Silvio Santos estava no meio de uma gravação num domingo de Março de 1997, quando um dos seguranças da SBT apareceu nos bastidores com o rosto branco. Não branco de susto comum, branco de quem viu algo que não sabe dizer em voz alta. encostou-se ao ombro do diretor de estúdio, sussurrou três frases e o diretor deixou de se mexer.
Ficou parado com o auricular na mão, olhando para o chão do corredor, como se o chão tivesse acabado de abrir. O que aconteceu nas 2 horas seguintes nunca foi para o ar, nunca virou reportagem, nunca apareceu em nenhuma coluna de televisão, mas mudou para sempre a forma como a segurança do SBT funcionava. mudou a relação de Silvio Santos com o seu próprio auditório e revelou sobre aquele homem algo que nem os mais próximos dele tinham visto até então.
Antes de eu te contar o que se passou dentro daquele estúdio, preciso de te falar sobre um homem chamado Osvaldo Corrêa. Osvaldo tinha 46 anos nesse mês de março de 1997. era funcionário da SBT A11, trabalhava como coordenador de auditório, que era um cargo que não existia oficialmente no organograma da estação, mas que todo o mundo sabia o que significava.
era o homem responsável por colocar 250 pessoas sentadas nas cadeiras certas, nos horários certos, com os crachás certos, sem confusão, sem briga, sem ninguém a entrar que não deveria entrar. Osvaldo fazia-o todos os domingos e em alguns sábados também, há mais do que uma década. Tinha um bigode grosso que nunca aparava bem, um relógio Casio com a pulseira de borracha já ressequida pelo tempo e o hábito de mascar pastilha elástica de hortelã durante todo o turno, porque dizia que mantinha a cabeça fria.
Morava em Osasco com a mulher e os dois filhos adolescentes. apanhava o autocarro das 4:30 da manhã nos dias de gravação para chegar à SBT antes das 6. Conhecia pelo nome mais da metade dos frequentadores habituais do auditório. Aquelas senhoras que vinham todos os domingos com a mesma roupa de festa, os mesmos sapatos de salto, a mesma esperança de serem chamadas ao palco para ganhar alguma coisa.
Osvaldo não era segurança, não tinha formação de segurança, não transportava arma, não usava colete, não tinha rádio. O que ele tinha era uma coisa que nenhum formação ensina. a capacidade de olhar para uma fila de 300 pessoas e saber pela forma como alguém andava, pelo forma como alguém olhava, pela forma como alguém segurava a bolsa ou mantinha a mão no bolso, se essa pessoa estava ali para se divertir ou para fazer outra coisa.
Naquele domingo de março, Osvaldo reparou em alguma coisa errada às 8:47 da manhã. A fila do auditório começava a formam-se por volta das 7. As portas abriam às 9. Entre sete e Osvaldo percorria toda a fila, de ponta a ponta, cumprimentando quem conhecia, observando quem não conhecia, com a naturalidade de quem está apenas a ser simpático.
Ninguém se apercebia que ele estava trabalhando. Achavam que era só o homem do bigode que gostava de conversar. Nessa manhã, a meio da fila, Osvaldo viu um grupo de cinco homens que não se encaixavam, não se encaixavam de uma forma específica que não saberia explicar em palavras, mas que o corpo dele reconhecia antes da mente processar.
Eram jovens entre os 25 e os 30 anos. Estavam bem vestidos, o que não era invulgar. As pessoas vinham arranjadas para o auditório, mas a roupa deles era demasiado nova. Camisa social, ainda com a marca da dobra de loja, sapatos sem qualquer arranhar, e não conversavam entre si da forma como um grupo de amigos conversa.
Conversavam sem olhar um para o outro. Olhavam em frente, para os lados, para a entrada. Mapeavam. Osvaldo passou por eles sem parar. Cumprimentou a senhora que estava atrás deles, uma frequentadora habitual chamada dona Eunice, que vinha todo domingo de Guarulhos e que trazia sempre um saco de rebuçados de leite para distribuir na fila.
Conversou com a dona Eunice durante 30 segundos, rindo de uma piada que ela contou, enquanto os seus olhos voltavam discretamente para os cinco homens. Um deles tinha uma cicatriz no pescoço que ia da orelha até ao colarinho da camisa. Fina, branca, antiga, o tipo de cicatriz que conta uma história sem precisar de palavras.
Outro tinha as mãos inquietas, mexendo no cinto, no bolso, no botão da camisa, com a agitação de quem está desconfortável dentro da própria pele. O terceiro, o que parecia mais velho, estava parado com uma imobilidade que era o oposto da agitação do segundo. Demasiado parado, demasiado controlado. A imobilidade de quem aprendeu a controlar o corpo em situações em que perder o controlo significa morrer.
Osvaldo terminou a conversa com a dona Eunice, caminhou de volta para a entrada do estúdio. O chiclete de hortelã estava perdendo o sabor. Ele tirou-o da boca, deitou-o para um lixo, tirou outro do bolso, mastigou devagar, pensou no que tinha visto, pensou no que deveria fazer. O que deveria ele fazer, segundo o protocolo da SBT, era informar a segurança patrimonial.
O SBT tinha uma equipa de seguranças terceirizados que estavam na portaria, nos corredores e na entrada do estúdio. Eram homens de empresa de segurança com farda, crachá, a postura profissional e a limitação de quem segue regras escritas por alguém que nunca pisou um auditório de televisão. Osvaldo sabia que se informasse a segurança, o procedimento seria simples.
Abordar os cinco homens, pedir identificação, verificar se estavam na lista e, caso não estivessem, convidá-los a retirar-se. Limpo, rápido, correto e possivelmente perigoso, porque Osvaldo não sabia exatamente o que aqueles cinco homens eram. Não sabia se estavam armados, não sabia o que queriam. Não sabia se uma abordagem direta provocaria uma reação que ninguém naquele estúdio estava preparado para lhe dar.
O que Osvaldo sabia, com a certeza do instinto de quem passou uma década a observar multidões, era que aqueles homens não eram público, eram outra coisa. O SBT em 1997 vivia um momento que quem não trabalhava lá dentro não compreendia por completo. Por fora era o segundo canal do Brasil. O programa de Silvio Santos dominava os domingos. O Gugu crescia nas noites.
A grelha de programação tinha um público fiel que não mudava de canal, mesmo quando a Globo jogava forte na concorrência. Mas, por dentro, a estação funcionava com uma estrutura que misturava profissionalismo televisivo de elevado nível, com uma informalidade administrativa que refletia a personalidade do proprietário.
Sílvio Santos não era o presidente de uma corporação no sentido que a palavra tem nos manuais de gestão. era o patrão, o dono, o homem que decidia tudo, desde o valor do prémio que ia ser sorteado no domingo até à cor da parede do corredor do terceiro andar e decidia com base duas coisas: números e instinto. Os números ele tirava do Ibope, do faturação publicitária, das folhas de que os diretores financeiros colocavam na sua secretária todas as segunda-feira de manhã.
O instinto tirava-o de si mesmo, de uma vida inteira, vendendo, negociando, apresentando, lendo plateias, lendo rostos, lendo o silêncio entre as palavras das pessoas. Esse instinto era o que fazia Silvio Santos ser Sílvio Santos. E era também o que tornava quase impossível a qualquer pessoa que o rodeia tomar uma decisão importante sem o consultar.
Porque se a decisão corresse bem sem ele saber, ninguém ganhava crédito. E se a decisão corresse mal, a culpa caía com o peso de um edifício sobre quem decidiu sem perguntar. Osvaldo sabia disso. Todos na SBT sabiam. A cultura interna era clara. Problemas pequenos, resolva sozinho.
Problemas médios, fale com o seu chefe direto. Grandes problemas, fale com alguém que tenha acesso ao Sílvio. E o que Osvaldo tinha nas mãos naquele domingo de manhã, sentia no estômago. Não era um problema pequeno nem médio. Mas também sabia que Silvio Santos não seria acessível naquele momento. Sílvio chegava ao estúdio por volta das 11, por vezes 11h30, vindo de casa no carro com motorista, com a rotina de quem fez aquilo milhares de vezes.
Entre à 9 da manhã e a chegada de Sílvio, quem mandava no estúdio era o diretor do auditório, um paulista de 50 e poucos anos chamado Renato Muniz, que tinha começou na SBT como assistente de câmara e subiu a pulso até um cargo que colocava-o no olho do furacão todo domingo. O Renato era competente, rápido e tinha a rara qualidade de tomar decisões sob pressão, sem paralisar.
Mas o Renato também tinha um defeito que Osvaldo conhecia bem. Quando alguém lhe trazia um problema que não se enquadrava nas categorias habituais, Renato trava, não por incompetência, por excesso de consciência. Ele sabia o peso de errar no SBT de Silvio Santos. sabia que um erro de julgamento podia custar não só o emprego, mas a reputação inteira.
E essa consciência que em situações normais o tornava cuidadoso e preciso, em situações anormais tornava-o lento. Osvaldo encontrou Renato no corredor dos bastidores, perto da sala de controlo, tomando café num copo de plástico. “Renato, preciso de te dizer uma coisa”, disse o Osvaldo. Renato olhou-o por cima do copo.
O café estava demasiado quente. O vapor subia entre os dois. Há cinco caras na fila que não são público. A frase ficou no ar. Renato baixou o copo lentamente. Como assim não são públicos? Osvaldo explicou o que viu. A roupa demasiado nova, os olhares que mapeavam, a cicatriz, as mãos inquietas, a imobilidade controlada do mais velho.
Explicou com a economia de quem sabe que cada palavra precisa pesar. Porque se parecesse um exagero, O Renato iria descartar. E se parecesse pouco, o Renato iria adiar. O Renato ouviu, mastigou o lábio inferior, olhou para o relógio no pulso. 8:53, 7 minutos para as portas abrirem. 300 pessoas na fila. Equipa de câmara já em posição. Cenário montado.
A grelha de programação do domingo inteiro dependia daquela gravação começar a horas. Renato fez a pergunta que Osvaldo esperava. Você tem certeza? Osvaldo mastigou o chiclete duas vezes antes de responder. Eu tenho 11 anos de fila de auditório, Renato. Eu não tenho a certeza de nada, mas o meu estômago tem.
O Renato olhou para o corredor vazio. O zumbido das luzes fluorescentes era o único som. Em algum lugar do estúdio, um técnico de som testava microfones com batidas rítmicas que chegavam abafadas pela parede. “Se eu chamar a segurança e não for nada”, disse o Renato, “eu explico. Se eu não chamar e for alguma coisa?” Ele não terminou a frase. “Não precisava.
Liga para o Sílvio”, disse Osvaldo. Renato olhou para ele como se tivesse sugerido ligar para o Papa. Não vou ligar ao Silvio às 9 da manhã de domingo por causa de uma suspeita. Então liga ao Jorge. Jorge Veiga era o chefe da segurança pessoal de Sílvio Santos. Não a segurança patrimonial do SBT, que era externalizada, a segurança pessoal.
O homem que andava com o Sílvio, que conduzia o carro quando o condutor faltava, que dormia no quarto ao lado quando viajavam. Jorge tinha 58 anos, era ex-polícia militar e tinha a particularidade de parecer sempre calmo, independentemente do que estivesse acontecendo ao redor. Osvaldo tinha-o visto uma vez lidar com um homem que tentou saltar a cerca do SBT para pedir emprego a Sílvio.
George caminhou até ao homem, conversou com ele durante 3 minutos em voz baixa e o homem saiu pela porta da frente sozinho, sem escolta, sem confusão, e até agradeceu ao sair. Renato hesitou, depois pegou no telefone que estava preso na parede do corredor, marcou um número interno, esperou quatro toques. Jorge atendeu. A conversa durou menos de 2 minutos.
O Renato explicou. O Jorge ouviu. Jorge fez uma pergunta. Respondeu o Renato. Jorge disse uma frase que o Renato repetiu depois para Osvaldo. Não abre a porta. Eu estou a chegar em 15 minutos. Renato desligou. Olhou para Osvaldo. Ele mandou segurar a abertura da porta. Osvaldo assentiu, caminhou de volta para a entrada do estúdio.
A fila tinha agora mais de 300 pessoas. O burburinho era o de todos os domingos. Animação, expectativa, risos, crianças impacientes, senhoras abanando com leques de cartão. No meio de toda aquela alegria ordinária, os cinco homens continuavam onde estavam, parados, atentos, diferentes. Osvaldo posicionou-se à porta do estúdio, olhou para o relógio.
e do as portas deveriam ter aberto 2 minutos antes. A fila começava a ficar inquieta. Algumas pessoas perguntavam o que estava a acontecer. Osvaldo sorriu, levantou a mão e disse o que dizia sempre que havia atraso. Ajuste técnico, minha gente, dois minutinhos. A frase funcionava como sempre. As pessoas relaxavam.
Dois minutinhos na SBT podiam passar a ser 20. E toda a gente sabia, mas ninguém se preocupava. Estavam ali para ver Silvio Santos, esperariam o tempo que fosse. Mas Osvaldo não estava relaxado. O pastilha elástica de hortelã já não tinha sabor nenhum. As suas mãos, que ele mantinha nos bolsos para esconder, estavam a suar.
Ele olhava para a fila com o sorriso de sempre e a atenção de sempre. Mas por dentro estava a fazer cálculos que nunca imaginou que precisaria de fazer num domingo de trabalho. Se aqueles homens estivessem armados, se houvesse um confronto na entrada, se 300 pessoas entrassem em pânico num espaço fechado, se alguém se magoasse, se uma criança se machucasse.
A matemática do desastre era infinita e cada variável pesava mais do que a anterior. Jorge Veiga chegou às 9:17. Não veio pela entrada principal, veio pela entrada de serviço a que dava para os fundos do estúdio a porta que o público não via. Entrou pelo corredor dos bastidores, encontrou Renato e os dois foram até uma janela interior que dava para a zona de espera da fila.
A janela era de vidro fumet. De dentro via-se tudo. De fora parecia uma parede escura. George olhou para a fila durante 40 segundos sem dizer nada. O Renato ficou ao lado em silêncio à espera. “Quais são?”, perguntou o Jorge. O Renato apontou com um gesto discreto. Terceira fila, cinco homens, camisa social.
Jorge olhou. O seu rosto não mudou, mas Osvaldo, que tinha entrado por trás e observava de perto, viu algo mudar nos olhos de Jorge. Uma contração mínima, o tipo de reação que só aparece em quem já viu muita coisa e reconhece quando está vendo mais uma. O da cicatriz no pescoço, disse o Jorge. Eu conheço. A frase aterrou no corredor como um tijolo. Renato virou-se para ele.
Conhece como? O Jorge não respondeu imediatamente. Tirou os olhos da janela, olhou para Renato, depois para Osvaldo. Esse é Aíton Pereira. Ele comanda uma boca no capão redondo, tráfico, duas passagens por homicídio. Saiu da última a 8 meses. O silêncio que se seguiu não foi o silêncio normal de um corredor de bastidores.
Era o silêncio de três homens que acabaram de compreender que o problema era maior do que qualquer um deles imaginava. Renato encostou-se à parede, passou a mão pelo rosto. “O que é que ele quer aqui?”, sussurrou, mais para si próprio do que para os outros. George olhou de novo pela janela. Isso não sei, mas ele não veio com quatro homens para assistir ao Silvio jogar aviãozinho.
E foi nesse momento que Osvaldo disse a frase que mudou tudo. Ele não disse em voz alta, disse quase como um pensamento que escapou pela boca. E se ele veio falar com o Sílvio? Jorge e Renato olharam para Osvaldo ao mesmo tempo. A ideia parecia absurda. Um líder de facção do Capão Redondo vindo ao auditório da SBT para falar com Sílvio Santos.
Mas quando Osvaldo disse e quando os três ficaram em silêncio processando, a ideia deixou de parecer absurda e começou a parecer a única explicação possível. Porque não havia outro motivo para Aton Pereira estar ali. Não havia motivo para ele vestir-se com roupa nova, trazer quatro homens, ficar na fila com 300 pessoas comuns, passar pela triagem do crachá, entrar num estúdio de televisão cheio de câmaras.
Se quisesse causar problema, não escolheria o local mais vigiado de São Paulo num domingo. Se quisesse ver o programa, iria assistir a partir de casa. Se quisesse roubar, havia alvos infinitamente mais fáceis. Ele estava ali por um motivo específico. E o motivo, na lógica de Osvaldo, que conhecia o auditório melhor do que conhecia a sua própria casa, só podia ser um. Queria falar com o Silvio Santos.
Pessoalmente, no palco, em frente às câmaras ou nos bastidores, tanto fazia. Queria estar perto o suficiente para dizer alguma coisa. O quê? Ninguém sabia. O Jorge pegou o telefone do corredor, marcou um número. Não, o número interno da SBT, um número externo. Falou em voz baixa, virado para a parede por menos de um minuto. Desligou.
Liguei para um contacto na polícia civil. Ele vai verificar se há alguma coisa aberta contra este Aítlon. Agora se tiver mandado, nós chama viatura e resolve. Se não tiver, se não tiver, acrescentou Renato, nós há um problema, porque se não houvesse mandado de detenção, Ailton Pereira era legalmente um cidadão como qualquer outro.
E um cidadão como qualquer outro tinha o direito de entrar num auditório de televisão aberto ao público, se sentar numa cadeira, assistir ao programa e ir embora. Impedi-lo de entrar sem motivo legal seria discriminação. E a discriminação num auditório que era filmado por 12 câmaras e visto por milhões de pessoas era o tipo de problema que não terminava no domingo.
Terminava na justiça, na imprensa e na reputação da SBT. A resposta do contacto de Jorge chegou em 7 minutos. Nenhum mandado aberto, nenhuma operação em curso. Aí Pereira estava tecnicamente limpo. Jorge desligou, olhou para Renato. Renato olhou para Osvaldo. Os três estavam num impasse que nenhum protocolo da SBT cobria, nenhum manual, nenhuma reunião de segunda-feira de manhã.
E foi Renato quem disse o que todos estavam a pensar, mas ninguém queria dizer. Precisamos de falar com o Silvio. O telefone tocou quatro vezes antes de Sílvio Santos atender. Eram 9:31 da manhã. O Sílvio estava em casa, provavelmente no meio da rotina de preparação que mantinha há décadas antes das gravações. Café, jornal, banho, a escolha da roupa, a verificação mental do guião do programa que ele guardava na cabeça, como outros guardam números de telefone.
O Jorge falou, falou direto, sem rodeios, porque conhecia o Sílvio a tempo suficiente para saber que os rodeios irritavam-no mais do que os problemas. Disse que havia um homem na fila do auditório que era identificado como líder de uma fação do Capão Redondo. Disse que estava acompanhado por quatro outros. disse que não havia mandado contra ele.
Disse que a suspeita era de que queria contacto direto com o Sílvio. Houve um silêncio do outro lado da linha que durou 6 segundos. O Jorge contou. 6 segundos de Silvio Santos em silêncio era muito. O Silvio nunca ficava em silêncio. O Sílvio preenchia cada segundo com palavras, perguntas, instruções, piadas, decisões. 6 segundos de silêncio significavam que estava a pensar algo que não cabia em menos tempo.
Depois, o Sílvio disse uma coisa que o Jorge não esperava. Deixa-o entrar. George olhou para o telefone como se o aparelho tivesse falado sozinho. Sílvio, este homem eu ouvi, Jorge. Deixa ele entrar. Mas faz o seguinte, coloca ele na terceira fila do lado direito perto do corredor. Se ele quiser falar comigo, ele vai ter de vir até ao palco pela lateral.
E eu quero-te no corredor de pé o tempo todo. Não tira o olho dele. Mas se ele se ele quisesse fazer alguma coisa, o Jorge não ia vestir camisa social e ficar na fila com a dona Eunice. A frase veio com a calma de quem já tinha processado tudo o que Jorge, Renato e Osvaldo ainda estavam processando. calma de quem leu a situação toda em 6 segundos de silêncio e chegou a uma conclusão que os outros levariam horas para alcançar.
George desligou, olhou para Renato e Osvaldo, repetiu a instrução. O rosto de Renato ficou da cor do copo de café que tinha largado no chão do corredor 20 minutos antes. Osvaldo parou de mascar o chiclete. Mandou abrir a porta, disse o Jorge. Renato abriu a boca para protestar. Jorge levantou a mão. Ele sabe o que está a fazer. Às 9:38.
As portas do estúdio abriram-se. A fila começou a entrar. Osvaldo estava na porta, como sempre, sorridente, cumprimentando, dirigindo as pessoas para as suas cadeiras. Mas os seus olhos faziam outra coisa. Os seus olhos acompanhavam cinco camisas sociais novas que se moviam no fluxo da multidão, como peixes de espécie diferente num cardume de sardinhas.
Aítlon Pereira entrou no estúdio com a tranquilidade de quem entra num lugar que já conhece. Olhou para o palco, para as câmaras, para as luzes, com a avaliação rápida de quem mapeia os espaços por hábito profissional. Depois sentou-se na cadeira que Osvaldo indicou. Terceira fila, lado direito, perto do corredor, exatamente onde O Sílvio tinha mandado.
Os quatro homens que o acompanhavam sentaram-se ao redor dele, dois de cada lado, como escolta, como proteção, ou como moldura. Jorge se posicionou-se no corredor lateral do estúdio, de pé, com os braços cruzados e a expressão de quem está a assistir a um filme, cujo final, mas suspeita que não vai gostar. Dali via Aton.
Aí via ele. Os dois sabiam que o outro estava olhando. Nenhum desviou. A gravação começou às 10:15. Silvio Santos entrou em palco com a energia que sempre tinha. O sorriso, o microfone, o fato bem cortado, o pequeno avião que atirava para o auditório como quem distribui pedaços de um sonho feito de papel.
O público explodiu em aplausos. As senhoras gritaram, as crianças saltaram. O estúdio inteiro vibrou com a frequência específica que só um programa de Silvio Santos produzia. a mistura de alegria popular, a expectativa de prémio e a presença magnética de um homem que transformava cada segundo de televisão numa negociação silenciosa entre ele e cada pessoa na plateia.
Sílvio Santos olhou para o auditório como olhava sempre. varreu as fileiras com aquele olhar que parecia pessoal, mesmo sendo coletivo, que fazia com que cada pessoa sentisse que estava a olhar diretamente para ela. Mas nesse domingo, em algum ponto daquela varredura, os olhos de Sílvio passaram pela terceira fila do lado direito. Passaram por Aílton Pereira.
Ninguém no auditório se apercebeu, ninguém nas câmaras captou. Mas George, que estava a 10 mros de distância e que conhecia o Silvio há anos o suficiente para ler cada microexpressão desse rosto, viu algo acontecer. Não foi uma pausa, não foi uma hesitação, foi algo menor e maior ao mesmo tempo. Foi o reconhecimento de que a situação era real, de que o homem estava ali, de que o domingo não seria como os outros.
Sílvio continuou o programa. fez os quadros habituais, chamou pessoas ao palco, brincou, distribuiu prémios. A máquina televisiva funcionou com a precisão de sempre, mas Osvaldo, que assistia dos bastidores através do monitor, notou algo que talvez nenhum telespectador notasse. Sílvio Santos estava a conduzir o programa com mais atenção do que o habitual.
Não mais energia, mais atenção. Como se cada palavra, cada gesto, cada movimento no palco estivesse a ser calibrado com uma precisão extra que não era sobre o programa, era sobre outra coisa. A primeira hora de gravação passou sem incidente. Aí Pereira ficou sentado na terceira fila, não aplaudiu, não gritou, não se levantou quando o aviãozinho caiu perto dele.
Ficou parado, com os olhos fixos no palco, com a atenção de quem está à espera de alguma coisa que ainda não chegou. Os quatro homens à sua volta imitavam o comportamento. Cinco estátuas de camisa social no meio de 250 pessoas em êxtase. O Jorge não saiu do corredor. Os pés dele deviam estar a doer, mas ele não se mexeu.
Não encostou-se à parede, não cruzou as pernas, ficou de pé, com os braços cruzados, olhando para Ailton com a constância de um farol. E então aconteceu, foi durante o intervalo entre o segundo e o terceiro bloco. A luz do estúdio baixou para o ajuste de cenário. A equipa entrou para trocar a bancada do quadro de perguntas pelo palco do Porta da Esperança.
O público ficou nas cadeiras a conversar, comendo as balas que a dona Eunice tinha distribuído, abanando com os leques de cartão. Pereira levantou-se. Jorge travou. Os braços que estavam cruzados caíram para os lados. As mãos ficaram abertas, prontas. Aí caminhou em direção ao corredor lateral, não em direção ao palco, em direção ao corredor que conduzia aos bastidores, o corredor onde estava o Jorge.
Os quatro homens ficaram sentados, não se mexeram. Isso. George registou imediatamente. Se fosse uma operação, todos se teriam levantado. O facto de os quatro ficarem sentados significava que Aítlon estava indo sozinho. E ir sozinho significava que não era confronto. Aí chegou ao corredor, parou a 2 m de Jorge. Os dois se olharam.
Aíton era mais baixo do que Jorge esperava, 170, talvez magro. A cicatriz no pescoço era mais visível de perto, uma linha branca que cortava a pele escura como uma estrada num mapa. Os olhos eram escuros, fundos, com a intensidade de quem viu coisas que a maioria das pessoas só conhece por notícia de jornal. “Eu quero falar com o Sílvio”, disse Aton.
A voz não era ameaçadora, não era agressiva, era direta. O tipo de voz de quem está habituado a dizer o que quer e a ser obedecido, mas que naquele momento estava a pedir, não a mandar. A diferença era subtil, mas o Jorge captou. Sobre o quê? perguntou o Jorge. Aí olhou para o Jorge com a avaliação rápida de quem decide em meio segundo se a pessoa à frente é obstáculo ou caminho, sobre uma coisa que só a ele e a mim.
George não se mexeu, mas dentro dele uma decisão estava a ser tomada. Uma decisão que não estava em nenhum protocolo, nenhum manual, nenhuma instrução recebida por telefone. A instrução de Sílvio tinha sido: “Deixa entrar, coloca-o na terceira fila, fica de olho”. Sílvio não tinha dito o que fazer se Aítlon fosse até ao corredor e pedisse para falar com ele.
Jorge fez a única coisa que podia fazer, pegou no rádio que trazia no cinto e chamou Renato. Renato, o rapaz da terceira fileira, quer falar com o patrão. Ele está aqui comigo no corredor. A estática do rádio chiou durante 3 segundos. Espera”, respondeu o Renato. “Espera significava que Renato ia perguntar a Sílvio. E perguntar a Sílvio significava que os próximos minutos seriam decididos por um homem que se encontrava a 50 m dali, num camarim com espelhos rodeados de lâmpadas, trocando o casaco do segundo bloco pelo casaco do terceiro, enquanto
revia mentalmente o guião de um quadro que conhecia de core, mas que nunca deixava de rever, porque Sílvio Santos não confiava na memória. confiava na preparação. Os 3 minutos que Aíton e Jorge estiveram no corredor à espera da resposta foram os mais longos que Jorge viveu dentro do SBT. O corredor era estreito, iluminado por fluorescentes que zumbiam com paredes forradas de cortiça, onde estavam grudados avisos de produção, escalas de horário e uma fotografia antiga do Sílvio de fato branco que alguém tinha colado ali há anos e que nunca ninguém
tirou. Aí olhou para a fotografia, depois olhou para George. “Há quanto tempo trabalha com ele?”, perguntou. O Jorge não respondeu. Aí deu um sorriso mínimo. Não era deboche, era reconhecimento. O reconhecimento de alguém que também trabalhava com pessoas que não respondiam a perguntas desnecessárias. O rádio chiou. O Jorge traz-no aqui.
Três palavras. A voz de Renato mais a decisão de Sílvio. Jorge olhou para Aton. Vem comigo. Sem os seus homens. Sozinho. Aí assentiu. Seguiu George pelo corredor. Passaram pela sala de controlo, onde três técnicos monitorizavam câmaras sem levantar os olhos dos monitores. Passaram pela sala de figurino, onde duas mulheres organizavam fatos em cabides numerados.
Passaram por um corredor ainda mais estreito, com piso de linolle o gasto, até chegarem a uma porta sem identificação que Jorge abriu com uma chave que trazia no bolso. O camarim de Silvio Santos não era o que as pessoas imaginavam. Não era grande, não era luxuoso. Era um quarto de 4 por 5 m com um espelho retangular, uma bancada de maquilhagem, um sofá de pele que já tinha visto melhores dias, um cabide de pé com três fatos pendurados e um frigorífico pequena de onde o Sílvio tirava água mineral durante os intervalos.
O chão era de chão frio, não de alcatifa. A iluminação era demasiado forte, como em todos os camarins de televisão, porque a luz precisa de ser mais forte do que a vaidade para que a maquilhagem funcione. Silvio Santos estava de pé no centro do camarim. Tinha acabado de trocar o palitó.
O novo era azul-marinho com riscas finas. o tipo de fato que ele usava nos quadros mais formais do programa. A gravata estava feita, o cabelo estava no lugar, o rosto estava maquilhado com a base leve que usava há anos para compensar as luzes do estúdio. Aí entrou. George ficou à porta, segurando a maçaneta, pronto para qualquer coisa.
O Sílvio olhou para Ailton. O olhar durou 2 segundos. Dois segundos? em que Silvio Santos, que tinha passado a vida inteira a ler pessoas, leu aquele homem da cicatriz no pescoço ao sapato sem arranhão. Leu a postura, leu as mãos, leu os olhos, leu o que os olhos diziam e o que escondiam. Depois, o Sílvio fez algo que O Jorge não esperava. estendeu a mão.
Silvio Santos disse, “mas isso o senhor já sabe.” A frase veio com um sorriso. O sorriso de Sílvio, o mesmo que aparecia na televisão, mas com uma diferença que só quem via de perto é que percebia. O sorriso de televisão era para todos. Esse era para um. Aíton olhou para a mão estendida, depois olhou para o Sílvio, depois olhou de novo para a mão, estendeu a sua.
O aperto foi firme dos dois lados. Aton disse Aíton Pereira. Sílvio largou a mão, apontou para o sofá. Senta-te, diz o que vieste falar. Tenho 7 minutos antes do próximo bloco. A frase era Silvio Santos inteiro, cordialidade, objetividade e um subtil lembrete de que o tempo era dele, não do visitante. Não era grosseria.
Era a comunicação de um homem que passou a vida inteira a negociar e a que sabia que a primeira coisa que se estabelece em qualquer negociação é quem controla o tempo. Aítlon não se sentou no sofá, ficou de pé. George ficou na porta. O que se passou nos minutos seguintes foi contado por George apenas uma vez, anos mais tarde, numa conversa privada com um ex-colega de Polícia Militar, que guardou a história como quem guarda uma medalha no fundo da gaveta.
O ex-colega contou a um amigo, o amigo contou a outro. A história viajou devagar, como viajam as coisas verdadeiras, sem pressa de chegar a lugar nenhum. Aíton falou durante quatro minutos sem interrupção. Sílvio ouviu sem interromper. O que Aíton disse era na sua essência isto. Comandava uma área do Capão Redondo, onde viviam 6000 famílias.
Naquela área não havia posto de saúde, não havia escola que funcionasse depois das 2as da tarde, não existia iluminação pública em metade das ruas. Não havia transporte público que chegasse depois das 11 da noite. O que havia era o que ele e os seus homens ofereciam. Uma ordem precária mantida pela força, que garantia que as crianças não eram recrutadas por facções rivais antes dos 14 anos.
que os velhos recebessem remédio quando ficavam doentes, que os barracas não fossem invadidas por quem não morava ali. Aton não estava a pedir dinheiro, não estava a pedir emprego, não estava pedindo que Silvio Santos fosse ao Capão Redondo cortar fita de inauguração. Estava a pedir uma coisa que ninguém no A SBT teria imaginado.
Estava a pedir uma antena. uma antena parabólica para a Associação de Moradores que se encontrava no centro da comunidade. A associação tinha um salão com 80 cadeiras de plástico e uma televisão de 20 polegadas que apanhava dois canais e meio. Aos domingos, 40, 50 pessoas se juntavam naquele salão para tentar assistir ao programa do Silvio.
A imagem tremia, o som falhava. As crianças lutavam pelas cadeiras da frente, mas ficavam ali todos os domingos, porque o programa de Silvio Santos era a única coisa que fazia com que aquelas pessoas esquecerem-se por algumas horas onde moravam. Depois disse isso olhando para Sílvio sem pestanejar. Silvio Santos ouviu sem mexer um músculo do rosto.
Quando Aíton terminou, Sílvio ficou em silêncio durante 4 segundos. Quatro segundos que o Jorge contou de novo, porque o silêncio de Silvio Santos era uma unidade de medida que as pessoas à sua volta usavam para calibrar a gravidade das situações. Depois, Sílvio perguntou: “Porque é que não mandou uma carta? Toda a gente manda carta.
” Aí olhou para Sílvio com a franqueza de quem não tem tempo para a diplomacia. Porque carta de traficante vai para o lixo. Eu vim pessoalmente, porque pessoalmente ninguém deita no lixo. O silêncio que veio depois desta frase foi diferente dos outros. Não era o silêncio de quem está a pensar, era o silêncio de quem acabou de ouvir uma verdade que não pode ser contestada.
Silvio Santos olhou para Ailton Pereira durante mais dois segundos. Depois olhou para o Jorge, depois olhou para o chão do camarim, para o chão frio sem graça que tantos pés famosos tinham pisado, e fez algo que Jorge nunca esqueceu. Sílvio deu um passo atrás, encostou-se à bancada da maquilhagem, cruzou os braços e riu-se.
Não uma gargalhada de deboche, não uma gargalhada nervosa, uma riso curto, de reconhecimento, do tipo que escapa. quando alguém ouve algo que admira sem poder dizer que admira. Depois a gargalhada parou e o rosto de Sílvio ficou sério de uma forma que Jorge raramente via. Sério de verdade? Não sério de televisão, que é uma seriedade performada.
Sério de homem que está calculando algo que importa. “Eu não vou dar-lhe uma antena”, disse Sílvio. A frase caiu no camarim como uma porta que fecha. Aíton não reagiu, o seu rosto não se alterou, os seus olhos não se desviaram. A disciplina corporal dele era a de quem já ouviu não mil vezes e aprendeu que reagir ao não é fraqueza.
Mas Sílvio não tinha terminado. Eu não lhe vou dar uma antena, porque antena mando instalar amanhã e resolve o problema de domingo. Mas terça-feira vocês continuam sem posto de saúde, sem escola, sem luz na rua. Sílvio descruzou os braços, deu um passo em direção a Aton. Não, ameaçador, aproximador. Veio aqui pedir-me o mínimo.
E o mínimo é o que toda a gente pede, porque ninguém acredita que se possa pedir mais. Você comanda 6.000 famílias. 6.000 famílias votam. 6.000 famílias pagam imposto. Nem que seja imposto sobre o conta da luz. 6.000 1 famílias são número e número nesse país é a única coisa que político entende. Aton ouviu sem se mexer.
Sílvio continuou: “Vou mandar a antena amanhã, mas juntamente com a antena vou enviar um nome. O nome de um homem que trabalha na subprefeitura de Campo Limpo. Este homem deve-me três favores. Três grandes favores. Eu nunca cobrei porque nunca precisei. Vou cobrar os três de uma só vez. Centro de saúde, alargamento do horário escolar e iluminação pública. Não prometo prazo.
Prometo que o homem vai mexer-se. Se não se mexer, eu ligo-lhe de novo. E quando Silvio Santos liga outra vez, as pessoas se mexem. A frase ficou no ar do camarim. Como ficam as coisas ditas por alguém que sabe exatamente o peso da cada palavra que pronuncia? Aí olhou para o Sílvio. Pela primeira vez desde que entrou naquele camarim, algo mudou no rosto dele. Não muito.
Uma suavização mínima na mandíbula, um relaxamento quase invisível nos ombros. A armadura que trazia desde a fila do auditório cedeu 1 cm. Apenas um, mas um centímetro em quem nunca cede é tudo. Aí não disse obrigado, disse outra coisa. Eu assisto o senhor desde que eu era miúdo. A minha mãe punha-me na frente da televisão todos os domingos e dizia que um dia ia conhecer o Sílvio Santos.
Ela morreu, pensando que eu ia ser jogador de futebol. O Sílvio olhou para ele. E o que é que virou? Aíton esboçou um sorriso que era a coisa mais triste que George já tinha visto num rosto humano. Virei o que a rua deixou. Silvio Santos voltou a ficar em silêncio, mas este silêncio era diferente de todos os os anteriores. Não era cálculo, não era avaliação.
Era o silêncio de um homem de 70 anos que nasceu pobre, que vendia canetas na rua, que construiu um império com a voz e com a teimosia, e que estava a olhar para outro homem que também nasceu pobre, mas que a vida empurrou para outro caminho. Um caminho que Sílvio conhecia de longe, pelos números do Ibope das matérias policiais, mas que nunca tinha visto de perto nos olhos de alguém que vivia aquele caminho todos os dias. Sílvio estendeu a mão de novo.
Aítlon apertou. Vai-se embora pela porta dos fundos disse Sílvio. O Jorge leva-te. Os seus homens saem pela frente quando o programa acabar, como todos, ninguém precisa de saber que esteve aqui. Aon largou a mão, olhou para Sílvio uma última vez, depois virou-se e seguiu Jorge pelo corredor. Jorge levou Aton pela saída de serviço.
Porta dava para um parque de estacionamento nos fundos do SBT, cheio de carros de funcionários, vanãs de produção e um autocarro desativado que servia de depósito de cenários antigos. O sol de março batia no asfalto com aquele calor seco de São Paulo que parece sugar a energia do ar. À porta, Aton parou, olhou para Jorge.
Você é leal a ele? Disse que não. Como pergunta? Jorge não respondeu, mas alguma coisa no o seu rosto já deve ter dito o suficiente, porque Aíton a sentiu outrora como quem reconhece uma qualidade que respeita e saiu a caminhar em direção à rua. Jorge voltou para o estúdio. O terceiro bloco já tinha começado.
Silvio Santos estava no palco, conduzindo o porta da esperança com a mesma energia de sempre, como se os últimos 15 minutos no camarim não tivessem acontecido. Como se nenhuma conversa com um líder de facção tivesse interrompido a rotina de um domingo qualquer. A capacidade de Sílvio de compartimentalizar era uma das coisas que o Jorge mais admirava e menos compreendia.
O homem podia resolver uma crise nos bastidores e voltar ao palco sorrindo em 30 segundos, sem que uma única pessoa na plateia percebesse que algo tinha acontecido. Mas Jorge percebia porque conhecia as gradações do sorriso de Sílvio. E nesse terceiro bloco, o sorriso tinha uma camada a mais. Não era o sorriso de quem está a representar, era o sorriso de quem acaba de confirmar algo sobre si próprio que precisava de ser confirmado de tempos a tempos, que por trás do apresentador, por trás do empresário, por detrás do patrão que
mandava e desmandava no SBT, ainda existia o rapaz que vendia canetas na rua e que sabia o que significava precisar de algo e não ter ninguém para pedir. Os quatro homens de Aílton ficaram sentados na terceira fila até o final do programa. Não aplaudiram, não gritaram, mas também não causaram problema nenhum.
Quando a gravação acabou e o público começou a sair, os quatro levantaram-se e saíram com a multidão, como Sílvio tinha instruído, como todos, sem diferença, sem destaque. Cinco camisas sociais novas misturadas com 300 roupas de domingo de gente comum. Osvaldo acompanhou-os com os olhos até à porta. Quando o último dos quatro saiu, Osvaldo tirou o pastilha elástica da boca, deitou no lixo e encostou-se à parede do estúdio.
As pernas tremiam. Só aí, com o estúdio se esvaziando e as luzes sendo desligadas uma a uma, é que o corpo dele registou o que a mente tinha segurado a manhã inteira. No dia seguinte, uma segunda-feira, uma V SBT levou uma antena parabólica ao Capão Redondo. A instalação foi feita por dois técnicos da emissora que foram instruídos para não fazer perguntas sobre quem tinha pedido ou porquê.
Instalaram a antena no telhado da associação de moradores, ligaram a televisão de 20 polegadas, testaram os canais e foram-se embora. A fatura foi registada como doação institucional da SBT para a comunidade da zona sul. Nenhum comunicado de imprensa, nenhuma menção em programa, nenhuma câmara registando o momento.
No domingo seguinte, 48 pessoas assistiram ao programa de Silvio Santos na Associação de Moradores do Capão Redondo, com imagem nítida e som limpo pela primeira vez. Oito delas eram crianças que nunca tinham visto televisão a funcionar direito. Uma era a esposa de Aton Pereira, que não sabia como a antena tinha ali chegado, e que quando perguntou ao marido, recebeu como resposta apenas uma frase: “Pedi para quem podia resolver”.
Três semanas depois da visita de Aíton, o centro de saúde da região do Capão Redondo, que estava com a obra parada há 14 meses, retomou a construção. A inauguração decorreu em novembro desse ano, sem a presença de Sílvio Santos, sem menção à SBT, com um vereador cortando a fita e tomando crédito, como se a ideia tivesse sido dele.
A extensão do horário escolar demorou mais tempo. Começou em fevereiro de 1998, quando duas escolas municipais da região passaram a funcionar até às 17 horas, em vez de até às 2. A iluminação pública nas ruas sem luz foi instalada por etapas ao longo de 1998 e 1999. Silvio Santos nunca cobrou reconhecimento por nada disto, nunca referiu no ar, nunca usou como história em entrevista.
O homem da subprefeitura, que devia os três favores, cumpriu os três e nunca soube que o pedido original vinha de um encontro entre Silvio Santos e um traficante no camarim da SBT num domingo de março. Aítlon Pereira continuou comandando a sua área a partir do Capão Redondo. foi detido em 2001 numa operação da Polícia Civil que desmantelou a rede de tráfico da região. Cumpriu 8 anos.
Saiu em 2009. Quando saiu, a associação de moradores ainda existia. A antena parabólica já tinha sido substituída duas vezes. A televisão de 20 polegadas tinha sido trocada por uma de 29. As crianças que assistiam ao Silvio naquele primeiro domingo de imagem limpa já eram adultas e algumas delas tinham filhos que também viam televisão nesse mesmo salão.
Osvaldo Corrêa se reformou-se da SBT em 2003 com 52 anos depois de 17 anos de fila de auditório. Levou consigo o relógio Casio com a pulseira ressequida. e a capacidade de olhar para uma multidão e saber, pelo forma como alguém anda, se essa pessoa é quem diz que é. Nunca contou a história a ninguém fora da estação. Para ele, o que se passava dentro da SBT estava dentro do SBT.
Era uma lealdade silenciosa que não necessitava de explicação nem de recompensa. Renato Muniz continuou como diretor do auditório até 2008. Em todos os domingos que se seguiram àele de Março de 1997, ele chegava ao estúdio um pouco mais cedo do que o necessário. Não porque houvesse motivo prático, porque o corpo dele nunca esqueceu a sensação de estar segurando um copo de café às 8:53 da manhã, enquanto um homem de bigode dizia-lhe que cinco homens na fila não eram público.
A memória do corpo é mais teimosa do que a da mente. A mente racionaliza, o corpo recorda. Jorge Veiga ficou com Silvio Santos até 2012, 31 anos ao lado do mesmo homem. Quando se reformou, Sílvio deu-lhe um aperto de mão e disse uma frase que o Jorge repetiu uma única vez na conversa com o ex-colega de polícia.
Jorge, nunca me perguntou porque eu mandei abrir a porta naquele domingo. Jorge confirmou. Nunca perguntei. O Sílvio sorriu. Porque já sabia a resposta. A mesma razão porque abro a porta do auditório todo domingo, porque do outro lado pode haver alguém que precisa de mim. E se eu fechar a porta, nunca vou saber quem era.
A porta do camarim, a porta do estúdio, a porta do auditório. Para Silvio Santos eram todas a mesma porta e ele nunca fechou nenhuma. Dona Eunice, a senhora de Guarulhos, que todos os domingos trazia rebuçados de leite para a fila, continuou a frequentar o auditório da SBT até 2010, altura em que a saúde não permitiu mais a viagem.
Morreu em 2014, aos 83 anos. Na mesa de cabeceira do hospital, entre um terço e uma fotografia dos netos, havia um aviãozinho de papel da SBT, que ela tinha guardado como quem guarda uma relíquia. Na parte de dentro do aviãozinho, alguém tinha escrito com caneta azul para a dona Eunice com carinho. A letra era de Silvio Santos.
Tinha escrito num domingo qualquer, anos antes, quando foi chamada ao palco, e ele descobriu que ela vinha todas as semanas de Guarulhos, de autocarro, só para estar ali. Sílvio parou o programa durante 30 segundos, pediu uma caneta, escreveu no aviãozinho e entregou-o na mão dela.
As câmaras não estavam ligadas, o momento não foi para o ar. Ninguém filmou, mas a dona Eunice guardou aquele aviãozinho há mais de uma década e quando morreu, o aviãozinho foi enterrado com ela dentro do caixão, porque a família sabia que era a coisa mais importante que ela tinha. Essa história não é sobre um traficante que entrou num auditório de televisão.
Não é sobre uma antena parabólica, não se trata de um centro de saúde. É sobre um homem que abriu portas a vida inteira. Portas que ninguém esperava que fossem abertas. Portas que a lógica mandava manter fechadas. Portas que o medo, a prudência e o bom senso diziam para trancar com chave e deitar a chave fora. Silvio Santos abria estas portas não por ingenuidade, não por falta de cuidados, porque ele entendia uma coisa que a maioria das pessoas que conduzem empresas, canais de televisão, países, nunca compreende que do outro lado de toda a
porta fechada pode estar a pessoa que mais precisa de si. e que se você fecha a porta por segurança, por protocolo, por medo do que pode entrar, também se fecha para tudo o que poderia ter mudado se tivesse aberto. Em Março de 1997, Silvio Santos abriu a porta do SBT para um homem que o mundo inteiro teria mandado embora.
Não deu entrevistas sobre isso, não usou como marketing, não contou a história em programa nenhum, fez o que fez porque era o que achava certo. E depois voltou para o palco, sorriu para a câmara, atirou o aviãozinho para o auditório e continuou sendo Silvio Santos, como se nada tivesse acontecido. Tudo tinha acontecido naquele camarim de piso frio, com a luz demasiado forte, e o sofá de pele velho, um homem que construiu um império de comunicação e um homem que comandava 6000 famílias na periferia de São Paulo, se olharam nos
olhos e reconheceram-se como o que eram. Dois brasileiros que nasceram sem nada e que fizeram cada um à sua maneira o que a vida permitiu. Um construiu um canal, o outro construiu uma ordem, um utilizava microfone, o outro usava o medo, mas os dois sabiam o que era precisar e não ter.
E esse conhecimento partilhado que nenhuma diferença de património, de poder ou de lei pode apagar, foi o que permitiu que a conversa se realizasse, que a antena fosse instalada, que o posto de saúde fosse construído, que 48 pessoas num salão do Capão Redondo assistissem ao programa de Silvio Santos com imagem limpo num domingo de Abril de 1997, O mundo é feito de portas.
Quem é depende de quais abre. Sílvio Santos abriu todas. Se inscreve se você é fã de Silvio Santos. Isto aqui é para quem viveu essa época e sabe do que eu estou a falar. E se quer continuar ouvindo histórias destas, precisa conhecer aquela que é talvez a mais impressionante de todas. Um jovem Silvio Santos, sem nada para além da própria voz, fez uma audição que durou apenas 4 minutos.
4 minutos. Do outro lado, a ouvir, estava Manuel de Nóbrega, um dos maiores nomes do entretenimento brasileiro daquela época. Um homem que já tinha visto de tudo, que não se impressionava com ninguém. E em quatro minutos, este jovem desconhecido fez algo que deixou Manuel de Nóbrega completamente sem palavras. O que ele disse nessa audição, como disse, e o que Manuel fez nos segundos de silêncio que vieram depois, conto-vos neste vídeo aqui.
A história completa está te esperando. E se já assistiu, tem mais histórias como esta à espera de -lhe aqui no canal. M.