Em abril de 1963, João X assinou o documento mais politicamente explosivo que um Papa havia assinado em séculos. Uma encíclica dirigida não apenas aos católicos, mas a toda a humanidade, que exigia o fim da corrida armamentista nuclear. que atacava diretamente a lógica da Guerra Fria, que irritou simultaneamente Washington e Moscovo.
33 dias depois, João 23 estava a morrer. Os médicos disseram que era cancro do estômago, que a doença havia progredido rapidamente, que havia pouco a fazer. E o papa mais amado século XX morreu em junho de 1963 com o Concílio Vaticano II, que havia convocado ainda em curso e com o mundo em choque. Mas havia perguntas sobre a velocidade da deterioração, sobre o que havia mudado nos últimos meses, sobre quem tinha acesso ao Papa nos dias finais e sobre por o Vaticano controlou tão rigorosamente a informação sobre o seu estado de saúde até ao fim.
O que aconteceu a João 23 depois de assinar o documento que perturbou os dois impérios mais poderosos do mundo? Ângelo Giuseppe Roncali nasceu em80 e um numa família de camponeses pobres de Bérgamo, no norte de Itália. Era o quarto de 13 filhos. Cresceu na pobreza rural italiana do final do século XIX e entrou para o seminário porque era o caminho que uma família pobre e profundamente católica via para um filho inteligente.
Foi ordenado sacerdote em 1904. Passou décadas como diplomata papal em países que o formaram de formas que nenhum outro papa do século XX havia experimentado. Bulgária, Turquia, Grécia e depois França, onde chegou como núncio apostólico em 1944 no momento da libertação de Paris e onde permaneceu até 1953. Estas décadas de diplomacia em países não católicos, em contextos de diversidade religiosa e cultural que a maioria dos cardeis romanos nunca havia experimentado, formaram um homem com uma visão do mundo radicalmente diferente da
cúria romana. Um homem que havia aprendido que o diálogo era possível, onde outros viam apenas divisão, que havia visto de perto o que a guerra fazia às populações civis. e que havia desenvolvido uma convicção de que a igreja devia ser um instrumento de paz num mundo que escolhia continuamente a guerra. Tornou-se patriarca de Veneza em 1953 e foi eleito papa em outubro de 1958 com 76 anos.
Uma idade que levou muitos a acreditar que seria um papa de transição, um papa que manteria o status qu enquanto os cardeais preparavam o candidato seguinte. Foi o maior erro de avaliação na história recente do Vaticano. Três meses após a eleição, João X anunciou o que ninguém esperava. Um concílio ecumênico, o primeiro em quase 100 anos.
O Vaticano Segundo, um concílio que convidava a igreja a olhar para o mundo moderno, não com desconfiança, mas com abertura, que ia reformar a liturgia, transformar a relação da igreja com as outras religiões e atualizar praticamente todos os aspectos da vida eclesial. A cúria romana ficou em choque. Os cardeais conservadores que haviam pensado que Roncali era um velho inofensivo, perceberam o que tinham eleito.
Um homem de 76 anos com a energia e a visão de um reformador de 40. O concílio abriu em outubro de 1962 e João X viveu o suficiente para ver a primeira sessão, mas não viveu para ver o fim. O que aconteceu entre a abertura do concílio em outubro de 1962 e a morte em junho de 1963? É a história que este vídeo precisa de contar. Em outubro de 1962, o mundo esteve mais perto de uma guerra nuclear do que em qualquer outro momento da história.

A crise dos mísseis de Cuba. 13 dias em que John Kennedy e Nikita Krusev estiveram à beira de desencadear um conflito que podia ter destruído a civilização. João X interveio de uma forma que raramente aparece nas narrativas populares da crise. enviou mensagens pessoais a Kennedy e a Krusev. Apelou publicamente ao diálogo e a rádio do Vaticano transmitiu o seu apelo em múltiplas línguas.
Krev, num gesto extraordinário, agradeceu publicamente ao Papa pela sua intervenção. Ao Papa, o líder da União Soviética, ateia a agradecer ao Papa Católico. Este episódio revelou algo sobre João 23, que perturbava os sectores mais conservadores de ambos os lados da Guerra Fria, que era capaz de falar com o inimigo, que não via o mundo dividido em campos onde a igreja pertencia obrigatoriamente a um, e que a sua influência moral transcendia as divisões políticas que outros consideravam absolutas.
E então veio a passar. Em abril de 1963, João X assinou a encíclica Pacing in Teresis, paz na Terra. Era um documento sem precedente na história papal. Não era dirigido apenas aos católicos, era dirigido a todos os homens de boa vontade, a toda a humanidade, uma primeira vez absoluta na história da igreja. O que a Pacen Teres dizia perturbava toda a gente.
dizia que a corrida aos armamentos era uma ameaça à paz, que todos os governos tinham obrigação de parar, que as armas nucleares deviam ser banidas, que o o desarmamento era uma obrigação moral, que a guerra na era nuclear era irrazoável, porque os danos seriam de uma magnitude impossível de justificar por qualquer objetivo político.
para os Estados Unidos que fundavam a a sua estratégia de defesa na superioridade nuclear, era um documento que atacava diretamente a base da política de dissuasão para a União Soviética, que fundava igualmente a sua segurança na dissuazão nuclear, era o mesmo problema. Ambas as superpotências eram atingidas pelo mesmo argumento moral, mas havia mais.
A Penis falava também de direitos humanos com uma linguagem que as As ditaduras aliadas do Ocidente não queriam ouvir. De direito à liberdade religioso que as repúblicas socialistas violavam sistematicamente, de direito à participação política que as ditaduras de direita aliadas dos americanos negavam.
Era um documento que atacava todos os lados com a mesma medida moral. O impacto foi imediato e global. A Pacing in Teris foi o documento papal mais lido do século XX, traduzido para dezenas de línguas, discutido nas Nações Unidas, elogiado por líderes de todas as orientações e temido por aqueles que a lógica da Guerra Fria tornava vulneráveis à sua argumentação.
33 dias depois de a assinar, João X estava a morrer. O diagnóstico oficial era cancro do estômago. Tinha sido diagnosticado com a doença antes de assinar a Pacing in Teres, o que significa que sabia que estava a morrer quando assinou o documento mais polémico do seu pontificado, que assinou sabendo que não viveria para ver as consequências completas.
Esta consciência da morte iminente quando assinou a Pacen in Teres é um dos elementos mais perturbadores desta história. Um homem que sabe que está a morrer e que escolhe o seu último acto público significativo como um documento que vai perturbar os dois impérios mais poderosos do mundo.
Um acto final de uma clareza moral que não se preocupa com as consequências porque sabe que não vai estar presente para as enfrentar. Ou era um homem que assinou o documento sem saber que morreria tão rapidamente e que a rapidez da deterioração após a assinatura é a questão que as perguntas sem resposta de 1963 deixaram abertas.
O que dizem os arquivos sobre os últimos meses de João 23? O Vaticano controlou rigorosamente a informação sobre o estado de saúde dos João X durante os meses finais. Os comunicados oficiais eram minimalistas. Os médicos que o tratavam falavam pouco e o acesso ao Papa nos últimos dias era restrito a um círculo muito pequeno.
Esta opacidade em torno da morte do Papa mais popular do século XX gerou especulação que o Vaticano nunca resolveu completamente com transparência. Não porque houvesse provas de algo diferente do cancro, mas porque o padrão de controlo da informação era o mesmo padrão que vimos nos casos em que havia razões para controlar a informação.
Os que estiveram presentes nos últimos dias descrevem um João 23 em paz, que tinha dito o que tinha a dizer, que havia convocado o concílio que considerava necessário, que havia assinado a Pacing in Teres, que era o resumo do que acreditava sobre o mundo, e que aceitava a morte com a serenidade de alguém que tinha feito o que tinha vindo fazer.
As últimas palavras atribuídas a João 23 são: Ut, unum sint, que todos sejam um. A oração de Jesus pela unidade que João 23 tinha feito a divisa do seu pontificado e que era ao mesmo tempo uma oração e um programa. A visão de uma humanidade unida que a Pacen in Teres tinha tentado articular. João X faleceu a 3 de junho de 1963.
com 81 anos, com o concílio que tinha convocado ainda em curso, com a Pacen in Teresis, que assinara a circular pelo mundo, e com o pontificado mais breve, mas mais transformador da história moderna, a deixar uma herança que nenhum dos seus sucessores conseguiu completamente gerir. O que ficou por dizer? O que João 23 sabia e não chegou a implementar? E o que o Vaticano decidiu não revelar sobre os últimos meses de um homem que tinha perturbado o equilíbrio da Guerra Fria com um documento dirigido a toda a humanidade.
As perguntas ficam, como ficam sempre nesta série, com os documentos parcialmente abertos, com os testemunhos dos que estavam presentes já desaparecidos, e com a história de um homem que, em 5 anos de pontificado, transformou uma igreja de 2000 anos de formas que os os seus sucessores ainda estão a gerir. Comenta aqui em baixo o que achas.
Acreditas que a morte de João 23, 33 dias depois de ter assinado a Passem in Teres foi apenas cancro? Ou há questões que a versão oficial não responde completamente? A tua resposta pode ser o próximo episódio. Para entender completamente o impacto da Pacing in Teres e por perturbou simultaneamente os dois lados da Guerra Fria, precisa entender o que era o mundo em abril de 1963.
A crise dos mísseis de Cuba havia terminado apenas seis meses antes. O mundo havia ficado à beira da guerra nuclear em outubro de 1962. E o que a crise revelara era que os mecanismos de controlo entre as duas superpotências eram frágeis de uma forma que assustava os próprios líderes que os operavam. Kennedy e Krusev haviam sobrevivido à crise com a consciência de que tinham estado a dois passos de um conflito que nenhum dos dois queria, mas que os sistemas que governavam podiam ter desencadeado sem que nenhum dos dois o
escolhesse, diretamente, que havia uma lógica de escalada nas armas nucleares que tinha vida própria e que o próximo incidente podia não terminar da mesma forma. É neste contexto que a paz em interes chegou, não como uma reflexão abstracta sobre a paz, mas como um documento que colocava em linguagem moral clara o que os dois líderes haviam sentido na carne seis meses antes, que a guerra nuclear era uma loucura que a humanidade devia proibir.
O impacto foi de uma escala que o Vaticano não havia esperado completamente. O New York Times publicou o texto completo. As Nações Unidas discutiram no em sessão plenária. Krusev disse que era o documento mais importante que uma autoridade religiosa havia produzido no século XX. E Kennedy, que era católico, encontrou-se numa posição delicada.
O seu papa havia acabado de atacar moralmente a estratégia de dissuasão nuclear que a sua própria administração defendia. Para os sectores militares e de inteligência dos dois lados, um papa com esta capacidade de influência moral global era uma variável que complicava os cálculos estratégicos. Um homem que podia dirigir-se a toda a humanidade e ser ouvido, que podia criar pressão moral sobre populações católicas em países estratégicos e que não estava subordinado a nenhuma das duas superpotências.
33 dias depois de assinar este documento, João 23 estava a morrer. A coincidência pode ser apenas coincidência, mas é a coincidência que ninguém consegue completamente ignorar. Há um aspecto da intervenção de João 23 na crise dos mísseis de Cuba, que raramente aparece nas narrativas populares, mas que é historicamente documentado.
João 23. Não apenas enviou mensagens privadas a Kennedy e a Krusev, utilizou a Rádio Vaticano para transmitir um apelo público que foi ouvido em todo o mundo. Um apelo que pedia aos líderes das duas superpotências que negociassem em vez de escalarem e que foi, segundo algumas fontes, um dos fatores que contribuiu para que Kruchev escolhesse a via diplomática em vez da confrontação.
O historiador Norman Cusens, que serviu como intermediário informal entre Kennedy e Krushev durante e após a crise, escreveu que João X havia tido um papel que a história oficial subestimava que a autoridade moral do Papa havia criado um espaço político para a recuo que as duas superpotências precisavam, mas que não podiam iniciar diretamente sem parecer fraqueza.
Este papel de mediador moral numa crise nuclear era exatamente o tipo de poder que as duas superpotências não queriam que uma instituição independente possuísse. O poder de criar espaço diplomático que nenhuma das duas podia criar sozinha. O poder de falar diretamente às populações sobre a cabeça dos governos e o poder de atribuir a autoridade moral a posições políticas específicas.
João 23 tinha este poder e havia demonstrado que estava disposto a usá-lo na crise de Cuba e depois na Passem Interis. Dois actos de um mesmo padrão. Um papa que se recusava a aceitar a lógica da Guerra Fria como inevitável e que usava a autoridade moral que possuía para criar alternativas. O que os governos dos dois lados calculavam sobre este papa e sobre o que faria a seguir é o contexto da morte de junho de 1963, que nunca foi completamente investigado.
Existe uma dimensão do pontificado de João 23, que raramente é discutida, mas que é central para compreender por a sua morte. Em 1963 deixou perguntas abertas que os arquivos do Vaticano ainda não responderam completamente. João X havia iniciado contactos diplomáticos com a União Soviética que nenhum papa anterior havia tentado.
contactos discretos através de intermediários que visavam melhorar a situação dos católicos nos países do bloco soviético e que implicavam um reconhecimento implícito de que a igreja devia falar com o inimigo ateu em vez de apenas condená-lo. Esta abertura ao diálogo com Moscovo era exatamente o que os sectores mais conservadores, tanto dentro da igreja como nos governos ocidentais aliados do Vaticano, temiam.
via no diálogo uma legitimação implícita do regime soviético e via em João 23 um papa que estava a desviar a igreja da posição anticomunista que havia definido a relação entre o catolicismo e a Guerra Fria desde o início. Pio X havia sido o Papa anticomunista por excelência, o papa que havia escomungado os comunistas, o papa que aia considerava um aliado natural na luta contra o comunismo soviético.
João 23 estava a mudar esta posição de formas que os aliados ocidentais do Vaticano não aprovavam e ao mesmo tempo estava a perturbar Moscovo com a Passen in Teris, que exigia direitos que os regimes comunistas violavam sistematicamente. Era um papa que não era nem do ocidente, nem do leste, que falava a ambos com a mesma medida moral e que, por isso, era visto como ameaça por ambos.
Um papa que ninguém controla é um papa que todos os regimes com interesse em controlar a narrativa moral preferem que não exista. Esta é a lógica que o contexto de 1963 torna visível e que a morte de João 23, 33 dias após a passem ineris torna perturbante de uma forma que o diagnóstico de cancro não resolve completamente.
Há um elemento desta história que é específico da tradição italiana e que raramente aparece nas versões internacionais do pontificado de João 23. Itália em 1963 estava no meio de uma crise política interna que tinha implicações diretas para o Vaticano. O Partido Comunista Italiano era o maior Partido Comunista da Europa Ocidental, com uma presença eleitoral e uma influência cultural que os governos de centro e de centro direireita apoiados pelo Vaticano tentavam conter.
E a política do Vaticano face ao comunismo italiano era uma questão de primeira importância política interna. A abertura de João X ao diálogo com o comunismo soviético enviava sinais políticos que a democracia cristã italiana, o partido que governava com o apoio tradicional do Vaticano, não sabia como interpretar.
Se o Papa falava com Moscovo, que mensagem enviava sobre como devia tratar o Partido Comunista Italiano? Se a Pe usava uma linguagem que o Partido Comunista podia usar nos seus próprios argumentos, estava o Papa a fortalecer o inimigo político. Estas tensões eram reais e eram discutidas nos círculos políticos e eclesiásticos romanos de 1963.
E a morte de João X, em junho desse ano, resolveu uma tensão que estava a tornar-se difícil de gerir. O seu sucessor, Paulo VI, era um homem mais cauteloso, mais diplomático, mais sensível às preocupações da cúria que João X havia frequentemente ignorado. Com a morte de João X, os sectores conservadores dentro da igreja, que haviam estado desconfortáveis com a velocidade das reformas e com a abertura ao diálogo com o comunismo recuperaram influência.
Não toda a influência. O concílio que João 23 havia convocado continuou, mas com um ritmo e uma direcção que diferiam do que João X havia imaginado. A morte de João X foi conveniente para muita gente. Esta observação não é prova de nada, mas é um dado que qualquer análise honesta do contexto de 1963 não pode ignorar.
Existe um aspecto da saúde de João X3 nos meses finais que raramente é discutido com a especificidade que os dados disponíveis permitem. João X foi diagnosticado com cancro do estômago em setembro de 1962, antes de a Pacing in Teres ser escrita, antes de a assinar. O diagnóstico era conhecido por um círculo muito restrito dentro do Vaticano e João 23 tinha consciência de que estava a trabalhar contra o tempo.
O que os documentos disponíveis mostram é que a deterioração foi mais rápida do que os médicos haviam previsto inicialmente, que a doença progrediu de uma forma que surpreendeu os que a acompanhavam e que os últimos meses foram de uma intensidade que o Vaticano tentou gerir sem dar ao mundo a dimensão real do que estava a acontecer.
Há uma questão médica que os críticos colocam, mas que não tem resposta definitiva. A taxa de progressão do cancro gástrico de João X foi consistente com o padrão normal da doença ou foi inusitadamente rápida? Os registros médicos completos não foram tornados públicos. O que existe são os comunicados oficiais do Vaticano, que eram mínimos, e os testemunhos dos que estavam presentes, que eram controlados.
Esta opacidade em torno dos detalhes médicos específicos é o que alimenta as perguntas que a versão oficial não resolve completamente. Não porque haja prova de algo diferente de cancro, mas porque a transparência, que permitiria descartar definitivamente qualquer questão, não foi fornecida. E o padrão de controlo da informação é o mesmo padrão que vimos em casos onde havia razões para controlar.
O Vaticano que controlou a informação sobre a saúde de João X em 1963, era o mesmo Vaticano que controlara a informação sobre a morte de João Paulo I em 1978. E o mesmo Vaticano que guardou por décadas os arquivos de Pio X, o padrão é a instituição, não necessariamente os eventos específicos. Mas o padrão é consistente.
Para terminar esta história com a perspectiva completa que merece, há um elemento final que é, ao mesmo tempo o mais simples e o mais importante. João 23 foi canonizado em 2014 pelo Papa Francisco, junto com João Paulo I, a dupla canonização mais mediática da história recente da igreja. E com uma especificidade que raramente é mencionada, João 23 foi canonizado sem que lhe fosse verificado um segundo milagre, o que normalmente é exigido para a canonização.
Francisco usou uma prerrogativa papal para dispensar o requisito. Esta decisão de Francisco pode ser lida de múltiplas formas, como reconhecimento de que a santidade de João 23 era tão evidente que os procedimentos normais eram desnecessários. Ele briga dos mil. Ele ubriga dos mil como um gesto político de um papa que se identificava com o projeto reformador de João X e que queria dar-lhe a mais alta distinção possível, ou como uma forma de fechar definitivamente qualquer questão sobre o pontificado de João 23,
apresentando-o como santo incontestável. João 23 foi canonizado sem que as perguntas sobre os últimos meses da sua vida tivessem sido respondidas de forma completa e transparente, sem que os registros médicos detalhados tivessem sido tornados públicos e sem que o contexto geopolítico da sua morte em plena Guerra Fria tivesse sido investigado com a independência que um caso desta importância histórica merecia.
O papa mais amado século XX. O homem que convocou o maior concílio da história moderna da igreja. O Papa que falou com Cruz durante a crise de Cuba. O Papa que escreveu a Pacing in Teres e morreu 33 dias depois e que foi canonizado com as perguntas sobre a sua morte guardadas nos arquivos que o Vaticano controla.
Como sempre nesta série, como em João Paulo I. Como em João Paulo I, como em Bento X, os papas que perturbaram os poderes do seu tempo morreram ou partiram com perguntas que a versão oficial não respondeu completamente e os arquivos que poderiam responder ficaram guardados por décadas ou para sempre. Existe uma questão que raramente é articulada diretamente, mas que é fundamental para entender o contexto da morte de João 23.
Em 1963, o mundo estava no meio de uma série de assassinatos e mortes políticas que moldaram a segunda metade do século XX. Em novembro de 1963, 6 meses após a morte de João X, Kennedy foi assassinado em Dallas. Em 1965, Malcon X foi assassinado. Em 1968, Martin Luther King e Robert Kennedy foram assassinados. Os anos 1960 foram uma década de eliminação de figuras de autoridade moral independente que perturbavam o status quo das superpotências.
Não todos os casos eram assassinatos políticos provados. Mas o padrão de quem morria e quando morria era suficientemente consistente para que os historiadores ainda debatam as causas de múltiplos eventos desse período. João 23 não está nesta lista porque a explicação oficial cancro é medicamente plausível e porque não há prova directa de nada diferente.
Mas o contexto da sua morte, num período de eliminação de figuras inconvenientes, com um documento recentemente assinado que perturbava simultaneamente os dois impérios mais poderosos do mundo, é o contexto que torna as perguntas legítimas, não como acusação, como reconhecimento de que a história dos anos 1960 tem dimensões que a narrativa oficial subestimou e que um papa que assinou a Peen em Terres e morreu 33 dias depois merece pelo menos as mesmas perguntas que os historiadores fazem sobre outros eventos do mesmo período.
Há um detalhe sobre o legado de João 23 que é fascinante e que raramente é mencionado. A Pacing inis é considerada por muitos historiadores o documento papal mais influente do século XX em termos de impacto fora da igreja. Mais influente do que qualquer encíclica de João Paulo II, mais influente do que os documentos do Concílio Vaticano I, porque foi o primeiro documento papal dirigido a toda a humanidade e porque os seus argumentos sobre direitos humanos, paz e desarmamento anteciparam décadas de debate que ainda hoje continua.
E foi o último grande acto público de João 23, o documento que assinou sabendo, segundo todos os relatos, que estava a morrer, que era possivelmente o último contributo significativo que daria ao mundo, e que escolheu que esse contributo fosse um documento sobre a paz. Esta escolha de usar os últimos recursos que tinha para falar sobre paz num mundo que estava à beira da guerra nuclear diz algo sobre quem João 23 era que nenhuma análise política consegue completamente capturar.
Era um homem de fé que acreditava que a sua vocação até ao fim era ser instrumento de paz e que cumpriu essa vocação com o tempo que tinha. Se a sua morte foi acelerada por forças que a história não documentou completamente, a ironia é perfeita. O documento sobre a paz que assinou antes de morrer é hoje mais relevante do que quando foi escrito num mundo com mais armas nucleares, com mais conflitos, com mais necessidade da voz moral que João 23 representava e com as perguntas sobre a sua morte, ainda sem resposta definitiva.
Para terminar com a honestidade que esta história exige, há um último elemento que precisa de ser dito. série tem explorado os papas do século XX com uma consistência que revela um padrão. João Paulo I morreu com perguntas que o Vaticano nunca respondeu completamente. João Paulo II sobreviveu a um atentado e guardou silêncio sobre o que ouviu do atirador.
Bento X leu 300 páginas e renunciou. Pio X sabia do holocausto e ficou em silêncio. E João X morreu 33 dias depois de assinar o documento mais politicamente perturbador do seu pontificado. O padrão não é de conspirações comprovadas, é de uma instituição que tem um estilo consistente de gerir a informação sobre eventos perturbadores, de controlar o acesso, de selar arquivos, de dar explicações oficiais que são médica ou historicamente plausíveis, mas que não respondem a todas as perguntas, e de beatificar e canonizar os que perturbaram os poderes
do seu tempo, transformando figuras potencialmente inconvenientes em santos que a instituição pode celebrar sem ter de responder completamente ao que os tornou inconvenientes. João 23 foi canonizado. A Pen Teres é celebrada. O Concílio Vaticano II é parte da história oficial da Igreja e as perguntas sobre os últimos 33 dias do pontificado ficam guardadas onde sempre ficaram.
nos arquivos que o Vaticano controla, com as respostas que talvez nunca cheguem e com o papa mais amado século a sorrir nas pinturas, como sempre sorriu, com os olhos de um homem que havia visto o mundo de perto e que havia decidido que a única resposta sensata era a paz. Há um elemento sobre o Concílio Vaticano I que conecta diretamente à morte de João X e que raramente é apresentado de forma integrada.
O concílio que João X convocou tinha inimigos dentro da própria igreja, cardeais conservadores que viam nas reformas uma traição à tradição, que consideravam que a abertura ao mundo moderno era uma capitulação perante as forças do secularismo e que haviam resistido à convocação do concílio desde o início. João 23 havia ignorado esta resistência com uma persistência que surpreendia os que o rodeavam.
havia convocado o concílio contra a vontade da maioria da Cúria. Havia recusado deixar que os preparativos fossem dominados pelos departamentos conservadores do Vaticano, que queriam concílio com resultados pré-determinados, e havia acompanhado a abertura do concílio com um discurso, o famoso Gaudet Mater Eclesiai, que atacava diretamente os que ele chamou de profetas do pessimismo dentro da igreja.
Esta hostilidade interna era real e documentada. E a morte de João 23 permitiu que Paulo VI conduzisse o concílio de uma forma mais cautelosa e mais sensível às preocupações dos sectores que João X havia frequentemente ignorado. Os documentos finais do Vaticano II são mais moderados do que o que João X havia imaginado.
Mais negociados, mais cheios de compromissos. Se João X houvesse conduzido o concílio até ao fim, a igreja que emergiu do Vaticano II teria sido diferente, mais radical nas reformas litúrgicas, mais aberta ao diálogo e, possivelmente, composições sobre a guerra e o armamento nuclear que a Pacing in Teresis anunciava e que o concílio na liderança de João 23 poderia ter codificado como doutrina formal.
A morte de João X em 1963 mudou o resultado do Concílio Vaticano II, não necessariamente de forma dramática, mas de formas que os teólogos que estudam o período identificam com precisão. E esta mudança beneficiou exatamente os sectores que mais haviam resistido ao estilo de João X. Mais uma vez, não como prova de nada, como contexto que torna as perguntas legítimas.
Há também o elemento das relações com a União Soviética que João X havia iniciado e que Paulo VI continuou de forma muito mais cautelosa. Os contactos discretos com Moscovo que João 23 havia estabelecido foram mantidos, mas com uma moderação que os esvaziou da ambição que João X havia imaginado.
Ast politique vaticana, a política de diálogo com o bloco soviético, foi uma sombra do que João X havia começado a construir. O homem que havia falado com Krusev durante a crise de Cuba, que havia escrito a passen in ter, que havia iniciado um diálogo que transcendia a lógica da Guerra Fria, morreu antes de poder continuar.

E o que se seguiu foi mais prudente, mais cauteloso, mais sensível às preocupações dos que a lógica da Guerra Fria não queria perturbar. Existe um dado sobre a popularidade dos João 23, que é em si mesmo uma declaração sobre o que ele representava. Quando João X morreu, a 3 de junho de 1963, as cenas de luto em Roma foram das mais intensas do séc.
Multidões que esperaram horas para passar pelo corpo exposto, pessoas que choravam nas ruas e reações de líderes de todo o mundo que iam muito para além do protocolo diplomático habitual. Krv, o líder da União Soviética Ateia, enviou condolências pessoais. A imprensa soviética, que normalmente ignorava ou atacava o Vaticano, publicou obituários respeitosos.
E nos países do bloco soviético, onde o catolicismo era suprimido, havia notícias de pessoas que choravam publicamente a morte de um homem cujo nome mal conseguiam pronunciar sem risco. Este luto global que transcendia fronteiras religiosas e políticas era o sinal mais claro do que João X tinha sido.
não apenas o Papa dos católicos, mas uma figura de autoridade moral que tinha conseguido o que poucos conseguem, ser respeitado por pessoas que não partilhavam a sua fé, que o viam como genuíno, que reconheciam na sua voz algo diferente da retórica política de qualquer governo. Uma figura com esta capacidade de A comunicação transversal é exatamente o tipo de figura que os poderes estabelecidos preferem não ter de gerir, que não se enquadra nas categorias de aliado ou inimigo, que tem influência que não é controlável pelos mecanismos normais de controlo político e que pode
usar essa influência de formas que perturbam os cálculos de quem toma decisões com base em modelos onde toda a gente tem um lado. João 23 não tinha um lado, tinha uma posição. E a sua posição era a paz, uma posição que irritava tanto o Ocidente como o oriente e que o tornava inconveniente para todos os que a lógica de blocos precisava que ficassem no seu lugar.
33 dias depois da Pacing in Teres, com o cancro que progredia, com as perguntas que ficam e com o sorriso nas pinturas de um homem que decidira que a única resposta ao mundo que via era amar suficiente para dizer a verdade. Independentemente da forma como morreu, o que João 23 foi, é a história mais importante desta série até ao momento.
Não porque seja o mais misterioso, mas porque é o que mais claramente mostra o que custa ser a voz moral que nenhum poder consegue controlar. E o que acontece quando essa voz é silenciada? Seja pela doença, seja pela força, seja pela cruel coincidência de um 33 dias que a história não esqueceu? Há um elemento desta história que é especificamente relevante para a audiência brasileira e que raramente aparece nas coberturas internacionais.
O Brasil de 1963 estava a dois meses de um golpe de estado que transformaria o país por 21 anos. Em abril de 1964, os militares tomaram o poder e a Igreja Católica Brasileira foi uma das instituições que mais claramente se posicionou-se em relação ao regime militar nas décadas seguintes. A Passem inis de João X foi um documento que a ala progressista da Igreja Brasileira utilizou extensamente nos anos de resistência à ditadura.
O documento que afirmava os direitos humanos e que condenava a opressão foi brandido por bispos e padres que enfrentavam um regime que torturava e desaparecia os seus opositores. A linguagem da Pénis tornou-se a linguagem da resistência católica ao autoritarismo no Brasil. Se João X tivesse vivido mais anos, a a sua voz durante os anos da ditadura militar brasileira teria sido de uma importância que é impossível calcular.
O homem que tinha falado com Kev com Kennedy, que tinha escrito sobre os direitos inalienáveis de toda a pessoa humana, que condenara a guerra e a opressão com uma clareza que nenhum papa anterior tinha usado. A sua voz, nos anos do A5 e dos desaparecimentos teria sido diferente da voz de Paulo VI, que foi muito mais cautelosa.
Para a audiência brasileira deste canal, que cresceu numa igreja marcada pela teologia da libertação e pelo legado do Dom Hélder Câmara, João 23 é o Papa que plantou as sementes que esta igreja floresceu e a sua morte em 1963, antes de poder ver o que as sementes produziriam, é uma perda que o Brasil e a América Latina sentiram de formas que a Europa e os Estados Unidos não conseguem completamente imaginar.
33 dias depois da Passem in Teres, com o Brasil há menos de um ano de uma ditadura que duraria 21, com o concílio inacabado, com as questões sobre como morreu abertas e com o legado de uma voz que perturbou os poderes do seu tempo e que o tempo provou ter estado certo. Existe uma última dimensão desta história que liga João 23 a todos os papas que este canal explorou.
Esta série começou com João Paulo I, que faleceu em 33 dias, com João Paulo I, que sobreviveu a um atentado, tendo Bento 16, que renunciou após ler 300 páginas, com Pio X, que ficou em silêncio durante o holocausto, e agora com João 23, que morreu 33 dias após assinar o documento mais corajoso do século. O fio que liga todos estes papas não é um fio de conspirações, é um fio de consequências, de papas que tiveram coragem suficiente para dizer ou fazer coisas que perturbaram os poderes do seu tempo e que pagaram preços diferentes por essa
coragem. João Paulo I pagou com 33 dias. João Paulo I pagou com uma bala que o feriu por 2 mm. Bento 16 pagou com 300 páginas que o fizeram renunciar. Pio 12 pagou com o silêncio que o perseguiu pela história. E João 23 pagou com uma morte que deixou o seu maior projeto inacabado. Esta é a história da igreja do século XX através dos seus papas.
Não a história das doutrinas ou dos documentos. A história dos homens que ocuparam o cargo mais difícil do mundo, que enfrentaram poderes que não respeitavam a autoridade moral e que deixaram para a história tanto o que fizeram como o que não puderam fazer. João 23 deixou a Pacis, deixou o Vaticano II, deixou o sorriso que ainda aparece nas pinturas como o sorriso de um homem que amava o mundo com mais generosidade do que o mundo merecia.
e deixou as perguntas sobre os 33 dias que a versão oficial nunca respondeu completamente. Como sempre, nesta série, as perguntas ficam, os arquivos guardam e a história espera quem tem coragem de continuá-la. Para completar esta história com todos os elementos disponíveis, há um dado final que é, ao mesmo tempo, o mais simples e o mais revelador sobre quem João 23 foi.
Angelo Roncali, quando era jovem padre em Bérgamo, mantinha um diário espiritual, um registro íntimo dos seus pensamentos, das suas lutas interiores, das suas orações. Um diário que foi publicado após a sua morte com o título Diário de uma alma. e que é um dos documentos mais honestos sobre a vida interior de um homem que a tradição cristã produziu no século XX.
No diário, o jovem Roncali escreve sobre os seus medos, as suas tentações, as suas fraquezas. Com uma honestidade que contrasta com a imagem pública do Papa sorridente e seguro que o mundo conheceu, mostra um homem que duvidava, que lutava, que precisava da fé, porque a vida sem ela era aterrorizante. E mostra um homem que havia decidido, desde jovem, que a única resposta às incertezas da existência era a bondade.
Não a certeza, não o poder, não a ambição, mas a bondade radical de alguém que decidiu que o mundo podia ser melhor se houvesse pessoas dispostas a tratá-lo como se pudesse ser. Esta bondade radical é o que o mundo viu quando João X3 sorriu das janelas do Vaticano. O que Kruchev reconheceu quando agradeceu pelo apelo durante a crise de Cuba.
O que os milhões que choraram em junho de 1963 estavam a lamentar. Não apenas um papa, mas um tipo de presença humana que o mundo raramente encontra. E é o que torna as perguntas sobre a sua morte 33 dias após a Pacing in Teres ainda mais perturbantes. Porque o que morreu em junho de 1963 não era apenas um líder eclesiástico, era uma voz moral de uma qualidade que o século XX não encontrou com frequência e que deixou o mundo menos bem equipado para os desafios que se seguiram.
João 23. O papa mais amado século morreu misteriosamente 33 dias depois de perturbar o mundo, com as perguntas que ficam e com o sorriso que nenhuma pergunta consegue apagar. Uma última reflexão sobre o que os 33 dias significam nesta história. 33 dias foi o pontificado de João Paulo I e 33 dias foi o intervalo entre a Pacen em Teres e a morte de João 23.
Não é uma coincidência que esta série use o número como gancho. É um número que na tradição cristã tem peso específico à idade de Jesus quando morreu, segundo a tradição, e que na história recente da igreja marcou dois momentos de ruptura. João Paulo I morreu em 33 dias de pontificado, com os papéis nas mãos, com as reformas que nunca implementou e com as perguntas que o Vaticano nunca respondeu completamente.
João X assinou a Passem em Inter e morreu 33 dias depois, com o concílio inacabado, com o diálogo com o bloco soviético interrompido e com as perguntas que a coincidência temporal inevitavelmente levanta. Dois papas, dois momentos, o mesmo número e o mesmo padrão de uma igreja que perde as vozes mais transformadoras antes de poderem completar o que começaram.
Pode ser coincidência. Provavelmente é coincidência, mas a coincidência é suficientemente perturbante para que não possa ser ignorada e suficientemente consistente com o padrão de toda esta série para que a pergunta não possa ser evitada. O que aconteceu nos 33 dias entre a passem ines e a morte de João 23? Os médicos disseram: “Cancro”.
O Vaticano disse: “Aceite com paz. E a história diz, as perguntas ficam: Como ficaram sempre? Como ficarão sempre que um papa perturba os poderes do seu tempo e morre antes de o mundo poder calcular completamente o que perdeu? Há uma última pergunta que este vídeo precisa de colocar antes de terminar. Uma pergunta direta sobre o que este canal pode e não pode afirmar.
Houve algo de suspeito na morte de João 23? A resposta honesta é: Não há prova de nada além do cancro do estômago que os médicos documentaram. Não há documento, não há testemunho, não há evidência forense que prove outra coisa. O que há é contexto. O contexto de um papa que havia perturbado os dois impérios mais poderosos do mundo com um documento assinado 33 dias antes de morrer.
O contexto de um Vaticano que controlou rigorosamente a informação sobre o estado de saúde do Papa. O contexto de uma época em que figuras inconvenientes morriam com uma frequência que ainda intriga os historiadores. E o contexto de uma deterioração que surpreendeu pelo ritmo. Contexto não é prova. Perguntas não são respostas e a especulação não é história.
O que é história é que João 23 existiu, que convocou o Vaticano II, que escreveu a Penis. que falou com Krusev, que sorriu às multidões e que morreu em junho de 1963 com o trabalho inacabado. O que não é história, mas que não pode ser completamente ignorado, é a pergunta que o contexto levanta. 33 dias. Um documento que perturbou o mundo, uma morte rápida e um Vaticano que não forneceu a transparência que permitiria responder definitivamente.
As perguntas ficam: “Como devem ficar? Porque as perguntas que não t resposta são as que mantém a história viva. E a história de João 23 é uma história que merece estar viva com todas as suas perguntas e com todo o sorriso que nenhuma pergunta consegue apagar.