Assim FOI a VIDA LUXUOSA de GLÓRIA MENEZES – Ficou Sozinha

R$ 200.000 por mês durante 53 anos. Esse era o contrato de Glória Menezes com a Globo. Mais do que a maioria dos brasileiros vai ver na vida inteira. E essa mulher largou o primeiro marido por Tarcísio Meira em 1961. Casada, dois filhos no colo e fez o Brasil inteiro ligar pra Globo, mandar carta, mandar telegrama.

pago por palavra para reclamar quando viram o marido dela com outra atriz. Nem de mentira aceitavam. Tarcísio é da glória, 59 anos de casamento. E a Globo mandou nota de três linhas e acabou com 53 anos de contrato. E 11 meses depois, os dois no mesmo hospital com COVID, ela num quarto, ele na UTI, andares diferentes, e a mulher que disse: “O beijo é o começo de tudo”.

 Não pôde dar o último beijo. Eu vou te contar o que aconteceu naquele hospital, mas não agora. E quando o homem gravava e quando ligava a câmera e ele botava o personagem em pé com texto, com cena, com emoção, aí subia 40%. Faz a conta, R$ 280.000 R por mês atuando. Para tu ter uma ideia, dava para comprar um carro zero todo mês só com o salário e ainda sobrava troco.

Todo mês um carro zero. É mais do que a maioria das famílias brasileiras vai juntar em 5 anos de trabalho. E a Globo pagou isso durante 53 anos. 53 anos de contrato fixo, ininterrupto, sem pausa, sem renegociação para baixo, sem vamos reavaliar a parceria. A maioria dos casamentos brasileiros não dura 5 anos.

 A maioria das carreiras inteiras, de início à aposentadoria, não chega em 30. Esse contrato durou 53, mais da metade de um século. R$ 200.000 Rais por mês durante mais da metade de um século. E do lado dele a vida inteira, o todos os dias a mesma mulher. Glória Menezes. 59 anos de casamento. Não, 59 anos de namoro à distância. Casamento, certidão assinada, aliança no dedo, mesa de Natal com a família inteira, briga de casal às 11 da noite, conta de luz dividida.

 Filho crescendo e dando trabalho, neto nascendo, bisneto no colo. 59 anos dividindo a mesma cama, o mesmo banheiro, a mesma geladeira, a mesma conta bancária, o mesmo sobrenome, a mesma vida. E tem uma frase, uma frase que Glória disse uma vez, anos antes, quando perguntaram para ela qual era o segredo de 59 anos de casamento.

Seis palavras. Só seis. E quando tu ouvir essas seis palavras e depois souber o que aconteceu naquele hospital, tu vai entender por que eu tô aqui te contando essa história agora. Porque essa história não é sobre salário, não é sobre Globo, não é sobre nota de imprensa. Essa história é sobre o que acontece quando o beijo que começou tudo não pode ser o que termina tudo.

 Mas eu não vou te contar essa frase agora. Antes disso, Glória com outro homem, dois filhos, vida montada e largou tudo. Largou o marido, largou a estabilidade, largou a reputação por Tarcísio em 1961, no Brasil de 1961. Calcula o tamanho do escândalo que isso foi, mas não agora. Quatro coisas que tu vai descobrir nesse vídeo. Primeira, como uma gaúcha de pelotas, casada, mãe de dois filhos, largou o marido por um ator que ela conheceu ao vivo numa câmera de TV.

 E o que esse ator fez com os dois filhos que não eram dele? Segunda, o que o público brasileiro fez quando a Globo ousou botar Tarcísio fazendo par romântico com outra mulher. Chuta. Eu te garanto que tu não imagina o tamanho da reação. E terceira, a nota de três linhas que encerrou 53 anos de contrato. E quanto a Globo, lucrou no exato período em que cortou eles.

 E quarta, mesmo o hospital, andares diferentes e o beijo que não poôde ser dado. Se tu nunca se inscreveu nesse canal, se inscreve agora e chuta quantas dessas histórias tu já sabia. Eu aposto que nenhuma. E eu aposto mais. Eu aposto que quando tu chegar no final desse vídeo, tu vai olhar paraa pessoa que tá do teu lado de um jeito diferente.

 Se tiver alguém do teu lado. Glória Menezes não nasceu. Glória Menezes nasceu Nilsed Soares de Magalhães em Pelotas, Rio Grande do Sul, 19 de outubro de 1934. Nilsedes, gaúcha do interior, e fez o que muita menina do interior fez na época. Saiu de pelotas, foi pra cidade grande, virou atriz, trocou Nils Sedes por glória e recomeçou.

No começo dos anos 60, Glória já trabalhava na TV Tupi, casada, dois filhos pequenos do casamento. Vida organizada, carreira caminhando, até que a Tupi escalou ela para um teleteatro ao lado de um ator chamado Tarcísio Meira. O teleteatro se chamava uma piris Camargo e era ao vivo. Naquela época a televisão era ao vivo, não tinha edição, não tinha grava de novo, não tinha corta essa cena e faz outra.

 O que foi ao ar, foi ao ar. E o que foi ao arrecísio dentro daquele estúdio? A câmera pegou, o público viu, e a vida dos dois nunca mais foi a mesma. Glória largou o marido em 1961, no Brasil de 1961. Atriz de televisão, mãe de dois filhos, casada e larga tudo. Marido, casa, estabilidade, segurança, reputação por outro ator que conheceu no trabalho.

Pensa no peso que isso tinha. Uma mulher casada com filhos e o que aparecia na televisão do país inteiro, larga o marido publicamente por outro homem. Em 1961, quando separação era vergonha, quando mulher separada era falada, quando largar o marido era quase um crime social. E Glória não era uma mulher anônima que podia sumir e recomeçar em outra cidade.

Ela aparecia na televisão. Todo mundo sabia quem ela era. Todo mundo sabia o que ela fez. E o meio artístico que hoje em dia finge ser moderno pegou fogo. Comentário, fofoca, julgamento. Mas Glória não ficou se escondendo. Não ficou em casa esperando o julgamento passar. Não pediu desculpa pública, não deu entrevista arrependida, não fez declaração de estou passando por um momento difícil, ela decidiu e foi.

Bancou, assumiu de cabeça erguida e Tarcísio foi junto. E aqui tem uma coisa importante. Tarcísio também era casado. Os dois estavam casados com outras pessoas. Os dois largaram os cônjuges, os dois enfrentaram o escândalo, os dois bancaram a decisão e os dois ficaram juntos por 59 anos.

 Cada um daqueles 59 anos foi uma resposta silenciosa para todo mundo que disse que não ia durar. Em 1962, casaram e nasceu Tarcísio Filho, o filho biológico dos dois. Mas aqui tem um dado que eu preciso que tu grave na memória, porque esse dado é daqueles que muda o significado de tudo o que vem depois. Tarcísio assumiu os dois filhos de glória, os filhos do casamento anterior, os dois, crianças que não tinham uma gota de sangue dele, que tinham pai, tinham sobrenome, tinham história com outro homem.

 E Tarcísio não assumiu por fachada, não assumiu por pressão, não assumiu para ficar bonito na foto, não assumiu porque a assessoria mandou ou porque a revista ia publicar. Anos depois, quando já era velho, Tarcísio disse assim com todas as letras: “E eu quero que tu guarde cada palavra. Nunca quis tomar o lugar do Pai, mas os tratei como meus filhos, os filhos deles como meus netos, os bisnetos.

Guarda essa frase, anota se precisar, porque essa frase volta lá no final, numa fazenda, no Natal, rodeada de gente. E quando ela voltar, tu vai sentir um peso que agora tu ainda não imagina. Agora a carreira. E eu vou ser rápida aqui, porque essa história não é catálogo de novela, nem lista de Wikipédia. Essa história é sobre o que aconteceu com esse casal.

 Mas eu preciso que tu entenda o tamanho da coisa que foi construída, porque se tu não entender o tamanho da construção, tu não vai sentir o peso da queda. E a queda vem. No mesmo ano em que casaram, um filme brasileiro entrou paraa história do cinema mundial. O pagador de promessas ganhou a palma de ouro em Cani. Chuta quantos filmes brasileiros ganharam a palma de ouro na história inteira.

 Um, esse até hoje o único na história inteira do cinema brasileiro, de todos os anos, de todas as décadas, de todos os diretores, de todos os festivais que o Brasil já mandou filme. Um filme só ganhou o prêmio máximo de canes. E Glória Menezes estava no elenco desse filme. O casal não tinha completado um ano de casamento, ainda estava no meio do escândalo de ter largado os cônjuges.

Ainda era assunto nas rodas de fofoca do meio artístico e já carregava no currículo o único prêmio máximo que o cinema brasileiro ganhou no mais importante festival de cinema do mundo. Quantos atores brasileiros podem dizer isso? Faz a conta. É uma lista que cabe num posted ou uma novela chamada 25499 ocupado. O nome não te diz nada, eu sei.

Mas o que essa novela fez mudou a televisão brasileira para sempre. Foi a primeira novela diária do Brasil. A primeira. Antes dela, novela passava duas vezes por semana, três no máximo. Depois dela, novela passou todo dia. O formato que definiu o horário nobre brasileiro, que fez a Globo ser a Globo, que mudou a rotina de dezenas de milhões de famílias, que transformou o sofá da sala brasileira no lugar mais disputado do país, às 8 da noite.

 Tudo começou ali e Tarcísio e Glória estavam no elenco. No começo de tudo, os dois foram pra Globo, novela Sangue e Areia. E aqui começa o contrato que durou mais do que a maioria das vidas profissionais, 53 anos. A partir daqui, R$ 200.000 Rais por mês, cada um, todo mês, sem exceção, por mais de meio século. Irmãos, coragem.

 E aqui a coisa explodiu. Mais de 80 pontos de audiência. 80. Para tu ter uma ideia, hoje em dia um programa comemora se faz 20. Irmãos Coragem fez 80. As ruas esvaziavam. Padaria fechava cedo. Bar ligava a televisão no volume máximo. Ônibus atrasava porque o motorista não queria perder o capítulo. Cidade pequena parava. Cidade grande parava.

 O país inteiro sentava na frente da televisão. Tarcísio era João Coragem. E João Coragem era mais famoso que presidente, mais popular que jogador de futebol, mais conhecido que cantor de rádio. Se tu tem mais de 50 anos, tu lembra? Se não lembra, pergunta pra tua mãe. Ela lembra. Isso não era novela, era acontecimento nacional.

E eu quero que tu entenda o que eram esses 80 pontos. Hoje, em 2024, um programa de televisão comemora se faz 15 pontos de audiência. 20 já é motivo de champanhe no escritório do diretor. Irmãos Coragem fez 80. A cada 100 televisores ligados no Brasil, 80 estavam sintonizados naquela novela.

 Não existia concorrência, não existia a segunda opção. O país tinha uma coisa para assistir às 8 da noite e era Tarcísio Meira na tela. Do anos depois, 1972, Tarcísio virou Dom Pedro I em independência ou morte. O homem deixou de ser ator e virou o símbolo. Nos anos 70, acumulou mais de 100 clubes de fãs espalhados pelo Brasil inteiro. 100. Pensa nisso.

 Sem internet, sem celular, sem rede social, sem e-mail, sem nada. Fã clube com carteirinha impressa numa gráfica de bairro, com presidente eleito em assembleia num salão paroquial, com reunião mensal, com ata escrita à mão, com tesoureiro cobrando mensalidade, com foto autografada de Tarcísio chegando pelo correio dentro de um envelope marrom com selo da República, sem clubes desse espalhados de norte a sul, com gente que nunca ia ver Tarcísio na vida.

 que morava no interior do Ceará ou no litoral de Santa Catarina ou na periferia de Manaus e que dedicava horas por semana para manter um fã clube funcionando por amor a um ator de televisão, sem receber nada em troca, sem likes, sem seguidores, sem algoritmo, sem monetização, só devoção pura, amor de fã que custava selo, papel e tempo.

 Isso hoje em dia não existe mais. Hoje tu segue e deixa de seguir em dois cliques. Naquela época ser fã era trabalho e Tarcísio tinha 100 clubes de gente que trabalhava de graça por amor a ele. E a primeira novela em cores da televisão brasileira adivinha? Tarcísio e Glória, sempre os dois. E cada vez que a televisão brasileira deu um passo novo, primeira novela diária: Palma de Ouro, primeiro fenômeno nacional de audiência, primeira transmissão em cores.

 Eles estavam lá juntos no centro de tudo, como se a televisão brasileira e aquele casal tivessem nascido grudados. Tira Tarcísio e Glória da história da TV brasileira e a história fica com buracos. buracos enormes, buracos que nenhum outro casal de atores preenche. Eles não estavam n a televisão, eles eram a televisão, agora o patrimônio. Porque R anos recebendo R$ 200.

000 R$ 1000 por mês. Constrói Império, apartamento de luxo na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Não era dois quartos num prédinho de bairro, era barra da Tijuca com vista, com andar alto, com acabamento de primeira, com portaria, com vaga coberta, com tudo que dinheiro de 53 anos compra. Fazenda em Porto Feliz.

 Há no interior de São Paulo, fazenda de verdade, com hectares de pasto, com cabeça de gado contada uma por uma, com curral, com cerca, com porteira, com empregado, com infraestrutura de fazenda grande. E tinha mais propriedade de pecuária no Pará, Pará, no norte do Brasil. Isso não é sítio de fim de semana com piscina de plástico e churrasqueira.

 Isso é operação pecuária de escala. É boi, é pasto, é logística, é caminhão de gado, é coisa séria. Tarcísio era garoto propaganda da New Holland. Tu sabe o que é New Holland? Maquinário agrícola pesado, trator, colheitadeira, implemento que custa mais que apartamento. Isso não é ator pousando de fazendeiro para ensaio fotográfico de revista masculina.

Isso é homem que entende de terra, que sabe a diferença de capim, que conhece ciclo de engorda, que sabe quando a chuva vem e quando não vem. O homem era ator que trabalhava de fazendeiro e fazendeiro que trabalhava de ator, e os dois de verdade. E esse patrimônio inteiro, o apartamento, a fazenda, o gado, as propriedades, foi construído com um único salário.

 Um salário da Globo, R$ 200.000 por mês durante 53 anos. Vai na calculadora e multiplica 200.000 1000 vezes 12 meses vezes 53 anos. dá mais de R7 milhões de reais só de salário bruto, sem contar propaganda, sem contar participação em filme, sem contar aparição em evento, só o contrato fixo, 127 milhões de reais em salário.

 E o casal tinha dois contratos, o dele e o dela. Duplica esse número. É mais dinheiro do que a maioria das empresas brasileiras fatura na vida inteira. E tudo vinha de uma emissora só, de uma porta só. Lembra disso quando a gente chegar na parte da nota de imprensa? Mas agora eu preciso te contar uma história e eu quero que tu preste atenção, porque essa história é a mais engraçada que tu vai ouvir hoje.

 Se tu não rir, eu desisto de ti. Em algum momento e o ano exato não importa. O que importa é o que aconteceu. A Globo escalou Tarcísio para fazer par romântico com outra atriz. Outra não Glória, outra mulher. Numa novela Ficção. Mentira inventada por roteirista, dirigida por diretor, gravada com câmera e claquete, mentira que passava na televisão das 8 da noite.

E tu sabe o que o público brasileiro fez? Ligou pra Globo. Ligou de casa. do orelhão da esquina, do telefone fixo do vizinho para reclamar. Como assim, Tarcísio com outra mulher? E não parou na ligação. Mandou carta, carta escrita à mão, com caneta esferográfica azul em papel de carta, dobrada em três, dentro de envelope, com selo colado, endereçada à Rede Globo de Televisão, a Jardim Botânico, Rio de Janeiro, RJ.

Gente sentou na mesa da cozinha, pegou papel e caneta e escreveu uma carta inteira de reclamação, porque um ator estava fazendo par com outra atriz numa novela, numa ficção, numa mentira que todo mundo sabia que era mentira. E mandou telegrama. Telegrama, Janette. Gente foi até a agência dos Correios, pegou fila, preencheu o formulário de telegrama, pagou por palavra, cada palavra custava dinheiro, e mandou mensagem pra Rede Globo, dizendo que Tarcísio Meira não podia fazer par com outra mulher, nem de mentira, nem na ficção, nem no faz de

conta. Esse homem é dessa mulher, vocês não separam os dois nem de mentira. E a Globo teve que recalcular. A maior emissora de televisão do continente. A emissora que decidia o que 80 90 milhões de brasileiros assistiam toda a noite. Teve que voltar atrás e porque o Brasil decidiu? E quando o povo brasileiro decide, nem a Rede Globo no auge do monopólio muda.

 Tarcísio é da glória. Ponto final. O país decidiu, a emissora obedeceu. Nem de mentira separa. Pensa no que esse casal representava. Pensa no que é um casal que faz o Brasil inteiro gastar dinheiro em telegrama para reclamar de cena de ficção. Isso não era fã clube organizado. Isso não era campanha de internet. Não era hashtag. Não era abaixo assinado.

 Isso era dona de casa do interior do Mato Grosso, sentando na mesa da cozinha e escrevendo carta à mão para uma emissora de televisão no Rio de Janeiro. Isso era aposentado de Belém do Pará, entrando numa agência dos Correios e pagando por cada palavra de um telegrama para dizer que Tarcísio não podia fazer par com outra.

Isso era a professora de Recife, comerciante de Belo Horizonte ou costureira de Goiânia. Gente que nunca pisou num estúdio de televisão. Gente que nunca ia ver Tarcísio pessoalmente. Gente que não tinha nada a ganhar com aquilo, gastando tempo e dinheiro do próprio bolso para defender um casal que só existia na televisão da sala delas.

O Brasil transformou Tarcísio e Glória em patrimônio nacional, em propriedade coletiva. Tarcísio é da glória, não era opinião, era decreto popular. E a Globo, que mandava em tudo, obedeceu. E o casamento de verdade? Porque tudo o que eu te contei até agora poderia ser show, poderia ser assessoria de imprensa, montando o casal perfeito para capa de revista.

Dois atores espertos que sabiam que casal junto vem demais, mas não era. Quando perguntaram para Glória Menezes qual era o segredo de 59 anos de casamento, ela não deu resposta de coach matrimonial e não citou o livro de autoajuda. Não falou em comunicação não violenta, nem em espaço do outro. Disse seis palavras. Seis.

 O beijo é o começo de tudo. Guarda essa frase. É a terceira vez que eu peço e vai ser a última, porque quando eu cobrar, tu vai entender. Tarcísio era mais seco, mas de poucas palavras, mais homem do interior. Disse assim: “Nos amamos muito, somos cúmplices, aliados, amigos, sem poesia, sem floreio, sem romantismo de novela. Três palavras para resumir 59 anos.

Cúmplices, aliados, amigos. Não disse apaixonados, não disse românticos. Disse cúmplices, aliados, amigos. Como se casamento de verdade, casamento que dura 59 anos, não fosse sobre paixão de novela, fosse sobre ter alguém do teu lado quando o mundo vem contra ti, alguém que sabe teus defeitos e fica. Alguém que viu tu no pior dia da tua vida e não saiu.

 Cúmplice, aliado, amigo. E fizeram festa de 50 anos de casados. 50 anos com bolo, com brinde, com mesa longa, com família reunida. E nessa família aqueles dois filhos, os dois que Glória trouxe e que Tarcísio criou sem obrigação nenhuma. Agora, um detalhe, um detalhe que parece pequeno, mas que daqui a pouco explode. O último papel de Tarcísio na televisão foi em 2018. Novela Orgulho e Paixão.

 E ele saiu dessa novela com infecção pulmonar. O pulmão ficou comprometido, não se recuperou direito, ficou fraco, vulnerável. 2018, 3 anos antes do que eu vou te contar agora, guarda esse pulmão e guarda a frase do beijo. Os dois voltam juntos e quando voltarem tu vai entender porque eu insisti tantas vezes.

 Mas agora a Globo, por o que a Globo fez com tudo isso? com 53 anos, com irmãos coragem, com 80 pontos de audiência, com 100 clubes de fã, com a palma de ouro, com a primeira novela em cores, com o Tarcísio é da Glória, com o casal que o Brasil adotou, como se fosse da família de cada um.

 O que a Globo fez com tudo isso cabe em três linhas de uma nota de imprensa. Setembro de 2020. O Brasil estava trancado em casa. Pandemia, máscara, álcool gel, medo. Gente morrendo todo dia. Hospital lotado, incerteza em cada esquina. E a Rede Globo, no meio de tudo isso, no meio do caos, no meio da maior crise sanitária que o país já viveu, decidiu que era o momento certo para fazer uma coisa: cortar custos, reestruturação do elenco fixo, enxugamento da folha, modernização, chama do nome bonito que quiser.

 Na prática, na ponta, no envelope que chegou, foi demissão. E sabe quem estava na lista? Tarcísio Meira e Glória Menezes, 53 anos de contrato fixo. Os rostos mais antigos da emissora. O casal que construiu a audiência antes do videotape, antes da novela em cores, antes do satélite, antes do controle remoto. O casal que fez o Brasil parar na frente da televisão, quando televisão era a única tela que existia.

O casal que o público protegeu com o telegrama pago do próprio bolso na lista. Os dois e como a Globo comunicou. Eu quero que tu preste atenção, porque o como é quase pior do que o quê. A Globo mandou uma nota de imprensa. Nota de imprensa. Três linhas genéricas. Tem abertas as portas para futuros projetos.

A mesma frase, no mesmo parágrafo, no mesmo comunicado que mandaram para todo mundo que estava na lista. A 53 anos de Tarcísio e Glória e a despedida oficial foi uma frase copiada e colada que não fez a menor cerimônia de individualizar o nome de ninguém. Não foi uma ligação pessoal do presidente da emissora, não foi uma reunião no escritório do diretor de dramaturgia.

Não foi um jantar de agradecimento pelos serviços prestados, não foi um especial na programação. Obrigado, Tarcísio e Glória, pela carreira que construíram aqui. Não foi nada disso, foi nota, três linhas. Manda pro departamento de comunicação, departamento, manda paraa assessoria. Assessoria distribui para redação, redação pública no rodapé do site, entre uma notícia de trânsito e a previsão do tempo. Pronto, 53 anos encerrados.

 E não foram só eles. Na mesma lista, na mesma nota, no mesmo dia, no mesmo formato. Renato Aragão, 44 anos de Globo. 44. O Didi Mocó a Os Trapalhões, o homem que marcou a infância de três gerações inteiras de brasileiros, que fez criança rir por décadas, 44 anos de carreira na mesma emissora. E a despedida foi a mesma frase que deram pro Tarcísio, a mesma.

Tem abertas as portas, Vera Fischer, todos cortados com o mesmo carimbo, o mesmo comunicado, o mesmo texto genérico, como se 53 anos e 44 anos fossem a mesma coisa, como se cada um desses artistas fosse uma peça de reposição. como se a contribuição de cada um paraa história da televisão brasileira coubesse na mesma frase requentada que um estagiário de comunicação poderia ter redigido em 5 minutos, como se a televisão brasileira fosse um almoxarifado e eles fossem peças que saíram de linha.

E tu quer saber o que é pior do que a nota em si? É o que a nota não tinha. Não tinha agradecimento específico, não tinha obrigado por irmãos coragem, não tinha obrigado pelos 80 pontos de audiência, não tinha obrigado por fazer o Brasil ligar pra gente defendendo vocês. Não tinha nada que reconhecesse que aqueles 53 anos tinham sido diferentes de qualquer outro contrato.

 A nota tratou 53 anos de história, como se fosse recisão de contrato de experiência. Agora eu quero que tu pare e pense numa coisa, uma coisa prática, concreta, de vida real. Tarcísio tinha 84 anos quando recebeu essa nota. Glória tinha 85. Faz a conta, o que um ator de 84 anos e uma atriz de 85 fazem.

 quando a emissora onde trabalharam a vida inteira, a única emissora onde trabalharam por mais de meio século, manda embora com uma nota de três linhas, dizendo que as portas estão abertas. Que portas? Portas de onde eles iam mandar currículo para Record ou iam fazer teste para SBT? Iam se candidatar a elenco de série de streaming, iam abrir canal no YouTube? Iam gravar rios pro Instagram, iam virar tiktoker, iam dar aula de teatro com 84 e 85 anos depois de 53 anos num lugar só.

 As portas abertas de uma nota de imprensa são as portas mais trancadas que existem no mercado brasileiro. E eu vou te explicar porquê. Quando a Globo diz portas abertas para um artista, o que o resto do mercado escuta é: A Globo não quer mais. E quando a Globo não quer mais, ninguém quer.

 Não porque o artista seja ruim, não porque não tenha talento, porque a lógica do mercado de televisão brasileiro funciona assim. Se a maior emissora dispensou, acabou. A Globo não era uma porta. A Globo era a porta, a única, e a única porta mandou nota de três linhas e fechou por dentro. E o que aconteceu depois? O que tu acha que aconteceu? Exatamente o que tu tá pensando. Zero.

 Nenhum projeto novo, nenhuma proposta, nenhuma oferta, nenhum convite, nenhuma ligação, nenhum e-mail, nenhum WhatsApp de produtor dizendo: “Tenho uma oportunidade aqui”. Silêncio. Silêncio absoluto. A porta ficou aberta no papel da nota e trancada na vida real. 53 anos de trabalho e do outro lado das portas abertas nada. Vazio, silêncio.

 O telefone que tocava todo dia por 53 anos parou de tocar. E quando um telefone que tocou por 53 anos para de tocar, o silêncio é ensurdecedor. Não é silêncio normal, é o silêncio de quem foi esquecido, de quem virou passado, de quem a indústria inteira combinou de fingir que não existe mais. Tarcísio e Glória não saíram da Globo, eles saíram do mapa.

 É como se 53 anos pudessem ser apagados com uma nota de três linhas e um silêncio de telefone. E no dia a dia, no concreto, na conta do banco, Tarcísio e Glória recebiam R$ 200.000 por mês, cada um. Havia mais de meio século que esse depósito caía na conta no mesmo dia de cada mês. Era tão certo quanto o sol nascer de manhã, tão automático quanto a conta de luz chegar, tão previsível quanto dezembro virar janeiro.

 E de uma hora para outra, pela primeira vez em 53 anos, o depósito não caiu. Não é que atrasou e caiu depois, não é que veio menor, parou, zerou, acabou aos 84 e 85 anos de idade, sem aviso prévio proporcional a 53 anos, sem transição, sem vamos reduzir gradualmente, de R$ 200.000 para zero, de uma hora para outra. tinham patrimônio, tinham fazenda, apartamento, gado no Pará, investimento.

Não iam paraa rua, não iam pedir esmola ou não iam passar fome. Mas a questão nunca foi dinheiro. A questão é outra. A questão é: Quem é tu quando a única coisa que tu fez por 53 anos te diz que não precisa mais de ti? O que sobra de um ator quando tiram o palco? O que sobra de uma atriz quando desligam a câmera? O que acontece dentro de um homem de 84 anos que acordou a vida inteira sendo Tarcísio Meira, o galã, o ator, o artista, e de repente acorda sendo ninguém, sem escalação, sem texto para decorar, sem personagem para

vestir, sem elenco para encontrar, sem estúdio para ir. sem motivo profissional para levantar da cama. O que acontece com o casal mais famoso da televisão brasileira quando a televisão brasileira diz: “Obrigado, boa noite, próximo e eu quero que tu pense numa coisa que ninguém fala. Quando tu trabalha num lugar por 53 anos, esse lugar vira parte de ti.

” Não é emprego, é identidade, é quem tu é. Tarcísio não era um ator que trabalhava na Globo. Tarcísio era a Globo e a Globo era Tarcísio. A audiência foi construída junto, o sucesso foi dividido. O público que ligava para reclamar ligava para a Globo por causa de Tarcísio. Um não existia sem o outro. E de repente, depois de meio século, um dos lados decide que o outro é descartável.

Três linhas, nota próximo. E tu sabe qual é a parte mais silenciosa de uma demissão assim? É o dia seguinte. O primeiro dia em que tu acorda e não tem para onde ir. O primeiro dia em que o telefone não toca às 7 da manhã com alguém da produção confirmando o horário. O primeiro dia em que tu abre o armário e não precisa escolher roupa para sair.

Esse dia, depois de 53 anos, aos 84 anos de idade, esse é o dia mais pesado. E agora eu preciso te dar um número, porque esse número é daqueles que muda a cor, o peso e o significado de tudo que eu te contei até aqui. Presta atenção. No mesmo período em que a Globo cortou Tarcísio, Glória, Aragão e todos os outros da lista, o lucro da Rede Globo subiu 215%.

215%. Pensa nesse número. Não subiu cinco, não subiu 10, não manteve, não empatou, não se recuperou de um prejuízo. Subiu 215%. A emissora não estava quebrando, não estava em crise, não estava cortando porque precisava sobreviver, estava cortando porque quis. E enquanto cortava os rostos que construíram tudo, estava registrando o maior lucro da história.

 A mesma mão que assinou a nota de três linhas para Tarcísio assinou o balanço mais lucrativo que a emissora já tinha visto. O mesmo departamento que mandou a nota de portas abertas mandou o relatório de crescimento recorde pro conselho. No mesmo ano, na mesma mesa, com a mesma caneta. Eu não vou te dizer o que pensar disso.

 Eu não sou juíza, não sou promotora, não sou advogada de ninguém. Eu não tô aqui para defender Tarcísio, nem para atacar a Globo. Eu tô aqui para te dar número. E o número é esse, 53 anos de contrato cortados com nota de três linhas, enquanto o lucro subia 215%. O que tu faz com esse número é problema teu.

 Mas o número existe e ele não mente. Os números estão na mesa. A nota tá publicada. O balanço financeiro é público. Os nomes dos demitidos são públicos. Faz tua conta. Tira a tua conclusão. Eu só te dei o dado. Tu que decide o que esse dado significa. Agora lembra do pulmão? O pulmão de 2018. O pulmão que deu problema quando Tarcísio saiu de orgulho e paixão.

 Aquele pulmão não se recuperou. Ficou fragilizado, comprometido, vulnerável. E eu preciso te contar o que aconteceu 11 meses depois dessa nota. 11 meses? Nem um ano inteiro. Mas antes de entrar nisso, lembra a frase: “O beijo é o começo de tudo”. Segura essa frase, segura com força, porque o que vem agora muda o significado dela para sempre.

Em março de 2021, Tarcísio e Glória tomaram as duas doses da vacina, os dois completamente vacinados. 6 de agosto de 2021, 11 meses depois da nota de três linhas, os dois foram internados no Hospital Albert Einstein, em São Paulo. o Einstein, um dos hospitais mais caros e mais bem equipados da América Latina, no mesmo dia, juntos, COVID, apesar das duas doses de vacina, apesar de todo cuidado, há 59 anos juntos e entraram juntos no hospital pela mesma porta, no mesmo dia, como fizeram tudo na vida, juntos. Mas a partir da porta

daquele hospital, juntos acabou. E quando eu digo acabou, eu não tô usando metáfora, não tô sendo dramática, tô sendo literal. A partir do momento em que pisaram dentro do Einstein, os dois foram separados fisicamente, concretamente, um para um lado, outro pro outro. Um para um andar, outro para outro andar.

 Uma porta aqui, outra porta lá, sem possibilidade de visita, sem possibilidade de encontro no corredor, sem possibilidade de nada junto. Tarcísio foi direto paraa UTI, unidade de terapia intensiva, entubação, hemodiálise. O corpo não estava respondendo, os órgãos estavam falhando um atrás do outro. E aquele pulmão, aquele pulmão de 2018, o pulmão que eu te pedi para guardar três vezes durante esse vídeo, é o pulmão que já tinha dado problema quando ele saiu de orgulho e paixão.

 O pulmão que nunca se recuperou direito, que ficou fraco, que ficou fragilizado, que ficou vulnerável, que ficou ali esperando o próximo golpe, como uma parede trincada, esperando o próximo tremor. Aquele pulmão cedeu. Cedeu primeiro. Cedeu rápido. A Covid chegou e encontrou exatamente o ponto mais fraco do corpo de Tarcísi Meira.

 Exatamente o lugar que já estava quebrado. Exatamente a parede que já estava trincada. e atacou ali com tudo. Glória ficou num apartamento do hospital, não uti. No apartamento. Andar diferente, ala diferente, corredor diferente, porta diferente, oxigênio nasal, sintomas leves, lúcida, consciente, acordada, orientada, sabendo de tudo, sabendo exatamente onde o marido estava, sabendo que Tarcísio estava no mesmo prédio, no mesmo hospital, atrás das mesmas paredes, debaixo do mesmo teto, respirando o mesmo ar condicionado, a

poucos metros de distância. talvez dois andares, talvez três, a poucos metros e não podia chegar perto, não podia descer, não podia subir, não podia abrir a porta do quarto e caminhar até a UTI. Não podia pegar o elevador, não podia percorrer o corredor, não podia se sentar numa cadeira do lado da cama dele, não podia segurar a mão dele, não podia encostar no braço dele, não podia alisar o cabelo dele, não podia olhar nos olhos dele, não podia dizer eu tô aqui não podia dizer vai ficar tudo bem, não podia dizer nada a cara.

Protocolo COVID isolamento absoluto, parede, porta trancada, regra sanitária que não faz exceção para 59 anos de casamento. A parede mais grossa do mundo, Janete, não é feita de concreto armado, é feita de protocolo sanitário num hospital de São Paulo durante a maior pandemia do século.

 Agora eu quero que tu pare um segundo. Para de verdade. Fecha o olho e tenta imaginar. 59 anos dormindo do lado desse homem. 59 anos é mais do que a tua vida inteira se tu tiver menos de 59 anos. São 21.000 e tantas noites, 59 anos em que a primeira coisa que tu via de manhã, antes do café, antes da luz, antes de qualquer coisa, era a cara dele no travesseiro do lado.

 59 anos de café junto, de almoço junto, de jantar junto, de briga de casal às 11 da noite, porque ele deixou a tampa da pasta aberta, de risada por bobagem no sofá, de preocupação junto quando o filho ficou doente, de hospital junto, porque em 59 anos tu vai ao hospital junto várias vezes, mas sempre no mesmo quarto, sempre sentada na cadeira do lado.

sempre com a mão dele na tua mão, sempre ali presente junto. E agora, justamente agora, quando a coisa ficou séria de verdade, quando não era gripe, não era cirurgia programada, não era exame de rotina, quando era COVID numa UTI com hemodiálise e pulmão falhando, justamente agora tu não pode estar perto.

 mesmo teto, andares diferentes, mesma dor, quartos separados, 59 anos dormindo na mesma cama e agora uma parede de protocolo sanitário separando os dois. E não tinha jeitinho, não tinha exceção. Não tinha, mas eu sou a esposa. Não tinha, mas são 59 anos. O protocolo não diferenciava 59 anos de 5 meses. Parede era parede, porta trancada era porta trancada.

E tu sabe o que tornava tudo pior? A proximidade. Se Tarcísio tivesse sido internado em outro hospital, em outro bairro, em outra cidade, seria terrível, mas seria outra coisa. Ou mas ele estava ali no mesmo prédio, a poucos metros, talvez um andar abaixo, talvez dois, a distância de um lance de escada, de um botão de elevador, de 30 segundos de caminhada, tão perto que se não tivesse parede, Glória talvez ouvisse o barulho das máquinas, tão perto e tão impossível ao mesmo tempo.

 A proximidade era o que tornava a separação insuportável. Porque não era distância que separava, era regra, era decisão administrativa, era protocolo escrito em papel por alguém que nunca ia saber o que era dormir 59 anos do lado de alguém e de repente não poder descer um andar. E foram seis dias, seis dias, Janete, do dia 6 ao dia 12 de agosto de 2021.

Seis manhãs em que Glória abriu os olhos naquele quarto de hospital que não era o quarto dela, naquela cama que não era a cama dela e com aquele travesseiro duro que não era o travesseiro dela, com aquela camisola de hospital que não era a camisola dela, com aquele oxigênio no nariz, com aquela luz branca de corredor entrando pela fresta da porta.

 E a primeira coisa que ela pensava era, ele tá ali embaixo na UTI com máquina, com tubo, com médico tentando, com enfermeiro monitorando, com o pulmão cedendo. E eu tô aqui, aqui em cima, aqui nesse quarto, olhando para essa parede branca, sem poder descer um lance de escada, sem poder apertar um botão de elevador, sem poder nada.

 Seis dias assim, seis manhãs, seis tardes, seis noites, sabendo e sem poder fazer. Tu já ficou internada alguma vez, mesmo que tenha sido um dia só? Tu sabe o que é olhar para um teto de hospital às 3 da manhã sem conseguir dormir? Agora imagina isso sabendo que o homem da tua vida tá dois andares abaixo numa UTI com tubo na garganta, com máquina mantendo ele vivo, com médico decidindo se vai ou se não vai.

 E tu ali deitada, acordada, no escuro, sem poder fazer nada, nem ligar para alguém e pedir notícia, porque às 3 da manhã não tem quem atenda, nem rezar resolve, porque rezar não abre porta de UTI. Seis noites assim, seis madrugadas olhando para um teto branco, sabendo que aquele teto era a última coisa entre tu e o andar onde Tarcísio estava morrendo.

E durante esses seis dias, Glória não recebeu visita, não abraçou ninguém, não chorou no ombro de filho nenhum, pandemia, protocolo. A dor era dela e dela sozinha, dentro de quatro paredes de um hospital, com oxigênio no nariz e a televisão desligada. Por que imagina ligar a televisão e ver o rosto do teu marido no jornal internado e tu estar no quarto ao lado sem poder chegar perto? 12 de agosto de 2021.

 Tarcísio Meira morreu 85 anos. insuficiência de múltiplos órgãos. O pulmão que já vinha comprometido desde 2018, atacado pela COVID, não aguentou e quando o pulmão cedeu, levou o resto junto. O coração não sustentou, os rins pararam, o corpo inteiro parou em seis dias, do dia que entrou ao dia que morreu, seis dias.

 O homem que foi João Coragem em 1970, que parou o Brasil, que foi Dom Pedro I, que teve 100 clubes de fãs sem internet nenhuma, que era garoto propaganda de trator e fazendeiro de verdade, que criou filhos que não eram dele e disse: “Os tratei como meus, que amou a mesma mulher por 59 anos sem parar, que foi cúmplice, aliado ao amigo Esse homem morreu num leito de UTI, com tubo, com máquina, com monitor apitando, sem a mulher dele do lado, sem a mão dela na mão dele, sem a voz dela no ouvido dele, sem o rosto dela sendo a última coisa que ele viu. E Glória

Glória Menezes faz 87 anos e comemora ao lado da família | RD1

recebeu a notícia no quarto. Alguém abriu a porta daquele quarto de hospital. um médico, uma enfermeira, alguém com jaleco branco e cara de quem vai dizer o que ninguém quer ouvir. E disse paraa Glória Menezes que Tarcísio Meira tinha morrido, o homem que ela escolheu em 1961. O homem por quem ela largou o marido, enfrentou o escândalo, enfrentou o julgamento, enfrentou o país inteiro.

 O homem que criou os filhos dela, o homem que foi cúmplice, aliado e amigo por 59 anos, morreu e ela estava ali sozinha de camisola com oxigênio nasal num quarto que não era dela, numa cama que não era dela, sem família e sem filho, sem neto, sem ninguém para segurar a mão dela enquanto o mundo dela desmoronava.

A mulher que disse: “O beijo é o começo de tudo”, não poôde dar o último beijo. O começo de tudo não pode ser o final de nada. Eu quero que tu pense nisso um segundo. Quando Glória disse aquela frase, “O beijo é o começo de tudo.” Ela tava falando de amor, tava falando de 59 anos de carinho, de cumplicidade, de acordar e dar bom dia com um beijo antes do café.

 Ela disse aquilo com orgulho, com ternura, com a segurança de quem viveu 59 anos do lado do mesmo homem e sabia que aquilo funcionava. Ela não tinha a menor ideia de que um dia essa frase ia virar o que virou. A frase mais bonita do casamento virou a frase mais pesada da despedida. Porque o beijo, que era o começo de tudo, de tudo, de 59 anos, de filhos, de netos, de bisnetos, de fazenda, a de novela, de palma de ouro, de 100 clubes de fãs, de Tarcísio é da glória.

 Esse beijo não existiu no fim. Protocolo não permite beijo. Covid não permite visita. Parede permite passagem. e 59 anos de amor não foram suficientes para abrir uma porta de hospital. Dia 13 de agosto, um dia depois, velório de Tarcísio Meira, restrito, pouquíssimas pessoas, pandemia, máscara, distanciamento obrigatório.

 E Glória Menezes, a mulher que o público brasileiro protegeu a vida inteira, que mandou carta paraa Globo, que mandou telegrama, que ligou de orelhão, que disse: “Tarcísio é da glória, nem de mentira vocês separam. Essa mulher não estava no velório. Não estava. A mulher de Tarcísio Meira não estava no enterro de Tarcísi Meira. Não podia.

ainda internada, ainda no Einstein, ainda de camisola, ainda com oxigênio, ainda presa atrás da mesma parede que impediu ela de segurar a mão dele, de beijar ele, de dizer tchau. O Brasil se despediu de Tarcísio Meira. Homenagens na televisão, matérias em todos os jornais, depoimentos de colegas, nota do presidente, nota do governador.

O país inteiro parou para falar do homem que fez o país parar nos anos 70 e a mulher dele. A mulher dele estava num quarto de hospital com oxigênio no nariz, vendo o mundo se despedir do marido pela fresta de uma janela que nem abria direito. O país que pagou o telegrama para reclamar de cena de novela.

 Tarcísio é da glória, nem de mentira. Viu os dois separados de verdade e dessa vez não tinha telefone para ligar, não tinha carta para escrever, não tinha telegrama para mandar, não tinha Globo para pressionar. Porque dessa vez quem separou não foi emissora. Quem separou não foi roteirista. Quem separou não foi diretor de dramaturgia.

 Quem separou foi a vida. E da vida ninguém reclama. Não tem ouvidoria, não tem saque. Não tem número 0800. 16 de agosto de 2021. 4 dias depois da morte de Tarcísio. 10 dias depois da internação. Glória Menezes recebeu alta curada. E quando saiu do quarto, quando abriu aquela porta que ficou trancada por 10 dias, a equipe médica do hospital Albert Einstein fez uma coisa.

 Fizeram um corredor. Médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, auxiliares, pessoal da limpeza, recepcionista. Todo mundo que estava ali naquele andar, naquele turno, ficou de pé, um de cada lado do corredor e bateu palma. aplaudiu. aplaudiu Glória Menezes, que estava saindo do hospital, e Glória andou por aquele corredor devagar, passo por passo, de pé, caminhando, olhando pra frente, aos 86 anos, carregando nos ombros seis dias de hospital, 10 dias de internação, a morte do marido, um velório que não pôde assistir e 59 anos de vida

compartilhada, que tinham acabado atrás de uma porta de UTI. E cada palma que batia naquele corredor era ao mesmo tempo, uma homenagem e um lembrete, porque cada pessoa que batia a palma sabia que aquela mulher estava saindo sozinha e ela sabia que eles sabiam. pela primeira vez em 59 anos, completamente sozinha, sem tarcísio na porta esperando, sem tarcío no corredor, sem tarcísio no carro, sem tarcísio em casa, sem tarcísio no café da manhã, sem tarcísio no almoço, sem tarcísio no sofá de noite, sem tarcício na cama, sem

tarcício na fazenda, sem tarcício no Natal que vinha chegando, sem tarcício em lugar nenhum, Nunca mais. A mulher que entrou naquele hospital casada há 59 anos saiu viúva. A mulher que entrou com o marido saiu sem ele. A mulher que entrou com uma frase sobre beijo saiu sabendo que nem todo beijo pode ser dado.

 Mesmo quando tu quer, mesmo quando tu precisa, mesmo quando são 59 anos pedindo esse beijo. E se tu acha que essa é a parte mais pesada, segura, porque o que vem agora são três palavras, só três. E essas três palavras pesam mais que tudo o que eu te contei desde o começo desse vídeo. Natal de 2021. 4 meses depois da morte de Tarcísio.

Primeiro Natal sem ele em 59 anos. A família se reuniu na fazenda de Porto Feliz. Aquela fazenda. A fazenda que 53 anos de contrato construíram. A fazenda que R$ 200.000 R por mês compraram tijolo por tijolo. A fazenda onde Tarcísio criava gado, onde andava de bota e chapéu, aonde era garoto propaganda de trator, onde conhecia cada canto, cada porteira, cada árvore do pasto, a fazenda que ele construiu para ser o lugar da família.

 E agora a família estava ali sem ele, no lugar que ele construiu para estar com eles. E ali estavam todos, os filhos, os netos, os bisnetos, incluindo aqueles dois, aqueles dois filhos que não eram de Tarcísio. Que glória trouxe do casamento anterior, lá de 1961, quando largou tudo por um ator que conheceu ao vivo na TV Tupi.

 os filhos que Tarcísio olhou e disse: “Os tratei como meus filhos, os filhos deles como meus netos, os bisnetos estavam ali na fazenda dele, no Natal sem ele. Os filhos que ele criou sem obrigação nenhuma, ficaram, mesmo quando ele já não estava mais para ver que ficaram.” E a nora de Tarcísio, Mocita Fagundes, escreveu três palavras.

 ou três palavras que cabem na palma de uma mão e carregam o peso de 59 anos. Está faltando ele três palavras. Três palavras que não precisam de explicação, que não precisam de contexto, que qualquer pessoa que já perdeu alguém entende na hora. Uma fazenda cheia de gente, mesa posta de Natal, comida, peru, farofa, risada de criança, bisneto correndo pelo quintal, filho abraçando mãe, neto brincando com primo, a fazenda que 53 anos de trabalho construíram, cheia de gente que 59 anos de amor geraram.

 E no meio de toda aquela vida, de toda aquela gente, de toda aquela comida e de toda aquela risada, faltando ele. Três palavras numa fazenda cheia. Glória gravou um vídeo naquele período. Olhou pra câmera, aquela mesma câmera que ela olhou a vida inteira desde o teleteatro ao vivo na Tupi em 1961. Desde a primeira novela diária, desde a palma de ouro, desde Irmãos Coragem, desde a primeira novela em cores, desde 53 anos de Globo, olhou pra câmera e disse: “Abrace apertado quem você ama hoje.

 Não deixe nada para trás”. A mulher que não pôde abraçar, a mulher que não pôde dar o último beijo, a mulher que não pôde descer um andar, a mulher que não estava no velório do próprio marido. A mulher que saiu do hospital sozinha pela primeira vez em 59 anos. Essa mulher olhou pro mundo e pediu uma coisa só. Abraça.

 Abraça enquanto pode, porque ela aprendeu do jeito mais brutal que existe, que nem sempre dá tempo. Nem sempre a porta abre, nem sempre o corredor permite, nem sempre o protocolo deixa. E quando não deixa, o abraço que tu não deu vira o peso que tu carrega pro resto da vida. Glória Menezes tem 91 anos, Rio de Janeiro.

 Vida tranquila, longe das câmeras, longe da Globo, longe das notas de imprensa, perto dos filhos que Tarcísio criou sem precisar e que ficaram sem ninguém pedir. filhos que provaram, só por ficarem, que o que Tarcísio construiu com eles em 59 anos era real, não era fachada, não era entrevista bonita, era família de verdade.

 Família que fica quando a câmera desliga e quando a pessoa vai embora. 59 anos, 53 de contrato. E no final ficou uma fazenda cheia de gente com três palavras penduradas no ar. Está faltando ele. Se essa história te tocou, se inscreve. E se tu quer saber a história de outro casal que o Brasil pensava que conhecia, clica no vídeo que tá aparecendo na tua tela agora.

 Eu te garanto, tu não sabe nem a metade.

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