quartos abaixo do dele vivia um homem de nome Valdomiro Bezerra, natural de Mossoró, no Rio Grande do Norte, que trabalhava como carregador no mercado de São Sebastião e que tocava Zabumba nas horas vagas. Valdomiro tinha ouvido a concertina no quarto de Gonzaga durante os meses anteriores.
Tinha batido à porta algumas vezes. Os dois tinham tomado café juntos na cozinha da pensão. Naquela noite de março de 1946, Valdomiro ouviu o silêncio no quarto do vizinho e foi até lá. Bateu uma vez. Gonzaga abriu o que os dois conversaram nessa noite, sentados no chão daquele quarto de 4 met por tr é o coração de tudo.
Valdomiro era um homem simples, não tinha instrução formal, não sabia nada de produção musical, de rádio, de mercado discográfico, mas sabia de uma coisa que Ernesto Vila Nova nunca ia saber. Sabia o que era ter fome em terra estranha. Sabia o que era olhar para as janelas iluminadas do Rio de Janeiro de noite e saber que aquela luz não era para si.
Sabia o que era transportar no corpo uma identidade que a cidade grande tratava como um defeito. Ele olhou para o Gonzaga e disse uma coisa. Só uma coisa. E essa coisa não era encorajamento no sentido bonito da palavra, era outra coisa. era mais pesada do que isso. Disse Gonzaga, estás a tentar agradar quem não sabe o que é sede.
Homem que nunca teve sede não sabe o que é água verdadeira. Não adianta tu ofereceres água a quem nunca teve sede. Oferece para quem está a morrer de sede. Este povo tá espalhado por este rio todo com defesa. Está nas obras, está nas cozinhas, está nas fábricas, está em todo o lado. Só ninguém está a olhar para eles.
Gonzaga ficou em silêncio durante algum tempo que Valdomiro descreveu depois como uns três cigarros e depois pegou no acordeão da parede. Mas não foi aí que a decisão se completou, porque havia algo que Gonzaga ainda não sabia naquela noite, algo que ia mudar tudo e que ele só foi descobrir três dias depois por causa de uma mulher que ele nunca tinha visto antes e que apareceu à porta da pensão da Lapa numa quinta-feira de manhã com um recado que tinha percorrido mais de 2.000
km para chegar até ele. Essa mulher era dona Zefinha do Recife, a mesma que estava sentada no corredor da Rádio Nacional quando Gonzaga saiu pela porta empurrado pelo segurança. Ela tinha seguido ele, não de forma assustadora, não como perseguição, como reconhecimento, como quando vê alguém no meio da multidão usando o mesmo tecido da sua avó e sente que tem de parar e perguntar.
Ela tinha-o seguido a distância suficiente para ver que ele entrou na pensão da Lapa. tinha voltado para casa, tinha pensado por dois dias e na quinta-feira de manhã tinha batido à porta da pensão e pedido para falar com o homem da concertina. O que ela tinha para dizer não era uma mensagem, era uma informação.
Uma informação que alguém no Recife tinha-lhe mandado semanas antes, ainda antes da terceira tentativa de Gonzaga na Rádio Nacional. e que ela não sabia se devia entregar, porque não sabia se o destinatário era de confiança. O recado era de Januário, o pai de Gonzaga, o tocador de Fol de Exu e o que Januário tinha mandado dizer através de uma cadeia de conhecidos que ia de Exu ao Recife e do Recife ao Rio.
Isto que ele tinha ouvido falar por uma pessoa que trabalhava num armazém em Petrolina e que tinha uma prima em Caruaru, que tinha um cunhado que trabalhava em Campina Grande, num grupo que tocava nas feiras, que encontrava-se um homem no Rio de Janeiro, um produtor de rádio, que estava à procura de um sanfoneiro nordestino, não para o baião, para outra coisa.
para um programa de variedades que queria incluir um elemento folclórico do interior. Um elemento, é assim que chamavam, elemento, como se fosse mineral, como se não fosse gente. Gonzaga ouviu o recado, ficou em silêncio, depois perguntou a dona Zefinha: “O nome do produtor, a senhora sabe?” Ela disse o nome.
Não era Ernesto Vila Nova, era outro homem, um homem chamado Astério Drumon, que trabalhava não na rádio nacional, mas na rádio Mairink Veiga, um homem que Gonzaga ainda não conhecia. Um homem que, como vais descobrir, foi a personagem mais importante desta história inteira. Não porque fosse poderoso, mas porque era do Piauí.
É aqui que a história vira de cabeça para baixo. Astério Drumon tinha chegado ao Rio em 1938, 8 anos antes de Gonzaga tentar entrar na nacional. Tinha chegado com uma mala e uma promessa de emprego que acabou por ser mentira. tinha dormido três semanas na estação rodoviária, tinha vendido pastel na Celândia, tinha trabalhado como ajudante de pedreiro em Botafogo e como entregador de gelo em Copacabana, antes de arranjar emprego de operador de som na Mairin Veiga, por indicação de um senhor que tinha conhecido num
boteco do catete. 8 anos de adaptação, 8 anos a aprender a falar sem sotaque, 8 anos a engolir comentários sobre o interior, sobre o atraso, sobre o calor do Nordeste dito como insulto por pessoas que nunca tinham saído do rio. E nos 8 anos em que aprendeu a sobreviver naquela cidade, Astéreo Drumon guardou uma coisa que o rio tentou tirá-lo dele e não conseguiu.
A memória do som. A memória do que ouvia quando criança no Piauí, a zabumba, o triângulo, a concertina na feira. O forró que começava quando o sol caía e durava até o galo cantar. Quando Astério ouviu falar de um acordeonista nordestino que estava a tentar fazer baião na Rádio Nacional e levando com uma porta na cara, não foi curiosidade que sentiu, foi outra coisa.
Foi a sensação de quem reconhece no espelho um rosto que pensava ter perdido. Ele mandou o recado pela cadeia toda de volta até Exu, porque sabia de alguma forma que se o homem era do sertão, o recado tinha de vir de onde a família estava. Tinha de vir de onde estava a raiz. Gonzaga foi ao encontro Astério Drumon na Mairinque Veiga numa sexta-feira de manhã, quatro dias depois da visita da dona Zefinha.
Foi de acordeão nas costas, chapéu de couro na cabeça, botas de couro no pé. foi como ele era. Não tentou disfarçar nada, não tentou parecer carioca, não tentou ser o que o rio queria que ele fosse. Astério Drumon estava na cabine de som quando Gonzaga chegou. Saiu da cabine.
Os dois ficaram um tempo a olhar-se no corredor estreito da emissora. E depois Astério disse em português do Piauí que o Rio de Janeiro não tinha conseguido apagar completamente. Tu és de onde? Exu, Pernambuco. Eu sou de Floriano, Piauí. Mais silêncio. E nesse silêncio havia todo o peso de duas décadas longe do sertão.
Havia o sol do meio-dia que os dois transportavam no sangue e não conseguiam sentir mais no rio, onde o sol era diferente, onde o sol não tinha aquele peso específico, aquela qualidade de coisa viva e violenta que aprende-se a respeitar desde criança. Queres tocar aqui?”, disse o Astério. “Quero.
” “Então toca agora aqui mesmo, neste corredor.” E o Gonzaga tocou. Não foi um baião suavizado. Não foi um baião adaptado pro rio. Foi o baião que tinha saído do quarto da pensão da Lapa, o baião que tinha sobrevivido à sala de Ernesto Vila Nova. O baião que tinha sobrevivido à voz de Adalberto Fontes com a boca cheia de arroz.
Foi o baião completo, inteiro, sem pedir desculpa por existir. Três funcionários pararam no corredor para ouvir. Uma rapariga do Departamento Administrativo encostou-se à parede. Um locutor que estava a passar com uma folha de papel na mão, parou no meio do corredor e ficou parado até ao fim. Astéreo Drumon ouviu com os olhos fechados.
Quando Gonzaga parou, ficou em silêncio por um tempo. Depois disse uma coisa que o Gonzaga repetiu muitas vezes ao longo da vida, sempre com o mesmo tom, sempre com aquele modo nordestino de guardar as palavras importantes como se fossem objetos de valor. Isto não é paraa Rádio Nacional, não.
Isto é para todo o Brasil. Mas aqui é onde a história complica-se de novo, porque Astério Drumon não era produtor, era operador de som, não tinha poder de colocar Gonzaga no ar, não tinha autoridade para aprovar um programa, não tinha dinheiro para financiar uma gravação. O que ele tinha era outra coisa.
O que ele tinha era um segredo sobre a Mairin Veiga que Gonzaga ainda não sabia. Um segredo que envolvia o dono da estação, uma dívida antiga e um acordo que nunca foi passado para o papel. E esse segredo é o que vai explicar como um operador de som do Piauí conseguiu o impossível. Mas antes de chegar a isso, precisa de saber o que estava a acontecer fora daquelas emissoras.
Porque o Rio de Janeiro de 1946 não era só o Rio de Janeiro, era o destino de um movimento humano que a história oficial nunca tratou como deveria. Havia milhares de nordestinos a chegar todos os meses, chegando de pau de arara, chegando de comboio, chegando com mala de cartão atada com cordão, a chegar com um filho ao colo e fome no estômago, e o endereço de um familiar escrito num pedaço de papel dobrado no bolso da camisola.
chegavam para trabalhar na construção, nas fábricas, nas cozinhas, nos serviços que o rio precisava de braços para fazer e que os locais não queriam fazer. E estes milhares de homens e as mulheres tinham uma saudade que o rio não oferecia cura. A saudade não era só de pessoa, era de som, era de cheiro.
Era do forró de sábado no passeio da casa do vizinho. Era da acordeão que chamava para dançar quando o trabalho da semana terminava. Era do triângulo que cortava o ar da noite como sinal de que ainda havia alegria no mundo, por mais dura que fosse a vida. No rio, essa cura não existia. Ninguém passava aquilo nas rádios, ninguém gravava aquilo nos estúdios.
Era como se a identidade de um povo inteiro tivesse ficado do lado de lado do São Francisco, do outro lado do uma linha que a grande cidade tinha traçado entre o que era civilizado e o que era coisa de matuto. Gonzaga sabia disso. Valdomiro Bezerra tinha lembrou-lhe disso naquele quarto de 4 m por3.
E Astério Drumon, sem utilizar estas palavras, tinha confirmado a mesma coisa quando fechou os olhos para ouvir o baião no corredor da Mairinque Veiga. A sede estava lá, estava nos bairros do subúrbio, estava nas obras da zona sul, estava nas pensões da Lapa, de São Cristóvão, da Madureira.
A sede estava lá e ninguém estava a oferecer água. Astério Drumon sabia de um homem, um homem que podia mudar tudo isso, mas este homem estava num sítio que nenhum dos dois esperava encontrá-lo. O nome do homem era Lindolfo Maia. Lindolfo era pernambucano de Garanhuns. Tinha chegado ao rio em 1931 com 15 anos e uma concertina que se partiu na viagem.
tinha aprendido a tocar guitarra no rio porque Sanfona ele não tinha mais. Tinha trabalhado como músico de baile, depois como arranjador, depois como assistente numa pequena gravadora de Vila Isabel, que fazia discos de choro e samba. Em 1944, Lindolfo tinha passado um ano inteiro tentando convencer o dono daquela editora, um senhor português chamado Cardoso, a gravar algo diferente, algo nordestino.
Tinha levado acordeonistas, tinha levava tocadores de triângulo, tinha feito demonstração em cima de demonstração. Cardoso tinha dito não todas as vezes. Até que em 1945 Lindolfo tinha-se demitido, tinha guardado tudo o que tinha, tinha ido viver para um quarto ainda mais pequeno do que o de Gonzaga e tinha começado a montar, com dinheiro próprio e com dinheiro emprestado de conhecidos, uma pequena editora discográfica independente.
gravadora ainda não tinha nome quando Astério foi ter com Lindolfo numa tarde de março de 1946, três dias após o baião no corredor da Myink Veiga. tinha uma sala alugada em engenho novo, três microfones usados comprados a uma rádio que tinha fechado, um técnico de som que trabalhava a troco de metade do lucro e uma lista de quatro nomes que Lindolfo tinha anotado num caderno como potenciais artistas para gravar.
O nome de Luís Gonzaga estava nessa lista, estava em terceiro lugar. Mas o que estava escrito do lado do nome é que o vai fazer compreender que esta história não foi acidente, que nada disto foi acidente, que havia uma série de ligações que o Brasil oficial nunca quis ver, porque ver estas conexões significava reconhecer que o que parecia marginal era, na verdade, a espinha dorsal de um povo inteiro.
Do lado do nome de Luís Gonzaga, Lindolfo Maia tinha escrito seis palavras. Seis palavras que Gonzaga só foi saber que existiam muitos anos depois. E quando soube, ficou em silêncio durante um tempo longo e depois disse a única coisa que havia a dizer. Mas isso vem depois. Antes precisa de saber como Gonzaga chegou até Lindolfo, porque o caminho entre Astério Drumon e Lindolfo Maia não foi direto.
Nunca é direto quando o que se está tentar fazer vai contra o que o poder quer que aconteça. Astério tinha a morada de Lindolfo numa anotação que tinha guardado há meses, escrito no verso de um bilhete de autocarro. dentro do bolso do uma calça que tinha lavado três vezes sem tirar o ticket do bolso, de forma que a tinta tinha desfocado, mas as palavras ainda eram legíveis se você soubesse o que estava à procura.
Levou Gonzaga até Engenho Novo numa tarde de quarta-feira de elétrico. Os dois foram em silêncio a maior parte do caminho. Na subida do morro da Tijuca, com o rio a abrir-se pela janela do eléctrico, Conzaga olhou para o lado e disse uma coisa baixinho, mais para si mesmo do que para estéreo.
O meu pai disse-me uma vez que o sertão fica em todo o lado onde tem o nordestino com saudade. Nunca percebi bem o que ele quis dizer. Agora compreendo. Astério não respondeu, mas colocou a mão no ombro de Gonzaga por um segundo e que foi o suficiente. Lindou Maia abriu a porta do escritório de engenho novo usando um avental de cozinheiro, porque estava a pintar a parede do fundo quando os dois chegaram.
Era um homem baixo, de bigode ralo e óculos graduados grossos, com mãos grandes demasiado para o tamanho do corpo. Olhou para o Gonzaga, olhou para o acordeão, disse: “Entra”. Não pediu demonstração, não pediu currículo, não perguntou o que Gonzaga tinha tocado antes.
Disse só: “Já ouvi falar de ti. Eu sei o que fazes. A questão não é se é bom. A questão é se quiseres fazer isto do forma como precisa de ser feito, sem cortar, sem suavizar, do jeito que é. Gonzaga ficou em silêncio por um momento, depois disse com aquele português nordestino que nunca perdeu nem na Lapa, nem em frente a Ernesto Vila Nova.
Do jeito que é ou não tem maneira de ser. O Lindolfo pegou no caderno da mesa, abriu numa página, mostrou a Gonzaga e foi aí que Gonzaga viu as seis palavras escritas do lado do seu nome. As seis palavras eram: “O homem que o rio não quer, não como insulto, como definição, como título, como a descrição mais precisa possível de quem era Luís Gonzaga naquele momento de 1946.
e de porque era exatamente isso que precisava de existir. Lindolfo fechou o caderno e disse: “Vou gravar-te, mas vais dar-me três músicas. Três músicas que sejam do interior de verdade. Não do sertão que o rio aceita, do sertão que o rio não conhece. O sertão que dói e que alegra ao mesmo tempo. O sertão que faz falta.
Você tem essas músicas? Gonzaga tirou o acordeão do estojo, abriu o folle uma vez, apenas uma vez, para sentir o ar e disse: “Tenho mais de 30 anos”. O que aconteceu nas semanas seguintes é onde a história começa a ganhar uma dimensão que vai para além de Gonzaga e vai para além da música.
Porque as gravações que O Lindolfo fez naquela sala de engenho novo com três microfones usados e um técnico que trabalhava de chinelo, não foram só gravações musicais, foram um documento. foram o primeiro momento em que o sertão entrou num disco sem pedir licença, sem ser folclore, sem ser exotismo, como cultura viva, como identidade, como a afirmação de um povo inteiro de que existia e que existir era suficiente.
A primeira canção gravada foi o baião. Não, o baião que hoje conhece, não ainda nessa forma final. Era uma versão que Gonzaga tinha construído ao longo de anos, pedaço a pedaço, num processo que depois descreveu como juntar cacos de memória. Havia nela aumba que o pai tocava nas festas de São João em Exu.
Havia o triângulo que o vizinho tocava enquanto as mulheres dançavam na calçada. Havia a voz do cangaço que tinha ouvido de longe quando criança, numa altura em que o sertão ainda tinha aquela presença, aquele peso específico de coisa que podia acabar a qualquer momento. Quando Gonzaga terminou a primeira tomada, o técnico de som levantou-se da mesa e dirigiu-se para a porta do estúdio improvisado.
abriu a porta, ficou parado, depois voltou e disse ao Lindolfo, sem olhar para Gonzaga: “Isto aqui vai mudar alguma coisa?” Lindolfo respondeu: “Vai mudar muita coisa”. O que não sabiam era o quanto. O que não sabiam era que a mudança já tinha começado a uma escala que nenhum dos três percebia ainda.
Porque enquanto gravavam no Engenho Novo, havia outra coisa a acontecer. Uma sala da Rádio Nacional, a 6 km de distância, estava o Ernesto Vila Nova a ler um relatório sobre sondagem de audiência que mostrava uma coisa que ele não conseguia explicar. Havia uma série de programas de radioamadores feitos em rádios comunitárias do subúrbio, transmitindo música nordestina.
E a audiência nestes bairros estava a crescer de forma constante, não explosiva, constante, como uma maré que sobe lentamente e só se apercebe-se que subiu quando olha para onde estava a areia antes. Vila Nova leu o relatório três vezes. Depois chamou o assistente e perguntou: “Há algum acordeonista nordestino rodando por aqui que a gente não esteja usando? O assistente pensou e disse um nome. O nome de Luís Gonzaga.
Vila Nova ficou em silêncio. Depois disse: “Esquece, isto não vai a lado nenhum”. E atirou o relatório para a gaveta. Mas a gaveta não foi o fim, porque três semanas depois, quando o disco de Lindolfo Maia, sem distribuidora grande, sem marketing, sem rádio nacional, começou a circular nos bairros do subúrbio através de um sistema que era quase medieval na sua simplicidade, de mão em mão, de quitanda em quitanda, de pensão em pensão, passando por São Cristóvão, por Madureira, por Reialengo, por Campo Grande,
chegando aos trabalhadores que na sexta-feira à noite colocavam aquele disco num gramofone e dançavam até à madrugada, como se estivessem numa festa no interior. Quando este disco começou a circular assim, Ernesto Vila Nova não conseguiu mais ignorar. Havia um número que era impossível de ignorar. 80.
000 1 exemplares em 14 meses, sem rádio nacional, sem jornal, sem nada do que o sistema musical do Rio de Janeiro considerava necessário para o sucesso. 80.000 exemplares vendidos a um povo que o sistema nem sequer considerava como consumidor de música. Um povo que o rio chamava de matuto, de retirante, de nordestino, como se nordestino fosse uma categoria de ser humano menor.
80.000 razões para Ernesto Vila Nova estar de joelhos no camarim de Gonzaga. Mas aqui há uma viragem que quase ninguém conhece. Uma viragem que muda completamente o sentido de tudo o que aconteceu antes. Quando Vila Nova foi ao camarim de Gonzaga, não era um camarim de teatro de luxo, era a sala dos fundos de um circo em Niterói, onde Gonzaga estava a fazer uma série de apresentações que já vendiam ingresso semanas antes.
Havia uma cadeira, um espelho com lâmpadas em redor e uma garrafa de água. Vila Nova chegou de fato branco, como sempre. Estava suado. O circo não tinha ventilação. Gonzaga estava sentado de frente para o espelho com o chapéu de cabedal na mão. Virou quando o Vila Nova entrou. Os dois ficaram a olhar um para o outro e depois Vila A Nova fez algo que ninguém esperava.
Não pediu desculpa. não ofereceu contrato, não tentou justificar o que tinha feito. Tirou do bolso do fato um papel dobrado, colocou-o sobre a bancada do camarim em frente de Gonzaga e disse só isso. Eu devia ter ouvido. E saiu. Gonzaga ficou a olhar para o papel durante muito tempo antes de abrir.
Quando abriu, não era um contrato, não era uma carta, era o relatório de audiência que Vila Nova tinha atirado para a gaveta três semanas antes da primeira gravação de Lindolfo Maia, o relatório que mostrava os números a crescer nos bairros do subúrbio. Vila Nova tinha circulado com caneta vermelha um parágrafo no meio do documento.
O parágrafo dizia em linguagem técnica de análise de audiência, existe uma procura reprimida significativa por conteúdo musical que reflita a experiência dos migrantes nordestinos no contexto urbano. Essa procura não está a ser atendida por nenhum produto da programação atual. Demanda reprimida.
É assim que o Rio de Janeiro de 1946 descrevia a saudade de um povo inteiro. Gonzaga dobrou o papel, colocou no bolso interior do casaco e ficou com aquele papel até ao fim da vida. Era isso que estava dentro do acordeão, não o papel, literalmente, a recordação do que estava escrito, a prova documental de que o que sentia no peito tinha sido sempre real, tinha sempre sido grande, tinha sido sempre maior do que o Rio de Janeiro queria reconhecer.
O que ainda não sabe é o que estava escrito no caderno do Alceu Valença, a frase que Gonzaga disse no boteco de Olinda em 1973. Ao seu Valença nessa noite tinha perguntou a Gonzaga o que tinha pensado naquele quarto da pensão da Lapa no silêncio depois de sair da sala de Ernesto Vila Nova em 1946.
Gonzaga esteve um tempo sem responder, pediu mais um copo de cachaça, olhou para a rua por um segundo e depois disse: “Pensei no meu pai. Pensei que o meu pai nunca ia ouvir falar do que estava a fazer. E depois pensei que não interessava, porque estava a fazer pelo meu pai e por todo o pai que se foi embora do sertão e nunca chegou a lugar nenhum, porque o lugar nenhum era o que o Brasil reservava para nós.
Eu pensei: “Se eu não fizer isto, ninguém faz. E se ninguém o fizer, eles ganham. E não merecem ganhar. Ao o senhor Valença escreveu isso no caderno de capa preta e por baixo escreveu uma nota própria, uma observação que não fazia parte da entrevista, mas que sentiu que precisava de registar.
Conzaga disse isso sem raiva, sem amargura, com uma calma que é mais pesada do que qualquer grito. É a calma de quem já percebes que a história vai ficar do lado dele. Não porque o mundo seja justo, mas porque a verdade tem mais fôlego do que a mentira. Este caderno está hoje guardado na família de Alceu Valença.
Nunca foi publicado na íntegra. Existe uma fotocópia de sete páginas que circulou entre os investigadores de música nordestina no final dos anos 90. Destas sete páginas, quatro falam sobre Gonzaga. E nestas quatro páginas existe, para além da frase do boteco de Olinda, uma outra informação que lança uma luz completamente nova sobre a noite da humilhação na Rádio Nacional.
Uma informação que envolve o nome de Adalberto Fontes, o músico carioca que tinha sido o primeiro a troçar de Gonzaga em janeiro de 1946, com a boca cheia de arroz. O que ao seu Valença descobriu sobre Adalberto Fontes é que em 1955, 9 anos depois daquele almoço do refeitório da Rádio Nacional, Fontes estava a tentar relançar a carreira com um álbum de canções populares que não estava a conseguir distribuição.
O seu empresário, tentando alternativas, tinha marcado uma reunião com Lindolfo Maia, que por esta altura tinha tornou-se uma figura respeitada no mercado musical independente. Graças ao sucesso da editora de Engenho Novo. O Lindolfo ouviu o material de Adalberto Fontes, ficou em silêncio, depois perguntou: “Lembras-te de um homem chamado Luís Gonzaga que encontrou no refeitório da Nacional em 1946?” “Fontes ficou branco”. Disse que sim.
Lindolfo disse: “Foi este homem que financiou a compra dos microfones que gravaram o primeiro disco da gravadora. Não era verdade no sentido técnico. O dinheiro era de Lindolfo, mas no sentido moral, no sentido da cadeia de acontecimentos, era absolutamente verdade. Sem Gonzaga não havia editora.
Sem editora, não havia Lindolfo Maia com poder de dizer sim ou não para o material de Adalberto Fontes. Fontes ficou em silêncio durante um tempo, depois perguntou se havia hipótese de o material ser aceite. Rendolfo fechou a pasta com as músicas de fontes, colocou sobre a mesa e disse: “Não, mas não por causa de 1946, por causa de 1955, porque o material não é bom”.
Fontes pegou na pasta e foi-se embora. Mas a história não termina aí. A história nunca acaba aí quando envolve o sertão. O sertão tem uma forma de fechar os círculos que a grande cidade não consegue compreender. Porque a grande cidade acredita que o tempo é linear. O sertão sabe que o tempo é circular, que tudo o que sai volta, que tudo o que cai levanta, que tudo o que se foi embora quando era verdade encontra o caminho de volta.
Em 1958, 12 anos depois da tarde de março, em que saiu empurrado pela porta das traseiras da Rádio Nacional, Luís Gonzaga foi chamado a atuar no auditório principal da mesma estação, não como elemento folclórico, não como curiosidade nordestina, como o artista mais vendido no Brasil naquele momento.
O auditório estava cheio não de produtores e técnicos, de gente, de nordestinos que tinham vindo de São Cristóvão, de Madureira, de Rialengo, de Duque de Caxias, que tinham acordado de madrugada e apanha o comboio e o elétrico e o autocarro para estar naquele auditório aquela tarde.
Havia um rapaz de 18 anos na terceira fila que tinha chegado de Mossoró. com a família do anos antes. Esse rapaz tinha crescido a ouvir Gonzaga através da rádio do vizinho na sua cidade. Tinha chegado ao rio com aquela música no sangue e estava ali na terceira fila do auditório da Rádio Nacional. Quando Gonzaga subiu ao palco.
Gonzaga tocou durante duas horas. Quando terminou, o auditório ficou em silêncio por um segundo inteiro antes da palma, um segundo de silêncio que pesava toneladas. E depois a palma veio e vinha com aquele tipo de energia que sente-se no peito antes de ouvir nos ouvidos. Após o espetáculo no corredor que levava ao camarim, Gonzaga parou em frente a um quadro na parede.
Era um quadro com as fotos dos artistas que tinham tocado na nacional ao longo das décadas. Fotos a preto e branco em moldura de madeira escura. Gonzaga ficou olhando para aquelas fotos por um tempo. Um assistente foi ter com ele e perguntou se precisava de alguma coisa. Gonzaga disse: “Há uma foto de acordeonista nordestino aqui nesse corredor?” O assistente olhou para o quadro, disse que não.
Gonzaga disse: “Vai ter e tinha razão. Mas o que ainda não sabe, e essa é a última peça da história, a peça que liga tudo é o que aconteceu com a dona Zefinha do Recife, a mulher que estava sentada no corredor da Nacional em março de 1946. A mulher que seguiu Gonzaga até à pensão da Lapa.
A mulher que entregou o recado de Januário. A Dona Zfinha voltou para o Recife em 1952. voltou porque a mãe estava doente. Ficou, nunca mais voltou ao rio. Mas antes de ir, foi até à gravadora de Lindolfo Maia em Engenho Novo, e deixou um envelope. Dentro do envelope estava uma carta escrita à mão num papel de pão com uma letra pequena e inclinada para a direita.
A carta era para Gonzaga. Lindolfo guardou o envelope, mandou recado para o Gonzaga. Gonzaga só foi buscar o envelope meses depois, numa tarde em que foi a Engenho Novo gravar mais material. Pegou no envelope, abriu ali mesmo de pé na sala da editora discográfica, leu a carta, dobrou de volta, meteu-o no bolso, não disse nada. Lindoufo e esperou.
Depois, com a delicadeza de quem sabe que há coisas que não se pergunta, disse apenas: “Estava bom?” Gonzaga disse. Era de uma mulher que encontrei num momento em que precisei de acreditar que o que eu fazia tinha sentido. Ela disse uma coisa na carta que eu vou carregar enquanto eu viver.
O Lindolfo esperou mais um pouco. Gonzaga não continuou. O Lindolfo não perguntou e até hoje ninguém sabe o que estava escrito nessa carta. O envelope já não existe. A carta não foi encontrada. O que existe é o depoimento de Lindolfo Maia, prestado numa entrevista para um investigador de música popular nordestina em 1988, onde descreveu a cena e disse que Gonzaga, depois de ler a carta, tinha posto a mão sobre o acordeão que estava encostado à parede da sala e tinha ficado com a mão ali durante algum tempo,
sem dizer nada. como se estivesse a transmitir alguma coisa para o instrumento ou recebendo essa imagem, esta imagem específica de Gonzaga com a mão sobre o Fle, depois de ler uma carta de uma mulher nordestina que tinha encontrado num corredor. imagem, para quem cresceu a ouvir o baião na rádio, para quem carregou o sertão dentro do peito enquanto trabalhava na construção civil ou na cozinha de restaurante do Rio.
Para quem ouviu asa branca e precisou de sair da sala, porque a música dizia uma verdade que era demasiado pesada para ouvir sentado. Esta imagem é o que toda a história estava a construir. Não a trajetória do sucesso, não os números de venda, e não a conquista do Brasil. essa imagem, um homem que foi chamado de matuto, de barulho de sertão, de coisa que não vale, e que colocou a mão sobre o instrumento, como quem põe a mão sobre a terra de onde saiu.
A rejeição de Ernesto Vila Nova não fez Gonzaga desistir. Isso já sabia. O que talvez não soubesse é que a rejeição foi necessária, não sentido de que o sofrimento é bom ou que a humilhação constrói o carácter, porque isso é mentira que o forte conta pro fraco para manter o fraco no lugar.
A rejeição foi necessária no sentido de que ela localizou com absoluta precisão onde estava a resistência, onde estava o muro. E quando se sabe onde está o muro, sabe onde tem de bater. Gonzaga bateu. Bateu com o folle, bateu com a voz, bateu com o chapéu de couro aquilo a que o rio chamava fantasia e que usava como uniforme de guerra.
Bateu certo com as letras que falavam de chuva no sertão e de gado a morrer de sede, e de mulher que chora, e de homem que vai embora e não sabe se volta. Bateu em nome de cada retirante que chegou a esta cidade e ouviu dizer que era menos, que era barulho, que era elemento folclórico e o Brasil inteiro respondeu: “Não só o Nordeste, o Brasil.
Porque o interior não é uma região geográfica. O sertão é uma condição. É a condição de quem foi-se embora, de onde era, para tentar ser aquilo que o mundo permitia. É a condição de quem transportou no corpo uma identidade que o destino tentou apagar. É a condição de quem sobreviveu.
E o Brasil estava cheio desse povo. Estava cheio de sertão, mesmo onde não havia sertão. Estava cheio de saudade, mesmo onde a saudade não tinha nome. Gonzaga deu um nome a esta saudade, deu ritmo para ela, deu-lhe acento, deu-lhe chapéu de couro. E o Brasil nunca mais foi o mesmo. Ernesto Vila Nova morreu em 1971.
Não há registo de que tenha voltado a falar em Luís Gonzaga depois da noite do camarim do circo em Niterói. O papel do relatório que colocou sobre a bancada ficou no bolso do casaco de Gonzaga durante décadas. Quando Gonzaga morreu em 1989, este papel não foi encontrado entre os objetos pessoais.
Alguém perguntou ao filho Gonzaguinha o que tinha acontecido com ele. Gonzaguinha disse que não sabia. Disse que o pai nunca tinha falado do papel, mas disse também uma coisa que ficou. O meu pai tinha o hábito de devolver as coisas para a terra quando encontrava que tinham cumprido a sua função.
Uma vez enterrou uma velha sanfona no quintal da casa do Exu. Não deitou fora, enterrou. Eu perguntei porquê? Ele disse: “Porque esta terra que me criou ensinou-me que o que é de raiz tem que voltar à raiz. Se o papel de Vila Nova voltou à Terra ou se ficou guardado em algum lugar que ninguém sabe, não importa o que importa.
é que o que estava escrito naquele papel, a procura reprimida de um povo inteiro, não era mais reprimida. Tinha saído, tinha enchido o Brasil, tinha entrado nas casas, nas feiras, nos camiões, nas festas de São João, nas rádios que antes diziam que baião era barulho de matuto, tinha entrado pela porta da frente do mesmo país, que tinha tentado fechar a porta dos fundos.
Valdomiro Bezerra, o abumbeiro de Mossoró, que viveu dois quartos abaixo do Gonzaga na pensão da Lapa, continuou a vida de carregador. Nunca se tornou famoso, nunca gravou um disco. Mas Gonzaga, numa entrevista de rádio em 1964, foi perguntado quem tinha sido a pessoa mais importante na sua vida musical.
para além do pai e disse um nome que o apresentador não reconheceu”, disse Valdomiro Bezerra. O entrevistador perguntou quem era. Gonzaga disse: “Um homem que sabia de água porque tinha tido sede e que me lembrou-se que eu também sabia. Astério Drumon ficou na Mairinque Veiga até se aposentar em 1978.
operador de som. Nunca pediu reconhecimento pelo que tinha feito. Nunca contou a história a ninguém fora do círculo íntimo. Quando um investigador encontrou-o em 1981 num apartamento de Engenho Novo e perguntou sobre a tarde em que apresentou Gonzaga a Lindolfo Maia. Astério disse apenas: “Eu era de Floriano, Piauí.
Ele era natural de Exu, Pernambuco. A gente entendeu-se. O resto é história do Brasil. Lindolfo Maia fechou a discográfica em 1961. O mercado musical tinha-se transformado de uma forma que ele não conseguia acompanhar. As grandes gravadoras tinham chegado e engolido o espaço independente, mas antes de fechar tinha gravado 42 artistas.
32 deles eram nordestinos. Nenhum tinha sido recusado por uma questão de sotaque ou de estilo. Todos tinham sido gravados tal como estavam. Lindolfo morreu em 1987, 2 anos antes de Gonzaga. Na missa de sétimo dia, havia um telegrama enviado de Exu que o padre leu aos presentes.
O telegrama tinha a assinatura de Luís Gonzaga. dizia: “Lindolfo Maia acreditou no que o Rio de Janeiro chamava-lhe barulho e o Brasil chamou a sua própria voz. Que Deus receba este homem com a música que ajudou a colocar no mundo. Havia no auditório da missa um homem de cabelo branco sentado na última fila.
Este homem tinha chegado de autocarro da zona norte. tinha 40 e poucos anos. Era filho de retirantes pernambucanos que tinham chegado ao Rio nos anos 50. Tinha crescido ouvindo o Gonzaga na rádio do pai. Nunca tinha visto Gonzaga pessoalmente. Mas foi à missa de Lindolfo Maia, porque tinha ouvido por um amigo de um amigo que o Lindolfo tinha sido uma parte importante da história de Gonzaga, que a maioria das pessoas não sabia.
Depois da missa, este homem foi embora de autocarro, sentou-se à janela, olhava o rio passar lá fora, as obras, as fábricas, as ruas com nome de gente que o Nordeste nunca ouviu falar e teve vontade de ouvir as brancas. foi para casa, colocou o disco, não uma fita, um disco de vinilha sido do pai e que cuidava como se fosse um documento.
Colocou a agulha no sulco e ficou em silêncio até o lado A terminar. E quando terminou, não virou o disco, só ficou sentado no silêncio do lado A. Esse homem chama-se Raimundo Nonato Lima. Hoje tem 72 anos, vive em Madureira. tem três filhos e quatro netos. Quando lhe perguntam o que Luís Gonzaga significou, pensa um pouco e diz: “Significou que nós existimos, que a gente não era a parte errada do Brasil, que nós éramos o Brasil.
Ernesto Vila Nova dizia que Baião era barulho de matuto. Raimundo Nonato Lima, 72 anos, madureira, filho de retirantes pernambucanos, há um disco de vinil de asa branca que guarda como se fosse documento. Não é necessário mais nada. Se carregas o sertão no peito e nunca esqueceu o que Gonzaga representou, se inscreva.
Tem muito mais história à sua espera aqui. E se o que você ouviu agora tocou-te de verdade, se fez lembrar uma época em que a música nordestina tinha outro peso, quando Gonzaga era mais do que artista, quando era voz de povo, quando ouvir o baião no a rádio era um ato de resistência sem que ninguém lhe chamasse assim.
Assim, o próximo vídeo daqui é ainda mais forte do que aquele. É sobre o momento em que Gonzaga regressou a Exu décadas depois de ter partido. E o que ele lá encontrou e o que não encontrou vai mudar completamente a forma como entende o que significa partir e o que significa voltar. Há uma cena neste vídeo gravada por uma pessoa que estava presente e que nunca contou publicamente antes de não vai conseguir tirar da memória.
A história completa está neste vídeo aqui. E se já assistiu, há mais histórias como esta à espera por si aqui no canal. M.