The Tombs of Chorão and Champignon – The Dark Side of Rock.

 A gente era muito amiga, apesar das nossas quezílias, amizade de 20 anos, mas éramos amigos, um dos melhores amigos que tive na minha vida e era meu irmão. É ali, [música] num desses lóculos suspensos, afastados do chão e estranhamente próximo do céu, que repousa Alexandre Magno Abrão, o eterno chorão, uma das vozes mais inquietas e intensas do rock brasileiro.

[música] Vou fazer de uma maneira que ela não se vai esquecer. Em vida, chorão incendiava multidões, levava milhares de pessoas ao grito, ao êxtase, ao descontrolo coletivo. Sua presença nunca foi discreta. Era urgência pura, movimento constante, excesso transformado inverso. Hoje, no no entanto, o que ele provoca é outro tipo de reação.

A apresentadora Sônia Abrão é prima de Chorão e contou a última conversa que teve com o cantor. Ele ainda me disse assim: “Sou, o que me deita abaixo é saber que nascemos sozinho e morre sozinho.” Chorão morreu sozinho. Numa da dessas viagens que estávamos a fazer com chorão da digressão de autocarro, não é, para cima e para baixo, houve um momento em que a gente chamou toda a gente para conversar a meio da viagem.

 Ah, cola ali na poltrona do chorão, ele está a querer falar com todo mundo. Ah, fixe. Colou toda a gente da banda ali um pouco antes [música] de ele falecer. Aí ele disse assim, ó, malta, ele veio com papo, bicho. Ele disse assim, a malta Quero dar-vos um toque. Eu quero, quero treinar o champion para ele cantar no meu lugar.

 A gente achou estranho o negócio. Ele fala, ele falou: “Não, porque, assim, eu sinto que, não é, meu irmão, [música] sei lá, a minha hora está a chegar e não sei quê”. Falou: “Eh pá, tás maluco, velho, pá, para de falar, não digas essa merda que atrai”. Ao aceder à necrópole, [música] mesmo antes de o elevador abrir as portas, algo já parece estar fora do lugar.

Marisia, sal no ar, a recordação [música] insistente de um fim de tarde na praia. Uma memória olfativa impossível, considerando que estamos dezenas de metros [música] acima do solo. Quando pisamos o andar onde ele descansa, o ambiente muda, não de forma abrupta, mais percetível. O ar parece [música] mais pesado, mais atento.

 Um frio repentino surge sem aviso, escorrendo por baixo da roupa, deslizando [música] pela pele como o toque subtil de mãos invisíveis. Mas sempre muito intenso. Ele era um cara intensa. É, não é? Mas abraço apitado aquele olhar, queria olhar fixado no olho, não é? À procura da alma, né? Um cara que ele tinha essa esse lance, não é? [música] um tipo verdadeiro, um tipo, infelizmente, eh, foi muito cedo, não é? O choro, ele tinha exatamente a minha idade, não é? Na altura com que o chorão morreu, estava, eu estava com problemas assim na minha vida pessoal, problemas e

identifiquei-me muito com ele daquela forma [música] que ele morreu ali, de uma forma de uma certa forma, em que dia morri junto com ele ali, vi, vi-me junto com ele ali, pá. Eu sozinho desta forma, caralho. A [música] as pessoas vivem tão sozinhas mesmo, mano. Tava num concerto com ele que ele ele [música] pegou no microfone, foi cantar, ele fez o movimento com a mão assim, ah, com a massa foi toda com ele para ver, ah, eu estou com o mundo.

 Depois quando ele virou para mim, ele estava com o olhar mais triste do mundo, mano. Ele olhou para mim, ele estava com a cara mais triste assim, como se não tivesse feito nada. Ele a titão, fez assim, depois toda a gente fica olhando assim, caralho. Depois quando ele olhou para nós, estava com aquele olhar tipo assim, [música] triste, triste, mesmo.

 Olhar triste mesmo. Pá, que eu falei, falei dores da alma mesmo, assim, dores dores da alma. [música] Mesmo as mais sábias vezes não encontram uma saída. [música] Visitantes relatam sensações semelhantes. A descida [música] súbita da temperatura, a nítida impressão de que alguém passa correndo ao [música] lado.

 Chorão sempre foi movimento, urgência, excesso. Viveu [música] sem freio, amou sem medida. transformou a própria dor em versos que [música] nunca pediram autorização para existir. No fundo, o que ali se encontra não é um gemido desesperado, [música] mas um susurro abafado, desconfortável, que se recusa [música] a silenciar.

A parede branca do lóculo fria ao toque parece vibrar [música] ligeiramente. Uma sensação de eternidade e finitude. A contradição perfeita para o lugar [música] que guarda os restos de um homem que viveu cada instante como se fosse o último. Quem esperava que houvesse fofinho? Bonito, hein, miúdo? Isso preocupa muito em acabamento não, porque pouco pior no caso ali melhor melhor.

Depois de acabarmos o show, quem sabe se não quebramos o cenário. Vamos ver. Mas Chorão não está sozinho neste edifício carregado de memórias. Na mesma necrópole repousa também Luiz [música] Carlos Leão Duarte Júnior ou simplesmente Champinhon, o baixista [música] dos Charlie Brown Júnior, companheiro de estrada, de palco e de conflitos.

Luís Carlos Leão Duarte Júnior, o Champinhon, nasceu em Santos, no litoral Paulista e tinha 35 anos. Ele era baixista dos Charlie Brown Júnior. Após a morte de Chorão, os membros da banda lançaram o grupo A Banca com Champinhon no vocal. Eles realizavam a digressão Chorão Eterno como forma de homenagem. [música] Dois nomes ligados pela música, pela intensidade e de forma dolorosa pelo mesmo destino geográfico após a partida.

Mas quando se tivesse sentindo assim, é porque de repente está um zião em cima de si que nem tudo é Deus, nem tudo é bondade. Não se trata de vencer, não se trata-se de perder, trata-se de progredir, trata-se de evoluir, de andar para frente, de sair de uma situação que é mau, que é mau. A perda de chorão em março de 2013 [música] foi um golpe profundo para quem ficou.

 Amigos próximos relataram um período de confusão, tristeza e silêncio pesado. Meses depois, em setembro do mesmo ano, a notícia da passagem de Champinhon ampliou ainda mais esse vazio. Oficialmente, os episódios são distintos. Na sua essência, [a música] porém, muitos vêem uma estranha ligação no modo como ambos deixaram o mundo dos vivos.

Há quem diga [música] que Champinhon nunca conseguiu de facto encarar o mundo com a mesma leveza após a perda do amigo. Relatos falam de um luto que não encontrou repouso, de saudade e revolta, uma sensação constante de deslocamento, como se a música e a vida sem chorão perdessem [música] qualquer sentido. Não como explicação definitiva, mas como indício de que certas ausências abrem fendas [música] que não se fecham com o tempo.

 Mais uma despedida difícil para fãs e membros da antiga banda Charlie Brown Júnior e da recente a banca formada depois da morte de Chorão. Foram duas perdas em seis meses. Hoje à tarde foi sepultado o corpo do músico Champinhon. Morreu na madrugada de ontem no apartamento onde vivia com a mulher em São Paulo. O funeral foi no oitavo andar, no mesmo edifício onde está o corpo de chorão.

 Só os parentes e amigos tiveram acesso. Às 15 horas, o corpo de champinhon deixou o salão nobre do memorial, onde foi velado durante quase 20 horas. Em vários momentos, desde a noite de ontem, os fãs puderam dar a Deus ao músico de 35 anos. Não sei o que se passou pela cabeça, infelizmente. Falo com os os meus amigos através do Facebook, por telefone, não procuramos perguntas e tentamos encontrar respostas para isso, mas não não consegue compreender.

Só Deus sabe o que lhe passou pela cabeça naquele momento para o fazer. Eu gosto dos rapazes desde os 13 anos. Lamentável vai acabar assim. Deixaram tanta mensagem boa, tanta coisa para acabar assim. É impossível afirmar o que se passa no silêncio destes corredores. Não há relatos de vultos deambulantes ou vozes etéreas tentando comunicar.

O que fica é pura sensação, uma estranha impressão de que o caos a qualquer hora romperá o silêncio. A pura manifestação de duas almas inquietas que se reencontram no mesmo sepulcro e no além. Não tinha como. E depois, ó, sou um trabalhador, sou um guerreiro. A minha alma é feita de sonhos. Luto por isso, sem isso não v quase todos os dias ele me ligava.

 Quase todo dia. Ele ligou-me um dia antes. E [música] no momento em que ele morreu, eu estava a sonhar com ele, né? Que ele estava despedindo-se de mim. É, tipo, eu estou sonhando que ele está a falar, ó, vou viajar. Eu a dizer: “Não, não vai viajar?” Falou: “Vou”. Depois a campainha toca 5 horas. Aí [música] acordei com aquela campainha, abro a porta e a minha mãe alê filha.

 Foi assim, foi muito mau. Eu acho que ainda não saí do luto. Não sei quando é que vou sair. Espero sair um dia. Eu acho que a gente nunca melhora. Eu acho que nunca passa. Quando é parente muito [música] próximo, mãe, pai, filho, marido, assim, neste, acho que nunca passa. Tomara eu estar errada, entendeu? [música] Porque há dias ainda que são muito difíceis para mim, entendeu? Esta eu costumo contar e choro quando eu conto. Eu tinha uma banda.

Ah, o chorão. Pois, eu tinha uma banda. Eu tocava muito por aí. [música] E cada vez que ia para Santos, toquei uma vez, eu toquei no clube internacional e tive um miúdo que me puxava as calças, era o chorão. Depois terminou, ele foi lá me conhecer, bater o meu pai, fiquei amigo dele, miúdo.

 Eu estreia um programa no 89 chamado 1,89. Eu criei o programa e depois chamei-o para fazer o primeiro programa. Depois ele vai lá ao programa, ele dá uma entrevista e ele diz tudo o que aconteceu. Quando terminou o programa, tocou o meu telefone, era o Champinhon, que era o guitarrista da banda. Aí o O Champinhão liga-me e diz assim: “Ô, Tatola, tudo o que ele disse ali é mentira”.

 [música] Eu disse: “Eh pá, tu estás a brincar”. Falou: “Não, tudo que ele disse ali é mentira. Eu quero ir depois amanhã para dizer tudo o que ele está dizendo que é mentira”. Eu disse: “O jornalismo, filho, pode vir, vem cá”. Abriu o microfone e ele deu uma entrevista. Quando o Champinhão deu uma entrevista, disse tudo ao contrário do que tinha acontecido.

 E o aí o Champão, o Chorão vai lá à rádio, depois vai lá e quer bater-me. Eu disse: “Você é um traído, és meu amigo há não sei quanto tempo não podia ter feito isso comigo”. Eu disse: “Ou não podia ter feito isso consigo ou não podia ter-lhes feito isso. Tem alguma coisa que está mal ali que não está batendo”.

 Depois quase saímos na mão, mas não saímos à mão. Aí ficamos seis anos sem se falar, mas faltou pouco. As pessoas separaram, o gajo foi um negócio depois toral 89 no estúdio, depois vem um gajo entrando pelo estúdio com um grandalhão do lado. Eu disse: “Maia, [música] tu levanta-te que o couro vai comer, vai, vai literalmente, literalmente. Agora o bicho vai pegar.

Ele veio. Depois entrou [música] no estúdio quando o espetáculo não entrou. Isso era uma quinta-feira. Ele entrou no estúdio. É daí que eu não consigo contar. Ele [música] entrou no estúdio, ele olhou para a minha cara e disse assim: “És a voz do rock deste país. Eu quero que conheça o meu filho e eu vim [música] aqui pedir-te desculpa.

Ai que giro”. Eu disse: “Estás de sacanagem”. Aí ele abraçou-me. Eu abracei-o, me apresentou [música] o filho. Eu fiquei ali com ele abraçado um bom bocado e tiramos foto, pá, não sei quê. Para que demais, ó. Eu vou fazer [música] resumo. Ele foi-se embora. Na sexta-feira liga-me o Badauí do CPM22.

 Eu fiz as pazes com o Chorão. Eu disse: “Porra, que demais, pá, que fizeste as pazes com o Chorão?” Ele teve, disse que houve ali, “Nós vamos fazer uma digressão chau, CPM e vais apresentar a digressão inteira”. Eu disse: “Estás de brincadeira?” Não, ele quer que se apresenta na quinta [música] com ele, na sexta-feira com o Baldoí, domingo ele estava morto.

 Ah, talvez nada [música] disto aconteça de facto. Talvez seja apenas o fruto da imaginação de fãs inconformados com o trágico [música] destino que os uniu ali. Mas a quem acredite que a qualquer momento aquele grito rouco que embalou multidões poderá ecoar uma última vez. E se a música foi a essência das vidas dos chorão e champinhon, quem sabe ainda possamos escutar a derradeira melodia vibrar em uníssono pelos corredores vazios.

Pode vibrar para caraças porque é um puta de show fixe, é uma puta de banda sensacional. Os rapazes estão aqui para parar e depois quando quiser soltar pode soltar. Tá todos OK aqui. Vai subir ao palco o melhor baixista do do rock nacional, o melhor guitarrista, o melhor baterista e um vocalista completamente abelado.

Estou a falar do Chari Brown. palas para eles. [aplausos] [aplausos] [música] Boa noite. [música] Para mim vai ser muito bom. E para vocês? Ah.

 

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