é responsável pela fazer o código funcionar, porque esta é a dimensão que a narrativa superficial do episódio perde frequentemente.

Lampião não estava apenas a defender a honra de uma rapariga de 15 anos, embora estivesse a fazer isso também, estava respondendo a desafio a estrutura interna do bando que a sua liderança tinha construído e que dependia de que as regras fossem cumpridas, mesmo quando não havia força externa que as impuse.

 O cangaço operava em território onde a lei oficial não chegava. Dentro desse vácuo, a única ordem possível era a ordem interna do bando e a única forma de mantê-la era que as violações fossem respondidas com a seriedade que o peso da violação exigia. Podeis comigo que eu vou resolver esse problema é já. Essa frase que os relatos atribuem a Lampião no momento em que tomou conhecimento do que tinha acontecido é a declaração de que o código do bando ia ser aplicado.

Não amanhã, não depois de a situação se acalmasse, agora com a urgência que violações graves exigem quando a liderança entende que demora na resposta é sinal de fraqueza. O problema era que Sabiá tinha voado. Não tinha ido longe, porque geograficamente não havia para onde ir de forma rápida, mas tinha-se entrincheirado em pedras a cerca de 500 m da fazenda, posição que qualquer homem de combate reconhece imediatamente como vantajosa para a defesa.

 Das pedras, ele podia cobrir qualquer abordagem com espingarda.  Qualquer pessoa que tentasse avançar pela via direta estaria exposta ao fogo de alguém que tinha cobertura e posição elevada. Lampião mandou Volta Seca e Gavião buscá-lo. Dois cangaceiros que eram parte do núcleo do bando, homens de confiança com reputação própria, foram até às pedras e quando se aproximaram, Sabiá  fez o que um homem desesperado em posição defensiva faz quando entende que tem vantagem tática.

utilizou a vantagem. Não avancem, não avançar mais nenhum passo, senão abro a cabeça dos dois na bala. Volta. Seca olhou para o Gavião e processou o que estava diante deles. Sabiá estava em posição de verdade, capaz de fazer o que prometia. A ameaça não era bluff de desespero, era avaliação tática de homem que sabia que se fosse captado o seu fim estava decidido, que calculou que morrer no confronto com o Volta Seca e o Gavião era melhor do que ser entregue a Lampião vivo.

 Volta Seca engoliu, voltou para a fazenda sem sabiar. Quando Lampião perguntou onde estava o rapaz e ouviu o resposta que Sabiá estava entrincheirado nas pedras e que tinha dito que se o capitão quisesse falar com ele que fosse ele próprio buscar, a testa franziu-se, os lábios apertaram, os dentes estalaram. E Lampião disse a frase que os relatos preservam como reveladora de quem ele era.

 Cão, pois eu vou buscar este cão. O que aconteceu a seguir é um dos episódios mais documentados da psicologia de Lampião como líder. Não psicologia no sentido clínico, mas no sentido de como ele entendia e operacionalizava a autoridade dentro do bando, porque o que ele fez foi andar em direção às rochas, sozinho, firme, sem correr, sem se baixar, sem usar as técnicas de abordagem tática que qualquer homem de combate aprenderia para minimizar a exposição ao fogo inimigo.

 Quando Sabiá o viu se aproximando-se, fez a única coisa que tinha para fazer. ameaçou de novo. “Pare, capitão, pára ou eu disparo.” Lampião parou a 5 m da pedra, segurava a espingarda na posição de soldado, que se prepara para a carga de baioneta. Olhou para Sabiá e disse com uma calma que os relatos descrevem como mais aterrador do que qualquer grito.

“Não disparas sobre ninguém, menino.” E avançou. Volta Seca e Gavião, à distância estavam convictos de que aquele seria o fim de Lampião. Sabiá era valente, estava em posição, estava desesperado. Esta combinação mata homens, mas o tiro não saiu. A cada passo de Lampião em direcção às pedras, O Sabiá fazia pontaria e não atirava.

Lampião continuava. 5 m 4 3 Dispara, cão, dispara. E o Sabiá não disparou, arriou o fuzil. O que aconteceu naquele momento entre os dois homens é algo que os psicólogos chamam-lhe colapso de vontade e que o sertão nordestino tinha o seu próprio vocabulário para descrever. Havia qualquer coisa em Lampião, naquela caminhada em direção às rochas, sem hesitação visível, naquela voz que dizia: “Tu não dispara sobre ninguém com a convicção de quem não está a fazer previsão, mas fazendo declaração, que destruiu a determinação de Sabiá antes que o dedo

necessitasse de puxar o gatilho. Lampião avançou às últimas distâncias, deu com a coronha da espingarda na face de Sabiá e o rapaz rebolou pelo chão com a boca rebentada e os dentes da frente quebrados. Mandou os outros cangaceiros desarmarem o rapaz e conduzirem a sede da quinta.

 O que veio depois foi o tipo de julgamento que o cangaço praticava com a eficiência que a ausência de qualquer outra estrutura judicial num território sem lei produz. Não havia advogado de defesa, não havia apresentação de provas e contra evidência. Havia o capitão, havia a violação que havia sido cometida, havia as testemunhas que tinham visto o estado da menina de 15 anos e havia o código que todos os membros do bando entendiam que havia sido violado de forma a que não admitia punição menor.

 Lampião olhou para Sabiá com ódio, sem falar. O silêncio que os relatos descrevem como completo, sem ninguém ousar dizer nada, é o tipo de silêncio que precede frases que todos já sabem qual será antes de ser pronunciada. Quando Lampião falou, foi para explicar, não para sabiar, para todo o bando que estava presente e que precisava de compreender o que aquela execução significava dentro do sistema de valores que o bando operava.

vai morrer porque não presta, seu cão. É por causa destas coisas que dizem mal da gente por aí, mas dou-te como exemplo para que todos saibam que o bando de Lampião tem vergonha. Essa fala é extraordinariamente reveladora sobre como Lampião entendia a sua própria posição e a sua própria imagem. Ele não estava apenas a punir uma violação de código, estava a gerir reputação.

Estava a dizer que a imagem do bando, na percepção das comunidades do interior, que dependia de cultivar para ter coiteiros, para ter apoio, para ter a rede de proteção, que tornava a sobrevivência possível, esta imagem era recurso que precisava de ser defendido com a mesma seriedade com que se defendia território. mandou cavar a cova.

 Dois palmos mandou parar quando tinha dois palmos de profundidade. Apontou a arma para o rosto impassível de Sabiá e disparou gritando: “Vai para os infernos, cão. Depois atira essa pesta aí, pois cão a gente enterra de qualquer jeito. Dois palmos de terra. Não a profundidade que o enterro digno exige, a profundidade que é dada para cão, que era exatamente o que Lampião chamara sabiá repetidamente naquelas horas: cão, cão, pesta.

 A linguagem não era acidental, era a designação deliberada de alguém que tinha cruzado a linha que transforma uma pessoa em coisa, não digna de tratamento que se reserva para pessoa. O que este episódio revela sobre Lampião, sobre o cangaço, sobre a lógica do poder que opera em vácuo de lei é mais complexo do que qualquer versão simplificada consegue captar.

 Havia genuinidade no código que Lampião aplicou nessa manhã. A raiva que sentiu quando viu o estado da rapariga de 15 anos não era performance, era reação real de homem que tinha irmãs, que tinha uma sobrinha, que vivia num mundo onde a violência contra as mulheres era demasiado banal, mas que tinha construído para si e para o bando uma identidade que precisava de se distinguir dessa corrupção.

O bando de Lampião tem vergonha. Essa frase não é decoração retórica, é declaração de valor que o capitão tinha interiorizado de forma suficientemente real para que a violação desse valor produzisse fúria genuína. Mas havia também o lado que a romantização do cangaço frequentemente apaga. O julgamento foi de um homem, a sentença foi de um homem, a execução  foi de um homem que era simultaneamente acusação, tribunal e carrasco.

 Havia  outro lado de tordo que nunca seria ouvido. Havia uma circunstância que nenhuma investigação seria conduzida para apurar. Havia, no fundo de toda a aquela cerimónia de código e vergonha e exemplo para o bando, um jovem baiano morto e enterrado em dois palmos de terra à entrada do raso da Catarina por decisão unilateral de quem detinha todo o o poder disponível naquele espaço naquele momento.

 O sertão de 1930 não oferecia outra forma de processar o que tinha acontecido. Não havia esquadra onde a menina pudesse apresentar queixa. Não havia nenhum promotor que processasse o agressor. Não existia uma estrutura judicial que funcionasse com a velocidade e a seriedade que o crime exigia em território, onde o Estado simplesmente não chegava de forma funcional.

 O que havia era lampião com o seu código e a sua arma e a sua capacidade de impor um resultado imediato de uma forma que nenhuma outra instituição disponível naquele contexto conseguia impor. E havia também algo que os relatos preservaram com precisão involuntária. A coragem física dos Lampião naquela caminhada em direcção às pedras.

 Caminhar em direção a homem armado em posição defensiva que está a dizer que vai disparar. A passo firme sem A hesitação visível é o tipo de comportamento que ou é loucura ou é cálculo de nível que a maioria dos pessoas nunca experimenta. Lampião calculou que o tordo não ia atirar. Calculou com base no que sabia sobre o rapaz.

 Sobre a psicologia dos combatentes numa posição defensiva desesperada. sobre a diferença entre quem ameaça porque acredita que vai conseguir intimidar e quem ameaça porque não tem outra opção. E acertou no cálculo. Este episódio de junho de 1930 faz parte da história do cangaço que o Brasil conhece fragmentado e que merece ser conhecida completa, não para glamorizar Lampião, nem para condená-lo com o vocabulário do séc.

XX, aplicado ao contexto do século XX. Mas para perceber o que era aquele mundo, quais eram as regras que o governavam e como um homem que vivia completamente fora de qualquer estrutura legal tinha construído para si um sistema de valores que tentava, dentro das suas próprias contradições,  criar algo que se assemelhasse à justiça num território onde a justiça oficial não existia.

 A festa de São João tinha sido bonita. O acordeonista Bento tocava bem. A canjica, a pamonha e o milho assado estavam bons.  Lampião tinha inaugurado farda nova de mescla azul e tinha batizado uma menina na fogueira como padrinho. E depois uma rapariga de 15 anos tinha sido violada por membro do próprio bando. E a resposta do capitão tinha sido caminhar em direção às pedras a passo firme até ao rapaz arriar a espingarda, coronhada no rosto, cova de dois palmos, tiro e lança essa pesta aí.

 O sertão do Raso da Catarina em junho de 1930 era exatamente isso. Os dois lados ao mesmo tempo, festa e morte, sacramento e violência, o código que protegia e o código que matava, o capitão que batizava crianças e o capitão que não vacilava perante espingarda apontada para a sua própria cabeça. toda essa complexidade, sem escolher apenas a parte que confirma o herói ou apenas a parte que confirma o monstro, é o que a história de Lampião exige de quem quer compreendê-la de verdade.

 E o episódio de Sabiá é talvez onde esta complexidade aparece mais completamente, mais honestamente, mais sem filtro do que em qualquer outra história que o cangaço produziu naqueles anos de sertão, sem lei, onde um homem chamado Virgulino decidira que o código pelo qual vivia era o único código que existia no espaço que habitava e fazia este código funcionar da única forma que conseguia funcionar naquele mundo.

com a coronha da espingarda, com dois palmos de terra e com a frase que os relatos preservaram como epitáfio de um cangaceiro jovem que tinha cometido erro que o capitão decidira não perdoar. Vai para os infernos, cão.

 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *