O cenário político e geopolítico brasileiro encontra-se em um ponto de ebulição, atravessado por narrativas fabricadas, interesses estrangeiros disfarçados de justiça e um complexo jogo de poder que ameaça a soberania nacional. Recentemente, a manobra política internacional que visa classificar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas globais pelos Estados Unidos — um movimento fortemente impulsionado pela retórica de Donald Trump e abraçado com fervor pela família Bolsonaro — levanta questões profundas. O que, à primeira vista, pode parecer uma cruzada moral e de segurança pública contra o crime organizado, revela-se, sob um olhar mais clínico, uma gigantesca cortina de fumaça destinada a ocultar as próprias contradições do bolsonarismo e a pavimentar o caminho para a interferência externa nas questões mais sensíveis do Brasil.
Para desatar os nós dessa teia complexa, é imprescindível começar analisando os atores que se apresentam como os grandes paladinos dessa “cruzada” moralizadora. A narrativa heroica construída em torno de figuras como Flávio Bolsonaro, aplaudida por aliados midiáticos que proclamam “missão cumprida” — chegando ao absurdo de afirmar que um único dia de reuniões com aliados trumpistas fez mais pela segurança do povo brasileiro do que três mandatos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva —, é de uma fragilidade estarrecedora. A grande ironia que permeia esse teatro político reside no fato de que a família Bolsonaro, historicamente, possui vínculos umbilicais com o submundo do crime organizado no Rio de Janeiro.
Quando os holofotes se voltam para o combate ao crime, a hipocrisia salta aos olhos. É impossível ignorar as conexões estreitas e documentadas com figuras carimbadas das milícias de Rio das Pedras e arredores. Nomes como Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), preso por envolvimento na proteção e no aviso antecipado a criminosos como “TH Joias” — apontado não apenas como o joalheiro do Comando Vermelho, mas como um verdadeiro operador e braço financeiro da facção no Rio de Janeiro —, expõem a ferida purulenta da política fluminense. Como pode um grupo político que nutriu relações tão próximas com o crime organizado local arvorar-se agora como o salvador da pátria contra o terrorismo global? Trata-se de uma falácia desenhada para o consumo rápido das redes sociais, uma isca perfeita para um público cativo que assimila qualquer narrativa que alimente sua polarização extremada.
Contudo, se a narrativa bolsonarista tenta criar um herói de papel, as engrenagens mais profundas do Estado brasileiro começam a girar em direções inesperadas e fascinantes. É aqui que precisamos fazer do limão uma limonada, observando um fenômeno silencioso, porém tectônico, que vem ocorrendo nos bastidores das Forças Armadas Brasileiras. Historicamente, desde meados dos anos 1960 e do período da Guerra Fria, a doutrina militar brasileira foi profundamente influenciada pelos Estados Unidos. Sob a batuta de teóricos como Golbery do Couto e Silva e a chamada “Sorbonne” (Escola Superior de Guerra), o foco absoluto das Forças Armadas foi o combate ao “inimigo interno”. Essa visão distorcida perdurou por décadas, justificando desde o regime de exceção até as recentes e desastrosas operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) no Rio de Janeiro, lideradas por figuras como o general Braga Netto.
Mas os ventos estão mudando. Em fóruns e portais militares restritos, uma nova discussão ganha corpo: a realocação da doutrina de Defesa Nacional para enfrentar a possibilidade — ainda que teórica — de uma ameaça externa, incluindo uma invasão do território brasileiro por potências estrangeiras, como os próprios Estados Unidos. É um despertar estratégico de proporções gigantescas. Há um reconhecimento crescente, por parte dos setores de engenharia militar, do Instituto Militar de Engenharia (IME) e da Marinha, de que as guerras modernas não perdoam o atraso tecnológico nem a subserviência.
Analistas militares debatem cenários hipotéticos: em caso de um conflito bélico com a maior potência militar do planeta, a assimetria tecnológica seria brutal. A Marinha e a Força Aérea Brasileiras poderiam ser neutralizadas em questão de dias. No entanto, a vastidão colossal do território nacional brasileiro transformaria qualquer tentativa de ocupação em um pesadelo logístico para o invasor, exigindo uma resistência descentralizada e resiliente, nos moldes do que se teoriza para países como o Irã. Esse despertar doutrinário significa a possibilidade de um resgate da verdadeira vocação das Forças Armadas: a garantia intransigente da soberania nacional.
Para entender a magnitude dessa mudança, é preciso olhar para a história. Nos anos 1930, a grande ameaça percebida pelo Brasil era a vizinha Argentina, que possuía forças armadas significativamente mais modernas. Foi essa percepção de ameaça externa que impulsionou o projeto de industrialização de base de Getúlio Vargas. O Exército apoiou e exigiu a criação de indústrias pesadas, siderúrgicas (como a CSN) e os primeiros grandes estaleiros, fundamentais para a defesa do país. A segurança nacional não se faz com bravatas; faz-se com aço, tecnologia e independência.

Essa reflexão histórica nos leva diretamente à ferida mais recente e dolorosa da nossa soberania: a Operação Lava Jato. Por muito tempo vendida como a maior operação de combate à corrupção do mundo, a Lava Jato se revelou, à luz das investigações e apurações do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) conduzidas por Luis Felipe Salomão, como uma engrenagem que atuou repetidamente em benefício de interesses norte-americanos e contra os interesses estratégicos do Brasil. O caso mais emblemático desse desastre orquestrado é o da construtora Odebrecht.
A Odebrecht não era apenas uma empreiteira gigante; ela era um braço fundamental da engenharia nacional, profundamente engajada em projetos de altíssimo interesse do Estado, como o Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB), incluindo o almejado submarino de propulsão nuclear. A competência técnica da empresa era tanta que sua participação no projeto foi uma exigência dos próprios parceiros franceses. O que fez a Lava Jato sob o comando do então juiz Sérgio Moro? Destruiu a empresa por dentro. Forçou delações premiadas em massa — absurdos jurídicos onde dezenas de funcionários foram obrigados a confessar crimes sob ameaça de prisão —, exigiu o pagamento de multas bilionárias e forçou a demissão em massa de cérebros valiosos da nossa engenharia.
Qual foi o resultado prático dessa cruzada moralista de Curitiba? O esvaziamento completo da capacidade de projeção tecnológica e infraestrutural da Odebrecht e de outras empresas do setor, abrindo espaço para corporações estrangeiras. Ao esvaziar a indústria de defesa e infraestrutura, a Lava Jato prestou um serviço inestimável àqueles que preferem ver o Brasil na posição de eterno comprador de equipamentos sucateados e tecnologias ultrapassadas, dependente da boa vontade de nações do hemisfério norte.
Hoje, a farsa narrativa de que Flávio Bolsonaro e Donald Trump resolverão o problema de segurança pública do Brasil ao rotularem facções como terroristas é um autêntico “tiro no pé” para a extrema-direita. Primeiro, porque a manobra é grosseira demais para passar despercebida por observadores atentos. A mídia tradicional, que por tanto tempo evitou confrontar de forma mais agressiva os absurdos da extrema-direita, finalmente percebeu o abismo para o qual o país estava sendo arrastado. O ditado popular diz que “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”, e os editoriais dos principais veículos do país — vozes influentes como Merval Pereira e outros — já tratam a família Bolsonaro pelo que ela representa: um risco estrutural à estabilidade institucional. A opinião pública mais esclarecida, mesmo aquela que mantém ressalvas ao atual governo, reconhece que não há comparação possível entre as disputas políticas tradicionais e a apropriação do Estado por grupos ligados ao crime organizado carioca.
Em segundo lugar, essa provocação externa fornece ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva uma oportunidade de ouro. A ameaça de internacionalização da segurança pública brasileira sob a rubrica do “terrorismo global” afeta diretamente o orgulho e a percepção de dever das Forças Armadas. A diferença entre tratar uma facção como “organização criminosa” (um problema interno de segurança pública) e “organização terrorista global” (que abre brechas para intervenções externas, espionagem e bloqueios internacionais impostos pelos EUA) é a diferença entre manter a soberania e perdê-la.
Este é o momento ideal para o atual governo promover a reciclagem que tanto falta aos militares brasileiros. É a hora de retomar o Plano Nacional de Defesa — engavetado desde as épocas brilhantes de Nelson Jobim entre 2007 e 2008 —, reinserir o debate sério sobre Defesa e Soberania nos currículos da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) e reativar com força total a indústria bélica e de tecnologia nacional. O Exército e a Marinha não podem continuar sendo clientes de vitrines estrangeiras, comprando blindados importados quando temos capacidade, cérebros e recursos para construir os nossos próprios.
A coesão nacional contra o crime organizado verdadeiro, aquele que infiltra as instituições e elege parlamentares em gabinetes acarpetados no Rio de Janeiro e em Brasília, deve ser a pauta central do Brasil moderno. Não precisamos de salvadores da pátria que vão buscar “soluções mágicas” nas mãos de políticos estrangeiros em decadência. Precisamos, sim, de instituições sólidas, de uma engenharia nacional recuperada do baque desferido por falsos heróis da Lava Jato, e de Forças Armadas que olhem para os nossos imensos litorais, florestas e fronteiras com a consciência de que o verdadeiro inimigo da nação é a subserviência e a desindustrialização. A narrativa de Trump e da família Bolsonaro, no fim das contas, pode ter feito o favor de despertar o gigante que estava adormecido. Que estejamos preparados para os próximos capítulos dessa retomada histórica.