O Que Fizeram com Mazzaropi | A História Que Tentaram Esconder

O Que Fizeram com Mazzaropi | A História Que Tentaram Esconder

13 de junho de 1981, 8 horas da manhã. O homem mais amado O cinema brasileiro morre num quarto do hospital Albert Einstein, em São Paulo, e quase ninguém imagina o que ele vinha escondendo há meses. Por trás do artista que enchia o cinema de norte a sul e fazia rir todo o Brasil de alegria, existia um segredo silencioso.

 Amácio Mazarope carregou sozinho esse peso até o último dia de vida. E o pior desta história nem é o segredo. Fica comigo até ao final. Porque vai descobrir durante poucos meses depois de ele ter fechado os olhos, tiraram tudo o que este homem demorou a vida inteira a construir. E quem deixou que Issus acontecesse? Mas para compreender como se arranca a um homem a última coisa que ele amou, precisa voltar comigo mais de 50 anos.

 Há uma casa simples no interior de São Paulo, onde um menino ouviu do próprio pai que o seu sonho não tinha futuro. Amácio Mazaropi nasceu em São Paulo a 9 de abril de 1912 e cresceu entre a capital e a terra dos avós, no Vale do Paraíba. Foi ali, no meio do mundo saloio, que ele um dia ia imortalizar, que o menino aprendeu a tocar viola e a amar a vida da roça.

 O avô, um imigrante italiano, plantou nele esse gosto pela simplicidade do campo. O pai Bernardo era comerciante, tinha mercearia, tinha algum dinheiro e tinha um plano para o filho. Este plano não tinha palco, não tinha circo, não tinha a ideia que ele achava maluca de viver, fazendo graça pros outros. Quando Amácio falava em ser artista, ouvia dizer que aquilo não era coisa de homem sério.

 Chegaram a mandar o miúdo trabalhar com um tio longe de casa para aprender um verdadeiro ofício. Ele virou o tecelão. Aprendeu a fiar pano enquanto o sonho fervilhava por dentro. E aos 16 anos, este rapaz fez uma coisa que ia marcar todo o resto da sua vida. Fugiu de casa. Fugiu para virar assistente de um faquir de circo. Um homem chamado Ferre.

 Largou o tecto seguro do pai pela lona furada pela estrada pela dúvida de ter o que comer ao fim do dia. Apostou no incerto porque alguma coisa dentro dele já tinha compreendido o que ele era, mesmo quando ninguém à volta acreditava. guarda essa imagem na cabeça. Um miúdo de 16 anos a sair de casa contra a vontade do pai, apostando tudo num sonho que ninguém à volta levava a sério.

Porque esta cena vai voltar de formas diferentes até ao último dia de vida dele. Mas Aropi ia passar a vida inteira sendo duvidado precisamente por quem deveria valorizá-lo. Primeiro pela própria família, depois pela elite que mandava na cultura do país e tratava-o como vergonha nacional. E no fim, quando ele já não estivesse mais aqui para se defender, por pessoas que estava muito perto dele.

 Mas antes da traição veio a glória. E foi uma glória que ninguém viu chegar, porque começou com um homem ridicularizado, insistindo numa personagem que diziam que não tinha a mínima graça. Quando Amáccio finalmente subiu a um palco de verdade, o O Brasil já tinha um caipira famoso. O Jeca Tatu de Monteiro Lobato, um homem do campo doente, ignorante, parado no tempo, quase um bicho, um retrato que ria do povo do campo em vez de rir junto com ele.

 E foi olhando para este retrato que Masaropi teve a primeira grande ideia da vida dele. Resolveu virar tudo do avesso. O saloio que criou era esperto e cheio de manha. Apanhava da vida no início e dava a volta no fim. dizia tudo errado e mesmo assim atirava à cara dos poderosos as verdades que o doutor de gravata engolia em silêncio. O povo simples reconheceu-se naquele homem.

 Pela primeira vez, o saloio, que sempre tinha sido motivo de chacota, saía por cima e o público deixava a sessão, sentindo que tinha ganho juntamente com ele. E este saloio ganhou um uniforme que o Brasil aprendeu a reconhecer de longe, o chapéu de palha e a camisa de xadrez, as calças curtas deixando as canelas de fora, a bota sururrada, o andar desengonçado de cotovelo erguido e aquele jeito inconfundível de puxar o R ​​na fala.

 De filme em filme, o nome da personagem mudava, de pundoroso a Pirola, de Zé a Chico, mas por baixo de cada um deles estava sempre o mesmo homem. O caipira ficou tão colado no imaginário do país, não é, que o nome da personagem deixou de importar. Bastava ao Brasil ver o chapéu de palha para já saber que se ia rir.

 Tinha um motivo fundo para esta personagem colar tanto. Nesses anos, o Brasil inteiro estava a largar a roça e a correr para a cidade. Eram milhões de caipiras a aterrar em São Paulo e no Rio, sem compreender o mundo novo, morrendo de medo de serem tratados como atrasados. O Jeca de Mazaropi era exatamente este homem, um saloio tentando virar-se no meio da modernidade sem perder a dignidade.

 Quando o público via o Jeca no ecrã, via-se a si próprio. Via o pai que ficara para trás na lavoura e o parente que desembarcou na cidade grande sem compreender bem como o mundo novo funcionava. A plateia ria da atrapalhação da personagem porque era a própria atrapalhação e rindo doía bem menos. E foi no circo que Mazarope descobriu quase por acaso o dom que ia mudar tudo.

O número do Fakir era o homem deitado numa cama de pregos e o público de tanto olhar para aquela figura parada acabava se aborrecendo. Para segurar o público nos intervalos, o miúdo começou a soltar piada e causo um atrás do outro. E o que aconteceu foi quase um vexame pró Faquir. A plateia passou a gostar mais das piadas do miúdo do que do homem nos pregos.

 Foi aí que Mazarope compreendeu que o riso era a sua arma. Em 1934, ainda muito jovem, já tocava a própria trupe levando o teatro de estrada, o velho teatro mambembezinha que aceitasse receber. Era vida dura de estrada pobre e bilheteira incerta, com dinheiro que mal dava para seguir em frente. Reza a história que foi uma pequena herança, deixada por uma avó que permitiu-lhe comprar um teto de zinco pro pavilhão de espectáculos.

 Foi com este tecto remendado que a trup enfim conseguiu estrear-se na capital e arrancar os primeiros elogios da imprensa. Cada centímetro de reconhecimento, Mazaropi teve de escavar com a unha. Só que o reconhecimento não cai do céu. Antes da fama chegaram os anos duros. Em 1940, ele montou o próprio circoteatro, a companhia teatro de emergência, e rodou o interior em palco improvisado, lona arremendada, plateia de cidade pequena.

Foi a escola e foi a fome. Foi aprender noite após noite o que fazia exatamente aquela gente rir e chorar. Quando chegou a Rádio Tupi em 1948, com o programa Rancho Alegre, já sabia conversar com o Brasil profundo como quase ninguém sabia. A voz dele entrou nas casas e quando a televisão estreou no país em 1950, Mazarope levou a personagem para o pequeno ecrã e o sucesso explodiu.

 Foi aí que o cinema veio atrás dele. Os proprietários da companhia Vera Cruz, o estúdio mais importante do Brasil na época, procuravam um tipo diferente para protagonizar uma comédia. Bastou ver Mazarope na televisão para não terem mais dúvida. Em 1952, ele estreou-se no grande ecrã com Sai da Frente. O menino que tinha fugido para debaixo de uma lona de circo, estava agora na maior ecrã do país.

 E houve um momento logo na arranque desta parceria que já entregava quem Mazarope era verdadeiramente. Quando o diretor da Vera Cruz quis fechar o contrato, Mazarope marcou de o receber num restaurante dos mais requintados de São Paulo e apareceu impecável, de fato, elegante, nada parecido com o saloio atrapalhado dos palcos.

 sentou-se numa mesa coberta de guarias importadas para impressionar o homem e abancar a carreira dele. O saloio mal tinha estreado no cinema e já dava para ver que aquele jeito simplório era pura encenação e que o homem por detrás dela jogava num tabuleiro bem mais sofisticado. Emendou oito filmes como ator contratado.

 ganhava bem, tinha fama, tinha segurança. E foi precisamente no conforto que tomou a decisão mais arriscada de toda a carreira. Mas Aropi viu uma coisa que ninguém à volta dele via. Enquanto fizesse um filme para os outros, o dinheiro e o controlo da própria obra iam ser sempre dos outros. Ele não queria um pedaço, queria o filme todo do guião à bilheteira.

 Depois veio a loucura. Em 1958, Masaropi pôs a própria casa à venda. Juntou o dinheiro da casa com as economias de anos, fundou a Panfilmes Produções Acio Mazaropi e alugou os estúdios da Vera Cruz para bancar do seu próprio bolso cada metro de filme da primeira produção. Chófer de praça, pensa na dimensão desta aposta.

 Um homem que já tinha conforto a pôr o tecto da própria família em cima da mesa para filmar uma comédia de saloios. Se o filme não enchesse as salas, a conta ia muito para além do prejuízo. Ele ficava sem onde morar e fez questão de apostar à vista de todos. Botou um anúncio no jornal avisando que estava a vender tudo o que tinha para bancar o primeiro filme e ainda gozou da sua própria situação, dizendo que se a coisa desandasse, ia ter de arranjar uma mulher rica para sustentá-lo, porque ia ficar na bancarrota. Era o homem inteiro naquele

anúncio. A coragem de arriscar tudo e o deboche de rir da própria ruína antes mesmo de ela chegar. Só que nem vender a casa resolveu. Vendeu o carro também e o dinheiro continuou curto. Foi aí que ele correu para a única coisa que nunca o abandonou na vida, o circo. Pegou na estrada de novo, fez uma temporada de espectáculos pelos picadeiros do interior, só para juntar o que faltava.

 E quando cher de praça ficou pronto, faltava dinheiro até para tirar as cópias da fita. Mas entrou no próprio carro e saiu a circular cidade por cidade, fazendo apresentação, levantando dinheiro no boca a boca até ter o suficiente para colocar o filme nas telas. E há um pormenor desta fase que lá na frente vai soar quase como um presságio.

 Os equipamento que utilizou para rodar o filme eram alugados à Vera Cruz, o estúdio bancado pela elite paulista. Pouco tempo depois, quando a Vera Cruz afundou-se em dívidas e quebrou, foi precisamente Mazarope, o saloio que os críticos tratavam como lixo, quem arrematou num leilão metade do maquinaria da antiga gigante, o homem que a elite desprezava comprando no martelo os restos do sonho de cinema dos ricos. Guarda essa cena.

 Porque um dia o martelo do leiloeiro ia bater outra vez, só que do outro lado do balcão. Não deu errado. A partir daí, Mazarope tornou-se um fenómeno que o Brasil nunca tinha visto. Produzia, realizava, escrevia e protagonizava os próprios filmes. Controlava da primeira cena a porta do cinema. Enquanto boa parte do cinema nacional vivia de verbas do Instituto Nacional do Cinema, nunca tirou um tostão do governo.

 Fazia sucesso com o dinheiro do próprio público e devolvia a esse público o tipo de história que mais ninguém queria contar. E o público respondeu de uma forma que deixou a indústria inteira de queixo caído. Quando estreava um filme do Jeca, o interior do Brasil parava. À porta do cinema, a fila dobrava a esquina antes mesmo de a bilheteira abrir, e o proprietário da sala remarcava a sessão atrás de sessão, sem dar conta da multidão que se encontrava na calçada à espera da próxima.

 Mas Arupi ficou milionário a sério. Construiu estúdios próprios, comprou uma quinta enorme em Taubaté, levantou um hotel e tornou-se ainda um dos maiores fornecedores de leite do estado de S. Paulo. O ex-assistente de Faquir comandava agora todo um império sozinho. Mas o verdadeiro tamanho deste sucesso é difícil até de imaginar.

 Ao longo das 24 produções da Pan Filmes, foram vendidos mais de 200 milhões de bilhetes para ver o Jeca no ecrã. 206 milhões de pessoas, para sermos exatos. Num Brasil que tinha muito menos gente do que tem hoje. Só Jeca Tatu de 1959 e Casinha Pequenina de 1963 levaram cerca de 8 milhões de pagantes cada um. 18 dos seus filmes estão até hoje entre os mais vistos da história do cinema nacional.

 E conseguiu isso com o modelo que mais ninguém no país repetiu. Cada filme bancava o seguinte: numa engrenagem que girava sozinha, a Vera Cruz tentou montar uma indústria assim e quebrou. A Atlântida e a Maristela também tentaram e foram para o mesmo buraco. Só o saloio, a que chamavam grosseiro, fez com que o cinema brasileiro se pagar.

 Em 1961, Mazaropi comprou a Fazenda da Santa em Taubaté e aí levantou os próprios estúdios. Foi naquele chão que rodou tristeza do Jeca, o primeiro filme em cores da carreira. E em quase tudo o que filmava estava a mesma Jenny Prado, a eterna mulher do Jeca, que dividiu a ecrã com ele em 28 dos seus 32 filmes. Os dois tornaram-se uma das duplas mais queridas do cinema do país.

 Quem assistia à espontaneidade daquelas piadas não fazia ideia do método por trás delas. Mas Aropi testava cada gracejo antes nos picadeiros, nas apresentações de circo que ele nunca abandonou. O picadeiro era o seu laboratório, media a gargalhada da plateia em direto e só levava paraa tela aquilo que já tinha provado que funcionava.

 E Masaropi não era apenas o ator. Em 1960, assumiu também a direção, estreando-se atrás da câmara com as aventuras de Pedro Malazartes, trazendo para a tela o velho malandro do folclore brasileiro. A partir daí, dirigiu boa parte da própria obra e foi brincando com os géneros. Em Olamparina de 1964, fez uma sátira aos filmes de cangaço com Jeca a cair de paraquedas no meio de um bando de cangaceiros.

 Ele veio do circo e do teatro, passou pela rádio e pela televisão e dominou o cinema, atravessando todas estas linguagens sem perder o público pelo caminho e reinou quase sozinho neste pedaço do cinema por décadas. Só apareceu um adversário à altura lá perto do fim, a trupe dos trapalhões de Renato Aragão, que começou a partilhar com ele os maiores lucros do circuito popular.

 A concorrência ficou tão grave que Masaropi chegou a deslocar a data de lançamento dos próprios filmes para não bater de frente com os rivais. Ele foi o rei de um tipo de cinema que antes dele simplesmente não existia no Brasil. E o segredo do tamanho de tudo isto talvez esteja numa coisa simples. Com o tempo, o público deixou de ir ao cinema para ver um ator interpretar um papel.

 Ia para ver Mazarope. O nome dele no cartaz sozinho já bastava para encher a sala porque tinha-se tornado sinónimo de risada garantida. E uma confiança destas, de um país inteiro depositada num só homem, não se ganha de uma hora para a outra. foi construído em cada noite de circo, de palco e de rádio que rodou antes de o ecrã existir para ele, mas comandava à sua maneira, desconfiado e fechado, vigiando cada detalhe sozinho.

 Não punha decisão importante na mão de um sócio, nem de intermediário. Quem com ele trabalhou recorda um homem de pouca conversa e muita exigência. Aquele comando todo foi o que ergueu o império e lá na frente, essa mesma desconfiança que ia se mostrar a coisa mais justificada do mundo. Nos anos 70 vieram alguns dos maiores êxitos da carreira, o grande xerife, um saloio em Bariloche.

 Um título atrás do outro, enchendo o cinema e enchendo o peito de milhões de brasileiros que, pela primeira vez, se viam tratados como gente num ecrã grande. No total, foram 32 os filmes ao longo de quase 30 anos. Easuropi preparavam de número 33, um filme chamado O Jeca e a Maria Tomba, homem. Guarda este nome na cabeça, porque este é o único filme que ele não ia conseguir terminar.

 E a razão é o início da parte mais negra de toda esta história. Mas há uma coisa que todo o dinheiro do mundo nunca comprou para Mazaropi e a falta dela foi envenenando-o por dentro. Ano após ano, enquanto o povo o transportava nos braços, existia um outro Brasil que o olhava com nojo, o Brasil dos críticos de cinema, dos jornalistas de cultura, dos intelectuais que decidiam o que tinha valor e o que era lixo.

 Para esta gente, Mazarope era uma vergonha nacional, um cinema de pobre que, na cabeça deles, não tinha valor artístico nenhum e não tinham pena na hora de escrever. Os jornais samavam os filmes do Jeca de Porcaria com todas as letras, mandavam o leitor não perder tempo a ir ver e muitas vezes nem se davam ao trabalho de explicar porquê.

Em 1965, um crítico de um grande jornal de São Paulo despachou um filme dele como um monumento ao mau gosto e à falta de sensibilidade. Era assim ano após ano, estreia após estreia. O homem que enchia todas as salas do país, abria o jornal no dia seguinte e lia que era o pior que o cinema brasileiro tinha para oferecer.

 A época inteira jogava contra ele. Eram os anos do Cinema Novo, quando a crítica aplaudia filmes densos, cheios de símbolo e mensagem política feitos para discutir o rumo do país. Muitos deles filmes importantes de verdade, só que quase ninguém ia ver. As salas que transbordavam eram as do Jeca. E isso, pros donos da opinião culta, soava quase como ofensa fessual.

 O sucesso da Mazarope era a prova viva de que o gosto do povo não obedecia ao seu gosto. E eis o que quase ninguém conta sobre estes filmes ditos sem valor. Eles eram muito mais corajosos do que os crítica nunca admitiu por baixo da comédia simples. Mas oico tocava feridas que os cinemas sérios tinham medo de encostar.

 embrulhava assunto pesado em piada para fazer gargalhar a lavoura. E dentro do embrulho ia uma discussão sobre o Brasil real. Ele era acusado de não ter nada a dizer no exato instante em que dizia o que os outros não tinham coragem de dizer. E não é conversa fiada. Dá para dar nome aos bois. Em 1975, no filme Jeca contra o capeta, entrou de cabeça na luta sobre a lei do divórcio, que abalava o Brasil naquele momento.

 Em 1974, o Jeca, macumbeiro, mexeu com a fé do povo e o preconceito religioso. Ele fez até um filme inteiro sobre a paixão que carregava fora dos ecrãs, O corintiano, de 1966, sobre um adepto doente pela equipa do coração. E em 1978 surgiu o mais ousado de todos, Jeca e o seu filho preto, o 30º filme da carreira sobre um saloio que cria um menino negro como filho e enfrenta o racismo de um agricultor rico.

 Tudo isto em plena ditadura militar, no mesmo ano em que o movimento negro saía às ruas de São Paulo para se organizar. E neste filme está o momento que define o homem inteiro. Contam que num encontro com a imprensa, um jornalista perguntou a Mazaropi porque fazer um filme sobre o racismo. Si no Brasil o racismo não existia, Mazaropi respondeu na lata mais ou menos assim, que o jornalista tinha toda a razão, que no Brasil ninguém via racismo nenhum, pelo menos até ao dia em que a filha branca chega a casa e avisa que vai casar com um rapaz. preto e não era um

caso isolado, mas Aopi fez a carreira inteira escondendo a crítica dentro de piada. Em Jeca Tatu de 1959, o Caipera é um roceiro pobre que tem a terra ameaçada pela ganância de um latifundiário, o retrato cruagem que engolia o pequeno no campo brasileiro. Em tristeza do Jeca, mostrou o homem da lavoura sendo enrolado por dois coronéis que prometiam modernizar tudo e só queriam o voto dele.

 A velha política e a velha exploração de sempre, embrulhadas numa comédia que a roça inteira ia ver sem se aperceber que estava levando uma aula. E há um pormenor que torna tudo isto ainda mais corajoso. Mas vive vêu o auge da sua carreira bem no meio da ditadura militar, no período mais pesado da censura, quando o governo cortava e proibia o que bem entendia.

Enquanto o cinema sério, que peitava o regime era perseguido e censurado, o saloio que ninguém levava a sério, ia passando despercebido, vendendo comédia ligeiro e contrabandeando no meio das risos, a sua cutucada na corrupção e na hipocrisia dos poderosos. Filmes como Jeca Macumbeiro de 1974 e Jeca contra o capeta de 1975 levaram mais de 3 milhões de pessoas cada um ao cinema.

 Em pleno regime, ele chegou a fazer um filme inteiro sobre a própria paixão. No corintiano de 1966, ele é seu, Manuel, um barbeiro fanático pelo Corinthians que ganha um burro malhado de preto e branco. Briga com o vizinho palmeirense numa guerra de hinos, corta o cabelo de graça para quem é corintiano e quer que o filho largue a faculdade de medicina para jogar no Timão. Para dar realidade à loucura.

 Mas Aropi enfiou no filme cenas de jogos de verdade do Corinthians com craques como Rivelino e filmou no Pacaembo. Era o saloio costurando a vida real do brasileiro comum com a ficção do ecrã décadas antes de este se tornar moda no cinema e tinha um fio escondido costurando uma boa parte da sua obra, o forasteiro, aquele que chega de fora e não se encaixa. Não era um acaso.

 Azaropi era neto de imigrantes italianos e portugueses, gente que desembarcou de longe para recomeçar do zero. Em meu Japão brasileiro de 1964, ele atirou o Jeca para o meio da cultura japonesa que colonizava o interior Paulista, rindo-se do choque da mistura de dois mundos. Em Zé do Periquito de 1960, fez um pobre e tímido jardineiro se apaixonar-se por uma estudante de outra classe.

 Um amor torto, barrado pela diferença social. Era sempre o de baixo e o de fora, olhando para um mundo que não tinha sido feito para ele. E o Brasil, que se sentia exatamente assim, enchia o cinema para se ver na tela. Até tem nome para o tipo de cinema que ele fazia. Era a versão rural e paulista das chanchadas cariocas, aquelas comédias populares e baratas, herdeiras diretas do circo e do teatro de estrada de onde ele próprio tinha saído.

 A obra de Mazarope divide-se em duas fases bem nítidas, uma urbana, ali no início dos anos 50 e a rural, que iniciou-se em 1959 e tornou-se a marca registada do Jeca para sempre. Mas Zoropi também não levava desaforo paraa casa. Numa entrevista à revista Veja, abriu o jogo sem filtro nenhum. Disse que tinha raiva dos intelectuais com estas palavras.

 Disse que a crítica sentida era inveja, porque ganhava dinheiro e enchia cinema enquanto filmavam para plateia vazia. Cravou que o pessoal culto fazia cinema para uma minoria que não enchia uma fila de poltrona e defendeu, com orgulho de peão, que cinema era para divertir, para fazer o povo rir e chorar, e que nunca tinha necessitado de favor de ninguém para isso.

Todo este desafio era parte que o Brasil via. O que ninguém via era o homem que terminava o dia calado, sem ter com quem celebrar uma bilheteira recorde. Porque por detrás de toda aquela raiva existia uma ferida que Mazarop escondeu do Brasil inteiro. E esta ferida é a primeira camada do segredo que ele transportou até ao túmulo.

 O homem que fazia milhões de pessoas rirem era, na vida real um sujeito solitário e desconfiado. Nunca casou. vivia rodeado de gente o tempo todo, desde os filhos adotivos aos empregados da quinta e ainda assim não confiava de verdade em quase ninguém. Falava pouco, guardava tudo. O sorriso escancarado do Jeca no ecrã cobria um homem fechado, a redio, que tinha aprendido cedo demais lá em casa do pai, em que ninguém ia acreditar no sonho dele gratuitamente.

 E o personagem ia ainda mais fundo do que o público imaginava. O Jeca era um caipirão de chapéu de palha e fala arrastada. O homem que lhe dava vida era quase o contrário disso. Mas Aropi gostava de ópera e de música clássica. Tinha amigos na Academia Brasileira de Letras. Vivia numa casa de lareira e andava sempre de fato, às vezes de smoking, vaidoso e elegante.

 O caipira era uma criação genial. O criador era um sujeito refinado que muito pouca gente chegou a conhecer verdadeiramente e tinha um motivo muito concreto para ele se trancar tanto. Mas Aropi ficou riquíssimo, mas passou a vida a negá-lo. Quem conviveu de perto conta que era quase um pavor.

 medo de ser assaltado ou sequestrado, medo de tudo o que podiam fazer com um homem público e cheio de dinheiro. Assim, ele escondia o tamanho da fortuna, disfarçava e não deixava quase ninguém entrar verdadeiramente na vida dele. Tem uma crueldade silenciosa nisso tudo, mas Azopi passou a vida atrás de uma única coisa que o dinheiro nunca comprou, ser levado a sério.

 O povo o adorava, só que adorava-o como palhaço. A elite via-o, só que para cuspir nele. No meio dos dois, sobrava um homem riquíssimo e famoso, aplaudido por um país inteiro e, por dentro, corroído pela falta de um respeito que nunca chegou. E essa desconfiança dele, esse instinto de não entregar o coração a ninguém, um dia ia provar-se a coisa mais sensata que ele já tinha feito.

Porque o homem que ergueu o império inteiro, sem confiar em quase ninguém, estava sem dar por isso, rodeado de gente, esperando o dia em que ele fraquejasse. E quando esse dia chegasse, Masaropi já não teria forças para defender nada do que construiu. Mas antes desse dia, o corpo dele começou a falhar em silêncio.

E durante meses ninguém em volta desconfiou de nada. A doença chegou lentamente, do jeito mais traiçoeiro. Foi em 1979 que o corpo de Mazarope começou a dar os primeiros sinais de que alguma coisa estava muito errada. Dores que não passavam, um cansaço que não fazia sentido num homem que sempre teve energia de sobra.

 Mas Mazarope era Mazarope. Engoliu a dor e tocou a vida como se nada estivesse a acontecer. Tem o motivo fundo para ele esconder. Esse era o homem que fugiu de casa aos 16 anos porque ninguém acreditou nele, que vendeu a sua própria casa para provar que tinha razão, que ouviu a vida inteira da crítica que não prestava. Um sujeito destes não sabe mostrar fraqueza.

 Confessar que estava doente seria entregar pela primeira vez que existia algo maior do que a vontade dele. E isso Mazarope não ia fazer. Nesse mesmo período, lançou o filme O Jeca e a Égua Milagrosa. O público encheu as salas para rir, sem desconfiar de nada. E é aqui que a história ganhou uma ironia que dói de olhar.

 O título falava de uma cura milagrosa, de um milagre que salva no último instante. Enquanto isso, dentro do corpo do homem que conduzia e protagonizava aquela fita, crescia uma doença paraa qual não existia milagre nenhum. E não foi só aquele filme. No mesmo 1979, em que o corpo começou a traí-lo, Mazarope lançou a banda das Velhas Virgens, um título malicioso que apanhava boleia na onda de porno chanchada que tomava conta do cinema da época, só que era uma partida.

 No ecrã, era o Jeca de sempre, comédia limpa, sem nada do que o título deixava entrever. Era o showman trabalhando, brincando com o público, vendendo bilhete, precisamente no ano em que recebia em silêncio a pior notícia da vida dele. E o pior ainda nem ouviu, porque o tamanho real do que ele escondia só ficou claro muito perto do fim.

 O que Mazarop tinha era um mieloma múltiplo, cancro na medula óssea, uma doença silenciosa que vai corroendo o osso por dentro, enfraquecendo o corpo aos poucos, sem dar tréguas. Naquela época, com os recursos que existiam, era quase uma sentença assinada. E o jeito como lidou com ele diz tudo sobre o homem que era. Porque Mazarope vinha sofrendo da doença desde 1979, mas só foi descobrir a gravidade verdadeira do que tinha nos últimos meses de vida.

 Pára por um segundo e pensa no que isso significa. Por quase dois anos, o homem mais popular do O Brasil transportou no próprio corpo um cancro avançando, sem saber bem o tamanho do inimigo. Filmou, realizou, fez plateia chorar a rir e administrou um império inteiro, tudo com a morte crescendo calada por dentro dele. E quando finalmente compreendeu o que estava a acontecer, ele fez a coisa mais mazaropi que existe. não recuou.

 Começou a preparar mais um filme, O 33º, aquele o Jeca e a Maria Tomba Homem que pedi-lhe para guardar lá no início. O homem estava moribundo e marcava trabalho novo, porque deixar o trabalho para ele era mais assustador do que largar a vida. Imagina por um instante que esse homem fosse alguém da sua família, um pai, um avô, que toda a vida só soube fazer uma coisa, trabalhar e cuidar dos outros.

 e que mesmo sabendo que estava no fim, não conseguiu largar isso de maneira nenhuma. Foi exatamente assim que Mazarope entrou no último ano de vida. Ele segurou o segredo o quanto pôde. O Brasil continuava a ver o Jeca nos ecrãs, comprando bilhete, rindo das trapalhadas, sem a mínima ideia de que o homem por detrás daquele sorriso estava definhando.

 O seu segredo tinha ganho uma camada nova. Para além da solidão de um homem fechado, existia agora a notícia de que o ídolo do país estava com os dias contados e ele não queria que ninguém o olhasse com pena e talvez a sua solidão fosse mais funda do que qualquer doença. Segundo o filho André, Mazaropi carregou durante anos um amor calado pela apresentadora Ebbe Camargo, amiga e confidente de longa data, um sentimento que nunca teve coragem de transformar noutra coisa, como quase tudo na sua vida íntima, ficou escondido, vivido em silêncio. O

homem que dava gargalhadas para o Brasil inteiro nunca deixou ninguém aproximar-se demasiado do próprio coração. Até que chegou o ponto em que nem a teimosia dele segurou mais. Os sintomas venceram a teimosia. Em 1981, o corpo de Mazarope já não aguentava o ritmo que ele sempre exigiu de si mesmo.

 As filmagens de Ueka e a Maria Tomba Homem foram suspensas. O 33º filme, o que ia coroar quase 30 anos de carreira, parou a meio do caminho e nunca mais seria terminado. Pensa no peso desta cena. Um homem que vendeu a sua própria casa a poder filmar, que nunca dependeu de ninguém para fazer o que amava, obrigado a desligar a câmara pela primeira vez por um motivo que não tinha como controlar.

 O império inteiro parado à espera de um dono que não ia voltar ao sete. 26 dias. Foi quanto tempo ele passou internado no fim. Mas Aropi foi levado para o hospital Albert Einstein em São Paulo. Os médicos fizeram o que tinham para fazer, mas o mieloma já tinha tomado conta. Durante 26 dias, o homem que fez rir todo o Brasil foi se apagando num quarto de hospital, longe dos ecrãs e do barulho que sempre o cercou.

 O artista mais barulhento do país terminou no lugar mais silencioso que existe e não foi sozinho. Um dos filhos adotivos, André Luiz conta que ficou ao lado dele nesse período sentado à beira da cama, acompanhando cada dia da despedida. foi um dos poucos que estiveram ali perto, segurando a barra até ao último momento. Guarda esse pormenor também, porque mais paraa frente ele vai pesar de uma forma que não espera.

 No dia 13 de junho de 1981, pelas 8 horas da manhã, Acearopi morreu. Tinha 69 anos. A causa foi o mieloma múltiplo, o cancro na medula que escondeu do país inteiro até ao último fôlego. Antes de o corpo seguir para o interior, Mazaropi foi velado ali mesmo no hospital, uma despedida quase recolhida do tamanho da descrição com que sempre viveu.

 Mas a quietação durou pouco tempo e depois aconteceu uma coisa que provou de uma vez por todas quem ele era para o Brasil. Apesar de tudo o que a elite passou à vida tentando dizer, o país parou para chorar. A morte de Mazarope tomou conta dos jornais e da rádio de uma ponta à outra. A mesma crítica que lhe chamou porcaria durante décadas teve de assistir calada a um Brasil inteiro de luto por um homem que juraram que não tinha valor nenhum.

 O povo sabia exatamente o tamanho do que tinha perdido. Tinha perdeu o artista que mais representou a gente simples na história do cinema do país. O corpo seguiu para Pindamhangaba, no interior de São Paulo. E foi aí que esta história entregou o seu encontro mais simbólico. Mas foi sepultado no mesmo túmulo do pai.

 Lembra-se do menino de 16 anos que fugiu de casa contrariando o velho atrás de um sonho que ninguém em casa levava a sério? Este menino voltou. Depois de uma vida inteira a provar pro mundo que o seu sonho valia ouro, ele foi descansar exatamente ao lado do homem que um dia duvidou. O sonho tinha vencido. Só que o homem que sonhou já não estava mais aqui para defender o que este sonho construiu.

 Porque enquanto o Brasil enxugava as lágrimas e despedia-se do Jeca, havia gente de olho noutra coisa bem diferente, no que Mazarope deixou para trás. A quinta e os estúdios em Taubaté e os 32 filmes que ergueu com as próprias mãos. E o que fizeram com tudo isto é a parte mais revoltante que vai ouvir hoje. Mas façou a vida inteira controlando cada detalhe do próprio império. Decidia tudo sozinho.

Não largava o leme na mão de ninguém. Vigiava cada cêntimo que entrava e saía. Este controlo obsessivo foi o que protegeu tudo o que construiu enquanto esteve vivo. E no instante em que ele fechou os olhos, este controlo simplesmente deixou de existir. De repente, tudo o que ergueu virou prémio numa disputa.

 A quinta em Taubaté, os estúdios da Pan Filmes, Hotel, o nome, o espólio de quase 30 anos de cinema, um património que valia uma fortuna. Agora, sem o dono que sabia o valor exato de cada peça, caindo na mão de gente que olhava para aquilo e via dinheiro a ser repartido. E foi aí que o império de um homem só começou a tornar-se pó. A herança rachou a família.

 O que devia ser a continuação natural do legado de Mazaropi tornou-se uma briga feia, daquelas que se arrastam durante anos, com cada lado puxando para o seu pedaço e ninguém a pensar no todo. E um a um, os bens que juntou durante toda a vida começaram a ir a leilão. Martelo batendo, lote vendido, próximo. O património do maior cómico do cinema brasileiro, sendo desmantelado e arrematado como espóo de qualquer um.

 E há um pormenor nesta partilha que dá o tom da confusão toda. Mas Aropi não tinha herdeiros legais, nunca casou, não teve filho de sangue. No papel tinha deixado metade dos bens, incluindo os direitos sobre os filmes para a própria mãe, que ainda era viva quando ele morreu. A outra metade seria repartida entre os funcionários que com ele trabalharam, como o filho de criação Periclis Moreira.

 Era para ser simples, não vão foi nem um pouco. E enquanto a divisão começava, aconteceu uma coisa que apagou parte desta história para sempre. Segundo o biógrafo do artista, quando Mazarope estava moribundo, um incêndio criminoso atingiu a sede da Panfilmes. Fogo posto de propósito na empresa do homem que estava numa cama de hospital, sem qualquer condição de reagir.

 Boa parte dos registos da vida de empresário dele virou cinzento naquele dia. É por isso que até hoje se sabe tão pouco sobre como exatamente ele administrava o império que levantou. O que aquele fogo levou, nunca ninguém mais recuperou. Imagina a cena de verdade. Os estúdios onde filmou dezenas de comédias que fizeram o país inteiro rir, agora avaliados, etiquetados e postos à venda para quem cobrisse o lance mais alto.

 A quinta que comprou no auge do sucesso, tornando-se item de pregão. Décadas de trabalho a ir embora à velocidade de um leiliro anunciando o preço. O homem tinha morrido há pouco tempo e o que ele construiu já estava a ser despedaçado e vendido em partes. É difícil até de imaginar o que Mazarope sentiria se pudesse ver aquilo.

 O sujeito que arriscou ficar sem casa para não depender de ninguém, assistindo de algum lugar a estranhos levando pedaço por pedaço da obra da sua vida. A independência que defendeu com tanto orgulho não sobreviveu minimamente à ausência dele. Mas se acha que perder a quinta e os estúdios já era o fundo do poço, segura lá, porque há uma coisa que leiloam que é quase impossível de acreditar.

A coisa mais sagrada que Masaropi tinha, precisamente aquilo que ele vendeu a própria casa para o poder fazer. Os filmes. Leiloaram os filmes dele pára tudo e pensa no tamanho disso. Lá no início desta história, Mazaropi pôs a própria Casas à venda para bancar a primeira produção da Pan. Arriscou o tecto da família por causa daqueles fitas.

 Os 32 filmes que produziu, realizou e protagonizou eram a obra da vida dele. O motivo de ter apostado tudo, a herança de verdade que deixou ao Brasil. E foi exatamente isso que foi parar no martelo do leiloeiro junto a móvel velho e maquinaria usada. Lembra do que te falei lá atrás sobre a desconfiança dele? Que o modo de Masaropi de não entregar o coração a ninguém um dia e ia provar-se a coisa mais sensata que ele já tinha feito? Eis a prova da forma mais dura possível.

 Enquanto esteve vivo, segurou tudo com unhas e dentes. No momento em que não teve mais ninguém para proteger o que amava, levaram. Os filmes que defendeu a carreira inteira foram vendidos a quem pagasse mais. E o destino daquelas fitas é quase uma maldição à parte. Os negativos foram parar na Cinemateca brasileira em São Paulo, mas os direitos de exibição se espalharam, caíram na mão de advogados e de um monte de gente diferente, cada um segurando o seu pedaço.

 O resultado é que durante muito tempo exibir um filme do Maaropi tornou-se um pesadelo jurídico. A obra que 206 milhões de pessoas tinham visto no ecrã ficou quase trancada, refém de quem comprou os papéis. E você lembram-se do leilão lá do início desta história? Lá atrás foi Mazaropi quem arrematou no martelo os equipamentos da Vera Cruz partida.

 Agora a roda tinha rodou por inteiro e foi tudo o que ele construiu que passou pelo mesmo martelo indo parar à mão de estranhos. O presságio cumpriu-se. O homem que um dia comprou os restos do sonho dos outros virou ele próprio, os restos leiloados de um sonho. E há um pormenor nesta história que é talvez o mais amargo de todos.

 Lembra-se do André Luiz? O filho adotivo que ficou ao lado da cama dele até ao último dia? Segundo o próprio André, depois de Mazarope morreu, foi o único que ficou completamente de fora da herança. E na sua versão, isso aconteceu por causa de um testamento que teria sido forjado. É a palavra dele, a acusação dele, uma coisa que nunca foi provada na justiça e que precisa de ser tratada como que é a versão de um dos lados.

 Mas a ironia, a ser verdade, é de cortar o coração. Quem cuidou, quem segurou a mão dele na despedida, alega ter sido precisamente quem ficou sem nada, enquanto o restante era dividido e leiloado. Agora junta todas as peças. Um homem que fugiu de casa aos 16 anos porque ninguém acreditou nele, que vendeu a sua própria casa para realizar um sonho a que chamavam de disparate, que foi humilhado a vida inteiro pela elite culta, mesmo enchendo todos os cinemas do país, que escondeu de um Brasil inteiro que estava a morrer

para não dar a ninguém o sabor da pena e que, mal fechou os olhos, virou espolo, com estranhos e parentes leiloando cada pedaço do que ele levantou, da quinta aos estúdios, até os filmes, que eram a sua alma. Por isso, no final, tiraram-lhe tudo. Tudo o que dava para vender, venderam. Tudo o que dava para repartir, repartiram.

 O império de um só homem, erguido ao longo de quase 30 anos com suor, teimosia e uma fé que mais ninguém teve, desmanchado em poucos anos depois de ele se foi. O homem que nunca quis dever nada a ninguém terminou com o nome no leilão e a obra espalhada. E não foi só o património que se apagou com ele, Gen Prado.

 A companheira de quase 30 anos, a mulher do Jeca em 28 filmes, viu as portas se fecharem quase de uma vez quando Mazarope morreu. Sem ele, os convites praticamente desapareceram. Fez pouca coisa depois e morreu em 1998, vítima da mesma doença que levou o companheiro de ecrã. Um cancro. A dupla que fez o Brasil rir em conjunto despediu-se da vida quase da mesma maneira.

 Mas tem uma última coisa que precisa de saber, porque esta história não termina só em saque e tristeza. A veste fazenda, onde ficavam os estúdios, sobreviveu a tudo. Hoje ela é o hotel Fazenda Mazaropi e guarda no seu interior o Museu Mazarope, com milhares e milhares de peças que contam a vida do homem que a elite tentou apagar. E o povo nunca deixou esquecer.

Os filmes que foram leiloados continuaram a passar na televisão ao longo das décadas, fazendo com que gerações novas rirem do mesmo Jeca que fez os bisavós delas se rirem. E é exatamente aí que mora a coisa mais bela de toda a essa história. E houve gente que decidiu reagir ao estrago. Em 1994, abriu na antiga quinta o espaço que guarda a sua memória e o Instituto Mazaropi iniciou uma cruzada longa, peça à peça, para recomprar os direitos dos filmes que andavam à solta pelo mundo nas mãos de quem tinha arrematado no leilão.

Devagar foram trazendo de volta para casa o que tinha sido arrancado. O que estranhos despedaçaram, admiradores começaram a remontar e a salvação da obra ganhou um reforço de peso. A cinemateca brasileira, que conserva mais de 200 materiais audiovisuais e cerca de 600 fotos e cartazes a ele ligados, entrou num projeto para restaurar e digitalizar os filmes do Jeca, arrancando do esquecimento e da deterioração à obra que quase ninguém conseguia mais exibir.

 O que o leilão espalhava-se e o tempo ameaçava apodrecer, começou, finalmente, a ser salvo. E é aqui que esta história dá a volta mais brutal de todas. Lembra os críticos que passaram décadas a humilhar Jeca, jurando que aquilo não tinha o menor valor? O tempo fez com eles o que ninguém esperava. Hoje quase ninguém lembra o nome de um único crítico que cuspiu no trabalho dele.

 Mas o Brasil inteiro ainda sabe quem foi o Jeca. Décadas depois da morte de Mazarope, a obra tratada como lixo começou a ser levada a sério exatamente pela parte do mundo que mais a desprezou. As universidades passaram a estudar os filmes dele como documento histórico, retrato de um país que largava a lavoura e tropeçava na grande cidade.

Investigadores escrevem teses sobre o saloio que ele inventou. Os mesmos assuntos sérios que a crítica fingia não ver nas comédias dele tornaram-se tema de estudo académico. E não foi só a universidade brasileira que se rendeu. Um dos críticos mais respeitados que o país já teve, Paulo Emílio Sales Gomes, reconheceu que o saloio de Mazaropi tinha raízes muito mais antigas e fundas na cultura brasileira do que a turma do desprezo jamais quis ver.

 Lá fora, investigadores escreveram livros inteiros sobre ele, publicados por universidades de peso, estudando exatamente o artista popular que sobreviveu e atravessou inteiro a era do cinema novo. O homem que não arrancou uma linha de elogio sincero em vida, tornou-se um capítulo de um livro académico dentro e Fora do Brasil.

 E os os filmes nunca morreram verdadeiramente. Passam até hoje na televisão pública, em sessões dedicadas só a ele, conquistando público novo a cada geração que nasce. Em 2022, quando faria 110 anos, o país parou outra vez para celebrar o homem que a elite quis enterrar. A mesma cinemateca que hoje guarda os negativos trata aquela obra como património nacional.

 Pensa na volta que o mundo deu. O saloio sem estudo, o cómico do cinema de pobre que em vida nunca ganhou uma linha de elogio sincero da crítica. tornou-se matéria de universidade e património de um país inteiro. E a turma, que se julgava dona do bom gosto, que decidia o que prestava e o que não prestava, desapareceu da memória sem deixar saudade.

 No duelo entre o Jeca e os Doutores, quem riu por último foi o Jeca. Leiloaram a quinta e os estúdios. Leiloaram até os filmes. Mas há uma coisa que nunca esteve à venda, que nenhum martelo de leiloeiro alcançou e que não cabia em lote nenhum. O lugar de Amácio Mazaropi dentro do peito do povo brasileiro. Ele passou a vida atrás do respeito e partiu sem nunca ter recebido o respeito da elite.

Escondeu a sua própria dor para não pesar na vida de ninguém. viu de onde quer que esteja a levar em cada pedaço do que ele construiu. E mesmo depois de tudo isto, mais de 40 anos passados, o Brasil ainda ri-se com o Jeca, ainda diz o seu nome, ainda faz fila para visitar o local onde viveu.

 No final de contas, a única herança que ninguém conseguiu arrematar foi a que plantou em milhões de corações. E essa é talvez a única que valia mesmo a pena. Então faz por ele uma coisa que a elite nunca fez. Escreve aqui em baixo o nome do filme do Mazarope, que marcou a tua infância ou a a tua família, porque enquanto nós lembrar dele, não levaram tudo.

Não levaram o que importa.

 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *