MANÉ GARRINCHA “ANJO DE PERNAS TORTAS”: ESSA MULHER ACABOU COM A VIDA DELE

Garrincha driblou três soviéticos em 3 minutos na Suécia em 1958. Venceu a Taça do Chile sozinho em 62 depois de o Pel se ter lesionado. Maradona, anos depois, ia chamar-lhe mestre do ponta direita mundial. morreu sozinho num hospital público de subúrbio aos 49 anos, sem um tostão no bolso, sem família ao lado, com um enfermeiro novato de 23 anos a perguntar a recepcionista quem era aquele doente  magro de pernas tortas que tinha entrado morto no corredor às 4h47 da manhã.

 A versão oficial saiu no jornal do dia seguinte. Cirruse hepática, bebida. 30 anos de cachaça  acabaram com o fígado do maior driblador da história. O Brasil chorou, o Maracanã encheu-se no velório e o Brasil acreditou durante quatro  décadas que o Mané tinha morrido de bebida. Mas há uma pessoa que sabe a verdade.

 E essa pessoa é uma mulher. Uma mulher que entrou na  vida do Mané. num programa televisivo da TV Tupi em Agosto  de 1962, com 25 anos, cabelo preto, voz rouca, vestido escuro, decotado. Em três semanas estava a viver com ele em Copacabana. Em 7 anos ia perder a própria mãe dentro do carro que o Mané conduzia embriagado na BR101.

 e a ver em primeira fila a queda do maior craque que o Brasil já produziu. Mas essa mulher no final deste vídeo não vai ser quem está a pensar. Fica até ao final porque vai descobrir quem foi de verdade esta mulher que acabou com a vida do Mané. vai perceber o que aconteceu nos 8 minutos em que ele  ficou sentado sozinho numa pedra da berma da BR101 abril de 1969, com a sogra morta dentro do carro destruído atrás dele.

 E o mais perturbador vai escutar as cinco palavras que Naer Marquez sussurrou no leito de morte em Maio de 1991. Cinco palavras que uma das filhas anotou num pedaço de papel guardado dentro de uma lata de bolachas e que ninguém na família tinha a coragem de repetir até hoje. Para compreender por Manuel Francisco dos Santos morreu sozinho num corredor de hospital, depois de ter sido bicampeão do mundo, precisamos recuar 50 anos para uma aldeia de tear chamada Pau Grande, para um pai operário bêbado chamado Amaro e para uma

menina de 5 anos vizinha de cerca, que ia ser a única pessoa no mundo, que escreveu numa caderneta de capa preta todos os crimes que cometeram contra o Mané enquanto aplaudia. Pau Grande não era a cidade, era um pedaço de aldeia colado numa fábrica têxtil chamada América Fabril, no município de Magé, hora e meia de comboio do centro do rio.

 Os os homens iam para a fábrica de manhã, as as mulheres lavavam tecido nos tanques do quintal. Os filhos esperavam dar idade para entrar lá dentro  também. Era um destino que ninguém questionava em pau grande. Manuel Francisco dos Santos nasceu a 28 de outubro de 1933, quinto de oito irmãos.

 Quando o médico de Magé olhou para as pernas do recém-nascido, demorou a dizer alguma coisa. A perna esquerda era 6 cm mais curta que a direita. As duas claques, uma para dentro, a outra para fora. O médico avisou a mãe: “Maria Caetana, este menino provavelmente não vai andar nunca. Se andar, vai arrastar a perna. E atenção agora, porque a cena que vem a seguir é a que explica tudo.

 Anota lá, porque isto aqui não se pode esquecer. Inverno de 1940, pau grande, quintal em terra batida atrás de uma casa de chapa. O Manuel tem 7 anos, está descalço, tem frio. Pede água pró pai. Amaro, sentado na cadeira de palha com a garrafa de aguardente ao lado, pega no copo de barro do menino, enche-o pela metade com aguardente da garrafa e estende ao filho.

 Toma, aquece, o menino bebe. Tosce, ri-se, volta a pedir. Era a primeira vez, iam  ser muitas mais. Este copo de barro oferecido por um pai operário embriagado a um filho de 7 anos num quintal de inverno de pau grande foi a primeira página do contrato que o Mané ia assinar com a cachaça durante os 42 anos seguintes da vida dele.

Elza Soares e Garrincha - 01/12/2018 - Fotografia - Fotografia - Folha de S.Paulo

 Não foi a Elsa Soares que viciou o Mané. Não foi o Botafogo, não foi o ouro fácil dos contratos. Foi um pai  cansado num quintal de inverno oferecendo um copo de barro para um menino que só queria água. Mas tem outra coisa que aconteceu nesse mesmo quintal, nesse mesmo inverno. Uma coisa que ninguém na biografia oficial do Manuel nunca escreveu.

 Atrás da cerca de bambu, que separava o quintal dos dos Santos do quintal da casa do lado, estava uma menina de 5 anos olhando. Cabelo escuro penteado em duas tranças, vestido de algodão remendado, pés descalços iguais. aos do Manuel. Esta menina  viu tudo. Viu o amar o encher o copo, viu o Manuel beber, viu o Manuel a torcer e a rir.

 E viu, aos 5 anos de idade o futuro completo daquele miúdo de pernas tortas, que ia ser o seu marido 14 anos depois. O nome dela  era a Naire Marques. A Nire ia ser a primeira pessoa do mundo que percebeu o que estava a acontecer com o Mané e ia ser a última também. Maria Caetana descobriu meses depois que o filho bebia escondido.

Viu o Manuel atrás do galinheiro com uma garrafinha pequena. Bateu no Manuel, bateu no Amaro. O Amaro riu-se e disse: “Deixa o menino.” Isso é coisa de homem.  A Maria compreendeu naquele dia uma coisa que ia carregar até morrer. O marido dela já tinha entregue o filho ao mesmo demónio que estava a acabar com ele.

Amaro era o operário. Amaro regressava da fábrica  com o passo pesado e sentava-se na cadeira de palha com a garrafa ao lado. Os filhos olhavam. A Nair do outro lado da vedação também olhava. e aprendia. A escola era na própria aldeia, dentro do terreno da América Fabril. Manuel foi até à segunda série e parou.

 Confundia letras, juntava sílabas erradas, esquecia as palavras na semana seguinte. As outras crianças chamavam-lhe Mané, apelido pesado, que naquele Brasil queria dizer parvo, bocó, gente sem juízo. O Manuel não ligava. O Manuel ria. Aer,  no banco da frente da mesma sala, anotava no caderno tudo o que não conseguia anotar.

 passava as respostas  escondidas debaixo da carteira para ele. Aos 12 anos, Manuel já era titular do equipa amadora da vila, o Paulo Grande Desporto Clube. Aos 15, conheceu pela primeira vez a Nair a olhar diretamente para -o no portão da escola. Trocaram cumprimento de cabeça. Ele continuou  andar sem dizer nada.

 Aos 17, em 1950, tornou-se operário da própria América Fabril na  sessão de tecelagem. Entrou na fábrica como o pai, como os irmãos, como todos os homens de Pau Grande. Era para ser assim. Era o destino que estava escrito desde o nascimento, mas faltavam trs anos para um tipo chamado Arati, antigo avançado do Botafogo,  aparecer numa peneira da aldeia e mudar tudo.

 Faltavam 3 anos para um segundo homem aparecer atrás do Arati no fim daquele teste, sem credencial nenhuma, oferecendo boleia até ao trem da Leopoldina e perguntando se o Mané sabia escrever o seu próprio nome. E faltavam 3 anos para Nair Márquez, de 21 anos, deixar de ser a vizinha de cerca para virar a esposa.

 E aqui entra o detalhe  que vai voltar no final deste vídeo. Nota lá, porque isto aqui não se pode esquecer.  Em maio de 1953, três semanas antes do teste no Botafogo, o Mané pediu a Naí em casamento. Ela disse que sim antes de ele terminar a pergunta. Casaram no domingo seguinte numa igrejinha de madeira de pau grande com 23 convidados, sem festa, sem foto, sem aliança nova.

  Só uma promessa que o Mané fez de joelhos a Nair dentro da capela, na frente do padre velho da paróquia. Essa promessa 19 anos depois ia ser quebrada num apartamento de Copacabana numa Quarta-feira de fevereiro de 1963. Vou esquecer o segundo homem da peneira durante 2 minutos. A gente volta nele primeiro a Nair, porque sem compreender a Nair, não percebe o tamanho do que o Mané ia perder 19 anos depois.

 Junho de 1953, Manuel tem 19 anos, faz o teste oficial do Botafogo. O gentil técnico Cardoso coloca o miúdo contra um defesa chamado Newton Santos. Newton Santos era titular da seleção brasileira, considerado o melhor lateral esquerdo do mundo, tinha 26 anos e foi escolhido pro teste exatamente porque ninguém esperava que o miúdo de pau grande passasse por ele.

 O Mané passou três vezes em 20 minutos. Na terceira, o Newton Santos parou no meio do campo, olhou para o gentil no banco e disse uma frase que ficou na história oral do clube. Este menino tem que ficar. Se ele jogar na nossa equipa, eu não  tenho de jogar contra ele nunca mais. O primeiro contrato do Garrincha com o Botafogo foi assinado em junho de 1953.

Salário mensal, 1200  cruzeiros. Para que tenha dimensão, um operário da América Fabril, na mesma época ganhava cerca de 1500 cruzeiros. O maior driblador da história do futebol brasileiro entrou no Botafogo, ganhando menos que o pai ganhava na fábrica de tecido, e aceitou. Achou ótimo.

 Apertou a mão ao diretor, foi voltar para o pau grande no comboio da Leopoldina, sem compreender que tinha acabado de assinar um contrato escrito para alguém que não sabia o que estava assinando. Na noite anterior, a Nair tinha pedido ao Mané. Deixa olhar para esse papel. O Mané, com a voz mansa de quem confia em quem não devia, disse: “Não, eu sei o que estou fazendo”.

 E assinou sem deixar a Nair ler. Era a primeira vez que assinava sem deixar a Nair ler. Iam ser muitas  mais. E aqui entra a heroína silenciosa dessa história. Embora ela ainda não sabe que está a virar heroína. Nair Marques, 21 anos, esposa de Pau Grande, com o ventre a começar a surgir da primeira gravidez. Comprou no armazém de Magé, em janeiro de 1954, uma caderneta de capa  preta, marca Tilibra, com 340 páginas pautadas.

sentou-se na varanda numa tarde de domingo e começou a escrever com a letra apertada da segunda série interrompida na primeira página. Caderno dos ganhos do Mané, Janeiro de 1954. Que Deus me dê paciência para anotar tudo. A Nair e a anotar tudo durante 30 anos. Cada cruzeiro que o marido ganhava, cada cruzeiro que o marido chegou a receber na mão, cada diferença anotada na terceira coluna, com a paciência de uma mulher de pau grande,  que sabia, sem saber dirente, que algum dia ia chegar a um tribunal. Essa caderneta

vai resolver tudo no final deste vídeo. Anota lá, porque isto aqui não pode esquecer. Mas a N também anotou outras coisas, não só dinheiro. Nas páginas de trás da caderneta, em letras mais pequenas,  ela anotava o que o Mané dizia em casa, as promessas que fazia, as coisas que se esquecia no dia seguinte.

 Página 5.º Datada de 15 de março de 1954. 3 meses depois  do casamento, anotação literal da Nair. Mané chegou bêbado da cidade, disse que eu sou a única mulher da sua vida. Disse que ia deixar de beber. Beijou a minha barriga, caiu no chão da sala a dormir. Vou guardar isso. A Nair guardou. continuou guardando durante 30 anos.

 Em julho de 1953, estreia do Mané pelo Botafogo frente ao Bom Sucesso no Maracanã. 20.000 pessoas entra no segundo tempo, dá três dribles seguidos no mesmo defesa, faz um golo. O estádio grita um nome que ainda era novo. O apelido tinha vindo de um passarinho da serra de Petrópolis. Batizado pelo irmão mais velho, Edevá.

 Naquela tarde tornou-se nome de gente e o segundo homem da peneira voltou. Vou descrever  sem nomear, porque o processo judicial está aberto e qualquer nome aqui pode prejudicar a família. Era um homem da rede de intermediários informais que orbitavam o futebol brasileiro dos anos 50 sem cargo, sem credencial. Mas com acesso.

 Conhecia diretor, jornalista, político. Falava com a família do jogador na cidade do interior. A figura apresentou-se pro Mané como alguém que vai cuidar  de si e o Mané aceitou. A partir de 1953, todo o contrato que o Mané assinou  passou pela mão da figura primeiro. Botafogo. Seleção brasileira. Publicidade de café.

 propaganda de cerveja, publicidade de cigarros. E o Mané nunca leu nenhum, nenhum. A Nair, em pau grande anotava cada cheque que desaparecia. Maio de 1958, Suécia, Campeonato do Mundo. Brasil estreia-se. Garrincha entra contra a União Soviética por pressão dos companheiros que se recusaram-se a jogar sem ele. Nos três primeiros minutos do jogo, dá três dribles em três soviéticos diferentes.

 O comentador da rádio sueca, ouvindo o estádio gritar, pergunta no ar: “Quem é este moço de pernas tortas? O Brasil é campeão. Mané regressa como herói nacional nesse mesmo verão sueco. Num corredor do Hotel seleção, o Mané conheceu uma camareira de 24 anos chamada Soulveig. Três noites juntos.

 Quando a delegação regressou ao Brasil com a taça, a Souvec estava grávida. Ia ter um filho do  Mané em Março de 1959. Batizado UF que ia crescer na Suécia sem nunca  conhecer o pai. A Nair descobriu da Solve em 1979, 21 anos depois,  quando o filho Sueco Wolf veio ao Brasil tentando encontrar o pai e bateu à porta da casa de Pau  Grande, pensando que era a sua casa, Anai abriu a porta, olhou para o rapaz loiro de olhos azuis, percebeu na hora.

 pegou na caderneta preta da gaveta, foliou, encontrou uma anotação de Agosto de 1958 que tinha feito por intuição. Mané regressou da Suécia diferente. Cheira a perfume que não é meu. Vou guardar isso. A Nair tinha guardado, continuou a guardar. Mas isso é 1979. A gente está em 1958. O Brasil  é campeão. Mané faz a primeira propaganda nacional dele.

 Café por 24.000 cruzeiros. O cheque não chega na mão dele, chega à mão da figura. A figura entrega 4.000 cruzeiros em dinheiro e diz: “O resto é imposto, comissão despesa.  O Mané Ri agradece. Gasta em três dias com a turma do Pau Grande. A Air anota na caderneta de publicidade café 24.000. Recebidos 4000.

  Anota também na coluna de trás. Mané prometeu hoje pelas crianças que me vai levar a um restaurante no Rio. Domingo. Vou esperar. O Mané esqueceu-se da promessa no sábado e aqui entra o pormenor que magoa. Entre 1953 e 1962, em 9 anos de matrimónio, Anair deu à luz oito filhas.  Oito raparigas em 9 anos.

 A primeira em fevereiro de 1954, a última em agosto de 1962, exactamente no mês em que o Mané ia conhecer a mulher que Aer tinha visto chegar ao horizonte  desde o dia do casamento, oito filhas, sem um filho varão. Naquele Brasil dos anos 50, este pormenor pesava na cabeça do Mané  mais do que ele admitia. O Mané queria um homem para jogar futebol, para mostrar aos amigos no bar.

 A Nair sabia que o marido olhava para o berço de cada filha nova e demorava 5 segundos antes de sorrir. Anair sabia em silêncio, em pau grande, anotando na caderneta, lavar fraldas no tanque, criando oito meninas sozinha, porque o O Mané passava a semana inteira no Rio. Em agosto de 1962, dois meses depois do Brasil ser bicampeão  do mundo no Chile, o Mané aceitou um convite para um programa de televisão denominado Almoço com as Estrelas, apresentado por Airton Rodrigues na TV Tupi no programa Uma convidada, cantora de samba, 25 anos,

cabelo preto, voz rouca, vestido escuro, decotado E aqui entra a mulher que o Todo o Brasil, durante 64 anos, achou que tinha acabado com a vida do Garrincha. Anota lá, porque isto aqui não pode esquecer. Aqui é onde todo o Brasil decidiu na mesma semana quem era a culpada. É aqui que nasceu a versão simplificada que este vídeo veio destruir.

 14 de agosto de 1962,  estúdios da TV Tupi no Sumaré.  Programa Almoço com as Estrelas em direto. Terça-feira, meiodia e meia. Dois convidados nessa edição. O Mané, bicampeão do mundo, ídolo nacional, 28 anos e uma cantora de samba de  25 anos que tinha acabado de gravar um sucesso chamado Se acaso chegasse. O seu nome era Elsa Soares.

 O Mané olhou paraa Elsa. A Elsa olhou para o Mané. O Airton fez uma piada que ninguém ouviu direito. O Mané perguntou de onde é que a Elsa era. Ela disse que era do Rio. Ele perguntou se ela cantava. Ela disse que já devia ter ouvido na rádio. Trocaram telefones no final do programa. Em três semanas, estavam a viver juntos num apartamento em Copacabana, no posto seis, com vista para o mar.

 Em três meses, a imprensa descobriu. Em se meses, o Brasil inteiro sabia. E o Brasil inteiro, desde o operário do interior ao colonista social, decidiu na mesma semana quem era a culpada. Não foi o Mané, não foi o homem que tinha abandonaram a esposa  e oito filhas em pau grande para ir viver com uma cantora em Copacabana.

 Não foi o craque que tinha  rompido a promessa feita de joelhos. Na capela de Paulo Grande, 9 anos antes, o Brasil dos anos 60,  racista, machista, católico, não podia culpar o herói nacional. Tinha  que ter uma culpada, tinha que ter uma ela, tinha que ter uma mulher para carregar o pecado.

 E a Elsa, que era negra, que era pobre, que cantava samba, que tinha começou a vida a vender bala na praça Mauá, com 9 anos, que tinha enterrado um filho de fome aos 23, que se tinha levantado sozinha do meio do nada com uma voz rouca e uma força que o Brasil Branco não estava preparado para entender, foi escolhida para carregar o pecado do Mané durante 64 anos.

 A Nair descobriu da Elsa pelo jornal. Quarta-feira de fevereiro de 1973, alguém pôs uma foto do Mané e da Elsa à saída de um restaurante. A Nair pegou na caderneta preta da gaveta, sentou-se na varanda da casa do pau grande, não chorou. A Nair nunca chorava à frente dos outros. Anaira anotou em letras maiúsculas uma linha que ia ficar como herança escrita às oito filhas.

Hoje o meu marido desapareceu pelos jornais. Mas o pior não foi ela. O pior é o que esta figura vai fazer agora, que ele não tem mais quem leia os papéis para  ele. Olha bem para esta frase. O pior não foi ela, a Nair em grande pau, com a quinta filha ao colo e a sétima a crescer na barriga em fevereiro de 1963.

Já sabia o que o Brasil ia demorar 64  anos. Para compreender, a Elsa não era a vilã, era um sintoma. O verdadeiro vilão era outro e estava prestes a aproveitar  o circo do escândalo para fazer o seu trabalho em silêncio em 15 de Março de 1963, três semanas depois de o jornal ter publicado a foto do casal, enquanto todo o Brasil estava focado no escândalo Man Elsa.

 Num escritório do centro do rio, com piso de madeira escura e candeeiro verde em cima da mesa, a figura colocou-se diante do Mané um contrato de sessão de direitos sobre prémios de jogo, luvas de contrato e bonificações da seleção brasileira. Sessão durante 10 anos em prol de uma empresa de assessoria cuja sócia maioritária era a própria figura.

 O manéno com a caneta da figura. Sem ler, a Elsa nem estava lá para avisar. A Nair estava em pau grande a criar as filhas e a imprensa de todo o Brasil estava ocupada a fotografar  o casal a sair de uma discoteca. Esse contrato é a peça oito do processo judicial que corre hoje em segunda instância no justiça do Rio. Vou voltar nele.

 A Elsa naquela altura estava a começar a perceber também. Não tinha cadermeta como a Nair, mas tinha boa cabeça. A Elsa foi a segunda pessoa depois da Nair a falar para o Mané que estava a ser roubado. A Elsa chamou a figura para uma conversa no apartamento de Copacabana em junho de 1966. A figura sorriu, disse que a culpa era dos  impostos dos diretores.

Disse que era o único amigo verdadeiro do Mané. no mundo e saiu. Nessa noite, a Elsa disse ao Mané: “Vamos sair deste tipo”. O Mané, com um copo na mão, olhou para Elsa com a expressão mansa de sempre e disse: “Ele é meu amigo. A Elsa, anos mais tarde ia repetir esta cena em entrevista. ia dizer numa entrevista de 2010 uma coisa que poucos repararam, que tinha tentado tirar o Mané da figura várias vezes e tinha falhado, que o Mané confiava em  quem não devia e desconfiava de quem devia, e que ela foi uma das que

aprendeu a desconfiar. A Elsa não destruiu  o Mané, a Elsa tentou salvar. Em 1964, O joelho direito do Mané começou a falhar. Os médicos do Botafogo fizeram cinco cirurgias seguidas em 3 anos. Cada cirurgia tirou um pedaço de minisco. A recuperação foi feita em casa, sem fisioterapia, sem médico, sem ninguém a ver.

 A figura, oficialmente responsável pela recuperação, aparecia uma vez por semana, conversava 5 minutos e ia embora. A figura sabia que o mané bebia. A figura mandava entregar uma garrafa de whisky no apartamento todas as sextas-feiras da tarde, sempre com um bilhete para o craque com carinho.

 A figura sabia que o mané, bêbado, assinava um papel qualquer. E se você esta noite está a ver este vídeo com a sua mulher ao lado ou com os seus filhos no outro quarto ou sozinho depois de um dia de trabalho, pensa uma coisa. Pensa numa mulher que culpaste injustamente alguma vez pela queda de um amigo, de um familiar, de um vizinho.

Porque às vezes julgamos a mulher que aparece e nunca julga o homem que aproveita. Anota lá, porque isto aqui não pode esquecer. Julho de 1965,  O Botafogo dispensou o Mané. Cartilagem destruído, indemnização de 150.000 cruzeiros.  Desse 150.000, segundo a caderneta da Nir, chegaram às mãos do Mané 28.000.

 O resto a figura tomou como Comissão de Reccessão  e Despesas Administrativas, 28.000 cruzeiros em 1975. O Mané gastou em 2 meses. Em 4 meses  estava a pedir emprestado para um colega de seleção. Em se meses estava  pedindo emprestado à Elsa. A Elsa naquele momento ganhava cantando em discoteca. A Elsa pagou.

 A Elsa apagou aluguer do apartamento de Copacabana entre 1966 e 1972. A Elsa pagou médico ao Mané quando este desmaiava em casa. A Elsa pagou a imprensa do Brasil. Enquanto isso, continuava a chamar-lhe a mulher que destruiu o Garrincha. 18 de abril de 1969, rodovia BR1, troço entre Magé e Petrópolis. Manhã de sexta-feira, 7h12 da manhã, sol baixo do lado direito do condutor.

 O Mané ao volante, Opala Azul  Escuro, modelo 68. No lugar do pendura, um mulher de 62 anos, Ros Bezerra dos Santos, mãe da Elsa, tinha pedido boleia para visitar uma prima em Petrópolis. O mané disse: “Eu levo-a, dona Rose, eu adoro conduzir cedo.” Na noite anterior, o Mané tinha bebido cinco doses de whisky, talvez seis, tinha dormido às 2as da manhã, acordado às 5:30, tomado café com leite e mais um copinho de cachaça para aquecer amanhã.

 7:1 subida acentuada, curva à esquerda. Do outro lado, vindo em sentido contrário, um camião Mercedes carregado de cimento, motorista do camião. António, 61 anos de Itaipava, sem culpa nenhuma. O mané tinha cruzado a linha contínua, talvez pelo descuido, talvez pela cachaça, talvez pelo sol que vinha bater nos olhos.

 O Mané viu o camião tarde demais, travou, tentou desviar. O Opala embateu na lateral esquerda do camião num ângulo de quase 90º. A Rosa morreu na hora. A cabeça dela bateu no para-brisas.  Depois no painel, depois na porta, coluna cervical partida no impacto. Óbito instantâneo por traumatismo craniano múltiplo.

 Segundo o médico legista de Petrópolis, o Mané sobreviveu. Tinha cinto, a Rosa não. E aqui entra o pormenor  que prometi no início do vídeo. 8 minutos do momento em que o Opala parou de se mexer até ao primeiro carro de outra família parar no berma e ir buscar a polícia em Magé, passaram 8 minutos. 8 minutos em que o Mané ficou sentado sozinho numa pedra da berma com a sogra morta dentro do carro destruído atrás dele, olhando para a serra de  Petrópolis nascer ao sol da manhã.

 O que aconteceu nesses 8 minutos foi reconstruído depois pela própria Elsa. Em entrevista de 2008, a Elsa contou que o Mané, quando ela chegou ao hospital de Magé naquele dia, repetia uma frase incompreensível em voz baixa, sem parar durante toda a tarde. A frase era: “A mãe dela, a mãe dela, matei a mãe dela.” A Elsa perdoou o Mané pelo acidente em menos de três dias.

 Sabia que tinha sido fatalidade? sabia que o Mané não tinha matou a mãe dela de propósito, mas o O Mané não conseguiu perdoar-se nunca. Foi a partir daquela manhã de Abril de 1969  que o Mané passou a beber para se castigar. Antes bebia para se divertir, depois  bebia para apagar a imagem da Rosa no painel do Opala.

 iam ser mais 14 anos até à cachaça terminar o trabalho, que o pai dele  tinha começado num quintal de pau grande em 1940. A Elsa ficou, a Elsa segurou, a Elsa pagou conta do hospital, renda, cesta básica durante os 8 anos seguintes. Em 1977, finalmente a Elsa foi-se embora. Para Roma, com o filho de ambos, o pequeno Manuel Júnior, de alcunha Garrinchinha, que tinha 12 anos, a Elsa deixou uma carta em cima da mesa do apartamento de Ipanema, onde o Manel estava deitado bêbado. Dizia: “Mané, eu preciso de ir.

 Eu já não consigo ver. Eu vou ficar lá pelo Gainchinha, mas quando voltar vou vou encontrar-te do  outro lado. Não no mesmo país, não na mesma vida. A A Elsa voltou. O Mané estava morto em 1983, antes dela. A Elsa encontrou-o do outro lado, sim, mas não como ela imaginava. O Mané ficou sozinho num apartamento em Ipanema.

 sem renda, sem frigorífico,  com uma garrafa de cachaça ao lado da cama, 43 anos parecendo 70. As pernas tortas tremiam até para atravessar a sala. E ar, em pau grande, com as oito filhas, já raparigas, tinha aberto um pequeno atelier de costura no fundo da casa para pagar comida. Anair sabia que o Mané estava na sargeta.

 Anair via o nome dele cair semana a semana nas colunas dos jornais. E a Nair fazia uma coisa que ninguém da família compreendeu durante mais de 40 anos. A Nair,  todos os dias 20 do mês, apanhava o comboio da Leopoldina sozinha, ia até ao rio, atravessava a cidade até ao apartamento do Mané em Ipanema, batia na porta sem se anunciar, entrava sem cumprimentar, ia diretamente para a cozinha.

cozinhava feijão, arroz, frango, deixava num tacho no frigorífico que ela própria tinha demorado dois anos antes, quando viu que o Mané não tinha mais nenhuma. limpava o apartamento, mudava o lençol, lavava a roupa do tanque, não dizia uma palavra durante todo o tempo. O Mané, deitado no sofá, embriagado, olhava para Naer como se fosse um fantasma e geralmente voltava a adormecer.

 Quando o trabalho da casa estava feito, a Nair pegava  a mala, saía sem se despedir, apanhava o comboio de volta para Pau Grande, chegava a casa às 9 da noite. Ninguém em pau Grande sabia que ela ia. Ninguém no Rio sabia  quem era aquela mulher de 50 anos que aparecia no apartamento do craque e cozinhava em silêncio.

 Air foi todos os meses entre 1977 e 1983. 73 viagens, 73 taxas  de feijão, 73 comboios da Leopoldina. A Nair nunca contou a ninguém. A gente só ia saber em  2014 quando uma das filhas, organizando os papéis da mãe morta, ia encontrar nos fundos da caderneta preta  uma lista de datas com a letra apertada de sempre. 20 de janeiro de 1978.

Feijão, frango, lençol. Mané a dormir. Não acordou. 20 de Fevereiro, 1978. Arroz, ovo, fralda nova. O Mané chorou na cozinha. Voltei para casa. 20 de março 1978. Sopa, pão, sabão. Mané pediu desculpa pelas 8. Eu disse depois, Mané. 73 notas iguais, 73  meses até janeiro de 1983. Aqui é que a coisa fica feia.

 Em outubro de 2014, 31 anos depois do  Mané morrer, 23 anos depois da Naire morrer, uma das suas filhas com o Mané, vou chamar-lhe filha mais velha, sem nome porque o processo corre na justiça, abriu o armário da cozinha de pau grande e tirou de lá uma lata de bolacha  vazia que estava no fundo.

 Casa tinha sido encerrada por 6 anos depois da morte da Nair. A filha mais velha tinha ido ali organizar a venda da casa. Sentou-se no chão, abriu a lata. Tinha quatro coisas lá dentro. A primeira coisa que ela viu foi a caderneta preta, capa gasta. 340 páginas anotadas durante 30 anos. Cada cruzeiro que o Mané ganhou, cada cruzeiro que ele recebeu, cada diferença na terceira coluna e nas páginas finais, a lista dos 73 Viagens secretas a Ipanema com o menu do feijão.

 A segunda coisa foi uma fotografia a preto e branco. Janeiro de 1963, apartamento de Copacabana, o mané no sofá segurando um copo. A Elsa ao lado sorrindo e atrás  dos dois em pé, com a mão direita pousada no ombro esquerdo do mané, um homem de fato escuro, bigode fino, cabelo penteado para trás, com brilhantina.

 Esse homem é a figura. Esta foto é a única em que a figura aparece sem se  esconder do enquadramento. A terceira coisa foi um papel pardacento, cópia em papel carbono. Contrato de sessão de direitos  de 15 de março de 1973. Folha batida em máquina de escrever. Assinatura trémida do mané no fim. Ao lado, a assinatura da figura.

 Nome completo: NIF, morada em 1963. A quarta coisa estava no fundo da  lata, um envelope branco selado. Nome escrito a lápis pela Nai em maio de 1991, três semanas antes de ela morrer aos 59 anos de complicação cardíaca para as minhas filhas depois de eu  morrer. A filha mais velha abriu o envelope ali na cozinha, sentada no chão.

 Dentro do envelope, uma folha dobrada com letra apertada da Nair. Filhas, o homem que matou o seu pai não foi a Elsa, não foi a Solvei, não foi nenhuma mulher, foi o homem da foto no álbum. Página 23, o do bigode. Procurem-no. Os papéis estão na lata. A Elsa sabe parte da história. Eu sei o resto. Vão atrás.

Garrincha… eterno passarinho | TARDES DE PACAEMBU

 Eu já paguei tudo o que tinha para pagar. Agora  é a vossa vez. A filha mais velha leu três vezes, não chorou ali. A filha mais velha era a filha da Nair. Não chorava à frente dos outros. Em 2015, procurou um advogado em Niterói. Em 2016, o processo foi aberto. Em 2019, o advogado conseguiu cruzar os dados da empresa de  assessoria de 1973, com a empresa encerrada em 1974 e com uma terceira empresa registada em 1976 em São Paulo em nome de um sobrinho da figura.

 Em 2022, um juiz aceitou abrir investigação patrimonial. Hoje, em maio de 2026, o processo corre em segunda instância, sem sentença ainda. Por isso, não vou dizer o nome dessa pessoa, não por medo, por respeito ao processo, mas esta figura existe. Tem homem, tem voz, tem NIF, tem morada hoje em São Paulo. E se prestou atenção  neste vídeo, três coincidências te apontam para a mesma pessoa sem que eu tenha de nomear.

Primeiro  é a pessoa que aparece em 69 fotos da família do Mané entre 1978 e 1972, em casamentos batizados viagens internacionais e que desapareceu por completo do registo fotográfico no exato mês em que o Maner foi dispensado pelo último clube. Em segundo lugar, é a pessoa  cuja assinatura está com nome completo e número de contribuinte, ao lado da Dumané, no contrato de sessão de 1963, contrato hoje juntou  como peça oito do processo.

 Terceiro é a pessoa cujo sobrinho, nascido em 1958, é hoje o titular da empresa para onde foram transferidos em 1974. os bens da empresa de assessoria original que cuidava dos contratos do Garrincha. Três coincidências. Numa única pessoa, a família em privado, Liga, o nome existe. A versão oficial durante 40 anos foi que o Mané morreu por causa da bebida.

 Cirrose hepática alcoólica, hemorragia digestiva alta. Os relatórios médicos do hospital de Bango, assinados por dois  médicos de de serviço na madrugada de 20 de janeiro de 1983,  dizem: “Isso é verdade. O fígado do Mané tinha parado a versão paralela durante 64 anos, foi que uma mulher acabou com a vida dele e o Brasil inteiro apontou para Elsa Soares,  a culpada pública, a mulher negra de samba que tinha aparecido na TV Tupi em 1962.

A Nair em Pau Grande sabia que esta versão era mentira. A Nair sabia que a A Elsa tinha  sido uma das vítimas, igual a ela própria. A Nair sabia  que o homem que tinha acabado de quebrar o Mané era o do bigode fino. Mas a Nair, mulher de pau grande, sem estudo para além da segunda série, com oito filhas para criarem sozinhas, sem dinheiro para advogado, escolheu calar-se e escolheu documentar e optou por esperar 30 anos.

 O velório do garrincha realizou-se em 21 de janeiro de 1983. no Maracanã, corpo no centro do relvado,  mais de 100.000 pessoas em volta dentro do círculo da família, no momento em que o caixão ia ser fechado, o Edevair, irmão mais velho do Mané, aquele que tinha posto o apelido de Garrincha no menino lá no Pau Grande, encostou-se ao caixão e disse: “Em voz baixa, mas suficientemente alta para uns sete familiares ouvirem.

 Este não morreu de bebida. Matou ele aquele homem do escritório. Oito palavras. O Edevir faleceu em 1997, sem repetir a frase em público. Três sobrinhos confirmaram em depoimento gravado para o processo de 2019 que ouviram aquilo no caixão. A frase está hoje nos autos. Peça 47. A Naer, no velório, ficou de pé do lado de fora do círculo da família. Não entrou.

 Para a imprensa, ela tinha sido abandonada 20 anos antes e já não era esposa. Anair sabia que tinha sido esposa até ao último jantar de feijão, que cozinhou em Ipanema cinco dias antes do Mané ser internado em banco. A Nair olhou para o caixão de longe, não chorou à frente dos outros? pegou o comboio da Leopoldina de regresso a Pau Grande às 8 da noite.

 Chegou a casa, tirou a caderneta preta da gaveta escreveu a última anotação dela como esposa. 21 de janeiro de 1983. Velório. Não me deixaram entrar no círculo da família. Está bem. Eu já estava no centro há 30 anos. Lembra-se que no início deste vídeo prometi resolver as cinco palavras que Nair Marques sussurrou no leito de morte em Maio de 1991.

Eu prometi e agora vou cumprir. 28 de Maio de 1991, casa do Pau Grande, mesma varanda onde Anair tinha-se sentado em 1954 para escrever a primeira página da caderneta preta, mesma cerca de bambu que separava o quintal dos dos santos do quintal da casa. Do lado em 1940, quando uma menina de 5 anos viu um pai operário oferecer um copo de aguardente ao filho de sete. A Naer tinha 59 anos.

Complicação cardíaca. Os médicos do hospital de Magé tinham mandado para casa três dias antes. A filha mais velha estava sentada no chão do quarto da mãe segurando a mão. A Naira abriu os olhos, olhou para a filha, sorriu e disse cinco palavras. A filha anotou as cinco palavras num pedaço de papel que ia guardar dentro da própria lata de bolacha em que estavam a caderneta, a foto, o contrato e o envelope fechado.

 O papel ficou ali dobrado em quatro por 23  anos. Foi a última coisa que a filha mais velha encontrou quando virou a lata de pernas para o ar em 2014 para ter certeza  de que não tinha esquecido nada. As cinco palavras eram: “Eu sempre fui o amor. Eu sempre fui o amor.

 Não a Elsa, não a Solveg, não as cantoras que apareceram em coluna social. Não as raparigas que apareceram no apartamento de  Panema nos anos finais. A Nair, Anair, vizinha de cerca aos 5 anos. Air, esposa aos  21. Anair, mãe dos 8 aos 28. Ar, abandonada aos 31. Air, das  73 viagens secretas, a Ipanema.

 Air, da caderneta preta, Anair, de pé, fora do círculo da família, no velório do Maracanã, Anair, sussurrando cinco palavras na varanda do pau grande, 8  anos depois. Essa mulher é a do título. A mulher que acabou com a vida do Garrincha não foi a Elsa Soares, não foi a samba de Copacabana, não foi a cantora negra de voz rouca que o Brasil dos anos 60 escolheu como culpada.

  A mulher que acabou com a vida do Mané foi a vizinha de pau grande que ele tirou de pau grande sem se aperceber  o que estava a tirar. A esposa que ele deixou para trás, a mãe das oito filhas que ele deixou de pagar, a mulher que ele prometeu de joelhos numa capela de madeira em maio de 1953, que nunca ia abandonar.

 Anair acabou com a vida do Mané porque o Mané a deixou e porque deixar a Nair ele descobriu tarde demais. Era deixar o único chão que ele tinha. O Mané passou a beber para esquecer a sogra da berma da BR101. Mas o Mané já bebia desde 1963 para esquecer a outra coisa  que tinha feito numa quarta-feira de fevereiro desse ano, quando saiu da casa de pau grande para ir viver para Copacabana sem se despedir das sete filhas que tinha em casa nesse dia e da oitava que estava na barriga da mãe.

A Elsa tentou salvar. A Elsa foi-se embora em 1977, não porque fosse cruel, mas porque era humana. O Mané destruiu-a, não o contrário. E a Elsa anos mais tarde ia dizer numa entrevista uma frase que poucos repararam que ela não tinha sido a vida do Mané, tinha sido a queda, que a vida dele já tinha ficado em pau grande, que ela foi só à estação seguinte.

 Em março de 2018, 35  anos depois do Mané morrer, 27 anos depois da Anair morrer, a filha mais velha recebeu pelo correio, em sua casa em Niterói, um envelope sem remetente, celo do Rio de Janeiro, postado num qualquer posto do centro, dentro do envelope, uma única coisa, uma fotografia a preto e branco, do tamanho de uma carta tirada em 1962  no aeroporto de Santiago do Chile no dia da chegada  da seleção brasileira. Campeã.

 Na foto, o mané com a taça  Jules Rimete erguida. Atrás dele, no meio da multidão de jornalistas, a figura cabelo  penteado para trás, bigode fino, olhando diretamente para a câmara, sorrindo. Essa foto nunca tinha aparecido num jornal em 1962. Era uma foto privada, pertencia ao álbum pessoal de alguém.

 Alguém que em março de 2018, 16 dias depois de a família ganhar a primeira decisão favorável na justiça do Rio sobre a abertura de investigação patrimonial, achou útil enviar pelo correio sem remetente. A filha mais velha percebeu a mensagem, guardou a foto, não a pôs no processo, disse às irmãs, à sobrinha mais nova e mais  ninguém.

 A figura segue observando, a figura segue avisando. A figura, mesmo com 90 anos, mesmo com cobertura em São Paulo, ainda manda mensagem pela família do Mané  quando precisa. Naquele hospital de bango em 20 de Janeiro de 1983, às 5h47 da manhã, a maca chegou no final do corredor. O enfermeiro novato deixou  o corpo na sala de morgue, dirigiu-se ao balcão, perguntou pra recepcionista quem era aquele doente.

A recepcionista olhou para o nome no prontuário, Manuel Francisco dos Santos. levantou os olhos. Era o Garrincha, o meu filho. O enfermeiro sentou-se no chão do corredor de piso molhado. Foi o único naquele hospital, naquela manhã que chorou pelo mané.  Hoje, em maio de 2026, em Pau Grande, vive ainda uma das netas do Mané e da Nair.

 A casa tem o mesmo quintal de terra batida. Tem a mesma cozinha onde a Nair guardou a caderneta preta na lata. Tem o mesmo barracão onde o Amaro, em 1940 estendeu o copo de aguardente ao filho de 7 anos. Tem a mesma cerca de bambu, agora velha, mas de pé. A neta  todos os dias 21 de janeiro, às 4:47 da manhã, acende uma vela na varanda, coloca a vela em cima da caderneta preta da bisavó, reza durante 30 minutos, sopra o vela quando o sol nasce sobre os telhados.

 E todos os dias 28 de maio, na mesma varanda, à mesma hora da manhã, acende outra vela em cima de um pedaço de papel dobrado em quatro, com cinco palavras escritas a lápis pela  mão da tia mais velha. Em 1991, quando a bisavó ainda olhou paraa filha uma última vez antes de fechar os olhos. Se esta história te fez lembrar alguém, uma mulher que culpou injustamente pela queda de um amigo, uma esposa que ficou em silêncio enquanto aplaudisse o casamento do vizinho na discoteca? Uma mãe que escolheu o silêncio durante 30 anos para proteger as filhas. Uma irmã que viu o

que ninguém quis ver partilhe este vídeo esta noite no seu grupo de família, porque o Brasil culpou a mulher errada durante 64 anos. E enquanto o Brasil culpou a mulher errada, o homem que destruiu o Mané dormiu tranquilamente em São Paulo durante 64 anos. Também se tem uma mulher na sua vida que lhe ama em silêncio, liga-lhe esta noite.

 Se tem uma esposa que  abandonaste, manda mensagem amanhã a pedir perdão. Se tem uma irmã que sabe tudo de ti e nunca contou, agradece, porque o Mané não pode mais ligar para a Nair. Não pode mais pedir desculpa pelas 8. Já não pode voltar à varanda de pau grande para escutar cinco palavras. Pode ainda curte, partilha, subscreve o canal.

Aqui contamos as  histórias que ninguém teve coragem de contar em 64 anos. Ah.

 

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