Luiz Gonzaga PAROU o Show Quando Viu um Soldado Chorando na Plateia

Em 1963,  Luís Gonzaga entrou no palco do Teatro Santa Rosa em João Pessoa,  convicto de que aquela noite seria, como todas as outras, uma noite de baião,  de suor e de alegria nordestina. Mas quando chegou à terceira estrofe  de asa branca, parou, largou o microfone, desceu do palco sem dizer uma palavra e caminhou em direção à primeira fila.

 O motivo daquele homem estar ali a chorar de farda ia  mudar tudo o que aconteceu nessa noite e nos três anos que vieram depois. Ninguém na plateia entendeu  o que estava a acontecer quando Gonzaga deixou de cantar. Eram quase 11 da noite. O teatro estava cheio, mais de 600 pessoas  e o silêncio que caiu quando ele largou o microfone.

Foi o tipo de silêncio que só se sente  quando algo está realmente errado. Não era  pausa dramática, não era efeito de palco. Era  um homem reconhecendo alguma coisa que só podia reconhecer. numa fracção de segundo a meio de uma música que ele tinha  cantado centenas de vezes. O rei do baião não parava espectáculo.

Este era um facto conhecido por qualquer músico que com ele tivesse trabalhado. O Zé Dantas dizia isso. Humberto Teixeira repetia: “Os músicos que viajavam com Gonzaga nos anos 50 e 60  sabiam que podia cair o tecto, podia faltar a luz, podia aparecer uma briga na plateia. Gonzaga cantava. Era uma questão de honra, uma questão de respeito por quem tinha pago bilhete, por quem tinha atravessado léguas de estrada de terra batida para lá estar.

 Ele repetia sempre: “Esta gente que está na frente de mim não tem dinheiro de sobra. Quem tiver de parar, pára antes de entrar em palco. Depois de entrar, não para mais.” E ali, naquela noite de quinta-feira em João Pessoa, ele tinha  parado. A primeira questão que ninguém conseguia responder era simples e, ao mesmo tempo, impossível.

Por que razão aquele soldado tinha viajado mais de 600 km  estar sentado na primeira fila desse espectáculo, usando a farda militar  completa, com as botas engrachadas e o que sobre o joelho, como se  aquele teatro fosse uma cerimónia oficial e não uma noite de forró.

 Os soldados não usavam farda em show. Isso chamava  a atenção, gerava desconforto e aquele homem sabia disso. E foi assim  mesmo, com a farda, como se a farda fosse a única coisa  que ele tinha de respeitável para vestir nessa noite. A segunda  questão era ainda mais perturbadora, o que Gonzaga lhe sussurrou ao ouvido daquele  soldado? Uma coisa que ninguém na plateia conseguiu escutar, que durou menos de 10 segundos,  mas que fez com que o homem cobrisse o rosto com as duas mãos e dobrar o corpo 

para a frente, como se tivesse levado um murro no estômago. Mas isso  vem daqui a pouco, porque antes de compreender o que aconteceu entre  estes dois homens nessa noite, precisa perceber o que aquele soldado estava  transportando dentro do bolso da farda.

 E isso, é isso que  muda completamente a forma como esta história se encaixa. O soldado chamava-se Damião Ferreira dos Santos. Tinha 26  anos. Era natural de Exu, Pernambuco, a mesma Exu de Luís Gonzaga,  a mesma cidade que Gonzaga tinha saído quando era ainda quase menino e que carregava  ao peito como uma ferida que nunca fechou bem.

 Damião era filho de um homem chamado José Ferreira dos Santos, conhecido em  Exu por todo o mundo como Zé Velho, não porque fosse especialmente idoso, mas  porque tinha nascido parecendo velho, com aquela seriedade de quem carrega o mundo aos ombros desde que aprende a andar. O Zé Velho tinha 71 anos em 1963.

Estava doente há mais de 2 anos. e não saía mais da rede. Os pulmões tinham cedido, a tuberculose tinha chegado devagar, como tudo o que mata no sertão, sem aviso, sem drama, sem cerimónia. Chegou e ficou e foi comendo por dentro até ao ponto em que o Zé Velho não conseguia mais levantar-se sem torcir durante 10 minutos seguidos.

 Mas havia algo que Damião não tinha contado a ninguém quando saiu de Exu e tomou o camião até Campina Grande  e a partir daí o autocarro até João Pessoa. Havia algo dentro do bolso da farda que quase  não tinha trazido, que ficou na mão durante quase uma hora antes de ele  decidir colocá-la no bolso e partir.

 E esta coisa, esta pequena coisa que cabia na palma de uma mão  era o verdadeiro motivo pelo qual Damião Ferreira dos Santos estava sentado no primeira fila do teatro Santa Rosa nessa noite de quinta-feira,  com a farda engrachada e os olhos cheios d’água ainda antes de Gonzaga  entrar em palco. O que vai descobrir daqui a pouco vai mudar completamente a forma como vê-se o que aconteceu naquela noite.

Porque isto aqui  era só o começo. Damião tinha saído de Exu com uma missão. Não era uma missão militar, era uma missão de filho. Zé velho chamado-o três semanas antes, tinha pedido que ele  se sentasse na beira da rede e tinha falado com uma voz tão baixa que Damião teve de se inclinar para a frente para escutar.

 Falou sem olhar para o filho. Ficou a olhar pro teto de palha como se as  palavras precisassem de sair antes que a vergonha chegasse. Meu filho, disse ele, “Eu preciso que tu  faz uma coisa por mim, uma coisa só”. Eu sei que tu estás a servir, eu sei que não tens folga,  mas preciso. Não vou durar muito tempo, não.

E há uma coisa que eu carrego há mais de 40 anos que não posso levar para dentro da terra. Damião ficou quieto. Zé velho continuou. Tu vais achar Luiz. Tu vai onde ele tiver. Tu entregas o que eu vou dar-te. E tu dizes que é do Zé velho de Exu. Só isso. Ele vai saber quem é. Havia um envelope velho dobrado ao meio, com as bordas gastas  de tanto ser guardado e tirado e guardado de novo.

 O Zé velho tinha passado a mão em cima dele,  como quem passa a mão num filho antes de o mandar embora. e tinha entregue a Damião sem mais explicação. Damião não tinha aberto o envelope,  não era por respeito. Embora o respeito estivesse lá, era porque tinha medo do que podia estar no interior. Quando um homem como o Zé Velho guarda uma coisa por 40 anos sem contar a ninguém, nem paraa mulher, nem para os filhos, nem para o padre, aquilo não é uma carta qualquer.

Aquilo  é o tipo de coisa que muda o que pensava que sabia. E ali estava ele na primeira fila do Teatro Santa Rosa, com o  envelope dobrado no bolso esquerdo da farda, ouvindo Gonzaga cantar Asa Branca. A música tinha começado devagar, como começa sempre, aquela  introdução de acordeão, que é quase uma oração que qualquer nordestino que viveu no sertão reconhece mesmo antes de a primeira palavra sair.

  Damião não tinha conseguido segurar. Não era tristeza de espectáculo, não era emoção de admirador, era outra coisa. Era o sertão  inteiro cabendo dentro daquelas notas. Era o pai doente na rede. Era a seca que tinha mandado metade de Exu embora. Era a vida que já não voltava como  era antes.

 Era tudo isso chegando de uma vez, sem pedir licença,  através do canal direto de uma música que dizia exatamente aquilo que ele não sabia dizer. E as lágrimas tinham vindo sem soluços, sem movimento, sem drama. Desceram quietas. uma de cada lado do rosto, enquanto segurava o cap com as duas mãos sobre o joelho e olhava para o palco com os olhos arregalados, como quem tenta não pestanejar para não perder nada.

Foi aí que Gonzaga parou. Ninguém sabia exatamente em que verso foi. Os músicos que estavam em palco nessa noite  contaram versões diferentes ao longo dos anos. O que todos concordavam era que Gonzaga estava na terceira estrofe, aquela que fala da partida, do adeus, da esperança de voltar quando a chuva chegar e que parou no meio de repente, como se alguém tivesse cortado a corrente.

 Ficou parado por uns 3 segundos,  olhou para a primeira fila, olhou para o soldado e algo lhe passou no rosto dele que os músicos descreveram de diferentes formas,  mas com o mesmo peso. Foi como se ele tivesse reconhecido alguém. Não, o  rosto. O rosto ele não conhecia. Era outra coisa. Era  a expressão, era o modo como aquele homem segurava o chapéu.

 Era o jeito nordestino de chorar  sem fazer barulho, que quem nasceu no sertão reconhece instantaneamente,  porque é a forma que a gente aprende desde criança. Chora por dentro, não dá trabalho para ninguém. Gonzaga colocou o microfone no suporte, fez um gesto com a cabeça para o acordeonista  e desceu do palco.

Desceu devagar, com cuidado nos degraus, como quem não quer chamar a atenção.  Mais 600 pessoas estavam a olhar para ele e o silêncio  que ficou era ensurdecedor. Nenhum aplauso, nenhum comentário, apenas o barulho do ventilador de teto a rodar lá atrás  e o som dos passos de Gonzaga no açoalho de madeira do teatro.

 Ele chegou  à frente de Damião, ficou de pé, olhou para o homem de cima. Damião tinha levantado  a cabeça e estava a olhar de volta, com os olhos vermelhos  e a expressão de quem foi apanhado a fazer alguma coisa que não devia. Gonzaga falou baixo, mas num teatro em silêncio, baixo chegava longe.

 Tu és daqui não, meu filho. Tu és de onde? Damião demorou um segundo. A voz saiu rouca. Deixu, senhor, o que aconteceu no rosto de Gonzaga naquele momento foi descrito por quem estava  perto como uma coisa difícil de nomear. Não era alegria, não era surpresa, era uma dor específica. Aquela dor que só aparece quando uma coisa que se guarda trancada dentro do peito de repente bate à porta por fora sem avisar.

 Era Exu chegando até ele, encarnada num soldado de 26 anos, com os olhos cheios de água e a farda engrachada numa noite de forró. Gonzaga baixou-se, colocou a mão no ombro de Damião e falou ao ouvido do soldado. Ninguém ouviu o que ele  disse. O teatro estava em silêncio, sim, mas aqueles 10 segundos ficaram entre os dois, naquele  espaço de palmo e meio entre a boca de um e o ouvido do outro.

O que se sabe é o que aconteceu depois. Damião tapou o rosto com as duas mãos e dobrou o corpo paraa frente,  os ombros a abanar e só voltou a se endireitar ao fim de quase um minuto. Gonzaga ficou ao lado dele, não foi embora, ficou ali  com a mão no ombro do soldado, enquanto 600 pessoas respiravam juntas e não diziam nada.

Aqui  é onde a maioria dos histórias sobre essa noite termina. Gonzaga parou o concerto, falou com o soldado, momento de comoção, voltou  para o palco. É a versão bonita, a versão de Almanque, a versão que circulou  durante anos nas rádios do Nordeste como exemplo do carácter do rei  do baião.

 Mas esta versão deixa de fora o envelope. Quando Damião  endireitou o corpo e limpou o rosto com as costas da mão, olhou para Gonzaga por uns dois segundos. Depois desceu a mão direita lentamente até o bolso esquerdo da farda  e ficou com a mão ali parada, como se estivesse  a decidir pela última vez se ia tirar o que estava lá dentro ou não.

 O que estava dentro daquele bolso  era a coisa que o Damião quase não trouxe, que ficou na sua mão por quase uma hora antes de  ele partir de Exu. E quando ele finalmente tirou o envelope velho e dobrado e segurou na mão estendida para Gonzaga, havia no gesto a solenidade de quem entrega uma herança, não de dinheiro, mas do tipo de coisa que não tem preço e não tem substituto.

 Gonzaga olhou para o envelope, olhou para Damião, perguntou com a voz baixa: “De quem é isto?” “Do meu pai.” Damião respondeu: “O Zé velho de Exu”. Ele disse que o Senhor ia saber quem é. Gonzaga ficou parado por  um tempo que os que estavam perto disseram ter parecido muito mais longo do que foi.  Depois pegou o envelope com as duas mãos, cuidadoso como quem pega numa coisa frágil e guardou-o dentro do bolso do colete sem abrir.

 voltou  para o palco, subiu os degraus lentamente, pegou no microfone, ajustou o chapéu de couro e ficou olhando para o público por uns  3 segundos sem dizer nada. Quando abriu a boca, disse apenas: “Este é para o pessoal de Exu que está aqui hoje”. Não disse mais nada. Virou-se para o acordeonista,  deu a entrada e recomeçou asa branca do início, do início de  verdade, desde a primeira nota, como se a música tivesse começado de novo do zero.

 Mas agora precisa de saber quem era o Zé Velho, porque é aí que tudo o que achou que estava a compreender muda completamente. José Ferreira dos Santos  tinha nasceu em Exu no mesmo ano que Luís Gonzaga, 1912. Cresceram juntos no agreste  do sertão pernambucano, nesse mundo pequeno onde toda a gente  se conhecia pelo apelido, e as casas de taipa ficavam coladas umas às outras,  numa intimidade que a pobreza criava sem pedir.

 Zé  Velho e Luís Gonzaga, ou Luizinho, como chamavam na altura, tinham a diferença de alguns meses de idade e viviam a menos de 200 m um do outro. O  pai de Gonzaga, Januário, era tocador de acordeão. Todos em Exu sabia disso. Era a versão oficial, a versão dos livros, a versão que o O próprio Gonzaga contava em entrevista,  que aprendeu a tocar com o pai, que o pai era o músico da família, que a acordeão veio de Januário. E era verdade.

 Só que não era a história toda. O que o Zé Velho tinha guardado por mais de 40 anos. O que estava dentro daquele envelope amarelado que Damião tinha trazido 600 km dentro do bolso da farda. Era uma fotografia, uma pequena foto,  desbotada, tirada por algum visitante que passava por Exu e tinha uma máquina fotográfica, coisa raríssima naquele tempo, naquele lugar.

  A foto mostrava dois rapazes, dois rapazes de cerca de 12, 13 anos sentados na beira de uma  calçada. Um deles segurava uma pequena concertina, um botão só daqueles que os músicos ambulantes usavam. O outro estava com  as mãos sobre as do primeiro, mostrando alguma coisa, a posição dos dedos,  a forma de segurar o instrumento, o menino que segurava a concertina.

 Era o Zé Velho, o menino com as mãos sobre as mãos do outro, aprendendo era Luís Gonzaga.  E atrás da fotografia, escrita com letra de quem nunca foi muito à escola,  mas escolheu cada palavra com cuidado, estava a mensagem que o Zé Velho tinha carregado durante  quatro décadas, sem contar para ninguém.

 Luís, aprendeste comigo antes de aprender com o seu pai.  Não te cobro nada. Só queria que você soubesse antes de eu ir. Gonzaga nunca tinha falado sobre isso. Nunca. Em 40 anos de carreira,  em centenas de entrevistas, em conversas com jornalistas do Rio de Janeiro  que tentavam reconstruir a origem do baião, tinha sempre contado a mesma versão.

 O pai,  Januário, a concertina, Exu, a versão oficial, a versão que protegia alguma coisa que talvez nem ele próprio soubesse  exatamente o que era. O que estava dentro daquele envelope não era uma acusação,  não era um pedido de reconhecimento público, não era uma cobrança de crédito artístico.

  Era um homem de 71 anos, deitado numa rede com os pulmões  a falhar, que simplesmente não queria morrer, transportando uma pequena verdade,  mas verdadeira, sem que a única pessoa que podia recebê-la soubesse.  Era saudade com cara de confissão. Era o sertão  funcionando da forma que sempre funcionou, sem documentos, sem testemunhas, sem advogado.

 Só dois homens e uma memória que um dos dois tinha guardado mais cuidados do que o próprio guardou. Gonzaga passou o resto do espectáculo calado nos intervalos. Os músicos que estavam em palco naquela noite diziam que ele tocou diferente na segunda metade. Não melhor, nem pior, diferente, com uma intensidade diferente, como se cada música tivesse ganhava  um peso que não estava lá antes.

 Quando cantou a vida do viajante, a voz saiu tão carregada que o guitarrista  deixou de olhar para partitura e ficou a olhar para o rei do baião com uma expressão  que não era exatamente preocupação, mas estava  perto. Camião ficou até ao fim do concerto. Saiu sem  falar com mais ninguém, atravessou o passeio do teatro e desapareceu na noite de João Pessoa com a farda e o que e o bolso vazio, pela primeira vez em semanas.

 Aqui vem a quarta coisa que ninguém que conta esta história  costuma mencionar e é a mais pesada de todas. Três semanas depois dessa noite,  Damião Ferreira dos Santos regressou a Exu. Não por licença do exército, voltou porque recebeu um telegrama. Zé Velho tinha piorado de repente e o médico que servia a região tinha dito que era  questão de dias.

 Damião chegou em Exu num sábado. O pai ainda estava vivo. Estiveram juntos  durante dois dias. No segundo dia, o Zé Velho perguntou apenas uma  coisa: “Tu entregou?” “Entreguei,” Damião” disse. Zé Velho ficou quieto,  depois fechou os olhos. E Damião, que tinha aprendido  desde cedo, que não se pergunta o que um homem do sertão não conta, não perguntou mais nada.

 O que Damião não sabia,  o que só soube muito mais tarde, por um caminho que ninguém esperava, era que Gonzaga tinha aberto o envelope  na mesma noite do concerto no quarto do hotel em João Pessoa e que depois de olhar paraa fotografia por um longo tempo, tinha pedido ao gerente do hotel papel e caneta e tinha escrito uma resposta, resposta essa que não tinha como entregar diretamente, porque não tinha morada, não tinha telefone, não não tinha nada além do nome de um homem numa pequena cidade, no sertão pernambucano.

A resposta ficou guardada. Durante quanto tempo e de que forma não se sabe com certeza. O que se sabe é que Gonzaga, nas semanas  seguintes, fez algo que ninguém da equipa esperava. pediu que organizassem uma viagem a Exu. Não por espectáculo, não por compromisso, não por festa,  só para ir.

 A equipe tentou de suadir. Exu era longe. A estrada era má, não havia estrutura. Conzaga disse apenas: “Eu sei onde fica Exu. Eu nasci lá. A viagem  foi marcada. E é aqui que a história toma o desvio que ninguém que conta esta versão tem a coragem de incluir. Gonzaga chegou em Exu com mais de uma semana de atraso  por causa de compromissos que foram impossíveis de cancelar, de um espectáculo em Fortaleza que  tinha patrocinador e contrato assinado de uma viagem que foi adiada e reagendada e

adiada de novo. Quando chegou a Exu, o Zé Velho tinha morrido dois dias antes.  O funeral já tinha acontecido. Damião estava na casa a arrumar as coisas do pai quando um vizinho lhe bateu na janela e disse que havia um carro  parado em frente ao cemitério, um automóvel com matrícula do Rio de Janeiro e que dentro do carro estava um homem com chapéu  de couro.

 Damião atravessou o pátio e caminhou até ao cemitério. Ficou à entrada do lado de fora do muro baixo  de pedra seca e viu ao longe. Gonzaga estava em pé diante de uma sepultura nova, com a terra ainda solta  e uma cruz de madeira simples. Não havia mais ninguém. Não havia câmara,  não havia jornalista, não havia testemunha para além de Damião, que ficou do lado de fora do muro, sem querer entrar, sem querer interromper.

Gonzaga tirou o chapéu, ficou parado durante um tempo. Depois,  e Damião contou-o anos mais tarde, com a voz que as pessoas usam quando falam de coisas que não tem nome certo. Depois, Gonzaga começou a cantar baixinho, sem acordeão, sem banda, sem microfone. Só a voz no meio da tarde seca do sertão,  diante de um monte de terra nova. Era asa branca.

 A mesma música com que tinha parado o concerto em João Pessoa. A mesma que começa com a imagem do fogo a queimar a catinga, a terra a rachar de seca e o vaqueiro que parte porque já não tem como ficar, mas que carrega a promessa de volta quando a chuva chegar, quando a chuva verde  os campos pintar.

 Gonzaga tinha prometido regressar a Exu em triunfo. Tinha prometido a si próprio  mesmo. Tinha prometido nas músicas. tinha prometido na forma como o nome da cidade vivia, em  cada entrevista, em cada menção ao sertão, em cada vez que alguém perguntava de onde era, e ele respondia com um orgulho que não cabia no peito.

 Exu, Pernambuco, com o chapéu  de couro e a concertina e o baião que sacudiu todo o Brasil, voltou, mas a pessoa a quem a volta mais importava  não estava lá para ver. Damião ficou do lado de fora do muro de pedra seca até Gonzaga terminar de cantar. Depois viu o homem colocar o chapéu de volta na cabeça,  se virar-se devagar e caminhar de volta para o carro. Damião não chamou.

 Gonzaga não olhou para o lado, não se  encontraram nesse dia em Exu. Mas o que aquele soldado soube  muito mais tarde, por um caminho que nem ele mesmo esperava, foi o que Gonzaga tinha  sussurrado ao ouvido dele naquela noite do teatro em João Pessoa. A coisa que ninguém na plateia tinha  ouvido que fez Damião dobrar o corpo para a frente com as mãos na cara.

Gonzaga tinha  dito apenas: “Diz para o velho que eu vou, pode dizer que eu vou.” E foi. Só que o sertão  não espera, a seca não espera. O pulmão de um homem de 71 anos  não espera que os compromissos se acertem e os contratos se cumpram e os camiões cheguem no prazo.

 O sertão  tem o próprio tempo, e esse tempo não negoceia com ninguém, nem com o rei do baião. O que Gonzaga carregou dali em diante, ninguém pode dizer com certeza. Ele nunca falou sobre isso em entrevista, nunca mencionou publicamente o Zé Velho. A fotografia, se ficou com ele, foi enterrada nos arquivos pessoais que nunca foram completamente catalogados, mas os músicos que com ele trabalharam nos anos seguintes notaram que Asa Branca tinha mudado de jeito nas apresentações, não na letra, não na melodia, no modo como ele chegava àquela estrofe

 da saudade, naquela parte que fala da partida e da promessa de regresso ali. Dizia o acordeonista  António Barros, que tocou com Gonzaga há quase 10 anos. Ali ele fechava  os olhos por um segundo, apenas um que não era ensaiado. Era outra coisa. Era alguma coisa que  ficava dentro da música a partir desse dia, que não estava lá antes.

 Era o Exu, era o Zé Velho, era um envelope guardado durante 40  anos por um homem que tinha ensinou alguma coisa a um rapaz e nunca pediu nada  em troca. Só que a verdade chegasse antes que o tempo acabasse. Chegou. chegou aos segundos contados  dentro do bolso de um soldado fardado, numa noite de forró em João Pessoa, pela mão de um filho que atravessou 600 km porque um pai doente pediu.

  E o rei do baião, que nunca parava um espectáculo, parou. Não parou para fazer drama. Não parou para chamar  a atenção. Parou porque reconheceu no rosto de um estranho o choro silencioso de quem vem do mesmo lugar que ele, de quem aprendeu  desde criança que se chora por dentro, que não se dá trabalho a ninguém, que a dor do sertão não pede palco.

Este homem que  toda a gente conhece como rei do baião, que sacudiu o Brasil de norte a sul, com o  chapéu de couro e a concertina e o baião que se tornou identidade de um povo inteiro, este homem desceu de um palco cheio  por um soldado que estava chorando na primeira fila e voltou para Exu de carro, sem aviso, sem máquina fotográfica, sem microfone, para cantar sozinho diante de um monte de terra nova.

 Você que conheceu Gonzaga na rádio, que cresceu com asa branca a tocar no pátio de casa, que sabe de cor a letra antes mesmo de saber ler, conta aqui nos comentários qual foi a primeira vez que Gonzaga te fez parar tudo e sentir? Qual a música, qual o momento? A gente quer saber de onde é. Se inscreva se carregas o sertão no peito e nunca esqueceu o que o Gonzaga representou.

O que acabou de ouvir não é o fim desta história, é o início de uma que é ainda mais pesada,  porque há uma noite em que o próprio Gonzaga  foi colocado numa situação que ninguém esperava. Um apresentador de rádio que não sabia quem era, desafiou um desconhecido a tocar acordeão em palco, sem saber que este desconhecido era o rei do baião.

 E o que aconteceu nos 20 minutos seguintes dentro  daquele estúdio ficou guardado durante décadas, até que a fita reapareceu. A história completa está neste vídeo aqui. E se você  já assistiu, há mais histórias como esta à espera por si aqui no canal.

 

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