O Milagre da Véspera: Como o Desespero Eleitoral Transformou o Orgulho Comunista em Fervor Católico de Palanque

O cenário político brasileiro sempre flertou intimamente com a dramaturgia. Entre comícios inflamados, promessas irreais e discursos moldados sob medida por marqueteiros regiamente pagos, o eleitor se vê, a cada ciclo eleitoral, sentado na primeira fileira de um grande teatro a céu aberto. No entanto, há limites para a encenação, e o limite costuma ser traçado quando a peça tenta usurpar o que há de mais sagrado na vida do cidadão comum: a sua fé. Recentemente, fomos apresentados a mais um ato dessa tragicomédia republicana, estrelado por um protagonista que, diante do fantasma da rejeição nas pesquisas, decidiu reescrever a própria história espiritual com a mesma facilidade com que se troca de camisa.

Para entender a magnitude desse teatro, precisamos invocar a figura folclórica de João Grilo, o inesquecível personagem de Ariano Suassuna em “O Auto da Compadecida”. João Grilo era o arquétipo do malandro nordestino, um homem faminto, esquálido, que vivia de dar pequenos golpes no sertão profundo para garantir a própria sobrevivência. Ele vendia gatos que supostamente defecavam dinheiro e fingia ressuscitar pessoas com uma gaita benta. Contudo, a malandragem de João Grilo possuía uma certa pureza melancólica; era a astúcia nascida da miséria e do desespero de um estômago vazio. Corta para o Brasil de 2026. O que presenciamos não é a malandragem da sobrevivência, mas o estelionato eleitoral institucionalizado. O nosso João Grilo moderno, portador da faixa presidencial, não passa fome, mas sofre de uma abstinência aguda de popularidade.

Faltando exatamente cinco meses para o próximo embate nas urnas, os números da pesquisa Quaest acenderam a luz vermelha no Palácio do Planalto. O desespero bateu à porta, e a resposta não veio em forma de propostas econômicas sólidas ou melhorias na infraestrutura, mas sim na forma de um milagre teológico instantâneo. De repente, o homem que passou décadas erguendo a bandeira vermelha transformou-se no novo coroinha do Vaticano.

Na sexta-feira, 29 de maio de 2026, durante um evento da Petrobras no estado de Sergipe – um palanque montado com o dinheiro suado do pagador de impostos brasileiro –, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva subiu ao palco para entregar uma de suas atuações mais audaciosas. Em uma aparente crise de abstinência de coerência, ele proferiu uma profissão de fé que faria qualquer roteirista de ficção corar. Com o peito estufado, declarou para a multidão e para as câmeras: “As pessoas às vezes me chamam de comunista neste país. Eu não sou comunista, não, porque sou um católico fervoroso. Eu sou mais cristão do que comunista.”

A frase, solta ao vento, soaria cômica se não fosse tragicamente calculada. O termo escolhido, “fervoroso”, não é acidental. O marqueteiro sabe que o brasileiro é um povo profundamente religioso. Não se trata de ser apenas aquele católico de censo do IBGE, que só pisa na igreja para ser padrinho de batismo ou testemunha de casamento, ansioso pela festa no salão paroquial. O fervoroso é aquele devoto de alma, que chora ouvindo o Padre Marcelo Rossi, que reza o terço de joelhos, que encontra no sagrado a única âncora para suportar as tempestades de um país desigual. Ao apropriar-se desse adjetivo, Lula tenta colar em si mesmo a imagem do homem pio, devoto e temente a Deus.

Porém, esse “Círio de Nazaré” fora de época esbarra em um obstáculo intransponível: a memória digital. O nosso presidente parece ter esquecido um detalhe crucial da modernidade – a internet é um arquivo implacável, uma testemunha ocular que não se deixa subornar por cargos em comissão ou verbas publicitárias. O próprio autor da frase é a prova pericial contra si mesmo. Há pouco tempo, em 2023, com a mesma voz rouca e a mesma retórica populista, o discurso era diametralmente oposto. Naquela ocasião, ele afirmava sem pudores: “Eles nos acusam de comunistas achando que a gente fica ofendido com isso. Nós não ficamos ofendidos. Isso não nos ofende, isso nos orgulha muitas vezes.”

Em 2023, muito longe do calor das urnas, ser comunista era uma medalha de honra no peito, um distintivo de militância para arrancar aplausos da claque no Twitter e da intelligentsia acadêmica. Três anos depois, com a eleição batendo à porta, o comunismo volta apressado para o armário, tranca a porta e veste a batina. Como mágica, o orgulho de 2023 transformou-se no pecado mortal de 2026. É a metralhadora da incoerência disparando em todas as direções, sem freio e sem pudor. O presidente chegou a afirmar internacionalmente que a “pauta dos valores” e a “agenda da família”, tão caras à direita e aos cristãos do mundo inteiro, eram coisas “muito atrasadas”. Agora, ele tenta convencer esse mesmo eleitor conservador – o qual passou os últimos anos chamando de atrasado, fascista e fanático – de que, no fundo, ele é um dos seus.

Essa tática de usar a Bíblia como panfleto de campanha, no entanto, não é um raio num dia de céu azul; é uma herança estrutural de seu partido. Não precisamos voltar muito no tempo para lembrar das eleições presidenciais de 2018. Quando Fernando Haddad e sua candidata a vice, a autodeclarada feminista e comunista Manuela D’Ávila, sentiram o gosto amargo da derrota iminente no segundo turno, o que fizeram? Tiveram uma epifania divina repentina. Correram para os primeiros bancos das igrejas para assistir à missa, ostentando semblantes forçadamente contritos apenas para garantir a foto perfeita para as redes sociais. A fé não nascia de uma experiência mística no deserto ou de um chamado espiritual profundo; nascia em uma sala com ar-condicionado, entre planilhas de rejeição e xícaras de café expresso, onde gráficos demonstravam claramente que o eleitorado cristão repudiava a agenda de esquerda.

A situação ganha contornos ainda mais graves quando a encenação ultrapassa o palanque e adentra o santuário. Em ano eleitoral, é comum vermos políticos posando para fotógrafos oficiais enquanto recebem a hóstia consagrada. Para o católico genuíno – aquele que o presidente jura seguir fervorosamente –, a Eucaristia é o próprio Corpo de Cristo. Recebê-la exige estado de graça, confissão e arrependimento sincero. Comungar de forma deliberadamente ensaiada, sabendo que se trata de um teatro político para angariar os votos das “tiazinhas” humildes e dos trabalhadores crentes, é, segundo a própria doutrina da Igreja Católica, um pecado mortal de profanação. Trata-se de um sacrilégio explícito.

E se quisermos mergulhar ainda mais fundo na teologia de botequim que o governo tenta emplacar, precisamos refrescar a memória histórica. Em 1949, o Papa Pio XII assinou o histórico decreto do Santo Ofício contra o comunismo, que estabelecia a excomunhão automática (latae sententiae) para qualquer católico que promovesse, defendesse ou colaborasse conscientemente com a doutrina comunista. O próprio segredo de Fátima, revelado aos pastorinhos em 1917, trazia o alerta da Virgem Maria sobre os “erros da Rússia” que se espalhariam pelo mundo, uma referência direta ao comunismo e ao materialismo ateu. Pela própria régua da Igreja que ele agora tenta abraçar por conveniência eleitoral, o político que se orgulhava de ser comunista passou a carreira inteira com o passaporte carimbado para a excomunhão.

Como alguém pode posar de beato, beijando crucifixos na frente das câmeras, quando passou a vida inteira politizando alianças e financiando ditaduras na América Latina que, comprovadamente, perseguem clérigos, fecham igrejas e prendem padres e bispos? A resposta é dolorosamente simples: a fé de palanque tem prazo de validade impresso na embalagem. Ela vence no dia da eleição, logo após o fechamento das urnas. Na segunda-feira seguinte, o manto sagrado é jogado no cesto de roupa suja da lavanderia política, e o velho roteiro volta a ser interpretado.

Esse comportamento revela uma genialidade sombria: a ausência total de princípios calcados em rocha, substituídos pela maleabilidade da folhinha do calendário. O presidente apresenta-se como um comunista de raiz quando discursa em um acampamento do MST; transforma-se no católico apostólico romano fervoroso quando precisa quebrar a resistência do eleitorado religioso; encarna o torneiro mecânico humilde quando é confrontado com uma pergunta incômoda da imprensa independente; e veste a fantasia de estadista soberano para agradar as elites globais. São quatro personagens fantásticos vivendo no mesmo corpo, mas nenhum deles se oferece para pagar o boleto de energia com bandeira vermelha que sufoca o orçamento da família brasileira no fim do mês.

O verdadeiro crime dessa estratégia marqueteira não é a mentira em si – a política brasileira, infelizmente, há muito tempo normalizou o estelionato verbal. O crime real é transformar a coisa mais íntima, sagrada e pura que milhões de brasileiros possuem, que é a fé em Deus, num simples truque de mágica de feira.

No Brasil profundo, longe dos gabinetes climatizados de Brasília, a fé não é uma opção; muitas vezes, é a única ferramenta de sobrevivência. Há mães de família que gastam os poucos centavos que lhes restam para acender uma vela, implorando pela vida de um filho doente jogado no corredor de um hospital público sem médicos ou estrutura. Há trabalhadores que suportam uma jornada exaustiva, ganhando um salário mínimo corroído pela inflação galopante, debaixo de sol escaldante, única e exclusivamente porque acreditam que existe uma justiça divina lá em cima para equilibrar a balança de tanta injustiça terrena. Quando o homem que ocupa a cadeira mais importante da República pega essa devoção genuína e a utiliza como um adereço cenográfico, ele comete um ato de soberba que revira o estômago. Ele subestima a inteligência de um povo inteiro, operando sob a premissa de que a nação sofre de uma amnésia coletiva severa e não vai se lembrar das declarações feitas apenas um ano atrás.

É exatamente aqui que o castelo de cartas do marketing governamental começa a ruir, e onde o nosso João Grilo de nove dedos corre o risco de quebrar a cara da pior maneira possível. Quem já leu ou assistiu a “O Auto da Compadecida” sabe que a genialidade da obra de Suassuna não está apenas nas artimanhas de João Grilo na Terra, mas sim no acerto de contas final. No desfecho da história, todo mundo bate as botas e vai parar no tribunal do Juízo Final. No andar de cima, não há assessoria de imprensa para limpar a barra, não há marqueteiro do partido para criar uma nova narrativa, e não há edição de vídeo oficial da Secretaria de Comunicação para cortar a parte que compromete.

Lá, a promotoria é divina. João Grilo, o literário, só escapa da condenação ao fogo do inferno por intervenção da Nossa Senhora, a Compadecida, e por um atenuante inegável: ele era um pobre coitado. Ele enganava para comer, para não morrer de inanição no meio de um sertão impiedoso e esquecido. Nossa Senhora conhecia o seu coração e a sua dor. O nosso João Grilo de 2026, porém, não é um pobre esfomeado tentando sobreviver à seca. Ele é o detentor da caneta presidencial, rindo cinicamente da cara dos fiéis com o único objetivo de se agarrar ao poder e garantir mais anos de privilégios, lagostas, mordomias e o desvio contínuo dos recursos públicos que deveriam estar salvando vidas.

Em outubro, o brasileiro não estará diante do tribunal divino, mas estará frente a frente com o tribunal terreno mais poderoso que existe numa democracia: a urna eletrônica. Nesse momento solitário, longe dos gritos da militância e das propagandas enganosas na televisão, o eleitor cristão olhará para a tela e fará a si mesmo a pergunta que o marketing do governo tentou desesperadamente abafar com incenso barato: em qual dos dois políticos devo acreditar? No orgulhoso admirador do comunismo de 2023, que considerava os valores da família um atraso de vida, ou no beato fervoroso de última hora, que surgiu como num passe de mágica cinco meses antes da votação?

A resposta, meu caro leitor, já está escancarada nas ruas e nas redes. O povo não é bobo. O cidadão de bem percebe quando está sendo tratado como massa de manobra. A manipulação emocional tem limites, e a indignação perante o uso profano da fé está silenciosamente crescendo. Dessa vez, não haverá ressurreição política nas urnas alavancada por mentiras sacrílegas. Se a rejeição continuar subindo, não se espante se, nos próximos meses, o roteiro sofrer uma nova e drástica alteração, e descobrirmos que, na verdade, o líder supremo sempre foi um fervoroso pastor evangélico desde a mais tenra infância.

Enquanto esse circo continua a armar a sua lona, cabe a nós, os supostos “escravos fiscais” dessa engrenagem, manter a vigilância e a memória afiadas. A coerência é a única moeda que não sofre desvalorização no longo prazo. Fique de olho, proteja sua carteira e, acima de tudo, proteja a sua fé daqueles que tentam transformá-la em um mero botão de urna eletrônica.

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