E depois, no meio de uma frase que eu estava a dizer sobre epistemologia religiosa, ele simplesmente parou e disse: “Rashit, por que nunca contou a ninguém o que viu na igreja de São Marcos em Alexandria quando tinha 7 anos? Era uma sexta-feira à tarde, 14 de março de 1980. Entrou sozinho enquanto a sua mãe estava a comprar no mercado do lado.
Havia uma luz que não vinha de nenhum janela. O tempo parou. Não é exagero. É a única forma que tenho de descrever o que aconteceu com o meu sistema nervoso naquele momento. O meu coração perdeu literalmente um batimento. Eu senti o sangue sair-me do rosto. E a coisa mais estranha foi que quando ele disse a data, 14 de Março de 1980, eu não tinha consciência clara desta data até àquele instante, mas ao ouvi-la, todo o meu corpo confirmou que era certa.
Era como quando não se lembra de uma palavra, mas ao ouvir sabe imediatamente que é ela. Este segredo que eu carregava desde os 7 anos era exatamente esse. Eu tinha entrado sozinho numa igreja cristã em Alexandria durante alguns minutos enquanto a minha mãe comprava fruta no mercado ao lado. Entrei por curiosidade de criança, sem nenhuma intenção religiosa, sem qualquer crise de identidade, simplesmente porque a porta estava aberta e eu quis ver como era por dentro.
E lá dentro vi uma luz. Não era a luz das janelas, não era a luz das velas, era uma presença luminosa sobre o altar que eu nunca Consegui explicar com nenhuma das palavras que aprendi mais tarde. E juntamente com aquela luz veio uma sensação de paz. que era tão completa, tão diferente da qualquer coisa que eu tinha sentido antes, que fiquei paralisado por alguns minutos.
Depois saí a correr, não contei a ninguém e carrejei aquilo durante 26 anos como uma coisa que não sabia que fazer com ela. Minha querida pessoa que me está a ouvir agora, eu preciso de pausar aqui um segundo. Esse canal não recebe qualquer receita do YouTube. Cada história que encontra aqui foi criada com amor real, financiada inteiramente pelas pessoas dessa comunidade.
Se o que acabou de ouvir já lhe tocou alguma coisa, se está a sentir o mesmo aperto no peito que sentia cada vez que tentava compreender o que carreguei durante tantos anos, pode ajudar a manter este espaço vivo. O link está no primeiro comentário fixado. Até o mais pequeno apoio significa muito mais do que você imagina.
E se este não é o seu momento, tudo bem, de verdade. Mas agora deixa-me contar-te o resto, porque o que aconteceu depois é o que o vai fazer perceber porque é que eu estou aqui a contar isso. Assim, voltando aquele setembro de 2006, na biblioteca de Milão, eu perguntei ao Carlo como é que ele sabia aquilo. Não deu uma resposta mística ou dramática. Tociu levemente.
Eu percebi pela primeira vez que ele parecia cansado de uma forma que ia além de uma noite mal dormida. e disse com uma simplicidade desconcertante: “Não sou eu que sei, mas há alguém que quer que deixe de carregar esse segredo como se fosse uma traição.” Rachid, ouve-me com atenção. Em exatamente 63 dias, a contar de hoje, às 14:40 da tarde, vai receber uma ligação de um número com prefígio Plácos 20 do Egito.
A pessoa que ligar vai dizer três palavras em árabe. Isto significa: “Eu também vi”. Essa pessoa é Yusf Abdel Harman, seu amigo de infância que estava consigo do lado de fora da igreja nesse dia. Ele também entrou depois de si. Ele também viu a luz. E quando ouvir estas palavras, vai compreender que Deus falou consigo naquele dia não para te afastar da tua fé, mas para te mostrar que o amor dele é maior do que qualquer fronteira que nós constrói.
Ele entregou-me uma estampinha pequena com a imagem da Eucaristia, colocou o portátil na mochila e foi embora. Eu fiquei sentado naquela cadeira durante não sei quanto tempo. Antes de eu continuar, fico muito curioso sobre uma coisa. De onde é que você tá me a ver agora? Conte-me nos comentários cidade, estado, país.
Adoro ver até que ponto estas histórias chegam. Há mensagens de sítios que eu nunca imaginaria e isso dá-me uma força que não sei bem explicar. E se este relato tá a fazer bem para você, subscreve o canal. Ajuda-me muito a continuar trazendo histórias assim. Agora volta comigo para esta história, porque ela ainda não acabou e o que vem a seguir é o que vai mudar tudo.
Nos dias seguintes, tentei racionalizar de todas as formas possíveis. Yusf Abdelah era meu vizinho em Alexandria quando tinha entre 5 e 11 anos. Quando a minha família emigrou paraa Itália, perdemos completamente o contacto. Eu não tinha qualquer forma de encontrá-lo nas redes sociais. O nome não aparecia em nenhuma pesquisa que eu fizesse e não havia forma concebível pela qual Carlo pudesse ter sabido que Yusf existia, muito menos que ele estava do lado de fora da igreja naquele dia de 1980.
E mesmo que de alguma forma Carlos soubesse sobre Yusf, como poderia saber que Yusf também tinha entrado na igreja? Isso era algo que nem eu sabia. Duas semanas depois do nosso encontro, em Outubro de 2006, vi num jornal que Carlos Cutes tinha morrido. 12 de Outubro de 2006, leucemia fulminante. 15 anos. Li aquelas palavras várias vezes.
Senti uma tristeza que não conseguia justificar completamente porque é que havia conversado com aquele rapaz por talvez 40 minutos no total. Mas era uma tristeza real, como a de perder alguém que sentia que te conhecia de verdade. Guardei a estampinha que ele me deu numa gaveta da minha secretária no gabinete da universidade.
A conta regressiva na minha cabeça não parou. 50 dias, 40 dias, 20 dias. Sentia-me ridículo tendo esses pensamentos. 34 anos de formação académica a dizerem-me que isso não fazia sentido e ao mesmo tempo uma parte de mim que não conseguia fingir que aquela conversa tinha sido normal. 10 dias, 5 dias. No dia 13 de Novembro de 2006, estava na minha sala na universidade numa reunião de departamento sobre o curricular do semestre seguinte.
Eram perto das 2:30 da tarde. O meu celular vibrou no bolso. Eu geralmente deixo no silencioso durante as reuniões, mas por alguma razão naquele dia eu tinha deixado vibrar. Tirei-o do bolso para silenciar e vi o número no ecrã. Começo com Plaz 20 Egito. O meu coração foi para a garganta. Pedi licença. Saí da sala.
Atendi a chamada com a mão a tremer. A voz do outro lado era de um homem em árabe, claramente nervoso. Olá, é Rashid. Rashid Almansur. Confirmei. Houve uma pausa. E depois, num árabe que soou como se tivesse guardado essas palavras durante semanas para ter coragem de dizer, ele falou: “Ana Shofam, eu também vi.
Larguei o telefone literalmente, caiu no chão do corredor. A minha assistente, a professora Marta Juliane, que tinha saído da sala atrás de mim porque achou que eu estava a sentir-se mal, baixou-se, pegou o telefone, ouviu a voz do outro lado, ainda a falar confusa, e perguntou-me se eu estava bem. Pedi para ela confirmar a hora no relógio. Eram 14:40.
Ela anotou na agenda dela. Disse-lhe que aquilo era importante, que precisava de uma testemunha daquele momento. Ela não percebeu nada, mas anotou. Retomei a ligação. Do outro lado estavaf Abdelahman, o mesmo Yousf da minha infância em Alexandria. Contou-me que havia tido um sonho recorrente durante semanas, um sonho com um jovem italiano de cabelo escuro que dizia-lhe: “Liga ao Rachid.
Ele precisa de saber que não estava sozinho naquele dia.” Diz-lhe. Eu também vi. Exatamente às 14:40 do dia 13 de novembro. E o CF tinha pesquisado o meu nome, encontrado à universidade, obtive o meu número de contacto e ficado a olhar para o telemóvel por dias antes de ter coragem para ligar. Ele me disse que achava que eu ia pensar que ele tinha enlouquecido e o CF contou-me que naquele dia de Março de 1980 ele tinha-me seguido por curiosidade quando me viu entrar na igreja. Entrou 5 minutos depois de mim.
Eu já tinha saído quando ele chegou ao altar, pelo que não nos vimos lá dentro. Mas também viu a luz, a mesma luz sem fonte, a mesma sensação de paz absoluta. E ele também guardou aquilo em silêncio durante 26 anos, pelo mesmo motivo que eu. Medo de ser mal interpretado, medo de parecer confuso sobre a sua identidade muçulmana, medo de que as pessoas pensassem que ele tinha fraqueza na fé.
Dois homens muçulmanos, a mesma igreja em Alexandria, com 26 anos de diferença, os dois guardando o mesmo segredo. Os dois libertados no mesmo instante por uma ligação coordenada por um adolescente italiano que já estava morto há um mês. Chorei na minha sala no trabalho pela primeira vez em décadas e o CF chorava do outro lado.
A gente ficou em silêncio juntos durante um bom tempo, só respirando, antes de conseguir falar de novo. Aquela noite fui para casa, abracei a minha esposa durante muito tempo, sem conseguir explicar porquê. E depois que as crianças dormiram, contei-lhe tudo. Tudo o que tinha guardado desde os 7 anos.
Ela ouviu-me sem interromper, com lágrimas a escorrer pelo rosto, e no final só disse: “Eu sempre soube que tu transportava alguma coisa”. Nessa mesma noite comecei a pesquisar sobre Carlo Acutes. Descobri tudo. O site que tinha criado catalogando milagres eucarísticos do mundo inteiro, a sua devoção à eucaristia, a sua alegria ordinária, os videojogos, o amor pelos animais, a confissão que fazia toda a semana, a missa diária, um adolescente completamente moderno que também era completamente santo, sem contradição nenhuma. e que faleceu aos 15 anos,
dizendo que oferecia o seu sofrimento pelo Papa e pela Igreja. Fiquei a ler até de madrugada. Três semanas depois daquela chamada, recebi um envelope da biblioteca municipal de Milão. No seu interior havia uma carta manuscrita. Olhei para a data no envelope. A bibliotecária tinha registado a entrada daquele envelope no sistema da biblioteca no dia 28 de Agosto de 2006, duas semanas antes do nosso encontro.
Eu li aquelas palavras e precisei de me sentar no chão porque as minhas pernas não aguentavam. A carta dizia para o professor Rashid Almansur, que receberá isso quando for o momento certo. Rachid, Deus mostrou-me que tu transporta um presente como se fosse um fardo. Naquele dia, em Alexandria, ele tocou-lhe o coração não para o confundir, mas para te preparar.
A sua vocação é construir pontes entre mundos que se temem. O segredo que guarda não é uma traição à sua fé, é uma prova de que o amor de Deus não cabe nas nossas categorias humanas. Quando o Yusf lhe ligar, você vai saber que nunca esteve sozinho. E quando ler esta carta, saberá que tudo foi preparado com amor. Eu vou estar morto quando leres isto, mas vou estar mais vivo do que nunca.
Não tenha medo da verdade. Carlo Acutis. A carta tinha sido escrita antes de ele conhecer-me, antes de qualquer conversa, antes de qualquer possibilidade de pesquisa ou investigação, antes de qualquer coisa. Ele sabia que ia morrer, sabia quando ia ligar e escreveu uma carta dirigida a mim com informação que ninguém no mundo poderia ter, que foi registada por uma funcionária de biblioteca como documentação oficial duas semanas antes de a gente se encontrar.
Hoje essa carta fica num porta-documentos do meu escritório. Já foi verificada por grafologia, por especialistas em documentos históricos, por duas pessoas da diocese de Milão. A data de registo na biblioteca é real e verificável. Não há explicação racional para o conteúdo dessa carta. Nenhuma. Ei, para um segundo.
Preciso de saber esta história tá tocando-lhe alguma coisa? Porque ela deveria. Não porque seja sobrenatural, não porque desafia a lógica, mas porque ela fala de algo que todos aqui já sentiu. O peso de guardar uma experiência de Deus que não conhece como contar ao mundo com medo de ser mal compreendido. Esta história é sobre coragem de ser testemunha da própria vida.
Fala-me nos comentários de onde está a acompanhar isso agora. Vejo mensagens do mundo inteiro e cada uma delas dá-me força para continuar. E se ainda não está subscrito no canal, subscreve já. é gratuito, é rápido e é o que mantém este espaço aqui vivo. Em outubro de 2020, Carlo Acutes foi beatificado em Assis. Eu estava lá e o CF voou do Cairo especialmente para isso.
A gente se abraçou na piaça delune depois da cerimónia e nenhum dos dois conseguiu falar durante uns bons minutos. Dois homens muçulmanos em Assis a chorar juntos pela beatificação de um adolescente católico italiano que tinha libertado os dois de um segredo com 26 anos. Se pensar que isto parece contraditório, se estiver a se perguntando como é que um muçulmano praticante concilia essa experiência com a sua fé, posso dizer-te, com honestidade que levei anos a entender isso.
Mas hoje a resposta parece-me simples. O Carlo não me pediu que deixasse de ser muçulmano. A carta que escreveu não disse para eu me converter. O que disse foi: “O segredo que o guarda não é uma traição à sua fé. É uma prova de que o amor de Deus não cabe nas nossas categorias humanas. Deus falou comigo naquela tarde em Alexandria de uma forma que o meu coração de 7 anos compreendeu perfeitamente.
E um adolescente italiano foi o instrumento pelo qual me disse 34 anos depois: “Pode parar de correr disto. Hoje coordeno na universidade um seminário chamado experiências místicas transigiosas. São estudantes de todas as crenças. algumas sem crença nenhuma, que se sentam-se juntos para partilhar encontros pessoais com aquilo a que chamam de divino, com o transcendente, com o sagrado, sem receio de julgamento de nenhum lado.
O seminário está no oitavo ano, tem lista de espera e cada vez que abrimos uma nova turma, recebo mensagens de estudantes a dizer que é o primeiro espaço onde sentiram que podiam falar de Deus sem ter de provar nada para ninguém. Ousf e eu falamos por vídeo chamada toda semana. Ele tornou-se conselheiro espiritual numa mesquita em Alexandria e incorporou no seu trabalho exatamente o que o Carlos descreveu.
A ideia de que experiências de Deus que chegam de lugares inesperados não são ameaças à fé, são convites a um entendimento mais largo do que o amor divino pode ser. A estampinha da Eucaristia que Carlo me deu naquela tarde de Setembro de 2006 ainda está na gaveta do meu escritório. a óleo todas as manhãs antes de começar o trabalho, não como um objeto de devoção religiosa, no sentido em que seria próprio da tradição católica, mas como um lembrete pessoal de que Deus conhece cada um de nós por nome, por segredo,
por data específica e que por vezes ele usa uma criança com o cabelo despenteado e ténis Nike velho para entregar uma mensagem que vai demorar décadas para conseguir ouvir. Existe algum segredo que transporta, alguma experiência de Deus que aconteceu num momento inesperado e que nunca contou a ninguém com medo de ser mal compreendido? Existe alguém na sua família que parece estar do outro lado de uma fronteira que a oração não consegue atravessar? Carlo Acutes passou os seus 15 anos convicto de que Deus fala nas línguas
específicos de cada pessoa, que ele não espera que nós venhamos até ele pela porta certa. Ele vai até onde cada um está. Esta convicção é o que está no livro 33 dias com Carlo Acutes. Não é um livro que pede que compreenda tudo sobre teologia antes de começar. É um livro que pede 15 minutos por dia e 33 dias de disposição para acreditar que o que parece impossível de se mover pode ser movido.
O link está no primeiro comentário fixado. Custa menos que um café. e o que ele pode fazer na vida das pessoas que ama não tem preço nem prazo. Obrigado por me ter ouvido até aqui. Obrigado por me deixar contar uma história que durante muito tempo me achei que era impossível de contar sem parecer louco.
Se ela tocou em alguma coisa em si, se ela acordou alguma memória de um momento seu com Deus que não sabe o que fazer, diz-me nos comentários. Estou aqui e até à próxima história. Ah! M.