No final dos anos 60, lançou finalmente o primeiro compacto, já com o nome artístico que ia ficar para a história, Bezerra da Silva. Mas a carreira a solo, como conhecemos, só começou em 1975. Nesse ano, lançou o primeiro LP chamado O Rei do Coco. O coco é um género musical típico do norte e nordeste do Brasil, com um batimento de tambor, palma, cantoria coletiva.
No ano seguinte, 1976, veio o volume 2 do mesmo trabalho. Mas as vendas eram ainda modestas. Foi no terceiro disco que o vitelo encontrou o jeitão dele, saiu do coco e entrou no samba de partido alto, aquele samba falado com letras de rua, ritmo sincopado. E aí tudo mudou. No final dos anos 70, entrou para RC a Victor, uma das maiores editoras discográficas do Brasil, e iniciou a série Partido Auto Nota 10.
Foi o estouro. Agora presta atenção aos números, porque isto aqui é para ninguém pôr defeito. Ao longo de 46 anos de carreira, o Bezerra da Silva lançou 32 discos. 11 tornaram-se disco de ouro, três tornaram-se disco de platina. Um chegou ao patamar de dupla platina. Em 1986, um único álbum dele vendeu 300.
000 cópias no Brasil. Naquela época do vinil e fita cassete. Isto era número de artistas gigante comparável aos maiores nomes do país. Em 2000, já no início da era do CD, um disco ao vivo dele vendeu outros 150.000 exemplares. O vitelo virou febre nacional. Rádio tocava o dia inteiro.
Casa de brasileiro tinha disco dele empilhado na estante. Ele rodou o país inteiro a fazer show em ginásio lotado, tornou-se figura cativa de programa de TV. Mas depois há uma coisa que quase ninguém sabia na altura e essa coisa explica muito sobre o vitelo. A grande maioria das músicas que cantou, ele não escreveu e quem escreveu eram pessoas que o Brasil fingia que não existia.
Pensa na quantidade de sucesso do Bezerra. Malandragem dá um tempo. Segura mal para fazer a cabeça a semente deitou uma semente no seu quintal. Defunto caguete. Um cagoete. Ele cagueta em qualquer lugar. Música que tocava em todos os cantos, que se tornava piada de amigo, que saía de boca em boca no país inteiro.
Todo mundo pensava que era tudo do Bezerra, que o homem sentava-se em casa, pegava na guitarra e com punha. Mas não era assim nem de longe. A grande maioria das suas letras foi escrita por outras pessoas. Gente que vivia bem longe dos holofotes, compositores anónimos do Morro do Cantagalo, do Borel, da Rocinha, gente da Baixada Fluminense de Nova Iguaçu, de Mesquita, de Nilópolis, pessoas pobres, muitas vezes sem estudo, que nunca em 1000 anos iam conseguir bater à porta de uma editora discográfica sozinhas. Pessoas que
viviam na pele a vida que as canções contavam, nomes como Adelson Alves, Franco Paulino, Sérgio Mosca, Walter Diogo e o Adilson Newton, o Moa, que era filho do próprio Bezerra e que escreveu Se segura malandro, um dos maiores sucessos do pai. O vitela fazia questão de falar sobre o assunto.
Em entrevistas, com aquele jeitão franco de quem não estava para enrolar ninguém, dizia que os compositores que com ele gravavam eram gente da favela e da baixada, pobres, pessoas que no anonimato ninguém sabia quem eram. Batia no peito e dizia: “Sem o meu microfone, estas letras não chegam a lado nenhum.” E é aí que começa a confusão em torno do seu nome.
Porque é que as músicas falavam de quê? Falavam de canábis, de polícias a bater sem motivo, de malandro a escapar de blitz, de desemprego, de fome, de injustiça. Retratavam a vida como ela era, sem filtro, sem maquilhagem. E aí metade do Brasil adorou. A outra metade torceu o nariz. Apareceu o rótulo São Bandido.
Muita gente acusou o Bezerra de fazer a apologia do crime, de romantizar a malandragem, de estar ensinando o errado aos jovens. E tem quem ainda hoje defenda este ponto de vista com razão. As letras realmente glorificam comportamentos que não deviam ser glorificados, mas tem o outro lado, que também faz sentido. Há gente que defende que o vitelo não estava fazendo apologia coisa nenhuma, estava fazendo crónica social, retrato do Brasil de baixo, jornalismo cantado de um país que a Globo não mostrava no Jornal Nacional e que deu voz à
gente que a sociedade brasileira preferia esconder debaixo do tapete. Esta leitura ganhou força com o passar do tempo. Hoje o Bezerra é tema de uma dissertação de mestrado na PUC de São Paulo e na UFG em Goiás. A universidade brasileira o estuda como cronista da desigualdade urbana, alguém que documentou sob a forma de samba a criminalização da pobreza no Brasil.
Uma investigadora, a Cláudia Matos, chegou a definir a sua obra com uma frase bonita, uma autoria plural, coletiva, que organizou a voz de muitos num somo cultural do gajo. O Frejá, do Barão O Vermelho regravou uma música dele e isso bombou a carreira do Bezerra de volta. O Marcelo D2 fez um disco inteiro em tributo a ele chamado Marcelo D2 Canta Bezerra da Silva.
O rapa homenageou no ranking do ECAD hoje as músicas mais executadas do catálogo da vitela são a Semente, Malandragem da Um Tempo e Defunto Caguete, todas tocadas na rádio, bar, novela até hoje. Mas enquanto o país debatia se era bandido ou cronista, a vida pessoal do Bezerra desabava em silêncio. Dentro de casa, uma tragédia estava a armar-se.
Uma tragédia que ia arrancar ao vitelo não apenas um filho e arrancar a fé que ele tinha construído toda a vida. Em 1983, o Bezerra casou com a Regina Oliveira, a famosa Regina do Bezerra. E esta mulher não foi coadjuvante na história não. Regina era compositora, era produtora, era empresária. Assinou música com ele, tratou da sua carreira durante anos e ainda hoje aparece nos créditos de várias faixas do catálogo oficial do cantor.
Ela foi, na prática, o braço direito do marido dentro da indústria. O casal teve filhos. As fontes divergem sobre o número exato. Algumas dizem três, outras dizem quatro, mas os nomes mais referidos nas reportagens são Itítalo Bezerra, Leonardo Bezerra, Talam. O Ítalo é o mais famoso, o único que seguiu a carreira musical do pai e que ainda hoje faz espectáculos em homenagem a ele pelo Brasil.
A vida espiritual do Bezerra durante décadas teve uma base sólida. Ele era do candomblé, não era só frequentador, não. Era pai de santo. Tinha terreiro próprio, servia consulente, cuidava de pessoas. A religião era tudo para ele. Era casa, era família, era chão. Tanto que o próprio Bezerra dizia que o terreiro tinha salvou-lhe a vida naqueles 7 anos de rua em Copacabana, lá nos anos 50.
Mas um dia chegou a tragédia que o pai de santo não conseguiu impedir. Um dos filhos do Bezerra, o Adilson Newton, apelidado de Moa, envolveu-se com a vida errada. O Moa era talentoso. Foi ele quem escreveu: “Segura malandro, um dos maiores êxitos do próprio pai”. Mas meteu-se em mau caminho e morreu jovem de morte prematura.
destas mortes sem sentido que deixam pai e mãe se perguntando para o resto da vida onde foi que falharam. Um amigo próximo do Bezerra contou depois numa entrevista que aquilo partiu o homem por dentro. Uma coisa é perder um pai velhinho, outra coisa é enterrar um filho novo cheio de vida. O vitelo olhou para tudo que tinha construído no terreiro, para toda a fé que ali tinha depositado, e sentiu que nada daquilo tinha funcionado.
Saiu da religião amargurado, largou o terreiro, largou a fé, tornou-se um homem sem chão espiritual, ficou alguns anos no vazio, à procura do que segurar. Foi em 20012 que encontrou uma porta nova, entrou para Igreja Universal do Reino de Deus, se batizou e mudou radicalmente. Parou de beber, deixou de fumar, deixou de ir em roda de samba, numa escola, numa festa de amigo.
Ele próprio dizia, com aquela sinceridade dele, que a esposa era testemunha. O tipo não saía mais de casa, ia da casa paraa igreja e da igreja para casa. Tornou-se outro homem. Em 2004, gravou o primeiro e único disco gospel da carreira. O nome era Caminho da Luz, um álbum completamente diferente de tudo o que tinha feito, cheio de louvor, de mensagem religiosa, de gratidão.
Só que o Bezerra não viveu para ver este disco chegar às lojas, porque enquanto tentava reconstruir a vida na igreja, o seu corpo já estava perdendo uma guerra silenciosa. E essa guerra rebentou em setembro de 2004. Setembro de 2004. O bezerra estava no seu apartamento em Copacabana quando começou a sentir-se mal de um modo preocupante.
Falta de ar, peito a pesar, tosse que não ia embora nem pensar. A família correu com ele para a casa de saúde Pinheiro Machado, uma clínica privada ali mesmo no bairro. O diagnóstico foi duro, pneumonia grave, embolia pulmonar e, por cima de tudo, enfizema pulmonar, aquela doença que vai consumindo o fumador durante interior, silenciosa ao longo dos anos.
Anos de cigarro, anos de canto em ambiente fumado, anos de fôlego forçado em palco tinham cobrado o preço. O vitelo entrou em coma, esteve quase uma semana desacordado, ligado a um aparelho. Quando acordou, o seu corpo já não era o mesmo. Ele conseguiu voltar para casa por pouco tempo, mas logo teve outra crise e foi novamente internado.
Dessa vez foi transferido para o hospital dos funcionários do Estado, no Rio, onde ficou durante semanas, dependente de aparelhos para respirar. Fizeram traquiostomia nele, abriram um buraco no pescoço para manter ar a passar para os pulmões. O homem que cantou a vida inteira já não conseguia falar direito.
E foi no meio desta batalha que veio a bomba que ninguém esperava. No dia 29 de outubro de 2004, a Regina do Bezerra deu entrevista à imprensa e falou uma coisa que caiu como pancada no Brasil inteiro. Ela disse que a família estava devendo R$ 200.000 para a clínica Pinheiro Machado. 200.000. Um valor que naquela época daria para comprar um bom apartamento num bairro classe média de uma grande cidade.
E ela disse mais. disse que a família estava a pensar em organizar um show beneficente para angariar dinheiro e pagar a conta do hospital do próprio Bezerra. Um concerto beneficente. Para o Bezerra da Silva, o Brasil ficou sem compreender nada. Como é que um artista deste tamanho com 11 discos de ouro na prateleira, com três de platina com um de dupla platina, com 300.
000 1 exemplares vendidas só em 1986, com 32 álbuns editados ao longo de quatro décadas. Como é que um homem deste porte precisava de uma vaquinha para pagar o hospital? Onde foi parar o dinheiro de tanto disco? Onde foi parar o dinheiro de tanto show? Onde foi parar o tal luxo que imaginamos que este tipo de artista acumula? Essa pergunta até hoje ninguém respondeu correctamente, mas ela escancara um problema antigo da indústria fonográfica brasileira.
artista grande, pequeno contrato, muito disco vendido, pouco dinheiro no bolso do cantor. A maior parte do dinheiro ficava com a editora, com o manager, com o produtor. E o tipo que punha a cara no microfone, que gastava a voz em palco ano após ano, chegava ao fim da vida, sem reserva nem para pagar uma clínica particular.
Isso não foi exclusivo do Bezerra, aconteceu com muito nome gigante da música brasileira que lhe conhece. O vitelo não resistiu. No dia 17 de janeiro de 2005, aos 77 anos, ele teve uma paragem cardíaca, resultado de toda a degradação pulmonar. O Brasil perdeu um dos seus maiores sambistas. O velório foi no Teatro João Caetano, ali no centro do Rio de Janeiro.
Gente da favela, gente da baixada, compositor, companheiro, amigo, fã, família, todos apareceu para se despedir. O enterro foi no Memorial do Carmo, no complexo do cemitério do Caju. Dia pesado, foi um adeus daqueles que marcam o país e ficou aquela sensação estranha no ar. O Brasil tinha perdido um gigante, um ícone que fez história, mas um ícone que no fim da vida não tinha conseguido acumular o que imaginamos que um artista deste porte acumula.
Só que a história do Bezerra da Silva não terminou com o enterro, porque a parte mais louca desta história, a parte da herança, dos bens, dos direitos, do tal luxo que o título prometia, só começou de verdade depois de ele ter sido enterrado. E o que apareceu nos 20 anos seguintes é uma novela que até hoje não tem final escrito.
O Bezerra foi enterrado, o país chorou. A imprensa publicou as matérias de despedida e aí o Brasil virou a página e foi tocando a vida. Mas nos bastidores a coisa estava só a começar, porque o Bezerra da Silva pode ter falecido a dever à clínica. Pode não ter deixado mansão nem quinta, pode não ter montanha de dinheiro guardado no banco.
Mas ele deixou uma coisa muito mais valiosa do que tudo isso. Ele deixou uma obra, um catálogo gigantesco de músicas que continuam a gerar dinheiro. Fama, processo e confusão até hoje, 20 anos depois. O primeiro grande capítulo desta história pós morte veio em 2016, 11 anos depois do funeral. A Regina do Bezerra, que por esta altura já era tratada pela imprensa como uma ex-mulher do cantor, entrou em tribunal contra a A EM1, uma das maiores editoras discográficas do mundo. O motivo foi o seguinte.
O rapper Marcelo D2, que é fã assumido do Bezerra, tem uma tatuagem da cara do sambista tatuada no próprio braço. E esta tatuagem apareceu em destaque na capa de um álbum de tributo que os D2 gravaram chamado Marcelo D2 Canta Bezerra da Silva, lançado pela imi. A família disse que aquilo era utilização não autorizada.
A imagem do Bezerra interpôs uma ação. Em primeira instância, a justiça deu ganho de causa e mandou a EMI pagar 430.000 de indemnização, um valor robusto. Mas o caso subiu à segunda instância. A 13ª Secção Cível do Tribunal de Justiça do Rio, reviu a decisão e reduziu o valor para R$ 30.000, só pelo uso da imagem.
Mas o que ficou claro nesta luta é outra coisa. A obra do Bezerra ainda tinha dinheiro lá dentro e tinha gente disputando quem ia ficar com este dinheiro. Em 2021, 5 anos depois do processo, veio o capítulo mais bizarro dessa novela. A revista Forbes Brasil publicou uma reportagem exclusiva anunciando algo inédito no país.
Um dos filhos do Bezerra, o Leonardo Bezerra, aparecia na matéria declarando-se atual proprietário dos direitos de autor do pai e anunciava uma operação moderníssima. 86 canções do catálogo do Bezerra iam virar NFT. Ativos digitais, frações vendidas na internet. Coisa de mercado cripto.
Na prática, Leonardo colocou à venda R$ 153 quotas de R$ 1.000 cada, representando metade dos direitos autoral destas 86 músicas. Se tudo fosse vendido, atingiria os R$ 153.000. E de lambuja anunciou também o leilão do violão pessoal do Bezerra, com um lance mínimo de R$ 100.000. O instrumento que o pai usou nos espectáculos mais importantes da carreira.
Só há um pormenor que complica tudo. Em 2016 era a Regina quem aparecia processando a gravadora em nome da família. Em 2021, o Leonardo aparece dizendo que é dono exclusivo dos direitos e até hoje não existe qualquer inventário público disponível, nenhuma certidão de partilha. acessível. Nenhum documento que mostre de forma clara e oficial quem é o verdadeiro herdeiro do espólio do Bezerra da Silva.
As fontes jornalísticas divergem até no número de filhos. Umas dizem três, outras dizem quatro, outras citam o Tame, outras o Ítalo, outras o Leonardo, outras ainda um João Oliveira, que apareceu como filho na reportagem do funeral em 2005. Enquanto esta disputa continua na Surdina, a obra do Bezerra continua a gerar dinheiro no Brasil inteiro.
Hoje, o catálogo registado no ECAD, o organismo que ocupa-se dos direitos de execução de música no país, conta com 83 obras musicais e 489 gravações do Bezerra Cadastradas. As três mais tocadas na última década são a Semente, Malandragem Dá um tempo e Defunto Caguete. Cada vez que uma dessas músicas passa numa rádio, numa novela, num bar, numa festa, num streaming, o ECAD arrecada.
E esse dinheiro, pela lei brasileira, vai continuar a ser arrecadado durante 70 anos depois da morte do autor. Ou seja, até, pelo menos, 2075, a obra do Bezerra vai gerar receitas. Nas plataformas digitais, Spotify, Dieser, Apple Music, YouTube, os discos dele estão todos ativos, sendo tocados por uma nova geração que nem sequer era nascida quando morreu.
E depois a gente chega ao ponto em que esta história ganha outro sentido. Olha o que o Bezerra da Silva realmente deixou. Ele não deixou mansão em condomínio de luxo. Não deixou carrão, não deixou fazenda, não deixou gorda conta num banco estrangeiro, nada disso. O homem morreu devendo para clínica onde estava a ser tratado. Mas ele deixou uma coisa que o dinheiro nenhum compra.
Deixou uma voz que se virou a voz de um Brasil inteiro. Deixou o palco pros compositores invisíveis da Baixada e do monte. deixou um catálogo que 20 anos depois continua a encher o bar de samba a tocar em churrasco de domingo, emocionando o neto e bisneto de quem viveu o auge dele. Esse era o luxo do bezerra.
Um luxo que não cabe num cofre, um luxo que não se pode leiloar. Um luxo que todo o Brasil herdou em conjunto, sem pagar nada, só por ter conhecido a voz daquele homem. Talvez seja por isso que até hoje a família ainda disputa o espolho dele na justiça, porque eles sabem lá no fundo que o Bezerra da Silva não deixou dinheiro.
Ele deixou muito mais do que isso. Ele deixou história. E agora a pergunta fica para si que assistiu a este vídeo até aqui. Na sua opinião, o que aconteceu com o Bezerra no fim da vida? Foi vítima de uma indústria discográfica injusta que ficou com o dinheiro que era dele? Ele foi mal gerido pela família que não soube cuidar do património ou ele simplesmente viveu a vida da forma que quis, sem se importar com dinheiro, porque esse nunca foi o que o movia? Comenta aí em baixo.
Quero muito ler o que tem a dizer sobre isso. Se gostou desta história, deixa um like no vídeo. Isso ajuda muito o canal a crescer. E se você ainda não está inscrito, clica ali no botão vermelho para não perder os próximos vídeos. A gente está preparando a história de outro gigante da música brasileira que também morreu envolto em mistério.
E o que aconteceu à sua herança é ainda mais impressionante. Espero no próximo.