Em 1973, ao seu Valença subiu a um palco em Caruaru, numa noite de São João, com a intenção declarada de provar que o forró de Luís Gonzaga tinha passado a ser coisa de velho, de passado, de gente que não acompanhou o tempo. Tinha 28 anos, uma voz que rasgava o ar da borborema e um discurso acutilante que rodava os bastidores do meio musical do Recife.
Fazia meses. Nessa mesma noite, Gonzaga estava sentado numa cadeira de palha a 200 m daquele palco, ouvindo cada palavra. E o que aconteceu nas 3 horas seguintes mudou a forma como os dois viveram o resto das suas vidas. Ao seu Valença chegou ao Recife em 1968, carregando uma viola e uma raiva que não cabia no peito.
Vinha de São Bento do Una, interior de Pernambuco, com aquele mistura de MPB e maracatu ninguém sabia muito bem onde encaixar. Tocava com Geraldo Azevedo, gravava coisas que rádio nenhum queria colocar e ia juntando uma reputação de difícil, de artista que não dobrava o pescoço para agrado de produtor, nem de empresário. Mas havia uma coisa que ele dizia nos Os botecos do Recife, com uma frequência que começou a incomodar, que o forró de Gonzaga era uma música de saludosismo que prendia o nordestino no passado, que era uma corrente disfarçada de zabumba,
que o povo do interior merecia algo mais do que aquele sofrimento musicado que Luís Gonzaga vendia como identidade. Palavras duras, palavras que chegaram ao ouvido de muita gente antes de chegarem ao ouvido de Gonzaga. Mas o que é que você ainda não sabe é o que ao seu tinha visto três meses antes dessa noite de São João.
Há uma conversa que aconteceu numa pensão no bairro da Boa Vista, no Recife, que nunca foi gravada, nunca foi publicada, nunca se tornou depoimento nem entrevista. Uma conversa entre Alceu e um homem que conhecia Gonzaga desde os anos 40, um velho acordeonista que passava as semanas num quarto alugado e os fins de semana tocando nos forrós de periferia.
O que este homem contou a O Alceu naquela tarde mudou alguma coisa dentro dele, mas alceu foi ao palco assim mesmo. E o que vem agora é mais pesado do que qualquer coisa que se está a imaginar. Luís Gonzaga tinha 53 anos em 1973. Estava longe do auge da fama. Isso é verdade. Os anos 60 não tinham sido fáceis.
A bossa nova tinha chegado e varreu o baião das rádios dos grandes centros com uma velocidade que deixou muita gente atordoada. O mercado carioca virou costas. As gravadoras que antes disputavam o rei do baião passaram a desviar o olhar quando entrava no estúdio. Houve um período entre 1960 e 2 em que Gonzaga gravou mais do que nunca e vendeu menos do que em qualquer outro momento da vida.
Os discos saíam, iam parar nas feiras livres do Nordeste, nas pequenas rádios do interior e desapareciam sem deixar rasto no mercado que importava. Mas Gonzaga nunca foi homem de ficar parado à espera. Pegava no carro, fazia estrada, tocava em circo, tocava em festa de interior, tocava numa praça pública, levava o triângulo, aumba e a acordeão para onde tivesse povo.
Aquele São João de 1973 estava em Caruaru porque alguém o chamou, porque nunca recusava Caruaru, porque aquela cidade tinha uma coisa que o rio não tinha e que S. Paulo não tinha, o cheiro a carne seca ao sol, a poeira vermelha da feira, a voz dos vendedores que se misturava com o eco das concertinas.
Era o local mais parecido com Exu que conhecia fora de Exu. Chegou dois dias antes do São João. Ficou num hotel simples perto da rodoviária. Comeu num restaurante de beira de estrada onde a dona conhecia as músicas dele de cor e cantarolou asa branca enquanto servia o mocotó. Gonzaga comeu devagar, pediu café duas vezes e ficou a olhar pela janela para o movimento da rua com aquele jeito dele de estar presente e distante ao mesmo tempo.
Na tarde do dia 23, alguém bateu à porta do quarto de hotel. Era o Zé Domingos, um produtor miúdo de bigode ralo, que organizava parte da programação do São João de Caruaru nesse ano. Entrou sem cerimónia, sentou-se na beira da cama sem ser convidado, e disse que havia um problema com a programação do palco principal.
Alceu Valença ia tocar antes de Gonzaga e a apresentação de Alceu ia incluir um número em que falava sobre o forró, sobre a música nordestina, e a fala não era propriamente generosa com quem veio antes dele. Gonzaga ouviu tudo sem interromper. Ficou quieto um tempo depois de o Zé Domingos terminou.
Depois perguntou uma coisa só. Ele vai tocar de dia ou de noite? O Zé Domingos disse que à noite, por volta das 10, Gonzaga assentiu com a cabeça e disse que estava bem. Zé Domingos ficou desconcertado. Esperava alguma reação, alguma ameaça de cancelamento, alguma exigência de alteração na ordem das apresentações, algum gesto de autoridade de quem tinha o nome maior no cartaz.
Gonzaga apenas pediu que trouxessem mais uma cadeira de palha para o camarim, porque ia querer sentar-se enquanto esperava pela sua vez. O que Gonzaga fez nessa tarde, entre as 4 e às 7 da noite, é a parte dessa história que quase ninguém conhece. Isso vem daqui a pouco e quando vier vai mudar tudo o que está a achar que entendeu até aqui.
Ao seu Valença subiu em palco às 10:30 da noite. O São João de Caruaru, em 1973, tinha uma estrutura mais simples do que o que se viu depois, quando a festa tornou-se evento de massa. Era um palco de madeira levantado numa praça com iluminação de candeeiros e algumas lâmpadas penduradas em fio de arame. E o povo se comprimia à frente, sem grade, sem separação, encostados uns aos outros, com aquele calor de Junho, que no Nordeste não tem nada de inverno.
A concertina de Alceu era boa, a banda era afinada e o voz, aquela voz que rasgava, encheu a praça da forma que só acontece quando o sujeito sabe o que está a fazer. Mas, aí, a meio da apresentação entre uma música e outra, Alceu pegou no microfone e começou a falar. disse que a música nordestina estava presa, que havia um forró que olhava para o passado, que vendia a imagem do retirante, do sofrimento, da seca, como se aquilo fosse tudo o que o povo do sertão tinha para oferecer.
Disse que o nordestino merecia uma música que olhasse em frente, que trouxesse o presente, que sacudisse o pó da lona velha e abrisse a janela. não citou o nome de Gonzaga, mas toda a gente sabia de quem ele estava a falar. A praça sabia. E Gonzaga, sentado numa cadeira de palha a 200 m daquele palco com uma garrafa de água na mão, sabia também.
Havia um rapaz ao lado de Gonzaga a essa hora. Chamava-se Pedro Sá, filho de um fotógrafo de Caruaru, que registava as festas de São João desde os anos 50. Pedro tinha 20 anos, estava ali porque o pai mandou câmara na mão e ficou paralisado quando apercebeu-se que o homem sentado na cadeira ao lado dele estava Luís Gonzaga. Ficou olhando para ele a noite inteira em vez de olhar para o palco.
E o que ele viu naquela hora? Enquanto ao seu falava, ficou registado dentro dele com uma clareza que durou décadas. Gonzaga ouviu tudo sem mexer um músculo do rosto. A mão que segurava o garrafa de água não apertou, os olhos não fecharam, a mandíbula não travou. ficou a ouvir do mesmo jeito que ouvia o vento quando parava no meio da estrada para descansar, com atenção, com paciência, como quem sabe que o vento passa.
Quando ao seu terminou de falar e voltou a tocar, Gonzaga levantou-se da cadeira, passou a garrafa de água a um dos rapazes da produção e entrou no camarim. Pedro Sá foi atrás, não sabia exatamente porquê. Talvez o instinto de fotógrafo, talvez a curiosidade de 20 anos que ainda não aprendeu que há coisas que se vêem e se cala. Ficou à porta do camarim.
Gonzaga estava sozinho, sentado em frente a um espelho partido, a concertina no colo afinando. Não olhava para o espelho, olhava para o chão. E foi nessa altura que aconteceu algo que Pedro sacarregou durante 32 anos antes de contar a alguém. Mas antes de chegar lá, é preciso entender uma coisa sobre o que a seu tinha visto três meses antes.
Porque sem aquela tarde na pensão do Recife, nada do que ao seu disse naquele palco faz sentido. E sem compreender porque lhe disse aquilo mesmo depois do que ouviu, a resposta do Gonzaga vai parecer apenas uma resposta. E ela foi muito mais do que isso. O homem da pensão da Boa Vista chamava-se António Binga, nome que quase ninguém conhece.
Tinha tocado acordeão no sertão de Pernambuco desde os anos 30. tinha cruzado com Gonzaga no início da carreira, antes de rio, antes de gravação, antes de mais. Os dois tinham tocados juntos numa festa de roça em Salgueiro, em 1941, numa noite em que a quinta ardeu uma candeeiro inteiro de querosene, só para alumear o barracão onde se realizou o forró.
Binga lembrava-se de cada detalhe daquela noite. Lembrava-se do cheiro a suor e couro, da mulher que fez a canjica, do dono da quinta que tocou triângulo sem saber e ficou feliz a si próprio e lembrava-se de Gonzaga. disse ao seu que Gonzaga nessa altura tocava com uma intensidade que não era apresentação, era desespero.
Não o desespero de quem está a perder, mas o de quem sabe que há uma coisa dentro do peito que precisa de sair antes que o peito feche. Gonzaga tocava como se cada forró fosse o último, como se a seca pudesse acabar com tudo na manhã seguinte e que noite fosse o que restava de um mundo inteiro. Ao seu ouviu Binga falar durante duas horas.
E quando saiu da pensão, ficou parado na calçada da Boa Vista durante um tempo que ele próprio nunca soube dizer quanto foi, porque o que o Binga descreveu não era a imagem do Gonzaga que Alceu tinha construído dentro da cabeça. O Gonzaga, que ao seu enxergava, era uma invenção da indústria, uma embalagem de sertão para consumo urbano, uma versão domesticada do Nordeste que ficava bem na montra da Rádio Nacional.
Mas o Gonzaga, que Binga descreveu, era um homem que tocava numa festa de lavoura, sem plateia de críticos, sem editora, sem nenhuma câmara e colocava tudo o que tinha dentro daquelas notas, porque aquilo era tudo o que ele tinha. ao seu foi para o São João de Caruaru, carregando essa contradição e foi para o palco assim mesmo, porque às vezes sabemos de uma coisa com a cabeça e ainda não sabe com o corpo. Isso vai mudar.
Mas ainda não chegou a hora. Gonzaga subiu ao palco às meia-noite 10. A praça estava cheia ainda. Boa parte do povo que tinha visto ao seu ficou, porque o nome de Gonzaga no cartaz era o nome que estava no cartaz. E o nordestino que cresceu a ouvir Rádio Nacional não vai embora sem ver o rei do baião ao vivo, independentemente do que qualquer jovem artista pernambucano tenha dito em palco antes.
Entrou devagar, com o chapéu de couro na cabeça e a concertina no peito, e o povo aplaudiu antes de ele chegar ao centro do palco. Não foi uma ovação de galã, foi um aplauso de reconhecimento. tipo de aplauso que diz: “Ainda está aqui e nós também.” Gonzaga ficou parado um momento antes de começar. olhou paraa praça, olhou para o lado, para o lado, para a frente e depois disse no microfone, com aquela voz que não necessitava de amplificação para preencher qualquer espaço, ouvi um rapaz novo falar aqui mais cedo.
Falou bem o danado. Canta ainda melhor. A praça riu-se. Um riso nervoso de quem não sabia onde aquilo ia parar. Disse que o forró é coisa do passado, que prende o nordestino, que é música de sofrimento. Silêncio, tem razão em parte. Mais silêncio. Um silêncio diferente do anterior. O tipo que acontece quando ninguém sabe ao certo o que está a ouvir.
O forró é música de sofrimento. É verdade. Mas este sofrimento tem um nome, tem rosto, tem morada. Não é sofrimento abstrato de quem nunca viu a seca de perto. É o sofrimento de um povo específico que saiu de um lugar específico, que carregou uma coisa específica no peito por milhas e milhas de estrada.
E quando um povo transporta uma coisa destas no peito durante tanto tempo, a música que sai não é frescura, é necessidade. Parou, abriu a concertina. Vou tocar uma música antiga, muito velha. para quem se lembra de onde veio e começou. A asa branca. O que aconteceu na praça de Caruaru naquele momento é a parte da história que Pedro Sad des escreveu 32 anos depois numa conversa que durou 3 horas numa tarde de Outubro no Recife.
Disse que viu homens grandes com mais de 50 anos, com cara de quem não chora em público desde a infância, virarem a cara para o lado ou botarem a mão à frente do olho. de tristeza, de reconhecimento. Aquela música era a história deles. Era a saída de Pernambuco nos anos 40. Era o camião pau de Arara.
Era a mãe que ficou. Era o pai que morreu antes de voltar. Era a saudade que não passa, porque sabe que o lugar que ficou já não existe da forma que você guardou na memória. Gonzaga tocou para 1 hora e 20 minutos. Tocou a vida do viajante, tocou o Sabiá, tocou o Baião, tocou o lamento de um asa branca. E entre uma música e outra foi falando, não pregar, falar com o sotaque fechado de Exu que nunca saiu da boca, mesmo depois de décadas no Rio, com aquela mistura de humor e peso que é a maca do nordestino que aprendeu a sobreviver sem abdicar de rir. falou
de quando chegou ao Rio pela primeira vez em 1939, com a concertina numa mala de cartão e dinheiro para três dias de hotel. falou de como os músicos cariocas olhavam para ele como se fosse uma coisa do outro mundo. Falou de como a Rádio Nacional levou anos para abrir a porta e de como quando abriu, foi porque um diretor de programação ouviu baião num boteco do catete e veio a correr atrás e disse uma vez de al seu Valença.
Disse assim no meio de um silêncio entre músicas. O rapaz novo que tocou aqui antes de mim tem uma voz que o sertão deu. Pode ser que ele ainda não saiba disso, mas o sertão deu mais nada. Voltou a tocar, mas é aqui que a história vira de lado de uma forma que não viu vir. Ao seu Valença estava na praça. Tinha ficado depois da própria apresentação escondido no lado esquerdo da plateia.
perto de uma barraca de pamonha que cheirava a queijo coalho. Ouviu tudo, cada palavra. E quando Gonzaga disse aquela frase sobre a voz que o sertão deu, ao seu sentiu alguma coisa que descreveu décadas depois numa entrevista, como o chão a ceder debaixo dos pés sem cair. Ficou parado até Gonzaga terminar. Ficou parado enquanto o povo saía.
ficou parado até ao praça esvaziar quase toda e depois foi até ao camarim. Bateu à porta. A porta estava entreaberta. Gonzaga estava sentado, a concertina no colo, uma toalha no pescoço, olhando para o chão do mesmo forma como Pedro Sá tinha descrito horas antes. Levantou o olho quando Alceu entrou, não disse nada.
Alceu ficou parado à porta por um tempo que os dois nunca souberam medir. Depois disse: “Vim pedir desculpa”. Gonzaga ficou a olhar para ele. Depois fez um gesto com a mão, um gesto breve que quem conhecia sabia que significava. Pode entrar. Senta. Não precisa de pedir desculpa por coisa nenhuma. Ao seu entrou, sentou-se na cadeira de palha que estava do outro lado do espelho quebrado.
E depois os dois ficaram em silêncio por um tempo que Pedro Sá, que tinha voltado ao corredor e estava com o ouvido encostado à parede, calculou em uns 3 minutos. Três minutos de silêncio entre dois músicos pernambucanos num camarim de São João de Caruaru em 1973, com o cheiro a pólvora de foguete ainda no ar e o eco da concertina ainda dentro das paredes, quem quebrou o silêncio foi Gonzaga.
E o que ele disse é a coisa mais inesperada desta história inteira. disse assim: “Sabes que eu também pensei uma vez que estava preso?” Ao seu levantou o olho. Em 1948, antes de gravar o Asa Branca, achei que estava a repetir a mesma coisa, que não tinha mais que dizer dentro do baião, que o forró me tinha engolido e não não sobrou nada de mim que fosse meu.
Fiquei seis meses sem gravar porque achei que estava no fim. Gonzaga fez uma pausa, ajeitou a concertina no colo. Sabe o que me tirou disto? Aceu ficou quieto. Um retirante de Exu que encontrei no rio a dormir debaixo do viaduto da Lapa, homem com cerca de 40 anos, magro que o vento quase levava. Fui falar com ele porque reconhecia o sotaque. Ele não me conhecia.
Nunca tinha ouvido falar de Luís Gonzaga. Perguntei de onde vinha e ele disse o nome de uma quinta que eu conhecia desde menino. E depois começou a falar da terra da seca, de como tinha saído com uma mulher e três filhos, e chegado ao rio com menos um dos filhos, porque o menino mais novo não aguentou a viagem. Silêncio.
Fiquei uma hora ouvindo este homem falar e quando fui embora tenha ido logo para o estúdio porque Compreendi que a música que eu estava fazendo não era sobre o passado, era sobre o que estava a acontecer aquela hora, debaixo de um viaduto do Rio de Janeiro, na boca de um homem que o Brasil não via. Ao seu, ficou a olhar para Gonzaga durante muito tempo.
Depois disse uma coisa só. Eu conheci um homem no Recife que tocou consigo em Salgueiro em 1941. Gonzaga virou a cabeça lentamente. António Binga. E aqui é onde tudo muda de uma vez. Gonzaga conhecia Binga. Claro que conhecia. Mas o que disse Gonzaga sobre Binga naquele camarim é a peça que estava faltando em tudo o que ouviu até agora.
Porque António Binga não era só um velho acordeonista que tinha tocado com Gonzaga numa festa de lavoura em 1941, António Binga era o homem que tinha ensinaram a Gonzaga os primeiros acordes da concertina antes de Exu, antes de Recife, antes do Rio. era o homem que o pai de Gonzaga tinha chamado quando Luís tinha 14 anos e mostrava um jeito estranho de ficar parado em frente a qualquer instrumento de corda ou fole, olhando com uma atenção que assustava os mais velhos.
Binga tinha passado três meses na quinta da família Gonzaga ensinando o menino. Três meses em que O Luís não dormiu descansado, não comeu direito. Ficou acordado até de madrugada, tentando arrancar da concertina uma nota que tinha ouvido dentro da cabeça e não encontrava nos dedos. Quando o Binga se foi embora, o menino já sabia mais do que ele tinha ensinado.
Gonzaga nunca falou de Binga em entrevista nenhuma, nunca referiu o nome, nunca agradeceu em público. E havia um motivo para este silêncio que ao seu não conhecia, que quase ninguém conhecia, e que Gonzaga explicou naquele camarim com uma calma que só tem quem carregou uma coisa durante demasiado tempo.
Em 1952, O António Binga tinha enviado uma carta para Gonzaga no Rio, uma curta carta. Dizia que estava com dificuldade, que a acordeão tinha partido, que não tinha dinheiro para arranjar, que se Gonzaga pudesse ajudar, seria uma bênção. A carta chegou num período em que Gonzaga estava sobrecarregado, com concertos, com gravações, com a pressão da editora para produzir mais.
A carta ficou sobre uma mesa, depois ficou dentro de uma gaveta, depois foi esquecida. O Binga nunca mandou outra carta. Gonzaga ficou a saber que Binga tinha morrido em 1961, de uma informação de passagem num papo de tasco com um músico do Recife. Morreu numa pensão, a concertina partida num canto, sem que ninguém tivesse ido buscar.
Eu não respondi à carta”, disse Gonzaga para o seu naquele camarim de Caruaru. Faz 21 anos que carrego isso. O silêncio depois desta frase foi diferente de todos os outros silêncios daquela noite. Aceu ficou a olhar pro chão. Depois olhou para o Gonzaga e disse: “O Binga contou-me tudo sobre ti. cada detalhe. Falou de si como se fosse o orgulho maior da sua vida.
Gonzaga não respondeu de imediato. Ficou com os olhos baixos por um tempo. Depois assentiu com a cabeça uma vez devagar, da maneira que os velhos acenam quando recebem uma coisa que já não sabiam mais como esperar. Pedro Sá ouviu tudo isto com o ouvido na parede. Tinha 18 anos. tinha ido ao São João com uma máquina fotográfica fotográfica e saiu de lá com uma história que guardou dentro do peito por mais de três décadas, porque achava que ninguém ia acreditar.
contou pela primeira vez em 2005 numa roda de conversa sobre a história cultural de Caruaru. Um jornalista de Recife ouviu, anotou, e o relato ficou numa pasta durante mais 7 anos antes de tornar-se material de arquivo. Quando alguém foi atrás de Pedro Sá para confirmar os pormenores, tinha 82 anos, a memória intacta e uma coisa nítida nos olhos quando falava dessa noite.
Disse que quando alceu saiu do camarim, parou no corredor, ficou de costas para a parede e ficou parado assim durante um bom tempo. Depois saiu sem dizer nada a ninguém. Na manhã do dia 24, o São João de Caruaru acordou com o cheiro a milho assado e fumo de fogueira ainda no ar. Gonzaga tomou café numa padaria perto do hotel sozinho, sem que ninguém reconhecesse ou incomodasse que era coisa que gostava de fazer quando estava no interior.
Nas grandes cidades era impossível. No Nordeste existia um forma diferente de respeitar os famosos, deixando-os tranquilos quando estavam descansando. O Au apareceu na padaria às 8 da manhã. Gonzaga levantou a cabeça quando ele entrou. Não se surpreendeu. Ao seu pediu café. Sentou-se na mesma mesa e os dois ficaram um bocado a olhar para rua pelo vidro embaciado da padaria.
O comércio de Caruaru abrindo, os vendedores instalando as bancas, o barulho de caixote e de conversa gritada que é a língua das feiras nordestinas. Ao seu disse: “Quero compreender melhor o que faz, de onde vem, como funciona?” Gonzaga bebeu um gole de café. Você já sabe. O Binga contou-te. O Binga contou-me o que viu.
Eu quero ouvir de si. Gonzaga ficou a olhar paraa chávena por um tempo. Depois disse: “O baião não me veio da cabeça, veio de uma festa de casamento em Exu quando Tinha 6 anos. Um velho a tocar acordeão debaixo de um juazeiro de madrugada enquanto dormia. Eu acordei com o barulho e fui sentar-me perto dele. Fiquei a ouvir até o sol nascer.
Não sei o nome do homem. Nunca soube, mas o que ele tocou nessa madrugada, ouço até hoje. Parou. Quando toco, toco para ele, para este velho sem nome debaixo do juazeiro, para todos os que nunca teve nome em lado nenhum. Aceu ficou a olhar para ele e aí aconteceu a coisa que fechou este círculo de um forma que ninguém tinha previsto.
Ao seu, pegou num guardanapo de papel da secretária, tirou uma caneta do bolso e começou a escrever. Escreveu depressa, com a letra inclinada de quem está acompanhando um pensamento que anda mais depressa do que a mão. Escreveu por uns 3 minutos sem parar. Depois empurrou o guardanapo para Gonzaga.
Gonzaga pegou, leu, leu de novo. Leu uma terceira vez. Era o início de uma letra. Quatro linhas, sobre um velho debaixo de um juazeiro, sobre uma madrugada de Exu, sobre o som que fica dentro de nós mesmo quando o mundo tenta apagar. Pedro O Sá não estava na padaria. Soube dessa parte pela boca de Alceu Valença, 30 anos mais tarde, numa entrevista em que o músico falou sobre as influências que moldaram o que veio depois, não citou Gonzaga pelo nome naquele trecho específico, mas quem conhece a história sabe de quem ele estava a falar. Gonzaga
nunca gravou aquela letra. O guardanapo sumiu. Como desaparecem os guardanapos. Como somem as pequenas coisas que transportam o grande peso. Mas ao seu guardou que estava naquelas quatro linhas dentro de algum lugar que nenhuma entrevista alcançou completamente. O que mudou depois daquele São João não foi visível de imediato.
Não houve declaração pública, não houve qualquer abraço fotografado, não houve qualquer parceria lançada em disco. Mas quem acompanhou a percurso de Alceu Valença nos anos seguintes viu alguma coisa de diferente entrar na sua música, um peso diferente, uma raiz que não estava lá antes ou que estava e ele não deixava aparecer.
E quem acompanhou o Gonzaga viu outra coisa que nos espectáculos que fez no Nordeste nos anos seguintes começou a citar jovens músicos pernambucanos com uma generosidade que não era característica do rei do baião dos anos 50. mencionava nomes, abria espaço, fazia questão de dizer em público que o Nordeste não era só passado.
Em 1976, durante um concerto no Recife, Gonzaga parou a meio de uma música, olhou para o lado do palco e chamou ao senhor Valença pelo nome. Ao seu subiu. Os dois tocaram juntos durante 20 minutos. Nenhuma câmara registou, nenhum gravador ligou a tempo. O que ficou foi a memória de quem lá esteve. Um teatro cheio, dois músicos pernambucanos com uma história entre eles que o público não conhecia e uma música que começou no sertão e chegou até ali carregando tudo o que nunca coube em rádio nenhuma.
Há quem diga que naquela noite de 1976, Gonzaga tocou diferente. Com mais leveza, dizem uns, com mais peso, dizem outros, talvez as duas coisas ao mesmo tempo, que é o modo nordestino de ser. Leve e pesado, alegre e sofrido, perto e longe, tudo junto na mesma nota de acordeão. O que ficou desta história não é a rivalidade que nunca existiu de verdade.
Não é o escândalo que não aconteceu. O que ficou é algo mais difícil de nomear e talvez por isso dure mais. Ficou a imagem de um homem de 53 anos sentado num camarim de São João, transportando uma carta sem resposta por 21 anos, a tocar para um velho sem nome debaixo de um juazeiro que nunca vai aparecer em nenhum livro de história da música brasileira.
Ficou a imagem de um rapaz de 28 anos que foi para o palco com uma ideia e voltou com uma dúvida. E soube naquela madrugada de Caruaru que a dúvida valia mais do que a ideia. E ficou o guardanapo que desapareceu, mas ficou. Se cresceu a ouvir Gonzaga no rádio e sabe que o sertão que cantava não era só lugar, era uma coisa que se carregava no peito mesmo depois de anos morando longe, deixa nos comentários de onde estás e qual foi a primeira música dele que ouviu.
Esta história é de toda a gente que sabe o que é carregar uma terra dentro do peito sem poder voltar. Inscreva-se se carrega o sertão no peito e nunca esqueceu o que Gonzaga representou. O que acabou de ouvir não é o fim desta história. Existe outra que aconteceu longe daqui num estúdio de televisão em Itália e que envolveu um nome que não vai esperar nesta história.
Pelé estava a dar uma entrevista em 1977, quando um jornalista italiano Rio do Forró de Gonzaga, o que Pelé respondeu parou a gravação. fez o jornalista pedir desculpa em frente às câmaras e virou o tema de uma conversa nos bastidores da Rádio Nacional que ninguém deveria ter ouvido, mas que foi ouvida a si mesmo. A história completa está neste vídeo aqui.
E se já assistiu, há mais histórias como esta esperando por você aqui no canal. M.