Ele disse a Tim Maia: “Você Não Pode Pagar por este Disco Autografado” — Mas Aquela Assinatura era..

Saiu de trás do balcão, dirigiu-se a uma estante trancada com vidro que se encontrava na parede lateral, onde guardava as peças mais valiosas, e voltou com três LPS protegidos em capas plásticas especiais. Colocou em cima do balcão com cuidado. Olha aqui. Primeira prensagem do Tim Maia de 1970. Selo Polidor original. Capa sem desgaste. Vinil praticamente sem uso.

Peça raríssima neste estado de conservação. Este aqui vale R$ 3.000. O homem de boné pegou no disco, virou-se para ver a contracapa, passou o dedo pela proteção plástica, como se estivesse sentindo uma memória antiga. O Tin colocou o primeiro disco de volta ao balcão e olhou os outros dois com atenção crescente.

Um era o Tim Maia de 1971, o outro era o Racional volume 1 de 1975. Este aqui do Racional é uma das peças mais raras da minha loja”, disse Paulo com evidente orgulho. O Tim tirou de circulação logo após lançar. Pouquíssimas cópias sobreviveram em bom estado. Entre os colecionadores sérios, este disco é ouro puro. Estou a pedir R$ 6.000 e é um preço justo para o mercado.

Tin olhou para aquele disco durante mais tempo que os outros, uma expressão estranha passando-lhe pelo rosto, como se estivesse a ver um fantasma de uma vida passada. aquela capa branca, aquelas letras, aquela fase complicada que agora valia R$ 6.000 numa vitrina em Copacabana. Passou a mão devagar pela capa, respirou fundo e depois perguntou: “E disco autografado, o senhor tem algum?” Paulo sorriu.

Aquele sorriso de comerciante que sabe que tem algo verdadeiramente especial guardado. Tenho sim, mas aí o preço altera-se completamente de patamar. Disco autografado pelo Tim Maia. É raríssimo. O tipo não costumava assinar muito. Era difícil apanhá-lo disponível para tal. Quando aparece uma assinatura autêntica do mesmo no mercado, o valor dispara. Deixa-me buscar aqui.

Paulo dirigiu-se ao pequeno cofre que ficava no escritório nas traseiras da loja, introduziu a palavra-passe com cuidado e voltou segurando um disco como se fosse uma peça de museu. Colocou em cima do balcão com absoluta reverência. Este aqui é o Tim Maia de 73. Capa original em perfeito estado e o mais importante, autógrafo original do próprio Tim.

Bem aqui à frente tem o certificado de autenticidade de grafotécnico, relatório técnico completo, comprovando. É uma das peças mais valiosas de toda a loja. R$ 10.000 e este preço não é negociável. Tim pegou no disco devagar, ainda dentro da proteção plástica, e virou a capa para o lado onde estava a assinatura.

ficou ali parado, a olhar para aquilo em completo silêncio durante quase 10 segundos. A assinatura estava meio torta, feita com caneta azul, meio apressada,  exatamente da forma que ele se lembrava de fazer quando alguém pedia um autógrafo nos bastidores depois dos concertos. Até reconheceu os pormenores, aquele T meio caído para o lado, o M desproporcionalmente grande.

Devia ter sido em algum camarinado. Depois de cantar duas horas seguidas, alguém tinha enfiado aquele disco na frente dele e ele tinha rabiscado o nome sem sequer olhar direito para prestar a pessoa. E agora aquilo estava ali protegido em plástico especial, com certificado assinado por um especialista, confirmando que era autêntico, sendo vendido por R$ 10.000.

Tim quase se riu, mas conseguiu aguentar. levantou os olhos para Paulo, a voz saindo calma, mas com uma pontinha de ironia. R$ 10.000 R$ 1000 por um autógrafo. É um bom preço, de facto. Paulo não percebeu a ironia, pensou que era a admiração. Pois é, o mercado de autógrafos do Tim Maia está cada vez mais aquecido.

Este disco aqui vai valorizar ainda mais com o tempo. É um excelente investimento. O Tin colocou o disco de volta ao balcão e ficou ali parado, olhando para os três discos, pensativo, como se estivesse a decidir algo importante. Paulo esperava ansioso, mas tentando não demonstrar, querendo saber se o gajo ia mesmo comprar ou se tinha sido apenas curiosidade.

Deixa o padre, mexa pensar aqui. Tin disse finalmente. São peças mesmo caras, não é decisão que se toma de qualquer maneira, certo? Paulo sentiu uma ligeira irritação crescendo, já imaginando que aquilo ia terminar sem venda nenhuma, que o gajo tinha-o feito perder tempo a tirar os discos do cofre, mostrando as peças mais valiosas, só para no final não comprar nada.

Olha, disse o Paulo, tentando não suar grosseiro, mas deixando claro, estas peças são para colecionadores sérios que conhecem o valor das mesmas. Se o senhor não está preparado para investir nestes valores, talvez seja melhor procurar noutro lugar. Tem lojas mais simples que vendem discos mais acessíveis. Tin olhou para Paulo por cima dos óculos escuros e pela primeira vez desde que tinha entrado na loja, um pequeno sorriso apareceu no canto da boca dele.

Foi nesse preciso momento que a porta da loja abriu-se fazendo o sininho tocar. E entrou uma mulher de cerca de 60 anos, bem vestida, mala de couro legítimo no ombro, cabelo grisalho, apanhado num elegante coque. Paulo reconheceu-a imediatamente e o seu rosto mudou completamente, esboçando um sorriso largo e solícito.

Dona Marisa, que bom ver-te. Entre, entre. Era a Marisa Tavares, uma das clientes mais antigas e fiéis da Discos Ros, viúva de um produtor musical que tinha trabalhado com grandes nomes da MPB nos anos 70 e 80. Ela vinha pelo menos uma vez por mês, sempre educada, sempre a comprar alguma peça rara, pagando sempre a pronto sem pestanejar.

O Paulo começou a falar sobre o disco de João Gilberto, que ela tinha pedido na semana anterior, mas percebeu então que Marisa tinha parado no meio da loja. Ela estava a olhar fixamente para o homem de boné que estava ao balcão, a boca entreaberta, os olhos arregalados. Tin sentiu o olhar dela e virou a cabeça. A Marisa piscou devagar.

Um sorriso pequenino apareceu-lhe no canto da boca, mas ela não disse nada. desviou o olhar, caminhou calmamente até à sessão de bossa nova do outro lado da loja e começou a mexer nos discos como se estivesse à procura de algo específico. O Paulo achou aquilo estranho porque A Marisa normalmente vinha diretamente falar com ele, mas imaginou que ela só estava dando uma vista de olhos antes.

Voltou a atenção para o homem de boné, que tinha apanhado o disco dos Racional outra vez e estava olhando para a capa branca com uma expressão pensativa. Do outro lado da loja, Marisa fingia examinar um disco de Tom Jobim, mas os olhos dela voltavam discretamente para o balcão. A cada poucos segundos. Ela tinha reconhecido Tim Maia no instante em que entrou,  mesmo com o boné e os óculos escuros, porque tinha trabalhado anos na indústria musical e conhecido ele pessoalmente algumas vezes.

E estava a adorar ver Paulo sem a mínima noção de quem estava à frente dele. Paulo estava prestes a perguntar de novo se o homem ia comprar algum disco quando a porta da loja se abriu mais uma vez. E desta vez quem entrou foi um homem com cerca de 50 anos, fato cinzento bem cortado, gravata afrouxada, pasta de couro na mão, relógio que brilhava no pulso.

Esse sim era o perfil exato de cliente que Paulo adorava receber e o seu rosto estava iluminou imediatamente. Boa tarde, Dr. Ricardo. Que prazer o homem entrou sorrindo. cumprimentou Paulo com um aceno, mas depois os seus olhos caíram sobre a figura de boné e óculos escuros que estava ao balcão.

Ele congelou no meio do caminho, a pasta quase escorregou da mão dele, a boca abriu-se, os olhos arregalaram-se e então ele falou, a voz saindo num misto de choque e excitação. Não acredito. Tu és o Tim Maia. O disco de Elis Regina continuava a tocar baixinho no aparelho de som, mas dentro da loja tinha caído um silêncio pesado.

Paulo ficou completamente paralisado. A caneta parada no ar, o cérebro a tentar processar o que tinha acabado de ouvir. Tin Maia. O homem de boné era o Tim Maia. O próprio Tim Maia estava ali na loja dele há 15 minutos e não tinha reconhecido. Tinha-o tratado com desconfiança. Tinha insinuado que ele não tinha dinheiro para comprar os discos, tinha sugerido que procurasse uma loja mais barata.

O sangue subiu para o rosto de Paulo com tanta força que sentiu as orelhas queimarem. Tin tirou os óculos escuros lentamente, colocou eles pendurados na camisa, depois tirou o boné e deixou aparecer o cabelo. olhou para o homem de fato e sorriu. Tudo certo aí? Ricardo largou a pasta em cima de uma prateleira e veio caminhando rápido até ao balcão, estendendo a mão com genuína excitação.

Maia, pá, que honra. O meu pai tocava os seus discos todo fim de semana quando era criança. Azul da cor do mar, primavera. Essas as músicas fizeram parte da minha vida inteira. Tinha apertou-lhe a mão com firmeza. Valeu, pá. Fico feliz. Ricardo virou-se para Paulo com uma expressão de surpresa. Paulo, sabia que o Tim Maia estava aqui e não me avisou? Paulo abriu a boca, mas nenhum som saiu.

A garganta seca conseguiu falar depois de alguns segundos a voz fraca e trémula. Eu não sabia, o Dr. Ricardo. Eu não tinha reconhecido. Ricardo olhou para Tim Boné na mão,  depois para Paulo com aquele rosto vermelho de vergonha e percebeu tudo. Um sorriso começou a aparecer no rosto dele. Entendi. Você não o reconheceu.

Paulo finalmente conseguiu mexer-se. Saiu de trás do balcão com as pernas a tremer, o rosto ainda vermelho de vergonha. Senhor Tim Maia, preciso de pedir desculpa. Eu não reconheci o senhor e a forma como eu tratei foi completamente desadequado. Eu insinuei que o senhor não tinha condições de comprar os discos. Sugeri que procurasse uma loja mais barata.

A voz dele estava a quebrar e dava para ver que a vergonha era genuína. Tim voltou a colocar o boné na cabeça, ajeitou os óculos escuros pendurados na camisa e olhou para Paulo sem raiva, mas com aquela seriedade cansada de quem já viu aquilo acontecer muitas vezes antes. Relaxa, não foste desrespeitoso, tu foi honesto.

Viu um tipo de boné e óculos a entrar aqui e pensou que eu não tinha dinheiro para comprar disco caro? É isso, não é? Paulo engoliu em seco e não conseguiu mentir. Pois, foi exatamente isso que pensei. Eu admito. A Marisa se aproximou-se do balcão nesse momento, ainda com aquele sorriso discreto no rosto, e olhou para o verdadeiro Timpe. Senr.

Tim Maia. Eu reconheci o senhor assim que entrei, mas achei melhor ficar quieta e ver como as coisas se iam desenrolar. Tin olhou para ela e riu, uma gargalhada baixa e rouca. Eu vi que me reconheceu. Estava à espera para ver o que ia fazer. A Marisa balançou a cabeça. Trabalhei muitos anos com música, Senr. Tim.

Em 1982, ajudei a organizar uma proposta de patrocínio para uma digressão sua. Não sei se o senhor se recorda, o Tim pensou por um segundo. Não me lembro, não, mas naquela altura nem me lembrava do que tinha feito no dia anterior, pelo que não é surpresa. A Marisa sorriu com compreensão. Eu imagino.

Foram anos difíceis para muita gente na indústria. O Tin pegou no disco autografado de novo, olhou para aquela assinatura torta por mais uns segundos. Depois olhou para os outros dois discos em cima do balcão. Sabe o que é engraçado nisto tudo? Eu vim aqui sem querer ser reconhecido. Queria só olhar uns discos em paz, recordar umas coisas, mas acabou por se tornar uma lição para todos, inclusive para mim.

Ele apontou para o disco autografado. R$ 10.000 R$ 1000 pela minha própria assinatura que rabisquei sem sequer olhar direito para algum camarim suado. Agora tem certificado de autenticidade. Relatório técnico está guardado num cofre. Virou-se para Paulo. Eu vou levar os três. Paulo arregalou os olhos. Os três, senhor Tim Maia.

Tim acenou com a cabeça. Os três. O de 70, o de 71 e este aqui autografado. Quanto fica no total? O Paulo pegou na calculadora com as mãos ainda tremendo ligeiramente e fez as contas. 3.000 + 6.000 + 10.000 dá R$ 19.000 no total. Tin tirou a carteira do bolso de trás das calças, uma carteira de couro gasto que já tinha visto dias melhores e começou a contar notas de 100.

Paulo observa em silêncio enquanto Tin separava o dinheiro calmamente, sem pressa. Ricardo, que tinha ficado quieto todo este tempo, só observando a cena, abanou a cabeça admirado. Tin, posso fazer-te uma pergunta? Por que razão está comprando o disco com o seu próprio autógrafo? O Tim deixou de contar as notas por um segundo, olhou para o disco e deu aquele sorriso cansado dele.

Porque eu quero lembrar-me de quando eu era aquele gajo que assinava disco sem sequer olhar para a pessoa. Quero ter isso em casa para não me esquecer de onde vim. Voltou a contar as notas e colocou 19.000$ em cima do balcão. O Paulo pegou no dinheiro, verificou e depois começou a embalar os três discos com extremo cuidado, cada um em papel bolha.

cada um em saco separada. Enquanto o fazia, falou sem levantar os olhos. Senhor Tim Maia, eu aprendi algo hoje que vou carregar pelo resto da minha vida. Eu julguei o Senhor pela roupa que estava a usar, pelo jeito que entrou aqui e quase perdi a venda mais importante da minha carreira. Mas mais do que isso, quase perdi a oportunidade de conhecer alguém que admiro há décadas.

Só porque achei que sabia quem merecia o meu respeito e quem não merecia. entregou os sacos a Tim. Muito obrigado pela lição, de verdade. Tim pegou nos sacos, pesou-os na mão, olhou Paulo nos olhos. A lição não é só tua, não, é minha também. Eu vim aqui de propósito, sem querer ser reconhecido para ver como as pessoas me tratariam.

E descobri que quando as as pessoas não sabem quem eu sou, elas mostram quem elas realmente são. Isso vale mais do que qualquer disco autografado. Virou-se para sair, acenou para a Marisa e para o Ricardo. Valeu pela companhia, gente. Foi uma tarde interessante e saiu da loja carregando três discos de Tim Maia, incluindo um com a própria assinatura, que agora valia R$ 10.

000 no mercado de colecionadores, mas para ele valia apenas uma recordação de quem ele costumava ser. Se gostou desta história de Tim Maia, deixa o teu like aqui em baixo, subscreve o canal e ativa o sininho para não perder os próximos vídeos. E conta aqui nos comentários se já passou por alguma situação semelhante onde alguém te julgou pela aparência sem saber quem se realmente era. Ne.

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