A imagem que o mundo guardou de John Denver é quase pastoral. Um homem sorridente, de cabelos loiros e lisos que balançavam ao vento, óculos redondos de aro de metal que lhe conferiam um ar de intelectualidade pacífica, e camisas western com bordados coloridos e artesanais. Ele era a personificação da pureza americana dos anos 1970, o bardo que celebrava as montanhas rochosas do Colorado, as estradas de terra da Virgínia Ocidental e os prazeres simples de uma vida em comunhão com a natureza. Suas melodias suaves e sua voz cristalina eram o antídoto perfeito para uma era marcada pela Guerra do Vietnã e pelo escândalo de Watergate. Denver vendeu mais de 33 milhões de discos, superou recordes de Elvis Presley na gravadora RCA e foi recebido como um embaixador da paz em territórios tão distantes e fechados quanto a União Soviética e a China comunista.
No entanto, por trás dessa fachada bucólica e do otimismo comercializável, existia uma realidade fraturada e profundamente sombria. O homem que cantava sobre o amor universal e a serenidade das florestas lutava contra demônios internos violentos, vícios pesados e um temperamento explosivo que aterrorizava as pessoas mais próximas a portas fechadas. O desfecho de sua trajetória, em 12 de outubro de 1997, nas águas do Oceano Pacífico, foi vendido ao público como uma trágica fatalidade da aviação. Mas a verdade que os investigadores do Conselho Nacional de Segurança nos Transportes (NTSB) desenterraram ao juntar as peças daquele quebra-cabeça revelou algo muito mais perturbador. A morte de John Denver não foi um acidente imprevisível; foi o ato final de uma vida de negação, autossabotagem e uma teimosia crônica que o levou a pilotar de forma totalmente clandestina e ilegal.
O Peso do Sobrenome e a Solidão Desarraigada
Para compreender a complexidade psicológica de John Denver, é preciso voltar às suas origens, que estão longe da calmaria rural que ele mais tarde adotaria como marca registrada. Ele nasceu Henry John Deutendorf Junior em 31 de dezembro de 1943, na cidade de Roswell, no Novo México. A aviação estava entranhada em seu DNA de forma literal e opressora. Seu pai, o capitão Henry “Dutch” Deutendorf Senior, era uma lenda viva da Força Aérea dos Estados Unidos, um piloto de testes rigoroso que estabeleceu três recordes mundiais de velocidade pilotando o bombardeiro estratégico B-58 Hustler. “Dutch” era um herói militar condecorado, um homem moldado pela disciplina cega e pela frieza necessária para domar máquinas de guerra supersônicas. Ele acabou sendo incluído no Hall da Fama da Força Aérea, uma sombra gigantesca sob a qual o jovem John teria que crescer.
A vida em uma família de militares de alta patente impôs a John uma infância sem raízes. Devido às constantes transferências de seu pai, a família mudava-se de estado quase todos os anos. Ele passou pela dureza do deserto do Arizona, pelas bases militares do Alabama e pelas planícies do Texas. No momento em que o garoto começava a se adaptar a uma escola, a reconhecer as ruas e a ensaiar as primeiras amizades, a ordem de marcha chegava. Era hora de empacotar tudo e partir para o desconhecido. Esse nomadismo compulsório gerou no menino um sentimento profundo e permanente de isolamento, solidão e inadequação. John sentia que não pertencia a lugar nenhum, que era sempre o “garoto novo” e deslocado no fundo da sala de aula.
O ponto de virada que salvou John desse abismo emocional ocorreu quando ele completou 11 anos. Sua avó materna, percebendo a melancolia e o isolamento do neto que então vivia em Tucson, no Arizona, deu-lhe um presente que mudaria o rumo de sua existência: um violão Gibson antigo, fabricado em 1910. Para um garoto desenraizado, aquele instrumento de madeira com mais de quarenta anos de história tornou-se a única constante tangível em um mundo em constante mutação. A música transformou-se no canal por onde John conseguia escoar as angústias que não ousava verbalizar diante do pai severo. Pouco tempo depois, ele ingressou no prestigiado Coral Masculino de Tucson, onde refinou sua técnica vocal, aprendeu os meandros da harmonização e descobriu o poder de dominar um palco. Pela primeira vez, cercado por vozes que se fundiam à sua, ele experimentou o sentimento de pertencimento que a vida familiar e escolar lhe negavam.
A relação com o pai, contudo, permanecia tensa. “Dutch” Deutendorf esperava que seu filho homem seguisse seus passos na engenharia ou na carreira militar, demonstrando pouca paciência para as inclinações poéticas e artísticas do jovem. John era uma alma sensível, mais interessada em capturar a beleza do mundo em versos do que em calcular trajetórias de mísseis. O único terreno comum onde pai e filho conseguiam desarmar os espíritos e se conectar era o céu. Quando John aprendeu a pilotar, a paixão compartilhada pelo voo operou o milagre de aproximar os dois homens. Lá em cima, distantes das cobranças terrestres, eles encontraram uma linguagem de respeito mútuo. Contudo, essa mesma paixão pelo risco e pela imensidão azul que uniu pai e filho tornaria-se, décadas mais tarde, a sentença de morte do músico.
A Invenção de um Ícone e o Estouro Global
Ao ingressar na Universidade Texas Tech para estudar arquitetura, John tentou submeter-se aos desejos paternos de uma carreira convencional. No entanto, a força da música foi avassaladora. Ele passava mais tempo tocando em DCEs e bares locais do que debruçado sobre pranchetas de desenho técnico. Percebendo que estava desperdiçando sua vida em uma mentira acadêmica, tomou a decisão radical de largar a faculdade e se mudar para Los Angeles, o epicentro da indústria fonográfica na década de 1960.
A primeira providência do jovem artista foi assassinar sua própria identidade civil. Henry John Deutendorf Junior era um nome pesado, difícil de pronunciar e excessivamente associado à rigidez germânica de seu pai. Inspirado pela capital do estado do Colorado, um lugar cujas paisagens alpinas o fascinavam e serviam de combustível para sua imaginação, ele adotou o sobrenome artístico de John Denver. Era o nascimento do mito. Em 1965, a persistência de Denver foi recompensada de forma monumental. Ele se inscreveu para uma audição que buscava um substituto para Chad Mitchell no aclamado grupo de música folk Chad Mitchell Trio. Disputando a vaga com mais de 250 cantores talentosos de todo o país, a clareza de sua voz e seu carisma rústico garantiram-lhe o posto de vocalista principal.
Os dois anos que passou no Chad Mitchell Trio foram uma escola intensiva de sobrevivência na estrada. Ele gravou três álbuns com o grupo e aprendeu a projetar sua presença de palco para plateias exigentes. Mas o verdadeiro trunfo de Denver estava em sua caneta. Foi durante esse período de hotéis baratos e viagens de ônibus que ele compôs uma balada melancólica chamada originalmente “Babe, I Hate to Go”, que mais tarde seria rebatizada como “Leaving on a Jet Plane”. Em 1967, o famoso trio de folk Peter, Paul and Mary gravou a canção. Dois anos depois, em 1969, a faixa escalou as paradas até atingir o primeiro lugar absoluto na Billboard Hot 100. De repente, milhões de americanos sabiam cantar as letras de John Denver, muito embora a maioria ainda não associasse o rosto do jovem loiro de óculos ao sucesso avassalador das rádios.

Quando o Mitchell Trio se dissolveu, Denver estava mais do que preparado para a carreira solo. A transição, que costuma ser traumática para a maioria dos vocalistas de banda, foi executada por ele com uma naturalidade espantosa. O início dos anos 1970 testemunhou uma das sequências de sucessos mais avassaladoras da história da música popular americana. O estopim veio em 1971 com o álbum Poems, Prayers and Promises. A canção que definiu sua carreira, “Take Me Home, Country Roads”, quase foi enterrada antes mesmo de nascer. As primeiras prensagens do compacto apresentavam problemas técnicos de masterização que distorciam o som, ameaçando um fracasso comercial precoce.
Foi a intervenção do agressivo e genial empresário de Denver, Jerry Weintraub, que salvou a música. Weintraub percebeu o potencial hipnótico daquela ode à vida rural e despachou cópias corrigidas pessoalmente para diretores de rádio, começando estrategicamente por Denver, no Colorado. Lançada em abril de 1971, a música fez uma escalada lenta e irresistível. Em agosto daquele ano, atingia o segundo lugar na Billboard, vendendo mais de um milhão de cópias físicas em poucas semanas. Décadas mais tarde, em 2014, a Virgínia Ocidental oficializaria a criação de Denver como seu hino estadual, provando que a música havia transcendido o entretenimento para se tornar parte do folclore americano.
No ano seguinte, em 1972, Denver consolidou seu império com o lançamento de Rocky Mountain High. O álbum foi seu primeiro trabalho a quebrar a barreira do Top 10 na Billboard 200, e a faixa-título capturava de forma quase mística a experiência de revelação espiritual que o cantor sentia ao caminhar pelas montanhas de Aspen, onde escolhera morar. A fotografia da capa, tirada nas águas gélidas de Slaughterhouse Falls, traduzia visualmente a promessa de pureza e paz que sua música vendia. O Colorado seguiu os passos da Virgínia Ocidental e, em 2007, transformou “Rocky Mountain High” em uma de suas canções oficiais.
O biênio de 1974 e 1975 representou o zênite absoluto do fenômeno John Denver. Em um intervalo de meros 18 meses, ele emplacou quatro canções consecutivas no primeiro lugar da Billboard Hot 100: a delicada “Sunshine on My Shoulders”, a balada romântica “Annie’s Song” (composta em apenas dez minutos em um teleférico em Aspen), a contagiante e enérgica “Thank God I’m a Country Boy” e a dolorosa “I’m Sorry”. A coletânea John Denver’s Greatest Hits, lançada no final de 1973, transformou-se no álbum mais vendido da história da RCA Records de todos os tempos, superando os números de lendas vivas como Elvis Presley e David Bowie. Denver estava em todos os lugares: nas capas de revistas, em especiais de televisão de audiência histórica e nos toca-fitas de milhões de carros que cruzavam as estradas dos Estados Unidos.
O Astro de Hollywood e a Marca Registrada
A dominação cultural de John Denver não se limitou às frequências de rádio. Em 1977, ele chocou a crítica especializada ao fazer uma transição bem-sucedida para o cinema de Hollywood, estrelando a comédia satírica Oh, God! ao lado do lendário comediante George Burns. Denver, que nunca havia pisado em um set de filmagem como ator, interpretou Jerry Landers, um gerente de supermercado absolutamente comum que é escolhido por Deus (vivido por Burns com seu eterno charuto) para ser o canal de uma nova mensagem divina para a humanidade.
Sob a direção precisa de Carl Reiner, Denver não tentou atuar; ele simplesmente projetou na tela grande sua própria persona pública de sinceridade desarmante e decência interior. O público respondeu em massa. O filme arrecadou mais de 51 milhões de dólares apenas nos cinemas americanos — uma fortuna para os padrões da época — e conquistou uma indicação ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado. Denver provou ser um dos raríssimos astros da música capazes de sustentar um longa-metragem de Hollywood baseado puramente em seu apelo magnético e natural.
Junto com o sucesso cinematográfico, Denver estabeleceu uma identidade visual que se tornou um ícone estético daquela década. Seus cabelos loiros cortados em estilo cuia, seus óculos de aviador com aros finos de metal e, principalmente, suas camisas de estilo western ricamente bordadas à mão definiram uma tendência. Essas peças de vestuário não eram produtos industriais; eram criações exclusivas da designer Anna Zapp, que Denver descobriu em uma feira de artesanato local em Aspen. Os designs vibrantes, repletos de flores, montanhas e rios bordados no tecido, casavam perfeitamente com a mensagem ecológica de suas canções. O estilo tornou-se tão copiado que outras lendas da música country e folk, como Willie Nelson e Bonnie Raitt, passaram a encomendar camisas com a mesma estilista. Denver vendia a imagem do caipira sofisticado, do homem que alcançara o topo do mundo sem perder a simplicidade da terra.
Seu empresário, Jerry Weintraub, compreendeu cedo que o apelo de Denver não conhecia fronteiras linguísticas. Ignorando o ceticismo dos críticos americanos, que frequentemente ridicularizavam as letras de Denver como sendo excessivamente doces ou simplistas (“açucaradas demais”, diziam os jornais de Nova York), Weintraub decidiu contornar a imprensa e levar o artista diretamente ao público europeu. Ele fechou contratos para uma série de especiais de televisão produzidos especificamente para a rede britânica BBC. Weintraub costumava repetir sua filosofia de negócios: “Os críticos não vão transformar John em uma estrela; nós vamos direto ao povo.” A estratégia foi um sucesso retumbante. O público europeu apaixonou-se pela clareza da voz de Denver e pela ausência de cinismo em suas apresentações. Seus especiais de TV tornaram-se líderes de audiência no Reino Unido e criaram uma base de fãs fervorosa que garantiu turnês esgotadas por todo o continente durante anos. O ápice do reconhecimento na TV veio em 1975, quando seu especial americano An Evening with John Denver faturou o prestigiado prêmio Primetime Emmy, elevando-o ao primeiro escalão dos artistas de entretenimento do planeta.
O Ativista Sem Fronteiras e o Confronto no Senado
Na década de 1980, enquanto sua relevância nas paradas de sucesso começava a dar os primeiros sinais de desgaste diante da explosão do pop sintetizado e da era de ouro da MTV, Denver redirecionou sua imensa energia para causas geopolíticas e humanitárias, demonstrando uma coragem que poucos de seus pares na indústria da música pop ousavam demonstrar. Em 1985, o cantor protagonizou um dos momentos mais memoráveis da história política da música americana ao comparecer perante o Senado dos Estados Unidos. Um grupo poderoso de esposas de políticos influentes em Washington, liderado por Tipper Gore e autodenominado PMRC (Parents Music Resource Center), pressionava o governo e as gravadoras para que fosse instituído um sistema de censura e rotulagem compulsória em álbuns de música que contivessem letras consideradas violentas, sexualmente explícitas ou que fizessem apologia ao uso de drogas.
Muitos em Washington acreditavam equivocadamente que John Denver, com sua imagem de bom moço da família tradicional americana, endossaria o clamor moralista das mães do PMRC. O que se viu no plenário do Senado, contudo, foi um massacre retórico. Mantendo uma postura de absoluta calma e elegância, Denver sentou-se na cadeira de depoimentos e defendeu ferozmente a liberdade de expressão dos artistas. Ele chocou os senadores ao relatar como sua própria canção, “Rocky Mountain High”, havia sido censurada e banida de diversas estações de rádio anos antes porque burocratas ignorantes e puritanos interpretaram a palavra “high” (que na música descrevia a elevação espiritual de estar no topo de uma montanha) como uma gíria e uma apologia ao uso de maconha. Denver comparou as propostas de rotulagem do PMRC com as práticas de censura de regimes totalitários e alertou que a imposição de avisos nas capas dos discos funcionaria como uma lista negra moderna, prejudicando a criatividade e a diversidade cultural. Seu testemunho, ao lado de roqueiros como Dee Snider (da banda Twisted Sister) e Frank Zappa, foi crucial para desarmar as tentativas mais extremas de censura estatal na música.
Naquele mesmo ano de 1985, Denver cruzou a Cortina de Ferro. Ele transformou-se no primeiro artista ocidental de grande porte a receber autorização para realizar uma turnê oficial de concertos pela União Soviética em mais de uma década. As tensões da Guerra Fria estavam no auge, com os presidentes Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev trocando ameaças nucleares veladas. Denver decidiu usar seu violão como uma ferramenta diplomática. Ele realizou 11 apresentações memoráveis por cidades como Moscou, Leningrado (atual São Petersburgo) e Tallinn. A resposta do povo soviético foi avassaladora. Em teatros lotados, cidadãos russos que não dominavam uma única palavra de inglês choravam abertamente ao som de suas melodias, compreendendo intuitivamente sua mensagem universal de paz e fraternidade. A experiência inspirou Denver a compor a emocionante “Let Us Begin”, uma súplica pelo fim das hostilidades atômicas, e as gravações das apresentações resultaram no histórico álbum duplo Live in the USSR.
O compromisso de Denver com o povo soviético foi testado de forma dramática dois anos mais tarde, em 1987. Após o catastrófico desastre nuclear na usina de Chernobyl, na Ucrânia, que forçou a evacuação imediata de mais de 92 mil pessoas e espalhou uma nuvem de radiação mortal por toda a Europa, a maioria dos artistas ocidentais cancelou qualquer viagem programada para a região por medo de contaminação. Denver fez o caminho inverso. Ele viajou para Moscou para realizar um grande concerto beneficente em prol das vítimas da radiação. O evento arrecadou mais de 140 mil dólares apenas com a bilheteria direta, fundos que foram convertidos em equipamentos médicos para os hospitais que tratavam os sobreviventes e os operários que se sacrificaram para conter o reator. Para Denver, aquela noite não tinha caráter político ou ideológico; era um ato de pura compaixão e humanidade elementar.
Em 1992, ele repetiu o feito diplomático ao abrir as portas da China comunista. Após décadas de isolamento cultural imposto pela Revolução Cultural, o governo chinês convidou formalmente Denver para uma turnê histórica por várias metrópoles do país. Canções como “Take Me Home, Country Roads” já eram ensinadas clandestinamente em escolas e universidades chinesas por professores que usavam as letras para ensinar inglês aos estudantes. O impacto de sua visita foi tão monumental que as autoridades estatais concordaram em transmitir uma de suas apresentações ao vivo para uma audiência estimada em mais de dois bilhões de pessoas através da rede de televisão estatal. A juventude chinesa recebeu o cantor norte-americano com o status de herói libertador. Essa conexão com Pequim havia sido plantada anos antes, quando o líder chinês Deng Xiaoping fizera uma visita oficial a Washington D.C. e fizera questão de conhecer pessoalmente o cantor de quem seus filhos eram fãs confessos.

Paralelamente às suas missões internacionais, Denver canalizava sua fortuna pessoal para projetos de filantropia em solo americano. Na década de 1990, ele lançou o álbum Homegrown, revertendo 100% dos lucros e royalties de forma perpétua para instituições que prestavam assistência médica e alimentar a pessoas em situação de rua nas grandes metrópoles dos Estados Unidos. Ele foi o cofundador do The Hunger Project, uma organização global dedicada a erradicar a fome crônica no mundo, esforço que lhe rendeu o Prêmio Presidencial Contra a Fome das mãos do governo americano. Preocupado com a devastação das florestas tropicais e temperadas, fundou a Windstar Foundation e o audacioso projeto Plant-It 2000, que coordenou o plantio de milhões de mudas de árvores nativas ao redor do planeta para combater o aquecimento global. Para o público que o assistia na televisão, Denver parecia ter atingido o status de um santo secular.
O Monstro no Espelho: Motosserra e Terror Doméstico
No entanto, a santidade de John Denver terminava abruptamente no momento em que ele cruzava o limiar da porta de sua mansão em Aspen. A desconexão entre o pacifista de camisas coloridas que defendia o planeta no Senado e o homem que convivia com suas esposas era assustadora. O primeiro casamento de Denver, com Annie Martell — a mulher que inspirou seu maior hino de amor, “Annie’s Song” —, começou como uma idílica história de amor juvenil. Impossibilitados de terem filhos biológicos devido a uma complicação médica contraída por Denver durante uma doença na infância, o casal adotou duas crianças, Zachary e Anna Kate. Eles representavam, para as lentes das revistas de celebridades, a família perfeita do Colorado.
Mas à medida que a fama de Denver escalava para níveis estratosféricos, o casamento transformava-se em um pesadelo de isolamento para Annie. Ela sentia-se esmagada pela sombra gigantesca do marido e pelo ritmo alucinante de suas turnês mundiais. Para suportar a pressão do sucesso e preencher o vazio de sua solidão existencial, Denver passou a se afundar no consumo pesado de substâncias ilícitas. O cantor, que mantinha uma imagem pública imaculada de vida saudável e natural, desenvolveu uma dependência severa de maconha, LSD e, principalmente, cocaína. O uso abusivo dessas drogas, combinado com surtos frequentes de consumo excessivo de álcool, começou a distorcer sua personalidade. O homem doce e compreensivo dava lugar, sob o efeito das substâncias, a um indivíduo paranoico, possessivo e dotado de um temperamento explosivo e incontrolável.
O processo de divórcio, iniciado por Annie em 1982 após anos suportando infidelidades sistemáticas e abusos verbais, desencadeou em Denver um surto de fúria niilista que destruiria sua imagem pública caso os detalhes tivessem vazado na época. Durante uma das violentas discussões sobre a partilha de bens na propriedade do casal em Aspen, Denver perdeu completamente o controle da razão. O gatilho foi a descoberta de que Annie havia ordenado o corte de algumas árvores de carvalho na propriedade que ele estimava. Em vez de gritar ou recorrer aos advogados, o cantor foi até a garagem, pegou uma motosserra pesada, deu a partida no motor e invadiu a residência. Em um estado de transe psicótico provocada pela raiva e pelo abuso de substâncias, Denver passou a serrar os móveis da casa um a um. Diante dos olhos aterrorizados de testemunhas e operários, ele caminhou até o quarto principal do casal e serrou a luxuosa cama matrimonial exatamente ao meio. Era uma metáfora literal e violenta do colapso de seu casamento. Os documentos oficiais do divórcio, que tramitaram em segredo de justiça por anos, expuseram um padrão continuado de abuso doméstico e agressões físicas que horrorizou os poucos advogados e amigos que tiveram acesso aos autos.
Em 1985, Denver acreditou ter encontrado uma chance de redenção amorosa ao conhecer a jovem cantora e atriz australiana Cassandra Delaney no bar do hotel Sebel Townhouse, em Sydney. Fascinado pela beleza da artista vinte anos mais jovem, Denver iniciou um namoro relâmpago que culminou, em agosto de 1988, em um casamento suntuoso e extravagante no topo de uma das montanhas de Aspen. Mas a fachada de conto de fadas ruiu antes mesmo que a lua de mel terminasse. Cassandra revelaria anos mais tarde que a pressão de conviver com o mito John Denver era sufocante. O humor do marido oscilava de forma imprevisível em questão de minutos: ele podia passar de um estado de generosidade extrema para um silêncio gélido ou explosões de gritaria por motivos fúteis.
Em maio de 1989, o nascimento da filha do casal, Jesse Belle, em vez de trazer paz à união, adicionou combustível à paranoia de Denver. Como o cantor havia passado a vida inteira declarando publicamente e em entrevistas que era estéril devido a seus problemas de infância, o nascimento biológico de Jesse disparou uma onda de fofocas maliciosas nos tabloides e nos círculos sociais de Aspen, com sussurros sugerindo que Cassandra teria recorrido a tratamentos secretos de fertilização in vitro ou que a criança não seria filha do músico. Enlouquecido pelo ciúme e pelo ressurgimento de suas inseguranças de infância, Denver tornou-se um marido carcerário. Ele monitorava os telefonemas da esposa, controlava suas roupas e limitava suas saídas.
Em 1996, já em segurança após conseguir a separação, Cassandra Delaney quebrou o silêncio em uma entrevista bombástica para a renomada revista Australian Women’s Weekly. O retrato que ela pintou de John Denver foi devastador para o mito. Cassandra revelou que a imagem de homem do povo e amigo de todos era uma farsa de marketing meticulosamente calculada. Longe das câmeras, Denver era um homem profundamente solitário, que não possuía um único amigo verdadeiro em quem confiar. Seus funcionários viviam em um estado permanente de terror psicológico; secretárias particulares rompiam em prantos frequentes e pediam demissão em massa devido aos gritos e humilhações públicas que sofriam do patrão. Cassandra detalhou anos de tortura emocional, agressões verbais pesadas no meio da noite quando o cantor retornava embriagado de seus voos, e uma necessidade patológica de controlar cada detalhe da vida de todos ao seu redor. A separação física ocorreu em 1991, mas a batalha judicial pelo divórcio arrastou-se até 1993 em uma guerra de terra arrasada. Denver processou a mãe de sua filha em 3,3 milhões de dólares, acusando-a publicamente na imprensa de tê-lo usado como um “banco privado” e de tê-lo feito de bobo diante do mundo, enquanto Cassandra lutava na justiça para arrancar a guarda total de Jesse das mãos de um homem que ela considerava mentalmente instável e perigoso.
Percebendo que a verdade sobre sua vida privada estava vazando pelos lados e que os tabloides estavam prestes a destruir seu legado, Denver tentou uma jogada de mestre em 1994 ao lançar sua autobiografia oficial, intitulada Take Me Home. Em vez de tentar negar os rumores, ele optou pelo sincericídio calculado. Nas páginas do livro, o cantor chocou seus fãs mais puritanos ao confessar explicitamente sua longa e destrutiva dependência química de maconha, LSD e cocaína ao longo das décadas anteriores. Ele admitiu ter traído sistematicamente suas duas esposas com dezenas de groupies e amantes durante suas turnês mundiais, revelando que até mesmo o primeiro casamento com Annie Martell havia sido uma mentira pontuada por casos extraconjugais contínuos. Denver também confirmou a veracidade do infame episódio da motosserra, tentando justificá-lo como um momento de “desespero cego” diante do fim de seu lar. A confissão, em vez de gerar a empatia que ele buscava, acabou por alienar grande parte de seu público tradicional, que não conseguiu reconciliar o cantor de hinos religiosos e ecológicos com o viciado adúltero e violento retratado no livro.
A Humilhação da Indústria e a Queda em Desgraça
A década de 1980 não foi cruel com John Denver apenas no âmbito familiar; a indústria da música, que ele havia enriquecido de forma obscena na década anterior, descardou-o sem a menor hesitação. Em 1986, a tradicional gravadora RCA Records, que fora a casa de Denver por mais de 25 anos e onde ele havia lançado 25 álbuns de sucesso, foi adquirida pelo gigantesco conglomerado industrial General Electric (GE). Os novos executivos trazidos pela GE não possuíam qualquer conexão sentimental com a história da música folk ou com o legado dos artistas veteranos; eles operavam puramente com base em planilhas de corte de custos e margens de lucro imediatas.
O mercado musical havia mudado drasticamente. O topo das paradas era agora dominado pelo pop plástico e ultra-estilizado de astros da MTV, repleto de sintetizadores e baterias eletrônicas. O som acústico, as camisas bordadas e as letras sobre rios e florestas de John Denver eram vistos pelos novos executivos como relíquias cafonas e obsoletas de uma década que a América queria esquecer. Denver havia acabado de gravar o álbum One World e dava como certa a renovação automática de seu contrato milionário de exclusividade. Em vez disso, ele recebeu uma carta fria de demissão. A gravadora o descartou como se ele não valesse nada.
O cantor ficou completamente atônito e deprimido com a rejeição. Ele sentiu-se profundamente desvalorizado e traído por uma corporação que havia faturado centenas de milhões de dólares graças ao seu talento. Sem o suporte de distribuição de uma grande gravadora, Denver foi forçado a criar seu próprio selo independente, a Windstar Records, para conseguir colocar seus novos trabalhos no mercado. Mas sem o investimento milionário em jabá radiofônico e marketing que as grandes corporações controlavam, seus álbuns dos anos 1990 passaram virtualmente desapercebidos pelo grande público, vendendo apenas uma fração do que ele costumava comercializar. Foi um lembrete brutal e humilhante de que, no capitalismo selvagem da indústria do entretenimento, o sucesso do passado não compra lealdade no presente.
O Piloto Clandestino e a Batalha com a FAA
Com a carreira musical em declínio e a vida pessoal em ruínas, John Denver refugiou-se de forma obsessiva em sua outra grande paixão: os céus. Ao longo de sua vida de piloto, ele havia acumulado mais de 2.700 horas de voo certificadas, uma marca respeitável para um aviador civil. Ele possuía habilitações para pilotar aeronaves monomotoras, multimotoras, planadores de alta performance e até mesmo jatos executivos de grande porte. O ar era o único lugar onde Denver sentia que conseguia escapar das pressões terrestres, dos processos de divórcio e da rejeição das gravadoras.
Mas seus demônios terrestres acabaram por persegui-lo nas nuvens. Na primeira metade da década de 1990, os problemas crônicos de Denver com o alcoolismo transbordaram para as crônicas policiais. O cantor foi preso pela polícia rodoviária por dirigir sob o efeito de álcool (DUI) não apenas uma, mas duas vezes em um curto espaço de tempo. A lei federal americana para a aviação é draconiana e inflexível nesse aspecto. Para que um piloto possa comandar legalmente qualquer aeronave nos Estados Unidos, ele precisa ser detentor de um Certificado Médico de Terceira Classe válido, emitido pela FAA (Administração Federal de Aviação), que atesta que o piloto goza de perfeita saúde física e mental e que não sofre de dependências químicas que possam colocar em risco a segurança do espaço aéreo.
Após sua segunda prisão por direção embriagada, a junta médica da FAA acionou o sinal de alerta e negou a renovação do certificado médico de John Denver. Sem esse documento médico válido, sua licença de piloto tornava-se instantaneamente inútil. Legalmente, ele estava proibido de encostar nos comandos de qualquer avião. Para recuperar seus direitos de voo, a FAA impôs a Denver uma série de exigências severas: ele precisaria submeter-se a um tratamento de reabilitação credenciado, passar por exames toxicológicos surpresa regulares e comprovar um período contínuo de sobriedade absoluta de pelo menos dois anos. Humilhado pela burocracia e afogado em negação, Denver recusou-se a submeter-se ao processo. Sua maior alegria havia sido confiscada pelo governo, e ele decidiu que não aceitaria aquela decisão.
O que se seguiu foi um jogo de gato e rato bizarro e perigoso entre o cantor e as autoridades federais. Quando a FAA passou a enviar cartas registradas e notificações oficiais com aviso de recebimento para sua residência, exigindo que ele entregasse fisicamente sua caderneta de piloto e seus certificados suspensos, Denver adotou uma estratégia de evasão infantil: ele simplesmente ignorava as correspondências governamentais, fingia que não estava em casa ou devolvia os envelopes lacrados para a agência postal com a inscrição “destinatário ausente”. Meses arrastaram-se nessa situação. Denver continuava a decolar seus aviões particulares todas as semanas a partir de aeroportos regionais onde os funcionários, fãs de sua música, não ousavam questionar o astro se seus documentos estavam em dia.
Ao se recusar a assinar as notificações, Denver explorava uma brecha legal técnica no sistema administrativo americano: a FAA não podia finalizar formalmente o processo de revogação punitiva da licença até que o piloto tivesse sido legalmente notificado com sua assinatura de recebimento. Tecnicamente, ele continuava voando, mas não porque estivesse apto ou autorizado; ele voava se aproveitando de uma falha processual que dependia exclusivamente de sua má-fé e falta de cooperação. Essa brecha de impunidade fechou-se de forma definitiva em março de 1997. Em um momento de distração ou erro de cálculo de sua equipe de secretárias, Denver acabou assinando o aviso de recebimento de uma das cartas certificadas da FAA. A partir daquele exato segundo, a suspensão tornou-se oficial e irrevogável perante a lei penal federal. Qualquer decolagem efetuada por John Denver a partir de março de 1997 era um ato criminoso, um voo totalmente clandestino e ilegal.
O Último Voo: A Armadilha do Long-EZ
A teimosia e o sentimento de invencibilidade que caracterizavam a personalidade de Denver selaram seu destino no outono de 1997. Fascinado por aeronaves de vanguarda, o cantor adquiriu um avião experimental de alta performance do modelo Rutan Long-EZ. Tratava-se de uma aeronave de construção caseira, feita de fibra de vidro e equipada com asas em configuração canard (onde as superfícies de controle de altitude ficam na frente da cabine, e o motor e a hélice ficam montados na parte traseira da fuselagem, empurrando o avião em vez de puxá-lo). Era uma máquina veloz, ágil, mas extremamente sensível aos comandos e que não tolerava erros de pilotagem.
No sábado, 11 de outubro de 1997, Denver tomou posse física da aeronave, que havia sido montada e modificada por um proprietário anterior. No domingo de manhã, 12 de outubro, ele se deslocou até o Aeroporto da Península de Monterey, na Califórnia, decidido a praticar manobras de decolagem e pouso para se familiarizar com o novo brinquedo. O nível de negligência demonstrado pelo cantor naquele dia foi assustador para os padrões de um piloto experiente. Ele havia passado apenas cerca de trinta minutos realizando um voo de transição supervisionado por um piloto instrutor que conhecia o modelo antes de decidir decolar completamente sozinho. Ele não conhecia os sistemas internos daquela máquina específica, e aquela aeronave carregava uma modificação de projeto que funcionava como uma verdadeira armadilha mecânica.
No projeto original do engenheiro Burt Rutan para o Long-EZ, a válvula seletora de combustível — o comando manual que o piloto precisa girar para alternar o suprimento do motor entre o tanque da asa esquerda e o tanque da asa direita — fica localizada em uma posição central e de fácil acesso entre as pernas do piloto, no console frontal. Contudo, o construtor desta aeronave específica que Denver comprou decidiu, por motivos estéticos ou de conveniência de montagem, alterar radicalmente o projeto: ele moveu a válvula seletora de combustível para trás do ombro esquerdo do piloto, montando-a na parede traseira da cabine de comando, girada em um ângulo de 45 graus para trás. Para piorar a situação, a válvula mecânica estava extremamente rígida devido à falta de lubrificação adequada; ela era tão dura que o mecânico do aeroporto havia alertado Denver de que era necessário o uso de um alicate de pressão para conseguir girar o seletor de uma posição para a outra em solo.
Os indicadores de quantidade de combustível também eram uma afronta à segurança. Em vez de estarem integrados ao painel de instrumentos frontal, eles consistiam em dois tubos transparentes de nível montados na parede atrás do assento do piloto. Para verificar quanto combustível restava nas asas, Denver precisava se contorcer inteiramente no assento estreito, desviar os olhos da rota de voo e apontar um pequeno espelho de maquiagem de mão em direção à traseira da cabine. Além disso, as marcações eram notoriamente imprecisas e não lineares: quando o tubo indicava que o tanque estava com “um quarto” de sua capacidade, na verdade restavam menos de cinco galões de gasolina de aviação no tanque, uma quantidade crítica que representava poucos minutos de autonomia antes do corte completo do motor.
Antes de decolar de Monterey, o mecânico da pista notou os baixos níveis de combustível nos tubos e ofereceu-se expressamente para reabastecer a aeronave. Denver recusou o serviço de forma ríspida, afirmando que faria apenas um voo curto de circuito de pista e que o combustível a bordo seria suficiente. Os investigadores do NTSB descobririam mais tarde que ele decolou carregando apenas cerca de três galões no tanque esquerdo e seis galões no tanque direito. Denver iniciou sua sessão de treinamentos, realizando decolagens e pousos sucessivos sobre a Baía de Monterey. Durante as manobras, ele esgotou completamente o combustível contido no tanque da asa esquerda.
Testemunhas oculares que observavam a aeronave a partir da praia e da torre de controle relataram ter ouvido o som do motor Lycoming falhar, tossir e, em seguida, silenciar-se completamente. O Long-EZ transformara-se em um planador pesado a apenas 500 pés (cerca de 150 metros) de altitude sobre a água. Naquele momento de pânico absoluto, Denver precisava realizar um procedimento de emergência que exigia frieza: manter o nariz do avião nivelado para não perder sustentação e girar a válvula rígida para acionar o tanque da asa direita, que ainda continha seis galões.
Foi nesse instante que a armadilha do projeto cobrou seu preço fatal. Para alcançar a válvula seletora de combustível montada às avessas atrás de seu ombro esquerdo, Denver foi obrigado a soltar o manche com a mão direita, desprender as tiras do cinto de segurança superior para conseguir girar o tronco inteiramente para trás e esticar o braço às cegas. Ao realizar esse movimento de contorção física extrema dentro de uma cabine apertada e sob o efeito da adrenalina do motor apagado, o pé direito do cantor pressionou de forma violenta e acidental o pedal do leme de direção direito da aeronave.
Em um avião com configuração canard operando em baixa velocidade, a deflexão total do leme de cauda provoca um comando aerodinâmico devastador. O Long-EZ guinou violentamente para a direita, estolou (perdeu a sustentação das asas) e mergulhou de nariz em uma trajetória vertical em direção ao mar. Denver não teve tempo sequer de tentar recuperar o controle. A aeronave atingiu a superfície do Oceano Pacífico a uma velocidade superior a 200 quilômetros por hora. O impacto foi tão brutal que a fuselagem de fibra de vidro desintegrou-se instantaneamente, e o corpo do cantor sofreu traumas múltiplos severos que causaram sua morte imediata. A violência do choque foi tamanha que a identificação do cadáver só foi possível horas mais tarde através da análise de suas impressões digitais, que foram confrontadas com os arquivos que a FAA mantinha de seus tempos de piloto legalizado.
O Relatório do NTSB e o Fim do Mito
O relatório final emitido pelo Conselho Nacional de Segurança nos Transportes (NTSB) após meses de investigações detalhadas em laboratório foi sóbrio, técnico e definitivo. Os peritos apontaram como causas primárias do acidente: a decisão do piloto de decolar com combustível insuficiente nos tanques; sua falta de familiaridade com os sistemas específicos da aeronave que operava há menos de 24 horas; e o erro de projeto crasso cometido pelo construtor ao reposicionar a válvula seletora de combustível em um local de acessibilidade praticamente impossível durante o voo. O documento oficial destacou que o acidente teria sido 100% evitável se Denver tivesse aceitado o reabastecimento oferecido em solo, se tivesse completado um programa de treinamento rigoroso no modelo ou se estivesse voando em uma aeronave com configuração de painel padronizada.
A morte de John Denver chocou o mundo e mergulhou milhões de fãs em um luto profundo. Os canais de televisão exibiram retrospectivas repletas de imagens de suas apresentações nas montanhas, e as rádios tocaram “Take Me Home, Country Roads” em looping por semanas. Mas para aqueles que conheciam os bastidores de sua vida, o acidente na Baía de Monterey não foi uma surpresa do destino; foi a conclusão lógica e trágica de um homem que passou a vida inteira fugindo das autoridades, das leis e de si mesmo. O poeta que cantava a paz e o equilíbrio ecológico foi destruído pela pressa, pelo orgulho de não aceitar ordens do governo e por uma máquina bizarra que ele acreditou poder domar apenas com sua força de vontade. Quando o Long-EZ atingiu as águas frias do Pacífico, ele levou consigo não apenas o corpo de Henry John Deutendorf Junior, mas também a última ilusão de uma América inocente que acreditava que seus ídolos eram tão puros quanto as canções que escreviam.