Era inteligente, sensível, com uma fome de pertencer a algo que era quase visível. Precisava de chão, de referência, de alguém que olhasse para ele e visse potencial de verdade. O Carlo viu na mesma semana. Os dois tornaram-se amigos com uma velocidade que me espantou. Cada vez que os via juntos depois da missa, Carlo estava a mostrar alguma coisa no portátil, explicando, contando histórias.
Mateu ouvia com uma atenção que nunca me tinha dado e eu Apercebi-me com um desconforto silencioso que provavelmente nunca tinha realmente tentado falar com ele da forma que Carlo falava. Setembro de 2006. Carlo começou a aparecer mais pálido, mais magro. Perguntei se estava bem. Ele respondeu com aquela serenidade desconcertante que havia em tudo.
Tenho leucemia, padre. Os médicos dizem que é agressiva. Disse isto como quem anuncia que vai fazer uma viagem longa, sem dramas, sem pedido de pena, apenas como uma informação relevante sobre o que estava para vir. Amigo querido, preciso de parar um segundo aqui, porque o que eu estou prestes a te contar vai ser cada vez mais intenso.
E antes de continuar, quero falar-te uma coisa com honestidade. Esse canal não não recebe qualquer receita do YouTube, nenhuma. Cada história que aqui aparece é criada com muito cuidado, com investigação, com tempo, financiada inteiramente pelas pessoas dessa comunidade, que são pessoas como você. Se o que ouviu até agora já tocou alguma coisa em si, se sentiu que isso vale o seu tempo, pode ajudar a manter viva essa missão.
O link está no primeiro comentário fixado aqui em baixo. Até o mais pequeno apoio significa mais do que imagina. E se esse não é o seu momento, tudo bem de verdade. Agora deixa-me contar o resto, porque é exatamente aqui que a história começa a tornar-se algo que ainda não consigo explicar totalmente. 8 de outubro de 2006, qu dias antes da morte de Carlo.
Pediu-me para conversar a sós na sacristia. Eu esperava uma confissão final, talvez palavras de despedida, um pedido espiritual. Preparei-me emocionalmente para aquilo. O que ele me disse foi completamente diferente do tudo o que tinha imaginado. Sentou-se na cadeira de madeira antiga da sacristia, com o portátil no colo, como sempre, e disse com aquela voz calma e direta: “Padre, no dia 15 de Maio do próximo ano, durante a processão de São Isidro, Mateu vai desaparecer.
Vão procurá-lo por todo o lado e não vão encontrar. O Senhor vai pensar que ele fugiu ou que aconteceu algo de grave.” fez uma pausa, mas procure-o no campanário da capela de São Ambrósio, a antiga que está fechada atrás do cemitério. Ele vai estar lá exatamente 4:17 depois do início da procissão. Vai ter um rosário partido na mão esquerda.
Não vai estar ferido fisicamente, mas vai estar no momento mais negro da vida dele. Diga que o Senhor estava à espera por ele. Estas palavras exatas: “Eu estava à tua espera.” E uma última coisa, padre, quando o encontrar, pergunte pela carta. Ele vai compreender. Olhei para o Carlos sem conseguir falar durante um tempo.
Depois perguntei o que ele queria dizer com aquilo. Ele sorriu do forma que sorria sempre, leve, sem ansiedade, e disse que era exatamente o que tinha dito. Nada mais. Nada mais nada menos. Antes de continuar, preciso de pausar aqui mais um segundo. Fico muito curioso. De onde me tás a assistir agora? Conta-me nos comentários. cidade, estado, país. Eu leio tudo.
Adoro ver até que ponto estas histórias chegam. É uma coisa que me dá energia de verdade. E se este relato te tá fazendo bem, se está a sentir que vale a pena acompanhar, subscreve o canal. Me ajuda muito a continuar a trazer histórias assim para si. Agora continua comigo, porque a história está chegando a um ponto que eu ainda não consigo contar sem sentir um nó no estômago.
Carlutes morreu a 12 de Outubro de 2006. Celebrei uma missa em sua memória, onde a igreja ficou cheia de jovens que nunca tinham ali frequentado, que nunca tinha visto chorar assim por ninguém, muito menos por um santo. E aquela palavra santo ainda me suava estranha, porque O Carlo era uma pessoa que eu tinha conhecido, com quem tinha tomado café, que me tinha ajudado a organizar pastas empoiradas de arquivo, mas os olhos destes jovens a chorar diziam algo que A minha razão teológica ainda estava processando.
Guardei as suas palavras sobre o Mateu num canto da memória, com respeito, com alguma seriedade, mas sem verdadeira convicção. Eram palavras de um adolescente muito especial, muito diferente, mas ainda assim adolescente. Assim me dizia a parte céptica que sobrevive em todo o teólogo.
O inverno passou, a primavera chegou e depois o calendário virou para Maio de 2007. 15 de maio. O céu de Milão estava com aquele cinzento típico de final de primavera, pesado de humidade, mas sem chuva. A processão de São Isidro começou pontualmente às 10h30 da manhã. Mateu estava entre os acólitos carregando o turíbulo com aquela seriedade que tinha desenvolvido nos meses anteriores.
Eu estava na frente da processão, guiando como padre responsável pela paróquia. Às 11:45, num troço da rua principal, virei-me para fazer um ajuste no cortejo e reparei num espaço vazio onde Mateu deveria estar. Olhei de novo. O turíbulo estava apoiado no chão, sem ninguém. Mateu tinha simplesmente desaparecido da multidão.
O que se seguiu foram duas horas de uma agonia tranquila por fora e completamente caótica por dentro. Organizamos buscas imediatas. Liguei paraa mãe dele que ficou em pânico. Verificamos a casa dele, a escola, os locais que ele costumava frequentar. Nada. A polícia foi chamada. As possibilidades que passavam pela minha cabeça eram todas ruins.
Fuga, crise, algo que devia ter visto vir e não vi. Duas horas depois de ter começado a busca, com o coração apertado de culpa e de medo, as palavras de Carlo surgiram-me de um jeito que foi quase físico, como se alguém tivesse sussurrado ao meu ouvido. Olhei pró relógio, 14:34. A processão tinha começado às 10:30. 4:17 dariam exatamente 14:47.
Tinha 13 minutos. Saí a andar rápido, que virou corrida. A capela de São Ambrósio ficava a uns A 15 minutos a pé do ponto da procissão, mas a correr daria. Era uma estrutura do século X em que estava fechada há anos por causa da restaurações que nunca tinham sido concluídas. Verbas que não chegavam, projetos que ficavam no papel.
A pequena grade de ferro à entrada estava enferrujada, mas não trancada de facto. Saltei com menos elegância do que eu gostaria de admitir. A porta lateral cedia com um barulho de ferrugem que ecoou pelo interior vazio. A escadaria em Caracol do Campanário era de pedra antiga, coberta de pó, cada degrau com aquela textura húmida que tem coisa que ficou demasiado fechada.
Subi com o coração a martelar, não sei se do esforço físico ou do medo do que ia encontrar, ou do medo de não encontrar nada e perceber que tinha seguiu-se a visão de um adolescente morto enquanto Mateu estava em perigo de verdade em algum outro lugar. Cheguei à câmara superior do campanário às 14:47, verificando no relógio que uso até hoje o mesmo da época.
E ali estava Mateu, sentado contra a parede de pedra, joelhos contra o peito, cabeça baixa. Na mão esquerda, um terço com a corrente quebrada, as contas parcialmente espalhadas no piso poeirento em redor dele. Levantou os olhos quando ouviu os meus passos. Vi primeiro a tensão, o reflexo de quem espera ser repreendido. Depois, quando vi o que era eu, vi outra coisa.
Aquela mira vazia que eu reconheci de anos de trabalho pastoral com jovens em crise. A mirada de alguém que já decidiu que não aguenta mais. Me sentei-me no chão ao lado dele, naquela pedra fria e poeirenta, sem me importar com a batina, e disse exatamente o que O Carlo tinha-me pedido para dizer. Eu estava à tua espera. Mateu quebrou.
Não tem outra palavra. Aquela contenção que ele carregava nos ombros desde que o conhecia desfez-se num choro que vinha do fundo. Entre soluços, foi-me contando. A mãe trabalhando três turnos e chegando a casa morta de cansaço. Os irmãos mais novos que dependiam dele para tudo o que a mãe não conseguia dar.
A sensação de estar carregando um peso que não era para ser de um rapaz de 16 anos. a certeza de que se ele desaparecesse, todos ficariam bem de qualquer forma, talvez até melhor. Tinha subido aquele campanário para estar sozinho e decidir se valia a pena continuar a tentar. Quando o choro começou a acalmar, me lembrei-me da segunda instrução de Carlo.
Perguntei com toda a suavidade que consegui. Mateu, que carta? O rosto dele mudou completamente. Uma expressão de espanto que era diferente do choro, diferente da crise. Era quase um susto sagrado. Com mãos que ainda tremiam, abriu o bolso da frente do blusão e tirou um envelope amassado.
Chegou hoje de manhã pelo correio sussurrou. É do Carlo. Tá datado de 10 de Outubro de 2006, dois dias antes de ele morrer. Abrimos juntos. A letra de Carlo era clara, inclinada ligeiramente paraa direita, como quem escreve depressa, mas com cuidado. Dizia: “Mateu, irmão, se estás a ler isto, chegou o dia em que eu já sabia que chegaria.
Está no campanário de São Ambrósio, sentindo que não tem saída, mas o padre Javier está a subir as escadas agora mesmo para te encontrar, porque eu pedi-lhe há meses.” Isto não é coincidência. É a prova de que existe um plano para a sua vida, um plano tão específico que inclui até este momento exato, este lugar exato, esta carta exata.
O rosário que tem na mão partiu porque estava a apertar demasiado forte, tentando agarrar-se a alguma coisa. Mas não precisa de se agarrar, Matel. Só precisa de se soltar e confiar. Eu vi-te como o padre ainda não vê-te, como um futuro líder que vai ajudar centenas de jovens como tu. Mas primeiro precisava de chegar a este campanário, a este momento de rendição total, para poder ver que nunca esteve sozinho.
O padre Javier vai dizer: “Eu estava a te esperando. Acredita nele, porque é verdade. Com amor de onde quer que eu esteja, Carlo.” Abaixo tinha uma nota adicional a mim dirigida. PS: Padre Ravier, veja a base do Rosário do Mateu. Gravei ali algo em setembro. Com mãos que não estavam muito mais firmes que as de Mateu, peguei no rosário.
A cruz estava solta numa das contas, quase soltando completamente pela corrente quebrada. Virei-me contra a luz que entrava pela janela do campanário e olhei com atenção paraa base do crucifixo, com letras minúsculas gravadas numa superfície que de longe parecia lisa, estava escrito: 15757 14:47 São Ambrósio. Carlo tinha gravado a data exata, a hora exata, o lugar exato.
Tinha feito isso em setembro de 2006, um mês antes de morrer. 7 meses antes de acontecer. Fiquei a olhar para aquela gravação por não sei quanto tempo. Mateu ficou olhando comigo. A luz da tarde entrava pela janela do velho campanário, iluminando o pó suspenso no ar. E não não havia nada que a minha formação teológica, a minha experiência de 28 anos, a minha razão de um padre bem treinado pudesse fazer com aquele momento.
Não tinha enquadramento possível, tinha só aquilo, uma data, uma hora, um lugar, gravados pela mão de um rapaz de 15 anos que via para além do tempo. Ei, preciso de parar aqui um segundo porque quero saber uma coisa. Esta história tá tocando-lhe alguma coisa? Diz-me nos comentários de onde estás assistindo.
Vejo mensagens do mundo inteiro e cada uma delas dá-me força para continuar a fazer isso aqui. E se ainda não está inscrito no canal, se inscreve já. O seu apoio é o que mantém este canal vivo de verdade. Agora deixa eu contar-te o que aconteceu depois, porque a história de Mateu não terminou naquele campanário.
Na verdade, foi aí que ela começou verdadeiramente. Descemos juntos. Do lado de fora, a equipa de busca recebeu-nos com aquele alívio coletivo que só quem já fez parte de uma procura de pessoa desaparecida conhece. Abracei a mãe do Mateu, que tinha chegado num carro da polícia com os olhos vermelhos e os lábios brancos de tanto apertar.
Disse que tinha tido uma crise pessoal, que eu o tinha encontrado há tempo, que estava bem. Não mencionei o Carlo nesse momento. Sabia como ia soar. Sabia que precisava de silêncio primeiro. Nessa noite, no meu quarto, li a carta de Carlo 27 vezes. Não é exagero. Contei. Peguei no rosário e olhei para gravação com a lupa que utilizo para textos pequenos. Conferi o carimbo do envelope.
11 de Outubro de 2006. Carlo tinha enviado a carta um dia antes de morrer, com uma data futura de entrega. tinha instruído alguém, provavelmente a família, a postar no dia certo, ou tinha utilizado algum serviço de envio com data programada. Era um menino que programava sites e sistemas, entendia de tempo, de instrução, de precisão.
Tinha aplicado tudo o que sabia ao único projeto que importava naquele momento. Fui entender completamente o que tinha feito só semanas depois, a conversar com a mãe dele, Antónia. Ela contou-me que o Carlo, ainda no hospital tinha deixado instruções escritas sobre a carta. Sabia que não ia ter tempo para apostar pessoalmente.
Pediu à mãe que apostasse no dia 14 de Maio de 2007 para chegar ao dia 15. Antónia não sabia o conteúdo da carta, apenas o pedido do filho. Cumpriu porque era o último pedido de Carlo, mesmo sem entender. O Carlo também me tinha pedido nessa tarde na sacristia para chegar no campanário. Eu tinha guardado as palavras, mas sem a convicção de que precisaria de seguir aquela instrução de verdade.
E no dia, quando a memória voltou com aquela urgência, eu fui. Ele tinha contado com a minha fé, por mais que fosse, por mais misturada com ceticismo que estivesse. tinha contado que quando chegasse o momento eu me lembraria. Tinha razão. Nos meses seguintes, Mateu entrou em acompanhamento psicológico apoiado pela paróquia.
A história do campanário ficou entre nós durante algum tempo. Entre ele, eu e depois a família de Carlo, quando senti que era certo partilhar. A mãe de Carlo chorou, não de surpresa, mas de reconhecimento. Era assim que ele era disse ela. Ele rezava pelas pessoas com nome, com intenção, com detalhe. Era assim que ele amava. O Terço com a data gravada está hoje numa montra na nossa paróquia.
Ao lado, uma foto do Carlo com o portátil e os ténis a sorrir com aquela leveza que eu agora sei de onde vinha. Não era leveza de quem não sente, era leveza de quem sente muito e confia ainda mais. Mateu Ibarra tem hoje 35 anos. É assistente socializado em prevenção do suicídio juvenil.
trabalha numa ONG em Milão que atende adolescentes em crise e ao longo dos últimos 19 anos ajudou diretamente mais de 300 jovens. 300.º Cada um deles recebe em algum ponto do processo a história do campanário. Não como pregação, como testemunho, como prova de que o momento mais negro que alguém vive pode ser exatamente o ponto de onde o plano começa a aparecer.
Carlo Acutes foi beatificado a 10 de outubro de 2020 em Assis, mas para mim e para o Mateu, ele era santo desde esse dia 8 de outubro de 2006, quando com quatro dias de vida ainda pela frente, não utilizou esse tempo para se lamentar, para ter medo, para guardar para si. utilizou para programar um resgate, para gravar uma data num crucifixo, para escrever uma carta que chegaria s meses depois ao bolso de um menino que precisava de saber que não estava sozinho.
Eu disse no início que durante 28 anos acreditei em Deus como se acredita na gravidade. Sabe que existe, funciona, sustenta tudo, mas não muda a sua vida de facto. O que o Carlo me ensinou, não com palavras teológicas, não com argumentos, mas com uma data gravada e uma carta enviada do leito de morte, é que entregar-se a Deus de verdade altera a forma como vê o tempo, as pessoas, os momentos.
Muda porque começa a ver que nada é acidental. Nem o jovem que apareceu na sua paróquia com ténis surrado, nem o rapaz de 16 anos que chegou como serviço comunitário, nem a tarde de maio num campanário poerento às 14:47. Existe uma precisão no amor de Deus que a nossa razão não alcança, mas o nosso coração reconhece quando encontra.
Carlo via essa precisão, rezava dentro dela, agia a partir dela e nos deixou prova. Se tem alguém que está no campanário hoje, não necessariamente de pedra e pó, mas no campanário interior, aquele lugar escuro onde a pessoa decide se vale a pena continuar, quero que saiba que existe uma forma de rezar com nome, com intenção, com detalhe, a mesma forma que Carlo rezava.
O livro 33 Dias com Carlo Acutes existe exatamente para isso. 33 dias, uma oração por dia, 15 minutos de gesto concreto, sem necessitar de formação especial, sem ter de entender tudo, precisando apenas de querer mover algo pela pessoa que ama. O link está no primeiro comentário fixado aqui em baixo. Custa do que um café. E o que ele pode mover na sua família, nas pessoas que traz no coração, isso não tem preço.
Eu sei que porque vi um adolescente de 15 anos com quatro dias de vida, provar que o amor rezado com precisão chega exatamente onde precisa de chegar, na hora exata em que precisa de ser recebido. Obrigado por ter ficado até aqui comigo. Esta história era para chegar até si. M.