A política brasileira é um cenário de constantes ebulições, onde narrativas se cruzam, acusações são lançadas e o futuro do país é discutido sob o calor intenso das redes sociais e dos debates públicos. Recentemente, em uma entrevista franca, longa e sem concessões, o senador Flávio Bolsonaro sentou-se para uma conversa profunda, onde abordou desde os temas que marcaram sua trajetória parlamentar — frequentemente alvo de investigações e escrutínio público — até a sua visão sobre o atual governo e o horizonte político para 2026.
O encontro foi um exercício de transparência, segundo a ótica do entrevistado, que buscou rebater pontos que, para ele, não passam de “narrativas” construídas para desgastar sua imagem e a de sua família.
O Caso Queiroz e a Luta Contra as “Narrativas”
Um dos pontos centrais da conversa foi, inevitavelmente, o caso envolvendo o ex-assessor Fabrício Queiroz. O tema, que dominou as manchetes durante anos, foi revisitado pelo senador, que adotou uma postura de defesa assertiva. Flávio afirmou categoricamente que nunca respondeu a um processo criminal relacionado a essa questão. “Você sabia que toda esta espuma, todo este ataque para tentar destruir a minha reputação nunca teve início um processo criminal contra mim?”, questionou.
O senador argumentou que Queiroz tinha autonomia sobre a sua equipe que atuava na rua — encarregada de panfletagem e eventos — e que, mesmo após uma devassa financeira de mais de 11 anos, não foram encontradas ligações financeiras entre ele e os assessores, nem relatos de que tivesse exigido parte dos salários de volta. Para Flávio, a insistência nesse assunto é uma estratégia de controle político, uma “espada sobre a sua cabeça” para tentar mantê-lo sob pressão, algo que, segundo ele, não funcionou.
Sobre o episódio da loja de chocolates e as alegações de lavagem de dinheiro, o senador foi igualmente incisivo: “O Ministério Público me acusando de lavar dinheiro numa franquia totalmente auditada, controlada pela franqueadora”. Ele explicou que o recebimento de valores em dinheiro vivo era uma prática comum no comércio da época, devidamente declarada ao imposto de renda, e que, ao final das investigações, não foi possível comprovar qualquer incompatibilidade patrimonial que justificasse as acusações.
O Debate sobre os Cartões Corporativos
Outro tema que dominou o cenário de ataques cruzados foi o uso dos cartões corporativos. Flávio Bolsonaro defendeu a postura de seu pai, Jair Bolsonaro, contra o que ele classifica como uma hipocrisia por parte da atual gestão. Enquanto o governo Lula critica o sigilo, Flávio aponta para gastos vultosos e falta de transparência no atual mandato.
Ele descreveu a estrutura dos cartões utilizados por seu pai: um para despesas do Palácio, outro para viagens e um pessoal. O ponto de maior ênfase foi a revelação de que o cartão pessoal do ex-presidente, que previa um gasto mensal de 20 mil reais, nunca foi utilizado nem sequer desbloqueado durante os quatro anos de mandato. “Ele nunca fez sequer senha para este cartão. Ele nunca desbloqueou esse cartão dele. Não usou em 4 anos”, assegurou.
O senador explicou que o sigilo, quando aplicado, tinha motivações de segurança e proteção à integridade física, como o risco de envenenamento ou o monitoramento de hábitos alimentares que poderiam expor a família a riscos. A narrativa de “festa” ou gastos exorbitantes, segundo Flávio, é uma distorção dos fatos.
A Questão das Milícias e o Compromisso com a Polícia

A associação do nome da família Bolsonaro às milícias é, talvez, um dos pontos mais sensíveis e recorrentes. Flávio não fugiu da pergunta. Ele defendeu sua admiração pelas forças policiais, destacando que sempre defendeu o policial que “dá a vida pela gente”. Ao abordar o caso do ex-policial Adriano, ele explicou que o conheceu no BOPE, dando instruções de tiro, e que o defendeu quando este foi acusado — e posteriormente absolvido — de um crime que, na visão de Flávio, foi mal investigado.
“Nunca me defendi bandido. Sempre defendi o pau em bandido, porrada em bandido, cadeia para bandido”, declarou. O senador reforçou que nunca houve qualquer investigação que ligasse seu nome ou o de seu pai a milícias, desafiando qualquer um a encontrar tal conexão em 30 anos de vida pública. Ele defendeu sua atuação legislativa no combate a essas organizações criminosas, citando o endurecimento das penas, e reforçou que o objetivo deve ser libertar as comunidades que vivem sob o domínio do crime.
O Lado Humano: A Saúde de Jair Bolsonaro
A entrevista tomou um tom mais pessoal ao falar sobre a situação atual de Jair Bolsonaro. Flávio descreveu o impacto emocional e físico das batalhas judiciais e da prisão domiciliar sobre o pai. A saúde do ex-presidente, que nunca se recuperou totalmente da facada sofrida em 2018, é uma preocupação constante.
O senador detalhou episódios difíceis, como as crises de refluxo que, segundo ele, causam insônia e desconforto extremo, agravadas por medicamentos que trazem efeitos colaterais como sonolência e desequilíbrio. A narrativa de que o ex-presidente estaria bem ou fingindo condições foi tratada pelo filho com indignação. “É uma pessoa que, se Deus quiser, muito em breve vamos tirar ele desta situação”, afirmou, evidenciando a esperança da família em uma reviravolta jurídica.
2026 e o Futuro do Brasil: Uma “Missão de Deus”
Olhando para frente, Flávio Bolsonaro traçou um panorama do cenário político de 2026. Ele analisou possíveis nomes da direita, como Caiado e Zema, reconhecendo suas qualidades administrativas, mas ponderando sobre a necessidade de uma renovação e modernização das ideias.
O senador foi contundente ao criticar o governo Lula, classificando-o como um “fim de ciclo”. Ele argumentou que o atual governo não apresenta soluções para a juventude, falha em gerar expectativas de futuro e é marcado por escândalos de corrupção. “O Lula está cansado. O Lula tem ideias atrasadas”, sentenciou.
Para Flávio, o Brasil precisa de uma mudança baseada em tecnologia, inovação e educação de qualidade, preparando os jovens para o mercado de trabalho através de modelos modernos, como o ensino dual em parceria com empresas. Ele vê sua própria trajetória e o momento atual do país como parte de uma missão maior. Ao mencionar relatos de profecias e sinais divinos, o senador reafirmou sua disposição para ser o condutor dessa mudança, buscando estratégia e sabedoria para enfrentar os desafios que virão.
A Visão Tecnológica: Brasil como Protagonista
Além da política partidária, o senador demonstrou preocupação com o desenvolvimento tecnológico do país. Respondendo a questões sobre a economia e a inovação, Flávio destacou o imenso potencial do Brasil na área de inteligência artificial e minerais críticos. Ele apontou para a necessidade de simplificar a legislação energética — que hoje encarece a produção e afasta investimentos — e de criar um ambiente favorável ao empreendedorismo tecnológico.
“Temos que investir na qualificação de mão-de-obra”, defendeu, ressaltando que há centenas de milhares de vagas abertas que não são preenchidas por falta de preparo técnico. Para ele, o Brasil não pode continuar sendo apenas fornecedor de matéria-prima; deve assumir o papel de protagonista na revolução tecnológica global.
Considerações Finais
A conversa, que durou horas, serviu para que Flávio Bolsonaro consolidasse sua narrativa de enfrentamento. Para seus apoiadores, a entrevista reafirma a imagem de alguém que luta contra um sistema estabelecido e perseguições judiciais. Para seus críticos, mantém o debate vivo sobre as controversas que marcaram sua carreira.
Independentemente do espectro político, o que fica claro é que o senador se posiciona não apenas como um herdeiro político, mas como um articulador que se prepara para os desafios de 2026. Ele se apresenta como alguém que, munido de uma suposta “missão divina” e uma agenda focada em tecnologia e valores conservadores, pretende ocupar um espaço central na política brasileira nos próximos anos.
O tempo dirá se essa estratégia será suficiente para conquistar o eleitorado e superar os obstáculos judiciais que ainda persistem. Por ora, o recado de Flávio Bolsonaro foi dado: ele não pretende recuar, não pretende silenciar e, acima de tudo, não pretende deixar de lutar pela agenda que ele e seu pai construíram ao longo das últimas décadas. A política, como sempre, continuará sendo o palco onde essas narrativas serão testadas pelo veredito das urnas.