A década de 1980 no Brasil é frequentemente rotulada pelos livros de história e pelos analistas políticos como a “década perdida”. O país atravessava os espasmos finais e dolorosos de um regime ditatorial militar que havia sufocado a liberdade de expressão por mais de vinte anos, deixando um rastro de incertezas econômicas, inflação galopante e uma sociedade civil fragmentada e exausta. No entanto, se o cenário político e econômico era de desolação e reconstrução árdua, o panorama cultural – mais especificamente o cenário musical – vivenciava uma verdadeira explosão de cores, atitudes e, acima de tudo, decibéis. Foi uma era de ouro reluzente, um renascimento estrondoso onde a juventude brasileira, ávida por voz e identidade, encontrou no rock and roll o veículo perfeito para gritar suas angústias, celebrar sua recém-descoberta liberdade e ditar as novas regras do comportamento nacional.

Neste caldeirão efervescente de criatividade, metrópoles como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília tornaram-se os grandes epicentros de um movimento que mudaria para sempre a trilha sonora do país. Até mesmo o rock gaúcho encontrou seu espaço privilegiado, entregando bandas e composições que se tornariam hinos atemporais. Foi nesse contexto vibrante de guitarras distorcidas, sintetizadores inovadores e letras poéticas que nasceram duas das maiores e mais influentes instituições da música brasileira: Os Paralamas do Sucesso e o Kid Abelha (inicialmente batizado de Kid Abelha e os Abóboras Selvagens). Ambas as bandas não apenas dominaram as paradas de sucesso nas rádios FM de ponta a ponta do país, mas também brilharam intensamente em festivais gigantescos. O ápice dessa consagração coletiva ocorreu na histórica e monumental primeira edição do Rock in Rio, em 1985, um evento colossal que funcionou como um verdadeiro divisor de águas, inserindo o Brasil definitivamente na rota das maiores turnês de artistas internacionais e provando que o rock nacional tinha força para arrastar centenas de milhares de pessoas para a Cidade do Rock.
Enquanto os primeiros passos desse movimento musical flertavam abertamente com ritmos contagiantes como o ska e o reggae – gêneros que encontraram terreno fértil nas mãos habilidosas de muitos músicos da época –, a turma do Kid Abelha decidiu surfar em uma onda ligeiramente diferente e altamente estilizada: a febre do New Wave. Era o estilo estético e sonoro que bandas pioneiras como a Blitz já haviam popularizado, caracterizado por letras irreverentes, refrões chiclete e um visual colorido e moderno. O ponto fascinante dessa intersecção histórica é que, além de compartilharem a glória de shows inesquecíveis, os gritos histéricos de multidões apaixonadas e o topo das paradas de sucesso, os Paralamas do Sucesso e o Kid Abelha tinham um vínculo muito mais profundo e íntimo, personificado em duas das figuras mais notáveis e carismáticas daquela geração: o vocalista, guitarrista e compositor Herbert Vianna, e a deslumbrante e talentosa cantora Paula Toller. O que começou como um encontro de almas artísticas talentosas e predestinadas a dominar a indústria fonográfica, rapidamente evoluiu para um dos romances mais comentados, complexos e, eventualmente, destrutivos da história do entretenimento brasileiro. Um relacionamento que, quatro décadas depois, ainda reverbera através de confissões chocantes sobre ciúmes, brigas acaloradas nos bastidores, disputas de ego e boatos persistentes de traição.
Para compreendermos a magnitude desse encontro e o peso de sua subsequente ruína, é fundamental traçarmos a anatomia da ascensão de ambos os artistas. A história de Herbert Vianna é a crônica de um gênio irrequieto. Nascido sob o sol inclemente de João Pessoa, na Paraíba, Herbert carregava consigo a disciplina oriunda de uma família liderada por um pai militar. Essa estrutura familiar nômade o levou a se mudar para centros urbanos maiores, até ancorar na estruturada e politizada capital federal, Brasília, durante seus anos cruciais de adolescência. Foi nos blocos de concreto da capital que o jovem Herbert teve seu primeiro e transformador contato com outras mentes brilhantes que estavam forjando a cena punk local. Ele cruzou caminhos com figuras lendárias como Renato Russo, que na época era o furioso e carismático vocalista da seminal banda Aborto Elétrico – um grupo que, após sua explosiva dissolução, daria origem a duas outras gigantes do rock nacional: Legião Urbana e Capital Inicial. Apesar da imersão profunda nesse ambiente criativo e das influências diretas que absorveu dessa turma visionária, Herbert só encontraria o terreno perfeito para plantar as sementes de sua própria banda de sucesso quando fez as malas e se mudou para a vibrante e caótica cidade do Rio de Janeiro.
Foi na capital fluminense, cercado pela maresia e pela boemia carioca, que as peças do quebra-cabeça finalmente se encaixaram. Herbert se reuniu com caras como o baterista João Barone e o baixista Bi Ribeiro. Curiosamente, Bi também havia vivido em Brasília e possuía laços profundos com Herbert, sendo um amigo próximo de infância. O reencontro dos dois no ensino médio no Rio de Janeiro foi a faísca que acendeu a chama dos Paralamas. Embora outros músicos tenham transitado pelo projeto em seus estágios embrionários, a formação clássica e definitiva do power trio, tal como o Brasil e o mundo aprenderiam a amar, consolidou-se no ano de 1982. A partir daquele momento, a decolagem foi vertical e avassaladora. No decorrer da década, os Paralamas do Sucesso transcenderam o status de banda de rock para se tornarem uma verdadeira febre nacional, aclamados tanto pela crítica especializada por sua qualidade técnica absurda, quanto pelo público em massa.
Em paralelo, a poucos quilômetros de distância, no fervilhante ambiente acadêmico da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), os alicerces do Kid Abelha começavam a ser erguidos no ano de 1981. Foi nos corredores e jardins da universidade que o talentoso compositor e músico Leoni cruzou o olhar com Paula Toller, uma jovem estudante de beleza ímpar e voz marcante. O fascínio mútuo foi imediato, e os dois iniciaram um namoro apaixonado. Consequentemente, Paula passou a frequentar de forma assídua os ensaios da incipiente banda de Leoni. A química musical entre eles era inegável, e o projeto amador rapidamente tomou contornos profissionais, evoluindo para a primeira encarnação do Kid Abelha e os Abóboras Selvagens. Em um curto espaço de tempo, outras peças fundamentais se uniram à engrenagem: o saxofonista George Israel, que traria um tempero sofisticado ao som do grupo, e o guitarrista Bruno Fortunato. Juntos, essa formação alcançou a mágica do sucesso instantâneo. A gravação de uma modesta fita demo contendo apenas duas faixas foi o suficiente para abrir as portas das rádios fluminenses. Em um piscar de olhos, as melodias envolventes e os vocais suaves de Paula Toller estavam ecoando em todas as esquinas do Rio de Janeiro, transformando-os em astros de primeira grandeza.
Como ambas as bandas habitavam o mesmo ecossistema cultural, gravitando em torno dos mesmos estúdios, gravadoras, casas de shows e estações de rádio em um dos centros mais importantes e influentes do cenário musical brasileiro, era apenas uma questão de tempo até que o destino forçasse uma colisão entre as trajetórias de Herbert Vianna e Paula Toller. O encontro inicial, digno de um roteiro de cinema, ocorreu em um contexto curiosamente burocrático, porém imensamente simbólico: os dois jovens vocalistas se esbarraram enquanto cumpriam as formalidades para retirar suas respectivas carteirinhas de músico profissional. A partir daquele breve instante, uma profunda admiração mútua se instalou. O talento transbordante de Herbert chamou tanta atenção que o pessoal do Kid Abelha, impressionado com sua genialidade nas seis cordas e sua veia composicional afiada, tentou insistentemente recrutá-lo para tocar com eles. Começaram então as famosas “jam sessions”, ensaios descompromissados onde os dois astros passaram a escrever juntos, burilando ideias e produzindo canções em parceria. Herbert compunha com eles enquanto era constantemente seduzido pela possibilidade de integrar oficialmente a banda liderada por Paula e Leoni. Embora essa entrada definitiva na formação do Kid Abelha nunca tenha se concretizado no papel, a química criativa estava selada.
E, se a parceria artística floresceu de imediato, o terreno pessoal também passava por intensas transformações amorosas. Paula e Leoni, que haviam fundado a banda baseados em seu romance universitário, viram a relação chegar ao fim exatamente naquela mesma época, no emblemático ano de 1984. O rompimento do casal fundador do Kid Abelha, por incrível que pareça, não destruiu o projeto inicial, deixando um clima de aparente tranquilidade profissional e respeito mútuo dentro da banda para que os trabalhos continuassem. Esse mesmo ano de 1984 marcou o início de uma nova e flamejante fase amorosa para Paula: o envolvimento romântico com Herbert Vianna. Os dois engataram um namoro que duraria intensos e conturbados dois anos, até 1986. Esse período bienal coincidiu exatamente com o momento de maior ascensão estratosférica para ambas as bandas, criando um cenário onde o amor jovem e ardente se chocava violentamente com as pressões esmagadoras da fama e do mercado fonográfico.
A princípio, impulsionado pelo charme inegável do New Wave e pelo carisma arrebatador de sua vocalista, o Kid Abelha liderava folgadamente as vendagens de discos e dominava as execuções nas rádios. Eles eram os donos absolutos da cena. Contudo, o cenário sofreu uma guinada dramática a partir do lançamento do monumental álbum “O Passo do Lui”, dos Paralamas do Sucesso, também em 1984. O disco era uma obra-prima irretocável que continha faixas que se tornariam clássicos eternos, catapultando a banda de Herbert Vianna para o topo absoluto do panteão musical brasileiro. As coisas começaram a mudar rapidamente, e as placas tectônicas do sucesso se moveram, nivelando ou até mesmo invertendo as posições de prestígio e influência no mercado. Foi exatamente esse sucesso colossal simultâneo que acabou plantando uma semente tóxica de competitividade voraz entre as bandas e, de forma ainda mais cruel, no íntimo do novo casal da cena musical.
A intimidade compartilhada sob o mesmo teto passou a ser assombrada pelos fantasmas da vaidade e dos rankings da indústria. A disputa silenciosa (e muitas vezes declarada) era diária e implacável: quem estamparia a capa da principal revista de cultura no final de semana? Qual banda venderia mais cópias de LPs no mês de lançamento? Quem conseguiria passar mais tempo precioso nos programas de televisão de auditório aos domingos, conquistando o público massivo? Na aclamada biografia oficial da banda, intitulada “Vamo Bate Lata” e escrita pelo respeitado jornalista musical Jamari França, Herbert Vianna expôs suas cicatrizes e citou abertamente que essa competitividade não era uma lenda criada pela mídia, mas uma realidade sufocante e destrutiva, instigada especialmente pelas atitudes de Paula Toller. Essa tensão era ainda mais exacerbada pelo fato de estarem imersos em um momento histórico onde as duas bandas, mostrando-se as promessas mais valiosas de suas gravadoras, estavam se firmando como titãs no cenário nacional. Eles dividiam holofotes em eventos colossais, fazendo inclusive shows espetaculares no histórico Rock in Rio de 1985, um evento que colocou uma lupa sobre cada movimento e cada declaração dos artistas perante milhões de espectadores.
O desgaste psicológico inerente a essa máquina de moer carne que é o showbiz não demorou a cobrar seu preço pesado nas relações interpessoais. Apenas um ano após o gigantesco festival do Rock in Rio, a estabilidade interna do Kid Abelha sofreu um golpe fatal. Leoni, o baixista, cantor, principal compositor e membro fundador, decidiu deixar a banda de forma abrupta e traumática. O motivo oficial? O clima interno havia se tornado absolutamente insustentável com Paula Toller. A tensão atingiu seu pico de forma literal e física durante uma discussão nos bastidores tão acalorada e furiosa que resultou em Leoni sendo atingido em cheio por um pandeiro arremessado por Paula. O episódio do pandeiro tornou-se folclore no rock nacional, mas foi, na verdade, o trágico estopim e a gota d’água definitiva para a saída irrevogável de uma das mentes criativas mais importantes do grupo.
De toda forma, essa flagrante falta de maturidade emocional – algo totalmente compreensível, mas altamente prejudicial –, alimentada por um contexto de adoração massiva no qual esses jovens na casa dos vinte e poucos anos estavam subitamente inseridos, provou ser letal. A competição insalubre gerada e nutrida dentro do relacionamento entre Herbert e Paula acabou se mostrando um ácido corrosivo que, aos poucos, corroeu os alicerces do afeto, levando-os a um fim que não tardou a chegar com força destruidora. Em uma entrevista rara e reveladora concedida muitos anos depois, em 2009, Paula Toller baixou a guarda e admitiu publicamente que Herbert Vianna foi, de fato, o seu primeiro relacionamento verdadeiramente sério e maduro da vida adulta. A intensidade do romance foi tão avassaladora que ela chegou ao ponto de se mudar para a casa da mãe de Herbert para que pudessem viver juntos e compartilhar a intimidade diária e, mais tarde, o casal chegou a se mudar para o próprio apartamento, tentando construir um refúgio longe do caos dos estúdios e das multidões.
Entretanto, sobre esse intenso período de convivência marital não oficial, Herbert forneceu relatos que pintam um quadro muito mais sombrio e doloroso nas páginas da biografia da banda. O genial compositor relatou que, inegavelmente, o grande e letal responsável pelo desgaste profundo entre eles foi a impiedosa competitividade nos negócios da música. Segundo as palavras e relatos sinceros do frontman dos Paralamas, havia algo de fundamentalmente errado, doentio e paradoxal acontecendo naquele momento: por alguma razão obscura ligada ao ego, entre duas pessoas que dormiam na mesma cama e faziam exatamente a mesma arte, o estrondoso crescimento profissional e o aplauso destinado a um começou a incomodar e ofuscar o outro. Ainda de acordo com a perspectiva de Herbert, as atitudes de Paula no ambiente doméstico começaram a feri-lo profundamente. Ele notava que ela frequentemente ironizava suas conquistas e, de forma fria, não demonstrava felicidade genuína, tampouco comemorava os resultados impressionantes de vendas e críticas obtidos por ele e sua banda. Herbert via essa recusa em aplaudir o parceiro como algo muito esquisito e dolorosamente triste para quem dizia amar.
Foi exatamente dessa fornalha de ressentimentos, de palavras não ditas, dores veladas e desse período de agonia pré-término que nasceu uma das composições mais viscerais e icônicas da música brasileira: a canção “Nada por mim”. Trata-se de um verdadeiro hino de libertação e lamento, imortalizado por versos diretos e cortantes como “Me diz até o que vestir / Com quem andar e aonde ir”. A faixa seria gravada e exaustivamente regravada por diversos grupos e artistas ao longo das décadas seguintes. A genialidade da letra residia em refletir, como um espelho quebrado, aquele exato momento claustrofóbico e tóxico entre o começo doloroso do fim e o real e inevitável término dos dois artistas. A música deu um farto “pano para manga” para a imprensa marrom e espalhou rumores intermináveis sobre quem dominava quem na relação. Ironicamente e brilhantemente, a canção também se mostrou a maior de todas as parcerias musicais que eles fariam na vida. Hoje, “Nada por mim” é quase um verdadeiro filho artístico do ex-casal, uma obra que resistiu ao teste do tempo, face ao alcance gigante e atemporal que essa canção obteve nos corações dos brasileiros. Se a letra era uma indireta crua de um para o outro, ou um desabafo mútuo, talvez nunca saibamos ao certo com riqueza de detalhes cirúrgicos. Mas o fato irrefutável e fascinante é que os dois, no meio de um turbilhão de mágoas, sentaram-se para escrever essa obra-prima juntos e, querendo ou não, o resultado deu muito certo.
De toda forma, anos depois, com a poeira das décadas finalmente assentada, Herbert admitiu que essa canção magistral marcou em definitivo a reta final da sua dolorosa “fase Toller”. O rompimento colocou um ponto final melancólico no clássico e clichê caso de grandes artistas que, apesar do sentimento avassalador que os une romanticamente, são geniosos, independentes e focados demais em seus próprios umbigos artísticos. Em outras palavras, supostamente, a fera do artista interior e do ego de cada um deles acabou rugindo e falando mais alto na incessante e obstinada busca pelo sucesso absoluto e pela validação das massas. Assim, a luz de um começou, inevitavelmente, a tentar ofuscar a do outro. Embora ambos estivessem navegando e prosperando no auge absoluto de suas carreiras promissoras, algo de repente se mostrou fora do tom, desafinou a harmonia doméstica e ocasionou uma série de situações desgastantes que os empurraram ladeira abaixo para um fim definitivo e sem volta.
Na época do rompimento, o término não foi apenas uma nota de rodapé nas colunas sociais; foi tratado pelas revistas de fofoca e pelos cadernos de cultura como um evento emblemático, turbulento e de proporções nacionais, especialmente pelo fato inegável de se tratar do rompimento de duas das maiores e mais veneradas estrelas do rock e da cultura jovem nacional. Como era de se esperar em um cenário sedento por polêmicas, é claro que uma infinidade de rumores suculentos sobre o que realmente teria motivado o fim definitivo ganharam as capas da mídia com força total. Em especial, ventilava-se fortemente a sombria possibilidade de ter havido infidelidade e traição entre eles para justificar um término tão abrupto de algo que parecia tão sólido. Embora a tão falada traição nunca tenha sido necessariamente ou oficialmente confirmada pelas partes, certos indicativos, atitudes e letras de músicas posteriores chamaram imensamente a atenção dos fãs mais atentos e dos jornalistas.
Em declarações emocionadas que vieram à tona muito tempo depois, Herbert não escondeu as cicatrizes purulentas deixadas por aquele episódio de sua vida: “Depois da coisa com a Paula, que foi uma época que eu sofri muito, muito, muito, muito mesmo… Eu fiquei muito só. Eu sofri porque eu achava que eu tinha feito o melhor e tudo certo. E toda a entrega, todas as flores… Mas não tinha percebido o quanto de mal também eu tinha feito”. Essa franqueza brutal demonstra que a relação havia se tornado uma via de mão dupla de toxicidade e equívocos. Entre as pesadas especulações da imprensa, a famigerada rivalidade entre eles – algo que as biografias e os próprios relatos já confirmaram como verídico e palpável – foi, sem sombra de dúvida, a faceta que mais teve peso e influência direta no gigantesco impacto emocional sofrido pelos artistas.
Nessa batalha de egos e afetos, Herbert parece ter levado a pior e saído muito mais ferido. O cantor paraibano passou um longo e sombrio período de sua juventude tentando curar as feridas, esquecer Paula Toller e lidar com o luto dos planos de uma vida inteira que ambos haviam construído juntos e que agora estavam reduzidos a cinzas. Essa oscilação violenta entre o topo das paradas – o famoso “sobe e desce” da fama – aliada aos dolorosos e incessantes boatos de infidelidade estampados nos jornais, apenas reforçam a tese incontestável de que a falta de controle emocional, aliada à inexperiência de jovens artistas em lidar com as armadilhas nefastas da fama avassaladora, pode virar suas mentes e suas vidas de cabeça para baixo em um milésimo de segundo. Um relacionamento sério e exposto entre duas pessoas tão relevantes da mídia pode, de fato, se transformar em muito mais pólvora armazenada em um barril pronto para explodir ao menor sinal de atrito.
Contudo, o que realmente contribuiu de forma definitiva para agravar e destroçar o estado emocional do genial líder dos Paralamas não foi somente o peso da aprovação esmagadora e a imensa popularidade da canção dolorosa que haviam composto juntos, mas sim algo muito mais banal e cortante: a rapidez com que a fila andou. A bomba emocional caiu sobre Herbert quando um novo relacionamento sério de Paula foi assumido publicamente ainda naquele mesmo ano do término. O fato de ver a mulher que amava nos braços de outro em tão pouco tempo, desfilando publicamente um novo amor nas páginas das revistas, com toda a certeza acabou de esmagar o coração do jovem Herbert. A dor do luto não pôde ser vivida em paz; ela foi esfregada em sua face sob a luz impiedosa dos flashes dos fotógrafos.

Sobre a carga emocional que impregna sua obra daquele período sombrio, Herbert confessou a dificuldade de lidar com os próprios sentimentos transformados em vinil: “É difícil esse disco. Ele tem umas coisas que são difíceis de você falar. Todo mundo pensa isso: será que você ainda pensa em mim? Quais são as cores e as coisas para te prender? E eu te odiei uns dias, eu quis te matar… São sentimentos comuns, são coisas que todas as pessoas sentem, né?”. A genial e amarga canção “Nada por mim”, por sua vez, carrega uma história peculiar sobre o seu lançamento. Ironicamente, o maior hit escrito pelo ex-casal não foi lançado no mercado fonográfico por nenhuma das duas bandas líderes (Os Paralamas ou Kid Abelha), fruto de razões internas espinhosas, impasses de gravadoras e, obviamente, muito constrangimento emocional de ambas as partes. Em contrapartida, demonstrando um desprendimento artístico brilhante, Herbert Vianna generosamente ofereceu a composição de bandeja à consagrada cantora Marina Lima. A musa do pop rock abraçou a obra e acabou se tornando a primeira e espetacular intérprete comercial da música, alcançando um sucesso absolutamente tremendo e incontestável em todo o território nacional. Apesar da certeza da qualidade da letra, o próprio Herbert se disse profundamente surpreso com o tamanho descomunal da aceitação e da identificação do público com aquela dor na época de seu lançamento.
A outra e mais dolorosa surpresa que aguardava Herbert foi o já mencionado ato de seguir em frente protagonizado pela sua ex-namorada. O cantor confessou que, intimamente, não contava, de forma alguma, que Paula Toller fosse superar o relacionamento e começar a namorar outra pessoa em um espaço de tempo tão escandalosamente curto. O eleito de Paula para preencher a lacuna deixada por Vianna foi o cineasta Lui Farias, figura de destaque no meio audiovisual. Um romance que, contrariando as estatísticas turbulentas do meio artístico e o próprio pessimismo de quem assistia de fora, vingou. Ela acabou se casando com Farias e o casal segue incrivelmente junto até os dias de hoje, formando uma base familiar sólida que Paula manteria pelo resto de sua carreira.
Aquele momento logo após a ruptura total foi retratado pelos amigos íntimos como uma fase bastante obscura, nebulosa e complicada para a mente brilhante de Herbert. E o peso dessa dor não era derivado única e exclusivamente pelos terríveis e humilhantes rumores de traição física por parte de Paula, que nunca cessaram, mas mais especificamente pelo fim avassalador da relação em si, tragicamente seguida do início veloz e público de outra por parte da mulher amada. Para agravar ainda mais o sentimento de isolamento, abandono e desespero, Herbert sentiu-se completamente sozinho na cidade maravilhosa, uma vez que seus amados pais, que sempre foram seu porto seguro e bússola moral, não residiam no Rio de Janeiro e não podiam lhe oferecer o ombro acolhedor imediato.
Afastado de suas raízes, afundado no caos dos pensamentos e lidando com a glória opressiva da fama solitária, Herbert buscou válvulas de escape perigosas e destrutivas. Com a tristeza batendo à porta diariamente, ele passou a ter um contato muito maior, frequente e perigoso com substâncias entorpecentes ilícitas, em especial mergulhando no uso frequente de ácido. Essa descida aos infernos da alma humana não foi escondida de seu público; pelo contrário, o artista utilizou sua dor como matéria-prima para sua genialidade. Ele colocou todos os seus demônios interiores, ressentimentos, saudades e psicoses para fora e os imprimiu, como sangue no papel, nas canções densas, arranjos urgentes e melodias melancólicas do espetacular álbum “Bora Bora”, lançado em 1988. O disco é uma verdadeira catarse. Faixas memoráveis e tocantes, como “Quase um segundo”, são o testemunho rasgado de um homem de coração partido. Na letra genial desta canção, ele deixa absurdamente claro, de forma poética e dolorida, tudo o que sentia na alma e toda a tormenta emocional pela qual passou naquele exílio sentimental. Embora muitas vezes não tenha tido a coragem ou a disposição de admitir os detalhes explícitos e literais dessas conexões durante as dezenas de entrevistas formais dadas à época para a grande mídia, Herbert Vianna posteriormente confessou a verdade cristalina: grande parte daquelas músicas inesquecíveis, que marcaram o embalo da juventude de toda uma geração nos anos oitenta, eram sim frutos diretos de inspirações amargas e cruéis tiradas sem filtro da ferida aberta de sua própria vida pessoal. Tudo o que ele sofria em silêncio acabava sendo vomitado e imortalizado para sempre nas linhas de suas canções.
Mas o tempo, que muitas vezes age como o grande carrasco dos amantes, também possui o notável dom de ser o grande curador das feridas mais profundas da alma. A redenção amorosa de Herbert Vianna, após vagar pelas sombras da solidão por alguns anos difíceis de excessos e fúria criativa, finalmente chegou em 1989. Naquele ano, o destino lhe sorriu novamente quando ele cruzou os caminhos e conheceu a doce e iluminada jornalista inglesa Lucy Needham. O encanto foi instantâneo, profundo e, acima de tudo, pacificador para o coração do músico. Ela trouxe a luz e a estabilidade que a tempestade de ego dos anos anteriores havia varrido de sua vida. O amor floresceu rápido e verdadeiro, e Lucy, pouco tempo mais tarde, veio a se tornar sua amada esposa, grande pilar de sustentação emocional e a dedicada mãe de seus adoráveis filhos. Curiosamente e em um estranho e belo paralelo cronológico de destino que muitas vezes rege o universo dos ex-amantes, Paula Toller também deu passos fundamentais em sua formação familiar e teve seu primeiro filho com o cineasta Lui Farias exatamente no mesmo e abençoado ano de 1989. A tempestade havia passado. A paz parecia, enfim, ter se instalado nos corações outrora tão atormentados.
Assim, com as estruturas emocionais estabilizadas, a vida seguiu seu curso natural, fluido e produtivo para os dois brilhantes artistas. Da mesma forma, as engrenagens de suas respectivas e consagradas bandas não pararam de girar. Paralamas e Kid Abelha prosperaram, enfileirando novos hits, turnês internacionais e recordes de vendagem, provando que a excelência musical de ambos era imune às dores do passado e ao distanciamento cauteloso que os cantores impuseram um ao outro durante anos a fio para evitar novos aborrecimentos e recaídas emocionais.
Entretanto, o destino caprichoso ainda reservava o seu golpe mais brutal, traumático e devastador para a trajetória do grande poeta do rock nacional. O ano de 2001 ficaria eternamente e tragicamente marcado na memória de todo o povo brasileiro pelo fatídico, impiedoso e assustador acidente de ultraleve que caiu sobre as águas em Mangaratiba, no litoral sul do Rio de Janeiro. Herbert Vianna estava alegremente pilotando a aeronave quando ela despencou do céu. A tragédia teve um saldo doloroso além da compreensão humana, vitimando de forma fatal a sua amada e insubstituível esposa Lucy. O cantor sobreviveu de forma considerada pelos médicos como um verdadeiro e indescritível milagre, mas o trauma o deixou com sequelas permanentes, tornando-o paraplégico e obrigando-o a ficar preso, em coma e sob intensos e dolorosos cuidados intensivos durante meses infindáveis em um leito de hospital, lutando bravamente pela vida até conseguir se recuperar minimamente das terríveis lesões neurológicas e físicas para, contra todos os prognósticos e probabilidades estatísticas, poder voltar às atividades artísticas e continuar brilhando nos palcos na cadeira de rodas que se tornou seu novo trono.
Na época desesperadora do terrível acidente aéreo, um evento sombrio que causou uma gigantesca e imediata comoção nacional, gerando correntes de oração ininterruptas pelo país e resultando em milhares de homenagens emocionantes feitas por toda a classe artística brasileira em rede nacional, uma coisa interessante dos bastidores já era realidade: o ressentimento do passado já havia sido enterrado sob os escombros da maturidade. Herbert Vianna já tinha voltado a falar civilizadamente, e até de forma carinhosa, com Paula Toller. As farpas cruéis dos anos oitenta haviam cedido lugar ao perdão. Os dois já interagiam esporadicamente, mas com sincero respeito, desde a década de 90. Inclusive, a célebre, genial e agridoce frase proferida por Herbert sobre a sua ex-namorada surgiu em uma entrevista antológica nesse período de resgate da amizade. Ao analisar, já com a frieza dos anos e do sofrimento amadurecido, o impacto daquele romance destrutivo em sua arte, o roqueiro olhou para trás e decretou de forma poética e genial sobre Paula: “Tu vale ouro. Já me deu muito dinheiro. Obrigado por me arruinar e render boas canções”.
Essa aspa formidável é a perfeita essência da alquimia artística, transformando o veneno do desgosto em um dos ouros mais brilhantes e rentáveis da discografia brasileira. Além de expressar essa verdade crua com sua habitual genialidade e fina ironia, o cantor também demonstrou uma imensa nobreza ao reconhecer pública e repetidamente a gigantesca importância, o aprendizado inestimável e as cicatrizes necessárias que toda a tortura emocional pela qual ele passou ao lado de Paula proporcionaram. Foi através dessa verdadeira e dolorosa forja de sofrimento extremo que ele conquistou o seu amadurecimento humano, aprendendo da pior forma possível a dar o verdadeiro valor existencial, a paz, a lealdade inabalável e o amor puro à pessoa extraordinária com a qual ele acabou se casando, a falecida e sempre lembrada Lucy. Herbert ainda teve a lucidez brilhante de destacar na ocasião que, analisando com a frieza do presente, uma relação tão incendiária e competitiva como a que ele viveu passionalmente com Paula jamais teria dado certo ou sobrevivido a longo prazo de qualquer modo, pois ambos eram grandes demais e famintos demais pelo sucesso para caberem no mesmo ego sem se machucarem e acabarem com a sanidade um do outro de vez.
Em meio a todas essas idas e vindas angustiantes, recheadas com histórias densas, reviravoltas impressionantes e dramas humanos que, com absoluta certeza, renderiam um espetacular roteiro de filme ou documentário vencedor de prêmios de tão formidavelmente complexas, doloridas e emocionantes, a roda implacável do tempo passou, varreu as ilusões da juventude e as coisas mudaram irremediavelmente de cor e de tom. Houve uma época, sim, em que a bela e afiada Paula Toller e o genial Herbert precisaram impor uma gigantesca e cautelosa distância oceânica um do outro para sobreviverem emocionalmente. Mas os dois ídolos voltaram a se comunicar de forma genuína, saudável e muito amistosa depois de alguns anos essenciais de silêncio, quando a vida já se encontrava muito mais assentada, ancorada e tranquila para ambos os lados afetivos. Além do mais, do ponto de vista do mercado, a tensão de dividir o topo havia desaparecido, já que suas respectivas e lendárias bandas se encontravam completamente intocáveis e monumentalmente consolidadas nos anais sagrados da MPB e do rock brasileiro, acima de qualquer disputa mesquinha de vendagens de gravadoras ou posições ingratas em paradas de rádio semanais.
Tanto a genialidade pop do Kid Abelha quanto o poder de fogo arrebatador dos Paralamas do Sucesso cruzaram a virada do século de forma magnânima. Ambas as formações lançaram vários álbuns de sucesso e extrema qualidade de produção após todo aquele longo e turbulento período de trevas da juventude oitentista. Destaque absurdo pode ser dado ao espetacular disco “Uns Dias”, lançado brilhantemente pelos Paralamas no ano de 2002. A obra, que marcou o emocionante retorno oficial de Herbert Vianna aos estúdios após a provação limite entre a vida e a trágica morte no seu terrível acidente, exala sensibilidade. Por outro lado, mas não menos espetacular, o vitorioso Kid Abelha, embalado pela voz sempre doce, suave e inconfundível de Paula, gravou e lançou um histórico e premiadíssimo Acústico MTV exatamente no mesmo emblemático ano de 2002. Ambos os projetos discográficos transcenderam a mídia e são considerados até hoje pelo exigente público e pela rigorosa crítica como verdadeiros e irreparáveis clássicos absolutos e essenciais da música nacional recente.
Os caminhos institucionais das bandas, porém, acabaram sofrendo ramificações irreversíveis com o avançar da cronologia. O Kid Abelha, após mais de trinta anos ininterruptos de estradas lotadas, aplausos de multidões e um número obsceno de discos de ouro, tomou a dura decisão de encerrar definitivamente e oficialmente as suas majestosas atividades no ano de 2013, o que gerou profunda tristeza entre os fãs saudosos da new wave tupiniquim. Esse fim foi sacramentado após um honesto e tranquilo acordo interno entre os seus talentosos membros originais. O pesado e perfeitamente compreensível desgaste natural de três décadas de uma convivência diária esmagadora dentro de ônibus, hotéis, estúdios apertados, camarins e aeroportos, habilmente combinado à natural vontade artística de todos eles em tentar fazer voos solos, explorar coisas muito diferentes, inovar sonoridades ou apenas descansar longe da engrenagem frenética e moedora do showbiz pop rock, levou todos a optarem, sem grandes escândalos desta vez, por abandonar amigavelmente o gigante projeto e pendurar as chuteiras douradas de vez em nome da paz.
Já o trem-bala desgovernado chamado Os Paralamas do Sucesso, contrariando qualquer lógica médica ou comercial do impiedoso mercado, permanecem bravamente, brilhantemente e obstinadamente na ativa até os dias correntes, arrastando um número incalculável de pessoas por onde quer que passem seus amplificadores. O forte e indissolúvel trio de guerreiros da música já declarou abertamente, com orgulho e fúria, que só vai aceitar parar de compor, de suar no palco e de alegrar a nação brasileira quando, por imposição do destino, não tiverem absolutamente mais nenhum pingo de condições motoras ou físicas severas para continuar fazendo o que nasceram para fazer: rock and roll de altíssimo gabarito técnico, poesia refinada e atitude irretocável. Eles seguem indomáveis e insubstituíveis, donos de um legado sonoro de resiliência assombrosa.
E a história prova que as feridas sararam por completo e as correntes tóxicas do passado foram despedaçadas pelo respeito absoluto. Para deleite máximo, histeria coletiva e surpresa inesquecível do imenso e apaixonado público saudosista brasileiro que os acompanhou desde a adolescência conturbada dos anos 80, Paula chegou, de forma lindíssima e madura, a participar intensamente como a principal convidada de luxo de uma aclamada e memorável série especial de shows grandiosos comandados junto com a banda Os Paralamas do Sucesso, que viajaram o Brasil durante a turnê brilhante realizada de forma apoteótica em 2016. Ver os dois dividindo o mesmo espaço físico, os mesmos microfones e sorrindo de forma tão leve e fraterna foi a prova definitiva, reforçando visual e sonoramente que a ótima, educada, gentil e parceira relação que o famoso e bombástico ex-casal sustenta hoje em dia é de uma maturidade invejável, passando uma borracha pesada e cimentando de vez os traumas terríveis e as maldades proferidas vividas de forma tão imatura, ingênua, perigosa e cruel durante a conturbada e vertiginosa explosão estratosférica da fama nos selvagens anos 80. A paz finalmente encontrou morada onde antes só existia a guerra dos egos alimentados pela paixão doentia.
No frigir dos ovos, a impressionante resiliência e a genialidade intocável dessas duas espetaculares lendas vivas nos dão uma enorme lição moral. Mesmo carregando orgulhosamente nas costas largas o enorme peso de mais de quarenta anos brilhantes, somados apenas de puro labor, genialidade criativa incontestável e um nível colossal de sucesso sem precedentes para a bagagem histórica de cada um desses ímpares artistas e pilares da cultura brasileira de entretenimento, é reconfortante constatar que, seja em carreiras solos triunfantes ou no poderoso formato original de bandas antológicas que sobrevivem ao tempo, eles permanecem muito distantes, firmes e alheios à perigosa ideia de uma pacata e silenciosa aposentadoria compulsória. Herbert e Paula continuam se mantendo formidáveis, relevantes e impressionantemente firmes no imprevisível mundo da música e da indústria fonográfica cruel. Ambos continuam a se reinventar, superando o luto, os egos inflados de outrora, as doenças limitantes e as terríveis sequelas avassaladoras de acidentes inexplicáveis. Eles seguem presenteando com maestria ímpar as incansáveis gerações antigas e os novos exércitos de fãs fervorosos e dedicados admiradores. A cada novo acorde tocado e a cada nova nota alcançada em excelentes álbuns de regravações surpreendentes e em grandiosas, primorosas e espetaculares apresentações lotadas nos palcos mais prestigiados do Brasil inteiro, eles atestam por que se tornaram os intocáveis deuses da nossa música e por que suas assinaturas e vozes singulares marcaram irrevogavelmente não somente a estética e o som de uma época específica, mas a trilha sonora inteira de milhares e milhares de amantes apaixonados pela vida e pela arte no Brasil.