A Sanfona de R$ 50 Que Luiz Gonzaga Comprou em 1929 — A História Que Ele Nunca Contou

E o sertão não cabe em mala, só cabe em música. O Luís não dormiu naquela noite. A família aceitou. Partiram em 15 dias. Gonzagão vendeu o que podia, deixou o que não podia para carregar e partiu com a mulher e os filhos menores. Luiz foi junto, mas de forma diferente. Sabia que aquela partida era provisória para ele. Tinha uma inquietação no peito que não deixava sossegar, uma coisa que puxava para fora, para longe, para algum lugar que ainda não sabia nomear.

A sanfona foi guardada numa sacola de couro que Gonzagão tinha mandado fazer, especialmente para um instrumento. E de todos os pertences que a família carregou naquela caminhada de três dias no calor do sertão, a concertina era o único que não tinha qualquer utilidade prática, o único que transportava algo que não podia ser trocado por comida nem cobertura.

Na quinta do Salgueiro, Luís ficou pouco mais de um ano. Trabalhava, tocava nas noites de sábado para os outros trabalhadores, enviava o salário para ajudar na família e ficava a olhar para o horizonte com aquela inquietação que não passava. Em 1934, com 18 anos, tomou uma decisão que o pai já esperava. foi alistar-se no exército.

Na manhã em que partiu, acordou antes do sol, pegou na concertina, ficou a olhar para ela durante um tempo, depois foi até ao quarto do pai, que já estava acordado. Gonzagão estava sentado à beira da cama, olhando para o filho de pé, na porta. “Eu vou”, disse Luiz. “Eu sei”, o pai respondeu. A concertina fica.

Gonzagão não disse nada, apenas a sentiu com a cabeça. E aqui está a primeira coisa estranha desta história. Porquê Luís deixou a Sanfon? Tinha condição de carregar. Tinha carregado durante a viagem de Exu para Salgueiro numa caminhada muito mais difícil. A sanfona cabia na mochila. Então, por que razão a deixou? A resposta que Luís deu anos mais tarde numa conversa com um jornalista que nunca publicou a entrevista completa, o texto ficou guardado num ficheiro particular mais de 30 anos.

Essa resposta só faz sentido quando se compreende o que Zeferino não contou ao rapaz de 16 anos em 1929. O músico petrolinense, o homem que o vendedor chamou um músico que morreu de febre. tinha um nome, Maneco das Pedras. Era tocador de forró nas feiras e nos bailes da região de Petrolina. conhecido por improvisar letra em cima de qualquer baião, com uma língua afiada e uma coragem que as pessoas admiravam de longe, mas não queriam para perto.

Em 1927, Maneco das Pedras foi chamado para tocar na festa de aniversário de um coronel em Salgueiro. O mesmo coronel cujas terras exluíam a quinta, onde a família Gonzaga foi trabalhar 6 anos depois. Isto não era coincidência, mas esta parte vem depois. Na festa do coronel, com a sala cheia de convidados, Maneco das Pedras começou a tocar e no meio da tocada improvisou uma letra, uma letra sobre a seca, sobre a terra que os pobres trabalhavam e nunca possuíam, sobre os que tinham muita água escondida, enquanto os outros morriam de

sede. A letra não citava nenhum nome, mas toda a gente na sala sabia de quem era. Coronel ficou parado com o copo na mão até ao fim da música. Depois mandou pagar maneco das pedras e pediu-lhe que fosse embora. Três semanas depois, Maneco das Pedras desapareceu. A concertina foi encontrada à beira de uma estrada de terra sem o dono.

Passou de mão em mão durante dois anos até chegar à bodega de Zeferino em Exu. Zeferino sabia parte dessa história. Não sabia tudo, mas sabia o suficiente para não contar ao rapaz que pagou 50 reais pelo instrumento. Ainda não sabe o que estava dentro do fle da concertina quando Luía a comprou. Isso muda tudo quando chegar.

Mas antes é preciso entender o que aconteceu com Luiz nos anos do exército, porque estes anos são a chave de tudo. Luís Gonzaga esteve 9 anos no exército, serviu em várias cidades, chegou à Fortaleza, depois para o Rio de Janeiro. Era o sertanejo no meio dos soldados do sul e do sudeste, o nordestense com o sotaque carregado e a forma de andar devagar que os outros por vezes confundiam com preguiça, mas e tocava acordeão como ninguém.

Nos quartéis, nas festas dos superiores, nas noitadas de domingo, quando o serviço terminava, Luiz era o que todos chamavam. E nesse tempo, sem a concertina de R$ 50, tocando instrumentos emprestados ou cedidos, ele foi compreendendo o que o pai tinha dito nessa noite em Exu. Foi aprendendo a tocar para sentir, não só para os outros ouvirem, a saudade do sertão, do cheiro da chuva na terra seca, do som do vento nos ramos do juazeiro, da voz da mãe chamando para jantar.

Essa saudade foi entrando nas músicas que tocava, primeiro como um fantasma, depois como a coisa mais presente que tinha. Em 1941, quando se desligou do exército e começou a tentar a vida como músico no Rio de Janeiro, Luís Gonzaga já sabia exatamente o que queria fazer. Sabia que o baião, o shot, o forró, aquelas músicas que os locais conheciam como curiosidade de interior, eram a coisa mais verdadeira que existia.

E foi com esta convicção que começou a bater nas portas das rádios. As portas não abriam fácil. Havia um produtor na rádio nacional chamado Armando Vieira, que tinha-se virado para Luís numa tarde de 1943 e dito com toda a clareza que o Nordeste não ia vender discos no Rio de Janeiro, que o forró era coisa de feira livre, de camião de retirante, de um pátio de roça, que o público carioca queria samba, queria elegância, queria modernidade.

Toca demasiado bem para desperdiçar o talento nisso. Armando Vieira disse com um sorriso que tentava ser gentil, mas era apenas condescendente. Aprende um samba decente e volta aqui. O Luiz saiu sem responder. Foi até à rua, sentou-se num banco da calçada e ficou olhando o movimento da cidade por um tempo.

O Rio de Janeiro de 1943 era uma coisa que o sertão não tinha preparado para ver. automóveis, elétricos, gente de tudo quanto é maneira, o barulho constante que nunca parava, o cheiro a gasolina e de mar ao mesmo tempo. E no meio de tudo aquilo, um homem do eixo com a concertina no colo e a voz do pai na cabeça.

Acordeão comprado com suor honesto nunca mente. Toca a verdade do homem que toca. Voltou à Rádio Nacional três semanas depois, não para pedir outra oportunidade. voltou para tocar numa apresentação aberta que a rádio fazia às sextas-feiras no pátio exterior, onde qualquer músico podia atuar para o público que passava. Tocou vira e mexe, depois uma modinha que era quase um baião, mas tinha uma doçura que o baião puro não costumava ter.

O pátio foi parando. Pessoas que passavam foram ficando. Um homem parou com o saco de na mão e ficou ali até ao fim, com os olhos a brilhar de uma forma que o Rio de Janeiro normalmente não deixava acontecer nas pessoas. Armando Vieira estava numa janela do segundo andar a observar. Não desceu, mas mandou um recado por um assistente no dia seguinte, convocando Luís para uma conversa. A conversa foi curta.

O que que quer gravar? Armando Vieira perguntou. Ban Luiz respondeu: “Silêncio, está bem, mas vai precisar de um chapéu de couro e uma roupa de vaqueiro. Se vai vender nordeste, vende nordeste de verdade.” Luí aceitou sem pestanejar, mas o chapéu de couro que passou a usar nos concertos e nas fotos, este chapéu que tornou-se um símbolo, que passou a fazer parte de quem era.

Aquele chapéu era a coisa mais próxima que tinha do pai. Gonzagão usava chapéu de couro desde que Luís tinha memória. E cada vez que Luís punha o chapéu na cabeça antes de entrar num palco ou num estúdio, era como se colocasse o pai junto. Mas voltemos à concertina de R$ 50. Porque enquanto Luís estava a construir a carreira no Rio de Janeiro, aquela acordeão estava em Salgueiro do na casa que a família tinha ocupado na quinta.

E dentro do fle daquele instrumento, havia algo que Luís não sabia quando comprou, que o Pai nunca lhe contou e que só viria a lume muitos anos depois, por um caminho que ninguém teria como prever. Isto aqui vai mudar tudo o que pensava que estava a entender até agora. O que estava dentro do fle da acordeão era um papel dobrado em quatro partes.

Um papel que Maneco das Pedras tinha ali escondido antes de ir tocar na festa do coronel em 1927. O papel tinha uma lista, não era uma lista qualquer, era uma lista de nomes, 12 nomes com valores anotados ao lado de cada um, trabalhadores rurais da região de Salgueiro, que tinham sido removidos das terras, onde viviam por um processo de grilagem conduzido pelo coronel ao longo de 6 anos.

Maneco das pedras tinha passado meses juntando essa informação, conversando com as famílias que tinham sido expulsas, anotando tudo num papel que guardou dentro a concertina, porque era o único local que considerava seguro. A intenção dele era entregar esse papel a um jornalista do Recife que tinha prometido publicar a história.

O jornalista nunca chegou e Maneco das Pedras desapareceu antes de poder tentar outra forma. A concertina foi recolhida. O papel ficou dentro. Ninguém pensou em abrir o fôle para verificar. Ou se pensou, não encontrou. O instrumento passou de mão em mão durante dois anos até chegar a Exu. E em momento algum aquele papel foi descoberto. Gonzagão sabia.

Essa é a parte que pára tudo. O pai do Luís sabia do papel. sabia porque um dos 12 nomes na lista era de um parente afastado da família, um primo em terceiro grau, que tinha sido um dos trabalhadores afastados pelo coronel. Gonzagão tinha sabido da existência desse papel por um canal que chegou até ele de forma indireta, através de uma mulher que tinha sido esposa de um dos trabalhadores listados e que tinha contado a história à mulher de um tocador de zabomba.

que tocava com Gonzagão nas festas da região. Quando Gonzagão soube que a concertina de Maneco das Pedras estava na bodega de Zeferino em Esu, foi ele quem incentivou o filho a comprar o instrumento. Não por causa da concertina em si, por causa do papel que estava lá dentro, porque Gonzagão precisava daquele papel, mas não podia comprá-la ele próprio sem levantar suspeita.

O coronel em questão tinha olhos e ouvidos espalhados pela região. Um homem a chegar para comprar especificamente aquela concertina poderia chamar a atenção errada. Mas um rapaz de 16 anos a comprar um instrumento em segunda mão numa bodega era a coisa mais natural do mundo. O filho nunca soube disso. Comprou a acordeão pensando que tinha escolhido por conta própria.

E o pai nunca abriu o papel à frente de Luís. Nunca lhe contou o que estava dentro do instrumento. Nunca explicou porque tinha dito que a concertina, comprada com suor honesto nunca mente. frase tinha outro sentido. Tinha o sentido de que aquela concertina específica carregava uma verdade que precisava de ser guardada por alguém com mãos limpas.

O Luís ficou com as mãos limpas durante anos, tocou com aquela concertina, dormiu ao lado dela, tratou das palhetas quando alguma afouchava e nunca abriu o folle para verificar o que estava dentro para além do mecanismo. Nunca teve razão para o fazer. A concertina tocava, o range na nota aguda existia, mas dava para contornar e o resto era música.

E quando deixou a acordeão para trás em 1934, não sabia que estava a deixar para trás um papel que o pai tinha colocado dentro de um plano que Gonzagão nunca chegou a executar completamente. Ainda não sabe o que aconteceu com o papel depois de Luiz ter ido para o exército. E o que lhe aconteceu é a razão pela qual Luiz Gonzaga em 1957 foi procurar a concertina.

Os anos do exército passaram. A carreira no Rio começou. Em 1945, Luiz gravou os primeiros discos que começaram a chamar a atenção. Em 1947, Baião rebentou. Em 1950, todo o Brasil cantava. O homem do sertão tinha chegado ao centro do país com a música que os produtores de rádio diziam que nunca ia vender e tinha vendido mais do que qualquer samba desse ano.

Gonzagão foi acompanhando tudo de longe. A família tinha voltado para o Nordeste depois de alguns anos em Salgueiro, instalando-se numa cidade pequena perto de Exu. Pai orgulhoso, a mãe as lágrimas quando o nome do filho saía na rádio. Os irmãos menores crescendo já com a história do Luís como parte de quem eram. E a concertina continuava lá ardada.

Gonzagão tinha levado o instrumento consigo quando a família mudou-se de Salgueiro. A saco de couro desgastado, o instrumento com o range seco, na nota mais alto que mais ninguém tocava, porque ninguém sabia exatamente como Luiz fazia para contornar. Em 1953, Gonzagão adoeceu. A doença foi rápida, um problema de coração que foi ficando mais grave ao longo de meses, até que num dia de julho, o velho chamou um dos filhos mais velhos, que ainda morava perto, e mandou avisar Luís no Rio de Janeiro, que precisava de falar com ele antes que

fosse tarde. Luís desceu do comboio Recife, apanhou um camião até à cidade onde a família estava e chegou ao quarto do pai numa tarde de Agosto, com o chapéu de couro na mão e os olhos de quem já sabia o que ia encontrar. Gonzagão estava deitado, mais fino do que estava um ano antes, mas com os olhos ainda vivos e a voz ainda firme.

Mandou toda a gente sair do quarto. Só o Luiz ficou. O que o pai contou naquele quarto, naquela tarde de agosto de 1953, é a coisa mais pesada desta história inteira. Contou sobre o papel, sobre o maneco das pedras, sobre o coronel, sobre os 12 nomes. Contou que tinha planeado, nos anos que a família permaneceu na quinta de Salgueiro, encontrar uma forma de fazer aquele papel chegar ao sítio certo.

algum político honesto, algum jornalista com coragem, alguma autoridade que pudesse utilizar aquela lista para abrir uma investigação, mas nunca o tinha conseguido. O coronel era poderoso. Os anos da seca tinham deixado as pessoas com medo e com o pensamento ocupado apenas na sobrevivência. E o momento nunca tinha chegado.

Gonzagão tinha guardado o papel durante mais de 20 anos dentro daquela concertina. E agora, com o coração a falhar, queria que o filho soubesse. Aquele papel ainda está lá dentro, Luiz. O pai disse: “Eu nunca tirei. Ficou com a concertina”. Luís ficou a olhar para o pai por um tempo sem falar: “Porque é que me contou agora?” Gonzagão fechou os olhos por momentos.

Quando abriu, a resposta foi direta. Porque você é o único que pode fazer alguma coisa com isso. Tu és o rei do baião. O coronel já está morto, mas os filhos dele ainda têm as terras e as famílias daqueles 12 nomes ainda existem, espalhadas pela Isa, sem saber que tem um papel que conta o que aconteceu com elas.

Luís Gonzaga ficou sentado naquele quarto há mais de uma hora depois de o pai ter adormecido. Ficou olhando para as mãos, para o chapéu de couro, para a janela que deixava entrar o barulho do fim de tarde lá fora. Um boi a mugir, um cão, o vento no telhado de telha. e pensou em tudo na noite de 1929, quando comprou a concertina sem saber o que transportava, na voz do pai, dizendo que concertina comprada com honesto suvor, nunca mente na frase que tinha mal entendido durante anos e que agora fazia um sentido completamente diferente

de tudo o que tinha imaginado. Gonzagão morreu três semanas depois. O Luís voltou ao Rio de Janeiro com um peso que a morte do pai colocou nele. O luto-te de verdade, o luto do homem do campo que sabe que o Pai era a última ponte viva entre ele e a infância, entre ele e o chão de entre ele e quem tinha sido antes de virar o que era agora.

Mas também voltou com a missão que o pai tinha deixado, encontrar a concertina, abrir o fle, pegar o papel, mas havia um problema. A acordeão tinha sido deixada com a família  e depois da morte de Gonzagão, os irmãos tinham dividido as poucas coisas que havia na casa. Um dos irmãos mais novos, um rapaz chamado Dorival, tinha ficado com a Sanfon não porque soubesse do papel, porque gostava de música e queria aprender a tocar.

Dorival tinha-se mudou-se para Fortaleza em 1955. Foi trabalhar para uma fábrica, levou a Sanfona. Luís só soube disso em 1957, quando finalmente conseguiu juntar as informação sobre onde cada objeto da casa do pai tinha ido parar. Dois anos depois da morte de Gonzagão, dois anos enquanto gravava, se apresentava, viajava o Brasil de uma ponta à outra ponta com o acordeão e o chapéu de dois anos a carregar a missão do pai, sem saber ainda onde estava o instrumento.

Quando encontrou o endereço de Dorival em Fortaleza, enviou uma carta, uma carta cuidadosa, sem explicar o motivo real, pedindo que o irmão guardasse a concertina com cuidado e não a vendesse nem emprestasse. A resposta de Dorival chegou duas semanas depois. Era uma carta curta, três parágrafos, e o terceiro parágrafo desfez tudo.

Dorival tinha vendido a concertina se meses antes. Precisava de dinheiro para uma despesa médica. Tinha vendido a um homem num mercado de fortaleza por um valor que nem sequer mencionava. Não sabia o nome do comprador, não tinha endereço. Tinha sido uma venda rápida, de necessidade, e ele pedia desculpa se o preocupava-se com o instrumento por algum motivo sentimental.

Luís Gonzaga leu esta carta três vezes. Depois dobrou o papel, meteu-o no bolso do casaco e ficou sentado por um tempo no silêncio do apartamento no Rio de Janeiro, que era seu desde 1950. um apartamento que o dinheiro do baião tinha comprado em Copacaban, com janela para o mar, que olhava por vezes com aquela mesma sensação de estar do lado errado de algo muito grande.

O papel dentro da concertina, o papel que Maneco das Pedras tinha escondido em 1927, que Gonzagão tinha guardado durante vinte e tantos anos, que Luís tinha passado a vida toda a carregar sem saber que carregava. Esse papel estava agora nas mãos de um desconhecido num mercado de fortaleza que talvez tivesse aberto o folhe por acaso ou que nunca tivesse aberto ou que tivesse deitado fora sem compreender o que era.

E aqui está a parte que muda tudo o que compreendeu até agora. Luís Gonzaga não desistiu, mas o que fez seguir não foi o que está esperando. Em vez de contratar alguém para procurar a concertina em Fortaleza, o que um homem com dinheiro e fama poderia perfeitamente fazer? O Luís foi ele próprio. Em setembro de 1957, entre duas viagens de espectáculo, desceu em Fortaleza, foi ao mercado que Dorival tinha descrito na carta e passou dois dias a passear entre as barracas, falando com vendedores, perguntando sobre instrumentos em segunda mão.

Ninguém o reconheceu de imediato, ou melhor, as pessoas olhavam para o homem sem chapéu de cabedal, sem o figurino de palco, e viam um nordestino de meia idade a andar devagar entre as tendas. Só quando alguém olhava com mais atenção e fazia a ligação é que a boca abria de espanto. O Luiz preferia assim.

Preferia andar sem ser o rei do baião. Preferia ser apenas Luís de Exu, filho de Gonzagão, à procura de uma concertina velha, com uma palheta a ranger na nota mais aguda, num dos corredores do mercado, num cantinho onde um velho vendia miudezas, parafusos, correias, peças de instrumentos. O Luís perguntou sobre acordeões de segunda mão que tinham aparecido nos últimos meses.

O velho pensou um momento e disse que não sabia ao certo, mas que um rapaz chamado Assis, que tinha uma banca de instrumentos utilizados do outro lado do mercado, poderia ter comprado alguma. Luís foi ter com Assis. Assis tinha 20 e poucos anos, magro, com um olhar esperto de quem passou a vida negociando.

Quando Luís descreveu a acordeão, o acordeão de oito baixos desgastado nas bordas, o range na nota mais alta, Assis ficou quieto durante um segundo. Depois disse que tinha comprado uma concertina semelhante há meses, que já não estava com ele. tinha repassado para um músico que tocava no interior. “Qual músico?”, perguntou Luís. Assis não se lembrava do nome, mas lembrava-se que o homem era de uma cidade chamada Quishadá e que aparecia no mercado de fortalezas uma vez por mês para vender e comprar instrumentos.

Quichaadá, 200 e e tantos quilómetros de fortaleza pelo interior do Ceará. Luís ficou em silêncio. Assis olhava-o com aquela expressão de quem está a tentar perceber por um homem claramente de fora e até que xadá por uma velha sanfona. Aí Assis reconheceu quem estava à sua frente. A boca abriu, os olhos arregalaram-se e o rapaz ficou tão sem jeito que não sabia se ficava de pé ou se sentava.

Luís pôs a mão no ombro dele e disse com aquele sotaque carregado de eixo que nunca tinha ido embora mesmo  depois de 16 anos no rio. Deixa de cerimónia, meu irmão. Diz-me onde encontro esse homem de Quixadá. Assis deu o que sabia. Um nome, Severino Alves, e a informação de que ele aparecia no mercado toda a última sexta-feira do mês.

Era uma quinta-feira. O Luís passou a noite num hotel simples perto do mercado. Não o hotel onde ficava quando vinha fazer um espectáculo em Fortaleza. Aquele era um hotel do centro com casa de banho dentro do quarto e café da manhã servido por um empregado de mesa. Ficou num quarto de pensão com ventilador de teto e cheiro a humidade nas paredes e passou boa parte da noite sem dormir a pensar no pai.

pensando em 1929 em Exu, em R$ 50 que tinham levado um ano para juntar numa palheta arranjando na nota mais aguda, numa frase que só fez sentido décadas depois. Na manhã seguinte, numa sexta-feira de Setembro de 1957, Luiz Gozasga estava no mercado antes das 8 da manhã, sentado numa cadeira de balanço que o dono de uma barraca emprestou, esperando um homem chamado Severino Alves de Quixadá.

Severino chegou às 10:30, um homem com cerca de 50 anos, largo de ombros, com uma caixa de cartão debaixo do braço, onde transportava os instrumentos pequenos. M.

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