O Zagueiro Não Sabia Aquele “Menino” era Pelé — Desafiou na Cara e Saiu do Campo Sem Olhar Para Trás

O cronista esportivo do jornal Clarim escreveu na crônica do dia seguinte que marcar contra Delgado era como tentar atravessar um muro de concreto com as mãos nuas. Lamurala. O nome colou e colou porque era verdade. Até março de 1961, nenhum atacante da primeira divisão argentina tinha conseguido fazer Delgado parecer lento ou desajeitado ou perdido em campo. Nenhum.
Delgado podia não ser o zagueiro mais elegante do mundo, mas era eficiente. E no futebol argentino dos anos 50, eficiência valia mais do que elegância. A fama de Delgado era grande em Buenos Aires, mas era apenas em Buenos Aires. E esse era o problema, porque em 1958, enquanto Delgado estava em Avelaneda, fazendo o que fazia todo sábado, marcando centroavantes argentinos com a eficiência de quem aperta parafusos numa linha de montagem.
No outro lado do Atlântico, um garoto de 17 anos estava fazendo coisas com uma bola de futebol que o mundo nunca tinha visto. Pelé levantou a Copa do Mundo na Suécia e o planeta inteiro aprendeu o nome dele. Os jornais de Buenos Aires deram meia página pra Copa e três páginas pro campeonato local. Delgado leu sobre Pelé no jornal, viu uma foto granulada de um garoto negro brasileiro sorrindo com a taça e virou a página.
Não por desprezo, por indiferença. Pelé existia num mundo que não era o de Delgado. O mundo de Delgado era o campeonato argentino, o vestiário do Rassen, o bairro de Lanuz, as ruas de paralelepípedo e os treinos na quarta-feira e no sábado. Pelé era uma abstração, um nome no jornal, uma foto granulada que não dizia nada sobre como era enfrentar aquele garoto de perto, sentir o peso do corpo dele na disputa, ver os pés dele com a bola ao entender a velocidade com que ele pensava.
Delgado não fez nenhum esforço para saber mais sobre Pelé. não assistiu a filmagens, não pediu relatórios, não conversou com ninguém que tivesse jogado contra ele. Em 1958, a informação no futebol sul-americano viajava devagar. Um zagueiro argentino que queria saber como jogava um atacante brasileiro tinha duas opções.
Ler a crônica de um jornalista que provavelmente nunca tinha visto o jogador ao vivo ou perguntar para alguém que tivesse enfrentado. Delgado não fez nenhuma das duas. Não porque fosse arrogante, porque não achava necessário. Na cabeça de Delgado, um atacante era um atacante grande, pequeno, rápido, lento, brasileiro, uruguaio, argentino.
Todos funcionavam da mesma maneira. Todos recebiam a bola, todos tentavam virar, todos tentavam passar e ninguém passava. Tá? Essa era Zé era a verdade que Delgado carregava como um escudo. E escudos quando são pesados demais impedem não só os golpes, impedem também a visão. Enquanto Delgado vivia na bolha do futebol argentino, Pelé vivia outra coisa.
Entre 1958 e 1961, Pelé deixou de ser o garoto da Copa da Suécia e se tornou o maior jogador do mundo. Não por aclamação, por acumulação. Gol atrás de gol, jogo atrás de jogo, viagem atrás de viagem. O Santos de 1961 era uma máquina que o Brasil nunca tinha visto e que a América do Sul estava começando a temer.
Pelé, Coutinho, Pepe, Zito, Mauro, Dalmo. Um time que jogava com uma fluidez que não parecia ensaiada, que parecia nascer do instinto coletivo, da convivência de homens que jogavam juntos todos os dias e que sabiam onde o outro ia estar antes de olhar. E no centro de tudo, Pelé. Aos 20 anos, e Pelé já tinha feito mais gols do que a maioria dos atacantes fazia na carreira inteira.
Já tinha jogado em estádios de 50, 60, 70.000 pessoas. Já tinha enfrentado as melhores defesas da Europa e da América do Sul. e já tinha aprendido uma coisa que nenhum treino ensinava, que o adversário mais perigoso não era o mais forte, era o que achava que era mais forte. O convite chegou em fevereiro de 1961 por telegrama.
O Santos Futebol Clube convidava o Rassing de Avelaneda para um amistoso internacional no Pacaembu em março, como parte de uma série de jogos que o Santos estava organizando contra clubes sul-americanos. para manter o ritmo entre os compromissos oficiais e para gerar receita. A bolsa oferecida era de 15.000, Uma quantia considerável em 1961.
Há o suficiente para pagar dois meses de folha salarial do Rassen. O presidente do Rassen, um homem de negócios chamado Alfredo Beltran, que estava com as contas apertadas depois de uma temporada em que o time não ganhou nada e a bilheteria caiu, aceitou o convite antes de consultar o técnico. técnico. Um ex-jogador chamado Osvaldo Brandoni, que tinha chegado ao Rassing em 1960, depois de uma carreira medíocre como lateral direito no Valley SARsfield, soube do jogo pelo jornal Eográfico na manhã de uma segunda-feira. Brandon ligou pro
presidente. Beltran confirmou. Brandon perguntou quando era. Beltran disse que era em março, na segunda quarta-feira do mês. Brandon perguntou quanto estavam pagando. Beltran disse o valor. Brandon ficou em silêncio por um instante e depois disse que precisava preparar o time. Beltran disse que era só um amistoso.
Brandon não respondeu porque Brandoni, diferente de Delgado, sabia quem era Pelé. tinha visto Pelé jogar na Copa de 1958 pela televisão de um bar em Vélez e tinha ficado 15 minutos olhando pra tela depois que o jogo acabou, com o copo de vinho parado na mão, processando o que tinha acabado de ver. Brandoni sabia que aquilo não era só um amistoso, mas não disse nada pro presidente porque o presidente não queria ouvir.
Delgado soube pelo técnico. Brandon reuniu o elenco na quinta-feira seguinte no vestiário do Rassing em Avelaneda e anunciou o jogo contra o Santos no Pacaembu. Os jogadores reagiram com uma mistura de animação e indiferença. animação porque era uma viagem ao Brasil, porque São Paulo era uma cidade que a maioria nunca tinha visitado.
Porque jogar no Pacaembu era jogar num dos maiores estádios do continente, indiferença porque era um amistoso. Amistosos em 1961 eram jogos onde os jogadores corriam menos, disputavam menos e arriscavam menos. Ninguém queria se machucar num jogo que não valia nada. Delgado fez uma pergunta quando Brandon terminou de falar.
A pergunta foi simples e reveladora. Delgado perguntou se o Santos ia jogar com o time titular. Brandon disse que provavelmente sim. Delgado perguntou se o camisa 10 ia jogar. Brandoni disse que sim, que o Santos jogava todos os amistosos com o time completo, porque o Santos ganhava dinheiro com os amistosos e os promotores pagavam para ver o time titular, especialmente o camisa 10.
Delgado assentiu e não fez mais perguntas, mas a maneira como perguntou se o camisa 10 ia jogar, não se Pelé ia jogar. Disse tudo sobre o quanto Delgado subestimava o que ia enfrentar. Pelé não era um camisa 10. Pelé era a razão pela qual o Santos existia naquele nível. Era o centro gravitacional ao redor do qual o time inteiro orbitava.
Chamar Pelé de camisa 10 era como chamar o sol de estrela. Tecnicamente correto, praticamente insuficiente. Nos dias seguintes, Brandon tentou fazer algo que nenhum técnico do Racing tinha feito antes de um amistoso. Preparar taticamente o time para um adversário específico. Brandoni sabia que o Santos jogava com um 424 ofensivo, com Pelé flutuando entre o centro e a esquerda, com Coutinho aparecendo pelo lado oposto, com Pep fazendo a ligação entre meio e ataque.
Brandon tentou montar um esquema que contivesse os espaços onde Pelé mais recebia a bola. desenhou no quadro negro do vestiário as posições, explicou as movimentações. Disse que Delgado ia marcar Pelé individualmente e que o volante ia fazer a cobertura. Delgado ouviu de braços cruzados, encostado na parede do vestiário, com a expressão de quem já ouviu aquilo mil vezes.
Marcação individual era o que ele fazia, era o que sempre tinha feito. Não precisava de desenho no quadro negro para saber onde ficar. precisava apenas estar no caminho. E quando estava no caminho, ninguém passava. O Rassim de Avelaneda não viajou de avião para São Paulo, viajou de ônibus. Não porque não existissem voos entre Buenos Aires e São Paulo em 1961.
Existiam operados pela aerolíneas argentinas e pela Varigue, com escala em Monte Videl ou em Porto Alegre. Mas por que os voos custavam mais do que a diferença entre a bolsa do amistoso e o custo da viagem? Aí o presidente Beltran, que tinha aceitado o jogo pelo dinheiro, não ia gastar o dinheiro em passagens aéreas quando existia uma estrada que ligava as duas cidades.
O ônibus era um layand de fabricação inglesa, com assentos de couro que já tinham perdido o estofamento em vários lugares, com um motor diesel que fazia o veículo inteiro vibrar numa frequência constante e com um sistema de ventilação que consistia em abrir as janelas e torcer para entrar mais ar do que poeira.
A viagem saiu de Buenos Aires numa segunda-feira de manhã às 6 horas com 22 jogadores, o técnico, o preparador físico, o massagista e o diretor de viagens, que era um funcionário administrativo do Rassim chamado Dom Anselmo, que tinha a função de carregar os documentos, pagar as despesas e resolver problemas. Dom Anselmo era um homem baixo, careca, a de óculos fundo de garrafa, que carregava uma pasta de couro com dinheiro em espécie, porque o Rassen não tinha conta em banco no Brasil e cartão de crédito era uma coisa que existia nos Estados Unidos, mas não na realidade de
um clube argentino de segunda prateleira. A viagem deveria levar 24 horas, levou 36. O ônibus quebrou na altura de registro, no interior de São Paulo, às 2as da manhã de terça-feira. O motor super aqueceu e o motorista disse que precisava de uma peça que só se encontrava na cidade mais próxima, que ficava a 40 km.
Dom Anselmo saiu com o motorista num caminhão que passava pela estrada, deixando 22 jogadores, o técnico, o preparador e o massagista na beira de uma estrada escura no interior do Brasil, sem telefone e sem comida e sem nenhuma certeza de quando o ônibus ia voltar a andar. Delgado passou aquela noite sentado no banco de trás do ônibus parado, com as pernas esticadas no corredor porque não cabiam no espaço entre os assentos.
Ouvindo grilos e o barulho de caminhões que passavam de vez em quando na rodovia com os faróis cortando a escuridão. Dormiu em intervalos de uma hora, duas no máximo, acordando com dor no pescoço, nas costas e nos joelhos. Os mosquitos entravam pelas janelas abertas e picavam os jogadores que tentavam dormir. O massagista, um velho chamado Domingues, que trabalhava no Rassing desde os anos 40, passou a noite aplicando uma pomada de citronela nos braços e pernas dos jogadores que reclamavam das picadas.
A pomada tinha um cheiro forte de limão e álcool que se misturou com o cheiro de diesel do motor frio e com o cheiro de suor de 22 corpos que não tomavam banho desde Buenos Aires. Dom Anselmo voltou às 9 da manhã de terça com a peça e com o motorista que levou mais duas horas para consertar o motor.
O ônibus saiu de registro ao meio-dia e chegou a São Paulo às 6 da tarde, 12 horas depois do previsto. Delgado desceu na rodoviária do Bresser com as costas travadas, os olhos vermelhos, a barba por fazer e o corpo de um homem que tinha viajado 36 horas num ônibus que não foi feito para caber um zagueiro de 1,85 m. O time foi levado direto para um hotel na Liberdade.
Um hotel barato, com quartos pequenos e chuveiros que alternavam entre água gelada e água morna sem aviso. Delgado, tomou banho, a deitou na cama e dormiu 3 horas. Quando acordou era noite, o jogo era no dia seguinte. O Pacaembu em 1961 era um estádio que tinha cheiro. Não o cheiro genérico de estádio que qualquer torcedor conhece, um cheiro específico que pertencia à aquele lugar e aquela época e que quem esteve lá naqueles anos reconheceria com os olhos fechados a 50 anos de distância.
cheiro de concreto úmido que nunca secava porque a estrutura do estádio ficava parcialmente enterrada no vale entre a Consolação e o Pacaembu, e a umidade subia do solo e se instalava nas paredes como um morador permanente. Cheiro de cigarro, porque em 1961 se fumava em qualquer lugar, inclusive dentro dos vestiários, inclusive no banco de reservas, inclusive nas salas de imprensa.
cheiro de café que vinha das garrafas térmicas que os funcionários do estádio distribuíam pra comissão técnica e pra imprensa. E por baixo de tudo, o cheiro de linimento, aquele óleo de cânfora e eucalipto que os massagistas usavam para aquecer os músculos dos jogadores e que impregnava os vestiários com uma intensidade que fazia os olhos arderem.
Os vestiários ficavam no subsolo, acessados por uma rampa de concreto que descia do nível do campo para um corredor estreito com portas de ferro dos dois lados. O vestiário do time da casa ficava à esquerda, o vestiário do visitante ficava à direita. Entre os dois, o corredor tinha uns 20 m de comprimento, sem janelas, as iluminado por lâmpadas fluorescentes que zumbiam e que piscavam quando alguém ligava o chuveiro, porque a instalação elétrica do Pacaembu em 1961 não suportava muita carga ao mesmo tempo. As paredes do corredor eram de
azulejo branco ou tinham sido brancas quando foram instaladas nos anos 40. Em 1961, os azulejos tinham uma pátina amarelada de duas décadas de vapor, suor e produtos de limpeza que não limpavam tanto quanto prometiam. Delgado chegou ao Pacaembu às 4 da tarde, 4 horas antes do jogo.
O Rassin tinha feito um treino leve de manhã no campo de um clube amador na zona norte de São Paulo, que Dom Anselmo tinha conseguido emprestado e depois voltou pro hotel. para almoçar e descansar. Delgado não descansou. Ficou deitado na cama do hotel, olhando pro teto, com as costas ainda doendo da viagem, tentando visualizar o jogo.
M Delgado fazia isso antes de cada partida. Deitava, fechava os olhos e imaginava os lances. Imaginava o centroavante recebendo a bola. Imaginava a chegada dele na disputa. Imaginava o corpo bloqueando, o ombro encaixando, a bola saindo. Imaginava o muro funcionando. Sempre imaginava o muro funcionando, porque o muro sempre funcionava.
No Pacaembu, Delgado entrou no vestiário visitante e sentou num banco de madeira que rangia quando ele se mexia. O vestiário era menor do que o do Rassin em Avelaneda. Tinha oito cabides de ferro na parede, um espelho quebrado no canto, um chuveiro coletivo com quatro saídas de água e um chão de cimento que estava sempre molhado.
Delgado sentou, colocou a bolsa no chão e começou a se preparar. tirou as chuteiras da bolsa, chuteiras de couro preto, adidas, a com travas de alumínio que ele mesmo afiava com uma lima antes de cada jogo. As travas afiadas eram um hábito que Delgado tinha desde a vársia em Lanuz. Travas afiadas cravavam melhor no gramado, davam mais estabilidade na hora da disputa.
E se por acaso atingissem a canela de um atacante, o atacante ia pensar duas vezes antes de voltar. Foi enquanto afiava as travas que Delgado ouviu a voz pela primeira vez. Não veio do campo, veio do corredor. Do corredor que separava os dois vestiários. Uma voz que falava português, que ria de alguma coisa, que tinha uma energia que não combinava com o vestiário frio e úmido do Pacaimbu.
Era uma voz jovem, despreocupada, a voz de alguém que não estava nervoso, que não estava se preparando para uma batalha. Hak estava simplesmente andando de um lugar pro outro, conversando com um amigo como se fosse um dia comum. Delgado não entendeu o que a voz dizia porque não falava português, mas ouviu o tom, e o tom era o de alguém que não tinha medo de nada.
Delgado olhou pro companheiro que estava sentado ao lado dele, o lateral direito Hugo Morales, que falava um pouco de português porque tinha uma namorada brasileira em Foz do Iguaçu. Delgado perguntou quem estava no corredor. Morales se levantou, foi até a porta do vestiário, espiou pelo vão e voltou com uma expressão que Delgado não soube interpretar na hora.
Morales disse que era Pelé, que Pelé estava passando pelo corredor com outro jogador do Santos, os dois rindo, os dois de chinelo e bermuda, como se estivessem indo pra praia em vez de para um jogo de futebol. A Delgado registrou a informação e voltou a afiar as travas. Se o adversário dele estava de chinelo e bermuda 4 horas antes do jogo, tanto melhor.
Significava que não estava levando aquilo a sério. E quem não leva a sério comete erros. E erros contra Delgado custavam caro. O que Delgado não sabia e que Morales não disse porque não sabia também era que Pelé estava de chinelo e bermuda, porque Pelé estava sempre de chinelo e bermuda antes dos jogos. Era o ritual dele, chegar cedo ao estádio, andar pelos corredores, conversar com quem encontrasse, rir, relaxar, soltar o corpo e a mente antes de se concentrar.
Pelé se concentrava nos últimos 30 minutos antes do apito. Até lá era o garoto de Bauru que gostava de conversar, de rir e de estar perto das pessoas. A descontração de Pelé não era desrespeito, era método. E o método funcionava porque quando os 30 minutos finais chegavam, Pelé entrava num estado que ninguém ao redor conseguia descrever com precisão.
Os olhos mudavam, a postura mudava, a voz mudava. O garoto risonho de chinelo se transformava noutra coisa. E a outra coisa era o jogador que nenhum zagueiro do mundo queria enfrentar. O aquecimento começou às 7:30 da noite, meia hora antes do apito. O Pacaembu já tinha quase 60.
000 1 pessoas dentro com mais gente chegando pelos portões a cada minuto. O Santos entrou primeiro com o uniforme branco de treino e se espalhou pela metade do campo que era deles. O Racing entrou depois com o uniforme azul celeste e branco listrado e ocupou a outra metade. Os torcedores do Santos, que eram praticamente todos os presentes, a por 1961 ver o Santos jogar no Pacaembu? Era um evento que atraía gente de toda a cidade, não apenas santistas.
Aplaudiram a entrada do time e gritaram o nome de Pelé quando ele apareceu trotando em direção ao centro do campo. Delgado estava fazendo alongamento na intermediária do lado do Rassen, quando viu Pelé de perto pela primeira vez. Não na foto granulada do jornal, não na voz do corredor, de perto, a menos de 30 m de distância.
E o que viu não era o que esperava. Delgado esperava um jogador grande. Pelé não era grande. Tinha 1,73, pesava 70 e poucos quilos. Ao lado de Delgado, que tinha 1,85 m e quase 90 kg, Pelé parecia menor do que um centroavante deveria parecer. Delgado registrou isso com a satisfação instintiva de um zagueiro que olha pro atacante e pensa que pode dominá-lo fisicamente, mas o registro durou apenas o tempo que Pelé levou para pegar a primeira bola no aquecimento.
Pelé dominou uma bola no peito que vinha de Coutinho, deixou cair na coxa, passou pro pé direito, fez quatro embaixadinhas sem olhar para baixo e devolveu de letra para Coutinho enquanto conversava com Pep sobre alguma coisa que fez os dois rirem. A bola obedeceu Pelé de uma maneira que Delgado nunca tinha visto uma bola obedecer ninguém. Não era habilidade.
Habilidade Delgado já tinha visto em centenas de jogadores argentinos que sabiam fazer malabarismo com a bola e que no jogo de verdade não valiam o que custavam. Aquilo era outra coisa. Era uma intimidade com a bola que parecia física, quase orgânica. Há como se a bola e o corpo de Pelé fossem extensões um do outro.
Delgado assistiu durante talvez 20 segundos, depois virou de costas e continuou o alongamento. Mas alguma coisa ficou, não consciência, embaixo dela, num lugar onde a dúvida se instala antes de a mente reconhecer que está ali. O jogo começou às 8 da noite. 70.000 pessoas no Pacaembu. A noite estava fresca.
Março, em São Paulo, tem noites de 22. 23º com uma umidade que faz a camisa colar no corpo depois dos primeiros 10 minutos de jogo. O gramado do Pacaembu estava bom, cortado baixo, firme, sem aquelas poças de lama que apareciam quando chovia forte e que transformavam o campo num lamaçal, onde a técnica morria e a força bruta reinava. Naquela noite, o campo estava limpo e campo limpo favorecia quem tinha técnica. Delgado não pensou nisso.
Deveria ter pensado. Delgado estava escalado como zagueiro central com a função específica de marcar Pelé. A instrução de Brandon era clara. Não deixa ele virar. Se ele receber de costas, cola nele. Se ele virar, já era. Delgado ouviu a instrução e entrou em campo com a confiança de Lamurala, a confiança de quem nunca tinha falhado, a confiança de 7 anos de campeonato argentino sem que nenhum centroavante tivesse passado por ele de um jeito que o fizesse parecer lento ou perdido.
Delgado se posicionou atrás de Pelé na primeira bola e esperou. Nos primeiros 20 minutos, Delgado jogou o melhor futebol da vida dele. Não porque tenha feito coisas espetaculares, porque fez o básico com uma perfeição que impressionou até os jornalistas brasileiros que estavam na tribuna de imprensa.
A Pelé recebeu cinco bolas nos primeiros 20 minutos. Em três delas, Delgado cortou antes que Pelé controlasse. Nas outras duas, Pelé controlou, mas Delgado encaixou o corpo, usou o quadril, empurrou o Pelé para fora do lance e ficou com a bola sem cometer falta. Foram duas jogadas limpas, tecnicamente perfeitas, em que Delgado usou a vantagem física, 12 cm a mais, 15 kg a mais, para tirar Pelé do caminho, como quem tira uma cadeira da frente para passar.
A torcida do Santos vaiou na segunda vez que Delgado tirou Pelé do lance. Delgado ouviu a vaia e sentiu uma coisa que não devia ter sentido. Sentiu satisfação, sentiu que o muro estava funcionando, sentiu que Pelé era mais um centroavante que ia bater na parede e voltar. E nesse momento, nesse momento exato, entre o 20º e o 21º minuto de jogo, Delgado cometeu o erro que custou tudo. Delgado falou com Pelé.
Não se sabe com certeza absoluta o que Delgado disse. Os relatos divergem. Um jornalista argentino que estava na tribuna e que falava português disse depois que ouviu Delgado dizer algo em espanhol na direção de Pelé durante uma parada pra lateral. Outro jornalista brasileiro disse que viu Delgado se aproximar de Pelé e falar algo no ouvido enquanto esperavam a cobrança.
O massagista dos Santos, que contou a história anos depois num bar em Santos, disse que ouviu de um jogador do Rassin que Delgado tinha dito para Pelé que ele era pequeno e que não iba a pasar, pequeno e que não ia passar. O que Delgado disse exatamente não importa tanto quanto o que aconteceu depois de ele ter dito.
A de porque a provocação verbal a Pelé era uma coisa que os veteranos dos santos conheciam e que temiam não por Pelé, mas pelo adversário. Porque Pelé, quando provocado, não respondia com palavras, não respondia com faltas, não respondia com empurrões. Pelé respondia com futebol. E quando Pelé respondia com futebol, o futebol que saía era de uma crueldade técnica que não parecia humana.
Pelé não falou durante os primeiros 30 minutos de jogo, não reclamou das divididas, não olhou para Delgado com raiva, não gesticulou pro juiz, não fez nada do que um atacante frustrado normalmente faz quando está sendo marcado de perto por um zagueiro que não dá espaço. Pelé ficou calado e o silêncio de Pelé era para quem jogava com ele, o equivalente a uma bomba sendo armada. Coutinho sabia.
Coutinho jogava com Pelé desde os tempos das categorias de base dos Santos e conhecia cada variação de humor do parceiro. Sabia que quando Pelé ficava calado depois de levar uma cotovelada ou uma pisada ou uma provocação verbal, o silêncio significava que Pelé estava processando, não processando raiva, processando decisão.
estava decidindo o que ia fazer, como ia fazer e quando ia fazer. E quando a decisão era tomada, o resultado era inevitável. Zito sabia também. Zito, que era o capitão dos Santos e que tinha a função de organizar o meio de campo, olhou para Pelé aos 25 minutos e viu uma coisa nos olhos dele que reconheceu imediatamente. Os olhos de Pelé tinham mudado, não de cor, obviamente, de intensidade.
Os olhos que 15 minutos antes estavam no rosto do garoto de Bauru, que ria e conversava e jogava futebol como quem se diverte, agora estavam no rosto de outra pessoa. Uma pessoa que Zito conhecia e que respeitava e que, se fosse honesto consigo mesmo, temia um pouco. Porque a pessoa que aparecia nos olhos de Pelé naqueles momentos não era o garoto, era o jogador.
E o jogador era capaz de coisas que o garoto jamais faria. Pep contou anos depois que aos 30 minutos do primeiro tempo, quando o Santos teve um lateral no meio de campo, Pelé se aproximou dele e disse apenas uma frase: quatro palavras. Pepou quais eram as quatro palavras, mas disse que quando ouviu soube que Delgado ia sofrer. Não sofrer fisicamente, sofrer de uma maneira que não tinha cura.
Sofrer no orgulho, sofrer na identidade, a sofrer naquilo que Delgado acreditava ser. O muro que ninguém passava, porque Pelé ia passar e ia passar de um jeito que todo mundo ia ver. O primeiro tempo terminou 1 a 0 pro Santos com gol de Pep aos 40 minutos. Numa jogada que não envolveu Pelé diretamente, Delgado saiu pro intervalo, achando que tinha feito um bom jogo.
E tinha, nos termos que Delgado conhecia, tinha marcado Pelé de perto, tinha cortado bolas, tinha ganhado divididas. Pelé não tinha marcado gol. O muro nos números estava intacto, mas os números não contavam o que estava acontecendo por baixo dos números. Não contavam que Pelé tinha parado de tentar receber de costas, o que significava que tinha parado de fazer o que Delgado esperava.
Não contavam que Pelé tinha começado a aparecer em posições diferentes, flutuando pela esquerda, aparecendo na direita, acaindo pro meio de campo, obrigando Delgado a se deslocar mais do que nunca se deslocava. Não contavam que Delgado, aos 45 minutos do primeiro tempo, já tinha corrido mais do que corria em 90 minutos de campeonato argentino.
E não contavam que as pernas de Delgado, que tinham viajado 36 horas num ônibus e que não tinham descansado direito, estavam começando a pesar. O segundo tempo começou e Pelé mudou, não de posição, de atitude. Nos primeiros 15 minutos do segundo tempo, Pelé pediu a bola oito vezes. Nas oito vezes recebeu.
Nas oito vezes tentou passar por Delgado. Nas três primeiras, Delgado conseguiu parar. Na quarta, Pelé passou por ele pela primeira vez. Um drible curto, corpo para um lado, bola pro outro. E Delgado se recuperou só porque Pelé chutou para fora. Na quinta, Pelé passou de novo. Uma aceleração pura, sem drible, apenas velocidade. E Delgado se recuperou porque Zito fez a jogada errada e a bola saiu pela linha de fundo.
Na sexta, Pelé passou uma terceira vez e só não marcou porque o goleiro do Rassin fez a defesa da vida. Na sétima, Pelé quase passou, mas Delgado conseguiu colocar o pé e tirar a bola para escanteio. Na oitava, Pelé recebeu de frente, olhou para Delgado e devolveu a bola para Coutinho, sem tentar o drible. como se estivesse testando, como se estivesse medindo, como se estivesse esperando.
Delgado sentiu, sentiu que a cada lance o espaço entre ele e Pelé ficava menor. Não o espaço físico, o espaço de tempo. O tempo que Delgado levava para reagir estava diminuindo, não porque Pelé estivesse ficando mais rápido, mas porque Delgado estava ficando mais lento. As pernas que tinham viajado 36 horas de ônibus estavam pesando agora de verdade.
A acidez láctica subia pelas coxas e pelas panturrilhas e transformava cada arrancada numa negociação entre a vontade e o corpo. Delgado era forte, era duro, aguentava dor como poucos. Mas o corpo tem limites que a vontade não consegue ultrapassar e os limites estavam chegando. Aos 30 minutos do segundo tempo, o jogo estava 2 a 1 pro Santos.
Coutinho tinha marcado o segundo aos 20 minutos num chute de fora da área. O Racing tinha descontado aos 25 num gol de cabeça do centroavante Ruben Sosa, aproveitando uma falha da defesa santista numa cobrança de escanteio. O jogo estava aberto, competitivo, honesto. Delgado tinha levado três dribles de Pelé no segundo tempo, mas nenhum deles tinha resultado em gol.
O muro tinha rachado, mas não tinha caído. E Delgado, com a teimosia de quem construiu uma vida inteira em cima de uma única convicção, acreditava que podia aguentar mais 7 minutos e sair dali com a dignidade intacta. Aconteceu aos 37 minutos do segundo tempo. O Santos tinha uma falta na intermediária do lado esquerdo a uns 35 m do gol do Rassin.
Pelé não bateu a falta, ficou na área à espera do cruzamento. Delgado se posicionou atrás dele, colando o corpo, sentindo o calor do corpo de Pelé contra o peito dele, as costas de Pelé contra o peitoral de Delgado, os dois esperando a bola com atenção de dois animais que sabem que o próximo segundo decide tudo. Zito bateu a falta, levantou a bola na área, a bola veio alta, com efeito caindo na segunda trave.
O zagueiro esquerdo do Rassen subiu e cabeceou pra frente, afastando. A bola bateu no meio de campo, quicou uma vez e sobrou num espaço entre a linha do meio e a entrada da área do Rassen. Um espaço de ninguém, uma bola que não era de ninguém. Pelé chegou primeiro, não porque tivesse arrancado, porque já estava se movendo antes de a bola chegar.
como se soubesse onde a bola ia cair antes de a bola cair, como se o espaço onde a bola ia quicar fosse um ponto no campo que ele já tinha marcado na mente enquanto esperava a cobrança da falta. Pelé chegou a bola de costas para Delgado, dominou com o pé direito. A bola parou morta no chão, como se tivesse sido colada ali. Delgado chegou um segundo depois, um segundo que em condições normais não era nada.
Um segundo que aos 37 minutos do segundo tempo, a depois de 36 horas de viagem e 77 minutos de jogo, marcando o melhor jogador do mundo, era tudo. E o que aconteceu nos 4 segundos seguintes foi a coisa que destruiu a carreira de Ramon Delgado. Pelé recebeu de costas. Delgado colou nele, como mandava a instrução.
Encaixou o ombro nas costas de Pelé, empurrou. O corpo de Pelé cedeu 1 cm, dois, como se fosse cair pra frente. E então Pelé fez uma coisa que Delgado não entendeu na hora e que passou o resto da vida tentando entender. Pelé girou. Não girou devagar, não girou com aviso, girou com uma velocidade de rotação que não parecia possível para um corpo que estava sendo empurrado por um homem de quase 90 kg.
girou por cima da bola, com o corpo inteiro rodando sobre o eixo do pé esquerdo, levando a bola junto no giro. E e quando completou os 180º do movimento, menos de um segundo, talvez 6 d Pelé estava de frente para Delgado. De frente, olhando nos olhos dele com a bola no pé direito. E Delgado estava parado, completamente parado, com o corpo inclinado pra frente, na posição em que estava empurrando um instante antes, com o peso no pé errado, com o equilíbrio comprometido, com as pernas que já não respondiam na velocidade que
a situação exigia. Pelé olhou nos olhos de Delgado. Foram menos de meio segundo, mas naquele meio segundo, Delgado viu uma coisa nos olhos de Pelé, que o acompanhou pelo resto da vida. Não era raiva, não era triunfo, era algo que Delgado só conseguiu descrever muitos anos depois, numa entrevista a um jornalista argentino que o encontrou morando numa casa modesta em Lanuz, aposentado, é vivendo da pensão da ferrovia que o pai tinha deixado.
Delgado disse que o que viu nos olhos de Pelé naquele meio segundo era pena. Não a pena de quem se acha superior, a pena de quem sabe o que vai fazer e sabe que o outro não pode evitar. A pena de um homem que tem nas mãos o poder de destruir e que não sente prazer nisso, mas que vai destruir a si mesmo, porque é o que o jogo exige.
Depois do giro, Pelé deu um toque curto pra direita, puxando a bola para fora do alcance de Delgado. Delgado tentou girar junto, as pernas não acompanharam. O corpo foi, mas os pés ficaram e Delgado caiu. Não levou uma rasteira, não foi empurrado, caiu sozinho. Caiu porque o corpo não aguentou acompanhar o movimento, porque as pernas travaram.
Só porque o equilíbrio que sustentava Laamurala durante 90 minutos de futebol argentino não era suficiente para acompanhar Pelé num giro de 180º, seguida de uma aceleração lateral. Delgado caiu sentado no relvado do Pacaembu, como caem as pessoas quando apanham um susto que tira as pernas do lugar.
Sentou-se no chão com as pernas abertas e olhou em frente e viu Pelé a afastando com a bola. Livre, sem marcação, correndo em direção à baliza. O guarda-redes do Rassin saiu. Pelé não abrandou, não esperou, não calculou, rematou com o pé direito de fora da área, com a bola a subir numa curva que passou por cima da mão esticada do guarda-redes e entrou no ângulo esquerdo da baliza com uma violência que fez a rede estufar e voltar como se tivesse levado um soco.
70.000 pessoas no Pacaembu ficaram de pé ao mesmo tempo, mas não gritaram imediatamente. Houve um silêncio, um silêncio de dois, talvez 3 segundos. O silêncio que acontece quando 70.000 pessoas vem uma coisa ao mesmo tempo e necessitam de um instante para processar se aquilo realmente aconteceu. E depois do silêncio, o grito, o grito mais alto que aquele estádio ouviu nesse ano.
O grito de 70.000 pessoas que tinham acabado de ver o Pelé fazer uma coisa com um defesa que ninguém achou possível. Delgado estava sentado no relvado quando o golo entrou. Continuou sentado quando a claque gritou. Continuou sentado quando os jogadores do Santos correram para abraçar Pelé.
Continuou sentado durante quase 10 segundos, que é uma eternidade quando 70.000 pessoas estão a olhar. E quando finalmente se levantou, não olhou paraa Pelé, não olhou para o placar, não olhou para ninguém. levantou-se, sacudiu a relva do calção e voltou paraa posição com a cabeça baixa. Voltou a andar, não trotando, andando com o passo de quem sabe que uma coisa acabou e que não tem volta.
O Santos marcou mais um nos minutos finais, fechando em 4-1. Delgado levou mais um drible de Pelé nos acréscimos, mas esse já não importava. O drible dos 4 segundos já tinha feito o que precisava de fazer. já tinha destruído aquilo que precisava destruir. Quando o juiz apitou o final, Delgado não cumprimentou ninguém, não apertou mãos, não mudou camisola e trocar de camisola em amigáveis internacionais era um ritual que quase ninguém recusava em 1961, porque as camisolas das equipas rivais eram troféus que os jogadores levavam para casa e guardavam-nos com orgulho. Delgado
não quis troféu, não quis lembrança, não não quis nada daquele campo, daquela noite, daquele jogo. Ah, saiu pelo túnel lateral do Pacaembu com a cabeça baixa, sem olhar para trás, sem olhar para o placar eletrónico que mostrava Santos 4 a 1 Rassin, sem olhar para os companheiros que vinham atrás em silêncio.
O banco de reservas do Rassin já estava vazio quando Delgado passou. Os reservas tinham descido para o balneário nos minutos finais, quando o jogo já estava decidido. Delgado entrou no balneário e sentou-se no mesmo banco de madeira que rangia. O mesmo banco onde tinha estado sentado 4 horas antes, quando afiar os fechos das chuteiras e ouvir a voz de Pelé no corredor era tudo o que existia no mundo.
Sentou-se e ficou ali sem tirar as chuteiras, sem tirar as caneleiras, sem despir a camisa encharcada de suor, sem se mexer. Durante quase 15 minutos, Delgado esteve sentado naquele banco, a olhar para o chão de cimento húmido do vestiário do Pacaembu, e ninguém se atreveu a falar com ele. Os companheiros entraram um a um, tiraram as chuteiras, tiraram as caneleiras, foram para o duche.
Ninguém disse nada a Delgado, não por indiferença, por respeito, porque os Os jogadores do Rassin tinham visto o que aconteceu, tinham visto de perto e sabiam que não havia nenhuma frase no mundo que servisse para aquele momento. Não havia palmada nas costas, não havia jogo que vem, não havia cabeça erguida que fizesse sentido.
O que Pelé tinha feito com Delgado não era uma derrota, era uma revelação. revelação de que o muro que Delgado tinha construído ao longo de uma carreira inteira era feito de um material que não resistia à Pelé. E esta revelação, uma vez feita, não podia ser desfeita, não podia ser esquecida, não podia ser relativizada.
Estava ali no chão de cimento do vestiário, no suor da camisola na lama das chuteiras, no silêncio dos companheiros. O treinador Brandon entrou no balneário 15 minutos depois do apito final, olhou para Delgado. Delgado não levantou os olhos. Brandon ficou de pé durante um instante, como se estivesse a decidir se dizia alguma coisa. não disse.
Saiu do balneário e foi para o corredor, onde Dom Anselmo estava a fumar um cigarro encostado à parede de azulejo amarelado, com a pasta de couro debaixo do braço e a expressão de um homem que queria estar em qualquer parte do mundo, menos ali. Brandon disse a Don Anselmo que o equipa ia dormir no hotel e viajar na quinta-feira de manhã. Dom Anselmo assentiu.
Brandon disse mais uma coisa baixo, quase num sussurro que Dom Anselmo ouviu e que repetiu anos depois a um jornalista que estava escrevendo um livro sobre os amistosos internacionais dos santos nos anos 60. A Brandon disse que não ia falar sobre o jogo com ninguém e que ninguém do Rassen devia falar sobre o jogo com ninguém.
Não porque fosse vergonhoso perder de 4 a 1 pro Santos. Perder dos santos era normal. Todo mundo perdia dos santos. Mas porque o que Pelé tinha feito com Delgado era uma coisa que, se fosse contada, ninguém ia acreditar. E se alguém acreditasse, a reputação de Delgado e por extensão a reputação da zaga do Rassin ia ser destruída.
Melhor deixar aquilo morrer ali, no vestiário, na viagem de volta, no silêncio. Melhor fingir que nunca aconteceu. Mas nunca aconteceu não funciona quando 70.000 pessoas viram. Nunca aconteceu. Não funciona quando os jornalistas da tribuna de imprensa estavam escrevendo as crônicas naquele momento, a com máquinas de escrever portáteis sobre as mesas de fórmica da sala de imprensa do Pacaembu, descrevendo o Gold de Pelé com palavras que variavam de jornalista para jornalista, mas que convergiam num ponto. O zagueiro argentino sentou no
chão. Sentou no chão sem ninguém ter tocado nele. Pelé passou e o homem sentou. A crônica do estado de São Paulo do dia seguinte usou uma frase que ficou: “O argentino construiu um muro. Pelé passou por cima, por baixo e pelo meio. Quando acabou, o muro não existia mais e o argentino estava sentado no chão, olhando pro nada como um homem que acordou do próprio funeral.
A crônica do jornal dos esportes do Rio de Janeiro, que cobria o jogo por correspondência telefônica, foi mais direta. Pelé humilhou o zagueiro argentino com um gol que devia ser proibido pela convenção de Genebra. Ó, nenhuma das crônicas mencionou Delgado pelo nome. Ele era o zagueiro argentino, o argentino, o defensor.
Lamurala era um apelido que fazia sentido em Buenos Aires, mas que não significava nada em São Paulo. E em São Paulo, naquela noite, Delgado tinha deixado de ser qualquer coisa que pudesse ter sido. A viagem de volta para Buenos Aires foi pior do que a ida. O mesmo ônibus Layland que Dom Anselmo tinha conseguido consertar com a peça de registro.
Os mesmos assentos de couro desgastado, o mesmo motor diesel vibrando, 36 horas de estrada. Mas dessa vez o silêncio era diferente. Na ida o silêncio era de sono e cansaço. Na volta o silêncio era de derrota. E dentro da derrota, o silêncio específico que cercava Delgado era diferente do silêncio que cercava os outros.
Os outros tinham perdido um jogo. Delgado tinha perdido uma identidade. Delgado viajou no mesmo banco de trás, com as mesmas pernas esticadas no corredor, mas dessa vez não dormiu. Ficou acordado durante as 36 horas inteiras, olhando pela janela pro interior do Brasil, que se transformava no interior da Argentina, conforme o ônibus cruzava a fronteira.
Olhando para as estradas de terra, que viravam estradas de asfalto, que viravam ruas de paralelepípedo, conforme se aproximavam de Buenos Aires, ninguém sentou ao lado dele, ninguém tentou conversar. Morales, o lateral que falava português, ficou na frente do ônibus a viagem inteira. O Wrestling voltou a jogar no sábado seguinte contra o San Lorenzo pelo campeonato argentino.
Delgado jogou, marcou o centroavante do San Lorenzo sem dificuldade. O jogo terminou 1 a 1. Ninguém comentou o amistoso contra o Santos. Ninguém mencionou o gol de Pelé. Ninguém chamou Delgado de lamurá-la durante as duas semanas seguintes. O apelido, que antes era motivo de orgulho, tinha se tornado uma coisa que ninguém queria dizer em voz alta, porque dizer em voz alta era lembrar.
E lembrar era vergado sentado no chão do pacaembu, com as pernas abertas e o olhar vazio de quem acabou de descobrir que o muro era feito de papel. Delgado jogou mais dois anos no Rassen, perdeu a titularidade em 1962, quando o técnico novo decidiu que a zaga precisava de jogadores mais rápidos e escalou um garoto de 20 anos chamado Alfredo Ramos, que corria mais e pesava menos.
Delgado aceitou o banco de reservas sem reclamar. Jogou alguns jogos como substituto. Em 1963, o contrato não foi renovado. Delgado voltou para Lanuz, voltou pra casa dos pais, para Cali Remédios de Escalada, a para o bairro de Paralelepípedo e Valetas. conseguiu um emprego na mesma ferrovia onde o pai tinha trabalhado, não como ferroviário, mas como funcionário administrativo, preenchendo formulários num escritório que ficava ao lado dos trilhos e que vibrava toda vez que um trem passava.
Não voltou a jogar futebol profissional. Jogou alguns jogos de vársia em Lanuz aos domingos com amigos do bairro em campinhos de terra que pareciam os mesmos campinhos onde tinha jogado quando criança. Não falava sobre o Rassen, não falava sobre o Pacaembu, não falava sobre Pelé. Quando alguém mencionava aquela noite de março de 1961, Delgado mudava de assunto com a habilidade de quem praticou a esquiva durante anos.
Em 1978, a um jornalista argentino chamado Eduardo Rivas estava fazendo uma pesquisa sobre os amistosos internacionais de clubes argentinos nos anos 60 para um livro que nunca chegou a publicar. Rivas encontrou o nome de Delgado numa escalação do Rassim contra o Santos no Pacaembu e rastreou o endereço dele até Lanuz.
foi até a Cale Remédios de Escalada e bateu na porta do número 1847. Delgado abriu. Tinha 44 anos. O cabelo que era preto nos anos 60 estava grisalho. O corpo que era de 90 kg estava mais magro, com os ombros caídos de quem passa o dia sentado numa cadeira de escritório. Os olhos que Rivas descreveu no rascunho do livro, como os olhos de um homem que viu uma coisa que não conseguiu processar, ainda tinham uma sombra daquilo que tinha acontecido 17 anos antes.
Rivas pediu uma entrevista. Delgado aceitou com relutância. Sentaram na cozinha da casa com café e facturas que a mãe de Delgado preparou. Rivas perguntou sobre a carreira no Rassing. Delgado respondeu com frases curtas e factuais. Rivas perguntou sobre o jogo contra o Santos. Delgado ficou em silêncio por quase 10 segundos.
Depois disse que foi um jogo difícil. Rivas perguntou sobre o gol de Pelé. Delgado ficou em silêncio de novo. Mais tempo dessa vez. Depois disse uma coisa que Rivas anotou no caderno com letras maiúsculas porque sabia que era importante. Delgado disse que antes daquela noite ele acreditava que sabia o que era futebol, que tinha jogado futebol por 15 anos e que entendia o jogo, entendia as regras, entendia os limites do que um corpo humano podia fazer com uma bola.
e que naquela noite, num lance de 4 segundos, a Pelé mostrou para ele que tudo o que ele achava que sabia estava errado, que o futebol que Pelé jogava não era o mesmo futebol que Delgado jogava, que era outro esporte, outro planeta e que a coisa mais difícil da vida dele não foi cair no chão do Pacaembu na frente de 70.000 pessoas.
A coisa mais difícil foi se levantar depois e continuar vivendo num mundo onde sabia que tinha encontrado alguém que fazia parecer que tudo o que ele tinha construído nunca existiu. Rivas perguntou se Delgado sentia raiva de Pelé. Delgado disse que não. Disse que sentiu raiva durante uns dois, tr anos. Depois a raiva virou outra coisa.
Virou uma espécie de respeito que doía, um respeito que não era admiração, porque admiração é uma coisa que se sente à distância. E o que Delgado sentiu não era a distância, era de perto. Era o respeito de quem olhou nos olhos de Pelé a menos de 1 metro de distância, no momento em que Pelé ia destruir tudo. E viu naqueles olhos não crueldade, não arrogância, mas algo que Delgado só conseguiu nomear muitos anos depois.
Pena! Disse Delgado para Rivas. Vi pena nos olhos dele. Não a pena de quem se acha melhor, a pena de quem sabe o que vai fazer e sabe que o outro não pode evitar. Rivas anotou. Delgado tomou um gole de café e depois disse a última coisa que disse sobre aquela noite, a coisa que Rivas sublinhou três vezes no caderno e que é a frase que ficou quando tudo o mais se perdeu.
Eu construí um muro à vida inteira. Pelé me mostrou que muros não param o vento. Ele era o vento e eu era só pedra. Rivas agradeceu e foi embora. O livro nunca foi publicado. Os cadernos de rivas ficaram guardados numa caixa no apartamento dele em Buenos Aires durante décadas. Até que o filho, depois da morte de Rivas em 2004, encontrou as anotações e as doou pra biblioteca do Clube Vy Sarsfield, onde estão até hoje numa caixa de papelão na prateleira debaixo de um arquivo que quase ninguém consulta. Delgado morreu em 1999,
aos 65 anos, na mesma casa da Cali Remédios de Escalada em Lanuz. Morreu de enfisema pulmonar. Consequência de 40 anos de cigarro. O mesmo cigarro que fumava no vestiário, no banco de reservas, na beira do campo, como praticamente todo jogador de futebol daquela geração, fumava sem que ninguém achasse estranho.
O velório foi na sala da casa. Os amigos do bairro vieram, alguns ex-jogadores do Rassing vieram. Morales, o lateral que falava português, veio de Córdoba, aonde morava desde os anos 80. Ninguém mencionou o Pacaembu durante o velório. Ninguém precisou, porque todo mundo que estava ali sabia. E o que sabiam era a mesma coisa que Delgado sabia desde aquela noite de março de 1961, sentado no chão de um estádio em São Paulo, olhando pro nada, enquanto 70.
000 pessoas gritavam ao redor, que tinha encontrado o vento e que o vento não se importa com muros. Pelé nunca soube o nome de Delgado. Não porque Pelé fosse arrogante ou indiferente, porque em 1961 Pelé enfrentava um zagueiro diferente a cada 3 dias. O Santos jogava entre 80 e 100 jogos por ano, entre Campeonato Paulista, torneios nacionais, amistosos internacionais e excursões pela Europa, África e Ásia.
Pelé driblava. passava, marcava e seguia pro próximo jogo. Os zagueiros eram obstáculos temporários. A desafios de 90 minutos que se dissolviam no placar final. Pelé não guardava nomes, guardava lances. E aquele lance, o giro, a queda, o gol, ficou na memória dele como mais um lance numa coleção de milhares.
Em 1972, num programa de televisão em São Paulo, o apresentador mostrou a Pelé uma fotografia antiga de um jogo contra o Rassing no Pacaembu e perguntou se ele lembrava. Pelé olhou a foto, reconheceu o estádio, reconheceu a camisa do Rassen e disse que lembrava do jogo, mas não lembrava do resultado.
O apresentador disse que tinha sido 4 a 1. Pelé sorriu e disse que 4 a 1 era um placar bom. O apresentador perguntou se lembrava de algum lance específico. Pelé pensou por um momento e disse que lembrava de um gol bonito, um giro sobre o zagueiro, mas que não lembrava quem era o zagueiro. Não lembrava o nome, não lembrava o rosto, lembrava o giro, lembrava a bola entrando, lembrava o grito da torcida.
do homem que ficou sentado no chão depois do giro. Nenhuma memória. Essa é talvez a parte mais cruel da história. Não a queda, não a humilhação, não o fim da carreira. A parte mais cruel é que o lance que destruiu a vida de Ramon Delgado foi para Pelé um lance entre milhares, um giro entre centenas de giros, um gol entre mil e tantos gols.
A coisa que acompanhou Delgado durante 38 anos, que mudou a carreira dele, que mudou a identidade dele, que mudou a maneira como ele se via no espelho. coisa para Pelé não teve peso, não teve nome, não teve rosto, foi terça-feira, foi mais um jogo, foi mais um giro. E é isso que significa enfrentar o maior jogador da história. Não é perder.
Perder é normal. Perder acontece com todo mundo. Enfrentar Pelé era descobrir que o momento mais importante da sua vida era para ele um detalhe que não merecia ser lembrado. Era descobrir que o muro que você construiu a vida inteira, o muro que era a sua identidade, o muro que Buenos Aires inteira conhecia e respeitava, esse muro era invisível para ele.
Não porque ele fosse cruel, porque ele era o vento. E o vento não vê muros, passa por eles, passa por cima, por baixo e pelo meio. E quando passa, não olha para trás. Delgado saiu do campo naquela noite sem olhar para trás, não por orgulho, por vergonha, mas também por uma coisa que talvez ele não tenha reconhecido na hora e que talvez tenha reconhecido só muitos anos depois, sentado na cozinha da casa em Lanuz, com um jornalista que nunca publicou o livro.
É, saiu sem olhar para trás, porque olhar para trás era ver o campo onde Lamurala morreu. E ninguém quer ver o lugar onde aquilo que o definia deixou de existir. Passaram-se os anos, o Pacaembu continuou recebendo jogos, o Racing continuou jogando na Argentina, o Santos continuou viajando o mundo com Pelé. E na Cali Remédios de Escalada em Lanus, um homem que já tinha sido um muro, continuou vivendo a vida que sobrou.
Depois que o muro caiu, uma vida de escritório, de formulários, de trens que passavam e faziam o chão vibrar, de domingos jogando vársia com os amigos do bairro, de cigarros fumados na porta de casa, olhando pro céu de Buenos Aires. Uma vida que não era ruim, mas que tinha um buraco no meio que tinha a forma exata de 4 segundos num campo de futebol em São Paulo.
O caderno de rivas está na biblioteca do Vy Sarsfield. Até hoje, numa caixa de papelão, na prateleira de baixo, quase ninguém consulta. Dentro dele, na página 47, com letras maiúsculas sublinhadas três vezes, está a frase que Delgado disse e que é a única coisa que sobreviveu de tudo aquilo. Eu construí um muro à vida inteira.
Pelé me mostrou que muros não param o vento. Ele era o vento e eu era só pedra. A pedra ficou em Lanuz. O vento seguiu pelo mundo e o Pacaembu que viu tudo acontecer continua ali no vale entre a Consolação e o Pacaembu, com o cheiro de concreto úmido e as paredes de azulejo que já foram brancas. E se alguém descer a rampa, entrar no corredor e parar na frente do vestiário visitante, talvez ainda consiga ouvir, se prestar muita atenção, o rangido de um banco de madeira, a o rangido de um homem que sentou ali e nunca levantou de
verdade. Pzie.

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