RONALDINHO: A VERDADE VEIO À TONA

Um enfarte fulminante caiu de cara para baixo. A piscina só tinha 1 m de profundidade, mas 1 m foi suficiente. Quem encontrou  ele foi o Ronaldinho, 8 anos. Desceu para o quintal porque a mãe o tinha mandado chamar o pai para o jantar. Viu o corpo a boiar de bruços, gritou. A mãe desceu a correr. O O irmão Roberto, já com 22 anos, tirou o corpo da água.

Fizeram respiração boca a boca, chamaram ambulância. Não adiantou.  O João já estava morto antes mesmo de tocar no fundo da piscina. E aqui entra o primeiro pormenor que quase ninguém costuma contar. Naquela mesma noite, enquanto os vizinhos enchiam a sala da casa, enquanto os irmãos choravam, enquanto a mãe Miguelina,  viúva aos 33 anos com três filhos, não se conseguia mexer do sofá.

O pequeno Ronaldinho fez uma coisa que ninguém tinha visto antes num rapaz de 8 anos. levantou-se da cama do quarto onde tinham-no deixado. Desceu à escada, chegou perto do corpo do pai, que estava numa mesa coberto com um lençol branco e começou a sorrir. Sorria a ter falava ao pai morto, contava-lhe coisas, como se nada tivesse acontecido.

Ah! Ah,  a a tia Lourdes, irmã do pai, que estava do lado do corpo, viu, perguntou-lhe: “Filho, porque estás a sorrir?” O Ronaldinho respondeu a cinco palavras. Cinco palavras que  iam marcar o rapaz até ao último dia da carreira de futebol dele. Se eu chorar, o papá  chora.

Se eu chorar, o papá chora. 8 anos. Esta frase, este pensamento foi a origem do sorriso eterno do Ronaldinho. O sorriso que ia ganhar dois Campeonatos do Mundo. O sorriso que ia fazer sorrir o Brasil inteiro. O sorriso que ia ser eleito à imagem mais alegre do futebol mundial. Esse sorriso começou numa sala humilde do Porto Alegre, em frente ao corpo de um pai  morto, na cabeça de um rapaz de 8 anos, que decidiu que chorar era egoísmo.

Imagina ser um menino de 8 anos a decidir isso. Imagina carregar esse sorriso 40 anos. O Ronaldinho carregou. E o que veio depois foi pior. 15 dias depois do enterro, a a dona Miguelina fez um juramento, fez sozinha no quarto onde ela e o João tinham dormido durante 15 anos. Era um juramento dirigido ao pai morto e só apareceu numa entrevista que ela deu em 2018.

As palavras  exatas, segundo ela se lembrava, foram estas: “João, juro-te que vou cuidar dos três filhos, mas do pequeno, do Ronaldinho, juro-te que vou cuidar como se fosse  tudo, como se fosse o mundo inteiro. Não vai faltar nada para ele.” E o Roberto vai estar do lado dele. O Roberto, o irmão mais velho, vai ser o pai que ele  perdeu. O Roberto vai ser o pai.

Essa decisão, esta  promessa, este peso que a Miguelina pôs nos ombros do filho de 22 anos foi o  segundo pilar de toda a tragédia que viria depois. O Roberto, conhecido por Assis, assumiu, assumiu tudo, cuidou do  irmão, levou-o ao futebol, pagou os uniformes, treinou-o no quintal de casa à tarde, comprava as chuteiras, falava do pai  morto, contava-lhe histórias do Cruzeiro de Porto Alegre.

Mas enquanto o O Ronaldinho subia rapidamente,  na vida dele tinha alguém a observá-lo de longe. Uma pessoa que em poucos anos ia aparecer e marcar  para sempre. Um empresário brasileiro com ligações em bancos de Andorra. Um nome que nunca apareceu nas manchetes como devia ter aparecido.

E nós vamos chegar a ele em menos de 5 minutos. O Ronaldinho descobriu a bola aos 5 anos, mas aos oito já não jogava futebol normal. jogava futsal, cinco contra cinco, quadra pequena, ritmo pesado e ali aprendeu tudo. Os dribles impossíveis, as fintas que deixavam três defesas caídos, o controlo perfeito, a magia inteira do Ronaldinho,  saiu de um campo de futsal de Porto Alegre.

Aos 12 anos, marcou 23 golos num jogo oficial contra outro clube juvenil. 23 golos, um jogo. Os técnicos do Grêmio diziam que ele não era humano,  que tinha talento de extraterrestre, mas o verdadeiro homem, por trás  de cada decisão, desde esses 12 anos, já já não era o Ronaldinho, era o Assis, o irmão, o empresário.

Quem decidia que clube, que salário, que publicidade, que entrevista. O Ronaldinho, durante a vida adulta inteira  dele, teve liberdade para uma só coisa, jogar. Todo o resto, quem decidia era o Assis. E o O Ronaldinho confiava, confiava porque era o irmão. Confiava porque a mãe tinha disse-lhe aos 8 anos que o Roberto ia ser o  pai.

confiava porque nalgum canto da cabeça ainda continuava a ser aquele menino de 8 anos  que decidiu não chorar para que o pai não chorasse do céu. E questionar o irmão mais velho era para o Ronaldinho  trair o pai morto. Por isso, assinava o que o Assis punha na frente,  sem ler. Igual ao Garrincha, igual ao Adriano.

Três homens pobres do futebol brasileiro que assinavam sem ler porque alguém da família decidia por eles. Aos 17 anos, o Ronaldinho estreou-se na equipa profissional do Grêmio. 1998,  um jogo contra uma equipa do interior. Entrou no segundo tempo, tocou a bola três vezes, apenas três. Primeiro toque, um caninho num defesa de 30 anos.

Segundo toque, um passe de calcanhar que deixou o atacante  frente a frente com o guarda-redes. Terceiro toque, um golo de bicicleta que fez o estádio ir abaixo. Os adeptos enlouqueceram. Os jornalistas não sabiam o que escrever. Os olheiros europeus puxaram  o telefone, mas ele ainda vivia com a mãe, ainda não tinha contrato.

E depois chegou a primeira oferta, não de um clube europeu, de um empresário brasileiro, não. Chamava Luís António de Jesus. Todo mundo conhecia ele como gaúcho, um tipo com ligações no futebol brasileiro, ofereceu pro Ronaldinho um contrato. Eu levo-te pra Europa. Eu consigo os contratos  para si. Você só joga. O Ronaldinho tinha 18 anos.

A mãe disse-lhe para ler antes de assinar. Mãe, ele sabe, ele vai ajudar-me. Assinou sem ler. Guarda esse momento. Vai precisar dele depois. 1999, o Ronaldinho estreou-se no Mundial  América com a seleção brasileira. O O Brasil venceu o torneio. Apareceram as primeiras propostas do exterior. Paris Saint-Germain, R milhões deais, uma fortuna em 1990 e nove para um jogador de 19 anos.

O Assis negociou,  o Assis assinou, o Ronaldinho foi para França e aí compreendeu pela primeira vez na vida,  que o futebol europeu não era o futebol brasileiro. A pressão era brutal, a língua era difícil, a cultura era  estranha, mas o mais difícil foi outra coisa.

Pela primeira vez na vida, o Ronaldinho estava longe do irmão. O Assis ficou no Brasil, visitava-o duas ou três vezes por mês, mas já não estava todos os dias. E o Ronaldinho, pela primeira vez desde os 8 anos, teve de tomar decisões sozinho e não  sabia como. Em Paris, o Ronaldinho começou a sair para a noite, a enturmar-se com brasileiros que viviam lá,  a viver como um jovem milionário de 20 anos, com dinheiro do mundo inteiro e ninguém a dizer não para ele.

Mas em 2002 aconteceu uma coisa, uma coisa que ia mudar tudo. O Ronaldinho venceu o Campeonato do Mundo da Coreia e do Japão com o Brasil. O golo de falta contra a Inglaterra que virou lenda,  o passe para o Rivaldo na final. Brasil campeão, Ronaldinho figura. E aí chegou a ligação.  Barcelona, ​​o clube mais grande do mundo naquela época.

O Joan Laaporta, o presidente recém-eleito, queria-o como contratação principal,  30 milhões de euros. Dois, contrato de 5 anos, a camisola 10. Mas  aqui entra o pormenor que vai mudar a história inteira. O Barcelona ofereceu também uma coisa que pouca gente sabe, uma comissão de 5 milhões de euros pro empresário, 5 milhões para o Roberto Assis.

A maior comissão que qualquer empresário brasileiro tinha recebido na história, o Assis aceitou, mas fez uma coisa que ninguém sabia. Pediu que essa comissão não fosse depositada numa conta brasileira. pediu para depositar numa conta em Andorra, em seu nome, em nome de Roberto de Assis Moreira. Andorra,  um pequeno país nos Pirenéus, onde os bancos não informam o Brasil, onde o dinheiro entra e nunca sai, onde ninguém faz perguntas.

Aquela conta aberta em 2003 foi o início de tudo e a mãe, a dona Miguelina, só foi descobrir 10 anos depois, por acaso, e vamos chegar a esse momento em poucos minutos. Existe uma gravação, 38 minutos, feita por um jornalista brasileiro chamado Pelé Júnior em 2022, 2 anos depois da prisão paraguaia. O Ronaldinho estava numa casa de Porto Alegre, já recuperado do trauma, falando com franqueza pela primeira vez na vida.

A gravação em parte saiu no podcast do jornalista, mas 60% do conteúdo nunca foi publicado, porque o Ronaldinho durante a entrevista referiu três nomes específicos. três nomes que se encontram em processos pendentes até hoje. E o jornalista, por segurança, decidiu guardar a gravação completa. Nós vamos chegar às quatro confissões que o Ronaldinho fez nessa gravação, mas ainda não. Barcelona, ​​2003.

O Ronaldinho chegou ao Campou com 23 anos e começou a fazer a única coisa que sabia fazer nesta vida, sorrir e jogar. O sorriso daquele menino de 8 anos na sala de Porto Alegre, em frente ao corpo do pai morto, foi o mesmo que iluminou o camp durante 6 anos. Golos impossíveis, três campeonatos espanhóis, uma Champions League e em 2005 A Bola de Ouro, melhor jogador do mundo, 25 anos.

O topo do futebol mundial tem um momento daqueles 6 anos que quase ninguém se lembra com a força que merece. 21 de novembro de 2005. Campou. Real Madrid visitando o Barcelona. O Ronaldinho destruiu o Madrid nesse dia. Dois golos, três assistências, dribles que fizeram 98.000 1 adeptos do Madrid se levantarem para o aplaudir.

Pensa nisso um momento. Os adeptos do Real Madrid, o rival histórico, aplaudindo um jogador do Barcelona, ​​só aconteceu com o Ronaldinho e com o Maradona, com mais ninguém. E quando entregaram a bola de ouro para ele, um mês depois, na cerimónia da FIFA, o Ronaldinho falou sete palavras: “Isto é pelo meu pai.” Ele sorria.

“Isto é pelo  meu pai.” Sorria. A frase saiu tão rápida que quase ninguém apanhou,  mas apanhou a dona Miguelina, sentada na primeira fila da cerimónia. E naquela noite, no hotel da Suíça, a Miguelina chorou sozinha no quarto de hóspedes durante 3 horas, porque nessa mesma semana ela tinha descoberto uma coisa, uma coisa que ia esperar 13 anos antes de revelar ao mundo.

E nós vamos chegar nessa revelação, mas primeiro tem de perceber o que aconteceu depois da bola de ouro,  porque aí começou a descida. A partir de 2006, o Ronaldinho começou a beber, não muito, não exageradamente, mas todas as noites e começou a sair para a festa durante a semana. Começou a chegar atrasado  nos treinos.

O Frank Rich, o técnico, começou a preocupar-se. Está a chegar atrasado falou para a diretoria. está engordando, mas o Ronaldinho continuava jogando bem,  continuava a ser mágico. Assim o Barcelona tolerava até que em 2007 chegou um jogador novo, tinha 20 anos, era argentino,  chamava-se Lionel Messi.

O Messi vivia para o futebol, treinava a dobrar,  comia perfeito, dormia 8 horas, não saía para a festa, não tinha vício. O Ronaldinho era o oposto e a diferença começou a aparecer. Em 2008, o Pep Guardiola chegou como novo treinador do Barcelona. A primeira decisão dele foi chamar o Ronaldinho na sala. “Você precisa decidir”, falou para ele.

“Ou vive como profissional ou vai embora”. O Ronaldinho não discutiu, não se irritou, sorriu. Entendi. Duas semanas depois, o O Barcelona vendeu-o ao Milan. por 21 milhões de euros, menos de metade do que tinha pago 5 anos antes. No Milan, jogou 2 anos, mas já não era o mesmo. Engordou 5 kg, começou a faltar aos treinos.

A imprensa italiana caiu de pau em cima. O álcool tornou-se público. As festas em Milão saíram em todos os jornais e em 2011 o Milan dispensou-o a custo zero. Ronaldinho, 31 anos, sem clube, o melhor do mundo, 6 anos antes, já não tinha mais equipa na Europa. Voltou para o Brasil. Flamengo, Atlético Mineiro, uma Taça Libertadores com o Atlético em 2013, mas já não era o de antes.

Era uma sombra,  uma recordação a andar dentro do campo. E enquanto o Ronaldinho jogava em clubes brasileiros a receber uma fração do que recebia na Europa, o dinheiro continuava a entrar em Andorra. Cada contrato, cada publicidade, cada prémio  passava primeiro pelas contas que o Assis controlava e a partir daí uma parte significativa ia para Andorra.

Enquanto o Ronaldinho disputava o Mineiro em  2013, a dona Miguelina esteve em Porto Alegre, sozinha, a cuidar da neta doente. Uma tarde, ao fim de novembro, o Roberto Assis chegou à casa da mãe com um envelope, pediu-lhe para assinar uns papéis, disse que era paraa proteção fiscal do irmão, coisa burocrática.

A Miguelina assinou, mas antes de partir, o Assis deixou o envelope em cima da mesa por engano, distraiu-se com o telemóvel, saiu para fumar e a Miguelina abriu o envelope. Foi isso que ela viu. Uma carta do Banco de Andorra confirmando os saldos. Conta um,  72 milhões de euros. Conta dois, 18 milhões de euros.

Conta 3,  9 milhões de euros. Mas num total 99 milhões de euros em nome de Roberto Assis. Sem o Ronaldinho saber, a Miguelina fechou o envelope, pôs de volta à mesa.  Quando o Assis voltou, ela não disse nada, despediu-o com um beijo. E nessa noite, a Miguelina chorou durante 6 horas seguidas sozinha, no mesmo quarto onde tinha chorado o João 24 anos antes.

E aqui vem a parte que liga a história inteira. À Miguelina, que sabia da verdade desde 2013, não disse nada ao Ronaldinho. Durante 7 anos não disse nada. Por quê? Porque tinha medo. Medo de  destruir o relação entre os irmãos, medo de ir contra a promessa que  tinha feito para o João em 1989, quando disse que o Roberto ia ser o pai do  pequeno.

medo, principalmente de que o Ronaldinho, ao saber da verdade, perdesse o sorriso, aquele sorriso que o menino tinha  construído aos 8 anos na frente do corpo do pai morto, decidindo que chorar era egoísmo. A Miguelina preferiu transportar a verdade sozinha durante 7 anos, até que não aguentou mais. Em  2015, o Ronaldinho retirou-se do futebol, sem despedida, sem jogo especial, só deixou de jogar.

E depois começou a parte escura, 30 pessoas, dependendo financeiramente dele, irmão,  mãe, empregados, seguranças, motoristas, amigos que viviam na casa dele, conhecidos que pediam empréstimos que nunca devolviam. Chegou um momento em que o Ronaldinho já não sabia quanta gente trabalhava para ele. Assinava  cheques sem pedir para que eram.

Entre 2015  e 2019, o Ronaldinho perdeu quase toda a fortuna. Tinha ganho mais de 100 milhões de dólares na carreira. 100 milhões. Aos 39 anos, tinha uma dívida de 11 milhões com o governo brasileiro. 11 milhões em impostos não  pagos. As autoridades confiscaram 57 imóveis dele,  bloquearam as contas bancárias, tiraram o passaporte.

O Ronaldinho já não podia sair do Brasil. E depois apareceu alguém com uma solução. Wilmondes Souza Lira, empresário brasileiro,  Conexões no Paraguai, ofereceu ao Ronaldinho um projecto em assunção. Vamos abrir uma fundação para crianças,  falou para ele. Precisamos da sua imagem.

Pagámos bem  e ajudámos com a paragem do passaporte. O Ronaldinho, desesperado por trabalhar,  disse que sim. Só assina aqui, eu trato de tudo. E o Ronaldinho  assinado sem ler, como sempre. O que assinou era um pedido de residência paraguaia. Para conseguir, precisava de um passaporte paraguaio.  O Willmondes virou-se para conseguir.

O passaporte era falso, os documentos eram falsos, tudo era falso. Mas o Ronaldinho não sabia ou não quis saber ou decidiu não perguntar. 4 de março de 2020. Aeroporto internacional Silvio Petirosi, Assunção, Paraguai. O Ronaldinho, de 40 anos, chegou num avião particular juntamente com o irmão Roberto. Iam apresentar  a fundação, passaram pela imigração, mostraram os passaportes paraguaios recém emitidos.

O polícia  reviu os documentos, franziu o sobrolho, chamou o supervisor. Havia alguma coisa  errada. Os os passaportes tinham selo oficial, tinham foto, tinham toda a informação correta, mas os números de série não batiam certo com o  base de dados. Alguém tinha falsificado os documentos utilizando selos roubados.

O Ronaldinho olhou para o irmão, perguntou o que se passava.  O Roberto Assis sorriu e disse que estava tudo bem, que era um procedimento  burocrático, que era para esperar um pouco. esperaram 3 horas e no dia seguinte  os dois foram formalmente acusados ​​de uso de documento falso 5 de março, levados paraa agrupação especializada da Polícia Nacional, uma cadeia de máxima segurança nos arredores de Assunção.

A agrupação especializada não é cadeia comum, não. É onde guardam os criminosos mais perigosos do Paraguai, traficantes, sequestradores, assassinos e o Ronaldinho. A primeira noite ele não dormiu. Ficou sentado  no catre com as costas coladas à parede, olhando para a porta,  ouvindo gritos em guarani que não compreendia.

“Pensei que me iam  matar”, confessou meses depois. Na gravação do Pelé Júnior, o Ronaldinho conta o que aconteceu naquela primeira noite.  Olhei para o Roberto no calaboço e perguntei: “Irmão, o que aconteceu?” E ele olhou para mim e disse: “Eu não sabia que o passaporte era falso, mas eu, olhando-o nos olhos, soube que estava a mentir.

Pela primeira vez em 40 anos, soube que o meu irmão estava mentindo-me . E naquela noite, naquela cama de cadeia no Paraguai, chorei como não tinha chorado desde a morte do meu pai. Chorei porque entendi que o sorriso da minha vida inteira tinha sido construído em cima de uma mentira. Mas o que aconteceu depois dentro daquela cadeia? Quase ninguém conhece.

Na segunda noite, um preso brasileiro chegou perto dele. Tranquilo, mano. Aqui ninguém te vai fazer nada. Você é lenda. Os outros presos o reconheceram e, em vez de atacar, protegeram. É o Ronaldinho! Passavam a mensagem. É o mago. Ninguém encosta.  E depois o Ronaldinho fez uma coisa que ninguém esperava. Depois de duas semanas no interior, organizou um campeonato de futebol.

Sim, um campeonato de futebol dentro da cadeia,  com traficantes, assassinos e sequestradores a jogar contra o Ronaldinho. Duas equipas 10 contra 10. Uma  quadra improvisada no pátio. Os agentes como árbitros, os presos como torcida. O Ronaldinho jogava com o sorriso de sempre, fazia caninho,  fazia rabo de vaca.

Os presos gritavam como se estivessem no campn. Foi a coisa mais surreal que vi na vida, falou um agente anos mais tarde numa entrevista. O Ronaldinho, o melhor jogador do mundo, fazendo magia numa cadeia paraguaia.  A equipa do Ronaldinho ganhou o torneio. O prémio foi um leitão assado. O O Ronaldinho dividiu com todos.

Presos, agentes, advogados, toda a gente comeu. Existe uma gravação do Ronaldinho naquela cadeia paraguaia. Nunca foi publicada oficialmente, mas circula na internet. É um vídeo de 40 segundos. O Ronaldinho está sentado na cela sozinho. A câmara está escondida. Ele não sabe que está a ser filmado.

Ele não está a sorrir. Está com a cabeça entre as mãos, os ombros  descaídos. Respira fundo uma vez, duas vezes, três vezes e depois levanta-se. Olha-se no espelho rachado que tem na parede, ajeita o cabelo, endireita a postura e sorri. Não para a câmara, não para os presos, não para os agentes, para si próprio.

Isso é o que quase ninguém entende. O Ronaldinho não sorria para enganar o mundo, sorria para lembrar para ele próprio quem ele  era. 25 de agosto de 2020, 173 dias depois da detenção, o Ronaldinho e o Roberto foram libertados. Pagaram uma multa de 90.000 cada um.  Quando o Ronaldinho voltou ao Brasil, descobriu que a sua conta à ordem no Brasil tinha exactamente R$ 6. Seis.

A justiça brasileira tinha bloqueado tudo por causa das dívidas fiscais acumuladas. Dívidas que o Ronaldinho não sabia que existiam. Dívidas que o Roberto Assis tinha acumulado durante anos sem pagar imposto. Mas ainda falta a parte mais escura. A pergunta que liga à história inteira. Quem destruiu o génio brasileiro? Não foi o Roberto Assis.

O Roberto só geriu o dinheiro como um avarento.  Mas o Ronaldinho confiava nele porque a mãe tinha pedido. Não foi o álcool. O álcool foi o meio, não foi o Paraguai. O O Paraguai só foi onde a mentira ficou pública. Então, quem foi? A resposta do Ronaldinho na gravação é esta: Quem destruiu o Ronaldinho foi uma promessa.

A promessa que a minha mãe Miguelina fez para o meu pai João em Fevereiro de 1989, à frente do seu corpo, a promessa de que o Roberto seria o pai que eu perdi. E eu, durante toda a vida,  respeitei essa promessa. Respeitei o irmão como respeitava o pai morto. e questioná-lo,  contradizer ele, cobrar-lhe era para mim a mesma coisa que cuspir para a campa do meu pai.

Por isso não o fiz até quando já era tarde. A culpa não é do Roberto. O O Roberto só se aproveitou. A culpa é daquele menino de 8 anos que prometeu não chorar. Eu destruí-me porque não deixei a verdade chegar aos meus olhos. Eu destruí-me. Esta frase é a chave de tudo. O Ronaldinho caiu por uma promessa familiar.

Uma promessa feita pela mãe na frente do corpo do pai morto. Uma promessa que o menino Ronaldinho assumiu como se fosse dele e que cumpriu até se destruir. Mas há mais uma coisa, uma coisa que quase ninguém sabe. Existe um caderno de capa azul pequeno. A dona Miguelina guardou-o na gaveta da mesinha de cabeceira dela desde novembro de 2013. Tem 31 páginas.

Em cada página, apontamentos com lápis, com a letra cuidadosa de uma mulher que tinha sido enfermeira. Na primeira página, o título Coisas que o meu filho precisa de saber antes que seja tarde. Nas seguintes datas, valores, contas, contratos, todas as coisas que o Roberto Assis fazia sem o Ronaldinho saber. 23 itens concretos.

Em agosto de 2024, a dona Miguelina faleceu, 79 anos. Cancro do pâncreas. Nos últimos dias, deitada numa cama do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, chamou o Ronaldinho para o lado dela, entregou-lhe o caderno azul, falou apenas uma frase: “Filho, perdão por não teres dado isso antes.

Eu queria proteger-te, mas já é adulto. Agora decide que fazer com a verdade.” E morreu três dias depois. O Ronaldinho leu o caderno inteiro, demorou uma noite toda, chorou. E no fim fez uma coisa que a mãe não esperava, não processou o irmão, não foi para a imprensa, não publicou o conteúdo do caderno, guardou-o na gaveta da sua mesinha de cabeceira, igual a mãe tinha guardado durante 11 anos, e falou para um amigo próximo num bar de Porto Alegre uma frase que o amigo gravou no telemóvel sem o Ronaldinho perceber. A frase era esta: “A minha mãe

carregou isso sozinha durante 11 anos para me proteger. Se eu agora destruo meu irmão, destruo o sacrifício da minha mãe. Prefiro carregar a verdade e a morrer a sorrir, tal como aprendi aos 8 anos. Mas há uma coisa que o Ronaldinho fez em 2022, que quase ninguém conta. Voltou ao Paraguai. Sim. Voltou ao mesmo país que tirou seis meses à vida dele.

Convidaram-no para um evento solidário para crianças de rua. Ele podia ter dito que não. Podia ter mandado um representante. Ninguém ia julgar. Mas foi. Chegou em Assunção, passou pelo mesmo aeroporto onde foi preso, visitou a fundação, jogou à bola com as crianças e depois fez uma coisa que ninguém esperava.  pediu para visitar a cadeia, voltou paraa agrupação especializada, a mesma cadeia onde tinha estado 32 dias, onde tinha chorado nessa primeira noite, onde tinha organizado o campeonato.

Os agentes não acreditavam. Por que razão ele quer voltar aqui para agradecer? Entrou no pátio. Os presos cercaram-no. Alguns dos mesmos que tinham estado com ele dois anos antes, outros novos que conheciam a história dele. “Vocês fizeram-me ensinaram uma coisa”, disse-lhes. Ensinaram-me que não importa onde se está, não importa o que tenha feito, pode sempre escolher como viver aquele momento.

Você pode ficar amargurado ou pode procurar a felicidade. jogou à bola com eles igual dois anos antes e quando se foi embora deixou uma coisa para eles: bolas, t-shirts e uma frase escrita na parede do pátio:  “A liberdade está na cabeça, ninguém te pode tirar”. Hoje o Ronaldinho tem 45 anos, está reconciliado com o irmão Roberto.

A justiça paraguaia encerrou o caso, mas a dívida fiscal no Brasil continua. Ele vendeu três apartamentos para pagar parte. Dá entrevistas de vez em quando, joga futebol amigável com amigos. Visita a comunidade onde nasceu no Porto Alegre, todos os meses. Distribui brinquedos para crianças pobres. Continua a sorrir, mas já não é o sorriso de há pouco.

Há uma frase que o Ronaldinho repetiu-o toda a vida. O dinheiro vai e volta. quando ganhava milhões, quando perdia, quando não estava nem aí. Na cadeia paraguaia, ele compreendeu o final dessa frase. O dinheiro vai e volta, a fama vai e volta, os troféus estão em vitrine. Mas o jeito que vive, a forma como trata as pessoas, o sorriso que decide ter de manhã, isso fica para sempre.

Tem milhões de homens assim neste preciso momento. Homens que transportam segredos de família para não destruir promessas feitas a mortos. Homens que sorriem enquanto se partem por dentro. Homens que perdoam irmão, pai, esposa, amigo,  porque quebrar o laço de família pesa mais do que carregar a traição.

Homens que aprenderam desde crianças que chorar é egoísmo, que sentir é fraqueza, que sorrir é a única forma de dignidade masculina.  Estes homens têm o coração demasiado grande para um mundo que não ensinou nenhum homem a chorar. O Ronaldinho é um deles, o Adriano era outro, o Garrincha também.  E amanhã, no próximo episódio, vamos contar a história de um quarto.

Um homem que ganhou três mundiais de Fórmula 1. Um homem que viu um colega morrer dentro da pista. Um homem que, ao volante de um Williams, atravessou a curva de tamburelo a 300 km/h em direção a um muro de betão. O nome dele  é Lenda. O nome dele vibra no coração do Brasil até hoje, mas a verdade sobre a morte do Airton Sena nunca te foi contada.

Se a história do Ronaldinho fez pensar em alguém, liga hoje, não amanhã. Hoje, liga para o o teu irmão, para o teu pai, para o teu filho, para o seu amigo. Liga, mesmo que ele responder mal, mesmo que  ele fale que não precisa de nada, liga a si mesmo. Porque a maior tragédia do Ronaldinho não foi a prisão paraguaia,  foi que durante 40 anos, ninguém na sua família teve coragem de falar a verdade sobre  o irmão que ele amava.

E a verdade dita na hora certa, podia ter poupado 30 anos de mentira.  Se conheces alguém que carrega um segredo de família assim, fala-lhe hoje. Conta a verdade. Melhor a dor de saber do que a dor de descobrir, porque o dinheiro vai e volta, a  fama vai e volta, mas a forma como decidiu viver, isso fica.

E se esta história te tocou,  subscreve o canal. Porque a próxima vai doer ainda mais.

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