O futebol é frequentemente pródigo em narrativas de superação dramática, mas muito poucas histórias na longa e rica cronologia do desporto mundial conseguem igualar o nível de intensidade, a tensão asfixiante e a glória absoluta da campanha da Seleção Brasileira no Campeonato do Mundo de 2002. Se, nos dias de hoje, olhamos retrospetivamente para essa equipa monumental e vemos uma constelação inigualável de estrelas a brilhar em perfeita harmonia, a crua verdade dos factos, nos tortuosos quatro anos que antecederam o emblemático torneio na Coreia do Sul e no Japão, desenha um quadro de autêntico terror desportivo. Como é que uma nação colossal que respira e vive para o futebol, profundamente afundada num ciclo interminável de vexames públicos, trocas compulsivas de treinadores e uma escassez gritante de confiança, conseguiu reerguer-se das cinzas para assinar a única campanha com sete vitórias em sete jogos na história da prestigiada competição? A arrepiante viagem do Brasil rumo ao tão ambicionado e cobiçado “Penta” é uma verdadeira epopeia moderna sobre o triunfo inabalável da resiliência, da fé cega no talento e da união inquebrável de um grupo sobre a adversidade extrema.
A semente profunda da dúvida foi dolorosamente plantada no dia doze de julho de 1998, sob as luzes intensas do Stade de France. O Brasil, que entrava em campo como o todo-poderoso detentor do título, sofreu uma pesada e traumática derrota por três bolas a zero contra a aguerrida nação anfitriã, a França, liderada pela elegância letal de Zinedine Zidane. O episódio sombrio, nebuloso e ainda hoje debatido em redor da alegada convulsão de Ronaldo Nazário nas horas cruciais que antecederam a partida, lançou uma densa nuvem negra sobre toda a estrutura da equipa, e a outrora inquestionável aura de invencibilidade desfez-se em mil pedaços no relvado de Paris. Mário Zagallo não resistiu ao vendaval, e nos quatro anos seguintes que se seguiram a esse trauma, a Confederação Brasileira de Futebol mergulhou de cabeça numa espiral vertiginosa de caos organizacional e experimentalismo tático. Durante esse período turbulento, foram testados nada menos do que cento e nove jogadores diferentes, sob a batuta instável de três treinadores completamente distintos nas suas abordagens metodológicas.
O primeiro a assumir o imenso risco e a tentar domar a fera ferida foi Vanderlei Luxemburgo, à data considerado unanimemente o técnico mais moderno, arrojado e vitorioso a nível de clubes no panorama interno do Brasil. Numa fase inicial, Luxemburgo ainda saboreou um sucesso promissor com a conquista avassaladora da Copa América no Paraguai em 1999, um torneio vertiginoso que apresentou de forma oficial ao mundo o sorriso rasgado, os pés rápidos e a pura magia de um jovem irreverente chamado Ronaldinho Gaúcho. Contudo, esse brilho internacional revelou-se cruelmente efémero e ilusório. As eliminatórias sul-americanas para o Mundial revelaram-se um autêntico calvário recheado de humilhações impensáveis. O Brasil averbou resultados medíocres, exibindo um futebol pobre e incapaz de impor respeito perante adversários tradicionalmente mais fracos. O desespero coletivo da nação atingiu proporções altamente alarmantes quando a equipa olímpica de futebol, recheada de jovens estrelas promissoras e destacada como a grande favorita à medalha de ouro nos Jogos de Sidney em 2000, foi eliminada de forma quase amadora pelos Camarões. O cenário foi ainda mais chocante porque os africanos jogavam com apenas nove elementos em campo, mas conseguiram encontrar forças para marcar e beneficiar da agora extinta regra do golo de ouro, deitando por terra o sonho sul-americano.
A humilhação ditou o fim da linha para Luxemburgo. O cargo foi então entregue a Emerson Leão, num aparente retrocesso face à tão propalada modernização. A peculiar filosofia do antigo e combativo guarda-redes focou-se estritamente em jogadores que militavam no duro campeonato interno, originando convocações surreais e decisões diretivas altamente questionáveis, como a infame entrega da pesada braçadeira de capitão a Leomar, um jogador de perfil extremamente modesto no Sport Recife que, de certa forma, espelhava com perfeição a confusão e desnorte reinante na principal seleção do país. Sob o comando ríspido de Leão, o Brasil somou ainda mais desgostos difíceis de digerir, culminando na pífia e desastrosa participação na Copa das Confederações de 2001, o que forçou a sua consequente e caricata demissão ainda na zona de embarque do aeroporto japonês.
A escassos meses do apito inicial no continente asiático, assumir o cargo de selecionador brasileiro era o equivalente desportivo a sentar-se voluntariamente numa cadeira elétrica de alta voltagem. Foi precisamente neste ambiente tóxico de terra queimada que emergiu a figura paterna, psicologicamente fortíssima e inegavelmente pragmática de Luiz Felipe Scolari. O carismático “Felipão”, um afamado especialista em erguer troféus importantes em cenários altamente adversos e de enorme pressão no Brasil, assumiu os comandos sem hesitações. O seu batismo de fogo, no entanto, esteve longe de ser um conto de fadas, sofrendo uma derrota verdadeiramente chocante e historicamente pesada contra a seleção das Honduras nos quartos de final da Copa América de 2001. A dúvida instalou-se na imprensa desportiva e nas ruas de forma aterrorizadora: estaria o Brasil prestes a cometer o pecado capital de falhar a qualificação para um Mundial pela primeira vez na sua vasta história? O alívio chegou a muito custo, já sem rede de segurança, com uma vitória crucial, sustentada pelos golos de Luizão sobre a Venezuela, garantindo a qualificação com uma margem mínima e assustadora de apenas três pontos sobre a linha fatal de eliminação.
Com os preciosos passaportes finalmente carimbados para o Oriente, Scolari tomou decisões drásticas que abalaram as fundações da nação. A mais ruidosa e controversa foi a exclusão intencional e definitiva do incontornável ídolo Romário, outrora o grande salvador da pátria, privilegiando a coesão cega do grupo em detrimento do brilhantismo individual indomável e muitas vezes rebelde do experiente avançado. Em contrapartida direta, Felipão fez aquela que seria, de forma indiscutível, a aposta mais arriscada e divinal de toda a sua longa carreira: convocou Ronaldo Nazário para liderar a linha avançada. O “Fenômeno” provinha das trevas desportivas, registando quase duas épocas completas de inatividade dolorosa após sofrer duas cirurgias destrutivas e assustadoras ao seu joelho direito. Os especialistas médicos globais e a esmagadora maioria da imprensa duvidavam seriamente da sua capacidade fisiológica para aguentar o ritmo frenético de um torneio de tal magnitude. Contudo, a confiança férrea e cega do treinador moldou aquele que viria a ser o núcleo duro e impenetrável da chamada “Família Scolari”. Formou-se uma equipa psicologicamente blindada contra o ruído nocivo externo, fechada sobre si mesma e movida por um objetivo comum e inquebrável: calar os críticos impiedosos e provar que o mundo inteiro estava redondamente enganado.
Quando a bola oficial finalmente rolou na Ásia, as expectativas eram ansiosas mas contidas. O primeiro embate, frente a uma aguerrida seleção da Turquia, quase confirmou os piores receios de um novo colapso quando os turcos se adiantaram audaciosamente no marcador à beira do intervalo. Contudo, a resposta na segunda parte revelou a verdadeira alma resiliente desta nova seleção. Ronaldo, parecendo libertar-se das amarras do passado, respondeu a um cruzamento primoroso de Rivaldo e atirou-se no ar para apontar um golo de redenção. O próprio Rivaldo, momentos mais tarde, e na sequência de uma grande penalidade artisticamente sofrida por Luizão num lance envolto em polémica, selou a reviravolta dramática com enorme frieza. Estava dado o mote vitorioso. O Brasil despachou de seguida a seleção da China por uns contundentes quatro a zero, com Roberto Carlos a assinar um remate brutal na cobrança de um livre direto, e encerrou a fase de grupos num jogo ofensivamente louco contra a Costa Rica, vencendo por uns expressivos cinco a dois. A fase inicial fechava com um registo categórico e perfeito de cem por cento de aproveitamento, dissipando paulatinamente o outrora medonho fantasma que ensombrou a campanha de qualificação.

No entanto, as verdadeiras provações e os testes de fogo mais duros estavam criteriosamente reservados para a impiedosa fase a eliminar. Logo nos oitavos de final, a modesta mas incrivelmente bem organizada Bélgica impôs um sufoco tremendo. O guarda-redes Marcos, que se afirmaria como uma figura de contornos colossais ao longo de toda a prova, foi forçado a multiplicar-se em defesas voadoras de altíssimo nível, e os alicerces do Brasil chegaram mesmo a tremer quando um golo belga foi anulado numa decisão arbitral extremamente controversa e questionada em toda a Europa. A salvação verde e amarela surgiu da magia mais pura e refinada: Rivaldo dominou a bola no peito à entrada da grande área, girou o corpo com uma graciosidade e potência irrepreensíveis, e disparou um remate rasteiro indefensável que quebrou em definitivo a barreira psicológica europeia. O letal Ronaldo tratou de encerrar o marcador nos minutos finais, carimbando o precioso acesso para os quartos de final.
Nesta fase crítica, aguardava-os a temível e formidável Inglaterra. O intenso embate com os britânicos foi o autêntico palco dourado para a glória imortal de Ronaldinho Gaúcho. A Inglaterra adiantou-se precocemente no marcador na sequência de um raro e comprometedor deslize técnico do defesa central Lúcio. A resposta enérgica e imediata da canarinha foi meticulosamente orquestrada pelo número onze. Numa impressionante e demolidora arrancada mesmo a fechar o primeiro tempo, Ronaldinho destruiu o rigor da defesa inglesa com fintas sucessivas e serviu Rivaldo com precisão matemática, que faturou sem apelo nem agravo. Mas a verdadeira pintura lendária estava guardada para o segundo tempo. Numa cobrança de um livre bastante descaído na ala direita, a uma distância que não indicava perigo iminente de finalização direta, o jovem prodígio aplicou uma tática ardilosa. Desenhando no ar uma parábola sublime e inesperada, a bola sobrevoou o atónito guarda-redes David Seaman e aninhou-se fatalmente no ângulo superior da baliza. Foi um golpe de audácia genial. Mesmo sendo forçado a recuar e jogar em franca inferioridade numérica durante a reta final da partida, devido à expulsão de Ronaldinho, o bloco tático brasileiro anulou por completo o adversário, consolidando a vitória liderada pelo incansável pulmão do meio-campo, o improvável herói Cléberson.
As exigentes meias-finais desenharam no horizonte um reencontro de nervos em franja com a surpreendente seleção da Turquia. As insistentes suspeitas da imprensa acerca da frágil condição física de Ronaldo atingiam o rubro na véspera do duelo. Perante esta pressão insuportável, o avançado brasileiro teve um rasgo de genialidade mediática brilhante: para desviar o intenso foco e debate tático sobre os eventuais limites do seu joelho fragilizado, surgiu subitamente no relvado do treino a ostentar um bizarro, extravagante e agora para sempre icónico corte de cabelo à moda do “Cascão”. O efeito funcionou na perfeição, mas o jogo revelou-se um autêntico inferno de tensão, com o guardião turco a parecer transformar-se numa colossal parede intransponível de betão. A resistente teia defensiva foi desfeita, mais uma vez, pelo génio inato do “Fenômeno”. Cerceado e asfixiado por vários oponentes, sem o menor ângulo de remate convencional, Ronaldo buscou inspiração nas mais puras raízes do futsal brasileiro e efetuou um repentino remate rasteiro “de bico”. A bola partiu com uma violência imprevisível e uma trajetória letal que traiu por completo os reflexos do ágil Rüştü. Este momento singular de verdadeira criatividade tática abriu de par em par as cobiçadas portas do grande palco final.

E foi assim que, no memorável dia trinta de junho de 2002, perante uma imponente multidão de setenta mil fiéis espetadores no icónico Estádio Internacional de Yokohama, o Brasil pisou o relvado para defrontar a pragmática e letal Alemanha. O duelo personificava o clássico choque de titãs: a solidez gélida da melhor defesa do torneio a confrontar o instinto matador do ataque mais fulminante da prova. O muro defensivo alemão era majestosamente erguido por Oliver Kahn, guarda-redes que estava num pico de forma desumano e era reconhecido de forma unânime como o melhor praticante da sua posição à face do globo. O desenrolar do jogo confirmou as previsões táticas: foi um embate duríssimo e taticamente fechado, com ambas as formações a acertarem no ferro das balizas, demonstrando a incerteza e a paridade de forças a cada ataque desenhado.
Contudo, a imortalidade desportiva exige sempre um erro, uma brecha pela qual os heróis possam entrar. E essa redenção brasileira desenhou-se nos traços da mais irónica justiça poética. Aos vinte e um minutos do vertiginoso segundo tempo, Ronaldo protagonizou uma vigorosa e insistente recuperação de bola a meio campo, servindo Rivaldo no corredor central. O talentoso camisola dez preparou a mira e desferiu um potente disparo de meia distância, uma bola forte mas aparentemente controlável para os gigantes braços do temido capitão alemão. Todavia, num fugaz momento que muitas vezes demarca impiedosamente o limite frágil entre a divindade e a humanidade terrena, Oliver Kahn comete o impensável e deixa a esfera quente de couro escorregar, falhando escandalosamente o encaixe perfeito. Quem estava a acompanhar incansavelmente o lance? Exatamente aquele avançado que meses antes fora declarado fisicamente obsoleto por inumeráveis peritos de medicina desportiva de elite. Ronaldo mergulhou sobre o ressalto precioso e, com extrema eficácia, escorou a bola suavemente para o fundo da baliza deserta. Dez minutos depois, sentenciando o destino do troféu numa fluida jogada que irradiava talento em estado puro orquestrada pelo irrequieto Cléberson na direita, Rivaldo teve um reflexo de mestre absolto, efetuando uma irrepreensível simulação sem sequer tocar na bola. Este brilhante corta-luz baralhou toda a coesão do setor mais recuado da Alemanha e concedeu o pequeno, mas valioso, espaço vital para que o “Fenômeno” dominasse e atirasse letalmente e de primeira com o pé direito, fixando o resultado. O placard de dois a zero estava cravado na história. Com o soçobrar do apito final do árbitro, confirmava-se oficialmente a lenda resplandecente: o Brasil subia ao Olimpo do desporto como o indiscutível pentacampeão mundial, terminando o percurso asiático e reescrevendo totalmente o guião do futebol planetário ao conseguir uma odisseia de sete imponentes vitórias alcançadas em outras tantas partidas, um marco estatístico estonteante que permanece insuperável na gloriosa história dos Mundiais.
A longa e dolorosa odisseia do Brasil entre mil novecentos e noventa e oito e dois mil e dois subsiste, até à exaustão e memória dos dias contemporâneos, como o testemunho definitivo e inquestionável de que a mais bela e pura das grandezas desportivas nunca é forjada e construída em percursos assépticos e perfeitos ou recheados com confortáveis vitórias fáceis em jogos particulares. Pelo contrário, ela exprime-se majestosamente através da invulgar capacidade emocional e sobre-humana de uma estrutura coesa para emergir com determinação e dignidade dos confins do absoluto caos interno; na imensa resistência em sacudir valentemente a poeira tóxica depositada pelas críticas cruéis e diárias, e pelo facto incontestável de conseguir amordaçar um planeta sedento de fracasso apenas empunhando o brilhantismo puro de uma camisola icónica e banhando-se no próprio suor até ao último pingo de energia. Hoje, enquanto as gerações renovadas do futebol brasileiro navegam impetuosamente por tormentas de fracos resultados e questionáveis ciclos de liderança desportiva, tentando incessantemente decifrar, de novo, a complexa chave do sucesso rumo a uma hipotética e redentora caminhada em dois mil e vinte e seis para o ambicionado hexacampeonato, a imagem resplandecente e indelével da formidável “Família Scolari” continua orgulhosamente lá. Ela permanece altiva no horizonte, funcionando como o farol eterno e luminoso a projetar a única verdade absolutamente insubstituível que deve reger quem veste amarelo e verde: a constatação irrefutável de que, no apaixonante universo da bola que saltita nos relvados mundiais, os mais importantes e gloriosos capítulos do livro da história não estão de forma alguma pre-destinados de forma exclusiva àqueles que misteriosamente não falham. Esses imortais capítulos dourados estão inteira e amorosamente reservados àqueles valentes guerreiros desportistas que, exatamente quando mergulhados no centro opressivo e asfixiante do mais obscuro abismo coletivo perante uma montanha que se avizinhava inescalável, decidem levantar a cabeça e determinar com firmeza, em campo, que a derrota atroz nunca, mas nunca, será o doloroso veredicto ou o destino inevitável que lhes ditará a palavra final.