O Dia Em Que Maradona Tentou Humilhar Pelé Na TV — A Resposta Que Chocou O Mundo

Ninguém naquele estúdio de televisão em Buenos Aires sabia o que estava prestes a acontecer. Nem os técnicos de som que ajustavam os microfones de lapela, nem os produtores que conferiam o guião pela terceira vez atrás das câmaras, nem os 64 convidados sentados nas cadeiras numeradas do auditório, que tinham chegado duas horas antes só para garantir lugar.

Só uma pessoa naquela sala compreendia o que significava sentar Pelé e Maradona frente à frente em direto, mas sem guião combinado, sem regras, sem rede de proteção. E essa pessoa não era o apresentador. O que aconteceu nos 47 minutos seguintes nunca foi transmitido completo fora da Argentina. As estações cortaram, os jornais resumiram, as versões multiplicaram-se.

Mas quem lá estava, quem viu de perto o rosto de Pelé no momento exato em que Maradona decidiu passar a linha, sabe que o futebol sul-americano nunca mais foi o mesmo depois daquela noite. Não foi uma entrevista, a não foi um debate, foi uma emboscada que saiu pela culatra de uma forma que ninguém naquele estúdio conseguiu prever.

Aconteceu numa noite de março de 1987 e esta é a história que ninguém contou direito. Antes de continuar, deixe-me te pedir uma coisa rápida. Se gosta deste tipo de história que ninguém contou direito, subscreve o canal agora. Ajuda mais do que parece. Um like e um comentário. Dizem pro algoritmo que este vídeo importa e é é isso que mantém este tipo de conteúdo vivo. Agora volta comigo.

A partir a partir daqui, a história avança lentamente. Tudo que aconteceu naquelas horas precisa de ser contado sem pressa, porque o que parece ser uma simples aparição de dois génios na televisão é, na verdade, o resultado de anos de ressentimento acumulado, de vaidades cruzadas e de uma rivalidade que nunca foi apenas sobre futebol.

Quantas vezes pode um homem como Pelé suportar que questionem o que ele construiu em três Campeonatos do Mundo em 1000 golos? em 20 anos de futebol jogado nos cinco continentes. Em que momento é que um jogador que já pendurou as chuteiras decide que não vai mais aceitar calado do que outro homem reescreve a história à frente dele? E qual o preço de responder a uma provocação em direto perante milhões de pessoas, sem levantar a voz, sem perder a compostura, sem dar ao provocador exatamente o que é que ele veio buscar?

Estamos em Buenos Aires, Março de 1987. Não há internet, não há redes sociais, a não há replay instantâneo em loop. O que acontece em direto na televisão argentina morre ou sobrevive, dependendo do que os jornais decidem publicar no dia seguinte. A narrativa pertence a quem controla o microfone.

E nessa noite o microfone estava na mão de Maradona. ou pelo menos era o que ele pensava. Pelé recebeu o telefonema no apartamento do Rio de Janeiro numa terça-feira à noite, três semanas antes da gravação. Eram quase 10 horas. A a televisão estava ligado num noticiário que ele não estava a assistir. Rosemy tinha ido deitar cedo. A empregada já tinha apagado as luzes da cozinha.

O telefone tocou quatro vezes antes que Pelé atendesse. A voz do outro lado era de um produtor argentino de nome Sérgio Gochea, sem parentesco com o guarda-redes. Um homem baixo, magro, de bigode fino, que trabalhava para a emissora há 11 anos e que sabia exatamente o que estava a fazer. A proposta era simples. Um programa especial sobre os maiores jogadores da história do futebol com Pelé como convidado de honra.

Um tributo, uma homenagem. Goicochea repetiu a palavra homenagem quatro vezes na mesma chamada. Falou do formato, uma entrevista longa, imagens históricas, depoimentos de jogadores europeus e sul-americanos que tinham enfrentado Pelé ao longo da carreira. Falou do horário nobre. falou da audiência esperada, falou do cachet, a que era generoso para os padrões da televisão argentina daquela época, e falou, com uma naturalidade ensaiada que o programa seria gravado em Buenos Aires, no estúdio principal da estação, num sábado à noite. O que Goicotia não

disse, o que ninguém disse a Pelé naquele momento era que Maradona já tinha confirmado presença duas semanas antes e que a ideia original do programa não era homenagear ninguém, era criar o confronto que a televisão argentina vinha tentando fabricar desde o Mundial de 1986. A ideia tinha nascido numa mesa de bar, numa conversa entre Goicotea e dois diretores da estação numa noite de janeiro.

A Taça do México ainda estava fresca na memória de todo o continente. Maradona era o deus vivo do futebol argentino. E a pergunta que a imprensa por a fazia sem parar, quem é maior? Apelé Maradona tornara-se a maior máquina de audiências da televisão sul-americana. Bastava pronunciar os dois nomes na mesma frase para que os índices subissem.

Agora imagine os dois nomes na mesma poltrona, no mesmo estúdio, ao vivo, sem guião. Goicocheia sabia que Pelé não aceitaria se soubesse. Pelé não era ingénuo. Tinha 46 anos, três Taças do Mundo, mais de 1000 golos e duas décadas de experiência a lidar com a imprensa de todos os continentes.

A não cairia numa armadilha óbvia. Mas Goicocheia sabia também que Pelé tinha um ponto fraco. Ele nunca recusava uma homenagem. Não por vaidade, ou não apenas por vaidade. Pelé acreditava com uma sinceridade que por vezes irritava as pessoas que o rodeiam, que cada aparição pública era uma oportunidade de representar o futebol brasileiro, de mostrar ao mundo que o Brasil era grande, de transportar a bandeira que ele carregava desde os 17 anos.

E era exatamente aí que a armadilha funcionava. Pelé aceitou o convite na segunda chamada dois dias depois. Pediu apenas que enviassem os dados do voo e do hotel. Goicotea desligou o telefone, acendeu um cigarro e disse para o assistente que estava na sala: “Está feito.” O assistente perguntou se não era arriscado.

Goicocheia soltou a fumo lentamente e respondeu que o risco era não fazer aquele programa. Em março de 1987, a Diego Armando Maradona tinha 26 anos e vivia o auge mais perigoso da sua vida. Fazia menos de um ano que tinha levantou o Campeonato do Mundo no Asteca, com a mão esquerda e com o pé esquerdo perante a Inglaterra e perante o mundo inteiro. Nápolis tratava-o como santo.

Havia murais pintados nas paredes dos bairros populares. Havia crianças batizadas com o nome Diego em cada rua dos quartier espanholi. O Npoli, que nunca tinha sido campeão italiano, aí estava a caminho do primeiro escudeto com Maradona no meio-campo. A A imprensa italiana tratava-o como rei, pelo menos a imprensa napolitana.

A do norte, a de Milão e Turim, o tratava com a mesma condescendência com que tratava todo o sul. Mas dentro do O balneário do Npoli, dentro dos hotéis, dentro dos quartos de hotel fechados com chave, Maradona era já outro homem. Um homem que dormia pouco, que saía muito, que se rodeava de gente que dizia sim a tudo.

Há um homem que precisava de provar todos os dias que era o maior, não porque duvidasse de si mesmo, mas porque não suportava que alguém em qualquer parte do planeta pronunciasse o nome de Pelé antes do dele. Esse era o ponto. Não era inveja, não era insegurança no sentido comum da palavra, era algo mais profundo e mais difícil de nomear. Maradona vinha de Vila Fiorito, de uma casa com chão de terra batida, a de uma infância onde o futebol era a única saída e onde cada drible era uma questão de sobrevivência.

Para ele, o futebol não era arte, era guerra. E numa guerra não existe espaço para dois generais. Cada vez que um jornalista europeu escrevia que Pelé era o maior de todos os tempos. E isso acontecia todas as semanas em algum jornal de algum país. Maradona sentia como se estivessem a dizer que o que ele tinha feito no México não importava, que a mão de Deus não importava, aqui o golo contra a Inglata, Inglaterra, aquele golo, o golo que ele sabia que era o maior golo da história, não interessava.

Porque no fim voltavam sempre ao mesmo nome. Pelé, Pelé, Pelé. Quando Goicocheia ligou a Maradona propondo o programa, não teve de o convencer. Maradona aceitou antes de ouvir os detalhes. Perguntou apenas uma coisa: “A Pele vai estar lá?” Gochea disse que sim. Maradona ficou em silêncio durante 2 segundos e depois disse: “Perfeito”.

E havia algo naquela palavra, na forma como ele a pronunciou, com a voz baixa e lenta, que não era entusiasmo, era determinação. Era a determinação de um homem que finalmente teria a hipótese de dizer na cara de Pelé o que vinha dizendo nas costas há anos, o que a A imprensa argentina vinha publicando em fragmentos, o que os adeptos da Bombonera gritavam nas bancadas.

Maradona queria o confronto, precisava dele e agora ia tê-lo. O problema era que Maradona não conhecia Pelé de verdade. Conhecia o Pelé das imagens em preto e branco. Conhecia o Pelé dos golos narrados por locutores que ouvia nas rádios de Vila Fiorito quando era criança. conhecia o Pelé diplomata, o Pelé sorridente, o Pelé que apertava mãos e pousava para as fotos e nunca dizia nada que ofendesse ninguém, mas não conhecia o outro Pelé, o Pelé que tinha sobrevivido ao Mundial de 1966, sendo caçado no campo sem proteção da

arbitragem. O Pelé que tinha jogado contra defesas que entravam para magoar, não para marcar. O Peléque tinha enfrentado ditaduras, pressões políticas, ameaças de dirigentes e propostas de clubes europeus que ofereciam fortunas para o tirar do Brasil. Maradona pensava que ia encontrar um velho cordial sentado numa poltrona de televisão.

O que encontrou foi outra coisa. Pelé aterrou no aeroparque George Newbury na manhã de uma quinta-feira, dois dias antes da gravação. O avião da Varig tinha atrasado 40 minutos em Guarulhos por causa de uma chuva forte que caiu sobre São Paulo naquela madrugada. Pelé dormiu durante quase todo o voo. tinha o hábito de dormir em aviões desde os tempos dos Santos, quando a equipa viajava duas ou três vezes por semana para jogar em cidades que às vezes nem sabia localizar no mapa.

Dormia com facilidade, em qualquer posição, a qualquer altitude. Era uma habilidade que tinha desenvolvido por necessidade e que manteve a vida inteira. Quando saiu do portão de desembarque, vestia um fato cinzento escuro, camisa branca sem gravata. sapatos de couro preto bem lustrados. tinha 46 anos, o corpo ainda firme, os ombros largos, o sorriso rasgado que as câmaras conheciam de memória.

Dois Os fotógrafos argentinos estavam esperando no átrio. Pelé parou, sorriu, deixou que tirassem as fotografias, apertou a mão de um deles e continuou a caminhar. A um assessor da estação esperava-o no portão de saída com um cartaz escrito à mão num pedaço de cartolina branca. Senr. Pelé. Canal 13.

O assessor era um rapaz com uns 25 anos, cabelo curto, gravata torta, que tremia ligeiramente ao apertar a mão de Pelé. Levaram-no ao hotel Alvear, no Recoleta. O carro era um Ford Falcon preto que cheirava a couro e a cigarro frio. O alvear era o hotel mais elegante de Buenos Aires. Tetos altos, lustres de cristal, carpetes espessas que absorviam o som dos passos.

Pelé foi instalado numa suí no quinto andar com vista para a Avenida Alvear. O quarto tinha uma cama de casal com lençóis brancos, um telefone de disco na mesa de cabeceira, uma pequena televisão num móvel de madeira escura e um arranjo de flores que pediu para removerem porque o cheiro era demasiado forte. Desfez a mala com calma, pendurou os dois fatos que tinha trazido no armário, colocou-lhe os sapatos alinhados por baixo e tomou um banho demorado.

Depois ligou para o rio, falou com Rosemery durante 10 minutos, conversa doméstica, coisas de casa, nada sobre o programa. E desceu para jantar sozinho no restaurante do hotel. Maradona estava hospedado a oito quarteirões dali, num apartamento emprestado por um amigo de infância que se tinha mudado para Buenos Aires nos anos 70 e tinha agora uma concessionário de carros usados ​​em Palermo.

O apartamento ficava num terceiro andar sem elevador, com janelas que davam para uma rua de paralelepípedos. Não tinha o luxo do alvear, tinha sofás de couro sintético, uma televisão de grande numa estante de fórmica. e um cartaz do próprio Maradona na parede da sala. Uma foto do Mundial de 1986 com a taça acima da cabeça e o rosto coberto de suor e de alegria.

Maradona não tinha ido ao alvear, não não tinha ido a nenhum hotel, tinha preferido ficar ali perto dos seus, perto de pessoas que falavam como ele, é que comia como ele, que se ria das mesmas coisas que ele. Oito quadras. Em Buenos Aires, oito quarteirões podem ser à distância entre dois planetas. Na noite anterior, a gravação, enquanto Pelé jantava sozinho no restaurante do alviar, com um prato de massa e um copo de água mineral, a equipa de produção do programa reuniu numa sala dos fundos da emissora. A sala era pequena, com

paredes pintadas de bege, a uma mesa de fórmica retangular com seis cadeiras de escritório e uma ardósia branca apoiada num cavalete de metal. Havia café frio numa garrafa térmica de plástico cinzento, cinzeiros cheios de beatas e uma pilha de papéis com o logótipo da emissora. Gochea estava de pé, em frente da lousa com um marcador preto na mão e o guião do programa dividido em blocos escritos com letras garrafais.

Eram sete pessoas na sala: Gocheia, dois assistentes de produção, o diretor de câmaras, a o editor de imagem, uma maquilhadora que também fazia assessoria de convidados e o apresentador do programa. O apresentador chamava-se Horácio, tinha 53 anos. Cabelo grisalho penteado para trás, voz grossa de locutor de rádio AM e uma carreira de 20 anos na televisão argentina.

Era um profissional competente que sabia conduzir uma entrevista sem perder o controle. Pelo menos era o que ele achava. Goicoa explicou o formato pela terceira vez nessa semana. Tá. Primeiro bloco, 5 minutos de imagens históricas no ecrã. Golos de Pelé em preto e branco. Mundial de 1958, Mundial de 1970, o Gol 1. Segundo bloco, entrada de Pelé.

Entrevista de aproximadamente 20 minutos. Questões sobre a carreira, sobre o Santos, sobre a vida depois do futebol. Terceiro bloco. E aqui Goicocheia fez uma pausa deliberada antes de continuar. Surpresa. Entrada de Maradona pela porta lateral. Confronto direto. Perguntas para os dois. Sem aviso prévio para Pelé.

A sem itinerário combinado, sem rede de proteção. A palavra surpresa foi pronunciada com um sorriso. Goicotea sabia o que estava fazendo. Tinha pensado naquilo durante semanas. Tinha calculado os riscos, tinha calculado a audiência, tinha calculado o impacto nos jornais do dia seguinte e tinha chegado à conclusão de que o risco valia a pena.

Ninguém na sala perguntou se o Pelé sabia. Ninguém na sala perguntou se aquilo era justo. Ninguém na sala perguntou se havia algum problema em convidar um homem de 46 anos para uma homenagem e transformá-la numa emboscada. A televisão argentina dos anos 80 não funcionava com ética, funcionava com audiência.

E aquele programa já tinha vendido cada segundo de publicidade mesmo antes de ser gravado. Horácio, o apresentador, fez apenas uma pergunta. Perguntou o que deveria fazer se a conversa se descontrolasse. Goicochea respondeu sem hesitar. Deixa rolar. A sair do controlo, melhor. Horácio assentiu com a cabeça, tomou um gole do café frio e não disse mais nada.

A maquilhadora, uma mulher de cerca de 40 anos chamada Estela, olhou para Goicoteia com uma expressão que poderia ser desaprovação ou poderia ser apenas cansaço. Ninguém lhe perguntou o que achava. A reunião terminou às 11 da noite. Goicocheia foi o último a sair. Apagou a luz da sala, trancou a porta à chave e caminhou pelo corredor vazio da estação até ao estacionamento.

O chão de linóleo refletia as luzes fluorescentes do teto. Os passos dele ecoavam. Antes de entrar no carro, parou, acendeu um cigarro e ficou olhando para o céu de Buenos Aires durante uns 2 minutos. Depois atirou a bitca para o chão, entrou no carro e foi-se embora. Não dormiu bem nessa noite, não por culpa, por expectativa.

Pelé entrou em estúdio às 20h30 da noite de sábado. Tinha passado à tarde no hotel descansando. Almoçou no quarto, um bife com salada e arroz branco sem sobremesa. E ligou para o rio mais uma vez. leu algumas páginas de um livro que tinha trazido na mala um romance policial americano traduzido para o português que nunca terminou de ler.

Tomou outro banho às 18 horas, vestiu o segundo fato, azul marinho, camisa branca, gravata discreta em Tom Bordô e desceu para o átrio às 7:15. O carro da estação já estava à espera. O estúdio ficava numa região industrial de Buenos Aires, a 40 minutos do hotel com o trânsito daquela hora. O prédio era baixo, de betão cinzento, com uma antena parabólica no telhado e um estacionamento em terra batida na frente.

Pelé entrou pela porta das traseiras, acompanhado pelo assessor da estação e por um segurança que não falava português. Caminharam por um corredor estreito com paredes de tijolo pintado de branco e chão de cimento. O ar cheirava a tinta fresca e a cigarro. O cenário era simples.

Duas poltronas de couro escuro, castanho, a não preto, posicionadas num ângulo de 45º, uma viragem ligeiramente para a outra. Uma mesa baixa de vidro entre elas, com dois copos de água e um jarro de cristal. Atrás, um ecrã de projeção com imagens a preto e branco dos golos do Mundial de 1970. As luzes eram quentes e direcionadas. Existiam quatro câmaras, duas fixas na frente, uma móvel na lateral e uma no fundo para planos abertos do auditório.

O auditório tinha 64 cadeiras, todas ocupadas. A maioria dos convidados eram Os jornalistas desportivos, alguns dirigentes de clubes argentinos, dois ex-jogadores que Pelé não reconheceu e um grupo de estudantes de jornalismo que tinham conseguido convites através de um professor da universidade. Estela, a maquilhadora, levou Pelé para o camarim.

Era um cubículo com um espelho iluminado, uma cadeira giratória e uma bancada cheia de pincéis, pós e sprays. Passou uma base leve no rosto de Pelé, ajeitou o colarinho da camisa. Disse que ele estava bonito. Pelé agradeceu com um sorriso. Estela quase disse alguma coisa. quase avisou, mas não disse. Saiu do camarim com a cabeça baixa e foi fumar um cigarro no corredor.

O apresentador Horácio recebeu Pelé no cenário com um longo abraço e um elogio ensaiado. Disse que era uma honra. Disse que toda a Argentina estava a assistir. Disse que aquela noite era especial. Pelé apertou a mão dele com firmeza, sentou-se na poltrona da esquerda. Pa ajeitou o casaco e cruzou as pernas. As luzes acenderam-se, as câmaras começaram a gravar.

Os primeiros 20 minutos foram exatamente o que tinham prometido, um tributo. As imagens no ecrã gigante mostraram Pelé aos 17 anos na Copa de 1958, com o rosto de menino e o corpo de atleta, driblando defesas suecos que não sabiam o que fazer. Mostraram o golo de bicicleta contra a Bélgica. Mostraram o Mundial de 1970, o passe para Carlos Alberto na final.

Aquele passe que atravessou o campo inteiro como se a bola soubesse sozinha para onde ir. Mostraram o Gol 1 no Maracanã, com Pelé ajoelhado no relvado e 70.000 pessoas de pé. O auditório aplaudia a cada imagem. Pelé sorria, contava histórias, gesticulava com as mãos. Falou dos Santos, das excursões pela Europa e pela África, dos jogos contra equipas que já ninguém se lembra.

Falou de Coutinho, de Pepe, de Zito. A falou com a naturalidade de quem já contou aquelas histórias mil vezes, mas ainda sente alguma coisa ao contá-las. Tudo era calmo, tudo era controlado, tudo era a preparação para o que viria depois. Horácio olhava para o relógio discretamente. Gocheia, atrás das câmaras fazia sinais com a mão.

O momento estava a chegar. Aos 23 minutos de programa, uma porta lateral do estúdio se abriu. Não foi um gesto discreto, foi um gesto teatral acalculado para produzir exatamente o efeito que produziu. A porta era de metal cinzento, pesada, e fez um barulho seco ao abrir. As cabeças do auditório viraram-se ao mesmo tempo. As câmaras reposicionaram-se.

A luz lateral acendeu. Horácio virou-se para a câmara principal com uma expressão que tinha ensaiado no espelho do camarim pelo menos três vezes naquela tarde. Os olhos arregalados, a boca entreaberta num sorriso contido, a voz meio tom acima do normal. Disse apenas uma frase. E agora recebemos o maior jogador do futebol atual.

Pelé não se mexeu, não rodou a cabeça, não olhou para a porta, ficou a olhar para a frente, para a câmara, com o rosto absolutamente imóvel. Imóvel de uma forma que não era natural. Imóvel de um jeito que só fica quem está a processar algo muito rápido por dentro, mantendo a superfície intacta. Os olhos dele estreitaram-se 5,5 mm.

A mandíbula apertou-se levemente. A mão direita, a que estava apoiada no braço da poltrona, fechou-se por um instante e depois relaxou. Maradona entrou caminhando lentamente. Não estava de fato. Estava com uma camisola escura aberta no peito, dois botões abertos, umas calças de ganga, sapatos de couro sem meia e um colar de ouro no pescoço que brilhava sob as luzes do estúdio.

O cabelo estava solto, encaracolado, um pouco mais comprido do que nas fotos do Mundial do México. Tinha um sorriso no rosto que não era de alegria, não era de cordialidade. Não era de respeito, era de antecipação. Era o sorriso de um homem que sabia o que estava prestes a fazer e que estava contando os passos até ao momento de fazer. O auditório explodiu.

Aplausos, gritos, gente de pé. Os 64 convidados reagiram como se um relâmpago tivesse caído no meio do estúdio. Os jornalistas desportivos trocaram olhares. Os ex-jogadores inclinaram-se para a frente nas cadeiras. Os estudantes de jornalismo começaram a sussurrar entre si. Ah, toda a gente entendeu ao mesmo tempo o que estava a acontecer.

Todo mundo, menos Pelé, que já tinha compreendido 3 segundos antes de qualquer um deles. Pelé respirou fundo. O peito subiu e desceu uma vez devagar. ajeitou o casaco com a mão direita, puxando ligeiramente a lapela para a frente. E esperou, esperou com a paciência de um homem que já tinha sido emboscado antes, em campos de futebol, nas salas de imprensa, em reuniões de dirigentes, em aeroportos de países que não queria visitar.

esperou com a calma de quem sabe que o pior que se pode fazer perante uma provocação é reagir antes de compreender o tamanho dela. Naquele instante, compreendeu tudo, entendeu o convite, entendeu a homenagem, compreendeu a viagem, compreendeu porque Goicoa tinha repetido a palavra homenagem quatro vezes na mesma chamada telefónica.

Percebeu porque o cachet era demasiado generoso para um programa de entrevista. percebeu porque ninguém da produção tinha mencionado o nome de Maradona em momento algum durante os dois dias que passou em Buenos Aires. Percebeu tudo em 3 segundos e o rosto dele não se alterou. Os primeiros minutos com os dois juntos no cenário foram de uma cordialidade frágil, como vidro fino que pode estilhaçar com um sopro.

Maradona caminhou até Pelé, que levantou-se da poltrona com a mesma elegância com que tudo fazia. Os dois se cumprimentaram com um aperto de mão firme e um meio abraço protocolar. Maradona disse algo em espanhol que os microfones captaram, mas que se perdeu no barulho do auditório. Pelé respondeu em português com um sorriso breve.

Maradona sentou-se na poltrona da direita, cruzou as pernas, apoiou o braço no encosto e ficou olhando para Pelé com uma tranquilidade estudada. Pelé sentou-se de novo, ajeitou a gravata e esperou que Horácio conduzisse. Horácio estava visivelmente nervoso há apesar de anos de experiência. A presença simultânea dos dois maiores jogadores do mundo no seu programa era mais do que ele se tinha preparado para gerir, mas fez o que sabia fazer.

Começou com perguntas genéricas, inofensivas, desenhadas para que os dois se acomodassem. perguntou a Maradona qual tinha sido o maior jogador que tinha defrontado. Maradona respondeu com uma frase curta e precisa: “Zico não elaborou.” Olhou para Pelé de Soslaio para ver se a resposta provocava alguma reação. “Não provocou.

” Pelé manteve o rosto neutro. Horácio perguntou a Pelé a mesma coisa. Pelé respondeu calmamente, nomeando Becken Bauer e de Stepano, explicando porque cada um era extraordinário, dando detalhes de jogos específicos. Falou durante quase 2 minutos. Maradona ouviu com os braços cruzados, o queixo ligeiramente erguido, a perna balançando de leve.

Era a linguagem corporal de quem está impaciente, a de quem está aguardando a sua vez. O Horácio fez mais duas ou três perguntas de manual. Qual foi o golo mais bonito? Qual foi a taça mais difícil? Perguntas que os dois já tinham respondido centenas de vezes e que podiam responder no automático. Maradona continuava olhando para Pelé de Soslaio, esperando uma brecha, medindo o terreno, calculando o momento.

A brecha surgiu aos 31 minutos de programa. Horácio, seguindo o guião que Goicoia tinha desenhado no quadro branco e fez a pergunta que todos na sala sabiam que seria feita em algum momento daquela noite. Olhou para Maradona e disse: “Diego, consideras-te melhor que Pelé?” O auditório ficou em silêncio, um silêncio súbito e completo que contrastava com o barulho constante dos minutos anteriores.

Até os técnicos de som deixaram de se mexer. Maradona não respondeu diretamente. Fez algo mais inteligente e mais perigoso do que simplesmente dizer sim. Primeiro sorriu, um sorriso lento de canto de boca. Depois ajeitou-se na poltrona, descruzou as pernas, inclinou o corpo ligeiramente para a frente e disse, olhando para Horácio, mas falando para Pelé, que não era uma questão de ser melhor ou pior.

Disse que o Pelé era um grande jogador. Usou a palavra grande com uma entoação que a transformava em algo menor do que era. disse, como se estivesse a falar de um bom jogador de uma época distante. Depois acrescentou o que realmente queria dizer. Disse que o Pelé jogava num futebol sem marcação, a sem pressão tática, sem a brutalidade do futebol moderno.

Disse que os defesas dos anos 60 não marcavam como os defesas dos anos 80. disse que o futebol que Pelé jogava era mais lento, mais aberto, mais fácil. Disse isto olhando para Pelé. Pelé não respondeu, não abriu a boca, não mudou a expressão do rosto, não descruzou as pernas, não apertou o maxilar, não fez nenhum gesto que indicasse que as As palavras de Maradona tinham chegado a algum lugar dentro dele.

Apenas segurou o copo de água com a mão esquerda, levou-o aos lábios, deu um gole pequeno e voltou a colocar o copo na mesa. O gesto foi tão natural e tão calmo que parecia ensaiado. Não era. Era o resultado de décadas de experiência lidando com provocações que fariam qualquer outro homem reagir. Horácio olhou para Goicoteia atrás das câmaras.

Goicotea fez um gesto com a mão. Continua. Horácio voltou para junto de Maradona e fez outra pergunta mais direta. Maradona respondeu e o ambiente no estúdio foi se adensando como uma nuvem de tempestade que se forma lentamente no horizonte. O que aconteceu aos 38 minutos de programa foi o que a produção pretendia desde o início, mas que ninguém, nem Goicochea, nem Horácio, nem os técnicos, nem os 64 convidados, esperava que fosse tão longe.

Maradona, estimulado pelo silêncio de Pelé e pela energia do auditório que se ria a cada frase sua e aplaudia a cada gesto seu, decidiu ir além. Muito além. Aí tinha sido uma escalada gradual. Primeiro, as insinuações sobre o nível técnico do futebol dos anos 60. Depois as comparações diretas com o futebol dos anos 80.

Depois os comentários sobre a marcação, sobre a velocidade do jogo, sobre a pressão física. Cada frase, um degrau, cada degrau mais alto que o anterior. E Pelé em silêncio, o que para Maradona não era um sinal de controlo, era um sinal de fraqueza. Maradona interpretou o silêncio de Pelé como submissão, mas como incapacidade de responder, como a prova viva de que ele, Maradona, tinha razão, e isso o encorajou a ir mais longe.

olhou para Pelé, desta vez diretamente, sem desviar o olhar, sem usar Horácio como intermédio, e disse com o microfone aberto e 64 pessoas a assistir e milhões assistindo pela televisão, que o futebol brasileiro dos anos 60 era um futebol de férias. usou esta expressão. Futebol de vacaciones. Disse que os defesas não marcavam, a que os guarda-redes não defendiam, que os campeonatos sul-americanos dessa época não tinham a pressão nem a competitividade dos campeonatos europeus dos anos 80.

Disse que três copas nessa altura valiam menos do que uma copa nos anos 80. disse que com a convicção de quem acredita genuinamente no que está a dizer. E talvez Maradona acreditasse, talvez precisasse de acreditar. E depois acrescentou uma frase que fez o estúdio inteiro suster a respiração. Uma frase sobre os santos.

Ah, sobre as excursões internacionais, sobre o dinheiro. Disse que o Santos dos anos 60 viajava oo mundo jogando partidas amigáveis ​​que eram espetáculos circenses, não jogos de futebol. Disse que Pelé marcava golos contra equipas que não existiam, contra Selecções amadoras, contra adversários que estavam ali para perder, porque tinham sido pagos para perder.

e disse que os mil golos de Pelé eram uma construção. Usou a palavra constru que não resistia a uma análise séria. A uma frase que colocava em dúvida não o talento de Pelé, mas a legitimidade de tudo o que tinha construído, de tudo que o Brasil tinha construído, de tudo que o futebol brasileiro representava.

O auditório ficou mudo. Não houve aplausos, não houve risos. Houve um silêncio tenso e pesado, como o ar temporal. Horácio engoliu em seco. Goicocheia, atrás das câmaras sentiu o estômago apertar. Estela, que assistia de um canto do estúdio com os braços cruzados, afechou os olhos por um instante.

Maradona recostou-se na poltrona com o ar satisfeito de quem acaba de desferir o golpe definitivo. Olhou para Pelé na esperança de ver a derrota no seu rosto, esperando ver a raiva, a indignação, o descontrolo que validaria tudo o que ele tinha dito. O que ele viu foi outra coisa. Pelé esperou 3 segundos depois de Maradona acabou de falar.

3 segundos de silêncio absoluto num estúdio de televisão em direto em Buenos Aires. 3 segundos que pareceram 30. O único som era o zumbido quase imperceptível das luzes do estúdio e a respiração coletiva de 64 pessoas que se tinham esquecido de como respirar normalmente. Depois, Pelé colocou o copo de água na mesa.

O gesto foi deliberado, lento, quase cerimonial. Colocou o copo exatamente no centro da mesa de vidro, junto ao jarro. ajeitou-se na poltrona, puxou as mangas do palitóio centímetro para baixo, descruzou as pernas e plantou os dois pés no chão, com os joelhos afastados, certo? O corpo ligeiramente inclinado para a frente. Olhou para Maradona sem pestanejar.

Olhou como quem olha para alguém que acabou de cometer um erro irrecuperável sem saber e começou a falar. Não levantou a voz, não gesticulou, não sorriu, não mostrou raiva, não mostrou indignação, não mostrou nada que Maradona pudesse usar. A voz de Pelé saiu baixa, firme, com uma cadência lenta que obrigava cada pessoa naquele estúdio a prestar atenção a cada sílaba.

Mas era a voz de um homem que não era preciso gritar, porque o que tinha para dizer era demasiado grande para caber num grito. Falou durante 4 minutos sem ser interrompido. Porque nem Maradona, nem Horácio, nem ninguém naquele estúdio teve coragem de interromper. Começou pelo princípio. Disse que em 1958, quando ganhou o primeiro Campeonato do Mundo, tinha 17 anos. 17.

repetiu o número. Disse que nessa Taça defrontou defesas suecos, gales a franceses e soviéticos que jogavam com a mesma brutalidade que qualquer defesa dos anos 80 e que nenhum deles conseguiu pará-lo. Disse os nomes, disse as datas dos jogos, disse os resultados. Depois falou do Mundial de 1962 no Chile, onde realizou apenas dois jogos porque sofreu uma lesão muscular contra a Tzecoslováquia.

Uma lesão provocada por uma entrada violenta de um defesa que foi para cima dele com a intenção declarada de tirá-lo da competição. Disse que o O Brasil ganhou aquela Copa sem ele em campo nos jogos decisivos, o que provava que a seleção era mais do que um jogador e que nunca teve vergonha de dizer isso.

Depois falou do Mundial de 1966 em Inglaterra. E aqui a voz de Pelé mudou pela primeira vez. Não ficou mais alta, ficou mais densa, mais pesada. Falou de como foi caçado em campo contra Portugal. Falou de como o defesa português entrou nele com uma falta que hoje seria cartão vermelho direto, a suspensão de 10 jogos e processo-crime.

falou de como saiu do campo a coxear, sem substituição, porque nessa altura não havia substituições. Falou de como a arbitragem europeia deixou que aquilo acontecesse sem consequências e disse uma frase que fez Maradona desviar o olhar pela primeira vez. O futebol que eu praticava não era fácil. O futebol que joguei tentou destruir-me e não conseguiu.

Depois falou dos mil golos, não defendeu o número, não precisava. Em vez disso, listou adversários, enumerou guarda-redes, enumerou estádios. Falou de golos ao Benfica de Eusébio, contra a Internacional de Helênio Herreira, frente ao Real Madrid de Gento e Puscas. Falou de jogos em San Ciro, em Wembley, no Santiago Bernabé, no estádio da Luz, em Colombes, em Hamburgo.

Disse os nomes dos guarda-redes que enfrentou, disse os placares, disse as datas, não com arrogância, com a precisão cirúrgica de um homem que carregava cada um daqueles golos na memória, como quem carrega cicatrizes no corpo, e terminou com algo que ninguém esperava. Não terminou atacando Maradona. Não terminou defendendo-se, terminou dizendo que respeitava o que Maradona tinha feito no Mundial de 1986.

disse que o golo contrata a Inglaterra era um golo extraordinário. Disse que Maradona era um jogador de imenso talento e depois disse com a voz ainda mais baixa, quase num sussurro que os microfones captaram porque o estúdio estava em silêncio absoluto. Mas não preciso de diminuir o que você fez para provar o que eu fiz.

Ai fez uma pausa. Eu nunca precisei. O estúdio ficou em silêncio durante 5 segundos depois de Pelé terminar de falar. 5 segundos que pareceram uma eternidade. Ninguém aplaudiu, ninguém se mexeu. Maradona estava com os braços apoiados de joelhos, olhando para o chão. Não para a câmara, não para Pelé, para o chão.

Horácio segurava o papel com as perguntas e não conseguia ler. A câmera lateral captou o rosto de Goicochea atrás do monitor e este estava branco. Depois o auditório começou a aplaudir devagar primeiro, como se estivessem pedindo autorização. Depois mais forte, depois de pé. O programa terminou aos 47 minutos. Horácio agradeceu com a voz levemente trémula.

Os créditos subiram no ecrã e o auditório aplaudiu de pé pela segunda vez em 5 minutos. As luzes do estúdio apagaram-se parcialmente, deixando apenas a iluminação de serviço, aquela luz fria e branca que transforma qualquer cenário de televisão num armazém industrial. La Maradona levantou-se primeiro. Levantou-se rapidamente, com um movimento brusco, como quem precisa de sair de um local que ficou pequeno demais.

apertou a mão de Pelé com um gesto rápido, dois segundos, não mais, sem olhar nos olhos dele. Não disse nada, não disse obrigado, não disse boa noite, não disse nenhuma das palavras que o protocolo de televisão normalmente exige. virou costas, caminhou-a até à porta lateral, a mesma porta por onde tinha entrado 30 minutos antes, com o sorriso de antecipação e o colar de ouro a brilhar, e saiu sem falar com ninguém da produção, nem com Goia, que tentou dizer alguma coisa quando Maradona passou por ele, mas foi ignorado. nem com Horácio, que

estendeu a mão e ficou com ela no ar, nem com a Estela, ali que estava encostada na parede do corredor, fumando o terceiro cigarro da noite, e que viu Maradona passar como um furacão silencioso em direção à saída dos fundos. No corredor, Maradona encontrou o amigo que o tinha hospedado no apartamento de Palermo.

O amigo estava à espera com as chaves do carro na mão. Maradona não disse nada. O amigo compreendeu. Caminharam juntos até ao estacionamento de terra batida batida. Arearam no carro um Peugeot 504 branco com os bancos em pele rachados e saíram da estação sem ligar o rádio. O amigo contou depois, muitos anos depois, a um jornalista desportivo de Rosário que Maradona ficou em silêncio durante todo o percurso até ao apartamento, 25 minutos sem dizer uma palavra.

e que quando chegaram, Maradona subiu os três lanços de escadas, entrou no apartamento, foi diretamente para o quarto e fechou a porta. Não jantou, não ligou a televisão. Ah, não ligou a ninguém. Pelé, por sua vez, ficou sentado na poltrona mais dois minutos depois de os créditos subiram. Não porque precisasse, porque queria.

Conversou com Horácio sobre coisas sem importância. O clima de Buenos Aires, a comida do hotel, uma viagem que Pelé ia fazer à Europa na semana seguinte. Horácio tentava manter a conversa, mas estava visivelmente abalado, como alguém que testemunhou um acidente e ainda não processou o que viu. Pelé percebeu e não insistiu.

Levantou-se, apertou a mão de Horácio com firmeza, olhou-o nos olhos e disse apenas: “Foi um bom programa.” Depois tirou fotografias com três pessoas do auditório que se aproximaram com timidez. Um velho jornalista do Lana Naciona de 1970 e que disse a Pelé com a voz embargada que aquele Mundial era a coisa mais bonita que já tinha visto no futebol.

Um estudante de jornalismo que tremia ao apertar a mão a Pelé e que mal conseguiu dizer o seu próprio nome. E uma mulher de cerca de 50 anos, a única mulher no auditório, para além de Estela, que disse que era brasileira, que vivia em Buenos Aires tinha 20 anos e que tinha chorado durante os 4 minutos em que Pelé falou.

Pelé segurou-lhe a mão com as duas mãos, disse obrigado e caminhou em direção ao corredor principal. No estacionamento da emissora, o Ford Falcon Preto já estava com o motor ligado. O motorista era o mesmo que o tinha levado do aeroporto. Rúben, 50 e poucos anos, a cabelo ralo, bigode grisalho, mãos grandes de quem já tinha trabalhado com outra coisa antes de conduzir carro para a televisão.

O Ruben abriu a porta traseira. Pelé entrou, sentou-se, fechou a porta e ficou em silêncio. O percurso até ao hotel Alvear demorou 20 minutos. Ruben conduziu pelas ruas de Buenos Aires numa noite de sábado que estava estranhamente calma para os padrões da cidade. Poucas pessoas nos passeios, pouco trânsito.

As luzes dos postes refletiam no asfalto molhado. Tinha choveu uma chuva miudinha no começo da noite que já tinha parado. Pelé não falou, não olhou pela janela, não pediu para ligar o rádio, ficou sentado com as mãos apoiadas nos joelhos. Olhando para à frente com uma expressão que Ruben não conseguiu decifrar pelo espelho retrovisor.

Não era tristeza, não era satisfação, não era cansaço, era algo que o Ruben nunca tinha visto antes num passageiro. Quando chegaram ao hotel, a Pelé disse: “Obrigado em espanhol. Gracias”. Saiu do carro e caminhou até à porta do alvear, sem se virar. O Ruben ficou parado no carro com o motor em funcionamento, olhando Pelé entrar no hotel.

Depois desligou o motor, ficou sentado no escuro durante uns 2 minutos e ligou novamente o carro para ir embora. Ruben contou depois a um colega, outro motorista da estação chamado Osvaldo, que nunca tinha visto um homem tão calmo depois de ter feito o que Pelé fez. Calmo não como quem não não sente nada.

Acalmo, como quem já sabia, antes de entrar naquele estúdio, exatamente como tudo ia terminar. Osvaldo perguntou como era possível saber uma coisa destas. O Ruben pensou por um momento e respondeu: “Quando se é o melhor do mundo durante 20 anos, sabe o que vai acontecer quando alguém tenta provar que não é.” No dia seguinte, os jornais argentinos publicaram versões diferentes do que tinha acontecido.

Alguns diziam que Maradona tinha dominado o programa, a outros disseram que Pelé tinha sido arrogante. Um ou dois disseram a verdade, que Pelé tinha respondido com uma dignidade e uma precisão que Maradona não esperava e não soube enfrentar. Mas a maioria cortou, editou, resumiu, reinterpretou. A televisão argentina nunca transmitiu o programa completo de novo.

As fitas foram arquivadas. As cópias circularam durante anos em má qualidade, gravadas a partir de gravações de gravações, até que a maioria se perdeu. Pelé regressou ao Rio de Janeiro no dia seguinte, num voo da manhã. não deu entrevistas no aeroporto, não comentou o programa publicamente durante meses, quando finalmente lhe perguntaram o que tinha acontecido naquela noite em Buenos Aires, num evento no Rio, muitos meses depois, Pelé respondeu com uma frase curta que os presentes nunca esqueceram. Disse: “Eu não fui lá para

brigar com ninguém. Eu fui lá porque me convidaram para uma homenagem e foi isso que recebi. Maradona nunca comentou aquela noite publicamente de forma direta. Em entrevistas posteriores, quando mencionavam o programa, ele desviava o assunto ou dizia que não se lembrava-se dos detalhes. Mas as pessoas ao à sua volta sabiam, os amigos sabiam, o amigo do apartamento de Palermo sabia e Goicoia sabia. Goicocheia.

que continuou trabalhando na estação por mais 7 anos, que produziu dezenas de outros programas, não é? Mas que nunca mais tentou sentar dois gigantes frente à frente sem que ambos soubessem o que estava acontecendo. Não por ética, por receio de que acontecesse de novo o que aconteceu naquela noite.

O que aconteceu naquela noite não foi uma vitória de Pelé sobre Maradona. Não foi uma derrota de Maradona perante Pelé. Foi algo mais complexo e mais triste do que uma simples disputa de egos na televisão. Foi o momento em que ficou claro para quem lá estava, para quem viu, ah, para quem ouviu dizer que a grandeza de Pelé não vivia nos golos, nos títulos, nos números.

vivia na capacidade de absorver um golpe sem ripostar com a mesma moeda, de responder à provocação com factos, não com insultos, de manter a compostura quando tudo à volta estava desenhado para o fazer perder. E foi o momento em que ficou claro que Maradona, com todo o o seu génio, com toda a sua coragem, com toda a sua capacidade de fazer coisas impossíveis com uma bola de futebol, lhe transportava dentro de si algo que o impedia de aceitar que outro homem pudesse ser tão grande como ele.

Não era fraqueza, era dor. Uma dor que vinha de longe, de vila fiorito, do chão de terra, da infância sem nada. Uma dor que o futebol curava temporariamente e que voltava sempre em ondas, sobretudo quando alguém pronunciava o nome de Pelé. Passaram os anos e aquela noite foi sendo enterrada pelo tempo, pelas versões, pelas disputas que vieram depois.

A a rivalidade entre Pelé e Maradona continuou durante décadas, alimentada pela imprensa, pelos adeptos, pelos que precisavam escolher um lado como se o futebol exigisse essa escolha. Os dois continuaram a falar um do outro, ora com respeito, ora com farpas, por vezes com um silêncio que dizia mais do que qualquer palavra. Mas quem estava naquele estúdio em Buenos Aires em Março de 1987? Quem viu o Pelé colocar o copo de água na mesa? A ajeitar-se na poltrona e a falar durante 4 minutos sem levantar a voz? Sabe que alguma coisa mudou naquele

noite? Não no futebol, no entendimento do que significa carregar o peso de ser o maior, de ser questionado todos os dias, de ter cada golo, cada título, cada momento da sua vida examinado, dissecado, diminuído por alguém que precisa que seja menor para que ele possa ser grande. Pelé carregou este peso durante 60 anos.

Carregou com o sorriso, carregou com o silêncio, carregou com a paciência de um homem que sabia que a história, a história de verdade, não a que os jornais inventam, estava do lado dele. E naquela noite em Buenos Aires, durante 47 minutos, perante 64 testemunhas e de milhões de pessoas que nunca viram a gravação completa, Pelé mostrou porquê.

Não com gritos, não zangado, não com insultos, com a calma devastadora de quem sabe exatamente quem é. Hoje é quando ligamos a televisão e vemos debates sobre futebol em que todo o mundo grita ao mesmo tempo, em que as as opiniões duram o tempo de um tweet e em que a provocação é o formato padrão de qualquer programa desportivo, é fácil esquecer como era resolver um litígio destas sem rede de proteção, sem editor, sem assessor de imprensa sussurrando ao ouvido, sem a possibilidade de apagar o que foi dito.

Nessa noite, dois homens sentaram-se frente à frente e disseram o que tinham para dizer. A um deles gritou sem levantar a voz, o outro levantou a voz sem conseguir gritar. A história não termina com justiça, nem com alívio. Termina com a imagem de um Ford Falcon preto a atravessar as ruas de Buenos Aires num sábado à noite, com um homem calado no banco de trás e um condutor que ainda tenta compreender 30 anos depois o que viu no espelho retrovisor naquela noite. Т.

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