Em grande parte do mundo, o futebol é encarado como um desporto, um entretenimento de fim de semana ou, na melhor das hipóteses, uma paixão assolapada. Contudo, na Argentina, as regras do jogo são ditadas por forças muito mais profundas e intangíveis. Neste país sul-americano, o futebol não se resume aos noventa minutos disputados sobre um retângulo de relva. É uma complexa tapeçaria onde a política, a religião, a identidade nacional e, de forma surpreendente, o misticismo e a bruxaria se entrelaçam numa dança visceral. Quando a seleção albiceleste ergueu a taça do Campeonato do Mundo no Catar em 2022, não foi apenas o talento indiscutível de Lionel Messi ou a estratégia apurada de Lionel Scaloni que funcionaram em perfeita harmonia. Por trás da glória desportiva, esconde-se uma história fascinante de rituais, superstições milenares, “cábalas” inquebráveis e uma força coletiva espiritual que empurrou uma nação inteira para o alívio que tanto necessitava.

Para compreender a psique do adepto argentino, é preciso mergulhar no conceito sagrado da “cábala”. Se em Portugal ou no Brasil as superstições são muitas vezes vistas com um sorriso irónico ou como uma curiosidade folclórica passageira, na Argentina elas adquirem um estatuto quase dogmático e religioso. Uma cábala não é uma simples mandinga; é uma responsabilidade. O humor de um argentino flutua freneticamente em função do resultado da sua equipa do coração, e essa montanha-russa emocional gera uma necessidade urgente de controlo. Quando a bola rola e o adepto percebe que não tem qualquer influência física sobre as pernas dos jogadores, recorre ao espiritual. Mudar de lugar no sofá após sofrer um golo, usar a mesma camisola sem lavar durante semanas a fio, sentar-se na mesma cadeira do bar ou acender o número exato de velas perante um altar caseiro são rituais rigorosamente cumpridos. É a crença inabalável de que uma pequena ação individual, repetida à exaustão, pode alterar a energia cósmica e decidir o destino de uma partida a milhares de quilómetros de distância.
A influência destas energias invisíveis é levada a extremos que roçam o surrealismo, e a história dos clubes de Buenos Aires está repleta de lendas obscuras que provam exatamente isso. O Racing Club de Avellaneda é, talvez, o caso mais emblemático e bizarro de como uma maldição se entranhou na vida institucional de uma equipa. Reza a lenda que, numa época de vitórias sucessivas do Racing, adeptos do clube rival, o Independiente, infiltraram-se no relvado do icónico estádio El Cilindro e enterraram sete gatos mortos. O que poderia parecer apenas uma provocação de mau gosto transformou-se num autêntico pesadelo desportivo. O Racing, que até então dominava, subitamente parou de ganhar. O jejum de títulos arrastou-se impiedosamente durante décadas. O desespero atingiu proporções tão épicas que a direção do clube organizou autênticas escavações no relvado na tentativa de desenterrar as carcaças felinas, tendo encontrado a maioria delas. Ainda assim, a má sorte persistia, especialmente debaixo de uma baliza onde a equipa falhava invariavelmente grandes penalidades. Foi necessário chamar um padre ao estádio para rezar uma missa e realizar um autêntico “exorcismo” no relvado. Apenas depois deste ritual de limpeza espiritual é que o Racing voltou, finalmente, a conhecer o sabor da vitória. Coincidência ou não, na Argentina, ninguém se atreve a duvidar da eficácia destas forças.
Esta relação íntima entre o futebol e o oculto não se restringe aos adeptos, estendendo-se aos próprios balneários e figuras lendárias do desporto. Na década de 1960 e anos seguintes, o carismático e supersticioso treinador Carlos Bilardo ajudou a imortalizar uma das maldições mais conhecidas do futebol mundial: a lenda de “Kiricocho”. Conta-se que Kiricocho era um adepto fervoroso do Estudiantes de La Plata, mas a sua presença nos treinos coincidia invariavelmente com lesões de jogadores ou infortúnios para a equipa. Apercebendo-se da tremenda aura de azar que o adepto carregava, o astuto Bilardo decidiu transformá-lo numa arma. Em vez de o expulsar, encarregou-o de receber as equipas visitantes e de assistir aos treinos dos adversários, com o intuito de lhes transferir a má sorte. A tática tornou-se tão famosa que o nome “Kiricocho” passou a ser gritado por jogadores um pouco por todo o mundo no exato momento em que um adversário se prepara para marcar um penálti ou fazer um remate perigoso. O que começou como uma superstição local de La Plata transformou-se num património místico do futebol global.
A seleção nacional não escapou a estas teias divinas. A narrativa em torno da conquista do Campeonato do Mundo de 1986, no México, está para sempre ligada à lenda da Virgem de Tilcara. Antes de viajar para o torneio, a equipa argentina, comandada por Bilardo, decidiu realizar a sua preparação em altitude na remota localidade de Tilcara, na província de Jujuy. Durante a estadia, alguns jogadores e membros da equipa técnica terão feito uma promessa solene à Virgem local: se a Argentina regressasse ao país com a tão desejada taça de campeã do mundo, eles voltariam de joelhos à pequena localidade para agradecer a bênção divina. A Argentina de Maradona maravilhou o mundo e ergueu o troféu no estádio Azteca, mas a glória fê-los esquecer a promessa. A equipa nunca regressou a Tilcara. O que se seguiu foi uma seca devastadora de títulos mundiais que atormentou o país durante trinta e seis longos e penosos anos. Para os crentes, não havia dúvidas: a Virgem estava a cobrar a dívida, e a seleção fora amaldiçoada pela sua própria ingratidão.
A redenção, no entanto, só chegaria de forma estrondosa no Mundial de 2022, no Catar. O cenário não poderia ser mais dramático e carregado de emoção. A Argentina vinha de uma série de golpes devastadores. A pandemia de Covid-19 tinha deixado cicatrizes profundas numa economia já em colapso, mas a ferida mais aberta e sangrenta na alma do povo era a morte recente de Diego Armando Maradona, o deus eterno e incontestável do futebol nacional. O país precisava desesperadamente de uma luz, de um momento de catarse coletiva. E foi aí que o misticismo atingiu o seu pico máximo.
A campanha no Catar transformou-se num autêntico ritual espiritual a uma escala nacional sem precedentes. As famosas “bruxas” argentinas invadiram as redes sociais, organizando-se em grupos online para congelar virtualmente os nomes dos jogadores adversários e proteger Lionel Messi das energias negativas através da “lei da atração”. Milhões de lares argentinos tornaram-se pequenos santuários iluminados à luz das velas. Foram impressas pagelas com os rostos dos jogadores da seleção, transformados instantaneamente em santos milagrosos. No relvado, cada drible, cada defesa impressionante de Emiliano Martínez e cada golo pareciam guiados não apenas pelo talento, mas por uma força invisível gerada pelo desespero de um povo inteiro.
A consagração no Catar não foi apenas mais um título desportivo a adicionar ao palmarés de uma federação. Foi o grito de alívio e de libertação de um país que carrega dores profundas. Quando o futebol é o espelho da sociedade, cada vitória tem o peso de uma vingança histórica. E é impossível separar essa paixão da componente política e da reverência incondicional a figuras messiânicas como Maradona. Na Argentina, Diego sempre foi muito mais do que os seus dribles e golos monumentais; ele era a voz desinibida de um povo oprimido, a personificação da rebeldia e do orgulho pátrio. O inesquecível golo com a “Mão de Deus” contra a Inglaterra, no Mundial de 1986, poucos anos após a sangrenta Guerra das Malvinas, foi interpretado e celebrado como uma autêntica retaliação política num campo verdejante. Maradona não marcou apenas um golo; ele devolveu a dignidade a uma nação ferida, vingando simbolicamente os jovens soldados caídos nas ilhas. Até aos dias de hoje, não há um único estádio na Argentina onde não tremule com orgulho uma bandeira em homenagem aos mortos nas Malvinas, fundindo permanentemente a guerra, a dor e o futebol.

O futebol argentino é, sem qualquer dúvida, diferente de tudo o resto. Onde o desporto termina, começa a arte, a devoção, o protesto político e o esoterismo mais puro e primitivo. É um palco onde os mortais se tornam divindades indiscutíveis, as maldições são contadas de boca em boca como verdades absolutas e a bruxaria se transforma na esperança última de uma bancada em sofrimento. Quer se acredite ou não nas forças misteriosas que habitam debaixo dos relvados de Buenos Aires, há uma verdade que ninguém pode refutar: na Argentina, o futebol é o bater do coração de um povo, e esse coração bate ao ritmo das suas crenças mais profundas. Talvez tudo isto não passe de meras coincidências ou excentricidades do folclore local, mas para quem vive a religião do futebol em estado de graça, a magia existe e está à vista de todos.