Então, eu, eu Sentei-me ao lado do Carlo, meio pelo ceticismo profissional, meio por uma curiosidade que não me conseguia explicar. Faz parte do meu formação, escutar antes de descartar. e algo naquele rapaz, na precisão das palavras, na calma impossível, na forma como ele me olhava sem nada pedir, me fez sentar.
Primeiro disse ele, abrindo a mochila e mostrando-me brevemente uma pasta cheia de fotografias de hóstas consagradas e relíquias, como alguém mostrando um projeto de investigação. Marcos Santini não está morto. Declararam-no morto, certificaram-no morto. Mas em exatamente 63 dias, a a partir de hoje, às 6h15 da manhã, ele vai acordar no Instituto Neurológico Ba, para onde foi transferido depois da autópsia inicial.
Os médicos vão chamar-lhe coma profundo, com atividade cerebral mínima que os equipamentos de 2006 não conseguiram detectar. Segundo, o verdadeiro responsável pelo que aconteceu com o Marco chama-se Cláudio Santini, o seu irmão mais novo. Cláudio o envenenou com uma dose de propofol misturado com benzo de azepínico para simular uma paragem cardíaca e ficar com a herança da empresa familiar.
E terceiro, quando o Marco acordar, vai dizer cinco palavras antes de qualquer outra coisa. Meu irmão, o copo verde, nesse copo que está no apartamento de Cláudio na via Tortona 37, terceiro andar, apartamento B, vão encontrar resíduos químicos que coincidem com o que lhe injetaram. Olhei para ele como se fosse um menino desequilibrado, mas algo me travava.
Não era a história em si, era a precisão. Um endereço específico, uma hora específica, um número específico de dias, cinco palavras específicas. Quem é você? Como pode saber isso? Perguntei com uma mistura de irritação e assombro que eu não sabia separar. Sorriu com uma tristeza madura. que não combinava com a t-shirt da banda.
Sou apenas um menino que ama a eucaristia e a informática. Faz trs anos que ando a criar um site sobre milagres eucarísticos, documentando o impossível que se torna real. E agora estou doente, Sebastiã. Tenho leucemia. Restam-me poucos dias, mas isso não interessa. Fez uma pausa e olhou-me diretamente nos olhos.
O que importa é que recupere algo que perdeu há muito tempo. A capacidade de defender o invisível quando o visivelmente. Antes de continuar, fica aqui um segundo. Fico muito curioso. De onde estás a ver-me agora? Me conta nos comentários. Cidade, estado, país. Adoro ver até que ponto estas histórias chegam. Há gente a assistir do Brasil inteiro, de Portugal, de países que eu nem sequer imaginava.
E se este relato tá te fazendo bem, se está a mexer com alguma coisa em si, subscreve o canal. Me ajuda demais a continuar a trazer histórias assim para si. Agora vamos embora porque a história está a ficar impossível de parar. O Carlo tirou um pequeno papel dobrado do bolso e me entregou. Não abre até dia 63. Quando o Marco acordar, vai entender porque eu precisava de te dizer isto hoje.
Vimo-nos mais duas vezes. Na segunda, no dia 28 de setembro, Carlo estava visivelmente mais fraco, o rosto mais pálido, o movimento mais lento, mas aquela serenidade continuava intacta. Fui ter com ele porque precisava. Não sei explicar, só precisava. Ele falou de como a tecnologia e a fé não eram inimigas, de como ele mapeava o sobrenatural com a precisão de um engenheiro.
A verdade deixa sempre vestígios digitais, Sebastião, igual a um crime, só precisa de saber onde procurar. Perguntei se ele tinha medo de morrer. Ficou um segundo em silêncio e depois disse: “Não, o que me preocupa é que há tanta gente que vai morrer por dentro muito antes de morrer de verdade.
Este é o tipo de morte que dá para evitar.” À terceira vez, em 8 de outubro, quatro dias antes de ele morrer, Carlo mal conseguia falar. Eu fui ao hospital onde ele estava. Seus pais receberam-me com uma gentileza que eu não merecia. Um desconhecido que tinha aparecido na vida do filho nos últimos dias. O Carlo apertou-me a mão e sussurrou: “Confia nos 63 dias.
não abandona o padre Tiusepe. O copo verde existe. Estas foram as últimas palavras que ouvi dele. Carlo Acutes morreu a 12 de Outubro de 2006, rodeado pela família com 15 anos. E eu fiquei com um papel dobrado dentro da carteira e um promessa que desafiava tudo o que eu acreditava ser real. Não abandonei o caso, mas também não acreditei de verdade.
Continuei a defender o padre Joseppe por inércia, por culpa, porque as palavras do Carlo tinham-me perturbado o suficiente para eu não conseguir ir embora com a consciência completamente limpa. O julgamento avançava lentamente, as provas se acumulavam contra o meu cliente e eu executava os movimentos mecânicos de uma defesa que eu sabia perdida.
Mas comecei a investigar por conta própria. Mexi nos ficheiros, procurei sobre Cláudio Santini, o irmão. Descobri que ele existia de verdade, que tinha tido problemas financeiros graves nos seis meses anteriores ao crime, que três semanas antes da morte de Marco, tinha fez uma pergunta num fórum médico online, perguntando sobre substâncias.
que simulam paragem cardíaca. A pergunta estava arquivada na internet, esquecida, insignificante para quem não soubesse o que procurar. Contratei um investigador privado para confirmar a morada de Cláudio. O investigador ligou-me dois dias depois, via Tortona 37, terceiro andar, apartamento B. Exatamente como Carlo tinha dito, eu não dormi direito em semanas.
Ficava acordado, a olhar para o teto, contando os dias. 32, 47, 55. O papel dobrado ficava na minha carteira e não abria, não porque acreditasse, mas porque abrir cedo seria admitir que eu estava a levar aquilo a sério. E parte de mim ainda resistia, parte de mim ainda dizia: “Tu és advogado, Sebastiã.
Você trabalha com provas, não com profecias de rapazes de 15 anos que morreram de leucemia. Mas no dia 62, na noite anterior, ao prazo que o Carlo tinha indicado, eu não consegui dormir de maneira nenhuma. Fiquei olhando para o relógio. Meia-noite, 1 da manhã, 3, 4. A cada hora que passava, o absurdo parecia-me menos absurdo e a possibilidade parecia-me mais real.
às 6:22 da manhã do dia 19 de Novembro de 2006, exatamente 63 dias depois da minha conversa com Carlo. O meu telemóvel tocou. Era o diretor do Instituto Neurológico Ba. A sua voz era uma mistura de assombro científico e desconforto institucional. Senhor Ortega, preciso que o Sr. venha imediatamente.
Marcos Santini acabou de acordar. Ele estava em coma profundo, não morto. Os nossos protocolos de 2006 falharam na detecção de atividade cerebral mínima e ele está pedindo para falar com a polícia sobre o irmão. Conduzia 140 km/h, com as mãos a tremerem no volante. Quando cheguei, o Marcos Santini estava sentado numa cama de hospital, fraco, mas consciente, rodeado de médicos perplexos e dois polícias.
Os seus olhos tinham aquela expressão de quem acorda de um sonho muito longo e não sabe ao certo que dia é. As primeiras palavras coerentes dele registadas no relatório oficial às 6:15 da manhã, 7 minutos antes de eu chegar, mas gravadas, foram textualmente: “Meu irmão, o copo verde”. Cinco palavras, exatamente cinco, as mesmas cinco.
Três horas depois, a polícia fez uma busca ao apartamento de Cláudio Santini. Na cozinha, numa prateleira alta, encontraram um copo de vidro verde com resíduos químicos que o laboratório forense identificou como propofol e midazolã, a combinação exata que tinha provocado o coma profundo de Marco, simulando uma paragem cardíaca num corpo que ainda estava vivo.
Cláudio confessou nessa mesma tarde tinha envenenado o irmão durante um encontro na sacristia da igésia num momento em que o padre estava próximo, mas não presente, planejando que a morte parecesse natural e que as circunstâncias apontassem para quem estava mais perto. A herança da empresa familiar valia 4,7 milhões de euros.
O padre Giuseppe foi exonerado completamente em 24 de novembro de 2006. Saiu da prisão na manhã de uma quinta-feira fria, com a mesma batina que tinha entrado, mais velho de um jeito que 4 meses não explicavam. Me olhou na frente do portão e disse uma única coisa. Obrigado por não ter ido embora. Eu não sabia como responder, que eu tinha ido embora por dentro, que só a voz de um menino morto me tinha trazido de volta.
Mas o verdadeiro momento, o momento que mudou tudo de uma forma definitiva, chegou quando eu abri o papel que Carlo tinha me dado. A letra era adolescente, um pouco irregular. A caneta tinha marcado mais fundo em alguns pontos, como se ele estivesse com força variável enquanto escrevia. Sebastian, quando você ler isso, eu já vou ter morrido.
Mas quero que você saiba uma coisa. Em 12 de agosto de 2006, às 3 horas da manhã, eu carreguei no servidor do meu site sobre milagres eucarísticos um arquivo oculto chamado Santinierdade Tochest. A data de criação do arquivo é anterior à nossa conversa. Dentro dele está tudo que eu te disse. Os 63 dias, o copo verde, o nome de Cláudio, o endereço exato, as cinco palavras.
Eu subi esse arquivo antes de te conhecer, porque sabia que você ia precisar de uma prova de que isso não foi coincidência, de que existe um plano maior que os códigos penais. Procura em miracolieeucaristice.org/arquivos/ocultos. A senha é confianca invisível. E lembra, defender um inocente quando ele parece culpável é o milagre mais difícil que um advogado pode fazer.
Obrigado por não tê-lo abandonado, Carlo. Entrei no site naquela mesma noite. O arquivo estava lá. Data de criação, 11 de agosto de 2006. 36 dias antes de Marco acordar. 7 dias antes de me conhecer. 38 dias antes de Carlo morrer. O arquivo continha cada detalhe, os nomes, o endereço, as cinco palavras, a hora exata do despertar, tudo, como se alguém tivesse filmado o futuro e deixado salvo num servidor.
Contratei um especialista em informática forense que certificou a autenticidade da data de criação do arquivo. não tinha sido modificado, não tinha sido adulterado. Carlo Acutes tinha documentado o futuro com a precisão de um relatório de investigação e guardado, a evidência num lugar onde eu pudesse encontrá-la quando a realidade finalmente me alcançasse.
Ei, para um segundo. Preciso te perguntar uma coisa. Essa história tocou alguma coisa em você? Esse menino de 15 anos de tênis gasto e camiseta de banda que usou um computador para guardar o futuro porque sabia que a verdade sempre precisa de uma testemunha. Isso chegou até você? Me conta nos comentários. Sério, eu leio cada um.
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A igreja o reconheceu como o primeiro beato Millennial, o santo dos programadores, o adolescente que usou a tecnologia para documentar o sobrenatural. Eu estava em Assis naquele dia de pé na multidão, com um nó na garganta que não conseguia engolir. Olhei pra foto dele, aquele rosto sério e tranquilo, a camiseta simples, e pensei no quanto ele devia ter carregado naqueles últimos dias, sabendo que ia morrer, sabendo o que sabia sobre o padre deep, sobre Marco, sobre mim.
e ainda assim subindo um arquivo num servidor às 3 da manhã para garantir que a verdade tivesse uma data e um endereço. O padre Josep esteve em Assis também nos encontramos do lado de fora depois da cerimônia. Ele estava velho, cabelo branco, andando com uma bengala. Me olhou por um longo momento e disse: “Você sabe que não foi você que me salvou, né?” Eu disse que sabia.
Ele acenou com a cabeça. Esse menino me viu de joelhos na sacristia na noite em que Cláudio envenenou o Marco. Eu estava rezando e não vi nada, mas ele viu. Sempre perguntei como, nunca soube responder. Ficamos um tempo em silêncio. Não era um silêncio desconfortável. Era o tipo de silêncio que acontece quando duas pessoas percebem que participaram de algo que os dois entendem, mas nenhum consegue explicar.
Hoje eu defendo exclusivamente casos que todo mundo considera perdidos. Casos onde as evidências gritam culpabilidade, mas alguma coisa, alguma coisa que eu não consigo mais chamar só de instinto. Sussurra inocência. Em 20 anos, liberei 17 pessoas que o sistema tinha condenado prematuramente. Não tenho como provar que o trabalho do O Carlo tem alguma coisa a ver com isso, mas tenho como provar que algo mudou em mim nesse mês de Setembro de 2006 e que o que mudou chama-se Carlo Acutes.
meu escritório. Tenho emoldurado o papel dobrado com a letra irregular dele e uma captura de ecrã do ficheiro com a data de 11 de Agosto de 2006. É a primeira coisa que vejo quando chego de manhã e a última quando me vou embora. Não como superstição, como lembrete. Um lembrete de que a evidência mais importante num caso às vezes não é a que está no processo, é a que está no lugar onde ninguém pensa em procurar. O copo verde ainda existe.
Tá em exposição no Museu Criminológico de Milão, etiquetado como prova Caso Santini, o coma que pareceu a morte. Paraa maioria das pessoas que passam por ele, é uma curiosidade histórica, um erro médico interessante, um crime de herança resolvido por um acaso. Mas para mim, aquele copo de vidro verde com resíduos secos de propofol e benzo de azepínico é a prova mais concreta de um milagre que já segurei na mão.
Não porque ele defie as leis da física, mas porque um menino doente, nos últimos dias de vida, com leucemia a corroer sangue, achou mais importante garantir que um inocente fosse livre do que usar o tempo que lhe restava em qualquer outra coisa. Quando colegas meus dizem: “Este caso é impossível”, eu sorrio, não de superioridade.
Sorrio porque me lembro-me de um adolescente com ténis gastos e pasta de milagres eucarísticos que me ensinou que impossível é apenas o nome que damos para coisa que ainda não aprendemos a ver e que, por vezes, o único maneira de ver é largar os óculos. que já temos. Há uma frase que o Carlo escreveu no site dele, que li anos mais tarde, quando Comecei a estudar mais sobre a vida dele.
Dizia ele: “Todos nascem originais, mas muitos morrem como cópias”. Cada vez que leio isto, penso no padre Giuseppe, entrando pela porta do tribunal, depois de ser exonerado. Penso em Marcos Santini, abrindo os olhos passados 63 dias e dizendo exatamente as cinco palavras que precisavam de ser ditas. Penso em mim mesmo naquele setembro, sentado na última fila de uma igreja vazia ao lado de um menino com portátil na mochila, que sabia o meu nome e os meus pensamentos, e, no entanto, sorriu-me como se eu fosse capaz de fazer o que era necessário fazer. Eu
ainda não sei explicar o que aconteceu. Não tenho uma estrutura jurídica para isso. Não tenho um artigo de lei que enquadrar a experiência. O que tenho é o arquivo com data de 11 de agosto de 2006, o papel com letra adolescente e o memória de uma mão fria a apertar a minha numa cama de hospital e dizendo: “Confia nos 63 dias.
” E confiança. Aprendi com o Carlo. Não é a ausência de dúvida, é o que se faz mesmo quando a dúvida está inteira. É continuar a defender alguém quando todo o mundo já decidiu que ele é culpado. É não ir embora mesmo quando se vai embora seria mais fácil, mais lógico, mais seguro. Carlo não se foi embora nem dos milagres, nem da fé, nem de mim.
naquele setembro impossível e o padre saiu livre.