Há uma história que o Brasil quase não soube. Uma história que ficou guardada nos bastidores de uma era dourada, sussurrada entre quem estava demasiado perto para não se aperceber e longe demais para contar. Uma história de amor que não poôde ter nome em voz alta, que não poôde ser vivida à luz do dia, que necessitou de se esconder nos versos de uma canção para não desaparecer para sempre.
Quando ouvir o nome de Roberto Carlos e pensar em romance, o seu coração talvez vá direito a Maria A Rita, o grande amor da sua vida, a mulher que o Brasil inteiro chorou junto quando se foi embora cedo demais. Ou talvez pense nas baladas que ele cantava com aquela voz capaz de fazer qualquer coração doer de saudade.
Mas há um capítulo antes de mais isso. Um capítulo que a maioria dos pessoas nunca conheceu por inteiro. Um capítulo que ficou guardado no silêncio de décadas, nas entrelinhas de músicas que todos cantaram sem saber o que escondia cada palavra. E quando esta história chega ao fim, o as pessoas entendem porque é que este capítulo da A vida de Roberto Carlos nunca foi realmente esquecido.
Mas antes de falar deste amor, é preciso compreender quem era Roberto Carlos naquele momento. Porque esta história não começa com um rei, começa com um rapaz de 20 anos que ainda não tinha coroa, que ainda não tinha fãs gritando o seu nome nas ruas, que ainda andava de autocarro pelas emissoras de rádio do Rio de Janeiro, transportando debaixo do braço os seus compactos recém-lançados, pedindo para os discarem as suas músicas.
Um rapaz que cantava em circos de periferia e regressava para a casa de madrugada no buzão, que chegara de cachoeiro de Itapemirim, com uma prótese na perna direita por baixo das calças e uma voz que derrubava paredes. Um rapaz cujo primeiro disco Louco por Você, lançado em 1961, tinha fracassado tão completamente que a editora chegou a soltar o álbum sem nome nem foto do artista na capa, como se tivessem vergonha de assumir que aquilo era deles.
E havia ainda outro pormenor, um pormenor que carregava o peso de uma infância inteira. O nome na contracapa daquele disco estava errado. Carlos Imperial, seu padrinho artístico, escrevera ali que Roberto Carlos era carioca. Não era. Era de cachoeiro do Espírito Santo, filho de relojoeiro e costureira, rapaz pobre que tinha perdido a perna debaixo de uma locomotiva numa festa de S.
Pedro. Mas Carlos Imperial achou que ser do interior do Espírito Santo era algo que atrapalharia a carreira do rapaz. Portanto, apagou isso, reescreveu a história e Roberto Carlos teve de aprender cedo que o mundo da música era um local onde até a sua origem podia ser negociada, editada, vendida de uma forma diferente.
Foi neste contexto, neste tempo de incerteza e de trabalho árduo e de sonhos que ainda não tinham forma definida, que aconteceu o encontro que mudaria a vida de Roberto Carlos de uma forma que ele provavelmente nunca se esqueceu. O homem que apresentou os dois tinha um papel curioso nesta história.
Picholas Mariano era um jovem que trabalhava como discotecário na Rádio Carioca e que tornara-se ao longo do tempo uma espécie de homem de confiança do cantor. Nicholas conhecia todos os radialistas, tinha acesso a todas as estações e era ele quem acompanhava Roberto de rádio em rádio naquelas madrugadas de divulgação.
E foi ele que um dia, naquele ambiente agitado de uma das principais rádios do Rio de Janeiro, apresentou Roberto Carlos a uma jovem que ali trabalhava, a filha do proprietário, Magda Fonseca. O seu nome completo era Magda Fonseca. E quem conhece a história de Roberto Carlos sabe que este nome não é qualquer nome.
Magda era filha de Alceu Nunes Fonseca, um dos homens mais poderosos do rádio brasileiro da época, detentor de uma rede de emissoras que chegava a ter mais de 100 rádios espalhadas pelo país. Era uma jovem elegante e inteligente que trabalhava na Rádio Carioca como responsável pela programação, inovando o perfil da estação ao inserir programas mais jovens e modernos.
Tinha refinamento, tinha família, tinha um apelido que abria portas e tinha, segundo quem estava perto, uma presença que fazia qualquer sala parecer mais iluminada. O Roberto conheceu-a ali nos corredores daquela rádio onde ia divulgar as suas músicas naquele 1961 ainda tímido e trabalhoso. Aquele jovem músico que andava de autocarro, que cantava em circos, que vivia de esperança e de determinação, apaixonou-se pela filha do homem que tinha mais de 100 rádios.
Era um amor impossível já no nascimento. Impossível não pela distância da alma, mas pela distância dos mundos. Mas o coração não pede licença. E o amor entre Roberto e Magda foi nascendo aos poucos com aquela delicadeza de quem sabe que está a pisar terreno minado e não consegue parar de andar. No início, tudo era descrição.
Os dois encontravam-se no ambiente da rádio, trocavam olhares, conversavam, descobriam que tinham em comum o amor pela música nova que estava a chegar do exterior, o rock, os Beatles, a energia de uma juventude que queria gritar mais elevado do que os seus pais permitiam. Magda era quem punha músicas jovens para passar na rádio carioca numa época em que isso era ainda uma ousadia.
E Roberto Carlos era exactamente o tipo de ousadia que ela colocava no ar. Havia ali uma sintonia que ia para além do profissional. Havia uma clicidade que os dois cultivavam com cuidado, como se soubessem que havia forças à volta que olhavam para tudo aquilo com desconfiança. E havia mesmo, porque ao senhor Nunes Fonseca não era apenas o pai de Magda, era um empresário separado da mãe da filha.
havia muitos anos que vivia com uma outra mulher com quem tinha uma filha adolescente. E aqui está o pormenor que explica muito de tudo o que veio depois. Por uma dessas convenções morais rígidas que a época impunha, aquela filha da segunda família não sabia que existia Magda. Não sabia que o pai tinha tido outra família antes, outros cinco filhos.
se julgava filha única e ao senhor Fonseca fazia de tudo para manter essa aparência, incluindo em combinação com a mãe da menina. Era um segredo guardado a ferro e qualquer coisa que colocasse o nome de Magda nas páginas de mexericos das revistas ameaçava destruir aquele equilíbrio delicado que ao seu havia construído com tanto esforço.
E foi exatamente o que começou a acontecer quando o namoro de Magda e Roberto Carlos começou a chamar a atenção. A revista da rádio, que era a publicação mais lida nos bastidores da música brasileira da época, começou a publicar notas sobre o romance. A cronista Candinha, famosa pelo seu língua afiada e o seu faro para a tagarelice, tinha reparado no casal.
Em janeiro de 1964, já insinuava: “E o Roberto Carlos, hein? de amores com a filha do dono de uma rádio. Ainda não havia nome, mas em novembro do mesmo ano, quando Magda acompanhou Roberto num embarque para um concerto fora do Rio, a cronista ficou demasiado perto. Registou o agarramento do casal no aeroporto e logo de seguida publicou o nome completo Magda Fonseca, filha de Alceu da Rádio Carioca.
Para Alceu Fonseca, aquilo foi como uma bomba. A outra mulher da sua vida tinha lido a nota. Havia perguntas, havia cobranças. A aparência de que Magda era uma desconhecida, de que não existia aquela outra família, estava a desfazer-se. Ao seu ficou furioso, aborrecido com a filha, que havia desobedecido à sua ordem de não se envolver com ninguém do meio artístico, aborrecido com o namoro que tinha transbordado para as páginas das revistas, e a decisão que tomou em seguida mudou tudo.
Pense por um momento no que este significava naquela época. O Brasil dos anos 1960 era um país de convenções severas, onde as famílias de posição protegiam as suas filhas com unhas e dentes de qualquer aventura sentimental que não tivesse o endereço certo, o apelido adequado, o futuro garantido.
E Roberto Carlos, por mais talentoso que fosse, por mais brilho que já tivesse nos olhos, ainda era um rapaz pobre do interior do Espírito Santo, tentando firmar-se no mundo da música. Um jovem com uma perna artificial que escondia debaixo das calças. Um jovem cujo primeiro disco tinha fracassado, cujo nome tinha sido falsificado na capa, que ainda não tinha nada que um pai poderoso achasse suficiente para a sua filha.
Aceu Fonseca mandou Magda para os Estados Unidos. A razão oficial era um curso básico de inglês em Nova Iorque por apenas três meses. Fui conquistada a viajar para os Estados Unidos. Qual rapariga não gostaria de ir a Nova Iorque fazer um curso de inglês? Contou Magda anos depois com aquele tom de quem percebeu tudo muito tempo depois. Estávamos em 1963.
A razão real, aquela que todos os compreendiam, mas ninguém dizia em voz alta, era colocar um oceano entre a filha e o cantor apaixonado. Três meses longe, longe o suficiente para o amor esfriar, para a jovem conhecer outros mundos, para o namoro se desfazer naturalmente. Mas houve um momento antes da partida que poucos conhecem.
Dias antes de embarcar para Nova Iorque, em fevereiro de 1965, Magda Fonseca acompanhou Roberto Carlos ao estúdio da CBS para assistir às gravações do álbum Roberto Carlos Canta para a Juventude. Ela estava ali sentada no estúdio ouvindo o Roberto gravar músicas novas e havia duas canções nesse disco que tinham um significado especial para os dois.
Uma delas chamava-se Não te quero ver triste Roberto a tinha composto pensando nela e tinha o hábito de recitar esses versos a Magda, sempre que a percebia triste ou chateada. Quando estavam no carro descapotável dele, ao citar o excerto: “Enxa a lágrima, não chores nunca mais!” E olhem que céu azul, azul até demais.
Abria o tejadilho do carro e mostrava-lhe o céu. Era a sua forma de dizer que havia um mundo grande lá fora e que enquanto ele estivesse do lado dela, ia mostrar esse mundo. A outra canção que Roberto gravou nesse dia era Os velhinhos, sobre um romance que durava até à velice do casal. Magda estava ali a ouvir e no momento em que o Roberto cantou aquela música, ela murmurou algo para uma amiga que estava com ela no estúdio.
Algo que mostrava que os dois tinham um sonho parecido, mesmo que o destino tivesse outros planos. Roberto Carlos ficou sozinho no Rio de Janeiro, com a saudade, com a ausência, com aquela dor específica de amar alguém que o mundo parece querer afastar dos você. E foi nesse silêncio, nessa espera angustiante, que fez o que sempre fez com as dores que não sabia como carregar. Transformou tudo em música.
Os dois comunicavam por cartas e por fitas de rolo que iam e vinham pelo correio. Naquela época em que a a comunicação à distância tinha um peso físico, um cheiro a papel, uma espera de dias. Roberto gravava mensagens para Magda nessas fitas e às vezes colocava junto uma música nova que estava a compor. Era a única forma de estar perto dela, mesmo estando tão longe.
Era a única forma de dizer tudo o que não cabia nas palavras comuns. No último Natal que passaram juntos, em Dezembro de 1964, Roberto Carlos e Magda Fonseca ergueram um brinde à felicidade dos dois. Naquele momento, o cantor já frequentava as tabelas de sucesso. Convites para concertos chegavam de todas as regiões do país e Magda saboreava a sua própria vitória pessoal ao transformar a audiência da Rádio Carioca com a nova programação que havia implantado.
Os dois jovens estavam a fazer o que queriam, da forma que queriam. estavam apaixonados, estavam felizes. E o brinde daquela noite de Natal tinha o sabor de quem acredita que o futuro vai ser bom. Se gosta de ouvir histórias como que, contadas com emoção e respeito, se subscrevam o canal, porque ainda existem muitos capítulos da vida de Roberto Carlos que continuam a tocar o coração do Brasil.
Dois meses depois, Magda partia para Nova Iorque. Os três meses prometidos chegaram e passaram. Magda decidira ficar mais três meses para fazer o curso intermédio de inglês. E Roberto Carlos, que havia enviado mensagens cheias de ternura naquelas fitas de rolo, que havia contado os dias até ao reencontro, que tinha guardado dentro de si tudo o que queria dizer quando ela chegasse, ficou ali com a espera a estender-se sem fim à vista.
A saudade transformou-se em angústia. A angústia tornou-se aquela dor que não tem nome, mas que toda a gente que já amou de longe conhece muito bem. E foi neste estado que nasceu a primeira canção dessa história. Estávamos em maio de 1965. Os três meses que Magda prometera estavam finalmente a acabar e Roberto Carlos estava entusiasmado com o reencontro que achava que estava próximo.
Naquele estado de coração acelerado, de esperança que começa a materializar-se depois de muito tempo de espera, ele gravou numa fita uma música nova que tinha composto especialmente para ela. Uma música que era uma declaração de amor, um pedido, uma promessa e que se chamava A volta. Estou a guardar o que há de bom em mim para lhe dar quando chegar.
Toda a ternura e todo o meu amor estou guardando para lhe dar. Grande demais foi sempre o nosso amor, mas o destino quis separar-nos. E agora que está próximo o dia de você chegar, o que há de bom, vou entregar-lho. A Magda recebeu a fita com aquela música e ficou sensibilizada. As palavras eram tão cheias de sentimento que ela podia sentir o calor da voz de Roberto através do rolo de fita que tinha viajado de um lado para o outro do oceano.
Mas então o prometido reencontro não aconteceu. Ela tinha decidido ficar mais três meses e depois mais. Roberto Carlos ficou tão chateado, tão magoado com aquela segunda espera inesperada, que tomou uma decisão que dizia muito sobre o estado do seu coração. Não quis gravar a volta, não conseguia.
Era dor a mais para colocar no estúdio. Então entregou a canção para outro artista gravar. Os VIPs, uma dupla muito popular na época, levaram a música e o regresso foi parar nas primeiras posições das paragens de sucesso. Roberto Carlos tinha criado um dos maiores êxitos do ano, tinha dado aquela canção de dentro do coração para o mundo e ficou a ouvi-la nas rádios, cantada por outras vozes, como se não dois.
Como se não dois. Só 40 anos depois, Roberto gravaria a regressa com a sua própria voz, quando a canção viria a ser um dos temas da novela América da TV Globo e regressaria para o topo das tabelas. 40 anos. Tempo suficiente para que uma dor se transforme em saudade. Tempo suficiente para o homem que não conseguia gravar a canção porque doía muito finalmente poder cantá-la com paz.
Mas voltemos a 1965, porque o Brasil estava prestes a receber uma das canções mais poderosas que já saíram deste país e ela ainda não existia. Magda continuava longe e a dor de Roberto continuava a crescer. Só que agora havia algo mais nesta dor. Havia raiva. A raiva silenciosa de quem sente que não foi o destino que separou os dois, que foi uma decisão humana.
um pai que mandou a filha embora porque achava que o namorado não prestava, porque o namoro estava aparecendo nas revistas e atrapalhando uma outra vida que ele queria manter escondida. E havia algo de revoltante naquilo, algo que não cabia nas palavras delicadas e sentimentais que Roberto tinha colocado in A volta.
Estávamos em junho de 1965, uma noite fria na cidade de Osasco, em São Paulo. Roberto Carlos estava nos bastidores do Cinema Rex, esperando para entrar em palco quando um fragmento de melodia vazou pelo rádio que ali havia dentro. Apenas um fragmento, uns poucos compassos que duraram segundos. Mas alguma coisa naquele fragmento tocou exatamente o ponto mais doloroso e mais inflamado que Roberto trazia dentro de si naquela época.
E a uma velocidade que ele próprio não conseguiu explicar bem depois, começou a compor. Ali mesmo nos bastidores, antes de entrar em cena, com a cabeça cheia de máguda e de saudade e de raiva e de amor, compôs a primeira parte, guardou no bolso, entrou em cena, fez o espetáculo, regressou ao Rio de Janeiro com aquela melodia incompleta a arder dentro de si.
levou a Erasmo Carlos, o amigo e companheiro de toda uma vida, que ouviu e sentiu imediatamente que havia ali algo diferente de tudo o que tinham feito antes. E os dois juntos, terminaram a canção em dois meses de trabalho. Em Agosto, Roberto gravou uma cassete com a versão finalizada e enviou para Magda, nos Estados Unidos.
A canção dizia o que ele não podia dizer de outra forma. De que vale o céu azul e o sol sempre a brilhar se não vier e eu estou a lhe esperar? Só te tenho no meu pensamento e a sua ausência é todo o meu tormento. Quero que me aqueças neste inverno e que tudo o resto vá para o inferno. Quando o Roberto levou, “Quero que vá tudo para o inferno” para Otton Russo, o realizador de relações públicas da CBS, o homem ouviu a música e mandou gravar imediatamente.
A faixa foi para o disco Jovem Guarda, que acabaria por ser lançado em setembro de 1965, com a canção Abrindo o álbum logo na primeira faixa. E durante as gravações, Paulo César de Araújo conta que até ao pessoal do escritório da editora discográfica ia até à cabine de som para ouvir. Toda a gente que escutava sabia que aquilo era diferente, que aquilo era grande, que aquilo ia mudar alguma coisa.
e mudou. “Quero que vá tudo para o inferno.” Explodiu nas rádios com uma força que o Brasil não tinha visto antes. A canção tornar-se-ia não apenas o maior sucesso da fase Jovem Guarda de Roberto Carlos é inferior ao Cardinal Zero. Cinco Cardinal é maior do que Mas, segundo Paulo César de Araújo, a canção de maior impacto popular na história da música popular brasileira.
Febre nas rádios, presente em todo o canto, cantada por jovens e adultos. A música chegou a ser proibida em algumas rádios que não queriam que os seus ouvintes cantassem a palavra inferno. A igreja ficou assustada. Grupos conservadores protestaram e a juventude brasileira, aquela geração sufocada pela ditadura militar que se havia instalado no ano anterior, aquela geração que não podia gritar nas ruas o que sentia, achou naquela canção uma voz para tudo o que não podia ser dito.
O impacto foi tão avaçalador que projetou Roberto Carlos para outro nível de fama. As audiências do programa Jovem Guarda na TV Record subiram a Flecha. As filas de fãs à entrada da emissora se tornaram fenómeno. Jovens que queriam levar para casa um pedaço do ídolo num frenezin que lembraria a Beatel Manania.
E foi mais ou menos nesse tempo que o apresentador Chakrinha, que tinha o instinto de um rei para coroar outros reis, apontou para Roberto Carlos na televisão e disse que aquele ali era o rei da juventude. A própria mãe, a dona Laura, que tinha costurado cada roupa da infância do filho, que tinha dado as primeiras aulas de guitarra, que tinha acompanhado cada passo daquele menino que perdeu a perna debaixo de uma locomotiva e aprendeu a andar de volta.
foi quem colocou a coroa na cabeça do filho. Nesse momento, o rei que nascera na dor de um amor impossível estava sendo coroado. Mas Magda Fonseca ainda estava nos Os Estados Unidos e a história ainda não havia terminado. Águida regressou ao Brasil algum tempo depois e durante um período o amor voltou também naquela forma discreta e cuidadosa que sempre tinha sido.
Mas o tempo fizera o que o pai esperava que fizesse. A distância havia criado uma diferença que já não era só de oceanos, mas de mundos que tinham seguido caminhos distintos. Magda tinha visto outras coisas, conhecido outros lugares e a vida que ela estava a construir ia se distanciando-se naturalmente da vida que O Roberto estava a construir.
E havia um pormenor que tornava tudo mais complicado. Roberto Carlos era agora demasiado famoso para existir no silêncio. Era um rei. E ser rei significa que cada passo que dá tem testemunhas. O engraçado é que eu e o Roberto não chegámos a terminar o namoro. Fomos nos afastando-se um do outro.
Foi como se um vendaval nos atingisse e arrastasse cada qual diferente. Estas foram as palavras de Magda anos depois. Ao olhar para trás, para aquela história que tinha começado com tanto amor e terminado com tanto silêncio, não houve uma despedida. Não houve uma briga, um ponto final claro, uma cena dramática que tornasse o fim definitivo e fácil de compreender.
Houve apenas o afastamento gradual, aquela forma mais cruel de terminar, porque não deixa sequer a clareza do fim, apenas a saudade de algo que foi se apagando-se aos poucos. Roberto Carlos seguiu em frente. Conheceu outros amores. Em 1966, num quarto de hotel no Recife, compôs Como é grande o meu amor por ti para Nice Rossi, uma nova mulher que tinha entrado na sua vida.
Nice era separada, não era fã de Roberto, conhecia apenas uma canção do repertório dele. Mas há um pormenor curioso nesta história. A única canção que Nice gostava de Roberto Carlos era justamente Não te quero ver triste aquela que ele tinha composto para Magda, aquela que recitava para a namorada quando esta ficava chateada e abria o tejadilho do descapotável para mostrar o céu azul.
Roberto Carlos, que percebia de pormenores melhor do que qualquer outra pessoa, percebeu que precisava de fazer uma canção nova, uma canção para este novo amor, para esta nova fase. E compôs como é grande o meu amor por ti, como uma declaração capaz de conquistar até quem não era seu fã. Os anos foram passando.
Roberto casou com Nice em 1968 numa cerimónia civil na Bolívia, porque em Nice tinha sido separada antes e no Brasil ainda não existia o divórcio legal. Teve filhos. construiu uma carreira que crescia a cada ano como uma maré que só sabia subir. E a Magda também seguiu a sua vida. Casou, foi viver para a Alemanha.
Ficou cada vez mais longe daquele Rio de Janeiro dos anos 1960, onde os dois se tinham encontrado. E depois chegou 1971. Roberto Carlos tinha quase 30 anos. A jovem guarda ficara para trás. Ele próprio decretara o fim do programa na Record em 1968. O ídolo daquela geração era já maior do que o movimento que tinha liderado.
E a maturidade pedia algo diferente, algo mais profundo, algo que falasse já não do rock e dos carros e da rebeldia adolescente, mas daquilo que fica quando a festa acaba, o amor, a saudade, as coisas que o tempo não apaga. O Brasil tinha envelhecido juntamente com ele e o público que tinha crescido a ouvir Roberto Carlos precisava de canções para a vida adulta.
Numa noite, desse ano, Roberto Carlos estava em casa, em São Paulo, e teve um estalo. Começou a compor alguma coisa, mas não ficou satisfeito. Achou tudo uma porcaria, guardou, dormiu. No dia seguinte, mais calmo, releu e percebeu que havia ali algo de valioso, algo que ainda não tinha forma, mas que tinha coração.
chamou Erasmo Carlos, que viajou do Rio para São Paulo, e os dois juntos terminaram a canção. Erasmo, que havia ajudado a compor: “Quero que vá tudo para o inferno” seis anos antes naquela outra dor do Roberto, estava ali de novo, completando o que o amigo tinha começado. A canção que dali nasceu chamava-se Detalhes.
Agora, há algo que precisa de ser dito sobre pormenores que vai mudar para sempre o forma como ouve essa música. A história de quem inspirou pormenores nunca foi oficialmente confirmada. Roberto Carlos nunca disse publicamente para quem aqueles versos foram escritos. Este é um dos segredos que o rei guarda com mais cuidado, em silêncio, longe dos holofotes que iluminam tudo o resto em a sua vida.
Mas Paulo César de Araújo, o biógrafo que passou 16 anos a pesquisar a vida de Roberto Carlos e entrevistou quase 200 pessoas, levantou duas suspeitas. Uma era uma socialite chamada Sílvia Amélia. Mas quando a própria Sílvia foi questionada sobre isso, foi seca. Disse que não era ela e que não havia nada de especial entre os dois que justificasse uma canção daquele tamanho.
A outra suspeita era Magda Fonseca. A cantora Emilinha Borba, que tinha acompanhou o namoro de Roberto e Magda de perto nos anos 1960, disse ao biógrafo que Roberto Carlos lhe havia confidenciado que detalhes havia sido composta em homenagem à ex-namorada. A Emilinha tinha guardado aquela confidência durante anos e quando foi perguntada contou.
E a própria Magda, quando questionada sobre isso, foi tão cuidadosa quanto a história sempre tinha exigido que todos os fossem. Não posso dizer que o Roberto fez pormenores para mim, porque ele nunca me disse isso. As pessoas próximas da gente é que comentavam esta possibilidade na época. Pense no peso deste silêncio.
Estávamos em 1971, quando a Detalhes foi lançada. Roberto Carlos tinha quase 30 anos e estava casou com Nice. Magda estava casada e a viver na Alemanha. Os dois estavam, como disse a própria Magda, cada um no seu quadrado, cada um com a sua vida. E de dentro deste distanciamento definitivo, com aquela certeza de que os caminhos haviam-se separado de maneira irreversível, Roberto Carlos estava olhando para o passado e escrevendo aquilo que nunca tinha conseguido dizer em voz alta.
Não adianta sequer tentar esquecer-me. Durante muito tempo na sua vida, vou viver. Há quase sinismo nesta frase. Há quase arrogância. Mas há sobretudo a certeza de alguém que sabe que deixou marca demasiado funda para ser apagada pelo tempo. A certeza de alguém que viveu uma história intensa, que foi silenciado por forças externas, que teve de guardar tudo dentro de si durante anos, é inferior ao Cardinal Zero. C.
O Cardinal é maior que e que finalmente em 1971, com a carreira sólida, com o nome inscrito na música brasileira para sempre, encontrou a forma de dizer: “Eu estive aqui e vais lembrar-me.” O disco de 1971, que continha pormenores, vendeu mais de 800.000 1 exemplares, um recorde para Roberto Carlos até àquele momento.
A canção tornar-se-ia a mais tocada nos concertos do rei durante décadas e décadas, a única que nunca saiu do repertório, a que o público delira quando ouve os primeiros acordes. Roberto Carlos disse um dia: “Cada vez mais tenho a certeza de que vou cantar esta música durante toda a minha vida. Toda a minha vida não é coisa pouca.” Num repertório de mais de 800 canções, com mais de 120 milhões de discos vendidos, com Hit de que atravessaram gerações e fronteiras e línguas, Roberto Carlos disse que vai carregar detalhes até ao fim. Talvez porque algumas músicas
sejam maiores do que as canções que elas são. Talvez porque algumas músicas são de facto as vidas que vivemos e não pode contar de outra forma. Mas a história de Magda Fonseca e Roberto Carlos guardava ainda um capítulo final que poucos conhecem. Nos anos 1980, Roberto Carlos gravou um especial de televisão que reuniu vários artistas da época.
Um dos convidados era Roger Moreira, o líder do ultrage em rigor, aquela banda que tinha sacudido o rock brasileiro. Roger tinha 11 anos quando tinha Conhecido Roberto Carlos pela primeira vez naquela época da Jovem Guarda, porque o Roberto namorava com a sua prima Magda. Duas décadas depois, ali nos bastidores daquele especial, os dois se reencontraram e Roger, que guardava aquela memória de infância, falou sobre ela.
Roberto Carlos ouviu o nome de Magda e disse apenas duas palavras, simples, espontâneas, repletas de uma afetividade que ainda ali estava depois de tudo, depois de anos, depois de vidas inteiras construídas em direções diferentes. Caramba, Magdinha, duas palavras, mas nelas havia tudo. Havia o apelido carinhoso que usava quando eram jovens.
Havia a saudade de um tempo que não volta. Havia o peso leve e, ao mesmo tempo, infinito de quem recorda-se de algo que foi muito bonito e muito doloroso ao mesmo tempo, e que ficou guardado dentro de si como um daqueles pormenores que o tempo nunca há de apagar. Há algo de profundamente humano nesta história.
Algo que qualquer mulher que já amou de uma forma que o mundo não aprovou vai reconhecer no fundo do coração. A sensação de que o amor não foi suficiente para vencer as circunstâncias. A sensação de que algo que poderia ter sido demasiado grande foi diminuído por forças que estavam fora do alcance dos dois. A raiva silenciosa de um pai que usou o próprio segredo como arma para separar um casal que não tinha pedido para ser separado.
E há algo que tem de ser dito sobre esta história e a música brasileira. Imagine o Brasil sem querer o que vai tudo para o inferno. Sem aquele hino de uma geração que não podia gritar nas ruas, mas encontrou na voz de Roberto Carlos uma forma de gritar mesmo assim, sem aquela canção que abalou igrejas e rádios e famílias conservadoras e foi tão poderosa que até a ditadura ficou de olho nela.
Aquela canção nasceu de uma dor muito específica, de um amor muito específico, de um pai muito específico que mandou a filha para um lado e deixou o namorado no outro. E se ao seu Fonseca não tivesse mandado a Magda embora, talvez não houvesse aquela noite fria em Osasco, aquele fragmento de melodia na rádio dos bastidores, aquela canção que mudou a história da música popular brasileira.
Cada vez que alguém ouve, quero que vá tudo para o inferno, e sente aquela vontade de deitar tudo para o ar e ficar só com o amor. Cada vez que alguém ouve a volta e sente aquela esperança ansiosa de quem espera alguém que demora mais do que deveria, cada vez que alguém ouve detalhes e chora sem conseguir explicar bem porquê, talvez esteja a sentir sem saber um eco de algo que aconteceu entre um jovem cantor pobre de Cachoeiro de Itapemirim e a filha de um homem poderoso que achava que podia decidir
por ela. Talvez esteja a sentir um amor que o mundo proibiu, mas que a música nunca deixou morrer. Roberto Carlos, nos anos que se seguiram, nunca falou abertamente sobre Magda Fonseca. Nunca confirmou, nem desmentiu que ela estava nas músicas, nunca abriu essa porta completamente e talvez seja exatamente assim que devesse ser.
Porque existe algo no silêncio de Roberto sobre esta história que diz mais do que qualquer entrevista poderia dizer. Há um cuidado, uma delicadeza, um respeito por algo que foi demasiado real e doeu demasiado fundo para ser reduzido a uma declaração para a imprensa. Há uma última coisa que tem de ser dita. Quando o biógrafo Paulo César de Araújo publicou o seu livro sobre Roberto Carlos em 2006, após 16 anos de investigação e quase 200 entrevistas, Roberto Carlos não ficou zangado com os factos, não negou que as histórias eram verdadeiras. Ficou com
raiva de que fossem contadas. Processou o biógrafo, tentou retirar o livro de circulação, mandou pagar uma multa às livrarias que o mantivessem nas prateleiras. E este gesto diz muito sobre Roberto Carlos. Ele não queria apagar a história. Queria controlar quem a contava e como. Queria manter o domínio sobre aquilo que era seu, sobre aquelas dores que tinha transformado em canções, sobre aqueles amores que tinha guardado dentro de si e que tinham alimentado a maior carreira da música latino-americana.
Mas a música não se pode calar. E as histórias que ficam dentro das canções, estas então não se calam jamais. Detalhes está em cada bar, em cada rádio, em cada coração que já amou e perdeu. Quero que vá tudo para o inferno. Está no ar sempre que alguém decide que o amor vale mais do que qualquer conveniência.
E o regresso está em cada espera, em cada fita que viaja pelo correio de um coração para o outro, em cada reencontro que demora mais tempo do que deveria. A balada de amor proibido de Roberto Carlos ficou guardada onde sempre esteve, nas canções, nas notas que tocava com aquela voz cheia de sentimento, nas palavras que escolheu com uma precisão que só quem viveu sabe como escolher.
Nos detalhes pequenos de dois que só fazem sentido para quem lá esteve. E agora que já conhece a história, nunca mais vai ouvir estas canções da mesma forma. Porque a música mais bonita muitas vezes é aquela que guarda dentro de si uma dor que o cantor nunca teve coragem de contar em voz alta, mas que contou a si mesmo em cada nota, em cada verso, em cada detalhe que o tempo nunca há-de apagar.
Yeah.