OS LUXOS DEIXADOS POR ALÍPIO MARTINS APÓS A SUA MORTE
Deixa-me começar com uma música que tu conhece. Talvez a tenha ouvido agora mais recente na novela Pantanal da Globo. Aquela que tocou e se colou na cabeça de meio Brasil. Onde andará você? Onde andará você? Como eu gostaria, o meu beijinho. A melodia quase toda a gente reconhece, mas o nome do homem que cantou isto, esse quase ninguém sabe.
E olhe, não é uma só música. Esse mesmo homem fez menina. Menina, não seja louca, não. Deixa para quem fez. Lá vai ele, lá vai ele com a cabeça enfeitada. Música que tocou numa festa de aniversário no rádio do carro de domingo no clube no fim de semana. Você provavelmente já cantou alguma delas na vida. sem fazer ideia de quem era o dono.
O nome dele é Alípio Martins e a sua história é uma das mais doidas que já aqui contei, porque este gajo começou lá em baixo, bem lá em baixo, e chegou tão ao cimo que ganhou uma alcunha que poucos artistas no Brasil tiveram. Ele teve dinheiro, teve fama, teve a agenda de concertos preenchida e aí do nada a vida deu uma volta que ninguém esperava.
E é aí que bate aquela curiosidade. O que será que sobrou de tudo isso? Será que deixou alguma coisa? Para onde foi a fortuna do rei da lambada? Hoje vamos descobrir junto. Vou contar-te a vida inteira do alípio, de onde ele veio, como ele subiu, a confusão que se instalou no meio do caminho e como tudo terminou. Um passeio do princípio ao fim.
E para começar este passeio direito, precisamos voltar bem no tempo, lá para o fim dos anos 50, num porto de Belém do Pará, onde se encontrava um rapaz de 15 anos estava prestes a fazer a maior loucura da vida dele. Mas antes, faz uma coisa rapidamente, inscreve-te aqui no canal que nos ajuda imenso. Feito isto, vem comigo que esta história começa agora.
Belém do Pará, finzinho dos anos 50. O alípio era um miúdo comum, de uma família comum, trabalhava de contínuo num banco. Aquele office boy que levava a papelada de um canto para o outro, ganhava uns trocos no fim do mês e regressava a casa cansado. Vida simples destas que muita gente que cresceu no Brasil dessa época conhece bem de perto.
Só que havia uma coisa dentro do peito deste menino que não cabia em Belém. Ele queria cantar. saía escondido com a guitarra, ia tocar com os amigos na esquina, regressava tarde e inventava desculpa para o pai. E o pai, como quase todo o pai daquele tempo, não via futuro nenhum naquilo. Música não punha comida na mesa.
Vai trabalhar, menino, deixa de sonho. Era mais ou menos o que ouvia em casa, mas o alípio já se tinha decidido por dentro. E quando este menino metia uma coisa na cabeça, era melhor nem discutir. Aí ele engendrou um plano, um plano de miúdo mesmo, dos que só quem tem 15 anos tem coragem de fazer. Ele ia para o Rio de Janeiro, que naquele tempo era o centro de tudo na música.
O problema é que ele não tinha um tstão paraa passagem nem perto. Então, a ideia era a mais louca possível, entrar de penetra num navio e ir escondido. E não ia sozinho. Tinha combinado com dois amigos. Os três iam juntos nesta aventura. Só que na hora H, na hora de pôr o pé na rampa do navio, os dois amigos amarelaram, olharam aquilo, sentiram a dimensão do risco e desistiram. Voltaram para casa.
O alípio foi sozinho. Agora imagina a cena. Um rapaz de 15 anos escondido na cave de um navio enorme, sem dinheiro, sem comida garantida, sem ninguém em casa sabendo onde ele estava, porque ele não avisou ninguém, simplesmente desapareceu. E o navio demorava cerca de 30 dias até chegar ao rio. 30 dias.
Hoje atravessa o Brasil de avião numa tarde. Ele passou um mês inteiro escondido para fazer esta travessia. E claro que não dava para estar escondido o tempo todo. No meio da viagem, o cozinheiro do navio encontrou o clandestino. Pronto, era para acabar ali com o miúdo a ser entregue na primeira parada, mas depois entra a coisa mais forte que o Alípio tinha e que ia acompanhar -lhe a vida inteira.
O tipo conversava, contou que tinha fugido de casa, que o o seu sonho era ser cantor, que precisava chegar ao rio de qualquer maneira. E sabe o que aconteceu? A tripulação se comooveu. Em vez de entregar o menino, os marinheiros decidiram dar uma força. Cuidaram dele até o navio encostar no Rio de Janeiro.
Esse era o alípio, um sujeito que entrava na situação mais perdida e saía com toda a gente do lado dele. Chegado ao rio, foi bater na porta de uma tia que ali morava. A mulher quase caiu para trás. O sobrinho aparecendo do nada sem avisar depois de um mês desaparecido. Dá para imaginar o desespero da família lá em Belém este todo o tempo, sem saber se o menino estava vivo.
A tia avisou toda a gente e depois de um tempo na grande cidade, o alípio acabou por regressar a Belém. Voltou, mas voltou outro. Voltou sabendo de uma coisa que ia mudar tudo, que era capaz de qualquer loucura para correr atrás do que queria. e foi de regresso a Belém, montando a primeira banda e tocando em espectáculo de bairro, que conheceu a pessoa mais importante da vida dele.
E não era um produtor, não era um empresário famoso, era uma mulher. O seu nome era Marcele. Eles juntaram-se e nunca mais se largaram. Marcele virou-se esposa, parceira de música, companheira de tudo. E logo no início desta vida, a dois veio uma reviravolta que pouca gente imagina.
No início dos anos 60, os dois fizeram as malas e foram-se embora do Brasil. Foram viver para os Estados Unidos. É, eu eu residi. Eu vivi nos Estados Unidos, emigrei os Estados Unidos e Vivi 5 anos. E olhe que curioso, o alípio não foi para lá tentar a sua sorte como cantor. Foi estudar, aprendeu inglês, especializou-se em processamento de dados numa época em que o computador era praticamente ficção científica por aqui e construiu uma vida estável do outro lado do mundo.
Miúdo que fugiu no porão de um navio era agora um profissional respeitado, com boas salário, com a vida ganha lá fora. permaneceram 5 anos nos Estados Unidos. Vida boa, dinheiro a entrar, futuro tranquilo. Só que depois veio a hora de voltar. E aqui fica uma curiosidade interessante. Dependendo de quem conta esta história, o motivo do regresso é diferente.
Há fonte que diz que o casal voltou porque a Marcele adoeceu seriamente e necessitava de tratamento no Brasil. E tem o próprio Alípio numa entrevista que sobrou para ouvirmos hoje a contar uma versão bem mais tensa. Disse com todas as letras: “Voltou porque era a época da guerra do Vietname e queriam mandá-lo lutar”. Ele se recusou e confessou na entrevista que foi a melhor coisa que fez na vida.
Porque se tivesse ficado e ido para guerra, sabe-se lá onde estaria hoje ou se estaria. Pode ser uma coisa só, pode ser as duas juntas. O facto certo, este ninguém discute. O alípio voltou pro Brasil e foi este regresso, com a vida toda para recomeçar do zero que abriu a porta pro capítulo mais brilhante da história dele.
De regresso a Belém, com a vida para recomeçar, o alípio fez a única coisa que sabia fazer de olhos fechados, mergulhou na música. E foi nos anos 70 que ele rebentou de verdade pela primeira vez. O ritmo era o carimbó, aquela batida boa bem do Pará. Lançou um disco, caprichou e veio a música que ia gritar o seu nome Brasil. Afora Piranha é um peixe vor de São Francisco.
Piranha. Esta pegou fogo. E aí aconteceu uma coisa que atirou a música para dentro da casa de todo o brasileiro. Sabe quem cantou piranha? Os trapalhões. Didi, Dedé, Musum e Zacarias num quadro na TV. Pensa no tamanho disto. Numa época em que toda a família brasileira parava na frente da televisão para ver os trapalhões, a música do paraense, na boca dos quatro maiores palhaços que este país já teve.
O alípio tava a levantar voo, mas tinha uma pedra no caminho dele e uma pedra grande. A maioria de nós imagina que se a música faz sucesso e cai no gosto do povo, a rádio toca e pronto. É o lógico, certo? Deu certo, toda a gente gosta, então toca. Só que naquela época não era bem assim. Existia um preconceito danado com o brega, com o forró, com a música mais popular, mais raiz.
As rádios e IFM, as modernas, torciam o nariz, diziam que aquilo era música de pobre, de gente sem estudo, e simplesmente recusavam-se a tocar. O gajo vendia, o povo cantava e as rádios chiques fingiam que ele não existia. E é aqui que o alípio fez uma das jogadas mais geniais que já vi um artista fazer.
Lembra-se que ele tinha viveu nos Estados Unidos e falava inglês fluente? pois ele usou isso, gravou canções em inglês e lançou com um nome artístico americano, um disfarce completo. E depois, presta atenção ao tamanho deste, aquelas mesmas rádios que não tocavam o Alípio Martins porque era música de pobre.
começaram a tocar a voz dele, pensando que era um cantor gringo, a mesma voz, o mesmo homem, só que com o nome de americano, e elas a tocar numa boa, sem desconfiar que era precisamente o paraense que elas barravam para tudo. Pensa nisso por um segundo. O preconceito era tão disparatado que não reconhecia o talento, só reconhecia o sotaque.
Bastou o tipo fingir que era de fora para se tornar aceitável da noite pro dia. Isto diz muito mais sobre as rádios do que sobre o alípio. Gravei em inglês com o pseudónimo de Vic Maquenz, deram então a maior força, Vic Maquenz e tal. Aí a R tocando a música fazendo sucesso quando descobriram que era o Ali. Ih, eu Ali deixa de tocar. E deixaram de toca.
E acha que ele ficou por aí? Que nada. Em 1978, inventou mais um personagem. Gravou um disco com outro pseudónimo, Patrick. Só para furar mais um pouco daquele bloqueio. O tipo não aceitava não como resposta. Encontrava uma brecha, entrava por ela. Mas a maior fase ainda estava chegando e ela chegou juntamente com um ritmo que tomou conta de todo o Brasil, a lambada.
Quem viveu os anos 80 e o comecinho dos 90 sabe o estrago que este ritmo fez. Tocava em tudo quanto é canto, na festa, na rádio, no clube no fim de semana. naquela radiola que o vizinho ligava demasiado alto no domingo de manhã. E o alípio foi um dos tipos que empurraram a lambada para dentro de casa do brasileiro.
Foi nesta fase que ele gravou onde andará você lá em 1984. Sim, a mesma que ressuscitou na novela Décadas Depois. A música caiu na boca do povo e não mais saiu. Veio miúda, veio, lá vai ele, uma atrás da outra. A agenda de concertos lotou. Ele passou a aparecer nos principais programas de TV do país e o alípio tinha um humor danado.
Fazia música falando da treta do casal, da confusão do dia a dia, das coisas que toda a gente vivia. Quem for corno, levante o braço. Não tenha vergonha do que é. Houve até uma que ele fez de sacanagem com a política. Os presidenciáveis. Uma chacota com os políticos que o povo ouvia rindo e concordando ao mesmo tempo.
Vamos chamar o terceiro. Este tem cara de honesto, já é presidente de tudo e quer ser presidente do E agora segura os números porque é de arregalar o olho. Ao longo da carreira, o alípio Martins juntou 12 discos de ouro, oito de platina, um de platina duplo e ainda mais cinco discos de ouro pelas produções que fez aos outros.
Soma tudo: discos, CD e cassetes que passaram de quase 5 milhões de unidades vendidas. Quase 5 milhões. Um artista de Belém do Pará, que as grandes rádios torciam o nariz, vendendo numa marca que muito cantor badalado do Sul e do O Sudeste nunca chegou nem perto. Esse era o auge, o topo da montanha.
O homem tinha tudo, fama, dinheiro, público, respeito. E é exatamente quando alguém chega lá ao alto que a vida costuma preparar a queda. Porque no meio de todo o este sucesso, uma coisa que ninguém via estava a começar a crescer e ela ia mudar esta história para sempre. Tem uma coisa que o alípio carregou às costas a toda a carreira, mesmo no auge, mesmo vendendo milhões aquele preconceito que a gente comentou.
Por mais discos que ele despachase, por mais agenda preenchida que tivesse, havia sempre alguém para olhar de cima e dizer que aquilo não era música a sério, que o brega era coisa menor, que lambada era a brega, que carimbó era só de festa de interior e o alípio engolia aquilo calado, porque sabia que queixar-se não ia mudar a cabeça de ninguém.
continuava a trabalhar, gravar, produzir, mas ia juntando. E depois fica a pergunta e deixo-a para você responder lá em baixo nos comentários. Por que será que a música que o povo mais amava, a que tocava na festa de aniversário, no clube, no churrasco de domingo, era precisamente a mais desprezada por quem mandava nas rádios? Há quem diga que era uma questão de gosto e ponto final.
Há quem ache que era preconceito puro, de classe mesmo, daqueles que separam o que é de pobre e o que é de rico no Brasil. Mas que o alípio sentiu-o na pele toda a vida. Ah, isso ele sentiu. E faz-nos pensar enquanto bom talento este país deitou-o no lixo, achando que não era chique o suficiente. Só que o golpe mais duro da vida do alípio não veio das rádios, veio de dentro do próprio corpo dele.
No meio de toda aquela fama, com a agenda cheia e os discos a vender, ele começou a sentir que alguma coisa não tinha razão, uma dor que não passava. Um mal-estar que não ia embora, foi-se consultar, fez um exame e o diagnóstico chegou. Cancro no estômago. E aqui tem uma ironia das mais cruéis. O alípio não era um homem de exagero, não bebia, mal fumava de vez em quando um cachimbo.
E olhe lá, mais por hábito do que por vício. Era um sujeito regrado daqueles que se cuidavam, que levavam a vida no eixo, que trabalhavam arduamente e iam para casa dormir cedo. Tinha tudo para envelhecer bem. Tinha mais futuro pela frente do que a maioria. Mas a doença não escolhe currículo, não pergunta se foi bom rapaz, cuidou da sua saúde, se mereceu ou não.
Ela chega e quando chega assim, do nada à pessoa errada sobra aquela revolta calada de quem assiste. A partir daí a história foi virando, o seu estado foi piorando aos poucos. Aquele homem cheio de energia que inventou a personagem para furar bloqueio de rádio, que gravou em inglês com sotaque americano, que fugiu de casa num navio aos 15 anos, foi perdendo a força.
Os concertos foram diminuindo, a presença dele foi rareando, mas ele seguiu firme até onde deu, porque era assim que encarava as coisas. No dia 24 de março de 1997, o alípio Martins foi-se com pouco mais de 50 anos, muito novo ainda, com muita música para fazer e pouco tempo para fazer. E olha, doeu de uma forma especial em quem o conhecia de perto.
Porque toda a gente que conviveu com o alípio conta a mesma coisa. Era um sujeito de um carisma raro, sempre bem-disposto, daqueles que iluminavam o ambiente só de chegar e dizer um oi. O mesmo carisma que tinha conquistado a tripulação do navio lá atrás ainda menino. A perda foi muito sentida no meio musical paraense, entre os amigos, entre os músicos que tinham trabalhado com ele.
Mas aqui vem a parte que aperta o peito de verdade. Para um homem daquele tamanho, para um tipo que vendeu quase 5 milhões de discos, que era chamado de génio no estúdio, que fazia a carreira de meio mundo, o adeus foi quieto, discreto. Não teve a comoção nacional que um rei merecia. Não teve a despedida do tamanho da obra que ele deixou.
Foi mais ou menos como ele sempre gostou de trabalhar nos bastidores, sem alarido, sem holofote em cima. E o tempo foi passando. O Brasil continuou a dançar as músicas dele nas festas, nos churrascos, nos bailes. As canções seguiram bem vivas, com perna para correr o país inteiro, mas o nome do homem por detrás delas foi desaparecendo da memória do povo devagarinho, ano após ano, como desaparecer uma estrela no fim da tarde.
Até que mais de duas décadas depois do nada uma novela inteira fez o país cantar a sua música outra vez. E foi aí que veio ao de cima uma verdade sobre o alípio que quase ninguém sabia e que é o coração de tudo o que viemos descobrir aqui hoje. Volta comigo para aquela cena do início. A música que toca na novela em 2022.
O país inteiro canta olando onde andará sem fazer ideia de quem era o proprietário. Gente nova que nem tinha nascido nos anos 80 colada à melodia. E as pessoas da nossa idade lembrando na hora da festa, da rádio, do carro, do baile. A música voltou, renasceu. Mas e o homem? E é aqui que a gente chega finalmente à pergunta que abriu este vídeo.
O que será que o alípio deixou? Onde está a fortuna do rei da lambada? Quem vendeu quase 5 milhões de discos tinha de ter deixado mansão, quinta, um camião de dinheiro pros herdeiros, não é? Pois eu vou ser sincero consigo, não existe registo nenhum disso. Procura, procura e não encontra. Não há nenhuma reportagem a falar de mansão, não tem lista de bens, não tem quinta, não tem coleção de carro de luxo, não há aquele inventário milionário que a gente imagina.
A vida pessoal do alípio, o que juntou de dinheiro, para onde foi tudo aquilo, é um vazio. Ninguém sabe contar direito. E depois pode pensar: “Ué, então o gajo perdeu tudo, avariou? Calma, porque a verdade é mais bonita do que isso.” O que o alípio deixou não cabe em escritura de imóvel, está noutro lugar. Deixa-me contar o que pouca gente conhece.
No auge da fama, quando podia muito bem só desfrutar da vida de cantor de sucesso, o alípio fez uma escolha estranha. Ele achava que era melhor produtor do que cantor e se fechado no estúdio para fazer uma coisa que roçava a magia. Pegava gente que não sabia cantar, pessoas que desafinavam e transformava num cantor de sucesso.
Os Os músicos do Pará tinham até um apelido para ele, o George Martin do Norte. George Martin, para quem não se recorda, foi o produtor dos Beatles. Era esse o tamanho que davam ao alípio. E como ele fazia? Com paciência chegava um sujeito que mal afinava no duche. O alípio não mandava embora. Dizia: “Volta amanhã”.
Grava um bocadinho num dia, mandava o gajo voltar no outro para gravar mais um excerto. Ia montando a música em pedaços com calma até sair um disco redondo. O tipo que não cantava nada saía dali com um sucesso na mão. E agora uma boa pergunta para si responder lá em baixo. Isso era genialidade ou era jogada? Há quem ache que era um génio fabricando talento do nada, dando hipótese a quem nunca teria.
E há quem pense que havia um que de engano vender ao público como cantor um sujeito que sozinho não cantava. Então, o que acha? Comenta. O facto é que muito cantor que rebentou nessa altura deve a carreira a esse homem. E o nome do alípio ficava ali discretinho na ficha técnica do disco. Era esse o feitio dele. Preferia fazer o outro brilhar.
E talvez seja por viver tão na sombra que aconteceu uma coisa de doer. Quando a música voltou na novela, foram falar com o filho dele, o Marcelo. E numa dessas conversas perguntaram a data de nascimento, aquela que está em todo o site da internet, 13 de junho de 1944. Sabe o que o filho respondeu? que tava errado, que a data certa é 5 de fevereiro.
Para para pensar no tamanho disso. Um homem que vendeu quase 5 milhões de discos, que foi denominado de génio, que fez a carreira de meio mundo. E o Brasil nem o seu aniversário, anotou direito. Está errado. Espalhado por aí até hoje e o próprio filho a precisar corrigir. Esse é o preço de quem viveu nos bastidores.
Quem está sempre a fazer o outro brilhar, acaba por ficar no escuro, mesmo merecendo o palco. E aí fica a questão: no final de contas, o que um homem destes deixou de verdade? O Alípio Martins não deixou mansão para ninguém contar história. Não tem fazenda, não tem fortuna guardada, não tem aquele inventário de luxo. E sabe de uma coisa? Está tudo bem, porque o que ele deixou é melhor.
Ele deixou música a tocar no churrasco de domingo. Deixou gente cantar olando onde andarás tu numa novela quase 40 anos depois, sem nem saber que aquilo era dele. Deixou o cantor que só existe porque teve a paciência de mandar voltar amanhã para gravar mais um bocadinho. deixou uma obra que se recusa a morrer, que segue a tocar em festa, em rádio, em playlist de gente que nunca o conheceu.
Pensa bem, dá para deixar coisa mais valiosa do que isso? A casa cai, o dinheiro acaba, o carro enferruja na garagem, mansão muda de dono, quinta muda de cerca, conta no banco zera, mas a música que faz o povo cantar 30, 40 anos depois, esta nunca mais acaba. Essa não tem como tirar a ninguém. No fim das contas, talvez seja esse o maior luxo que um artista pode ter.
Não o luxo da mansão, o luxo de não ser esquecido de verdade, mesmo quando o mundo se esquece do o seu nome. E talvez seja por isso que esta história mexe tanto connosco, porque toda a gente conhece um alípio, aquele tio que sabia fazer tudo e ninguém dava o devido valor, aquele colega de trabalho que segurava a equipa nas costas e nunca aparecia na fotografia.
aquela pessoa que fazia a roda girar e ficava ali quietinha no canto. O Brasil está cheio de gente assim. Gente que constrói, que faz acontecer e que nunca recebe o crédito por nada. O alípio foi um deles e ainda assim deixou uma marca que o tempo não conseguiu apagar. Então fica aí a homenagem ao paraense que fugiu de casa num navio, que enganou as rádios a fazerem-se passar por gringo, que fez cantor tornar-se cantor dentro do estúdio e que pôs o Brasil a dançar sem nunca pedir os holofotes para si. Um rei sem
coroa, da forma que ele preferia. Agora eu quero ouvi-lo. Conta-me aqui embaixo. Já sabia que onde andará era do Alípio Martins? Você descobriu agora neste vídeo ou nunca nem sequer tinha ouvido falar neste homem? Escreve lá que eu leio os comentários um por um. E se esta história te tocou de alguma maneira, faz duas coisas rapidamente, deixa o like aí em baixo, ajuda muito o canal e se ainda não o fez, subscreva.
É assim que conseguimos continuar tirando da poeira estas histórias que o O Brasil esqueceu-se de contar. Muito obrigado por ter ficado até aqui. A gente se vê no próximo vídeo. Até lá. Yeah.