A Verdade Perturbadora Sobre a Morte de Domingos Montagner

A Verdade Perturbadora Sobre a Morte de Domingos Montagner

Foi às 2as30 de uma tarde de quinta-feira que um dos homens mais admirados da televisão brasileira entrou na água a sorrir. 4 horas depois o tiraram do fundo do rio, preso entre duas pedras a 18 m de profundidade. O que ninguém te contou é que no instante em que estava a morrer, havia gente a poucos metros.

 Pessoas que escutaram um grito de socorro e não se mexeram. Fica até ao fim. Porque vai entender por ninguém conseguiu salvá-lo e porque essa morte podia ter sido evitada. Mas para compreender por [música] aquele rio venceu Domingos Montaher, é preciso entender uma coisa sobre ele primeiro. Algo que torna o que aconteceu nessa tarde ainda mais difícil de aceitar.

 Domingos era um homem do corpo, não sentido vaidoso, no sentido literal. Antes de ser galã de novela, antes do rosto que milhões reconheciam, passou a vida a treinar o próprio corpo para fazer o que o corpo dos outros não fazia. Foi professor de educação física. Depois entrou num circo escola em São Paulo e descobriu o que faria para o resto da vida.

 Subir num trapézio, tornar-se palhaço, cair e levantar, controlar cada músculo a metros do solo, onde um erro de cálculo custa caro. Ele construiu uma carreira inteira sobre uma única certeza, a de que sabia exatamente o que o próprio corpo aguentava. Um homem assim não tem medo de um rio. Um homem assim sabe nadar, sabe suster a respiração, sabe medir a distância à margem.

 E é exatamente por isso que o que aconteceu no dia 15 de setembro de 2016 é tão perturbador. Porque a água não apanhou um homem descuidado, apanhou precisamente aquele que passou a vida a confiar no próprio corpo como ninguém. E guarde isso na sua cabeça, porque vai voltar no final de um forma que não espera.

 O último gesto dele dentro de água não foi para se salvar. Natural do Tatuapé, zona leste de São Paulo, em 1962, filho de descendentes de italianos, ele demorou a chegar à fama. Quando o Brasil inteiro aprendeu o nome Domingos Montaher, já tinha mais de 40 anos e duas décadas de palco nas costas. A a televisão foi a última coisa a chegar e foi ela que o transformou no protagonista de uma das telenovelas mais celebradas da década, a mesma novela que o levaria sem que ninguém imaginasse até a margem daquele rio. Faltavam

exatamente duas semanas para Za ele gravar a última cena da vida. Tem uma coisa sobre Domingos Montanher que quase ninguém sabe e que faz tudo o que vem depois doer mais. Ele quase não foi ator. Começou a trabalhar aos 16 anos atrás do balcão do Bar dos Pais no Tatuapé. Depois foi office boy, depois arquivista numa empresa de engenharia.

Um rapaz alto de 1,90 m que chegou a jogar andebol pelo Corinthians. A vida dele apontava para qualquer lado, [música] menos para uma câmara de televisão. A reviravolta surgiu pelo corpo de novo. Entrou num circo escola e ficou. Aprendeu a ser palhaço, aprendeu trapézio. Em 1997, fundou um grupo de teatro acrobático chamado La Mínima, ao lado de Fernando Sampaio, e os dois ganharam o prémio Shell de melhor ator.

 Em 2003, fundou o próprio circo, o Circo Zani, onde era diretor artístico. Há mais de 20 anos que este foi o mundo dele. Lona, picadeiro, plateia pequena, suor a sério. E aqui está o pormenor que ninguém liga. Quando o Brasil finalmente descobriu o rosto de Domingos Muntainer, ele já tinha 46 anos. 46.º A idade em que muito ator já está a pensar em encerrar, ele estava apenas a começar na televisão.

 O primeiro grande papel surgiu em 2011, em cordel encantado, como o capitão herculano, o mais temido cangaceiro do sertão. O público apaixonou-se pelo vilão. Choveram prémios de revelação. Estranho dizer, revelação sobre um homem de 40 e tal anos com três, décadas de palco. Mas era assim que a TV funcionava.

 Para ela, ele tinha acabado de nascer. Depois veio um atrás do outro, o presidente Paulo Ventura. Na minissérie O brado Retumbante, o homem mais poderoso de uma república fictícia. O guia turístico Zaia em Salve Jorge de Glória Perez, um sujeito rude e meigo que vivia nas montanhas da Capadócia na Turquia e apaixonava-se por uma brasileira.

 o ativista mundo em Joia Rara, um líder operário que virava deputado para defender os trabalhadores. E depois em 2015, o primeiro papel principal de verdade numa novela, Miguel, em Sete Vidas, um fotógrafo solitário, fechado, marcado por uma tragédia, que descobre de uma só vez que é pai de sete filhos espalhados pelo mundo e precisa de reaprender a ligar-se às pessoas.

 Em cada um deles tem a mesma assinatura. Homens grandes, de presença forte, que transportavam alguma ferida e que, no fundo, eram protetores. O cangaceiro que respeitava códigos, o pai que volta para os filhos, o líder que defende os fracos. Não era um galã de novela no sentido raso da palavra. era um ator que dava densidade a tudo o que tocava, precisamente porque vinha de outro lugar, de um lugar onde a interpretação se faz com o corpo inteiro.

 E o público sentia isso sem saber explicar. Tinha uma verdade na sua forma de ocupar a cena que não se aprende num curso rápido de televisão. Vinha das três décadas de palco, do circo, do trapézio, das centenas de noites a enfrentar plateia ao vivo, sem segunda oportunidade. sem corta e grava de novo.

 Quando ele apareceu como santo, o sertanejo do velho Chico, um homem de poucas palavras, de mão calejada, apaixonado por uma mulher proibida, parecia que a personagem tinha sido escrito para o corpo dele e, de certa forma, tinha. Os autores o conheciam do circo. Foi por causa do palco que a televisão o foi buscar. Já parou para ver que tipo de homem ele interpretava sempre? Fortes por fora, quebrados por dentro, homens que protegiam os outros.

 Era como se eles estivessem a ensaiar, sem saber o último papel da própria vida. Casado desde 2002 com a atriz e produtora Luciana Lima, ele tinha três filhos pequenos: Leu, António e Dante. Em 2016, no auge reconhecido, premiado, amado pela equipa e pelo público, recebeu o maior papel da carreira.

 O protagonista de uma telenovela das Santo dos Anjos, um trabalhador do sertão apaixonado pela mulher errada numa trama escrita por Benedito Rui Barbosa. A novela chamava-se Velho Chico. E o Velho Chico é a alcunha de um rio, o São Francisco. Vale a pena parar um pouco no circo, porque é aí que está a alma do homem que o Brasil quase não conheceu.

Antes de 1989, Domingos era um sujeito de vida comum de quase 30 anos. Tinha serviu o exército como segundo [música] tenente. Tinha-se formado em educação física em 1983 e dado aulas em escolas públicas e particulares de São Paulo durante quase 11 anos. era professor, um bom professor, daqueles que entram numa quadra e captam a atenção de uma turma inteira, mas tinha qualquer coisa dentro dele que a sala de aula não dava conta do recado.

 Em 1989, com 27 anos, entrou no circo Escola Picadeiro, em São Paulo, e foi como se a vida tivesse finalmente encontrado o trilho certo. Foi aí que conheceu Fernando Sampaio, o homem que se tornaria o seu parceiro de palco [música] durante as três décadas seguintes. Os dois começaram por fazer apresentação de rua, como palhaços para quem quisesse parar e ver.

 Em 1991, Domingos tornou-se trapezista, subiu para o aparelho, aprendeu a confiar a própria vida a um cabo de aço e as próprias mãos todas as noites à frente de uma plateia que sustinha a respiração quando se soltava do trapézio. Ao mesmo tempo, estudava a interpretação com Miriam Muniz, uma das maiores professoras de teatro do país. fazia dança, construía bonecos gigantes na companhia Pia Fraus durante 11 anos, dando vida a lendas e mitos.

 Desenhava-o mesmo os ternários e figurinos dos próprios espetáculos. Era artista da cabeça aos pés, no sentido mais bruto da palavra. Fazia tudo com o corpo e com as mãos. E há um pormenor nesta parceria que dá um nó na garganta quando se sabe como tudo acabou. Em 1997, Domingos e Fernando Sampaio fundaram a companhia Lamínima ao lado de Luciana Lima, a mulher que viria a ser esposa de Domingos.

 Espetáculos de humor físico, paródia, acrobacia. Os prémios começaram em 2001 e não mais pararam. O ponto alto veio em 2008. A peça à Noite dos palhaços mudos com argumento de Laert rendeu a Domingos e a Fernando. Juntos o prémio Shell de melhor ator, um dos mais respeitados do teatro brasileiro. Dividiram o prémio como dividiam o palco.

 A história de A noite dos palhaços mudos é quase um aviso. Nela, um palhaço desespera diante da tragédia de outro e o segundo entende o sofrimento do primeiro e arrasta-o para fora dele. dois homens, um salvando o outro do próprio desespero. Domingos passou anos a encenar isso no palco, anos a fingir o gesto de tirar alguém do fundo.

 Em 2003, foi um dos nove fundadores do Circus, criado num Verão no litoral de São Paulo, com a missão de manter viva a tradição do circo brasileiro. Era o diretor artístico, quando os autores de cordel encantado foram atrás dele para a televisão. em 2011, foi precisamente porque o tinham visto brilhar no picadeiro do Zan.

 Quer dizer, a televisão não criou Domingos Montagner. Ela só descobriu com 20 anos de atraso, um artista que já estava pronto tinha muito tempo. Existe uma gravação dessa manhã. As últimas cenas que Domingos Montanher gravou na vida foram filmadas há poucas horas e a poucos metros do lugar onde morreria. Volto a isso, o que importa agora é simples.

 Ele estava feliz. Era o melhor momento da carreira dele e faltavam 13 dias para o fim. Quinta-feira, 15 de setembro de 2016. Canindé de São Francisco, sertão de Sergipe, na fronteira com Alagoas. Um calor seco daqueles que rachavam a terra ao redor das gravações. A equipa de Velho Chico estava na reta final.

 Faltavam só duas semanas para o último capítulo. Nessa manhã, Domingos gravou cenas normalmente. Almoçou no hotel a cerca de A 2 km do Rio, juntamente com a colega de elenco, Camila Pitanga, A Teresa da novela, O Par romântico da personagem dele e um motorista. E aqui começa a primeira fatalidade, porque nem deviam estar naquele lugar.

 Camila contou depois, na única entrevista que deu sobre o assunto, que o plano original era outro. Eles tinham combinado tomar banho no rio com mais gente do elenco, com o ator Gabriel Leone, com a atriz Luci Alves. Mas O Gabriel foi gravar. Lúci já tinha ido embora quando a Camila foi avisar. E por acaso só restaram os dois naquele horário.

 Eles também não iam para aquele ponto específico do rio. Acabaram escolhendo um local mais simples de chegar, uma faixa de areia que o pessoal da região chamava-se prainha. Escolheram ali porque era discreto. Não queriam chamar a atenção, porque com um ator famoso há sempre alguém a olhar, pedindo foto. Queriam apenas um banho rápido e tranquilo no intervalo do trabalho.

 Tudo dependeu de coincidências tolas. Uma troca de planos, um colega que foi gravar, um atriz que já tinha saído. Pequenas casualidades que juntas colocaram dois amigos sozinhos no ponto exato e na hora exata. Tire qualquer uma delas. E talvez você nunca tivesse ouvido falar nesta história. A prainha em si parecia mansa e de facto era água calma na beira, faixa de areia, o tipo de local onde moradores levavam a família para o banho [música] de fim de tarde.

 O perigo não estava ali na margem, estava um pouco mais adiante, em direção [música] ao centro do rio, onde a água deixava de ser brincadeira. E foi para lá que os dois, nadando, foram-se afastando sem perceber a linha invisível que separa o seguro do mortal. Porque o rio São Francisco, naquele troço perto da central de Xingó, esconde um fundo recortado com desníveis bruscos e correntes que mudam de força sem aviso.

 E não havia nada para avisar. Não havia nadadores-salvadores, não havia sinalização, não havia ninguém de de serviço para dizer: “Daqui não passa”. Só dos amigos, o calor e um rio que parecia convidativo ia-se tornando perigoso a cada braçada para longe da areia. Por volta das 14h30, os dois entraram na água. Existe um relatório.

Semanas depois, o Instituto de Medicina Legal de Sergipe escreveu uma única palavra para descrever o tipo de afogamento que matou Domingos Montagir, uma palavra técnica, fria, [ressonante] que quase ninguém associaria a um homem que sabia nadar. Atípica. O que é que significa e por muda tudo? Eu explico mais para a frente.

 Montagir deu impulso e nadou. A Camila foi atrás. A margem ficou para trás mais depressa do que os dois perceberam. [música] E foi então no meio daquela água que parecia tão calmo que a tarde de quinta-feira transformou-se na pior tragédia da televisão brasileira em décadas. O que aconteceu nos segundos seguintes? Camila Ptitanga só conseguiu contar uma vez em rede nacional ou três dias [música] depois.

 E o pormenor que ela revelou explica uma coisa que ninguém entendia. Por com uma equipa de televisão inteira a poucos metros, o socorro demorou tanto tempo a chegar. É aqui que tudo muda. A corrente pegou Domingos primeiro. Quando os dois aperceberam-se, já estavam longe da margem e a água que parecia parada começou a puxar.

 Camila contou no Fantástico que conseguiu agarrar-se a uma pedra e que dali esticou o braço. Ela tentou apanhar a mão dele, não uma, mas duas vezes. E nas duas a força da água foi maior. A corrente arrancava domingos do alcance dela mais depressa do que ela conseguia segurar. Foi quando ela começou a gritar. E aqui está o pormenor que transforma essa história, história em pesadelo.

 Havia gente à distância, parte da equipa, moradores da zona. Mas o que viram de longe foi uma mulher debatendo-se na água e gritando. E ninguém correu na altura. Porque aquilo visto de fora parecia trabalho, porque aquela era a equipa de uma novela. Câmaras, atores, cenas gravadas naquele rio o dia inteiro. Durante semanas. Uma mulher a gritar na água do ponto de vista de quem assistia de longe, parecia exatamente o que tinham visto dezenas de vezes.

 Uma atriz representando uma cena do velho Chico. Ninguém correu porque ninguém acreditou que fosse real. Os segundos que se perderam ali, os segundos em que as pessoas ficaram paradas, pensando que estavam a ver ficção, foram os segundos em que Domingos Montainer mais precisou de ajuda. A própria novela que ele protagonizava, O mundo de Faz de Conta que tinha construído com tanto talento, foi o que fez o socorro hesitar.

 O público que se habituou a vê-lo em cenar a morte demorou a compreender que daquela vez não tinha guião. Olha a ironia cruel disto. O ofício da sua vida inteira, fingir, encenar, emocionar um público foi a última coisa a atrapalhar a única vez em que não estava a atuar. Quando finalmente compreenderam que o desespero de A Camila era real, foi rápido.

 Um barco veio buscá-la. Ela conseguiu sair da água arranhada. batida em choque. Mas Domingo já tinha desaparecido. A superfície do rio estava de novo lisa, como se nada tivesse acontecido, como se ele nunca tivesse estado ali. E começou a parte mais longa e mais cruel daquele dia. Porque encontrar um homem debaixo do rio São Francisco naquele troço não era questão de minutos.

 Domingos Montainer ficou desaparecido nas águas durante 4 horas. E o que os mergulhadores encontraram quando finalmente desceram revela porque é que nenhum nadador, por melhor [música] que fosse, teria conseguido sair dali sozinho. Aquele rio escondia uma armadilha e ela tinha nome. A produção acionou tudo o que podia.

 Helicópteros do grupo tático aéreo, polícia militar, polícia civil, o SAMU, pescadores da região que conheciam cada curva daquele rio e o agrupamento marítimo do Corpo de Bombeiros de Sergipe com mergulhadores especializados sob o comando do coronel Reginaldo Dória. Mas a busca esbarrou com dois problemas desde o primeiro minuto. O primeiro já consegue imaginar.

Ninguém sabia exatamente onde tinha fundado. Como o socorro demorou a compreender que era real e como a corrente arrastava tudo, o ponto exato do desaparecimento tornou-se um pontapé. Os bombeiros admitiriam mais tarde: “A falta de informação precisa sobre o local onde o ator tinha assumido foi um dos fatores que mais dificultaram o resgate.

procuravam um homem numa enorme extensão de água escuras, sem saber se tinha sido levado 10 m ou 300. O segundo problema era a própria água. A corrente naquele troço, perto da central de Xingó, era forte e traiçoeira. Os mergulhadores tiveram de descer fundo, muito fundo. No primeiro mergulho, atingiram 26 m de profundidade.

26 m é mais ou menos a altura de um edifício de oito andares debaixo de água, no escuro contra a corrente. E não não acharam nada. Regressaram de mãos vazias. Imagina a cena na margem neste intervalo. A equipa toda parada. A Camila, acabada de tirar da água, sabendo que tinha sido a última pessoa a tocar nele as horas a passar, e a esperança que no início ainda existia, indo embora a cada mergulho que regressava sem resposta, porque toda a gente ali sabia de uma coisa que ninguém queria dizer em voz alta. Depois de tanto tempo

submerso, já não se procurava mais alguém para salvar. Procurava-se um corpo. No segundo mergulho, encontraram a 18 m de profundidade, a cerca de 320 m de onde tinha sido visto pela última vez, o corpo de Domingos Montainer estava preso entre duas pedras no fundo do rio. A correntes tinha-o arrastado o equivalente a mais de três campos de futebol antes de o prender ali em baixo.

Os mergulhadores trouxeram-no à superfície já ao início da noite. E é aqui que aquela palavra do relatório, a que pedi-lhe para não esquecer, começa a fazer sentido. Porque a forma como Domingos Montagner se afogou não foi a forma como as pessoas se afogam por cansaço ou por não saber nadar. O Instituto de Medicina Legal utilizou um termo específico e este termo aponta o dedo direto para o verdadeiro responsável pela aquela morte. Não, uma pessoa, um lugar.

Semanas depois da morte, a Polícia Civil de Sergipe concluiu o inquérito e o relatório do Instituto Médico Legal trouxe a tal palavra: “A causa da morte foi descrita como asfixia mecânica por afogamento, mas o tipo de afogamento recebeu uma classificação específica, atípico.” Atípico na linguagem da perícia quer dizer que aquilo não seguiu o padrão do afogamento comum.

 O afogamento clássico é uma luta longa. A pessoa se cansa, engole água aos poucos, debate-se durante minutos até não aguentar mais. Atípico é outra coisa. É quando algo acontece demasiado rápido para que a vítima reaja. Uma perda súbita de consciência, um espasmo, um susto do organismo ao contacto com a água ou com uma corrente inesperada.

O corpo simplesmente deixa de responder. Compreende o que isso significa para a nossa história? Signifique saber nadar, talvez não tenha feito a menor diferença. Um afogamento atípico não escolhe nadador bom ou mau. Não importa se é trapezista, atleta, se tem 1,90 m e um pulmão de circo. Se o gatilho disparar debaixo de água, longe de qualquer ajuda, a capacidade não guarda.

 Foi por isso que a Camila viu o amigo desaparecer tão depressa. Faltou tempo, e não força. O rio agiu rápido demasiado para qualquer reação. E é aqui que entra o verdadeiro responsável pela essa morte. O que matou o Domingos Montainer não foi um descuido dele. Foi um lugar que nunca deveria ter recebido ninguém para nadar.

 Para compreender, você precisa de saber o que é que existe pouco acima desse ponto. A cerca de 2 km rio acima da prainha, encontra-se a central hidroelétrica de Xingó, uma barragem enorme. E o troço de rio, logo abaixo de uma barragem destas, não é um rio comum. A própria prainha, a faixa de areia onde os dois entraram, é calma e utilizada pelos moradores para banho.

 Mas a poucos metros dali, em direção ao centro do rio e às comportas da central, a água passa a ser outra coisa. Um professor de engenharia hidráulica da Universidade de São Paulo explicou na altura por aquele trecho é tão traiçoeiro. O rio ali corre dentro de um canon, um vale profundo e íngreme com uma queda acentuada.

 Isso faz com que a água acelere e gire, formando turbilhões que podem surgir na superfície sem aviso. Moradores diziam que nesse ponto perto das comportas, o profundidade atinge as dezenas de metros. O comandante do corpo de bombeiros foi direto. Aí a correnteza tríplica ou quadruplica de força em pouco tempo.

 E até os mergulhadores treinados tiveram que lutar contra ela. E Domingos não foi o primeiro. No início desse mesmo ano, outra pessoa já tinha morrido afogada na mesma região do rio. O local já tinha advertiu com a vida de alguém o que era capaz de fazer. Mas tem um pormenor sobre aquela tarde que [música] quase ninguém conhece e que é a parte mais perturbadora de toda a investigação paralela que se fez sobre o caso.

 Uma reportagem de investigação do site The A Intercept Brasil obteve documentos sobre a operação da central no dia do acidente e o que estes papéis mostravam era de gelar. Segundo os dados recolhidos pela reportagem, a quantidade de água que a barragem soltava rio abaixo foi aumentando ao longo dessa primeira metade da tarde, precisamente na faixa de horário em que os [música] dois estavam na água.

 Ao início da tarde, a central libertava pouco mais de 800 m cbicos de água por segundo. Uma hora depois já passava dos 900 e seguiu subindo até beirar os 1000 m³/ segundo. O fluxo crescia hora após hora e foi exatamente nesse intervalo de água cada vez mais forte que o desespero começou. Quer dizer, existe a possibilidade de, enquanto O Domingos e a Camila nadavam, o rio estivesse a ficar mais forte minuto a minuto.

 Sem que tivessem como saber, é preciso ser justo e dizer outro lado. A empresa que opera a central, a Cheesf, afirmou que não houve qualquer alteração no caudal durante o dia do acidente. As duas versões nunca foram totalmente reconciliadas e nada disto foi estabelecido como causa oficial da morte. O relatório falava em afogamento, o inquérito falou em acidente.

 A hipótese da água da central ficou no ar, como tanta coisa nesta história, sem resposta definitiva. Mas ela ajuda a compreender porque é que um homem que sabia nadar não teve a mínima hipótese. Volta comigo àquela praia. A prainha. Lembra-se do que não tinha lá? Não tinha placa, não tinha viso, não tinha boia, corda, guarda, não tinha uma única indicação de que a poucas braçadas daquela areia calma, o rio transformava-se numa máquina capaz de arrastar um homem por mais de 300 m e prendê-lo a 18 de profundidade.

Quem ali chegasse, olhasse a água mansa da beira e fosse nadando para a frente, estaria a fazer exatamente o que Domingos fez, sem qualquer sinal de perigo no caminho. A própria conclusão do inquérito registou as irregularidades do local, a ausência de sinalização adequada e a falta de nadadores-salvadores.

 Estava tudo ali no papel, escrito por escrito. O local não tinha prototeção mínima e agora vem a parte que dá raiva. Apesar de tudo isto documentado, ninguém foi responsabilizado. A polícia concluiu que a morte foi acidental e o inquérito foi encerrado sem ninguém indiciado. Nenhum responsável pelo local, ninguém pela ausência de sinalização, [música] ninguém pela falta de nadadores-salvadores num ponto turístico.

 margens de uma central num rio conhecido por engolir pessoas. A morte de um dos atores mais acarinhados do país foi arquivada como que foi, um acidente que ninguém poderia ter previsto, mesmo que no fundo qualquer placa espetada na areia talvez tivesse mudado tudo. E depois veio a parte que expõe o jogo.

 Dois dias depois da morte, a câmara municipal de Canindé de São Francisco interditou a orla da prainha por tempo, indeterminado. Colocaram faixas, puseram seguranças para impedir que as pessoas entrassem na água. De repente, depois de um morto famoso, apareceu a segurança. O local esteve interditado durante meses, mas quando se perguntou de quem era a culpa pela falta de sinalização e de nadadores-salvadores, começou um empurra empurra.

A câmara disse que não podia mexer na orla porque a obra ainda estava sob responsabilidade do governo do Estado. O governo do Estado, por sua vez, mandou uma nota negando a responsabilidade pelo local. Um apontava para o outro. E no meio dos dois, a única certeza era que no dia em que Domingos entrou na água, não tinha lá placa nem guarda nenhum para avisar do perigo que já tinha matado antes. É sempre assim.

 A proteção que custava pouco só aparece depois de custou demasiado caro. Mas enquanto a polícia fechava o caso, uma outra coisa acontecia, longe das pedras e da corrente, algo que mostrou um lado feio do Brasil e que feriu a única pessoa que tinha sobrevivido àele porque a tragédia de Domingos Montainer não terminou no fundo do São Francisco.

Ela continuou na televisão, num estúdio que precisou de ser reinventado à pressa e na internet, onde uma mulher em luto tornou-se alvo. Comece pela novela porque o que a Globo teve de fazer é quase inacreditável. Quando Domingos morreu, faltavam duas semanas para o último capítulo de Velho Chico.

 O protagonista santo estava em quase todas as cenas finais. Não dava para refazer, não dava para mudar de ator. E havia um pormenor que ninguém na produção conseguia encarar sem se arrepiar. A última cena planeada para o santo, escrita muito antes daquele 15 de Setembro, mostrava o personagem contemplando as águas do rio São Francisco, ao lado da família, durante um pô-do-sol.

 O guião tinha colocado o seu carácter, olhando para o mesmo rio que tirou a vida ao ator, escrito antes, sem que ninguém soubesse. A equipa estava destroçada. O autor Benedito Rui Barbosa, um senhor que já tinha visto de tudo na televisão, disse que nunca tinha levado um choque daquele tamanho na vida e tomou uma decisão.

 O santo não morreria na história. Não dava para matar na ficção o homem que o O Brasil acabara de enterrar de verdade. Para terminar a novela sem o ator, o produção recorreu a uma solução técnica de cortar o coração. passaram a gravar as cenas que faltavam com câmara subjetiva. Quer dizer, a câmara virava os olhos do santo.

 Os outros atores olhavam diretamente para a objetiva, falavam com ela, sorriam para ela, choravam para ela, estavam, na verdade, a falar com o vazio, atuando para um amigo que não estava mais ali, a fingir que ele estava. O que será que passava pela cabeça da Camila Pitanga ao contracenar com uma contra câmara no lugar do homem cuja mão ela tinha tentado segurar dentro daquele rio poucos dias antes? E mesmo assim entregaram.

 O país inteiro entendeu o que estava a acontecer e a novela bateu recorde. No dia seguinte à morte, o capítulo em que o santo nem apareceu e [música] os créditos subiram em silêncio, se registou 35,2 pontos de audiência na grande São Paulo. Foi o maior ibope de toda a novela desde a estreia. Nos dias anteriores, ela vinha marcando por volta de 28 a 31.

 O Brasil parou para se despedir. No último capítulo, [música] no dia 30 de setembro, os autores deram ao santo o final que teria tido se nada tivesse acontecido. O casamento com a Teresa, a personagem da Camila, e numa homenagem final mostrar um santo a bordo do Gaiola encantado, a embarcação que na lenda do rio leva as almas dos que já se foram.

 Repararam? Até na ficção no fim, colocaram o personagem dele de volta no rio, mas desta vez para atravessar em paz. Só que fora das telas, longe da homenagem cuidada da novela, estava a acontecer uma coisa nojenta. Nos dias seguintes, a morte começaram a circular nas redes sociais imagens da Camila Pitanga acompanhadas de piadas sobre o afogamento.

Brincadeiras doentias com a tragédia, com a morte de um homem. dirigidas precisamente à mulher que tinha acabado de ver o amigo morrer ao lado dela, que tinha esticado o braço duas vezes e sentido a água levá-lo. E a crueldade não parava. Aí a pessoa que mais sofreu naquele rio, depois do próprio Domingos, tornou-se piada na internet enquanto [música] ainda estava de luto.

 A reação de quem conhecia os dois foi de revolta. Pediram respeito publicamente. Lembraram que os artistas são pessoas [música] que sentem que sofrem a perda de um colega como qualquer pessoa. E à Camila, três dias depois da morte, sentou-se para dar uma única entrevista no Fantástico e contou tudo.

 Foi aí que o Brasil ouviu [música] da boca dela as palavras que se tornaram o centro de toda esta história, as palavras que explicam por ela sobreviveu e ele não, e que revelam qual foi de verdade o último gesto de Domingos Montagir dentro de água. É isso que eu preciso de te contar agora, porque muda completamente a forma como esta morte deveria ser recordada.

 Para compreender o tamanho do choque que a morte de Domingos causou, precisa de saber de uma coisa que hoje poucos se lembram. A A sua morte foi a segunda tragédia a atingir o velho Chico e ainda não seria a última. 5 meses antes, em abril de 2016, com a novela No início, outro ator do elenco morreu.

 Humberto Magnani, de 75 anos, um veterano de décadas de teatro e televisão, interpretava o padre Romão, uma das personagens mais queridas da trama. No dia 25 de abril, precisamente no aniversário dele enquanto se preparava para gravar, Magnan sofreu um AVC nos bastidores. Foi levado apressadamente para um hospital no Rio, foi submetido a uma cirurgia e não resistiu. Morreu dois dias depois.

A produção já tinha aprendido nesse abril como é reescrever uma novela em volta de um caixão. Para continuar sem ele, os autores criaram um novo padre, o Benício, vivido por Carlos Vereza, com uma explicação dentro da história para justificar a troca. Resolveram o problema com o ofício. Seguiram em frente.

 Ninguém imaginava que poucos meses depois teriam de fazer tudo de novo, desta vez com o protagonista. E houve ainda um terceiro, Adilson Magá, que fez uma participação marcante como um cego enigmático, morreu em Dezembro desse mesmo ano de cancro no pulmão, aos 68, três actores da mesma novela, mortos no intervalo de meses. Começou a se falar na altura que Velho Chico era uma novela maldita.

 De maldição não não tinha nada. O que havia era uma sequência de tragédias humanas a cair todas sobre a mesma exprodução num intervalo demasiado curto. Mas para o público que via aquilo de fora parecia coisa de cinema. E a morte de Domingos tinha um peso histórico que as outras não tinham, porque ele era o protagonista. E em toda a história da Rede Globo, só duas vezes antes, um protagonista de novela tinha morrido durante a exibição.

Sérgio Cardoso, em O Primeiro Amor, lá em 1972, e Jardel Filho, em Sol de Verão, em 1983. Domingos Montagher foi terceiro, em mais de 40 anos, o terceiro [música] ator a abandonar uma novela orfa do seu personagem principal no meio do ar. Pensa no que isso significa para quem estava a ver [música] em casa.

 Você acompanha uma personagem todas as noites durante seis meses, torce por ele e de repente o homem que lhe dá rosto e voz morre de verdade no mesmo rio que dá nome à novela. A fronteira entre a ficção e a realidade simplesmente ruiu. Foi foi isso que transformou a morte de Domingos Montagier num acontecimento nacionation e não só na perda de um ator.

 O Brasil inteiro tinha o costume de o ver se encenar a vida de Santo toda a noite e teve de processar ao mesmo tempo, a notícia de que o homem por detrás de Santo já não existia. A novela continuou indo ao ar com ele vivo no ecrã em capítulos gravados antes, enquanto o corpo de verdade já estava a ser velado. O país viu durante dias um morto a actuar e quando se realizou o velório, [música] ficou claro o tamanho do que o Brasil tinha perdido.

 O corpo de Domingos foi levado de avião de Aracaju para São Paulo e chegou ao interior de São Paulo na noite de sexta-feira, 16 de setembro. No sábado, dia 17, o velório realizou-se no Teatro Fernando Torres, na zona oriental de São Paulo, perto do [música] Tatuapé, o bairro onde tudo tinha começado, por detrás do balcão do bar dos pais.

 Fazia sentido? Voltou para morrer perto de onde nasceu e foi velado num teatro, a casa que escolheu para a vida. Desde as primeiras horas da manhã, os fãs se juntaram nos arredores. Alguns passaram a noite em frente ao portão, levaram cartazes, flores, aplausos. Muitos amigos do ator combinaram ir vestidos de branco para simbolizar os pais.

 Parte do elenco de velho Chico chegou junta de carrinha, por volta das 9 horas da manhã. Lúcia Alves, Marcelo Serrado, Marcos Palmeira, Dira Paz, o realizador Luís Fernando Carvalho. Atrizes como Maria Fernanda Gândido, Marisa Hort, Celma Grey e [música] Natália Timberg também vieram despedir-se.

 Luciana Lima, a esposa, entrou por uma porta lateral apoiada e Camila Pitanga chegou amparada pelo namorado e saiu por volta das 10:20 muito abatida, a mulher que tinha esticado o braço dentro do rio, agora atravessava uma multidão para se despedir do corpo do amigo. O pai dela, o ator António Pitanga, confirmou publicamente o que já se sabia, que ela tinha tentado salvá-lo.

 Eram milhares de pessoas na rua. Para um homem que a televisão só tinha descoberto 8 anos antes, todo o Brasil parou para chorar. O caixão saiu do teatro por volta das 11 da manhã, sob aplausos rodeado de gente. A família pediu que o momento do enterro fosse reservado e os fãs respeitaram, contidos do lado de fora do cemitério da quarta paragem, na zona oriental, entoando orações e cantando enquanto o cortejo passava.

 Domingos Monteer foi sepultado a poucos quilómetros de onde tinha crescido. A a sua morte atravessou fronteiras. A imprensa internacional noticiou o caso da BBC a jornais dos Estados Unidos, com a mesma frase de espanto a repetir-se. Um ator brasileiro tinha-se afogado no mesmo rio que dava nome à novela que protagonizava.

 E os moradores à distância tinham achado que o desespero era cena. A vida tinha imitado a arte da forma mais cruel possível e o mundo inteiro reparou nisso. Mas nenhuma manchete em nenhuma língua tinha chegado ao pormenor que só uma pessoa no mundo conhecia, a pessoa que estava dentro da água com ele. Voltemos àquela entrevista.

Três dias depois da morte, num domingo, 18 de setembro, Camila Pitanga sentou-se perante as câmaras do Fantástico, rodeada de família, amparada pelo namorado, e contou o que tinha vivido dentro daquele rio. Foi a única vez que ela falou em detalh sobre aquilo. E o que ela disse é a chave de tudo. Ela contou que quando a corrente apanhou os dois, ela lutou para voltar e ajudá-lo.

lutou contra o seu próprio corpo. Disse que repetia para si mesma: “Eu vou”. E que alguma coisa dentro dela respondia: “Não vá”. Que se arranhava, se batia e que não tinha ninguém por perto para socorrer. Que queria salvar o amigo, mas sabia que não conseguiria e que naquele instante pensou na própria filha.

 Agora segura, porque é aqui que esta história deixa de ser sobre uma morte e passa a ser sobre quem ele era. Camila revelou um pormenor que muda completamente a forma de compreender aquele afogamento. Ela disse que [música] em momento algum Domingo agarrou-se a ela. Em momento algum ele puxou-a, usou-a de polio para tentar se manter à tona.

 E quem trabalha com resgate em água sabe o quanto é raro. O pânico de quem está a afundar-se muitas vezes faz com que a pessoa se agarre a qualquer coisa ao alcance, incluindo a quem veio ajudar. É assim que socorristas acabam levados junto. Domingos tinha uma pessoa ao alcance da mão e não se segurou nela. Domingos fez o contrário.

 Ele segurou-se sozinho enquanto pôde e deixou-a ir. nas palavras dela, ele estava a tentar se segurar. Em momento algum a agarrou e a salvou. Ela disse que ele sabia o que estava a acontecer e que mesmo assim deu a ela a oportunidade de viver. Entende agora porque eu pedi lá no início para você guardar o tipo de homem que ele sempre interpretou? Fortes por fora, protegendo os outros.

No último momento da vida, sem guião, sem câmara, sem público, foi exatamente esse homem. O afogamento foi rápido, o relatório confirmou. Talvez ele tenha tido apenas alguns segundos de consciência debaixo daquela água. E o que ele escolheu fazer com estes segundos não foi tentar salvar-se, puxando a única pessoa ao alcance, foi não levar ninguém junto, foi morrer sozinho para que a amiga vivesse.

 Um homem que passou a vida a treinar o próprio corpo, controlando cada movimento no trapézio, calculando cada risco. No instante em que esse corpo falhou, teve ainda o domínio de fazer a coisas mais difíceis que existem, não se agarrar. Não arrastar, largar. Esse é o gesto que deveria [música] definir a morte de Domingos Montanheiro.

Mais do que a tragédia, mais do que a negligência do rio, o que fica é o que fez com os últimos segundos que teve. A Camila carregou isso numa das homenagens, falou diretamente com ele, agradeceu por lhe ter segurado a mão numa fase difícil da vida, mas a mão, no fim ele soltou de propósito, para que ela continuasse de pé, contando que história, lembrando o Brasil de quem ele era.

 A despedida no Teatro Fernando Torres teve a cara do homem que estava sendo enterrado. Não foi só missa e silêncio. O elenco de velho Chico cantou músicas indígenas, as mesmas que tinham aprendeu com a tribo que participava na novela e fez orações. Teve homenagem com elementos de circo, porque era de circo que ele vinha.

 E os amigos sabiam que era assim que ele gostaria de ser lembrado. No dia anterior, a tribo que gravava a trama enviou uma mensagem a dizer que a a partir daí Domingos era o protetor do rio São Francisco. O homem que o rio levou tornou-se, na crença daquela gente, o guardião do próprio rio. A comoção tomou todo o país.

 Nomes de peso da dramaturgia brasileira de Fernanda Montenegro António Fagundes, que contracenava com ele em Velho Chico, vieram a público lamentar. Colegas mais os jovens também. Cléo Pires, que tinha trabalhou com ele em Salve Jorge, escreveu uma despedida em que agradecia ao amigo [música] por ter segurado a mão dela numa fase difícil e mandava em homenagem um whisky e uma música de Leonard Cohen da forma melancólica que gostava.

 Os fãs encheram as redes de tributos relembrando as cenas de cada personagem. e tem uma coincidência quase insuportável de tão triste. No calendário desse setembro. Quando Domingos morreu, tinha um filme em Kas nos cinemas do Brasil, uma comédia romântica chamada Umado para Minha Mulher, em que contracenava com Ingrid Guimarães.

 Enquanto o país chorava a morte dele, o seu rosto continuava vivo nos ecrãs de cinema, fazendo rir e na novela das 9, todas as noites como santo. Durante dias, o Brasil teve domingos montanheira em três locais ao mesmo tempo. luto no cinema e na ficção da novela. Um homem morto ainda a encher salas e fazendo as pessoas [música] sorrir.

 O legado dele não se ficou pelo enterro. A companhia La Mínima que fundou seguiu viva, organizando eventos em memória do amigo, mantendo de pé a paixão pelo circo que tinha tirado um professor de educação física do anonimato. Em 2017, um documentário chamado Simplesmente Domingos contou a vida e o percurso dele com depoimentos de família e colegas.

 A esposa Luciana Lima e os três filhos seguiram preservando a memória e apoiando iniciativas culturais com o seu nome. O artista que demorou a chegar continuou chegando mesmo depois de partir, porque é isso que um verdadeiro artista deixa. Não bens, não manchete, deixa-nos que continua a dizer o seu nome em voz alta anos depois.

 A gente costuma achar que conhece as pessoas famosas. Vê o rosto todos os dias na tela, decora o jeito de falar, pensa que sabe quem são. Mas a verdade é que só conhecemos o personagem. O verdadeiro homem aparece nos momentos em que não tem câmara nenhuma ligada. Domingos Montagner passou a vida a ser visto no circo, no palco, na novela das milhões de pessoas observaram-no fingir cair, fingir lutar, fingir morrer.

 E no único momento em que tudo era real, no fundo de um rio, sem quem filma, longe de qualquer plateia, fez a escolha mais generosa que um ser humano pode fazer. A água levou um pai de três filhos, levou um marido de 14 anos de casado, levou um artista no melhor momento da sua carreira, Há 13 dias de terminar o maior trabalho da vida e levou de uma forma que poderia ter sido evitado, num local sem uma única placa de aviso, num caso que se fechou sem ninguém a responder por nada.

A água levou tudo isso, mas a água não é o que fica. O que fica é o braço esticado da Camila. tentando duas vezes e a mão dele do outro lado a escolher não puxar. Se tem alguém assim na vida, alguém que o escolheria na hora do aperto, não espera. fala com essa pessoa hoje.

 

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