Silvio Santos Perguntou ao Vivo a Luiz Gonzaga: “Por que o Nordeste?” — a Tesposta Calou Todos

Au! É uma música que qualquer retirante que tivesse apanhado um camião pau de arara em direção ao sul, entendeu na primeira vez que ouviu, sem precisar que ninguém explicasse nada. Ao técnico de som da gravação chamava-se Manuel Bandeira, não o poeta, outro Manuel, carioca de ramos, que nunca tinha posto o pé fora do Rio de Janeiro na vida.

Au! Depois de ouvir a gravação de Asa Branca pela primeira vez, saiu do estúdio e ficou parado no corredor durante uns 5 minutos. Gonzaga, que ia a sair atrás dele, perguntou o que tinha acontecido. Manuel disse: “Nunca ouvi nada assim. O que é isto? Gonzaga respondeu: “É a terra da gente morrendo de sede.

O Manuel não soube o que dizer. Gonzaga pegou no chapéu, guardou a cópia da partitura na pasta surrada que carregava desde o Recife e foi-se embora. A! Mas há um momento naquela gravação em que a maioria das pessoas que conhece a história de Gonzaga nunca soube. Um momento que aconteceu antes de o microfone abrir, antes de a fita começar a rodar.

e que tem tudo a ver com o que Silvio Santos descobriu 26 anos depois. Deixa esse pormenor por agora. Ele vai voltar. A rádio dos anos 40 e 50 era outra coisa. Era a sala de cada casa, era a praça de cada pequena cidade, era o camião de retirante que ligava o aparelho e deixava-o soar à beira da estrada. Rádio Nacional, Rádio Tupi, Rádio Mairinque Veiga eram nomes que valiam mais do que qualquer contrato de hoje.

Um artista que entrava na Rádio Nacional chegava a um Brasil inteiro ao mesmo tempo, de Belém a Porto Alegre, de Recife a Cuiabá. E quando Asa Branca tocou pela primeira vez na Rádio Nacional, o telefone do estúdio não parou. ligavam de pensão de nordestino em São Paulo, de construção do rio, de uma fazenda do Mato Grosso.

Ligavam homens que tinham saído do sertão com a roupa do corpo e estavam do outro lado do Brasil a ouvir uma música que tinha o nome e o cheiro de tudo o que tinham deixado para trás. Muitos ligavam sem conseguir falar, ficavam na linha, respirando e desligavam. O diretor da rádio na altura, um homem chamado Cosmi Alves Neto, disse mais tarde que em 20 anos de rádio nunca tinha visto aquilo.

A disse que parecia que a música tinha aberto uma comporta que estava fechada há muito tempo. Foi convocado ao estúdio da rádio no dia seguinte, a primeira execução. Chegou sem saber o que ia encontrar. O diretor recebeu-o de pé, apertou a mão dos dois lados e disse: “Vais tocar toda a semana, escolhe o dia”. Gonzaga escolheu quinta-feira.

Au, não por qualquer razão especial. Segundo o próprio contou anos depois, escolheu quinta-feira porque era o dia que menos chovia no rio e detestava molhar o acordeão. Mas é isso que ele contava. Au tinha outra razão, uma que nunca explicou em entrevista qualquer e que só veio à tona  num testemunho guardado que vai aparecer mais tarde nessa história.

O que parece simples estava agora apenas no início de tornar-se complicado. Nos anos 50, Gonzaga era o nome maior do forró no Brasil. Não havia discussão. Luís Gonzaga e Humberto Teixeira, depois Luís Gonzaga e Zé Dantas. as parcerias, as gravações, a presença na rádio, as digressões pelo Nordeste e pelas colónias de migrantes no sul.

O chapéu de cangaceiro tornou-se um símbolo, a acordeão virou símbolo. O próprio Gonzaga tornou-se símbolo de alguma coisa que o Brasil do litoral não sabia bem nomear, mas que reconhecia quando ouvia. E foi nessa altura, no Pico da Fama, que ele tomou uma decisão que quase destruiu tudo.

decidiu ir embora do Rio, não temporariamente, ir embora de vez, ao voltar ao Nordeste, fazer um circuito das cidades do interior, tocar para as pessoas que tinham sido o seu público antes de a rádio existir, as feiras, os circos, os bailes de interior, os arraiais de São João, deixar a Rádio Nacional, deixar os estúdios, deixar os contratos.

O seu empresário na altura, um homem chamado Dirceu Portela. ficou branco quando ouviu. Disse que era loucura. Disse que abandonar a rádio no auge era o mesmo que enforcar-se. Gonzaga ouviu tudo com paciência, colocou o chapéu e disse: “Dirceu, sabes de onde vem o dinheiro que paga o seu salário? Au, vem deles.

Eu preciso de estar onde eles estão.” Dirseu ausentou-se da reunião sem responder. O périplo pelo Nordeste durou quase do anos. Gonzaga tocou em cidade que não tinha nome no mapa. Tocou em barraco de feira com cobertura de lona. tocou no Arraial, onde o sistema de som era um microfone de cabo pendurado no ramo de uma árvore e o gerador era emprestado da câmara municipal do município vizinho.

gratuitamente em locais onde as pessoas não tinham o dinheiro do bilhete, mas tinham percorrido 12 km a pé para chegar a E foi numa dessas noites, numa cidade pequena do interior do Piauí, cujo nome Gonzaga nunca revelou em público, que aconteceu algo que mudou a forma como ele compreendia o que estava a fazer, algo que carregou consigo durante anos, algo que estava presente naquela noite de 73.

no estúdio de Silvio Santos quando a pergunta chegou. Mas isso vem depois, a Antes há uma coisa que precisa saber sobre o estado em que Gonzaga chegou de novo ao rio depois desse giro. Chegou mais magro. Chegou com o acordeão amolgado numa queda que tinha levado num camião numa estrada sem alcatrão do Maranhão.

Chegou com dinheiro suficiente para pagar um mês de hotel e nada mais. e chegou com uma certeza que não tinha quando saiu. Uma certeza sobre o que a A sua música era, para que servia, de onde vinha. Mas o mercado do rio tinha mudado. A bossa nova estava a explodir. João Gilberto, Tom Jobim, Vinícius de Moraice, aquele violão suave, aquele canto quase sussurrado, aquela sofisticação que fazia o Brasil parecer Paris.

Era o que a classe média do Rio queria ouvir, era o que os produtores queriam gravar. E o forró, o baião, o chote, tudo aquilo soava a coisa do passado, coisa de interior, coisa sem classe. Gonzaga sentiu isso na primeira reunião que teve ao regressar. O produtor com quem tinha trabalhado há anos, o recebeu, ofereceu café e disse: “Com o tom de quem está a fazer um favor, Luís, precisa de modernizar.

” O mercado mudou. Gonzaga pousou o copo de café sobre a mesa e perguntou: “Modernizar para quem?” O produtor não compreendeu a pergunta ou fingiu não compreender. E ali, naquele escritório de uma produtora no centro do Rio, iniciou-se um período que a maioria das biografias de Gonzaga passa depressa, como se fosse vergonha de contar.

Um período de quase 10 anos em que o rei do baião desapareceu do grande rádio, tocou em lugares esmenores, fez acordos que valem menos. Assistiu a outros artistas tomarem o espaço que tinha sido dele au alguns chamaram de declínio. Gonzaga nunca chamou assim. E é aqui que a história da 73 começa a fazer sentido.

Você ainda não sabe o que aconteceu naquela cidade do interior do Piauí. Isso vai mudar tudo quando chegar. Mas antes há mais uma camada desta história que precisa de ser aberta. Durante os anos 60, enquanto o mercado do rio ignorava o forró, alguma coisa estava a acontecer nas periferias de São Paulo, nos bairros onde os migrantes nordestinos se tinham instalado.

BR, Moca, Bom Retiro, Ipiranga. O baião não tinha desaparecido, tinha ficado au tocava em baile de salão, tocava na rádio comunitária, tocava na casa dos paraibanos e dos cearenses e dos pernambucanos que tinham chegado no comboio e nunca mais voltado. Nesses bairros, Luís Gonzaga não era coisa do passado. Era presença constante, era o som de dentro de casa.

Era o que a mãe cantarolava enquanto passava a ferro. Era o que o pai ligava no rádio de pilhas no domingo. Gonzaga sabia disso. Ia a São Paulo regularmente, tocava nesses bairros. E foi numa dessas viagens, no início dos anos 60, que ele encontrou uma pessoa que alterou alguma coisa nele, uma pessoa que ninguém esperaria que ele o encontrasse.

Chamava-se Maria do Carmo Pereira. Era uma nordestina de Mossoró, lavava roupa pros outros no Ipiranga. Tinha quatro filhos e um marido que trabalhava em fundição. A tinha 40 e tal anos e nunca tinha visto Gonzaga pessoalmente na vida, mas conhecia cada letra de cada música que tinha gravado. Gonzaga estava a passar pela rua depois de um ensaio num clube do bairro quando ela o reconheceu.

chamou pelo nome, sem cerimónias, como quem chama um conhecido, Luiz. Luís Gonzaga. Ele parou. Ela veio chegando com as mãos ainda molhadas de água de sabão, o avental atado à cintura, disse: “Preciso de te dizer uma coisa.” Gonzaga disse: “Diz-me e Maria do Carmo disse uma coisa que nunca contou em entrevista.

Au! Uma coisa que ficou entre ele e ela naquela calçada de piranga, au, mas que um dos seus filhos, um homem chamado Benedito, que tinha 6 anos nesse dia e estava do lado de fora a brincar enquanto a mãe estendia a roupa. Disse muitos anos depois, quando já tinha 50 e tal anos, e foi entrevistado por um investigador de música popular no Recife.

Benedito disse que a mãe voltou para dentro de casa nesse dia e ficou sentada à mesa sem falar nada durante um bom tempo. Quando ele perguntou o que tinha acontecido, ela disse: “O Gonzaga chorou”. Só isso. O Gonzaga chorou. Benedito não perguntou mais nada porque era criança. Au, mas carregou aquilo durante 50 anos sem entender o que tinha acontecido naquela calçada.

E quando o investigador ouviu este relato, guardou-o num caderno, achou que era pitoresco e não publicou. A o que Maria do Carmo disse a Gonzaga naquela calçada é uma das incógnitas que este a história tem e está ligada diretamente ao que aconteceu em 73 no estúdio de Silvio Santos, de uma forma que vai perceber quando a última peça entra no lugar.

O problema estava a crescer, mas havia algo que ainda não sabia sobre si mesmo. A quando Gonzaga voltou ao Nordeste em 71, não em Tour, mas de verdade para viver, o sertão que ele encontrou era diferente do sertão que tinha cantado. As rádios agora chegavam lá também. A televisão chegava devagar, mas chegava.

Os jovens do Nordeste queriam ouvir o que os jovens do sul ouviam. jovem nordestino de 20 anos em 71 não queria mais baião, queria rock, queria MPB, queria o que estava na Jovem Guarda e o Gonzaga ficou numa estranha. Era um ícone de uma música que o norte do Brasil ainda ouvia, mas que os jovens do norte já não queriam admitir que ouviam.

Era como se ele fosse um retrato bonito de uma coisa que as pessoas tinham vergonha de pendurar na parede. Isso doía. Ele nunca disse isso em entrevista, mas as pessoas que o rodeiam sabiam. Au! Um músico que tocou com ele nesta época, um acordeonista chamado Antônio das Pedras, de Petrolina, disse uma vez que Gonzaga nesse período era um homem que carregava uma tristeza que não saía nem quando sorria.

Fizse nesse estado que ele aceitou o convite para ir ao programa Silvio Santos. A produção do programa queria Gonzaga como convidado de prestígio. Um nome grande, um clássico vivo, alguém que o público mais velho ia reconhecer e aplaudir. O guião era simples. Gonzaga entra, canta Asa Branca, canta mais um forró, agradece, sai.

Sílvio pergunta alguma coisa simpática. Gonzaga dá uma resposta simpática. Câmara fecha no rosto sorrindo. Simples assim. Só que Silvio Santos nunca fez o guião de ninguém. A produção sabia disso. Avisou Gonzaga antes da gravação que Sílvio às vezes fugia do guião. Gonzaga disse que não tinha problema. Tinha anos de rádio em direto.

Tinha enfrentou avaria de gerador em Arraial do Interior. Tinha tocado num palco que desabou debaixo dos músicos numa cidade do Maranhão. O programa de televisão com apresentador de perguntas. Não era o pior que a vida lhe tinha feito. O que ele não esperava era o tipo de pergunta que o Sílvio ia fazer. Gonzaga cantou asa branca.

Cantou num estúdio com uma plateia de 200 pessoas, câmaras na frente, luz forte nos olhos. Cantou com o mesmo peso de sempre. Não a versão de rádio, não a versão de apresentação, mas a versão integral com todas as estrofes, incluindo a que fala do regresso depois da chuva chegar. A plateia ficou quieta de uma forma que produtor de televisão normalmente odeia.

quieta de verdade, não de tédio, de atenção. Quando terminou, Silvio Santos foi chegando com o microfone, o sorriso de sempre, o fato claro, o jeito de quem ia fazer a pergunta simpática do guião. E então perguntou: “Luí, preciso de te fazer uma pergunta que me continua a incomodar faz tempo.” Gonzaga virou-se para ele, esperou.

Sílvio disse: “Porquê o Nordeste? Por que insiste no Nordeste? Não, o O Brasil inteiro está a ouvir outra coisa. Os jovens querem outra coisa. Por que fica-se a cantar uma coisa que parece que está a morrer? A plateia ficou em silêncio. Não o silêncio da atenção, o silêncio do desconforto.

A, porque a questão de O Sílvio tinha um peso que não estava no guião. Era a mesma coisa que os produtores do Rio tinham dito a Gonzaga nos anos 60, que os jovens nordestinos expressavam sem palavras quando mudavam de estação. Que o mercado comunicava com cada contrato menor. Era a pergunta que ninguém tinha tido coragem de fazer na cara dele em direto com câmara.

E Gonzaga ficou quieto durante um tempo que na televisão em directo parece uma eternidade, ficou a olhar para as próprias mãos que estavam no acordeão. A plateia não se mexia. Depois olhou para Silvio e começou a falar: “Au! Mas antes de te ouvir o que ele disse, há uma coisa que aconteceu naquele silêncio.

Uma coisa que o operador de câmara registou sem querer, porque estava a fazer um close no rosto de Gonzaga enquanto este ficava quieto. Uma coisa que mudou completamente a leitura do que se passou naquela noite. Gonzaga, nesse silêncio, abriu a boca uma vez antes de responder. Abriu e fechou sem som. Au, como se uma resposta tivesse chegado e ele tivesse decidido engoli-la de volta.

A resposta que deu a Sílvio não foi a primeira que pensou, foi a segunda. E a primeira, essa ninguém sabe. Nem o técnico de câmara, nem a produção, nem quem estava na plateia naquela noite. Mas o que ele disse em seguida foi o que calou a sala toda. Au! Gonzaga olhou para Silvio Santos com aquele olho que quem conhece o Nordeste de perto reconhece.

O olho do homem que já viu seca, já viu o filho de um vizinho morrer de fome, já andou légua e meia para ir buscar água a um açude de barrento e disse devagar, com o sotaque que 40 anos de rio nunca tinham conseguido tirar. Sílvio, pergunta-me por o Nordeste, mas já perguntou ao Nordeste porque é que ele existe? O Sílvio tentou responder.

Abriu a boca. Gonzaga não parou. Disse: “O Nordeste existe porque Deus colocou lá o povo mais teimoso do mundo. A um povo que a seca mata e que ressuscita. Um povo que o sul roubou e que ainda assim mandou saudade. Um povo que eu fui um dia e que ainda sou. E enquanto eu tiver fôlego nesta concertina, ninguém vai convencer-me que esse povo morreu.

Porque povo que canta não morreu. Povo que ainda chora quando ouve asa branca não morreu. parou, respirou e acrescentou uma coisa que não estava em nenhum livro de entrevista, que a transcrição oficial da produção omitiu, que só veio a público porque um dos técnicos de som gravaram o áudio completo nessa noite e guardou-o em casa durante 21 anos.

au disse, e eu insisto no Nordeste, Sílvio, porque uma vez uma mulher me parou na rua em São Paulo com as mãos molhadas de água de sabão, e me disse que a minha música era a única coisa que não a tinha deixado esquecer quem ela era. “Eu não posso abandonar esta mulher. Eu não posso abandonar nenhum deles. O estúdio ficou quieto. Silvio Santos, que tinha passado 30 anos de televisão  vendo tudo e sendo surpreendido por quase nada, ficou a olhar para Gonzaga por um segundo sem dizer palavra.

Depois virou-se para a câmara, abriu o sorriso e disse: “Meu povo, este é o Luís Gonzaga, o rei do baião. E a plateia aplaudiu não o aplauso de um programa de televisão, aquele aplauso mecânico e cronometrado que os ritmistas de produção controlam.” Aplaudiu verdadeiramente, incluindo gente que estava a chorar e a tentar disfarçar.

Mas a história não termina aqui, porque o que aconteceu depois da gravação foi o que mudou tudo. E é o que tem a ver com aquele momento no interior do Piauí, que ficou pendente desde o início. Quando a câmara fechou e a plateia foi libertada, Silvio Santos foi até Gonzaga nos bastidores, sem microfone, sem câmara, e perguntou de homem para homem em voz baixa: “Esta mulher que mencionou, ela existe? Gonzaga disse que sim.

Disse que se chamava Maria do Carmo e que vivia em Ipiranga, em São Paulo. Sílvio ficou quieto um segundo, depois disse: “Vai procurá-la?” Gonzaga respondeu: “Já fui.” Iau. Mas ela não estava mais lá. E esta resposta abriu uma coisa que o Silvio não tinha planeado perguntar, mas perguntou-o a si próprio porque era o Sílvio e porque a conversa tinha chegado a um ponto em que parar seria desonesto.

O que ela te disse naquela calçada? Gonzaga olhou para ele, pegou no acordeão que estava encostado à parede dos bastidores, passou a mão pela caixa amassada do instrumento, aquela amassada que tinha tomado numa queda de camião no Maranhão e que nunca tinha mandado consertar. disse ela disse-me que o filho dela, quando era pequeno, aprendeu a falar cantar a minha música antes de falar falando, que as primeiras palavras que o menino disse foram as palavras de asa branca, que a primeira vez que falou mãe foi cantando. Sílvio não disse nada.

Gonzaga continuou e disse-me que naquele dia ela tinha sentido medo. Tinha sentiu medo que o filho crescesse e esquecesse de onde vinha, que esquecesse o nome do avô que ficou em Mossoró, que esquecesse o cheiro da terra molhada depois de uma chuvada. Au! Disse-me que a minha música era a única forma que ela tinha de guardar tudo aquilo dentro do filho.

Parou de falar, passou o dorso da mão pelos olhos. rápido, como quem espanta mosquitos. Depois disse: “Como é que eu vou abandonar isso, Sílvio?” E foi aí que Silvio Santos entendeu que a questão dele em palco tinha mexido. Au! Entendeu que tinha feito ao Gonzaga a mesma questão que o mercado, os produtores, os jovens e o tempo tinham-lhe feito durante 20 anos.

e que a resposta dos Gonzaga nessa noite tinha sido dada não para ele, não paraa câmara, não para plateia, tinha sido dada a todos os estes anos de pergunta acumulada. Au! Tinha sido a resposta que Gonzaga estava carregando desde a calçada de Ipiranga, desde a cidade do interior do Piauí, desde o estúdio da Rádio Nacional em 47, quando Manuel Bandeira saiu da cabine e ficou parado no corredor sem conseguir explicar o que tinha sentido.

Mas há ainda uma última coisa. Uma coisa que não sabe e que aconteceu antes de o microfone abrir naquela gravação de Asa Branca em 47. A coisa que ficou pendente desde o início desta história. Au, antes de o técnico de som dar o sinal, antes de o fita começar a rodar, Gonzaga ficou um instante parado em frente do microfone com o acordeão ao peito e disse em voz demasiado baixa para si próprio, tão baixo que Manuel Bandeira, do outro lado do vidro da cabine não ouviu as palavras, mas viu o movimento dos lábios. disse o nome do

pai, o senhor Januário. O pai com quem tinha brigado. O pai que tinha dito que ser músico era vida de vagabundo. A o pai que estava em eixo sem saber que o filho estava numa rádio do Rio, prestes a gravar uma música que o Brasil inteiro ia cantar. Gonzaga. Antes de gravar Asa Branca, pediu perdão ao pai.

Não em voz alta, não em carta, não em telefonema. Pediu ali naquele instante, antes de o microfone abrir, pediu ao pai que ouvisse aquela música de onde estivesse e entendesse que o filho tinha partido para poder trazer o Nordeste de volta. Manuel Bandeira nunca soube o que Gonzaga tinha dito. Eu mas 40 anos depois, num depoimento a um investigador da Unicamp, disse que sempre teve a sensação de que aquela gravação era diferente das outras, que havia alguma coisa para além da música, que havia alguma coisa que vinha de um

local que o equipamento não registava. Aquele pedido de perdão ficou na fita, na vibração do ar do estúdio, na primeira nota que Gonzaga tocou e quando a música chegou às rádios e os nordestinos espalhados pelo Brasil, ficavam na linha sem conseguir falar o que estavam a sentir. Sem saber era também isso.

Era um filho a pedir perdão a um pai. Era um homem a abdicar de tudo o que achava que queria para ser o que sempre tinha sido. Maria do Carmo sabia disso. Sabia de uma forma que não precisava de explicação. Foi por isso que parou Gonzaga na calçada de Ipiranga com as mãos molhadas. Foi por isso que disse o que disse.

E foi por isso que Gonzaga chorou, porque ela tinha falado em nome de todos, de cada retirante, de cada pai que ficou, de cada filho que foi, de cada mãe que ensinou o seu filho a falar cantando asa branca. Gonzasa voltou ao Nordeste em 71 e ficou. Morreu no Recife em 97, com 78 anos até ao fim, quando a saúde já tinha cedido em muita coisa.

O acordeão ficava perto da cama. As pessoas que estiveram com ele nos últimos meses dizem que, por vezes, ele ficava com a mão na caixa do instrumento, sem tocar, apenas com a mão encostada. Au, como se ainda tivesse sentindo alguma coisa que o equipamento não registava. Au, se cresceu ouvir o Gonzaga na rádio e sente esse peso quando entra a concertina, escreve aqui em baixo de onde és e de que música lembra-se primeiro quando pensa nele. Quero ler isso.

Se inscreva se carregas o sertão no peito e nunca esqueceu o que o Gonzaga representou. O que acabou de ouvir não é o fim desta história, é o início de uma que é ainda mais pesada. Au! Há um vídeo aqui no canal que conta o que aconteceu no dia em que um grupo de crianças da escola cantou asa branca numa apresentação sem saber que o velho de chapéu sentado perto da janela do Batd era o próprio Luiz Gonzaga.

Au! Ele tinha chegado àquela cidade sem avisar ninguém, sem concerto marcado, sem motivo que alguém soubesse explicar. O que o fez entrar naquela escola e ficar a ouvir as crianças cantarem a música dele em silêncio, sem se revelar. É uma história que muda tudo o que se pensa, que sabe sobre o que e o que ele procurava nos últimos anos.

A história completa está neste vídeo aqui. E se já assistiu, há mais histórias como estas você aqui no canal.

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