A senhora pode vir ao hospital das clínicas imediatamente? O mundo parou. Amelie não conseguia processar as palavras. Acidente, hospital imediatamente. As suas mãos tremiam tanto que quase deixou o telefone cair. Conseguiu balbuciar alguma coisa, desligar, pegar na mala. A chuva ainda caía lá fora e ela mal se apercebeu que estava descalça quando entrou no táxi.
O percurso até ao hospital foi uma eternidade de segundos. Ameli repetia mentalmente que o Ricardo estava bem, que era apenas um susto, que em breve estariam rindo disso. Mas quando chegou à recepção e viu o olhar da enfermeira, aquele olhar de pena que ninguém consegue disfarçar, algo dentro dela desabou. Sinto muito, senora Carvalho. O seu marido não resistiu ao impacto.
As palavras não faziam sentido. Não resistiu. Impacto. Ameli sentiu as pernas bambearem e apareceu uma cadeira debaixo dela antes que caísse. Alguém ofereceu água. Outra pessoa falava sobre identificação do corpo, mas tudo soava abafado, como se ela estivesse debaixo d’água. Havia outra vítima no mesmo veículo.
A enfermeira continuou consultando uma prancheta. Uma mulher. Beatriz Fonseca também não sobreviveu. Os senhores eram família? Ramilie piscou confusa. Quem? Eu? Eu não conheço nenhuma Beatriz. Eles estavam juntos no carro, senhora, regressando de Campos do Jordão, segundo os documentos encontrados na sua mala. Uma reserva de pousada para o fim de semana.
Foi como se o chão se abrisse por baixo dos pés de Amelie. O Ricardo estava com outra mulher. Numa pousada, ao fim de semana em que dissera ter uma reunião de negócios em Campinas, a dor que veio a seguir não era só pela morte, era pela mentira, pela traição, pelo homem que ela amava e que aparentemente nunca existiu de verdade.
Amely não se lembra de como chegou à sala onde o corpo estava. Não se recorda de confirmar que sim, aquele era o Ricardo. Só se lembra de olhar para o seu rosto, sereno, como se estivesse a dormir, e sentir um ódio tão profundo que a assustou. “Você me deixou.” Sussurrou ela, tocando na mão fria. “Deixaste-me grávida e sozinha?” “E?” “E com quem? Com quem estava?” Foi quando as contrações começaram.
A primeira foi tão forte que a Meli dobrou-se sobre si própria, soltando um gemido. A enfermeira correu até ela, de olhos arregalados. Senhora, a senhora está bem? O bebé. Amélia o fegou. Algo está errado com o bebé. Do outro lado do corredor, nesse mesmo hospital, Julian Fonseca segurava a mão pequena de Sofia enquanto tentava processar o que o médico acabara de dizer. Beatriz estava morta.
Sua esposa de 7 anos, mãe da sua filha, foi morta num acidente de viação. Papá, cadê a mamã? A Sofia perguntou pela décima vez, os olhos grandes e assustados. A mamã a mamã teve de viajar, princesa. Julian mentiu à voz entrecortada. Não conseguia dizer a verdade. Não, ainda não sabia como. Senr. Fonseca. O policial aproximou-se.
Precisamos confirmar algumas informações. Sua esposa disse que ia para onde este fim de semana. Julian franziu a testa para a casa da irmã em Campinas. Por quê? Porque ela estava a voltar de Campos do Jordão com um homem, Ricardo Carvalho. O nome não dizia nada a Julian, mas o resto da frase dizia tudo. Beatriz estava com outro homem num final de semana romântico, enquanto ele ficava em casa com a Sofia, como fazia todos os finais de semana, para que ela descansasse.
Julian sentiu algo romper dentro do peito. Não a dor da perda, mas a dor da humilhação, do engano, dos anos desperdiçados com alguém que mentia tão facilmente. Foi quando a viu, uma mulher grávida, muito grávida, sendo apoiada por enfermeiras do outro lado do corredor. Ela estava a dobrar-se de dor, uma mão na barriga, a cara molhada de lágrimas.
“Ela é a mulher do outro”, uma enfermeira comentou baixinho ao passar. Coitada, grávida de 8 meses e descobrindo isso. Assim, os olhos dos Julian encontraram os de Ameli por um breve segundo. E naquele instante, sem precisar de palavras, ambos souberam. Estavam unidos pela mesma tragédia, pela mesma traição, pela mesma dor impossível de nomear.
Assim, Ameli foi levada às pressas para a ala de obstetrícia e Julian ficou ali parado, segurando A Sofia, olhando para o corredor vazio, onde ela desaparecera. Duas vidas destruídos numa só noite e o pior ainda estava para vir. As duas semanas que se seguiram foram as mais solitárias da vida de Ameli. O velório duplo aconteceu numa tarde cinzenta de Junho, com uma capela dividida ao meio, literalmente.
De um lado, a família de Ricardo, do outro a família de Beatriz. Ao centro dois caixões lado a lado, como se até na morte estivessem juntos. Rameli ficou sentada na primeira fila, a enorme barriga escondida atrás de um vestido preto que já não servia bem, olhando fixamente para o vazio. Não chorou durante a cerimónia, não conseguia.
As lágrimas tinham secado juntamente com qualquer ilusão que tivesse sobre o casamento. Do outro lado da capela, Julian estava rígido como pedra, A Sofia adormecida no colo dele. Seus olhos encontraram os de Ameli mais uma vez. Uma troca silenciosa de dor que mais ninguém ali poderia compreender. Não era só luto, era traição, era raiva, era a sensação de ter sido feito de tolo pelas pessoas que mais amavam.
Quando o padre mencionou o amor, eterno que Ricardo e Beatriz partilham agora, Amel sentiu Billy subir-lhe pela garganta, levantou-se com dificuldade e saiu da capela, ignorando os olhares de pena da família. Luciana, a sua melhor amiga desde a faculdade, encontrou-a do lado de fora, fumando nervosamente. “Você não devia estar aqui”, Luciana, disse, atirando o cigarro para longe e abraçando a Meli. Não depois do que ele fez.
Eu precisava de ver, Amelis sussurrou. Precisava de ter a certeza de que era real, que ele realmente se foi. E agora? O que vai fazer? Amélia olhou para a barriga. Vou ter este bebé sozinha e vou ser suficiente para ele. Vou ser tudo que o Ricardo nunca foi para mim. Mas a vida tinha outros planos.
Duas semanas depois do velório, numa terça-feira comum às 4 da manhã, Amélia acordou molhada. Levou alguns segundos a perceber que não era suor. A bolsa havia estourado. Três semanas antes do previsto. O pânico veio depressa. Ela estava sozinha, completamente sozinha. Pegou no telefone com mãos trémulas e ligou para Luciana, que atendeu no terceiro toque, a voz grog de sono.
Lesm é agora. O bebé está a chegar. Luciana chegou em 15 minutos, acelerando todos os os sinais vermelhos. Levou a Melia à pressas para o hospital. segurando a mão dela durante todo o percurso, enquanto as contrações vinham cada vez mais fortes, mais dolorosas. Tu consegues, Luciana repetia.
Você é a mulher mais forte que eu conheço. Você consegue. Mas quando Ameli foi levada para a sala de partos, sozinha porque as regras do hospital não permitiam acompanhantes naquele momento, nunca se sentiu tão frágil. As contrações eram devastadoras e entre uma e outra ela chorava, não só de dor física, mas de dor emocional. “Ricardo!” Ela soluçava mesmo odiando-se por isso. “Ricardo, preciso de ti”.
Mas Ricardo não estava ali, nunca mais estaria. O Gabriel nasceu às 7:32 da manhã, com 2,1 g. Pequeno, prematuro, mas com um choro forte que ecuou pela sala de partos, como um grito de guerra. Quando a enfermeira colocou aquele pequenino bebezinho no peito de Ameli, ela olhou para o pequeno rosto vermelho e enrugado e sentiu algo a reorganizar dentro dela.
“És meu”, – sussurrou beijando a testa do filho. “Só meu! E eu vou ser suficiente. Eu prometo. Gabriel foi levado para os cuidados intensivos Neonatal. Precaução padrão para prematuros. A Meli ficou sozinha no quarto exausta, dorida, mas com uma clareza que não tinha há semanas. ia sobreviver a isso por Gabriel, por ela mesma.
Foi Luciana quem trouxe a notícia dois dias depois, quando Ameli já estava em casa, tentando adaptar-se às mamadas de três, em três horas com um bebé que mal conseguia mamar. Ameli, Luciana disse a voz pesada. Eu encontrei algumas coisas no computador do Ricardo. Precisa de ver. Ameli não queria ver. Queria apenas esquecer, seguir em frente, fingir que Ricardo nunca existiu.
Mas Luciana insistiu abrindo o portátil na mesa da cozinha. Eram transferências bancárias, dezenas delas. Ao longo dos últimos do anos, Ricardo transferia quantias mensais para uma conta em nome de Beatriz Fonseca. 5.000 aqui e 3.000 ali. No total, mais de € 200.000. Para a nossa casa no Guarujá, dizia o histórico, de uma das transferências mais recentes, a Meli sentiu o chão desaparecer de novo.
Não era só um caso, era uma vida inteira construída às escondidas com o dinheiro deles, da conta conjunta, que ela nem sabia que estava a ser esvaziada. Ele financiou a traição com o nosso dinheiro”, disse ela, a voz estranhamente calma, com o dinheiro que ganhava dando aulas, com o dinheiro que estávamos a juntar para o Gabriel. Luciana segurou-lhe a mão.
Eu sinto muito. Eu sinto muito, demais. A Ameli não chorou. Já não havia mais lágrimas. Só havia raiva e uma fria e dura determinação que ela não sabia que possuía. Eu vou processar o espolho dele, disse ela. Vou recuperar cada cêntimo e vou descobrir tudo sobre esta casa no Guarujá. Enquanto isso, do outro lado da cidade, Julian Fonseca estava sentado no chão da sala, rodeado por caixas.
Caixas com as roupas de Beatriz, caixas com imagens, caixas com toda a vida que tinham construído juntos ou que ele pensava terem construído. A Sofia estava em casa da avó e Julian aproveitou a solidão para fazer que vinha adiando há semanas. Vasculhar os pertences da esposa. Foi no armário que encontrou. Um telemóvel antigo escondido dentro de uma bota que A Beatriz nunca usava.
O Julian ligou o aparelho com as mãos trémulas e quando a ecrã acendeu não havia senha. As mensagens estavam todas ali. Ricardo, mal posso esperar pelo fim de semana. Eu amo-te. Quando lhes vamos contar? Estou farta de mentir. Três meses, amor. Só mais três meses e estaremos livres. Julian leu uma após outra, sentindo o estômago embrulhar.
Havia centenas de mensagens, fotos deles juntos em restaurantes, em praias, na tal casa no Guarujá. Beatriz sorrindo de uma forma que não via há anos. Ricardo beijando-lhe a testa, os olhos fechados, como se ela fosse a coisa mais preciosa do mundo. E depois Julian encontrou o documento que destruiu qualquer resto de ilusão que ainda tinha.
Um contrato de compra e venda de um apartamento no Guarujá, comprado seis há meses, em nome de Ricardo Carvalho e Beatriz Fonseca. Eles estavam construindo uma vida em conjunto, uma vida real, com morada, com mobiliário, com planos. Julian atirou o telemóvel contra a parede com tanta força que se estilhaçou. Depois sentou-se no chão e, pela primeira vez desde o acidente chorou não pela morte de Beatriz, mas pela morte do homem que ele pensava ser.
O marido que não se apercebeu que estava a ser traído, o pai que trabalhava como um louco enquanto a esposa fingia que ia descansar para a casa da irmã. O telefone tocou que era o Pedro, seu sócio e melhor amigo. Julian, você viu as notícias? Que notícias? Sobre o inventário. Você e a viúva do Ricardo vão ter de resolver em conjunto a questão do apartamento.
Vocês são coproprietários agora. Julian fechou os olhos. Claro, claro que sim. Porque a humilhação ainda não estava completa. Quando? Próxima semana. Vocês foram convocados para o cartório notarial. Julian desligou e olhou para o foto de casamento na parede. Beatriz estava linda a sorrir, os olhos cheios de promessas. Que mentira.
Que mentira absurda. Arrancou a foto da parede e guardou numa caixa. Depois pegou em todas as outras fotos dela pela casa e fez o mesmo. A Sofia podia ter as recordações da mãe, mas já não precisava de olhar para aquele rosto todos os dias. Naquela noite, Julian bebeu sozinho no sofá, o apartamento demasiado silencioso, pensando na mulher grávida que vira no hospital.
Ela também estava sozinha agora. Também tinha sido enganada. também estava tentando juntar os pedaços de uma vida despedaçada. E em três dias teriam que se encontrar. Dois estranhos unidos pela pior das razões. Amily estava atrasada. Gabriel tinha chorado a noite inteira e ela mal conseguira pregar o olho.
Agora, às 9:15 da manhã de uma terça-feira chuvosa, ela corria pela calçada com o carrinho de bebé, a mala caindo do ombro, o cabelo apanhado de qualquer jeito. O cartório ficava a apenas dois quarteirões, mas com Gabriel queixando-se e a chuva miudinha molhando tudo, parecia uma eternidade. Quando finalmente entrou no edifício ofegante, a recepcionista olhou para ela com aquela expressão que a Meli já conhecia bem.
Pena misturada com curiosidade mórbida. Senora Carvalho, a advogada está esperando. Sala 203. Amélia assentiu, ajeitou Gabriel no carrinho e subiu de elevador, o coração a bater descompassado. Não era pela reunião em si, mas por quem lá estaria. O viúvo, o homem do corredor do hospital. aquele cujos olhos transportavam a mesma dor que os dela.
Quando abriu a porta da sala de espera, ele já lá estava. Julian Fonseca estava sentado numa cadeira de plástico desconfortável, vestindo um fato cinzento que lhe parecia demasiado grande, como se tivesse emagrecido recentemente. Ao lado, no chão, uma menina pequena de cabelos castanhos e olhos enormes. Desenhava com lápis de cera num caderno de colorir.
Ela não devia ter mais de 4 anos. Os olhos de Julian ergueram-se quando Amelie entrou. Por um segundo apenas se encararam. Não havia cumprimento, não havia amabilidade, só reconhecimento. Ele sabia quem ela era. Ela sabia quem ele era. A menina olhou para cima, curiosa. Papá, olha o bebé. Julian colocou a mão no ombro da filha, um gesto protetor, quase instintivo.
Fica quietinha. Sofia, continua desenhando. Amelie sentou-se do outro lado da sala, o mais longe possível, tirou o Gabriel do carrinho e colocou-o no colo, balançando suavemente. Ele estava começando a resmungar de novo e ela rezava para que não começasse a chorar ali à frente daquele homem, que representava tudo o que ela queria esquecer.
O silêncio era pesado, quase sufocante. Amelie olhava para qualquer lugar, menos para Julian, mas sentia o peso do seu olhar de vez em quando, como se ele também não soubesse para para onde olhar. Foi Sofia quem partiu o silêncio. O bebé também perdeu a mamã? Ela perguntou com aquela inocência cruel das crianças.
Amely sentiu o ar escapar dos pulmões. Julian ficou rígido. Sofia, eu disse para estar quieta. Ele murmurou, mas a voz estava embargada. A menina não compreendeu que tinha dito algo errado, apenas voltou a colorir, mas a pergunta ficou ali a pairar no ar como fumo. Amélia olhou para Julian pela primeira vez a sério. Ele estava com os olhos fixos no chão, a mandíbula tensa, as mãos fechadas sobre os joelhos.
Ela percebeu então que ele não era o inimigo. Ele era apenas mais uma vítima, tal como ela. “Ele perdeu o pai”, disse Amelie baixinho, surpreendendo-se a si mesma. Duas semanas antes de nascer, Sofia ergueu os olhos de novo, processando a informação com a seriedade de quem ainda está, tentando compreender o que é a morte. A minha mamã também foi embora, disse ela.
Mas o o papá disse que ela virou estrela. Julian fechou os olhos, como se aquilo do mais do que qualquer outra coisa. A Mel sentiu algo apertar-se no peito. Aquela menina tinha perdido a mãe. O Gabriel tinha perdido o pai. E tudo por causa de dois adultos egoístas que optaram por mentir em vez de serem honestos antes que qualquer um pudesse dizer mais alguma coisa.
A porta da sala da advogada abriu-se. Senr. Fonseca. Senora Carvalho, podem entrar, por favor. A advogada era uma mulher de meia idade, cabelos grisalhos apanhados num coque impecável, óculos graduados pendurados numa corrente. Ela recebeu-os com um sorriso profissional que não alcançava os olhos e apontou para duas cadeiras em frente da mesa.
Ameli sentou-se, ainda segurando Gabriel. Julian pegou em Sofia ao colo e sentou-se ao lado, deixando uma cadeira vazia entre eles, uma distância simbólica que nenhum dos dois ousou partir. Bem, a advogada começou por abrir uma pasta cheia de documentos. Eu sei que esta é uma situação delicada, mas precisamos resolver algumas questões legais referentes ao espólio de Ricardo Carvalho e Beatriz. Fonica.
Amelie apertou Gabriel contra o peito. Juliano não se mexeu, mas ela sentiu atenção irradiando dele. Existe uma propriedade, a advogada continuou, adquirida em regime de compropriedade por ambos os falecidos há se meses, um apartamento em Guarujá completamente liquidado. Ela virou o ecrã do computador para que eles pudessem ver.
Fotos do apartamento, dois quartos, varanda com vista para o mar, cozinha moderna. Parecia aconchegante, parecia um lar, o lar que estavam construindo juntos. A Mel sentiu náuseas subir pela garganta, como ambos os falecidos deixaram herdeiros únicos, a senhora com o seu filho Gabriel e o senhor com a sua filha Sofia.
Vocês agora são comproprietários deste imóvel. 50% para cada. Julian foi o primeiro a falar a voz áspera que quero vender imediatamente. Eu também, disse Amely demasiado rápido. Não quero nada que tenha a ver com com isso. A advogada assentiu como se esperasse exatamente essa resposta. Compreendo. No entanto, o mercado imobiliário em Guarujá está em baixa no momento.
Pode demorar alguns meses até encontrarmos um comprador. Enquanto isso, existem contas de condomínio e IMI, água e luz que precisam de ser pagas. Vocês terão de decidir como dividir essas despesas. Meio a meio. O Julian disse sem olhar para Amelie. Eu pago a minha parte. Ela paga a dela sem contacto. Amily deveria ter concordado.
Deveria ter dito que sim, que era exatamente isso que queria, mas algo na frieza da sua voz a irritou. Tudo bem para mim, ela respondeu igualmente fria. A advogada os observou por um momento, como se medisse atenção no ar. Depois suspirou e puxou mais papéis. Há também a questão das transferências bancárias, senora Carvalho.
O seu falecido marido transferiu montantes significativos da conta conjunta de vocês para a conta. Pessoal da senora Beatriz Fonseca. Ao longo dos até aos últimos dois anos, sentiu as mãos tremerem. Julian virou a cabeça para encará-la pela primeira vez. Surpresa estampada no rosto. Quanto? Ameli perguntou. R$ 220.000. O número ecou na sala como um tiro.
Julian mexeu-se na cadeira desconfortável. Eu que não sabia disso. Claro que não sabia, Amelie disse. E havia amargura em cada sílaba, assim como não sabia que o meu marido estava a comprar o apartamento de praia com a amante, foi a primeira. Vez que a palavra amante foi dita em voz alta entre eles.
A Sofia, que estava quietinha no colo de Julian, começou a ficar inquieta. O Gabriel também estava se mexendo, prestes a chorar. Olha, Juliano disse a voz mais baixa agora, quase exausta. Eu não quero discutir contigo. Não quero estar aqui. Só quero resolver isso e seguir em frente. Amilia o encarou. viu as olheiras fundas à barba por fazer a forma como ele segurava a filha com cuidado, como se fosse a única coisa ainda inteira na vida dele.
“Eu também”, admitiu ela. A advogada juntou os papéis, “então vou precisar que assinem hoje alguns documentos e troquem informações de contacto. Vou providenciar uma avaliação do imóvel e começar a procurar compradores. Entretanto, sugiro que visitem o apartamento para fazer um inventário do que está lá dentro.
Móveis, eletrodomésticos, essas coisas. Tudo precisa de ser dividido ou vendido em conjunto. Ameli sentiu o estômago revirar. Visitar aquele apartamento, ver onde eles ficavam juntos, onde planeavam o futuro. Não, ela disse. Eu não posso. Eu também não quero ir lá. Juliano interrompeu. A advogada suspirou de novo.
Entendam que quanto mais vocês cooperarem, mais depressa isso acaba. Sei que é difícil, mas precisam de resolver isso juntos. Juntos. A palavra soava obscena. Amelie trocou números de telefone com Julian em silêncio, os dedos a digitar mecanicamente, assinaram os papéis, concordaram com as próximas etapas. Tudo muito formal, muito distante.
Quando saíram da sala já no corredor, Gabriel começou finalmente a chorar de verdade. Ameli tentou acalmá-lo, mas ele estava inconsolável. A Sofia olhava com curiosidade. Ele está com fome? Ela perguntou. Provavelmente, Amelie murmurou, procurando o biberão na mala com uma só mão. Foi quando Gabriel deu um grito particularmente alto e o biberão que Amelia acabara de tirar da bolsa caiu no chão, rebolando para debaixo de uma cadeira.
Amelie fechou os olhos, sentindo lágrimas de frustração queimarem. Estava exausta, não dormia descansado há semanas. Estava sozinha e agora nem conseguia segurar uma mamadeira. Julian baixou-se e pegou a mamadeira, limpou com a barra da camisa e estendeu-lhe sem dizer nada. Amélia olhou para a mão dele, depois para o rosto dele.
Pela primeira vez, os seus olhos encontraram-se de verdade e nesse segundo algo passou entre eles. Não era amizade, não era perdão, era apenas reconhecimento. Eles eram as duas únicas pessoas no mundo que sabiam exatamente como aquilo doía. “Obrigada”, sussurrou ela pegando no mamadeira. Julian apenas acenou com a cabeça e virou-se, pegando em Sofia pela mão.
Ameli ficou ali parada, a vê-lo ir embora. Gabriel finalmente silenciando ao mamar a mamadeira. E pela primeira vez desde o velório, ela perguntou-se quem era aquele homem. Aquele homem que também fora atraído. Aquele homem que também estava a tentar sobreviver. Nessa noite sozinha no apartamento, Amélia olhou para o número dele guardado no telemóvel, Julian Fonseca, e pensou se ele também estava a olhar para o nome dela.
A mensagem chegou três dias depois, às 11 da noite. Amélia estava a amamentar Gabriel no sofá, o apartamento silencioso, exceto pelo ruído ritmado da sucção do bebé, quando o telemóvel vibrou na mesa de centro. Precisamos conversar sobre o apartamento. Quando puder. Era de Julian. Ameli ficou olhando para o ecrã durante um longo minuto, o polegar a pairar sobre o teclado.
Poderia ignorar, poderia responder pela advogada, poderia adiar mais uma semana, mais um mês, mas adiar não ia fazer aquilo desaparecer. Amanhã à tarde, ela voltou a digitar. A resposta surgiu quase imediatamente. 3 horas. Envio-te o endereço. Ameli largou o telefone como se queimasse. Estava fazendo isso. Ria até ao Guarujá.
Ia ver com os próprios. Olhos o ninho de amor que Ricardo construiu com a mulher que escolheu em vez dela. Na manhã seguinte, Luciana apareceu no apartamento sem avisar, com café e pão de queijo ainda quente. “Vim oferecer-me como babá”, ela anunciou entrando sem cerimónias. Sei que vai-se hoje ao Guarujá, que não vai levar o Gabriel àquele lugar.
Amelie não tinha forças para discutir, agradeceu com um abraço apertado e saiu antes que a coragem desaparecesse. A viagem até Guarujá demorou 2 horas. Ameli conduziu em piloto automático, a paisagem passando desfocada pela janela. Quando chegou finalmente ao condomínio, um elegante edifício a duas quadras da praia sentiu o estômago embrulhar.
O Julian já estava lá. Encostado ao carro dele, os olhos protegidos por óculos escuros, ele acenou quando a viu. Um gesto breve e formal. Conseguia as chaves junto da advogada. Ele disse quando a Melí se aproximou. A voz era neutra, cuidadosamente desprovida de emoção. Fica no quarto andar. Eles subiram de elevador em silêncio.
Ameli observou o reflexo dos mesmos no espelho. Duas pessoas destroçadas fingindo estar inteiras. Julian tinha as mãos enfiadas nos bolsos. a mandíbula tensa. Ela mantinha os braços cruzados, como se isso pudesse protegê-la do que estava para vir. Quando a porta do apartamento abriu-se, a Meli não estava preparada.
Não era apenas um apartamento, era um lar. A sala tinha sofá bege, almofadas coloridas, um estante cheia de livros. Nas paredes fotos emolduradas. Ricardo e Beatriz na praia sorrindo. Ricardo e Beatriz no pô do sol abraçados. Ricardo beijando a testa dela, os olhos fechados, como se ela fosse tudo o que ele sempre quis. Amely sentiu as pernas fraquejarem.
Juliano entrou atrás dela e parou. Ficou a olhar para as fotos na parede, a respiração pesada. Depois tirou os óculos escuros e Amely viu que os olhos dele estavam vermelhos. Não sabia que seria assim, disse a voz rouca. Nem eu Ameli caminhou até à cozinha. Tinha louça na pia, duas chávenas de café, como se eles tivessem tomado ali o pequeno-almoço antes de partir para aquela última viagem.
No balcão, um bilhete. A caligrafia era de Beatriz. Amor, não te esqueças de trancar a varanda. Amo-te. Amelie rasgou o bilhete ao meio e deitou-o no lixo. O Julian apareceu à porta da cozinha a observar. Encontrou alguma coisa? Nada que eu quisesse encontrar, ela respondeu. Ele acenou com a cabeça e desapareceu pelo corredor.
Ameli ouviu-o abrindo portas, armários gavetas. Depois ouviu um palavrão abafado. Ela foi até lá. Juliano estava parado à porta do quarto, as mãos apertadas em punhos. A cama era de casal, com lençóis azuis ainda desarrumados, como se alguém tivesse dormido ali recentemente. Nas mesinhas de cabeceira, mais fotos. No armário, roupas dela e dele misturadas e na toucador uma langerie vermelha que Ameli reconheceu.
Ela própria tinha comentado com o Ricardo há meses que queria comprar uma igual. Ele tinha comprado, só que para outra. Filho da puta! Ameli sussurrou. O Julian olhou para ela surpreendido pela linguagem, mas depois ele viu o que ela estava a olhar e entendeu. Eles viviam aqui”, disse. E não era uma pergunta. Não era só um fim de semana, tinham uma vida aqui.
Amil sentou-se na beira da cama e, sem aviso, começou a chorar. Não o choro delicado e silencioso que tinha derramado no velório. Era um choro violento, raivoso, que vinha do fundo do peito. Eu não era suficiente. Ela soluçou. 5 anos. 5 anos e eu não era suficiente. Julian ficou ali parado por um momento, claramente sem saber o que fazer.
Depois, devagar, sentou-se ao lado dela, não lhe tocou, apenas se sentou, deixando a sua presença dizer o que as palavras não conseguiam. “Acha que foi culpa sua?”, perguntou baixinho. Ameli limpou o rosto com as costas da mão. Feu era aborrecida, cansada, grávida. Reclamava quando ele trabalhava até tarde. “Talvez ele só precisasse de algo diferente.” “Não.
” O Julian disse que havia firmeza na sua voz agora. Não foi sua culpa. Assim como não foi minha. Amélia olhou para ele. Você também pensa isso? Que talvez tivesse feito algo diferente todos os dias. Ele admitiu. Eu trabalhava demais. Estava sempre cansado. A Beatriz dizia que queria espaço e eu dava, pensando que estava a ser um bom marido.
Mas talvez ela estivesse pedindo atenção e eu não percebi. Ou talvez. Ameli disse devagar. Eles fossem apenas pessoas egoístas que escolheram mentir em vez de serem honestas. Juliano ficou em silêncio, depois assentiu. Talvez. Ficaram ali sentados por mais uns minutos, dois estranhos partilhando a mesma dor. Foi quem se levantou-se primeiro.
Vamos acabar com isso. Vamos destruir tudo e fazer com que este lugar ser nosso. Não deles. Juliano ergueu os olhos. Nosso. De Gabriel e Sofia. Ela corrigiu rapidamente. Para o futuro ou para vender, tanto faz, mas não vai ser deles nunca mais. E assim começou. A Amily tirou todas as fotografias das paredes e empilhou-se num canto.
Juliano esvaziou os armários, separando roupas em sacos de doação. Eles trabalharam em silêncio, lado a lado, cada peça removida, sendo um pequeno ato de vingança contra os fantasmas que habitavam aquele lugar. Quando terminaram, já era noite. O apartamento estava vazio de memórias, mas ainda carregado de tristeza.
Preciso de ar, – disse Amelie, abrindo a porta da varanda. O mar estava escuro lá em baixo, as ondas a bater suavemente na areia. A brisa trazia cheiro a sal e uma frescura que acalmava um pouco o caos dentro dela. O Julian veio até à varanda também, ficando a uma distância segura. O que fazia? Ele perguntou de repente antes de tudo isto.
Ameli o olhou surpreendida pela pergunta pessoal. Eu dava aulas, literatura, poesia do séc. XIX. Ironicamente romântica, ele comentou. Ela quase sorriu. Quase. E você, arquiteto, projetos residenciais, principalmente. Depois constrói casas. Construía. Ele corrigiu. Agora só existo. Amélia compreendeu perfeitamente.
Era exatamente como ela se sentia. Existindo, respirando, mas não vivendo. “A gente vai melhorar”, disse ela sem acreditar muito nas próprias palavras. “Acha? Temos de acreditar pelos nossos filhos.” Julian olhou para o mar. Sofia perguntou-me ontem se ias ser a nova mamã dela. Amie sentiu o coração apertar.
O que disse? Que você era uma amiga, alguém que está a passar por algo parecido connosco. É verdade, Amelie disse. É exatamente isso. Mas enquanto dizia, algo dentro dela Sussurrava que talvez fosse mais complicado do que isso. Eles voltaram para dentro. Julian trancou as janelas, apagou as luzes. Quando estavam a sair, Amelie parou à porta e olhou para trás uma última vez.
Na próxima vez que eu vier aqui, disse ela, vai ser diferente. Vai ser o nosso novo. Julian segurou a porta à espera que ela passasse. Próxima vez vamos ter que reformar isto tudo. Pintar, mudar os móveis. Você é arquiteto, deve saber fazer estas coisas. Ele piscou, processando. Você quer que eu que nós reformemos este lugar? É melhor que deixar como está. Amie respondeu.
E é melhor fazer juntos do que cada um tentar decidir sozinho. Julian ficou quieto durante um momento, depois assentiu. Tudo bem, vamos fazer isso. Quando Amelie entrou no carro para regressar a São Paulo, olhou pelo retrovisor e viu Julian, ainda parado em frente do prédio, olhando para cima, para o apartamento do quarto andar.
E, pela primeira vez, ela não sentiu apenas raiva quando pensou nele, sentiu algo perigosamente parecido com ligação. As semanas seguintes criaram uma rotina que nenhum dos dois tinha planeado. Julian começou a aparecer no apartamento de Amélia às quartas-feiras, sempre às 7 da noite, para ir buscar a Sofia depois de Amelia a ir buscar à escolinha.
No início eram apenas trocas rápidas na porta, um aceno, um obrigado sussurrado, nada mais. Mas, então, a Sofia começou a pedir para brincar com o Gabriel. Só mais 5 minutinhos e os 5 minutos passaram a 15, depois meia hora. E, de repente, Julian estava sentado na sala de Ameli a tomar café enquanto as crianças brincavam no tapete.
“Ela está a apegar-se”, Julian disse numa dessas tardes, observando Sofia fazer caretas a Gabriel, que retribuía com gargalhadas. A si, ao Gabriel. A Amelia estava a lavar xícaras na pia. Isso é mau? Não sei. Ele admitiu só. Não quero que ela sofra de novo. Quando tudo isto acabar e cada um seguir o seu caminho. Ameli virou-se secando as mãos num pano de cozinha.
Quem disse que vai acabar? Julian encarou-a confuso. Eventualmente vendemos o apartamento, divide o dinheiro e e nunca mais se fala. Amelie completou. Mesmo que as nossas crianças já tenham criado um vínculo. Ele não tinha resposta para isso. A verdade era que Julian também estava a agarrar-se não só à rotina, mas à presença de Amelie.
Ela era a única pessoa no mundo que compreendia exatamente pelo que passava, com quem não precisava de fingir estar bem, com quem podia simplesmente existir, quebrado e tudo. Na sexta-feira seguinte, Ameli ligou-lhe a voz tensa. O fusível do chuveiro queimou. Não sei trocar e o O Gabriel precisa de tomar banho. Você, você poderia? O Julian chegou em 20 minutos com uma caixa de ferramentas.
Ameli o observou trabalhar, reparando a fiação com mãos seguras e precisas. Havia algo reconfortante em vê-lo ali. Fazendo algo tão simples e doméstico. Quando ele terminou e testou o chuveiro, ela sorriu, um sorriso pequeno, mas real. Obrigada. A sério, eu teria ficado horas tentando descobrir sozinha.
Não precisa agradecer”, disse Julian guardando as ferramentas. Mas quando as suas mãos se tocaram, acidentalmente, ao pegar no chave de fendas que ela segurava, ambos congelaram. Foi apenas um segundo, talvez nem isso. Mas a Milly sentiu algo percorrer a sua espinha, uma corrente elétrica que nada tinha a ver com fusíveis queimados.
Julian puxou a mão demasiado rápido, como se tivesse se queimado. “Preciso de ir”, murmurou sem olhar para ela. Mas Amelie tinha visto, visto o modo como a respiração dele falhou, a forma como evitou os olhos dela. Ele também tinha sentido. No Sábado, contra todo o bom senso, Amely convidou Julian e Sofia para jantar. “Nada de mais”, disse ela pelo telefone, tentando soar casual.
“Só um macarrão, as crianças vão gostar.” Julian hesitou. Depois aceitou. Foi uma noite estranhamente normal. A Sofia sentou-se à mesa com Gabriel no cadeirão ao lado, ajudando a dar-lhe a papinha. Enquanto contava histórias inventadas sobre princesas e dragões, Julian ajudou a Meli na cozinha, a cortar tomates enquanto ela preparava o molho.
“Você cozinha bem?”, comentou provando um pedaço de pão com alho. Tive que aprender, Amelie respondeu. O Ricardo não cozinhava. Dizia que era coisa de mulher. Julian fez uma careta. Beatriz também não. Bibiamos the delivery. Que par perfeito deviam fazer. Então a frase saiu mais amarga do que Amelie pretendia. Mas Julian riu-se.
Uma risada curta e sem humor, mas ainda assim uma risada. Era a primeira vez que conseguiam fazer piada sobre aquilo. Depois do jantar, a Sofia adormeceu no sofá. Julian foi buscá-la, mas Amelie deteve-o com um gesto. Deixa-a dormir. Pode buscá-la mais tarde ou amanhã de manhã. Os olhos dele se arregalaram ligeiramente.
Am demais, ela disse rápido, sentindo o rosto aquecer. Só não faz sentido acordá-la agora. E bebeu vinho. Não deveria conduzir. Era verdade. Mas ambos sabiam que não era só isso. O Julian acabou ficando. A Amélia improvisou um cobertor para a Sofia no sofá e ficaram sentados na varanda, a beber o resto do vinho, observando as luzes da cidade.
Já pensou em como seria? Juliano perguntou de repente: “Se nada disto tivesse acontecido todos os dias,” Amélia admitiu, o Ricardo estaria aqui. Gabriel teria um pai, seria feliz, ou pelo menos acharia que era. “Às vezes acho que nunca fui realmente feliz com Beatriz.” Julian confessou, surpreendendo-se a si próprio.
A gente funcionava, era confortável, mais paixão, aquela coisa que nos tira o chão. Acho que nunca tive isso. Amelie virou-se para olhá-lo. O Ricardo também não me dava isso. Ele era seguro, previsível, ou pelo menos pensava que era. Talvez tenham encontrado isso um no outro, disse Julian. A paixão que faltava.
E a gente ficou com os destroços. Eles brindaram a isso, um brinde amargo e triste. Mas enquanto bebiam, Amely percebeu que algo estava mudando. Já não era só dor partilhada, era conexão real e assustadora. Na terça-feira seguinte, eles regressaram juntos ao Guarujá, desta vez com planos. Julian tinha feito esboços de como renovar o apartamento, pintar as paredes de branco, mudar o pavimento, modernizar a cozinha.
Amelie trouxe amostras de tinta e tecidos. Passaram o dia inteiro lá. Amelie pintou uma parede de azul claro enquanto Julian instalava prateleiras novas. Em algum momento, ela sentiu um salpico de tinta no rosto e virou-se para reclamar. Mas O Julian já lá estava com o polegar erguido. “Tem tinta aqui?”, ele disse, limpando suavemente a bochecha dela.
O toque foi leve, quase nada, mas a Mel sentiu como se tivesse sido marcada a ferro em brasa. Eles ficaram assim por um segundo demasiado longo. Os olhos dele nos dela, o polegar ainda na pele dela, a respiração de ambos descompassada. Então Julian recuou, engolindo em seco. Desculpa, eu não. Amelie interrompeu a voz rouca. Não precisa pedir desculpa.
Mas ele já se tinha virado, voltando ao trabalho como se nada tivesse acontecido. Am ficou parada ali, o coração a bater tão forte que tinha a certeza de que ele conseguia ouvir. À tarde, a chuva começou forte e súbita, como só acontece no litoral. Estavam presos no apartamento, as janelas abertas, deixando entrar o cheiro a terra molhada e a marezia, sentaram-se no chão da sala vazia, encostados à parede recém-pintada, comendo sanduíches que Julian tinha comprado no mercadinho da esquina.
“Porque é que aceitou fazer isso?”, – perguntou Amelie. “Reformar este lugar deve ser torturante para si”. Julian mastigou lentamente antes de responder. Porque destruir sozinho seria pior? E por não sei. Parece certo fazer isso com você. Certo. Ela repetiu testando a palavra.
É, disse ele, olhando para ela, como se estivéssemos a reescrever a história, transformando-a. E seikimar, o lugar deles no nosso. Nosso. A palavra ecoou entre eles. Ameli não percebeu quando começou a chover mais intensamente. Não apercebeu-se quando a sala ficou mais escura. só percebeu que estava a olhar paraa boca de Julian e perguntando-se como seria beijá-lo.
“Amelie”, Julian sussurrou como se soubesse exatamente o que ela estava a pensar. “Eu sei”, ela respondeu. “Eu sei que é errado. Eu sei que não devemos”. Mas depois ele inclinou-se e ela também, e as bocas dele se encontraram no meio. O beijo foi tudo o que não deveria ser, desesperado, confuso, molhado de lágrimas que nenhum dos dois percebeu estar a verter.
As mãos de Julian encontraram o rosto dela, segurando como se ela pudesse desaparecer. As mãos dela agarraram o camisa dele, puxando-o para mais perto. Não era um beijo de amor, era um beijo de necessidade, de dor procurando alívio, de dois náufragos agarrando-se um ao outro no meio da tempestade. Quando finalmente se separaram, ambos estavam ofegantes. Isso foi o Julian.
Começou errado. Ameli completou, mas não largou a camisola dele. Isso foi completamente errado. Foi. Ele concordou. Mas nenhum dos dois afastou-se. Amelie fechou os olhos, encostando a testa na dele. Eu não posso fazer isso. Não me posso apaixonar por ti. Eu também não. – sussurrou Julian. Nós somos somos os últimos restos da mentira deles. Não faz
sentido. Não faz. Mas quando abriu os olhos, Juliana ainda estava ali tão perto que ela podia sentir a respiração dele, tão perto que seria demasiado fácil beijá-lo de novo. A Melice levantou-se de repente, afastando-se. Eu preciso de ir. Preciso voltar para Gabriel. Amélie. Espera. Não disse ela pegando na bolsa com mãos trêmulas.
A gente a gente só vai fingir que tal não aconteceu. Tudo bem. Foi um erro. A gente estava vulnerável e se não foi um erro? O Julian perguntou levantando-se também. Ameli parou na porta sem coragem para olhar para trás. Depois é ainda pior. Ela saiu sob a chuva, correu para o carro, entrou e trancou as portas. Só então se permitiu chorar de verdade, de confusão, de medo, de desejo, porque pela primeira vez desde a morte de Ricardo, ela tinha sentido algo para além da dor, e que a aterrorizava mais do que qualquer coisa.
Duas semanas passaram em silêncio absoluto. Ameli não atendia as chamadas de Júlia, não respondia às mensagens. Bloqueou tudo o que a pudesse lembrar daquele beijo na sala vazia, da sensação dos dedos dele na cara dela, do jeito como o mundo pareceu fazer. sentido por três segundos antes de se desmoronar novamente.
Luciana notou a mudança imediatamente. “Está evitando alguma coisa”, disse ela numa manhã de domingo enquanto tomava um café e O Gabriel dormia no carrinho. Ou alguém. Não estou a evitar nada. Amelie mentiu mexendo o açúcar no café pela quinta vez. Amelie, Lu, por favor. É o Julian, não é? A Luciana cortou os olhos arregalados.
Meu Deus, aconteceu alguma coisa entre vocês. Amelie não precisou responder. O rubor no rosto dela disse tudo. Amely Luciana quase gritou. Você, vocês foi só um beijo? Amel sussurrou. Um beijo estúpido, sem sentido, que nunca deveria ter acontecido. Luciana ficou em silêncio por um longo momento, depois suspirou.
Você está a apaixonar-se por ele? Não estou. Ameli protestou. Mas a voz saiu demasiado fraca para ser convincente. Eu não posso estar. Seria seria doentio. Ele é o viúvo da amante do meu marido. É errado em todos os níveis possíveis. Ou a Luciana disse devagar. Ele é a única pessoa no mundo que compreende exatamente o que você passou.
A única pessoa que não te julga, que não te olha com pena. Amélia enterrou o rosto nas mãos. Eu não quero sentir isso. Não quero. Mas está sentindo. E se for só porque estou sozinha? Porque ele está lá e é conveniente. Acha mesmo que é isso? Luciana perguntou amável agora. Amelie não respondeu porque não achava. E essa era a parte mais assustadora.
Na mesma tarde do outro lado da cidade, Pedro jogava bilhar com Julian num bar vazio. “Estás péssimo nisto hoje?”, Pedro comentou acertando em mais uma bola. Pior que o normal. Julian falhou a jogada pela terceira vez consecutiva. Estou cansado. Está a mentir. Pedro corrigiu, deixando o taco de lado e sentando-se no banco alto.
O que aconteceu? O Julian bebeu metade da cerveja de um só gole antes de responder. Beijei a Amelie. Pedro quase se engasgou com a própria bebida. Você o quê? Foi um erro, um erro gigantesco. Ela bloqueou-me e tem toda a razão. Espera, Pedro. levantou as mãos. “Volta aqui. Beijaste a viúva do amante da Beatriz?” “Eu sei como soua”, – disse Julian, passando as mãos no cabelo.
“Eu sei que é insano, mas o Pedro foi como se pela primeira vez em meses conseguisse respirar de verdade.” Pedro observou-o em silêncio, depois suspirou. “Está apaixonado por ela?” “Não, Julian”, disse rapidamente demais. “Não estou. Só ela compreende, sabe? Não tenho de explicar nada, não preciso fingir estar bem. Com ela eu posso simplesmente ser tu próprio.
Pedro completou. Julian, isto chama-se conexão e pode tornar-se amor muito rápido. Mas não deveria, insistiu Julian. A voz desesperada agora. Não faz sentido. A as pessoas só existem neste espaço por causa da tragédia. Quando tudo isto passar, quando o apartamento for vendido, o as pessoas vão perceber que não há nada de real ali.
Ou Pedro disse, e quando as palavras da Luciana sem saber, vão perceber que construíram algo real precisamente por causa da tragédia. Não apesar dela. O Julian ficou quieto processando. Ela bloqueou-me, Pedro. Acho que deixei bem claro o que ela sente sobre isso. Ou ela está com tanto medo quanto você. Nessa noite, sozinha no apartamento, Emily olhou para o telemóvel pela centésima vez.
As mensagens de Juliana ainda ali estavam, não lidas, mas visíveis na pré-visualização. Por favor, me deixa explicar. Não foi um erro para mim. Amelie K. Nunca abriu para ver o final da terceira mensagem. tinha medo do que poderia dizer, medo de que confirmasse o que ela já sabia, que aquilo não era só atração física ou solidão partilhada, era algo mais profundo e muito mais assustador.
Às 3 da manhã, quando Gabriel finalmente dormiu depois de uma noite agitada, Amely fez o que vinha evitando há duas semanas, desbloqueou o número de Julian e digitou: “Também se sente isso ou sou só eu a enlouquecer?” A resposta veio em menos de um minuto. Sinto e estou apavorado. Ameli fechou os olhos, sentindo as lágrimas escorrerem.
Não eram lágrimas de tristeza, eram de alívio. Precisamos de falar de verdade, amanhã, sem as crianças, changuará meio-dia. Quando Ameli chegou ao apartamento no dia seguinte, Julian já lá estava, sentado nos degraus da entrada do prédio. Levantou-se quando a viu, as mãos nos bolsos, o olhar incerto. “Olá, disse. Oi!” Subiram em silêncio.
O apartamento estava diferente agora. Metade renovado, paredes brancas recém pintadas, contrastando com o chão velho que ainda precisava de ser trocado. Cheirava a tinta fresca e recomeço. Am foi direto ao assunto. “Eu não sei o que é isso”, disse ela, virando-se para encará-lo. “Não sei se é real ou se a gente está só, agarrando-se um ao outro porque estamos a afogar-nos.
” “Eu também não sei.” Juliana admitiu, “mas sei que penso em ti o tempo todo. que quando Sofia fica doente, a primeira pessoa que quero ligar é você. Que quando alguma coisa boa acontece, quero contar a -lo antes de qualquer um. Ameli sentiu o peito apertar. Julian, deixa-me terminar, pediu, aproximando-se. Eu Sei que não faz sentido.
Sei que a nossa história está toda errada, que começou da pior forma possível. Mas quando estou contigo, Ameli, não sinto que estou com os restos da tragédia. Sinto que estou com alguém que me compreende verdadeiramente. E se estragarmos tudo? A Melissa surrou. E se tentarmos e não resultar e e magoarmos as crianças no processo? E se der certo? Julian retorquiu agora bem perto dela.
E se tivermos a chance de construir algo de bom a partir de tanta dor? Amélia olhou-o nos olhos, castanhos, cansados, mas cheios de uma esperança frágil que ela entendia perfeitamente. “Eu estou com medo”, ela confessou. “Eu também não te quero usar como substituto. Não quero que seja só. Só o homem que lá estava quando eu estava partido.
” Julian segurou o rosto dela com as duas mãos. O toque infinitamente gentil. “Você não é substituto de nada, Amelie. Você é você. E quero conhecer cada parte de quem você é. Não a viúva, não a mãe do Gabriel, tu. E então ela beijou-o, diferente do primeiro beijo. Aquele tinha sido desespero. Este era a escolha.
Amily puxou Julian para mais perto, os dedos entrelaçados nos cabelos dele, sentindo o corpo dele contra o dela, sólido e real. E ali Juliana a segurou pela cintura, aprofundando o beijo. E pela primeira vez em meses, Ameli sentiu algo para além de dor. Sentiu desejo, sentiu vida, sentiu esperança. Quando se separaram, ambos estavam sem ar.
Então, tentamos? Amely perguntou a voz trémula. A gente tenta O Julian confirmou. O Vager, sem pressão, só vendo onde isso vai dar. Em segredo, acrescentou Amélia. Por enquanto, até termos a certeza. Não quero que as famílias saibam antes de antes de sabermos se é real. Juliano completou. Concordo. Eles sorriram pequeno, hesitante, mas real.
E então Julian puxou-a de novo, beijando-a com uma urgência que tirou qualquer pensamento racional da cabeça de Amelie, que ela o empurrou contra a parede recém- pintada, sentindo as mãos dele subirem pelas costas dela, desabotoando o vestido com os dedos trémulos. Aqui ela ofegou quando ele lhe beijou o pescoço. Aqui Julian confirmou a voz rouca.
Vamos transformar esse lugar no nosso de verdade. E fizeram amor ali mesmo no chão da sala vazia, sobre o soalho velho que ainda precisava de ser trocado, rodeados pelo cheiro de tinta fresca e mar. Não foi perfeito. Foi desajeitado em alguns momentos, interrompido por risos nervosos e lágrimas inesperadas, mas foi real.
Amily chorou quando terminou e Julian assegurou beijando as lágrimas. Está tudo bem, sussurrou. Está tudo bem. Eu não me sentia viva há tanto tempo, ela confessou a voz quebrada. E agora tenho medo de de que isto seja apenas um sonho. Juliano terminou. É, não é? Ele prometeu, beijando-lhe a testa. Isto é real. Nós somos reais.
Eles ficaram ali deitados durante horas, não é, entrelaçados, a conversar sobre tudo e sobre nada. Julian contou sobre a primeira vez que a Sofia se riu depois da morte de Beatriz. Amelie contou sobre o dia em que finalmente conseguiu olhar para Gabriel sem sentir raiva de Ricardo. E pela primeira vez, o apartamento em Guarujá não parecia um mausoléu, parecia um recomeço.
Quando Ameli regressou a São Paulo naquela noite, com os lábios ainda inchados dos beijos e o corpo ainda marcado pelo toque de Julian, Luciana estava à espera à porta do apartamento dela. Você está diferente. A Luciana observou os olhos arregalados. Ameli não conseguiu esconder o sorriso. Eu tentei resisti-lo, mas não conseguiu.
Não, Amélia admitiu e pela primeira vez em meses não sentiu culpa ao dizê-lo. E sabe o que é mais louco? Eu não me arrependo. Luciana abraçou-o com força. Então eu vou apoiá-lo. Mesmo achando que é loucura, eu vou estar aqui. Obrigada. Nessa noite, deitada na cama com Gabriel a dormir no berço ao lado, Amelie recebeu uma mensagem de Julian.
Boa noite, Amélia. Sonhe comigo. E pela primeira vez desde a morte de Ricardo, adormeceu sorrindo. Os três meses seguintes foram os mais felizes e secretos da vida de Ameli. Ela e o Julian encontravam-se escondidos no apartamento do Guarujá, em cafés distantes, onde ninguém os conhecia. encaminhadas para a noite quando as crianças dormiam.
Cada encontro era roubado, intenso, carregado da urgência de quem sabe que está construindo algo frágil sobre fundações rachadas. Fazia um amor no apartamento renovado, entre latas de tinta e móveis cobertos. Conversavam até ao amanhecer sobre medos, sonhos, arrependimentos. Julian lia-lhe excertos de projetos arquitetônicos.
Enquanto Amelie recitava poesia de Castro Alves, riam-se de piadas internas que mais ninguém compreenderia e quando estavam separados trocavam mensagens durante o dia inteiro. Gabriel deu hoje os primeiros passos. Queria que tivesse visto. A Sofia perguntou quando vai ver a tia Mell outra vez. Eu também quero saber. Sinto a sua falta.
Também sinto a sua, mas os segredos têm prazo de validade. Foi Luciana quem primeiro plantou a semente da dúvida. Vai ter que contar à sua mãe em algum momento ela disse numa tarde de sábado. Enquanto observava a Melícia arranjar para mais um encontro de trabalho sobre o apartamento. Eu sei. A Mel suspirou passando o batom.
Só não agora. Ainda não estou preparada para o julgamento. E as crianças? A Sofia já chama-lhe tia Mell. Gabriel sorri diferente quando vê o Julian. Até quando vão fingir que é a vossa amizade? Ameli parou. O batom no ar. Nós não estamos a fingir. Estamos a ser cuidadosos ou estão a ser cobardes? Luciana retorquiu.
Mas havia bondade na voz. A Melice se é real se vale a pena. Precisa de parar de se esconder. Ameli sabia que a amiga tinha razão, mas a verdade era que tinha medo. Medo de que ao expor a relação à luz do dia, ele se revelasse exatamente o que todos os diriam que era. Um erro, uma tentativa desesperada de duas pessoas destroçadas se corrigirem com os pedaços errados.
Julian também sentia o peso do segredo. Pedro confrontou-o depois de o ver sair a decorrer de uma reunião importante, porque a Ameli tinha ligado a dizer que O Gabriel estava com febre. “Você está vivendo duas vidas”, disse Pedro, encostado ao carro de Julian no estacionamento. “Ah, isso não é sustentável.
” Eu sei, Juliana, admitiu passando as mãos pelo cabelo. Mas se eu contar agora, a família da Beatriz vai ter um ataque. A minha mãe vai dizer que estou a deshonrar a memória dela. E Sofia. A Sofia é o quê? A Sofia adora a Amélie. Qualquer cego vê isso. E se ela apegar-se demasiado e depois der errado? Julian questionou.
E havia medo real na voz. Ela já perdeu a mãe. Não posso deixá-la perder mais alguém. Ou você está a usar isso como desculpa para não assumir o que sente. Pedro respondeu: Porque assumir significaria admitir que seguiu em frente, que a Beatriz não é mais o centro da sua vida. As palavras doeram porque eram verdade.
A decisão de assumir a relação não veio de um momento de coragem, mas de um acidente. A mãe de Amélia apareceu sem avisar numa quinta-feira à tarde, trazendo marmitas e críticas em doses iguais. Ameli estava na cozinha a preparar café quando ouviu a campainha tocar. Amelie, trouxe comida de verdade para si. Não, estas porcarias congeladas que a Dona Clarice parou a meio da frase quando viu Julian saindo da casa de banho, ainda ajeitando a camisa.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Mãe! Ameli começou sentindo o sangue gelar. Não é o que está a pensar, não é? Clarice deixou cair as marmitas na mesa com estrondo. Então explica-me o que é este homem está aqui a fazer. Saindo do seu casa de banho com a camisola para fora. Juliano deu um passo em frente tentando ajudar. A senhora Clarice, eu tu ela cortou-o apontando um dedo acusador.
É o marido da amante e está aqui em casa da minha filha fazendo, fazendo estamos juntos. Mãe”, disse Amelie, encontrando coragem de algum lugar profundo. “Julian e eu estamos num relacionamento.” Clarice olhou para a filha como se não a reconhecesse. “Perdeu completamente o juízo.” Ricardo mal arrefeceu no túmulo. “E já está com o viúvo da vagabunda que destruiu o seu casamento? Cuidado com o que vai dizer.
” Julian alertou a voz baixa, mas firme. “Ou quê?” Clarice riu um som amargo. Vai me dar lição de moral? Você que está a aproveitar que a minha filha está vulnerável para o Chega. Ameli gritou. E até o Gabriel, que estava no carrinho, estremeceu. Já chega, mãe. O O Julian não se está a aproveitar de nada. Nós entendemo-nos.
Ele é a única pessoa que sabe exatamente pelo que passei. Isto não é amor, Amelie, é trauma partilhado. E se for os dois? Ameli retorquiu, surpreendendo-se a si mesma. E se a gente tiver construído algo real a partir do trauma, isso é errado? É doente, Clariss Cuspi. É, é perturbado. Vocês os dois deveriam estar a fazer terapia, não dormindo juntos.
Juliano pegou nas chaves. Eu vou-me embora. Vocês precisam de falar sozinhas. Não. Am segurou-lhe o braço. Não precisa ir. É a minha mãe que está a ser desrespeitosa. Am. Fica. Ela insistiu olhando-o nos olhos. Por favor, se a gente vai fazer isso, vai ser agora sem mais esconder. Julian hesitou, depois assentiu.
Clarice observou a troca com o horror crescente. Você realmente se apaixonou-se por ele? Meu Deus, Amélie, está a deshonrar completamente a memória do Ricardo. O Ricardo traiu-me. Amélia explodiu anos de raiva, encontrando finalmente voz. por dois anos, mãe. Ele mentiu, roubou-nos o dinheiro, comprou o apartamento com a amante, planeava deixar-me assim que Gabriel nascesse.
E mesmo assim eu deveria honrar a memória dele. Ele era seu marido, o pai do seu filho. Ele era um mentiroso, corrigiu Ameli, as lágrimas finalmente a cair. E eu Desperdicei 5 anos da minha vida com alguém que não me valorizava. Mas Julian, o Julian vê-me de verdade, me conhece. Escolhe-me todos os dias. Escolhe-me porque vocês são convenientes um para o outro. Clarice insistiu.
Quando a poeira baixar, quando vocês processarem o luto de verdade, vão perceber que não há nada real ali. A senhora está enganada, Julian disse. E havia uma calma perigosa na voz dele agora. Eu amo a sua filha. Não porque ela é conveniente, não porque eu esteja sozinho, mas porque é a mulher mais forte, mais corajosa, mais incrível que já conheci.
E sim, a nossa história começou de uma forma horrível, mas isso não torna o que sentimos menos real. Ameli virou-se para ele, os olhos arregalados. Era a primeira vez que qualquer um deles dizia: “Amo-te” em voz alta. Julian segurou-lhe a mão. Eu amo-te, Amelie. E não vou fingir mais que não amo só porque incomoda os outros pessoas. Isto é uma loucura.
Clarice sussurrou. Mas havia menos convicção na voz agora. Talvez seja. Amely concordou ainda a olhar para Julian. Mas é a minha loucura. E eu escolho isso. Escolho-o. Clarice pegou na mala às mãos a tremer. Não posso apoiar isso. Não posso. Então não apoie, disse Amely. E havia uma tristeza profunda ali.
Mas também não me peça para escolher entre si e ele porque já escolhi. A mãe saiu batendo a porta. Amelie desmoronou-se no sofá soluçando. Julian sentou-se ao lado dela, puxando-a para o abraço. Eu sinto muito ele murmurou. Não queria causar isso entre vocês. Não foi você. Ameli fungou. Foi ela. Foi tudo. Eles ficaram assim por longos minutos até Gabriel começar a chorar.
Ameli foi apanhá-lo e quando voltou, Julian estava a olhar para o telemóvel, o rosto pálido. O que foi? Ele virou o ecrã. Era uma foto deles de mãos dadas à saída de um restaurante semana passada, publicada num grupo de WhatsApp com a legenda Viúvos de Amantes encontram consolo um no outro. Que falta de respeito pelos mortos.
Quem? A irmã da Beatriz. Julian disse a mandíbula tensa. Ela deve ter-nos seguido. O telefone de Amili começou a tocar. Mensagens a chegar em sequência. Conhecidos colegas de trabalho, até pais de alunos. Todos tinham visto a foto, todos tinham opinião. Está a vazar. A Mel sussurrou. Todo o mundo vai saber. E daí? – perguntou Julian pegando no telemóvel dela e desligando.
Deixa saberem, deixa julgarem. A gente sabe a verdade. A verdade? Ameli repetiu cansada de repente. Que eu te amo disse segurando o rosto dela. Que isto é real, que não importa como começou, importa o que estamos construindo. Amilie fechou os olhos, sentindo lágrimas escorrerem. Eu também te amo e estou apavorada.
Eu também, mas vamos enfrentar juntos. Naquela noite, quando O Julian foi-se embora, porque ainda não estavam prontos para ele ficar à noite, toda com Gabriel ali, Ameli sentou-se sozinha na sala escura. O telefone não deixava de vibrar. Mensagens de apoio misturadas com críticas cruéis. A mãe a tinha bloqueado.
A irmã mais nova enviou uma mensagem. Enlouqueceu? E no meio de tudo, uma notificação, um e-mail da clínica de fertilização. Amélia abriu com mãos trémulas e leu uma vez, depois duas, sem conseguir processar as palavras. Depois ligou para Julian, a voz quase inaudível. Você precisa de vir aqui agora. O que aconteceu, Beatriz? Ela congelou embriões com esperma do Ricardo.
A quatro embriões, silêncio do outro lado. Depois, num sussurro, meio irmãos, meio irmãos de Gabriel e Sofia, Ameli confirmou, sentindo o mundo desabar de novo. E assim, quando pensavam que finalmente podiam ser felizes, os fantasmas voltaram mais fortes do que nunca. Julian chegou em 20 minutos, os cabelos desarrumados, a camisa vestida à pressa.
Ameli abriu a porta antes que ele tocasse à campainha e eles ficaram ali parados por um segundo, apenas se encarando. “Mostra-me”, pediu. Amélia entregou o tablet com o e-mail aberto. Julian leu devagar, os olhos percorrendo cada linha do documento médico. Diagnóstico de endometriose grave, grau quarto.
Reserva ovárica criticamente baixa. Janela fértil de 6 meses. Congelamento de emergência de quatro embriões. Autorização para utilização postmem pelo pai biológico ou representantes legais e foi anexada uma carta manuscrita de Beatriz. Juliano sentou-se pesadamente no sofá para ler. Se está a ler isto, significa que eu fui-me embora.
Não sei se serão meses ou anos, mas o médico foi claro. Minha endometriose está demasiado avançada. Talvez não tenha muito tempo fértil pela frente. Ricardo, amor, estes embriões são o nosso futuro. Se algo acontecer comigo antes de estarmos juntos oficialmente, use-os com barriga de aluguer com uma nova parceira, não importa.
A Sofia merece ter irmãos biológicos completos. Você merece ter mais filhos. Eu sei que os nossos planos incluíam estar juntos primeiro, mas a vida nem sempre espera os nossos planos, não é? Estou a fazer isso como seguro, como garantia de que mesmo que eu não esteja mais aqui, terá a família que sempre sonhou. Amo-te. Sempre adorei.
Sempre amarei, Beatriz. Quando o Julian terminou, as suas mãos tremiam tanto que quase deixou cair o tablet. Ela sabia, sussurrou. Sabia que estava doente e mesmo assim planeou ter mais filhos com ele. Ameli completou a vozca. Enquanto criava-se a filha dela em casa, pensando que ela estava a descansar na casa da irmã, Julian levantou-se bruscamente, andando pela sala como um animal enjaulado. Isto é insano.
Ela faleceu há meses, meses e ainda está ainda está a controlar as nossas vidas. O que fazemos? Ameli perguntou abraçando o próprio corpo. São meio irmãos do Gabriel e da Sofia. A gente não pode simplesmente descartar. Não podemos. Julian virou-se para ela, os olhos selvagens. Porque não, Amelie? Nós já carregamos tanto dessas pessoas.
Tanto a traição, a mentira, o apartamento, a humilhação pública. Agora isso não. Eu não vou deixar que eles continuem a decidir as nossas vidas mesmo depois de mortos. Mas e se um dia Gabriel perguntar? Ameli insistiu a voz crescendo. E se ele quiser conhecer os irmãos biológicos e eu tiver de dizer que eu os destruí, então dizes a verdade.
Que o pai dele era um mentiroso egoísta que deixou esta confusão para trás. Julian não ele gritou e o som ecoou pelo apartamento. O Gabriel acordou no quarto começando a chorar. Eu não vou preservar mais nada deles. Não vou guardar essas essas células congeladas como se fossem relíquias sagradas. Eles não merecem isto. A Mel sentiu raiva subir, quente e violenta.
Não é sobre o que merecem, é sobre o que Gabriel e a Sofia merecem. É sobre dar escolhas a eles quando forem suficientemente velhos para compreender. Escolhas. Julian riu-se. Um som sem humor. Quer dar-lhes a escolha de gestar meios irmãos criados a partir da pior traição que já vivemos? Que tipo de família doente seria esta? Uma família honesta.
Ameli gritou de volta. Diferente da mentira que nós viveram, ficaram ali ofegantes, olhando um para o outro através de um abismo que parecia crescer a cada segundo. Foi Julian quem partiu o silêncio, a voz perigosamente baixa. Quer preservar porque não quer deixar o Ricardo ir. Ainda está presa a ele. A acusação cortou o fundo.
Como ousa? Am começou. É verdade, não é? Uma parte de si ainda o ama. ainda quer acreditar que ele não era completamente mau. E estes embriões são a prova de que queria mais filhos. Que talvez se cala, Amelie disse a voz trémula. Talvez pense que se preservar os embriões está a preservar a última parte boa dele.
A parte que queria família. Mas é mentira, Amelie. Ele queria família com ela, não com você. Eu disse para se calar. Amélia empurrou Julian com as duas mãos com força. Ele cambaleou para trás. surpreendido. O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo choro de Gabriel, cada vez mais alto. Sai daqui Ameli disse as lágrimas escorrendo livremente agora. Sai da minha casa.
Amelie, eu não quis. Você quis sim. Ela cortou-o. E sabe o que é pior? Talvez tenha razão. Talvez ainda esteja presa ao Ricardo. Talvez nunca consiga amar-te completamente, porque vou sempre te olhar e lembrar-se dela. Sempre vou lembrar que você faz parte desta tragédia horrível que destruiu a minha vida. As palavras saíram como veneno e Amelí viu o momento exato em que atingiram o alvo.
Juliano recuou como se tivesse sido esbofeteado. Então é isso? Ele perguntou a voz quebrada. Eu sou apenas o reflexo do teu fracasso. Não sei. Amélia admitiu que a honestidade brutal disto foi pior que qualquer mentira. Já não sei o que é real e o que é só. Só desespero. Juliano pegou nas chaves com mãos trémulas. Quando passou por Amelie, parou.
Eu te amo. Ele disse. Amo-te de verdade. Não como substituto, não como consolo. Mas talvez isso nunca seja suficiente, não é? Porque uma parte de si vai sempre estar naquela sala de hospital, descobrindo que não era suficiente para o Ricardo. Ele saiu antes que Ameli pudesse responder. A porta fechou com um clique suave que suou como um tiro.
Ameli ficou ali parada durante um longo momento, depois correu para o quarto. Gabriel estava de pé, no berço, o rosto vermelho de tanto chorar. Ela apanhou-o no colo, segurando-o com força, e permitiu finalmente que o próprio choro viesse. Violento, desesperado, destroçado. Eu estraguei tudo.
Ela soluçava contra o cabelo macio do filho. Eu estraguei completamente tudo. Do outro lado da cidade, Julian conduzia sem rumo, lágrimas a toldar-lhe a visão. Passou por três sinais vermelhos sem sequer se aperceber. Só parou quando ouviu. Sofia choramingando no banco de trás. Tinha-se esquecido que a deixara a dormir no carro.
Papá, a voz sonolenta e assustada da filha trouxe-o de volta. Por que razão está a chorar? Juliana encostou o carro, desligou o motor e olhou para a filha pelo retrovisor, os seus olhos enormes e inocentes, transportando ainda resquícios de Beatriz, mas sendo completamente só dela. “Porque às vezes os adultos brigam, princesa”, disse limpando o rosto.
“E às vezes dizem coisas que não deveriam”. “Lutou com a tia Mell? O apelido que Sofia tinha inventado para Amily doeu mais do que Julian esperava. Briguei. Mas vai fazer as pazes? A Sofia perguntou com aquela lógica simples das crianças. Quando eu brigo com a Júlia na escola, a professora faz a gente pedir desculpa.
É mais complicado do que isso, querida. Por quê? Julian não tinha resposta. Porque era? Ou estava simplesmente com medo. Nessa noite, Amelie ficou acordada até de madrugada, segurando Gabriel adormecido, a olhar para o telemóvel. Nenhuma mensagem de Julian. Ela digitou e apagou pelo menos 20 textos diferentes, desculpas, explicações, súplicas.
Às 3 da manhã, finalmente mandou. Eu não quis dizer aquilo, nada daquilo. Eu estava com medo e apagou antes de enviar. Em vez disso, mandou: “Desculpa, eu amo-te e isso assusta-me mais do que qualquer coisa. Volta, por favor.” A resposta chegou 10 minutos depois. Também te amo e também estou com medo, mas não sei se o amor é suficiente quando nos estamos a destruir um ao outro.
Ameli sentiu o peito partir-se. Então o que fazemos? Não sei. Preciso pensar. Preciso de respirar. Quanto tempo? Mas não sei, Amélie. Não sei mais de nada. Ameli atirou o telefone para o sofá e enterrou o rosto nas mãos. O Gabriel se mexeu-lhe no colo, os dedinhos agarrando a blusa. Ela olhou para o filho, tão pequeno, tão inocente, tão alheio à tempestade que os seus pais biológicos tinham deixado para trás.
O seu pai era um idiota, sussurrou ela. Eu estou a apaixonar-me pelo homem errado, pelas razões erradas ou pelas razões certas, já não sei. Gabriel apenas bocejou e voltou a adormecer. A Melice se levantou-se, colocou o filho no berço e foi até à varanda. São Paulo estava escura, apenas alguns pontos de luz aqui e ali.
O ar estava frio, cortante. Ela pensou em ligar novamente para Julian. Pensou em ir a casa dele, bater à porta, implorar perdão, mas não fez nada disso, porque uma parte dela, a parte que Julian tinha acertado em cheio, ainda estava naquela sala de hospital, descobrindo que não era suficiente. E até resolver isso, até realmente enterrar o Ricardo e toda a dor que ele representava, talvez não pudesse amar Julian da forma que merecia.
O telefone vibrou. Uma mensagem de Luciana. Acabei de ver a foto que vazou. Está bem? Amélia olhou para a pergunta por um longo momento. Depois digitou a única resposta honesta que tinha. Não. E naquela noite mais escura, Ameli Carvalho percebeu que talvez amar não fosse suficiente quando ainda estava a aprender a amar a si mesma primeiro.
Três dias se passaram em silêncio absoluto. A Amely não ligou. O Julian não mandou mensagem. Era como se ambos tivessem construído um muro invisível entre eles. Demasiado alto para escalar, demasiado sólido para derrubar. Mas a vida não parava por causa da corações partidos. A carta da clínica de fertilização vinha com um prazo, 30 dias para decisão sobre os embriões.
Após esse período, a questão seria levada ao Ministério Público que decidiria pela família ou pelo estado. E a família de Beatriz já tinha descoberto. Foi a irmã dela, Clarice Fonseca. Não a mãe de Amelie, mas a cunhada de Julian, que intentou a ação legal. Ela alegava que os embriões eram património genético familiar e exigia que fossem preservados.
Mas que é isto? Queria gestá-los ela própria. A Beatriz merece que os seus filhos existam, dizia o processo. E A Sofia merece conhecer os irmãos que a mãe tanto lhe desejou dar. A audiência de mediação foi marcada para uma sexta-feira de manhã no fórum central. Amelie recebeu a convocatória por e-mail e ficou a olhar para o ecrã do computador até as letras se embaralharem.
Luciana encontrou-a assim duas horas depois, ainda paralisada na cadeira. Você precisa de um advogado. Luciana disse gentil mais firme. Eu preciso do Julian. Amelie respondeu à voz pequena. Não sei como fazer isso. Sozinha. Então liga para ele. Ele pediu tempo e vocês não têm tempo. Luciana apontou para o documento no ecrã.
A audiência é daqui a 5 dias. Amelie, quer queira quer não, vocês vão ter de se ver. Vão ter de decidir juntos. Ameli pegou no telefone com mãos trémulas e digitou: “Viste a intimação?” A resposta veio quase instantânea, como se Julian estivesse à espera que ela escrevesse. Veste, o Pedro está a ajudar-me a encontrar advogado. Precisamos de falar antes, decidir o que vamos fazer. Pausa longa.
Ameli viu os três pontinhos aparecerem e desaparecerem várias vezes. Finalmente, amanhã no apartamento, 10h. Quando Ameli chegou ao Guarujá na manhã seguinte, Julian já lá estava. Ele parecia não ter dormido há dias, olheiras profundas, barba por fazer, roupas amarrotadas. A Amely provavelmente tinha a mesma aparência.
Eles se encararam à porta do apartamento e por um segundo nenhum dos dois sabia o que dizer. Foi Julian quem partiu o silêncio. Desculpa por tudo o que eu disse. Eu também, a Amelissa surrou. Você não é o reflexo do meu fracasso. Você é És a melhor coisa que aconteceu depois da pior. Os olhos de Julian encheram-se de lágrimas, mas ele piscou para afastá-las.
Então, o que é que nós faz com os embriões? Com tudo? Eles sentaram-se no chão da sala, agora completamente renovada, com piso novo e paredes brancas imaculadas. O lugar que tinha sido o ninho de amor de Ricardo e Beatriz agora era outra coisa. Não completamente deles, mas também já não deles. A Clarice quer gestar na lhe disse: “Li o processo todo.
Ela diz que Beatriz confiou nela, que conversaram sobre isso. É mentira”, O Julian respondeu. A mandíbula tensa. A Beatriz nunca mencionou nada do género para a irmã. A Clarice só quer isso porque não consegue ter filhos. Ela está a usar os embriões para realizar o seu próprio sonho, não o da Beatriz.
“Mas e se ela tiver razão?”, perguntou Ameli baixinho. E se Beatriz queria mesmo isso? Não importa o que Beatriz queria, Julian disse. E havia uma nova dureza na voz dele. Ela morreu, Amel. Morreu a mentir, trair, planeando destruir famílias. Não lhe devemos nada, mas devemos algo ao Gabriel e à Sofia. Ameli insistiu. São meio irmãos deles, sangue deles.
A as pessoas têm direito de simplesmente apagar isso. Julian passou as mãos pelo cabelo, frustrado. Então, o que sugere? Que deixemos a Clarice gestar. Que Sofia cresça tendo meios irmãos criados pela tia como primos. Que o Gabriel um dia conheça crianças que são metade do pai que nunca conheceu. Eu não sei. Ameli gritou, depois baixou a voz.
Eu não sei bem, mas sei que não posso decidir isso sozinha e também não pode. Ficaram em silêncio por longos minutos. Foi Ameli quem finalmente falou: “E se e se nós preservasse até o Gabriel e a Sofia terem idade para decidir 18 anos. Quando forem adultos, escolhem o que fazer.” Julian olhou para ela processando.
18 anos a pagar taxas de manutenção, 18 anos a carregar isso, 18 anos dando-lhes o direito de escolher o próprio futuro. Amely corrigiu. Não é a solução mais fácil, mas talvez seja a mais justa. Julian fechou os olhos. Quando os voltou a abrir, havia uma clareza ali que não existia antes. Tudo bem. Vamos fazer juntos. Juntos? Ameli repetiu e estendeu a mão.
Juliano segurou entrelaçando os dedos e ali, naquele gesto simples, algo se curou entre eles. A audiência decorreu numa sala pequena e abafada no 10º andar do fórum. Ameli chegou com Luciana, que insistiu em acompanhá-la. O Julian chegou com o Pedro. O Gabriel estava com uma ama. Sofia com a avó paterna.
Longe do caos que os adultos estavam prestes a criar, a família da Beatriz já lá estava. Clarice Fonseca e a mãe, dona Mercedes, ambas vestidas de preto como se estivessem num velório perpétuo. Do outro lado da sala, a mãe de Ameli também tinha aparecido, embora não tivesse falado com a filha há dias. No centro, o juiz, um homem de meia-idade, com óculos de leitura pendurados numa corrente, foliava os documentos com expressão cansada. Bem, ele começou.
Esta é uma situação delicada e sem muitos precedentes legais. Temos aqui quatro embriões criopreservados, criados por dois indivíduos falecidos que na época mantinham um relacionamento extraconjugal. Os herdeiros legais, a senora Amélie Carvalho e o senhor Julian Fonseca discordam sobre o destino destes embriões.
A família da falecida Beatriz Fonseca solicita que sejam preservados e eventualmente gestados. Correto? A advogada de Clarice, uma mulher de tailher cinzento e ar severo, levantou-se. Exatamente, excelência. A minha cliente, irmã da falecida, está disposta a gestar os embriões, dando aos filhos o lar amoroso que Beatriz desejava.
É o que está expresso na carta dela. A carta Julian interrompeu, sem conseguir se conter, foi escrita para o Ricardo, não para a família dela. A Beatriz nunca referiu querer que a irmã gestasse. Silêncio, advertiu o juiz. O senhor terá a sua vez de falar. Clarice levantou-se, as mãos trémulas. A minha irmã era uma mulher boa que cometeu erros sim, mas que amava profundamente.
Ela queria mais filhos, merecia ter mais filhos. E a Sofia? Ela olhou para Julian com olhos acusadores. Merecia ter os irmãos que a mãe sonhava dar-lhe. A sua irmã era uma mentirosa. – disse Julian a voz baixa, mas cortante. Desculpa a franqueza, mas era ela. Mentiu-me durante dois anos. usou o nosso dinheiro, o nosso tempo, a nossa vida para construir algo com outro homem.
E agora queres que eu honre os sonhos dela, Julian? Pedro sussurrou, puxando o braço dele, mas Julian continuou levantando-se. Não chega. Vocês querem transformar isso numa questão de honra familiar? Vamos então falar de honra. Beatriz não tinha honra. O Ricardo não tinha honra. Tinham egoísmo e agora querem que carreguemos o peso das decisões egoístas deles.
O meu filho tem razão. A mãe de Julian, que estava sentada ao fundo, falou finalmente: “Ela senhora elegante, de cabelo grisalho. A Beatriz fez escolhas. Escolhas que magoaram a minha neta e agora querem que ele preserve o legado dela. A mãe de Amelie, surpreendentemente também se manifestou. A minha filha já sofreu demais”, disse ela.
E Ameli virou-se surpresa. “Não concordo com muitas das decisões dela.” A Dona Clarice olhou brevemente para o Julian, mas concordo que ela não deve ser forçada a preservar embriões do homem que atraiu. O juiz bateu com o martelo. Ordem. Vou ouvir os diretamente envolvidos agora. Senora Amelie, o que é que a senhora tem a dizer? Amely levantou-se às pernas bambas, olhou para Julian, que a sentiu encorajadoramente.
Excelência, ela começou a voz trémula, mas firme. Eu passei os últimos meses tentando perceber porque é que o meu marido me traiu, tentando encontrar onde eu falhei, mas a verdade é que falhou. Beatriz falhou. Eles fizeram escolhas adultas que destruíram famílias. Ela respirou fundo.
Mas o meu filho Gabriel não fez essas escolhas. A filha de Julian, a Sofia não fez essas escolhas. E estes embriões, se um dia se tornarem pessoas, também não o fizeram. Assim, não posso simplesmente descartá-los como se fossem lixo, mas também não posso permitir que sejam utilizados para realizar os sonhos de gente que já partiu.
Juliano levantou-se ao lado dela pegando na sua mão. Por isso, continuou. Decidimos preservar os embriões até que Gabriel complete 18 anos. Nesse momento, ele e Sofia, como irmãos dos potenciais futuros, indivíduos, terão idade e maturidade para decidir, preservar mais tempo, doar, descartar ou até gestar, se assim o desejarem, e se for tecnológica e legalmente, possível.
Murmúrios explodiram na sala. Vocês não têm esse direito. Clarice gritou. São filhos da minha irmã. São células, corrigiu Julian firme. É o direito de decidir sobre elas. Pertence aos herdeiros legais. Quem somos nós? O juiz observou o casal por um longo momento. E vocês estão dispostos a suportar os custos de manutenção durante 18 anos? Sim.
Ameli e Juliano responderam em uníssono. Mesmo que isso signifique sacrifícios financeiros. Mesmo assim, Ameli confirmou. O juiz assentiu lentamente, depois bateu com o martelo. Decisão homologada. Os embriões serão preservados em nome dos herdeiros, legais até que Gabriel Carvalho complete 18 anos de idade.
Nesse momento, será realizou-se a nova audiência, onde Gabriel e Sofia, Fonseca, poderão manifestar as suas vontades quanto ao destino dos embriões, caso estejam reunidos. O martelo ecoou pela sala como um tiro final. Clarice levantou-se bruscamente, a cadeira arranjando contra o chão. Isso é um absurdo.
Vocês estão a usar essas crianças como desculpa para adiar. Uma decisão que não tem coragem de tomar. Clarice, chega. A Dona Mercedes segurou o braço da filha, mas a própria voz estava trémula. O juiz já decidiu. Não vou aceitar isso. Clarice virou-se para a advogada. Podemos recorrer? A advogada hesitou foliando os papéis.
Podemos tentar, mas considerando que os Os herdeiros legais estão dispostos a suportar com todos os custos e demonstraram uma solução que preserva tantos embriões quanto o direito de escolha futura dos crianças envolvidas. É improvável que ganhem. Clariss olhou para Julian com um ódio tão puro que Amelie sentiu um arrepio.
Mataste a minha irmã pela segunda vez, ela cuspiu. Está a apagar ela completamente. A sua irmã se apagou sozinha quando escolheu mentir. Juliano respondeu demasiado cansado para sentir raiva. Eu só estou a tentar proteger minha filha de mais dor, cobarde. Chega. O juiz bateu novamente com o martelo. Esta audiência está encerrada.
Qualquer desrespeito adicional resultará em desacato. Saiam todos, por favor. Amelie pegou na bolsa com mãos trémulas. Juliano colocou a mão nas costas dela, um gesto protetor, instintivo, e juntos caminharam em direção à saída. Do lado de fora da sala, um mar de flashes os esperava. Ameli não estava preparada para isso.
Congelou no cimo da escada, vendo pelo menos 20 jornalistas com câmaras, microfones, olhos famintos de escândalo. Senora Carvalho, é verdade que a senhora e o senor Fonseca estão num relacionamento? Como vocês justificam envolverem-se tão rápido após a morte dos cônjuges? Isto não é desrespeitar a memória dos falecidos? Julian deu um passo em frente, posicionando-se entre Ameli e as câmaras.
Vou fazer um pronunciamento”, disse, a voz firme, “E depois não haverá mais perguntas”. O burburinho diminuiu, as câmaras focaram-se nele. Juliano respirou fundo e Ameli viu as suas mãos tremerem ligeiramente antes de ele enfiar no bolso. “O meu nome é Julian Fonseca. Esta é a Amilie Carvalho. Os nossos falecidos Os cônjuges mantiveram um relacionamento extraconjugal por dois.
Anos, mentira! traíram, planearam deixar as suas famílias. Isto não é segredo para ninguém aqui. Silêncio absoluto. Até os Os jornalistas pareciam surpreendidos pela franqueza brutal. Hoje, Julian continuou, decidimos preservar os embriões que deixaram para trás até que os nossos filhos tenham idade para decidir o que fazer com eles.
Não porque devemos algo aos nossos falecidos cônjuges, mas porque devemos tudo aos os nossos filhos. Ele olhou diretamente para as câmaras. Sim, a Amelie e eu estamos juntos. E sei que isso incomoda muita gente. Sei que parece errado. Demasiado rápido, demasiado conveniente. Mas sabem o que descobrimos? Que dor partilhada pode transformar-se em compreensão, compreensão em amizade e amizade em amor.
Ameli sentiu lágrimas queimarem, mas não caírem. Não pedimos para estar nesta situação, disse Julian. E havia uma emoção crua na voz agora. Não pedimos para ser traídos. Não pedimos aos nossos filhos para crescerem sem um dos progenitores. Mais aconteceu. E tínhamos duas escolhas: afundarem-se sozinhos na amargura ou tentar construir algo novo, algo honesto, algo real.
Ele estendeu a mão para Amelie. Ela segurou entrelaçando os dedos. Escolhemos honrar a vida, e não a morte. Julian finalizou. Escolhemos os nossos filhos. Escolhemos o nosso futuro e escolhemos um ao outro sem mais perguntas. E antes que qualquer jornalista pudesse gritar outra pergunta, Julian puxou a Meli pelas escadas, por entre a multidão, até ao estacionamento.
Só quando entraram no carro dele e fecharam as portas, é que Ameli finalmente desmoronou. Você fez isso? Ela soluçava, mas era um choro de alívio. Você defendeu-nos. A gente se defendeu. Julian corrigiu, limpando as lágrimas dela com o polegar. Juntos. Amely puxou-lhe o rosto e beijou-o desesperadamente, agradecida, apaixonadamente.
Juliano retribuiu, segurando-a como se ela pudesse desaparecer. Quando se separaram, ambos estavam a chorar. “Eu amo-te”, disse Amelie. “E não vou mais ter medo de o dizer. Eu também te amo”, respondeu Julian. “E não vou mais pedir desculpa por isso.” Eles dirigiram-se em silêncio até ao Guarujá. Não planearam, simplesmente foram.
Como se ambos soubessem que aquele apartamento, o lugar onde tudo começou e quase terminou, era onde precisavam de estar. Lá dentro, com a porta trancada e o mundo lá fora silenciado, Julian puxou Ameli para o sofá. “Casa comigo”, disse de repente. Ameli piscou, processando. “O quê?” “Casas comigo?”, repetiu Julian, segurando as duas mãos dela.
“Não agora, daqui a uns meses, quando o pó download, mas casa comigo oficialmente, publicamente. Quero acordar contigo todos os dias. Quero criar o Gabriel e a Sofia juntos. Quero que a Ana. Colocou a mão na barriga dela, onde ainda não havia nada, mas algum dia poderia haver. Cresça sabendo que foi planeada, desejada, amada. Julian, começou Amelie.

As lágrimas a voltar. Eu sei que vai ser difícil. Sei que as nossas famílias vão ter opiniões. Sei que o mundo vai julgar. Mas já não ligo Ameli. Só ligo de ter-te, de ter isso. Ameli olhou para o homem à sua frente, imperfeito, quebrado, mas completamente dela, e percebeu que todas as dúvidas, todos os medos, todo o questionamento de será que é real, tinha finalmente uma resposta.
Era, era real, mais real do que qualquer coisa que tinha tido com o Ricardo. Sim, ela sussurrou. Sim, sim. Eu caso com você. Juliana puxou-a para um beijo que rapidamente se transformou em algo mais. Roupa a ser removida, mãos a explorar, corpos a encontrarem-se com uma urgência que vinha de quase os ter perdido um ao outro.
Fizeram amor ali mesmo no sofá do apartamento renovado, selando a decisão de uma forma que nenhum contrato legal jamais poderia. Depois, deitados n e entrelaçados, Amelie desenhou círculos preguiçosos no peito de Julian. Quanto tempo até achar que devemos esperar?”, perguntou ela. Para casar? Julian beijou-lhe o topo da cabeça. “Se meses, um ano?” “Muito tempo, Ameli” murmurou fazendo-o rir.
Assim, três meses, só para não parecer que enlouquecemos completamente. “Já parecemos”, Amelia apontou. “Então por esperar?” Julian virou-lhe o rosto para encará-lo. “Está a falar a sério?” “Estou.” E Ameli percebeu que estava. Já perdemos demasiado tempo com o medo e a culpa. Quero começar a nossa vida de verdade. Então vamos a isso. O Julian decidiu.
Pequeno íntimo. Só as pessoas que realmente importam aqui. A Mel sugeriu olhando em redor neste apartamento. O lugar deles passa a ser nosso. Juliano concordou. Gosto disto. Três meses depois, numa tarde de sábado soalheira, Ameli Carvalho e Julian Fonseca se casaram no apartamento renovado em Guarujá.
A Luciana estava lá como madrinha, Pedro como padrinho. As mães de ambos compareceram relutantemente, mas compareceram. A Sofia foi da minha usando um vestido cor-de-rosa que ela própria escolheu. Gabriel, agora com quase um ano e meio, foi pagem mais interessado em comer as pétalas de rosa do que lançá-las no caminho. Não houve padre.
Foi um juiz de paz, o mesmo que homologou a decisão sobre os embriões e que, ao vê-los novamente, sorriu discretamente. Os votos foram simples. Ame Julian disse, segurando as mãos dela. Ensinaste-me que é possível construir o amor sobre ruínas. Que dor se pode transformar em cura? Prometo-te amar não apesar do nosso passado, mas incluindo ele, porque ele nos trouxe aqui.
Ameli limpou as lágrimas antes de falar. Julian, você me viu no meu pior e optou por ficar. Me ensinou que eu era suficiente, que sempre fui. Prometo escolher-te todos os dias, nas alegrias e nas dores, nos dias fáceis e nos impossíveis. Quando o juízos declarou marido e mulher, Sofia gritou: “Agora a tia Mél é a minha mãe de verdade?” E toda a sala riu através das lágrimas. A festa foi pequena.
Só eles, as crianças, os amigos mais próximos. Mas quando Amily dançou com Julian na varanda ao som de uma música tocar no telemóvel, olhar para o mar que testemunha tanto da sua dor, e agora testemunhava. A sua alegria. Ela soube contra todas as probabilidades, contra todos os julgamentos, contra toda a lógica, tinham conseguido, tinham transformou a tragédia em amor.
E isso? Pensou enquanto Juliana a fazia rodopiar e Sofia e Gabriel riam ao fundo. Era a vitória mais doce de todas. 18 anos e 2 meses após o acidente, Amélia acordou cedo, como sempre fazia aos sábados. A casa de Pinheiros, que compraram 5 anos depois de casados, quando necessitavam de mais espaço, ainda estava silenciosa.
Ao lado dela, Julian dormia profundamente, o braço atirado sobre a almofada, os cabelos grisalhos desarrumados. 50 anos. Ameli sorriu tocando com o próprio rosto no espelho da casa de banho, 50 anos e finalmente em paz com a mulher que via aí refletida. Desceu para a cozinha e começou a preparar café. Pela janela via o jardim que Julian tinha desenhado, cheio de flores que a Ana insistia em plantar, mesmo sem talento nenhum para jardinagem.
Ana, filha que nasceu três anos depois do casamento, num parto tranquilo e planeado, tão diferente do nascimento traumático de Gabriel. Agora com 15 anos, era a mediadora nata da família, herdando a bondade de Ameli e a praticidade de Julian. Bom dia, mãe. A voz sonolenta de Gabriel fê-la virar-se. O seu filho estava à porta da cozinha, alto e magro, os cabelos escuros caindo sobre os olhos. 18 anos e 2 meses.
Um homem agora tecnicamente, mas para Amelie era ainda o bebé prematuro que ela segurou naquela noite horrível no hospital. Bom dia, amor. Café, por favor. Gabriel sentou-se à mesa, pegando no violão que deixava sempre encostado à parede. Começou a dedilhar uma melodia suave, a mesma que Ricardo costumava tocar.
Embora Gabriel não soubesse disso, Ameli nunca lhe contara. Algumas coisas podiam permanecer apenas memórias dela. “Nervoso?”, perguntou ela colocando a chávena na frente dele. O Gabriel parou de tocar. “Devia estar?” “É uma decisão grande. Eu sei. Ele bebeu o café devagar, mas já decidi. Só preciso que a Sofia concorde.
” A porta da frente abriu-se e Sofia entrou com a energia característica dos seus 22 anos. “Alguém disse o meu nome?”, ela cantarolou. atirando a mochila para o sofá e indo diretamente para a cozinha abraçar a Meli. Bom dia, mãe. Mãe, a Sofia tinha começou a tratá-la assim aos 12 anos, depois de pedir autorização formal numa carta que a Meli guardava até hoje.
Nunca tentou substituir Beatriz. As fotos dela ainda estavam no quarto de Sofia, as memórias preservadas com carinho, mas Ameli era quem a criara. Quem lá estivera? O seu pai ainda está a dormir?”, perguntou a Sofia pegando numa maçã. “Deixa-o descansar.” Amelie respondeu. Trabalhou até tarde ontem no projeto do museu.
Julian, aos 56 anos, estava no auge da sua carreira. Seus projetos de espaços de memorialização não tradicionais tinham ganho reconhecimento internacional. O primeiro, construído perto do cemitério do Morumbi, era visitado por milhares de pessoas em luto complexo todos os anos. A Ana desceu a correr às escadas, os fones de ouvido ainda no pescoço.
“Hoje é o dia?”, perguntou ela sem rodeios. Gabriel assentiu. “Hoje é o dia”. As quatro pessoas reuniram-se na sala de estar duas horas depois. Ameli e Julian, agora acordado e de óculos de leitura. Gabriel, Sofia e Ana. Na mesa de centro, documentos da clínica de fertilização. 18 anos.
O prazo que tinham estabelecido naquela audiência tensa tinha finalmente chegado. “Vocês sabem que não precisam decidir hoje.” Julian começou a mão encontrando a de Amélia automaticamente. “Podem pedir mais tempo para pensar”. “Não preciso de mais tempo.” Gabriel disse, olhando para a Sofia. “Mas preciso saber o que pensa”.
A Sofia sentou-se na ponta do sofá, as mãos entrelaçadas no colo. Estudava psicologia na USP. Escrevia poesia nas horas vagas. Tinha o coração bondoso da mãe, biológica, mas a força que Ameli e Julian lhe ensinaram. Passei os últimos meses a pensar nisso, disse ela. Li a carta da minha mãe biológica dezenas de vezes. Tentei perceber o que ela queria, o que seria justo. E Gabriel pressionou gentilmente.
Percebi que não importa o que ela queria, respondeu a Sofia. Olhando para Julian e Amelie, vocês os dois ensinaram-me que a família não é só biologia. A Ana é a minha irmã tanto como o Gabriel, mesmo não partilhando ADN comigo. O amor que me criou importa mais do que o sangue que me gerou.
A Ana pegou na mão da Sofia apertando. Então, qual é a sua decisão? Ameli perguntou a voz suave. Quero preservar por mais 10 anos Sofia disse. Quando tiver 32 anos, vou revisitar. Talvez nesta idade eu esteja pronta para gestar. Talvez não. Mas quero ter essa escolha. Gabriel assentiu lentamente. Concordo. E se aos 28 ainda quiser preservar, nós mantemos até você decidir.
E se nenhum de vós quiser gestar, quando chegar a altura, o Julian perguntou. Assim doamos, Gabriel respondeu, para um casal que não pode ter filhos com uma condição que quando a criança completar 18 anos, possa conhecer a história toda, de onde veio, quem eram os pais biológicos e que teve quatro irmãos que a amaram ainda antes dela resistir.
Amely sentiu lágrimas queimarem, olhou para Julian, que também estava emocionado. “Vocês têm a certeza?”, perguntou ela. absoluta. A Sofia confirmou. Não estamos fazendo-o por obrigação ao passado. Estamos a fazê-lo porque acreditamos no futuro. E quem sabe, talvez estes embriões se tornem pessoas incríveis, pessoas que merecem existir.
E se para se tornarem pessoas, acrescentou Ana, são os nossos irmãos também, porque a família é quem escolhemos, lembram-se? Amilie levantou-se e abraçou os três filhos. Julian juntou-se ao abraço e, por um momento ficaram assim, uma família imperfeita, construída sobre escombros, mais sólida.
Mais tarde, quando as crianças saíram e Amelie e Julian ficaram sozinhos, ele puxou-a para o sofá. “Conseguimos”, disse simplesmente. “Conseguimos o quê?” “Cria-los bem. Apesar de tudo, apesar da confusão que Ricardo e Beatriz deixaram, criámos três seres humanos incríveis.” Amelie encostou a cabeça no ombro dele. Acha que eles teriam orgulho? Ricardo e Beatriz.
Julian pensou por um momento: “Não sei e sinceramente, já não importa.” Não importa não. Porque o que nós construiu não foi por eles ou apesar deles, foi por nós e pelas crianças. Ameli virou o rosto e beijou-o. suave, familiar, carregado de 18 anos de história partilhada. Naquela tarde visitaram o cemitério do Morumbi.
Faziam isto uma vez por ano, no aniversário do acidente. Levaram flores frescas para ambos os túmulos, lado a lado, como sempre estiveram. Ameli ficou de pé diante da lápide de Ricardo durante um longo momento. “Perdeu tanta coisa.” Ela disse em voz alta. Gabriel formou-se com louvor no ensino secundário.
Quer estudar medicina? Toca guitarra como você. Tem o seu sorriso, mas tem o meu coração. O Julian estava diante do túmulo de Beatriz. A Sofia é linda disse ele, dentro e fora. Escreve poesias que te fariam chorar. Está namora com um rapaz bom que a trata como princesa. E ela chama-me pai, mas nunca se esqueceu de si.
Ficaram ali por mais alguns minutos, depois caminharam de volta para o carro de mãos dadas. Sabe o que é engraçado? A disse enquanto conduziam de volta para casa. Eu costumava ter pesadelos sobre aquela noite. O hospital, a descoberta, a dor. Mas há anos que não sonho com isso. Com com o que sonha agora? Com o futuro. Ela respondeu sorrindo.
Com a formatura do Gabriel, com o casamento da Sofia, com a Ana a descobrir quem quer ser, com a gente a envelhecer juntos naquela casa que projetou. Bons sonhos, O Julian disse, os melhores. Quando chegaram a casa, a Ana estava na sala tocando guitarra. Não muito bem, mas com entusiasmo, Gabriel cantava, desafinando propositadamente para fazê-la rir.
Sofia tirava fotografias no telemóvel, capturando o momento. Ameli parou à porta, apenas observando. O Julian veio por trás, abraçando-a pela cintura. Valeu a pena”, sussurrou-lhe ao ouvido. “Cada rasgão, cada briga, cada momento de dúvida. Valeu a pena por isso.” Amily virou-se nos braços dele. “Eu amo-te mais hoje do que ontem, menos do que amanhã.
” “Poesia barata, Julian brincou.” “É, ela riu-se. Mas é verdade. Nessa noite, depois de as crianças dormiram, Amélia abriu o portátil e terminou o último capítulo do livro que vinha. escrevendo há dois anos. Amor sobre escombros e um as suas memórias. Não relato amargo de traição, mas uma história de cura, de perdão, de reconstrução. Digitou a última linha.
Os nossos mortos uniram-nos. Os nossos vivos salvaram-nos e nós escolhemos viver. Todos os dias escolhemos viver. Isso fez toda a diferença. Salvou o ficheiro e enviou para a editora. Depois foi para o quarto, onde Julian já estava deitado, a ler um livro de arquitetura. Ameli deitou-se ao lado dele, com a cabeça no peito dele, ouvindo o batimento cardíaco constante. Juliano. Hum.
Obrigada por não desistir de mim quando desisti de mim mesma. Ele beijou-lhe o topo da cabeça. Obrigado por me ensinares que os recomeços são possíveis. E ali naquela casa cheia de amor e memórias e futuros por escrever, Ameli Carvalho, agora Ameli Fonseca, adormeceu em paz, porque o amor construído sobre a dor é o mais forte de todos, porque é escolha todos os dias é escolha.
Amelie e Julian provaram que mesmo das cinzas mais dolorosas pode nascer algo de extraordinário, não porque a a dor desaparece, mas porque podemos escolher o que construir com ela. Eles transformaram a traição em confiança, solidão em companheirismo, destroços em fundação. E criaram três filhos que entendem que a família não é apenas sangue, é presença, é escolha, é amor que se renova a cada amanhecer.
Talvez a questão não seja se conseguimos superar a dor, mas se temos a coragem de a deixar transformar-nos em algo melhor. E você, que escombros está à espera de permissão para reconstruir? Se esta história tocou você de alguma forma, deixe o seu like. Ele mostra-me que histórias de recomeço ainda importam.
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