OS LUXOS ABSURDOS ABANDONADOS POR RAUL SEIXAS APÓS SUA MORTE — DOCUMENTÁRIO COMPLETO

Produziu disco para Jerry Adriane, para Renato e os seus blue caps. Pró Odair José foi uma escola, mas no fundo do peito continuava a querer ser ele mesmo o cantor. E aí vem o pormenor que muda tudo. Em maio de 1972, O Raul leu uma revista chamada A Pomba. Tinha um artigo sobre discos voadores e astrologia assinado por um sujeito desconhecido.

O Raul achou aquilo tão estranho, tão fora da curva, que foi atrás do autor, o nome do tipo Paulo Coelho. Isso mesmo. O Paulo Coelho que hoje vem de livro no mundo inteiro. Naquela altura era um jornalista metido com ocultismo que ninguém conhecia. Os dois tornaram-se parceiros de uma forma que só acontece uma vez na vida.

Em apenas 4 anos, escreveram juntos 41 canções. 41. E não eram músicas quaisquer. Saíram daí: Guita, Sociedade Alternativa, Tente outra vez, Ama Maçã. Eu nasci há Há 10.000 anos. Medo da Chuva. Música que até hoje, mais de 50 anos depois, toca na rádio, toca em concerto, toca em casamento. O próprio Paulo Coelho confessou numa entrevista recente em 2025, eu poderia viver, se quisesse, só dos direitos das músicas que fiz com Raul.

Pensem só, o segundo escritor mais vendido do planeta diz que poderia se reformar-se só com o dinheiro daquelas canções. Isto dá-te uma ideia do tamanho do que estes dois fizeram juntos. E o resultado veio rápido. Em 1973, Raul lança o primeiro disco a solo Krigha Bandolo. Em 1974 vem a Guita. E aqui o negócio explode de vez. O disco Guita vendeu 600.

000 cópias. Para que tenha uma ideia, este é coisa de estrela internacional. Era praticamente um disco de ouro a virar platina, tornando-se diamante. Raul Seixas, o mesmo miúdo que tinha passado fome no Rio 5 anos antes, era agora o trilho sonoro da novela O Rebu da Globo. Aparecia no programa do Chacrinha, Lotava Estádio.

E quem viveu aquela época recorda: sábado à tarde, a família reunida na sala, a TV ligada e de de repente toca Gita no final da novela. Era impossível não cantar junto, era impossível não bater o pé. Mas o ápice mesmo veio em Fevereiro de 1982, praia do Gonzaga, em Santos. Raul Seixas subiu a um palco montado na areia e fez um espetáculo que ficou para a história entre 150.

000 e 180.000 pessoas. Leu certo? Quase 200.000 pessoas apertadas numa praia para ver um homem cantar. Para você ter dimensão, isto é mais gente do que cabe no Maracanã lotado por duas vezes. Foi um dos maiores públicos da história da música brasileira até aos dias de hoje. E aí qualquer pessoa olha para esta cena e pensa a mesma coisa.

Este gajo tava ricaço, tinha que estar a nadar em dinheiro. E faz todo o sentido pensar assim: “Quem enche uma praia inteira vende 600.000 cópias de disco, toca em novela das 8. Certamente faturou alto.” É lógica básica, só que a realidade era bem diferente. E quem contou isso foi a pessoa que mais conhecia o Raul no mundo, a própria mãe, a dona Eugénia.

Numa entrevista, anos depois da morte do filho, ela soltou uma frase que ninguém esperava ouvir. Raulzito não ligava a dinheiro, nunca trazia dinheiro no bolso. Tudo o que entrava era administrado por outros. Pelo advogado, pela esposa da vez, pela secretária. Pois é, o homem que levou 180.

000 pessoas a uma praia em Santos não tinha controlo sobre o próprio dinheiro. E é exatamente aí que esta história começa a ficar estranha, porque o tipo que cantava para os estádios cheios, o tipo que era banda sonora de novela, o tipo que era chamado de pai do rock brasileiro, esse mesmo tipo, na altura em que morreu, não tinha uma única casa registrada no próprio nome.

E o que ele tinha, ou melhor, o que ele não tinha quando o inventário foi aberto é uma coisa que choca até hoje. Quando uma pessoa famosa morre no Brasil, a gente já tá meio acostumado com o tipo de notícia que vem depois, um mês, 2 meses, e começa a aparecer reportagem sobre a herança, a mansão em tal lugar, a coleção de carros importados, a casa de praia, a fazenda no interior, o iate ancorado em Angra é quase um ritual.

Quanto maior o artista, maior a fortuna que aparece. Com Raul Seixas, todo mundo esperava a mesma coisa. Afinal, era Raul Seixas, o cara que vendeu 600.000 cópias de um disco só. O cara da praia do Gonzaga, o cara que tocou no Chacrinha. Quando o inventário foi aberto, em 1992, 3 anos depois da morte dele, o Brasil esperava descobrir uma fortuna escondida.

propriedades em várias capitais, alguma coisa à altura do tamanho do nome, mas o que apareceu no documento oficial deixou todo mundo sem entender. Nenhum imóvel, nenhuma casa, nenhum apartamento, nenhum terreno em lugar nenhum do Brasil, nenhum carro registrado no nome dele, nenhum barco, nenhum avião, nenhuma fazenda, nenhuma joia, nenhum investimento, nenhuma aplicação financeira, nada, absolutamente nada.

O único bem material que aparecia no inventário oficial de Raul Seixas eram 300 cruzados novos numa caderneta de poupança do Bradesco. 300 cruzados novos convertidos pelo Banco Central para valores de hoje com correção pelo IPCA. Isso dá exatamente R$ 551,88. Pausa aí. O homem que é considerado o pai do rock brasileiro, o cara que escreveu mais de 300 músicas que tocam até hoje no rádio, o cara que reuniu 180.

000 pessoas numa praia, morreu deixando menos do que custa um par de tênis decente. R$ 551 é o valor de uma conta de luz de uma casa grande. É menos do que muita gente gasta no mercado num mês. E aqui a maioria das pessoas vai pensar a mesma coisa. Então ele morreu na miséria. Morreu pobre, abandonado, sem nada.

E faz sentido pensar assim, porque o número é tão pequeno que parece miséria de verdade. Só que a realidade era mais complicada que isso. Quem rebateu publicamente foi a própria filha dele, Vivian Seixas. Ela explicou que o pai vivia confortavelmente até o fim. recebia direitos autorais todo mês. No último ano de vida, fez 50 shows pelo Brasil inteiro, com plateias grandes, com cachê, recebeu disco de ouro póstumo.

Não era miséria, era outra coisa. Era simplesmente um homem que ganhava bem, mas não convertia nada em patrimônio. Tudo o que entrava saía para aluguel, para estúdio, para acompanhar a vida errante, para bancar o estilo de vida que ele escolheu. Agora, presta atenção nesse detalhe, porque é aqui que a coisa fica simbólica.

Em São Paulo, nos últimos anos de vida, Raul Seixas morou em pelo menos seis endereços diferentes. Uma casa no Butantã, perto da USP, um apartamento no Itaim Bibi, outro no Brooklyn e o último, o famoso o edifício Aliança, na rua Frei Caneca, número 1100, apartamento 1003, no bairro da Consolação. Todos esses endereços tinham uma coisa em comum.

Nenhum era dele. Todos eram alugados. O pai do rock brasileiro morreu em Quilino. Hoje em dia, o prédio da Frei Caneca virou ponto de peregrinação. A prefeitura de São Paulo instalou uma placa de memória na fachada e fãs do mundo inteiro vão até lá tirar foto, deixar flor, prestar homenagem.

Mas o apartamento 1003 segue sendo um imóvel residencial qualquer. Não virou museu, não virou nada. Alguém mora lá hoje, provavelmente sem fazer ideia de quem morreu naquela cama. E em Salvador, a cidade onde ele nasceu, a casa de infância dele, lá na rua Rio Itaicuro, número 17, no bairro da Boa Viagem, aquela casa onde o moleque ouvia Elvis pela janela do consulado americano.

Hoje funciona uma loja maçônica no endereço. Pensa na ironia, o homem que fundou a sociedade alternativa, que mergulhou no ocultismo, que seguiu a filosofia daquele inglês maluco chamado Alister Crawley, que escreveu o hino dizendo: “Faz o que tu queres, pois é tudo da lei”. A casa de infância dele virou sede de maçonaria. É o tipo de coincidência que se fosse num filme ninguém ia acreditar.

Mas tem um pedaço dessa história que machuca mais do que o resto. Porque enquanto Raul não deixou casa, não deixou carro, não deixou nada material, ele deixou três filhas, três meninas de três mulheres diferentes em dois países. E essas três mulheres, mais a guardiã do legado dele aqui no Brasil, entraram numa briga que dura até hoje, mais de 30 anos depois da morte do cantor.

E o que elas disputam não é o inventário de R$ 551, é outra coisa muito maior, algo que vale milhões e que ninguém imaginava o tamanho na época em que Raul fechou os olhos pela última vez. A destruição de Raul Seixas não aconteceu de uma vez. Ela foi acontecendo aos bocadinhos, ao longo de mais de 10 anos, num processo lento, doloroso, que toda a gente perto dele viu de camarote, mas ninguém conseguiu impedir.

E ela tem uma data de início que pode ser marcada com precisão, 1978. Nesse ano, com apenas 33 anos de idade, o Raul foi parar a uma mesa de cirurgia em estado grave. Os médicos abriram o corpo dele e tiveram de retirar uma parte considerável do pâncreas. A causa era óbvia para qualquer pessoa que conhecesse a rotina dele.

Anos e anos de bebida, pesada, sem travão, sem limite, sem pausa. Quando ele acordou da cirurgia, os médicos foram diretos: “Raul, ou deixas de beber agora ou se morre, não há meio termo.” E não parou. E aqui é importante nós fazermos uma pausa, porque o alcoolismo é uma doença que muita gente que está a ver este vídeo conhece de perto.

Talvez não em si mesmo, mas num tio, num primo, num pai de um amigo, num vizinho da infância. O brasileiro de 35, 40, 50 anos cresceu a ver isso acontecer com alguém. É uma doença que não escolhe classe social, não escolhe profissão, não escolhe inteligência, apanha génio, apanha operário, apanha gente fina, apanha gente simples. Não há aqui julgamento.

Tem apenas a dura constatação de que quando o álcool toma conta, toma conta de tudo. E com o Raul, tomou conta de uma forma que nos faz sentir um aperto no peito só de ler. A quarta companheira dele, Kika Seixas, escreveu um livro contando como foi. E os relatos são daqueles que preferíamos não saber. Kika contou que Raul bebia vodicaa em quantidades industriais.

Quando o estômago já não aguentava mais deste lado, migrou para a cerveja, que ele tomava em sequências infinitas. E quando nem isso bastou, começou a usar uma coisa chamada éteretílico. Aquilo empestava o apartamento inteiro, o prédio inteiro. Ele comprava litros e litros nas farmácias do bairro, até que as farmácias começaram a recusar a venda para ele.

E depois vem a parte mais difícil de contar. Para continuar a ter acesso ao éter, Raul chegou a enviar uma menina de 11 anos, filha de uma das companheiras dele, ir comprar o produto para ele. Uma criança de 11 anos a descer na farmácia da esquina comprando étera Seixas. Quem leu o livro da Kika nunca se esqueceu desta cena. E o fundo do poço veio quando ela se apercebeu que tinha começado a beber álcool de limpeza daquele de supermercado trancado dentro da casa de banho.

Quando ela conseguiu interná-lo, uma médica disse uma frase que resume tudo: “Este homem não fala, ele está sempre a representar. O corpo foi cobrando diabetes, hipertensão, hepatite crónica, pancreatite que não dava trégua. Em 1988, ano e meio antes de morrer, Raul precisou de arrancar todos os dentes da boca, todos.

E nos últimos meses andava com uma perna inchada de retenção de líquido. Dormia em cadeira de rodas porque já não conseguia deitar-se direito. Ficava sem tomar a medicação. Mas a parte mais cruel nem era a doença física, era a outra. A invisível era a solidão, porque juntamente com o corpo a carreira também estava a cair. Raul passou por nove editoras discográficas ao longo da vida. Nove.

Brigava com todas, rompia contrato, era dispensado, regressava, era dispensado de novo. Em determinado momento, um executivo de uma editora discográfica declarou em voz alta uma frase que se tornou famosa nos bastidores. Eu já estou vacinado contra Raul Seixas. Enquanto isso, lá fora, o Brasil mudava. Os anos 80 chegaram trazendo uma explosão do rock nacional, como ninguém tinha visto antes.

Barão Vermelho, Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Titãs, capital inicial. Os gajos enchiam o estádio, vendiam discos aos milhões, tornavam-se ídolos de uma geração inteira. E o Raul Seixas, o homem que tinha aberto o caminho para todos eles, o tipo que era literalmente chamado de pai do rock brasileiro, estava sem gravadora, sentado em casa, vendo a festa passar pela janela.

Ele próprio soltou uma frase numa entrevista que dói só de ouvir. Às vezes, a minha música está a tocar numa padaria que não me quer servir. Imagina a cena. Raul Seixas, despenteado, doente, entrando numa padaria de bairro para comprar um pão e na rádio do balcão a tocar maluco, beleza! E o atendente olhando-o de alto a baixo, pensando que era um mendigo qualquer e mandando-o sair. Isso aconteceu.

Não é metáfora, é relato dele próprio. Os últimos meses foram assim: sozinho num apartamento arrendado em São Paulo, sem mulher, sem manager, sem editora, sem carro, sem nada. A única companhia certa era a empregada Dalva Borges, que ia lá durante a semana tratar da casa. fazer comida e, principalmente, garantir que o Raul tomasse a injeção de insulina, porque era diabético e a insulina era a única coisa que segurava o corpo dele de pé.

E foi exatamente aí que o destino pregou a peça mais cruel. Naquele último fim de semana, dias 19 e 20 de Agosto de 1989, A Dalva não tava a trabalhar. Era sábado e domingo, dia de folga. O Raul ficou sozinho no apartamento da Frei Caneca, bebeu e não tomou a insulina. Ninguém ali para recordar, ninguém ali para obrigar, ninguém ali para cuidar.

Na noite de domingo, o zelador do prédio foi a última pessoa que o viu com vida. Na manhã de segunda-feira, 21 de agosto, Dalva chegou cedo, como fazia todo o dia. Subiu ao 10º andar, abriu a porta, foi ao quarto, encontrou Raul deitado, tapado e o até ao peito, sereno. Tentou acordá-lo como sempre fazia. Ele não respondeu.

Geralmente bastava qualquer ruído para Raul abrir os olhos. Desta vez nada. Ela telefonou a um amigo da família que pediu para ela colocar um espelho em frente ao nariz dele. O espelho não embaçou. Raul Santos Seixas tinha morrido na madrugada, 44 anos de idade. Causa oficial: paragem cardiorrespiratória provocada por pancreatite crónica e hipoglicemia.

Causa real a soma de 15 anos de uma vida que ninguém conseguiu segurar. E ali no criado-mudo, do lado da cama, tinha uma foto. Uma foto de Elvis Presley, o ídolo da sua infância lá em Salvador, o tipo que ele ouvia pela janela do consulado americano quando tinha 9 anos. Elv estava ali, tinha estado ali perto dele, desde o princípio ao fim.

Mas se pensa que a história termina aqui com a morte do cantor naquela manhã de segunda-feira, estás enganado. Porque o que aconteceu nos dois dias seguintes no velório em São Paulo e no funeral em Salvador é uma cena tão cinematográfica, tão impressionante, que parece um guião de filme. E foi nesse momento que começou outra coisa, uma coisa que ninguém previu. luta que dura até hoje.

O velório de Raul Seixas decorreu no Palácio das Convenções do Hemboc. Milhares de fãs apareceram vindos de todos os cantos da cidade, carregando violão, t-shirt da sociedade alternativa, cantando música, chorando, gritando. Mas há um pormenor que marcou para sempre quem viveu aquele momento. Quase nenhum artista famoso compareceu.

O pai do rock brasileiro estava ali no caixão e a comunidade musical brasileira praticamente não foi despedir-se. Pico Zambiante que apareceu contou anos depois. Foi estranho. Eu fui mais um ou dois gajos e ponto final. Os outros não vieram. A multidão de fãs ficou tão agitada que o caixão teve de sair escoltado por um carro do corpo de bombeiros debaixo de chuva de pedra e xingamento.

As pessoas não queriam deixar o corpo sair de São Paulo. Queriam segurar ali o Raul mais um pouco, mais um dia. No dia seguinte, em Salvador foi pior, ou melhor, foi mais Raul Seixas do que nunca. Quase 100 fãs invadiram a cerimónia no cemitério Jardim da Saudade, gritando: “Viva a sociedade alternativa!” Pegaram no caixão pelo ar e tentaram sair carregando ele cemitério aa.

Eles queriam, segundo Marcelo Nova contou depois, levar o Raul a passear, fumar canábis com ele, enfiar um charro na boca dele. Foi preciso um fã anónimo se levantar e acalmar a multidão para que o enterro pudesse acontecer. Dona Eugénia, mãe do Raul, olhou para o Marcelo Nova naquele momento e soltou uma frase que ficou: “Se o Raul Zito pudesse ver isto, ele ia adorar”.

E foi naquele cemitério em Salvador que aconteceu uma coisa tão estranha que parece lenda, mas é verdade. Em 2012, 23 anos depois do enterro, a família teve de abrir o jazigo para fazer uma reorganização. Procedimento normal. acontece em todo o cemitério. Só que quando levantaram a tampa, encontraram uma cena que ninguém esperava.

O corpo de Raul estava intacto, inteiro, não se tinha decomposto. 23 anos depois, estava praticamente como no dia em que foi sepultado. Os médicos atribuíram ao processo de embalsamamento que tinha sido feito em São Paulo antes do transfer. É a explicação técnica, é a explicação racional e é provavelmente a verdadeira. Mas para quem é fã, para quem cresceu cantando metamorfose ambulante, este detalhe carrega uma camada de mistério que combina demasiado com o personagem.

O rapaz que cantava sobre vidas passadas, há cerca de 10.000 anos, sobre sociedades alternativas. Esse gajo desafiou até a decomposição do próprio corpo. Faz pensar. Mas vamos ao presente, para a parte que magoa a família até hoje. Raul Seixas se relacionou com cinco mulheres ao longo da vida e teve três filhas, cada filha de uma mãe diferente.

E estas três as meninas cresceram em mundos completamente separados. A primeira é Simone, nascida em 1970, filha da americana Edit. Quando o casamento acabou, Edit levou a menina para os Estados Unidos e Raul nunca mais viu a filha, nunca. Hoje Simone é bióloga, vive nos Estados Unidos, é discreta, foge dos holofotes.

A segunda é Scarlett, nascida em 1976, filha de outra americana, a Glória Vaquer. Mesma história. Quando o relacionamento ruiu por causa do alcoolismo do Raul, a Glória pegou na filha e regressou aos Estados Unidos. Scarlett também cresceu longe do pai, longe do Brasil, falando inglês, vivendo uma vida americana.

Hoje ela é a mais combativa das três. É quem mais fala publicamente sobre a herança e quem mais peita quando acha que está a ter injustiça. A terceira é Vivian, nascida em 1981, filha de Kika Seixas. A Vivian é a única que cresceu no Brasil, a única que tem memória do pai, a única que aqui vive. Hoje é DJ e produtora musical. E é ela quem cuida do dia a dia do legado do Raul aqui dentro do país.

Aqui tem um pormenor que muita gente nem imagina. Simone e Scarlett, as duas filhas mais velhas, só se conheceram pessoalmente em 2012. Duas irmãs filhas do mesmo pai, criadas em estados diferentes dos Estados Unidos, levaram mais de 30 anos para se encontrarem cara a cara e se encontraram nas gravações de um documentário sobre o pai delas.

Isso diz muita coisa sobre o tipo de família que o Raul deixou. Mas o ponto mais delicado desta história é a figura da Kika Seixas. Porque a Kika não era esposa oficial do Raul. Eles nunca se casaram no papel. E quando morreu, em 1989, já estavam separados há 5 anos. 5 anos. No documento oficial do inventário, que veio a público em 2025, quando a Scarlett publicou nas redes sociais, apenas aparecem três nomes como herdeiros legais: Simone, Scarlett e Viviana.

Kica não consta como herdeira, consta apenas como inventariante. Só que na prática, quem ficou a cuidar do nome do Raul Seixas no Brasil durante mais de 30 anos foi a Kika. Foi ela quem criou o evento anual denominado Baú do Raul, lá em 1992. Foi ela quem fundou uma empresa de produção para cuidar dos direitos. Foi ela quem guardou roupas, manuscritos, cadernos, imagens.

Foi ela quem escreveu o livro contando a história deles. E foi ela, em parceria com a filha Vivian, quem se tornou na prática a guardiã do legado dentro do Brasil. E aqui é onde a tensão é visível, porque há quem diga que a Kika salvou o Raul Seixas do esquecimento, que sem ela não teria evento, não teria livro, não teria preservação nenhuma do acervo.

E tem também quem argumente que ela se apropriou de algo que legalmente nunca foi dela. As filhas que vivem nos Estados Unidos, principalmente a Scarlett, já se queixaram publicamente que projetos foram vetados em tribunal pela Kika, que ela age como se fosse viúva, sendo que nunca foi casada, que ela controla decisões que deveriam passar pelas três herdeiras.

E depois fica a Pergunta: Quem tem razão? Eu não vou responder. Este é o tipo de coisa que cada um tem de pesar e decidir por conta própria. Conta nos comentários o que acha. Mas no meio de toda esta a guerra tem uma coisa que ninguém discute, uma coisa que vale muito mais do que qualquer mansão, qualquer automóvel, qualquer iate que o Raul pudesse ter deixado. E essa coisa é obra dele.

Raul Seixas deixou 324 composições registadas, 409 gravações registadas no ECAD. E estas músicas mais de 30 anos depois da sua morte, continuam a tocar todos os dias no mundo inteiro. Só no Spotify, Raul tem 3 milhões de ouvintes mensais, mais de 1 mil milhões de execuções acumuladas na plataforma. 1 bilião.

Metamorfose ambulante sozinha já passou os 140 milhões de reproduções. Tente outra vez 95 milhões. Maluco, beleza? 83 milhões. E aqui voltamos ao Paulo Coelho. Aquela frase que soltou em 2025 sobre o poder se aposentar só dos direitos das músicas que fez com Raul ganha um peso totalmente diferente. Quando a gente compreende esses números.

As filhas do Raul recebem royalties dessas execuções. Por lei, vão receber até pelo menos 259, 70 anos depois da morte do pai. Estamos falando de milhões de reais por ano divididos entre as três. Mais a A Universal Music, que detém os direitos de gravação, mais o Paulo Coelho como coautor. Mais outros parceiros. Pensa na ironia. Raul Seixas.

faleceu com R$ 551 no banco. E hoje, mais de 30 anos depois, a sua obra gera uma fortuna que distribui-se entre vários herdeiros. O homem que não quis acumular nada em vida acabou por deixar um património invisível que vale mais do que qualquer mansão. E este é talvez o ponto que faz a história inteira fazer sentido.

Porque o Paulo Coelho, numa recente entrevista soltou uma frase que diz mais sobre o Raul Seixas do que qualquer biografia poderia dizer. Uma frase curta, simples, devastadora. E é com ela que vamos fechar esta história. A frase do Paulo Coelho é essa. Ele disse: “Em 2025, mais de 35 anos depois da morte do amigo, O Raul escolheu a sua vida, escolheu a sua morte.

Nem toda a gente tem esse privilégio. Pausa nesta frase, porque ela explica tudo. A gente começou este vídeo a falar dos luxos abandonados por Raul Seixas e ao longo destes minutos todos foi ficando claro que estes luxos não são o que a gente imaginava. Não tem mansão escondida em Salvador, não tem iate ancorado em algum porto, não tem garagem cheia de carro importado, não tem nada disso porque nunca teve.

O luxo que Raul Seixas abandonou foi outro. Foi um luxo bem mais caro do que qualquer um desses. Foi o luxo de ser comum. Pensa bem, Raul podia ter sido um cantor tranquilo. Podia ter aceitado as regras das gravadoras, gravado o que pediam, feito o show que mandavam, evitado polêmica, juntado dinheiro, comprado uma casa boa, quitado um apartamento, deixado uma aposentadoria garantida pras filhas. Era para ser.

Ele tinha talento de sobra para isso. Tinha público, tinha porta aberta, bastava jogar o jogo e ele simplesmente não quis. Escolheu ser metamorfose ambulante até o último dia. Brigou com nove gravadoras, bebeu até o pâncreas pedir socorro. Falou de ocultismo num país que estava no meio de uma ditadura militar.

foi torturado pelo DOPS, foi exilado, voltou, casou cinco vezes, deixou três filhas em dois países, compôs 324 músicas, lotou estádio, esvaziou plateia, foi rei e foi mendigo na mesma vida. e nunca, em momento nenhum fez uma escolha pensando em conforto. E aqui tem uma coisa que talvez o brasileiro de 40, 50 anos entenda melhor do que ninguém.

A gente foi criado ouvindo que sucesso é juntar coisa. Casa quitada, carro na garagem, terreno no nome, poupança no banco, filho formado. Esse era o sonho. Esse ainda é o sonho de muita gente. E não tem nada de errado nisso. Pelo contrário, esse é o sonho honesto de quem trabalha duro a vida inteira. Mas Raul Seixas viveu ao contrário desse sonho e mesmo assim deixou mais legado do que 90% dos milionários desse país.

Um bilhão de execuções no Spotify. Música tocando em rádio todo dia no Brasil inteiro. Letra que vira tatuagem, frase que vira manifesto. Uma expressão maluco beleza que entrou no vocabulário do brasileiro para sempre e que muita gente usa sem nem saber de onde veio. E o que sobra dessa história toda no fim é uma constatação simples.

O que fica de uma pessoa não é o que ela teve. é o que ela foi. E o Raul, com todos os defeitos, todos os excessos, todos os erros, todas as tragédias que ele mesmo criou, o Raul foi inteiro. Foi ele do começo ao fim. Não fingiu, não dobrou, não pediu desculpa. Viveu o que escolheu viver e morreu do jeito que escolheu morrer.

Talvez seja isso que faça a música dele continuar tocando mais de 30 anos depois. Não é nostalgia, é reconhecimento. Quando a gente escuta metamorfose ambulante, a gente não tá só lembrando de uma canção bonita. A gente tá reconhecendo um cara que teve a coragem de ser exatamente quem ele era. Isso é raro. Era raro nos anos 70. É raro hoje.

Vai ser raro sempre. O Paulo Coelho tem razão. Nem todo mundo tem esse privilégio. Agora eu quero saber de você. Na sua opinião, sinceramente, o que foi o Raul Seixas? Foi um gênio incompreendido pelo próprio tempo, alguém grande demais pra época em que viveu? Ou foi um cara brilhante que se autodestruiu por escolha própria, que tinha tudo para ser feliz e jogou fora? Não tem resposta certa.

Escreve aí embaixo opção um ou opção dois e me conta o porquê. Eu vou ler todos os comentários, pode acreditar. Se você gostou desse vídeo, deixa o seu like, se inscreve aqui no canal e ativa o sininho para não perder os próximos. E olha, o próximo vídeo do Desenterrando já tá quase pronto e é a história de outro ídolo brasileiro que morreu deixando uma fortuna escondida que nem a própria família sabia que existia.

Você não vai acreditar de quem se trata. Te espero por lá. Um abraço e até a próxima.

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