Em 1962, Roberto Carlos passou por Luís Gonzaga numa praça do Rio de Janeiro e não o reconheceu. O rei do baião estava ali o chapéu de couro no colo e ouviu com os próprios ouvidos o que o jovem cantor disse sobre ele. O que Roberto Carlos disse nesse instante envergonha até hoje. Tem gente que acha que esta história é lenda.
Tem pessoas que preferem não acreditar, porque acreditar dói demais. Mas existe um homem, há um nome, há uma voz que esteve lá, que viu tudo, que guardou aquilo durante décadas sem falar para ninguém. E esse homem não era qualquer um, era o Zé Raimundo Ferreira, técnico de som da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, pernambucano de Caruaru, que tinha chegado ao Rio 10 anos antes num pau de arara, com uma muda de roupa e o sonho de trabalhar com música.
E foi precisamente ele que estava sentado num banco de pedra da A Praça Tiradentes naquela tarde de agosto, quando os dois se cruzaram. Mas o que o Zé Raimundo viu não era apenas um encontro, era o retrato de uma época inteira. Era o momento exato em que o Brasil decidia que tipo de canção ia carregar em frente e o que estava a ser deixado para trás.
E o que disse Roberto Carlos em voz alta naquele instante, sem saber que Gonzaga ouvia, é uma frase que o Zé Raimundo repetiu para poucos. Uma frase que quando chegou aos ouvidos certos, fez os homens crescidos baixarem a cabeça de vergonha. A primeira coisa que precisa de entender é porque Luís Gonzaga estava ali sozinho, sem manager, sem músico, sem ninguém.
Sentado num banco de uma praça do centro do rio, como se fosse um retirante à espera do próximo camião, sendo que era o homem que tinha posto o baião na rádio de todo o o Brasil. Esse pormenor não era acidente. Era a prova de uma crise que quase ninguém soube dimensionar na época.
E quando compreender o que levou o rei do baião àquele banco, a história do que Roberto Carlos disse vai pesar muito mais do que já pesa. Mas o que vem agora é ainda mais forte, porque para além da frase, para além da crise, existe uma terceira parte desta história que o Zé Raimundo levou quase 30 anos para contar.
Quando ele contou, foi para um jornalista de Recife, que não publicou por medo de causar um escândalo maior do que a história comportava. Este jornalista era amigo de infância de Zé Raimundo. E o que ele escreveu, o que ele registou palavra por palavra num caderno de capa preta, é o que chegou até aqui.
O que vai descobrir daqui há pouco tempo vai mudar completamente a forma como vê esta tarde de agosto de 1962. Porque isto aqui era só o início. Luís Gonzaga tinha 50 anos nesse ano. 50 anos. E uma carreira que tinha iniciado nas feiras do Nordeste, passou pelos auditórios do Rio dos anos 40, explodiu na rádio no final dessa mesma década e dominou o Brasil inteiro nos anos 50.
O homem que tinha gravado Asa Branca, baião, Shote das Meninas, A vida do Viajante, o homem que tinha ensinado o Brasil urbano a sentir saudades de um sertão que muitos nunca tinham pisado. Este homem estava atravessando em 1962 o momento mais duro da tua vida profissional. A bossa nova tinha chegado e chegou como uma maré que vira tudo.
A rádio Nacional, que tinha sido a casa de Gonzaga, estava de cabeça para baixo. Os diretores queriam novidade. Queriam aquele violão baixinho que soava como coisa de gente fina, coisa de apartamento com vista para o mar. o baião, o forró, o chote. Aquilo tinha-se tornado nos corredores das rádios e nas revistas do Rio, sinónimo de coisa atrasada, coisa de povo sem estudo, coisa de migrante que ainda não tinha conseguido se adaptar à cidade de verdade. E Gonzaga sabia disso. Ele
não era parvo. Ele tinha bons ouvidos demasiado para não perceber quando o mundo estava a virar as costas. Foi por isso que naquela tarde de Agosto estava na Praça Tiradentes. Tinha saído de uma reunião na rádio que tinha durado menos de 20 minutos e que não tinha terminado bem.
O que foi dito nessa reunião não vai ser revelado aqui ainda, mas o que lhe precisa de saber é que Gonzaga saiu daquele edifício com a mão a segurar o chapéu de couro com uma força que fazia branquear os nós dos dedos. E foi sentar-se naquele banco porque precisava de respirar.
precisava de deixar o sertão dentro dele, acalmar-se antes de fazer qualquer coisa que não pudesse desfazer. Era uma tarde comum no centro do rio, autocarros barulhentos passando sem parar, vendedor de amendoins com o cone de papel na mão. Meninos a jogar futebol de borracha num canto da praça, gritando os nomes uns dos outros com aquela intensidade que só a infância tem.
O sol daquele Agosto carioca pesando em cima de toda a gente como uma laje quente. Gonzaga estava com uma camisa simples, sem a roupa de vaqueiro, sem o chapéu colocado na cabeça. O chapéu estava ao colo e as mãos em cima dele paradas, quietas. Qualquer pessoa que passasse por ele naquele momento veria um homem de meia idade descansando à sombra de uma árvore. Não veria o rei do baião.
Não veria o homem que tinha feito o Brasil chorar de saudade durante uma década inteira. E foi exatamente isso que Roberto Carlos não viu. Roberto Carlos tinha 21 anos nesse mês de agosto. Ainda não era a estrela que viria a ser, mas já tinha um nome a circular nas rádios, já havia aquela presença, aquela forma de mover o corpo que fazia as raparigas pararem na calçada.
Estava a chegar à praça com um grupo de quatro ou cinco rapazes músicos. compositores jovens, aquele tipo de turma que andava junta no Rio dos anos 60 a falar sobre música o tempo todo, discutindo acorde, discutindo arranjo, com a certeza alegre de quem acredita que o futuro está a ser inventado agora, nesta semana por eles.
Zé Raimundo estava no banco do lado. Tinha saído da Rádio Nacional mais mais cedo do que o habitual. também não estava num dia bom, também precisava de ar. Sentou-se para fumar um cigarro e ficou a olhar para o movimento da praça quando reconheceu Gonzaga no banco vizinho. Reconheceu-o imediatamente. Tinha trabalhado com ele na rádio mais do que uma vez.
tinha ajustado o microfone antes das gravações, tinha ouvido aquela voz de perto o suficiente para nunca mais confundir com ninguém em circunstância alguma. Ficou quieto, pensou em levantar-se para cumprimentar, mas alguma coisa, na forma de Gonzaga segurar o chapéu, disse-lhe que o homem queria estar em paz.
Era aquele silêncio de quem está segurando alguma coisa por dentro. e não quer que ninguém se aproxime enquanto está a segurar. Depois ficou onde estava, fumou, olhou para o outro lado. Foi quando o grupo de Roberto Carlos passou. Aqui é onde o Zé Raimundo diz que o seu coração apertou.
Porque um dos rapazes do grupo, não Roberto Carlos, um dos outros, um rapaz magro de cabelo oleado, olhou para o banco onde Gonzaga estava sentado e disse em voz alta, sem baixar o tom, com aquela imprudência de quem não pensa antes de falar. Olha ali, parece aquele velho acordeonista que aparecia na rádio.
E Roberto Carlos olhou aqui. Precisa de parar um segundo, porque o que vem depois não é o que estás esperando. Roberto Carlos olhou, ficou um momento com os olhos em Gonzaga. Tempo suficiente para reconhecer, tempo suficiente para associar aquele rosto a algo. E disse: “E o Zé Raimundo ouviu palavra por palavra.
encontrava-se a menos de 3 m de distância. Esse não é ele, não. Gonzaga usa roupa de vaqueiro. Este é só um velho do Nordeste que perdeu o rumo. E o grupo Rio. Um riso ligeiro, despreocupado, o riso de quem não compreende o tamanho do que está a pisar. E passou. Gonzaga ouviu tudo.
Zé Raimundo viu os ombros de Gonzaga subirem uma vez devagar, como se um peso tivesse pousado neles. Mas o homem não virou a cabeça, não disse nada, não fez qualquer gesto. Ficou a olhar em frente, as mãos no chapéu, o olhar fixo em algum ponto da praça que não tinha nada de especial.
Um ponto que podia ser o Rio de Janeiro ou podia ser o sertão de Exu, que só ele sabia. E foi o silêncio de Gonzaga naquele momento que O Zé Raimundo disse que nunca mais esqueceu. Não foi a frase de Roberto Carlos, não foi o riso do grupo, foi o silêncio de Gonzaga depois da frase, aquele silêncio largo, pesado, do homem que ouviu e decidiu que ouviu e não precisava de fazer mais nada com aquilo.
Mas havia algo que o Zé Raimundo ainda não sabia naquele banco. Havia algo que ele só ia descobrir três dias depois, quando voltou a encontrar Gonzaga no corredor da Rádio Nacional e que mudaria completamente o que ele pensava ter entendido sobre aquela tarde, sobre Gonzaga, sobre o que significa ser grande sem precisar que ninguém veja.
Zé Raimundo Ferreira nasceu em 1930 numa rua de barro em Caruaru. Filho de sapateiro. Cresceu a ouvir forró nas feiras de sábado, ouvindo Gonzaga na rádio de um vizinho que tinha o aparelho mais caro da rua e deixava a janela aberta paraa música escapar. Quando o pai morreu de febre, em 1949, ele fez o que faziam os filhos do sertão.
Quando o destino fecha uma porta, apanhou o que tinha, que era quase nada, e foi para o sul tentar. Chegou ao rio com 17 anos no cangote. Dormiu debaixo de um viaduto na primeira semana. Trabalhou de tudo antes de conseguir uma vaga de assistente numa rádio mais pequeno do centro. foi subindo lentamente, degrau a degrau, com a paciência de quem aprendeu desde cedo que o nordestino, que quer chegar a algum lugar no sul precisa de trabalhar o dobro e reclamar a metade. Chegou à Rádio Nacional em 1955.
Contar isto não é desvio, é o caminho para tu perceberes porque o que O Zé Raimundo viu naquele banco pesou tanto nele, porque Gonzaga não era um artista distante de uma revista. Gonzaga era a voz que tinha feito companhia a cada retirante nordestino, que tentou refazer a vida longe de casa.
Era a voz que dizia que a saudade não era fraqueza, que o sertão tinha valor, que o homem que vinha do chão seco de Pernambuco tinha tanto direito a esse país como qualquer outro que nasceu com mais sorte de lugar. Era a voz que quando tocava num tasco da barra funda ou num bar do brás, fazia o nordestino parar o que estava a fazer e fechar os olhos por um segundo, só um segundo, e estar de volta em casa, na feira, no cheiro da carne de sol, no calor seco que dói e
cura ao mesmo tempo. ver este homem ser confundido com um velho sem rumo por um jovem que não tinha ainda vivido o suficiente compreender o que Gonzaga representava para milhões de pessoas. Isto para o Zé Raimundo não era só uma cena de praça, era uma sentença. Era o Brasil dizendo em voz alta que ia esquecer, que ia trocar, que ia seguir em frente sem olhar para quem ficou para trás.
Ainda não sabe o que Gonzaga fez nos três dias que separaram aquela tarde da praça do reencontro no corredor da rádio. Isso vem agora e quando vier vai mudar o sentido de tudo que já ouviu até aqui. Naquele banco, depois de o grupo de Roberto Carlos desapareceu na rua, Gonzaga ficou mais uns 15 minutos em silêncio. Zé Raimundo conta que chegou a pensar que o homem tinha adormecido de tão quieto que estava.
Mas aí Gonzaga se mexeu, colocou o chapéu lentamente na cabeça, com aquele gesto preciso e firme, que quem o conhecia sabia que era um ritual. Não era só colocar o chapéu, era vestir-se de volta, era armar-se de si mesmo antes de voltar para a rua. levantou-se do banco sem pressa e foi embora em direção à rua da carioca, sem olhar para trás uma vez.
O Zé Raimundo ficou onde estava, fumou mais um cigarro até ao fim, deixou a brasa queimar os dedos antes de deitá-lo fora e pensou num verso de asa branca que não lhe saía da cabeça. Aquele verso sobre o verde dos olhos que espalha-se na plantação, sobre o regresso para quem ficou esperando.
pensou no quão estranho era que uma música sobre a seca conseguisse fazer um homem sentir saudades da chuva, mesmo estando numa cidade que chovia durante todo o ano. O problema real estava apenas a começar, porque o que Gonzaga fez nos dias seguintes e o que ele transportou dentro de si antes de o fazer, é a parte da história que o Zé Raimundo demorou mais tempo a conseguir contar sem a voz tremer.
Dois dias depois da tarde na praça, ao início da manhã, Gonzaga entrou no edifício da Rádio Nacional. Não tinha gravação marcada. Não era esperada por ninguém. O funcionário da recepção, um rapaz nordestino de fortaleza chamado Nego, que conhecia o rei de vista e de ouvido, ligou para o andar de cima para avisar que o Senr.
Luiz Gonzaga queria utilizar o estúdio B durante uma hora que precisava de um espaço para trabalhar numa coisa. O diretor desse dia, um homem chamado Augusto Leme, paulista, que tinha chegado à rádio há poucos meses e que fazia questão de deixar claro em cada reunião que era moderno, que ele percebia de tendências, que o Brasil estava a mudar e a Rádio Nacional precisava de mudar em conjunto, disse que o estúdio estava ocupado, que Gonzaga precisava de marcar, como todo o mundo. O Nego desceu as escadas e foi dar
a resposta. Gonzaga ouviu, assentiu com a cabeça, agradeceu e foi-se embora. Nego contou a Zé Raimundo no mesmo dia, ainda com a cara de quem não sabia bem o que tinha acontecido, mas sentia que não estava certo. E o Zé Raimundo ficou com aquela informação dentro do peito.
Gonzaga tinha tentado utilizar o estúdio, tinha sido bloqueado pelo novo diretor e tinha saído sem reclamar. tinha saído com educação, com aquela quieta dignidade que magoa mais do que qualquer briga. Isso não se coadunava com o Gonzaga que ele conhecia. O Gonzaga que o Zé Raimundo conhecia era o homem que tinha chegado ao rio sem nada e conquistado tudo na força da música e da personalidade.
Não era o tipo de homem que ouvia não e ia embora calado. E aqui é onde tudo o que pensavas que estava compreender muda completamente. No terceiro dia, quinta-feira, o Zé Raimundo tinha a certeza, porque era o dia em que ele chegava mais cedo para verificar os equipamentos antes das gravações da tarde.
Gonzaga apareceu no corredor da rádio, mas desta vez não estava de camisa simples, estava de roupa de vaqueiro. O chapéu de couro na cabeça, a roupa de cabedal no corpo, a acordeão no braço, do jeito que aparecia nos auditórios lotados, da forma que o Brasil inteiro reconhecia o rei do baião.
O Zé Raimundo estava a sair da cabine técnica quando o viu parado no corredor. Parou também e o Gonzaga parou. Os dois ficaram um segundo a olharem-se sem dizer nada. Zé Raimundo, tu estavas lá na praça. Não era uma pergunta, era uma afirmação, uma confirmação tranquila. Gonzaga tinha visto, tinha reconhecido Zé Raimundo no banco do lado e tinha ficado quieto, tinha guardado aquilo, tinha escolhido não dizer nada naquele momento, porque naquele momento não era o momento.
O Zé Raimundo conta que sentiu o sangue subir-lhe no rosto. Não sabia o que dizer. Abanou a cabeça que sim. Gonzaga ficou um momento a olhar para ele, aquele olhar de quem está a ler o que está à frente, não só o que está a ser dito. E depois disse devagar com aquele sotaque do interior que nunca saiu, mesmo depois de décadas vivendo no rio.
O menino disse que eu era um velho que tinha perdido o rumo. Tu ouviste, né? O Zé Raimundo disse que sim de novo. Disse em voz baixa, quase sem querer. Pois, eu também ouvi. Ouvi direitinho. E então o Gonzaga fez qualquer coisa que o Zé Raimundo não estava à espera de maneira alguma. Deu uma gargalhada.
Não uma gargalhada amarela, não uma gargalhada de dor disfarçada de alegria, uma gargalhada a sério, daquelas que saem do fundo do peito, que fazem com que o sacudir o ombro, que enchem o corredor de um som que parece vir de uma gruta funda. Sabes o que é engraçado, Zé Raimundo? O rapaz não estava errado de todo não.
O Zé Raimundo abriu a boca para protestar e Gonzaga levantou a mão devagar para parar. Espera, eu não disse que ele tinha razão. Eu disse que ele não estava errado de todo. Tem diferença. O rumo que tinha antes, o rumo que este rio aqui me deu, o rumo das rádios, dos auditórios cheios, dos diretores que queriam-me todo semestre.
Esse rumo, sim, perdi-o. Graças a Deus que perdi, porque o rumo que é o meu mesmo, o que saiu de Exu, do Araripe, da terra seca do Pageu, que ninguém tira. Nem o menino bonito, nem a bossa nova, nem este novo diretor que não sabe quem eu sou e vai continuar a saber até ao dia que precisar.
Ficou um momento em silêncio. Olhou para o corredor vazio de ambos os lados, como quem está a verificar se a casa está em ordem. A diferença entre o eu e o rapaz é que ele acha que o rumo que ele tem agora vai durar para sempre. Eu já sei que não. Eu já aprendi isso. O sertão ensina.
O sertão ensina tudo o que o rio faz questão de esquecer. E depois, antes de Zé Raimundo conseguir dizer qualquer coisa, Gonzaga colocou a concertina mais firme debaixo do braço e virou-se para ir embora pelo corredor em direção ao estúdio. o mesmo estúdio que o realizador tinha dito que estava ocupado com a roupa de vaqueiro, com o chapéu, com o passo de quem sabe exatamente para onde vai e não precisa da permissão de ninguém para chegar lá.
O Zé Raimundo ficou parado no corredor, sem se conseguir mexer durante um bom tempo. Soube depois que Gonzaga passou pelo estúdio B, bateu à porta com os nós dos dedos, entrou com aquele chapéu na cabeça, cumprimentou o músico que estava a gravar como se fossem velhos conhecidos.
ficou uns minutos a conversar sobre a concertina, sobre uma afinação que queria testar e saiu. não gravou nada, não pediu o estúdio, não se queixou ao diretor, só entrou para mostrar a si mesmo e para quem estava dentro, que podia entrar, se quisesse, que aquela casa ainda tinha as portas abertas ao rei do baião, seja lá o que os novos diretores pensassem sobre tendências.
Mas há uma parte desta história que o Zé Raimundo guardou durante quase 30 anos antes de contar a qualquer pessoa. Uma parte que revelou só em 1991 numa mesa de bar no Recife, numa conversa que começou com a cachaça e acabou com os dois em silêncio. A parte que o jornalista que estava lá registou num caderno de capa preta que ficou numa gaveta durante mais de 10 anos.
Esta parte é que muda o peso de tudo, porque antes de se virar e ir embora pelo corredor nesse dia, Gonzaga não foi direto. Voltou o meio passo. Colocou a mão no ombro do Zé Raimundo, uma mão grande, grossa, mão de quem carregava acordeão e chapéu desde os 12 anos. E disse em voz mais baixa, quase para si próprio, quase como se estivesse a pensar em voz alta e não se importasse que alguém ouvisse.
O menino tem talento, sim. Eu ouvi-o cantar na rádio umas três vezes. Já tem voz? Tem jeito, tem alguma coisa que agarra, mas um dia ele também vai ficar velho. E quando ficar, quando o rosto murchar e a voz mudar e o mundo quiser uma coisa nova, ele quererá que alguém o reconheça numa praça.
Oxalá que o rapaz que passar por ele nesse dia seja mais atento do que ele foi comigo. E foi sem mais nada. Desapareceu no corredor com o chapéu e a concertina. e aquela roupa de vaqueiro que naquele momento parecia uma armadura. O Zé Raimundo ficou parado naquele corredor, ouvindo os passos de Gonzaga sumirem.
E ali, naquele corredor vazio da Rádio Nacional, algures em 1962, um pernambucano de Caruaru percebeu alguma coisa sobre o tempo que demorou anos para conseguir colocar em palavras. Não era raiva o que Gonzaga tinha dito. Não era mágoa, não era rancor, não era aquele tipo de dor que corrói por dentro. Era sabedoria.
Era aquela sabedoria específica que só advém de ter vivido muito, de ter ergueu a própria vida com as próprias mãos do chão zero, de ter sido grande e ter sentido o chão mexer debaixo dos pés e ter aprendido que o chão volta sempre. que o baião não pára de ser baião porque uma estação o ignorou.
Que o homem que veio do sertão não pára de ser do sertão, porque o Rio de Janeiro decidiu olhar para outra direção. A ironia que o Zé Raimundo só foi compreender muitos anos depois, quando Roberto Carlos já era o que se tornou um ícone absoluto, um clássico vivo que o Brasil inteiro amava.
É que Gonzaga estava descrevendo o futuro do jovem sem o saber. Estava a descrever com precisão o que acontece com todo o grande artista. Um dia tu és a novidade. Um dia você é o clássico. Um dia és o velho que o próximo jovem passa sem ver numa praça. Roberto Carlos tornou-se exatamente o que Gonzaga era.
Dois reis, dois homens que construíram o Brasil, que conhecemos na música, cada um com a sua forma, cada um com o seu tempo, cada um com a sua dor particular, de ser grande em público e pequeno em privado. E entre eles, naquela tarde de agosto de 1962, numa praça do centro do rio, com autocarro barulhento e vendedor de amendoim e sol a pesar em cima de todo o mundo, passou um momento que nenhum dos dois sabia que ia durar mais do que uma tarde.
Mas a história não terminou naquele corredor, porque três semanas depois houve um segundo encontro, um encontro que Roberto Carlos não sabia que o Zé Raimundo também testemunhou. De longe, do outro lado de um corredor , mas o suficiente para ver o que importava ver. Era uma gravação coletiva na Rádio Nacional, uma daquelas reuniões de músicos que a rádio ainda promovia de vez em quando, onde juntavam artistas de estilos diferentes num mesmo auditório.
Aquela tentativa de mostrar que o Brasil cabia junto, mesmo quando não cabia. Roberto Carlos estava lá, Gonzaga estava lá. E quando os dois cruzaram-se num corredor antes da gravação começar, Roberto Carlos chegando com aquele passo rápido de quem tem pressa de ser jovem, Gonzaga a sair de uma sala com o acordeão, houve um segundo de paragem.
Roberto Carlos estendeu a mão por um aperto, apresentou-se pelo primeiro nome com aquele sorriso fácil de quem tem charme e sabe que tem e usa como ferramenta. Não fazia ideia de quem era a pessoa que está à frente dele. Não fazia ideia de que era o mesmo homem do banco da praça três semanas antes.
Gonzaga olhou para ele, olhou devagar, daquela maneira que quem conhecia o rei do baião sabia que era uma leitura, uma avaliação, um peso sendo colocado numa balança. Apertou à mão, disse o seu próprio nome com aquela claridade do nordestino, que não necessita de introdução, mas se apresenta-se a si próprio porque foi criado assim.
E antes de largar a mão, disse só mais uma coisa. Rapaz bom tem o dom de reconhecer outro bom rapaz, até quando não sabe que está à frente de um. Roberto Carlos deu uma gargalhada polida, aquela gargalhada de quem achava que o outro estava a ser simpático de um forma que não ficou completamente claro, agradeceu com a cabeça e seguiu.
O Zé Raimundo, que estava do outro lado do corredor e viu tudo, sentiu um arrepio que desceu do pescoço até à cintura. Gonzaga tinha dito a verdade. Tinha dito a verdade à frente do rapaz, que não sabia que estava a ouvir a verdade sobre si mesmo. Tinha perdoado sem dizer que estava perdoando. Tinha ensinado sem dizer que estava ensino.
Tinha sido ali naquele corredor mais rei do que qualquer palco tinha conseguido fazê-lo ser. O Zé Raimundo ficou em silêncio durante quase 30 anos depois disso. Não contou paraa mulher, não contou para filhos, não contou aos colegas de trabalho que tinha convivido com os dois.
guardou aquele tipo de silêncio que os homens do Nordeste aprendem cedo. O silêncio que não é cobardia, é respeito. É saber que uma história não é tua para ser contada, enquanto os donos dela ainda vivem e podem ser afetados por ela de formas que não controla. Gonzaga faleceu em agosto de 1989, exatamente em agosto, o mesmo mês daquela tarde na praça, como se o tempo tivesse uma memória própria.
E dois anos depois, num bar em Recife, numa noite de Outubro de 1991, O Zé Raimundo estava sentado com um jornalista amigo de infância e a história saiu. Saiu devagar. Como é que essas histórias saem quando guardam demasiado peso por tempo demais. saiu com pausas longas, saiu com a voz a baixar em certos excertos, saiu com o Zé Raimundo a olhar pro copo de cachaça com mais frequência do que para a frente, mas saiu tudo.
O jornalista escreveu no caderno de capa preta, palavra a palavra, com a letra apressada de quem está a tentar acompanhar um discurso que não pode parar, mas não publicou. disse ao Zé Raimundo que precisava de tempo para pensar no impacto, que Roberto Carlos estava no auge da sua carreira naquele momento, que era uma história que precisava de ser contada do jeito certo ou tornar-se-ia apenas escândalo sem substância.
E escândalo sem substância era a última coisa que esta história merecia ser. E ficou no caderno, numa gaveta, durante mais de 10 anos. Zé Raimundo Ferreira faleceu em 2003 no Recife aos 73 anos. Deixou dois filhos, uma vida inteira de trabalho em rádio e uma história que tinha contado a uma só pessoa durante todos os os seus anos.
O jornalista, cujo nome não será aqui dito porque ele pediu-lhe que não fosse, mesmo depois de tudo, ficou com o caderno. E em 2004, num encontro em Fortaleza, com um investigador de música nordestina, contou o que estava escrito naquele caderno. Não toda, não com todos os pormenores, mas o suficiente para que a história começasse a circular nos círculos de quem estudava Gonzaga, de quem vivia daquela música, de quem ainda carregava o sertão no peito, mesmo vivendo num apartamento de
cidade grande. E é a partir daí que ela chegou até aqui. Passada de boca em boca, de caderno em conversa, de conversa em memória, como toda a história que tem um peso de verdade, acaba por chegar sem pressa, sem ruído, no tempo certo. Se chegou até esse ponto, já sabe o que foi dito na praça.
Já sabe o que Gonzaga respondeu ao Zé Raimundo no corredor. já sabe o que disse ao Roberto Carlos sem que este soubesse o que estava ouvindo sobre si próprio. Já tem as peças na mão. E o que fazes com essas peças agora? É a mesma coisa que o Zé Raimundo fez naquele corredor vazio. Fica quieto um segundo. Deixa o peso aterrar.
Deixa a história respirar. Porque esta história não é sobre um jovem que foi imprudente numa praça. Todo jovem é imprudente numa praça. A a imprudência é o preço da juventude e toda a gente paga. Essa história é sobre o que Gonzaga fez com aquela imprudência. É sobre a escolha que um homem de 50 anos faz quando podia ofender-se e não se ofende.
Quando podia cobrar e não cobra. quando podia gritar que existe e em vez disso simplesmente continua a ser. Esta história envergonha até hoje não porque Roberto Carlos tenha sido cruel, ele não foi. Era jovem, era da velocidade do rio, era da geração que olhava em frente e não reconhecia o que estava a ficar para trás.
Envergonha, porque todos nós já fomos esse jovem em algum momento da vida. Todos nós já passámos por alguma grandeza sem reconhecer. Todos nós já olhamos para algo grande, disfarçado, de coisas simples e achamos que não era nada. A diferença é que Gonzaga teve a nobreza de não cobrar. teve a paciência de deixar que o tempo cobrasse por ele.
E o tempo cobrou à forma mais justa possível, que ia fazendo com que Roberto Carlos se tornasse um ícone da mesma profundidade, sujeito ao mesmo risco de não ser reconhecido numa praça por alguém que passa sem ver. Isto é o que o Nordeste ensina, que o valor não precisa de aprovação para ser valor, que a grandeza não encolhe.
Porque alguém passou por ela sem ver. Que o baião não deixou de ser baião só porque a a bossa nova virou moda num Rio de Janeiro que sempre teve demasiada pressa. Que Luís Gonzaga não deixou de ser o rei do baião porque um jovem de 21 anos não o reconheceu num banco de jardim numa tarde de agosto de 1962.
O rei continuou a ser o rei com o chapéu, com a concertina, com o sertão toda dentro do peito, com a sabedoria de quem sabe que o tempo é o único juiz que não se compra e não se engana. E o Brasil, que tinha tentado esquecer, recordou, como sempre recorda, tarde, mas com uma gratidão tão grande que compensa a demora toda.
Conta nos comentários. Você cresceu a ouvir Gonzaga na rádio da sua casa ou foi alguém da tua família que te apresentou a ele pela primeira vez? Quero saber de onde vem a tua história com o rei do baião. Se inscreva se você carrega o sertão no peito e nunca esqueceu o que Gonzaga representou. O que acabou de ouvir não é o fim desta história, é o início de uma que é ainda mais pesada.
Porque se pensava que aquela tarde na praça foi o momento mais difícil que Gonzaga enfrentou, ainda não sabe o que aconteceu quando tinha 18 anos e tentou entrar num conservatório de música no Recife. O que o professor disse-lhe nesse dia, a frase exata à frente de outros alunos num corredor de uma escola é uma das coisas mais difíceis de ouvir que esta história guarda.
E é também o que explica mais do que qualquer outra coisa, porque Gonzaga se tornou quem se tornou. A história completa está neste vídeo aqui. E se já assistiu, há mais histórias como esta à espera por si aqui no canal. M.