O Fim de Chico Orelha: O Pistoleiro que Aterrorizou o Vale do Jaguaribe
Existe um tipo de medo que não se explica por palavras. Não é o medo de uma tempestade que se anuncia no horizonte, nem o susto de um barulho na madrugada. É um medo diferente, visceral, que se cola à pele e não sai nem com o calor do sol do sertão. Um medo que faz com que os vizinhos fechem janelas a meio do dia, que faz com que as mães chamem filhos para dentro de casa antes do anoitecer, que faz com que os homens adultos baixarem os olhos quando um nome é pronunciado em voz alta.
No Vale do Jaguaribe, no interior do Ceará, as pessoas conheceram esse medo de perto. Elas viveram dentro dele durante anos. E o nome que carregava este terror tinha apenas duas palavras, simples e ao mesmo tempo perturbadoras. Chico orelha. Mas antes de contar quem foi este homem, antes de revelar as atrocidades que ele cometeu e o rasto de sangue que deixou por dezenas de concelhos do Nordeste brasileiro, é necessário que compreenda uma coisa muito importante.
O que aconteceu na noite de 18 de Setembro de 2003 em Limoeiro do Norte não foi apenas mais um crime noticiado no telejornal regional que as pessoas comentam ao pequeno-almoço e esquecem até o almoço. O que aconteceu naquela quinta-feira à noite foi algo que marcou para sempre uma comunidade inteira, que deixou cicatrizes nas famílias, que mudou o modo como uma cidade inteira encarava a própria existência.
Foi uma das noites mais longas e mais sangrentas que o sertão cearense já viu, e ela ainda hoje, mais de 20 anos depois, assombra a memória de quem lá estava. Fique até ao final, porque esta história tem reviravoltas que poucos conhecem. Tem pormenores que nunca foram amplamente divulgados e tem um desfecho que demorou anos para chegar, mas que chegou da forma mais definitiva possível.
O Vale do Jaguaribe é uma região que atravessa o interior do Ceará de sul para norte, acompanhando o curso do rio Jaguaribe, um dos maiores rios do Estado. É uma terra de gente trabalhadora, de agricultores, de pescadores, de comerciantes que constróem as suas vidas no suor de cada dia. É uma região que tem a sua beleza, a sua cultura, as suas festas, seus causos.
Mas como acontece em muitas partes do Brasil, sobretudo no interior nordestino, onde o Estado às vezes demora a chegar, onde a lei por vezes precisa de conviver com a força bruta, o Vale do Jaguaribe também teve os seus períodos de sombra, e poucos períodos foram tão sombrios quanto aquele que coincidiu com a trajetória criminosa de José Roberto dos Santos Nogueira, o homem que ficaria eternamente conhecido pelo apelido mais macabro que se pode imaginar para um pistoleiro. Chico Orelha.
O apelido não era aleatório. Não era uma dessas alcunhas que surgem por um traço físico do indivíduo, por um qualquer hábito ou por uma situação cómica da infância. A alcunha de Chico Orelha tinha origem na forma como assinava os seus crimes. Era a sua imagem de marca, o cartão de visita que deixava para a polícia, para as famílias das vítimas e para todos os que eventualmente encontrassem os corpos.
José Roberto dos Santos Nogueira tinha por hábito decepar as orelhas às suas vítimas. Era um ritual de crueldade deliberada, uma demonstração de poder absoluto sobre a vida e a morte, uma mensagem enviada para todos os que porventura, pensassem em cruzar-se no seu caminho ou desobedecer às suas ordens.
Quando um corpo era encontrado sem orelha no Vale do Jaguaribe, a população sabia imediatamente. Chico Orelha havia passado por ali. Para perceber como um homem atinge este nível de brutalidade, é necessário compreender o contexto em que ele operava. O pistoleirismo no Nordeste brasileiro tem raízes históricas profundas.
A figura do Jagunço, do homem de confiança armado ao serviço de coronéis e poderosos lavradores, é quase literária, tal a presença que tem na cultura regional. Mas ao longo das décadas, sobretudo a partir dos anos 1980 e 1990, este fenómeno foi se transformando. O pistoleiro deixou de ser apenas o executor das vinganças dos poderosos rurais e passou a operar de forma mais autónoma, mais organizada, mais empresarial.
Surgiram bandos inteiros, grupos armados que ofereciam os seus serviços ao melhor pagador, que cometiam crimes por encomenda, mas também por iniciativa própria, quando viam oportunidade de lucro ou quando necessitavam de eliminar testemunhas, rivais ou simplesmente demonstrar poder. Foi neste contexto que Chico Orelha construiu a sua reputação.
Não surgiu do nada, não acordou um dia decidido a se tornar o homem mais temido do Vale do Jaguaribi. Há sempre um caminho, uma série de escolhas e circunstâncias que levam um ser humano até ao ponto mais sombrio da sua existência. O que se sabe é que José Roberto dos Santos Nogueira comandava um bando de homens armados que atuava sobretudo na região cearense do Vale do Jaguaribe, com incursões por estados vizinhos como o Rio Grande do Norte.
O seu grupo era acusado de execuções amando, assaltos violentos, ameaças sistemáticas e uma série de outros crimes que iam deixando um rasto de terror por onde passavam. A polícia o conhecia, as comunidades conheciam-no, mas conhecer e conseguir prender são coisas muito diferentes quando se trata de um homem com este perfil.
O ano de 2003 seria decisivo na história de Chico Orelha e no destino de muitas pessoas inocentes que nada tinham a ver com o mundo do crime. No dia 30 de junho de 2003, uma tarde que deveria ser comum como tantas outras em Limoeiro do Norte, a rádio mudou para sempre. Nicanor Linhares Batista era um homem que usava a voz como ferramenta de resistência.
proprietário da Rádio Vale do Jaguaribe em Limoeiro do Norte. Ele conduzia diariamente o programa O Encontro Político, um espaço onde não tinha medo de dizer o que pensava, de denunciar o que via e de nomear os responsáveis pelo que considerava errado na administração pública local.
Era um adversário declarado da então presidente da Câmara Maria Arivandola, Lucena e não escondia isso de ninguém. Pelo contrário, utilizava o microfone todos os os dias para fazer críticas à gestão municipal, para levantar suspeitas sobre contratos, para questionar destinos de verbas públicas e para acusar o que ele acreditava ser corrupção na administração local.
Era o tipo de jornalismo que incomoda, que tira o sono de quem tem algo a esconder, que fazemos perderem o apetite. Por causa destas denúncias, Nicanor recebia ameaças. Isso não era segredo. As ameaças de morte eram parte da rotina deste radialista que teimava em continuar a fazer o seu trabalho, mesmo sabendo dos riscos.
Talvez acreditasse que a luz do microfone era a sua proteção, que em plena transmissão em direto ninguém seria louco suficiente para fazer algo. Talvez ele simplesmente não conseguia imaginar recuar, porque recuar significaria abandonar tudo aquilo em que acreditava. Não importa o que lhe ia na cabeça nessa tarde, o que importa é o que aconteceu.
Enquanto gravava o seu programa, a rádio foi invadida. Dois homens entraram sem cerimónia, sem hesitação, sem aparente preocupação com as testemunhas ou com as consequências dos seus atos. Atiraram diversas vezes em Nicanor Linhares Batista e fugiram. O radialista foi atingido por 11
disparos. 11.º Não havia nenhuma dúvida sobre a intenção dos atiradores. Nicanor morreu no local dentro da própria rádio que tinha construído ao lado do microfone, que foi a sua trincheira e a sua sentença ao mesmo tempo. A comoção foi imediata. A morte de um comunicador popular dentro da sua própria estação de rádio em plena luz do dia era um recado claro e brutal.
Ninguém estava a salvo. A Secretaria de A Segurança Pública mobilizou-se. O O secretário Wilson Nascimento já tinha visitou a região do Vale do Jaguaribe no contexto deste caso, mas as investigações esbarravam na mesma muralha de silêncio que a polícia sempre encontra quando tenta investigar crimes com este perfil em regiões onde o medo fala mais elevado do que qualquer promessa de proteção estatal.
Chico Orelha foi apontado como um dos principais suspeitos da execução de Nicanor Linhares. Os pistoleiros que invadiram a rádio e dispararam 11 balas contra o radialista seguiam o mesmo perfil operacional do bando que actuava sob a sua liderança. Mas a prisão não viria de imediato. O sertão é grande, os caminhos são muitos e quem conhece o terreno pode desaparecer sem deixar rasto por tempo suficiente para fazer assentar a poeira, para os vestígios se perderem, para as testemunhas pensarem duas vezes antes de falar. O que ninguém sabia naquele
início de Julho de 2003 era que o pior ainda estava para vir. Passaram-se os meses de julho e agosto. O Vale do Jaguaribe tentava seguir em frente, como toda a comunidade que recebe um golpe precisa de tentar. A morte de Nicanor tinha deixado um vácuo no quotidiano da cidade. Tinha silenciado uma voz que falava para muita gente.
Tinha deixado familiares sem pai, sem marido, sem filho. Mas a vida do sertão é resistente. As as pessoas continuam a trabalhar, as crianças continuam a ir para a bisescola, os bares continuam a abrir à tarde, os vizinhos continuam a sentar-se nas passeios para conversar. setembro chegou e com ele o pior pesadelo que o limoeiro do norte nunca viveu.
Para compreender o que motivou a carnificina daquela noite de quinta-feira, 18 de Setembro de 2003, é preciso perceber um pormenor que envolve diretamente a namorada de Chico Orelha. Rosideir Diógenes Cunha foi uma mulher que dava cobertura logística ao pistoleiro, funcionando como suporte para as operações do bando. Ela foi presa pelas autoridades e estava detida numa delegacia.
Não estava no Limoeiro do Norte, mas em Mossoró, no Rio Grande do Norte, escondido num bairro chamado Nova Betanha. A detenção da namorada desestabilizou Chico Orelha de uma forma que poucos esperavam. Para um homem habituado a ter controlo absoluto sobre tudo à sua volta, ver alguém próximo nas mãos da polícia era inaceitável. Passou a ligar para a esquadra onde Rosideira estava presa, deixando recados, fazendo ameaças, prometendo resgatá-la nos próximos dias.
eram chamadas de um homem que perdera parte da sua frieza calculista e estava agindo com a cabeça quente da raiva e da humilhação. A polícia registava esses telefonemas, sabia que o Chico Orelha estava agressivo, sabia que havia possibilidade de alguma ação violenta, mas não imaginava a escala do que estava por vir.
A noite de 18 de setembro de 2003 começou como qualquer outra noite de quinta-feira nos arredores de Limoeiro do Norte. O calor do Nordeste que não cede completamente nem após o pôr do sol, as pessoas às portas das casas, o movimento habitual dos bairros Luiz Alves e Freitas, região mais afastada do centro da cidade. Gente simples, trabalhadores, pessoas que não tinham nada a ver com o mundo do crime e que aquela hora estavam apenas a viver as suas vidas, como fazem todas as noites.
Eram pouco mais de 21 horas quando dois homens de moto cortaram o silêncio do bairro. O primeiro destino foi a rua do arame, um troço de pouca iluminação, com menos movimento do que as ruas principais. Aí dois homens foram surpreendidos e assassinados com vários disparos. As primeiras vítimas foram um professor de inglês, conhecido por Juan e um amigo deste, de alcunha Cezinha.
Os dois tinham entre 25 e 30 anos, segundo foi possível estimar posteriormente. A vizinhança ouviu os disparos, mas não houve testemunhas diretas. das execuções naquela rua escura. O que os moradores encontrariam depois, quando finalmente saíram para verificar o que tinha acontecido, seria uma cena de horror que ficaria gravada para sempre nas suas memórias.
Os dois rapazes alvejados múltiplas vezes mortos no chão com as orelhas cortadas. Joana foi encontrado com um pedaço da própria orelha dentro da boca. Uma cena deliberadamente construída para causar pavor, para enviar uma mensagem que não precisava de palavras, mas os assassinos não pararam ali. A moto continuou.
Há a menos de 1 km dali, na rua José Ferreira Sombra, ainda no bairro Luiz Alves e Freitas, funcionava um bar. Era um ponto de encontro de moradores do bairro, o tipo de estabelecimento simples e acolhedor que existe em tantas periferias do Brasil, onde as pessoas se reúnem para tomar uma cerveja, conversar sobre o dia, fugir durante algumas horas das preocupações quotidianas.
Naquela quinta-feira à noite, havia homens ali, o Dedé, que seria o proprietário do local, e mais três pessoas identificadas pelos nomes de Clécio, Nen e Wudson, gente do bairro. Gente que conhecia os seus vizinhos, que tinha os seus hábitos, as suas histórias, as suas famílias em casa esperando por eles.
A moto chegou sem aviso. Os disparos foram rápidos, certeiros, sem hesitações. Quatro mortes numa questão de segundos. Pelo menos uma das vítimas teve a orelha cortada pelos assassinos. Algumas pessoas que estavam nas imediações do bar testemunharam a cena e descreveram-na depois para a polícia. A velocidade da ação, a frieza dos executores, a rapidez com que a moto arrancou depois de os disparos cessaram.
Não havia raiva aparente nos movimentos dos atiradores. Era trabalho, frio, metódico, brutal, mas trabalho. Seis mortes em menos de 10 minutos, dois locais diferentes, uma cidade paralisada pelo terror, mas ainda não tinha terminado. Na fuga, o motociclo seguiu por alguns metros e depois aconteceu algo que ilustra, de forma devastadora, o nível de crueldade e paranóia que marcava a operação daquela noite.
Um homem que vive nas proximidades, conhecido no bairro pelo alcunha de Carequinha, ouviu os disparos e fez exatamente o que qualquer pessoa curiosa e despreocupada faria numa situação como esta. Abriu a porta de casa para ver o que se passava. Era um gesto absolutamente comum. humano, desprovido de qualquer intenção que pudesse ameaçar os assassinos.
Ele apenas olhava, apenas ficava na soleira da porta, como um vizinho qualquer, tentando perceber o que perturbava a tranquilidade daquela noite. Os dois homens na moto passavam exatamente naquele momento e viram carequinha e tiraram-na. A sétima vítima caiu à própria porta de sua casa. Sua mulher, Solange, estava próxima e também foi baleada.
O tiro atingiu-a na barriga com gravidade. Foi socorrida e levada de urgência para o hospital da cidade, carregando juntamente com a dor física o peso inimaginável de ter visto o seu marido ser assassinado no limiar de a sua própria casa, num local que deveria ser o mais seguro do mundo. Sete pessoas mortas em menos de 10 minutos.
Um bairro inteiro transformado em cena de crime, uma cidade em estado de absoluto choque. A notícia espalhou-se com a velocidade que só o horror consegue. As ruas que há pouco tinham movimento de noite comum rapidamente foram tomadas por um silêncio diferente, um silêncio carregado de medo e de incompreensão. As pessoas que ousaram chegar perto dos corpos viram cenas que não deveriam fazer parte da realidade de nenhuma cidade, de nenhum bairro.
de nenhuma existência humana. Os corpos permaneciam estendidos no chão, enquanto um grande número de pessoas aglomerava-se ao redor, paralisadas entre o horror e a necessidade humana de testemunhar, de confirmar, com os próprios olhos, o que parecia ainda impossível de aceitar. A cúpula da Secretaria de Segurança Pública foi mobilizada ainda nessa mesma noite.
O secretário Wilson Nascimento e o comandante da Polícia Militar, coronel Sérgio Farias, partiram de helicóptero em direção ao Limoeiro do Norte. O batalhão sediado em russas, cidade vizinha, enviou reforços imediatamente. Era uma resposta à altura da gravidade do sucedido, uma demonstração de que o estado reconhecia a enormidade daquilo que havia acontecido.
Mas os corpos seguiam no chão, as famílias seguiam em estado de desespero e os responsáveis pelo massacre já tinham desaparecido na escuridão do sertão. Nos dias que se seguiram, o medo era palpável em Limoeiro do Norte. As pessoas que aceitaram falar com jornalistas e repórteres dos meios de comunicação que cobriam o caso pediram anonimato.
Ninguém queria ser identificado. Ninguém queria ter o seu nome associado a qualquer coisa que pudesse chegar aos ouvidos dos responsáveis pelo massacre. O recado tinha sido dado de forma devastadoramente clara. Quem era visto, quem olhava na hora errada, quem estava no sítio errado, pagava com a própria vida.
Carequinha havia simplesmente abriu a porta de casa e que tinha sido suficiente para ser assassinado. As investigações apontavam na realização de José Roberto dos Santos Nogueira, o Chico Orelha, como o principal mandante e executor, juntamente com um homem chamado Casio Santana de Souza. Um terceiro envolvido seria José Vanderlei dos Santos Nogueira, de alcunha de Cabeção, irmão de Chico Orelha.
A assinatura era ali inconfundível, as orelhas decepadas das vítimas. Das sete pessoas assassinadas nessa noite, seis tiveram parte das orelhas cortadas pelos assassinos. Era a marca de Chico Orelha, a sua assinatura de horror. Mas por que aquelas pessoas específicas? Porque aquele bairro, aquela noite, aquelas vítimas, a resposta que os Os investigadores foram construindo ao longo do tempo aponta para a prisão de Rosider, a namorada de Chico Orelha.
a raiva acumulada pela detenção dela, a sensação de impotência perante uma situação que ele não conseguia controlar pela força das armas, o desejo de demonstrar que estava ainda presente e ainda poderoso, que o sertão ainda o temia, que a polícia pudesse ter prendido a sua mulher, mas não o havia prendido.
A chacina de Limoeiro do Norte pode ter sido, em algum nível perverso e incompreensível, uma declaração de existência. Estou aqui. Ainda tenho poder. Ainda posso matar. Os polícias colocados nas companhias militares de Russas e Limoeiro do Norte alertavam nos dias seguintes que enquanto Chico Orelha permanecesse livre, novos derramamentos de sangue poderiam acontecer.
A ca estava formalmente iniciada com toda a estrutura policial disponível direcionada para localizar o paradeiro do pistoleiro e dos seus comparsas. Mas nenhuma pista concreta tinha surgido. O sertão protegia os seus filhos, mesmo os mais violentos, com a mesma lealdade sombria com que a noite esconde quem sabe mover-se dentro dela.
E assim os meses foram passando, o outono, o verão, mais um verão. A vida em Limoeiro do Norte foi retomando os seus ritmos habituais, como a vida inevitavelmente faz, porque as pessoas precisam de comer, trabalhar, criar filhos, sonhar, mesmo quando o medo ainda mora nos cantos das ruas e na memória coletiva de uma comunidade traumatizada.
Mas o fantasma de Chico Orelha permanecia em liberdade, e a sensação de impunidade pairava sobre tudo como uma nuvem que não passa. Casio Santana de Souza, entretanto, seguia a sua própria trajetória de violência. Era um homem perigoso por conta própria, capaz de atrocidades, independentemente de seguir as ordens de Chico Orelha ou agir por iniciativa.
Os investigadores que trabalhavam nos casos do Vale do Jaguaribe classificavam-no como um dos criminosos mais perigosos da região, alguém cuja captura era tão urgente como a do próprio Chico Orelha. Mas antes de falar sobre o destino de cada um destes homens, é importante pausar por um momento e pensar naquilo que mais importa nesta história. As vítimas.
Juan, o professor de inglês. Cezinha, o seu amigo, Dedé, o dono do bar. Clécio, Nenon, que estavam apenas a beber uma cerveja numa quinta-feira à noite. Carequinha, que simplesmente [a música] abriu a porta de casa para ver o que se passava. Sete pessoas com histórias, com famílias, com sonhos, com rotinas que foram interrompidas de forma brutal e definitiva por homens que tinham decidido que o valor de uma vida humana era absolutamente nenhum quando este valor conflituava com os seus interesses ou a sua vontade. Nicanor Linhares Batista, o
radialista, o homem que usou a sua voz até a última transmissão, que havia escolhido o caminho mais difícil, o da falar quando seria mais fácil silenciar, o de denunciar quando seria mais seguro ignorar. Nicanor deixou família, deixou uma emissora, deixou uma cidade que dependia da sua voz para ter acesso a informações que os poderosos preferiam que permanecessem no escuro.
A sua morte não foi apenas um assassinato, foi um ataque à liberdade de expressão, à jornalismo local, a possibilidade de a verdade poder existir, mesmo quando é inconveniente para quem tem dinheiro para contratar assassinos. O destino de Chico Orelha chegaria no dia 17 de Outubro de 2004, mais de um ano depois do massacre de Limoeiro do Norte.
A Polícia Militar do O Rio Grande do Norte localizou José Roberto dos Santos Nogueira, no município de Baraunas, interior Potiguar. O confronto foi inevitável. Chico Orelha, o homem que tinha espalhado o terror durante tanto tempo, que tinha decepado orelhas de vítimas indefesas, que ordenara e executado assassinato sem hesitação, caiu morto numa troca de tiros com os policiais.
Não houve rendição, não houve julgamento. O sertão cobrou a sua dívida da forma mais direta que conhece. A notícia chegou ao Vale do Jaguaribe e o alívio foi real, palpável, embora silencioso. As pessoas que tinham vivido anos com medo de pronunciar o nome daquele homem em voz alta, que tinham fechado janelas e calado testemunhos por causa da sombra que ele projetava, respiraram com uma profundidade que talvez não fosse possível desde aquela noite de Setembro de 2003.
Mas o alívio era também misturado com algo mais complexo, a consciência de que a justiça plena, a justiça que inclui julgamento, responsabilização formal, condenação explícita perante a lei, não havia aconteceu para o principal responsável pela chacina. Chico Orelha morreu como viveu pela violência, mas a história não terminava ali.
Os comparsas ainda estavam soltos e a máquina da justiça, ainda que lenta, estava em movimento. Cásio Santana de Sousa demonstrou um talento perturbador para escapar às garras da lei. conseguiu se evadir-se de uma das unidades prisionais mais seguras do sistema cearense, o Instituto Penal Paulo Sarazat, conhecido como IPPS, num sector de segurança máxima que ficou famoso pelo apelido de selva de pedra.
Isto aconteceu em junho de 2006. A fuga de um sector de segurança máxima não é um feito trivial. Exige conivência, planeamento, recursos. Casio saiu e desapareceu, como já tinha feito antes. Solto, ele não mudou de vida. Pelo contrário, associou-se a outros criminosos, incluindo Wilson Trajano e um homem conhecido por Pedro Barreto de Freitas, o velho de Chico Peba.
Juntos sequestraram um empresário gaúcho, acrescentando ao extenso currículo criminal de Casio, mais um crime de elevada gravidade. A vida do crime não tem limites naturais quando não encontra obstáculos suficientemente firmes. E Casio parecia determinado atestar até onde podia ir. A resposta chegou em Agosto de 2007 na cidade baiana de Alagoinhas.
Cásio Santana de Souza foi localizado e detido, mas não sem violência. Acabou baleado durante a troca de tiros com os policiais. Com ele foi preso António Luiz Amorim, um baiano que sob pressão levou os investigadores até à casa onde Cásio estava escondido, na rua H, no bairro Urbis 3. No interior da casa, os os polícias encontraram o que precisavam para confirmar quem estava a lidar.
Uma pistola de uso restrito da polícia e 31 munições de calibre pon40 escondidas no guarda-roupa. armas de lei obtidas de forma ilegal, guardadas por um fugitivo que havia escapou de uma prisão de segurança máxima. Depois de uma semana internado no hospital de urgência de Salvador, tratando dos ferimentos que levou no confronto, Casio foi transferido para o Penitenciária Federal de Mato Grosso do Sul, considerada de segurança máxima a nível nacional.
era o sistema, reconhecendo que este era um recluso que precisava das maiores barreiras possíveis entre ele e a liberdade. Os anos que se seguiram foram de processos, audiências, julgamentos. A justiça do Ceará foi reunindo as peças do puzzle, conectando Casio Santana de Souza a uma lista de crimes que envergonha pela extensão.
Assassinatos múltiplos, principalmente na região do Vale do Jaguaribe, participação no chacina do sete em Limoeiro do Norte, envolvimento no assassinato do radialista Nicanor Linhares. No final, Casio foi condenado a 144 anos de prisão. Uma sentença que, na prática, significa o resto da sua vida dentro de uma cela, que é exatamente o que a sociedade exigia.
O seu irmão Ciano Santana de Souza, que também tinha participado em crimes do bando, foi condenado a 25 anos de prisão pela chacina do sete em Limoeiro do Norte e há mais 23 anos pela execução do radialista Nicanor Linhares. As chegaram as condenações. A justiça, ainda que com a lentidão, que por vezes parece insuportável para quem a espera, chegou.
O capítulo final de José Vanderlei dos Santos Nogueira, o irmão de Chico Orelha, de alcunha Gordo ou Cabeção, foi escrito em 2017, mais de uma década depois da morte do seu irmão mais famoso. A sua trajetória havia sido igualmente violenta. matador de aluguer reconhecido na região, acusado de um extenso historial de pistolagem e assaltos.
Tinha sido capturado em Marabá, no estado do Pará, em abril de 2008, mas tinha conseguido escapar ao presídio, escapar, como se as paredes e as grades não existissem para determinados indivíduos, como se o sistema prisional brasileiro fosse apenas um obstáculo temporário para quem está suficientemente motivado para continuar.
Durante anos, Cabeção seguiu libertado, seguiu no crime, continuou a ser a sombra do irmão morto, carregando o legado de violência da família Nogueira para onde quer que fosse. Em 2017, entretanto, o confronto final aconteceu. A Polícia Militar localizou José Vanderlei dos Santos Nogueira e, bem como acontecera com Chico Orelha em 2004, não houve rendição possível.
Cabeção tombou sem vida no confronto com os polícias. O último dos irmãos Nogueira tinha encontrado o mesmo fim que o primeiro. O que fica depois de tudo isto? O que resta quando a poeira assenta? Quando os nomes dos criminosos deixam de ser manchetes e tornam-se notas de rodapé na história policial de uma região? Resta a memória das vítimas.
Resta a cicatriz que nunca fecha completamente nas comunidades que viveram sob aquele terror. Resta a pergunta inevitável que toda a sociedade precisa de se fazer quando olha para histórias como esta. O que permite que homens como Chico Orelha existam, prosperem, matem durante anos sem serem detidos. Quais as condições que o tornam possível? Quais as clicidades, as omissões, as estruturas de poder que funcionam como escudo protetor para pistoleiros em regiões onde o estado chega tarde e incompleto? Limoeiro do Norte não esqueceu. Os
moradores que viveram aquela noite de 18 de Setembro de 2003 não esqueceram. Quem ouviu os tiros, quem saiu à rua e viu os corpos, quem perdeu vizinhos, conhecidos, frequentadores do bar local, não se esqueceu. A memória do trauma coletivo é persistente e é importante que seja, não como instrumento de ódio ou de desejo de vingança, mas como um lembrete de que a a violência não é natural, não é inevitável, não é algo que simplesmente acontece como o vento ou a chuva.
A a violência tem rostos, tem histórias, tem causas e tem [a música] o dever de ter consequências. Quando o radialista Nicanor Linhares foi assassinado dentro da sua própria rádio com 11 balas enquanto fazia o seu trabalho de informar e denunciar, estava a pagar o preço de exercer um dos papéis mais importantes que existe em qualquer sociedade.
O de quem diz em voz alta o que muitos só pensam em silêncio. A sua morte deveria ter sido o alarme máximo para que as autoridades agissem com absoluta urgência. O facto de que apenas 2 meses e meio depois, sete pessoas foram assassinadas na mesma região pelo mesmo bando indica que o alarme não foi atendido com a velocidade e a força que o momento exigia.
A história de Chico Orelha e de tudo o que aconteceu no Vale do Jaguaribe naquele período de horror não é apenas uma história de crime. É uma história sobre o que acontece quando o poder do Estado vacila perante o poder do crime. É uma história sobre a coragem. a de Nicanor Linhares, que utilizou o seu microfone até ao último dia, e sobre a cobardia, a de quem contratou os assassinos para silenciá-lo.
É uma história sobre vítimas inocentes que estavam simplesmente vivendo as suas vidas numa quinta-feira à noite e tornaram-se alvos apenas porque cruzaram o caminho de homens sem qualquer consideração pela vida humana. É também uma história sobre persistência da polícia que não desistiu de perseguir estes criminosos durante anos.
dos procuradores e juízes que construíram os processos e pronunciaram as condenações, das famílias das vítimas que continuaram a pedir justiça, da comunidade que, apesar do medo, foi guardando as memórias e os testemunhos necessários para que um dia a verdade pudesse ser pronunciada perante uma tribunal de justiça.
Cásio Santana de Sousa está preso, condenado a 144 anos. O seu irmão Ciano foi condenado. Cabeção está morto. Chico Orelha está morto. O bando que espalhou o terror pelo Nordeste foi desmantelado, os seus membros capturados ou eliminados, um a um ao longo de anos de trabalho policial que não cessou mesmo quando parecia que os criminosos eram intocáveis.
Mas as sete vítimas da chacina de Limoeiro do Norte não regressam. Nicanor Linhares não volta. Seus microfones estão silenciosos. Seus lugares nas mesas de jantar estão vazios. Os seus nomes existem agora apenas na memória de quem os amou e nos registos policiais de um crime que marcou para sempre a história do Ceará.
Esta é a verdadeira dimensão do que Chico Orelha deixou para trás. Não a lenda do destemido pistoleiro, não o mito do homem que desafiava a polícia e fugia sem ser preso, não o apelido macabro que as crianças eventualmente pronunciavam com aquela estranha mistura de medo e fascínio que os monstros provocam. O que Chico Orelha deixou para trás foram famílias destruídas, uma comunidade traumatizada, um radialista silenciado para sempre e seis outros inocentes mortos numa noite de Setembro que ninguém que lá esteve jamais conseguirá esquecer por completo. O Vale
do Jaguaribe seguiu em frente. Limoeiro do Norte seguiu em frente. O rio Jaguaribe continua a correr em direção ao mar, como faz há milhões de anos, indiferente aos dramas humanos que acontecem nas suas margens. A vida no O sertão cearense tem essa capacidade obstinada de continuar, de resistir, de encontrar alegria mesmo depois do mais fundo dos pesares.
É o que há de mais bonito nesta gente e nesta terra. Mas o dever de recordar mantém-se. O dever de contar estas histórias, de pronunciar os nomes das vítimas, de não deixar que o tempo apague o que não deve ser apagado, permanece. Porque quando uma sociedade se esquece dos seus momentos mais sombrios, ela perde também as defesas contra a possibilidade de que eles se repitam.
José Roberto dos Santos Nogueira, o Chico Orelha está morto desde Outubro de 2004. O sertão que ele tentou dominar pelo terror o sobreviveu, como sempre sobrevive. As comunidades que tentou paralisar pelo medo seguiram em frente, como sempre seguem. E as histórias que tentou enterrar juntamente com as suas vítimas continuam a ser contadas, porque a verdade tem essa qualidade essencial. Ela não morre.
Isso é tudo o que precisava de saber sobre o homem que espalhou o medo por Limoeiro do Norte e pela região do Vale do Jaguaribe. Uma história que o Nordeste brasileiro carrega às costas como um peso que não se escolhe carregar, mas que se transporta a si mesmo, porque é parte de quem se é, de onde se veio, do que se sobreviveu. Oh.