RONALDO NAZÁRIO: CONFESSOU A VERDADE OBSCURA SOBRE QUEM ACABOU COM A CARREIRA DELE

Duas vezes bola de ouro, duas taças do mundo, o melhor atacante do planeta. E este mesmo gajo num quarto do motel VIPs com três travestis a exigir R$ 50.000 R$ 1000 para calar o que Ronaldo tinha feito com elas, recém-casado. Hoje você vai-se lá saber o que Ronaldo fez com aquelas três travestes e que destruiu o casamento dele para sempre.

 Ainda mais obscuro. A verdadeira razão pela qual caiu no relvado do estádio de Roma chorando e por nunca mais ter voltado a ser o mesmo. E a noite em que o melhor avançado do planeta quase tirou a própria vida sozinho num quarto do hospital de Milão. E o mais forte da história se vai saber. A verdade é que Mário Zagalo e a Nike esconderam do mundo durante 28 anos seguidos, 7 horas antes da final do Mundial contra a França, quando Ronaldo esteve a ponto de morrer nos braços do Roberto Carlos.

 E porquê obrigar M a jogar aquela final? Mas antes, irmão, tem que se perceber quem era o Ronaldo Luís Nazário de Lima antes de virar o fenómeno. Bento Ribeiro é um subúrbio pobre da zona norte do Rio de Janeiro. Casas de tijolo cru, ruas de terra batida batida, uma estação de comboios onde os operários descem da manhã carregando marmita de alumínio e sobem 9 da noite com o corpo destruído do porto.

 Nos anos 70, quase ninguém de Bento Ribeiro entrava na primeira divisão do futebol brasileiro. É aí que nasce Ronaldo Luís Nazário de Lima no dia 18 de Setembro de 76. Pai Nélio Nazário, operário alcoólico. Mãe Sónia, mulher jovem, dura, religiosa, quatro filhos antes do Ronaldo, uma casa de dois quartos no bairro Bento Ribeiro, para onde a família tinha-se mudado dois anos antes procurando trampo.

 O nome Ronaldo foi a mãe que escolheu. A Sónia tinha lido esse nome numa revista velha. Achou o nome firme. O pai queria outro nome, mais comum. A mãe ganhou a discussão. Aos 11 anos, este nome mudou a vida da família inteira. O pai Nélio saiu de casa numa madrugada de Março do 7. Saiu com uma mala pequena e um par de sapatos na mão, sem se despedir dos filhos.

 A A Sónia ficou sozinha com os quatro  filhos. Trabalhava como doméstica em casas do bairro da Tijuca. Saía às 6 da manhã, voltava às 9 da noite. Os filhos cuidavam-se sozinhos.  A cena exacta daquela madrugada, a Sónia contou 41 anos depois numa entrevista pro programa Conversa com Bial.

  transmitido pela Rede Globo em março de 2028. A mãe do fenómeno com 72 anos nesse momento, falou com o Pedro Bial que a noite de 6 de Março de 87 ela estava a dormir na cama do casal quando ouviu a porta da frente fechar 4:20 da madrugada. Levantou-se, caminhou até ao sala. A mala do marido tinha desaparecido.

 O armário do quarto do casal estava aberto. Metade da roupa do Nélio tinha desaparecido. A Sónia voltou paraa cama. Não acordou os filhos. Esperou até às 6 da manhã, hora normal de levantar, para não quebrar a rotina dos rapazes. E 6:15 do6 de Março de 87, quando os quatro filhos sentaram-se para tomar café com pão na cozinha, a mãe disse-lhe só uma frase, uma frase de seis palavras que apareceu verbatim na entrevista do Conversa com Bial.

 A frase da Sónia pros quatro filhos nessa manhã foi: “O seu pai foi-se embora, não volta. Ronaldo tinha 11 anos, viu? chorou sem compreender e os 32  anos seguintes até ao velório do pai no dia 8 de novembro de 2018 não voltou a ter uma conversa normal com o Nélio Nazário. Ronaldo, depois do café daquela manhã do dia 6 de Março de 87, saiu da casa e foi jogar descalço para a rua de terra em frente da casa com uma bola de plástico azul que um vizinho do bairro tinha-lhe dado.

 Aquela bola azul, irmão, guarda esse pormenor na cabeça. A gente vai voltar a ela no final. Aos 12 anos, Ronaldo jogava nos campos de terra batida do bairro. Um olheiro do clube de São Cristóvão, chamado Dr. Alfredo Sampaio, viu-o numa peneira do bairro numa tarde de Novembro de 89. O que o Sampaio viu naquela tarde ficou-lhe na cabeça o resto da vida.

 Ronaldo, com 13  anos, driblou sete defesas numa só jogada e marcou o golo com a esquerda. O O Sampaio chegou para a Sónia e falou uma frase que a mulher repetiu em toda a entrevista durante os próximos 20 anos. A frase foi: “A senhora tem um filho que vai jogar na seleção brasileira antes dos 20 anos.

 A Sónia chorou sem dizer nada. E no dia seguinte, Ronaldo assinava o primeiro contrato amador com o São Cristóvão. A mãe acompanhou. O pai O Nélio nem apareceu. Fazia do anos que não via o filho mais novo. Em 92, o O Cruzeiro de Belo Horizonte comprou o passe do miúdo  por 600.000, 000. O contrato mais caro pago por um adolescente de 15 anos na história do futebol brasileiro.

O QUÃO BOM ERA RONALDO FENÔMENO?

 Fez cinco golos num jogo apenas contra o Bahia. A imprensa desportiva começou a chamar-lhe de fenómeno. A palavra colou-se pelo resto da vida. Aos 17 foi convocado pela primeira vez para a seleção brasileira. Estados Unidos do 94. Ronaldo não jogou um minuto. O Brasil ganhou o tetra. O Romário foi o melhor do torneio. 4 anos depois, o mesmo Mário Zagalo ia fazer uma coisa com o Ronaldo que o fenómeno não perdoou o resto da vida.

 A gente vai voltar a isso. Em 94, o PSV comprou o passe do Ronaldo para o Cruzeiro por 6 milhões de dólares. Se mudou sozinho para Entoven em Setembro de 94. Vivia num apartamento de dois quartos. Não falava inglês, não falava holandês,  comunicava com os companheiros do PSV por sinais durante os três primeiros meses.

 E ali, no frio do sul da Holanda, apareceu a primeira lesão grave da sua carreira. Uma dor no tendão rotuliano do joelho direito que surgiu depois de um jogo contra o Feyen Nord. O médico Dr. Hans Kremer recomendou seis semanas de descanso. Ronaldo descansou apenas duas, voltou a jogar. Terminou a época com 30 golos em 33 partidas, mas o tendão rotuliano do joelho direito, inflamado aos 18 anos em Entoven, durante os se anos seguintes, foi a bomba silenciosa que o carava na perna sem ninguém saber.

 A gente vai voltar nessa lesão quando chegar ao Estádio Olímpico de Roma. Em 96, o O Barcelona comprou o passe do PSV por 20 milhões de dólares, a transferência mais rosto do futebol mundial até então. Ronaldo marcou 47 golos em 49  partidas numa só época. Ganhou a primeira bola de ouro aos 21 anos. E é exactamente ali, no Verão de 97, quando o mundo inteiro se rendia ao fenómeno brasileiro, que iniciou a descida que o público nunca viu.

 O Inter de Milão comprou o tipo por 27 milhões de brasileira de futsal modelo em Itália. Trs meses depois, a Milene engravidou do primeiro filho do fenómeno. Seis semanas exatas, estávamos em abril de 2000. E seis dias depois da confirmação médica da gravidez, aconteceu a coisa que mudou tudo. 12 de abril de 2000, estádio olímpico de Roma, minuto 7 do primeiro tempo.

 Voltamos nessa data, viu? Salta 8 anos para a frente. Depois da Taça do Mundo de 2002, onde o fenómeno fez cinco golos, incluindo dois na final contra a Alemanha, a vida pública dele parecia estável. O Real Madrid comprou-o do Inter por 45 milhões de dólares. Era o segundo galáctico depois do Zidane. Recebia  11 milhões de euros por temporada.

 Mas a vida privada do fenómeno em Madrid entre 2003 e 2007 foi muito diferente do que a imprensa europeia mostrava. Divórcio com a Milene Domingues em 2003. Segundo casamento  com a apresentadora Daniela Sicarelli em 2005. Divórcio três meses depois. Durante esses 5 anos na Madre, o fenómeno entrou num círculo de festas com outros jogadores do Real que incluía consumo regular de álcool em quantidades absurdas, drogas recreativas  e relações com mulheres contratadas para festas privadas na sua mansão em Loraleja. Quando deixou o Real Madrid em

Janeiro de 2007, pesava mais 15 kg do que tinha  chegado. Estava diagnosticado com hipotiroidismo e em pleno janeiro de 7, uma nova mulher entrou na vida  do gajo. Beatriz Souza, conhecida publicamente por Bia Anthony, modelo carioca, 22 anos, recém virada de Nova Iorque. Ronaldo conheceu ela na última noite de 2006 numa festa privada no Rio.

 Começaram a sair em Janeiro do 7. A Bia engravidou em Março. Maria Sofia, a primeira filha do casal, nasceu em Dezembro do 7. No dia 16 de março de 2008, Ronaldo e Bia Anthony casaram-se numa cerimónia íntima na casa da família dela em Chamonis, nos Alpes franceses. 42 convidados  sem imprensa.

 A Bia com um vestido branco simples, Ronaldo com um fato azul escuro, Maria Sofia 3 meses de idade nos braços da avó materna. 43 dias depois daquele casamento íntimo em Chamonis, na madrugada do dia 28 de Abril de 2008, Ronaldo Luiz Nazário de Lima entrou num quarto do motel VIPs do Itanhangá com três travestis cariocas. E o que aconteceu naquele quarto, irmão? Durante as 3 horas seguintes, destruiu para sempre  o casamento do fenómeno com a Bia Anthony.

 A noite de 27 de Abril de 2008,  um domingo, Ronaldo saiu da mansão da família 11 da noite. A Bia ficou em casa com a Maria Sofia. O Ronaldo disse à mulher que ia numa reunião com um amigo. Saiu no Mercedes-Benz preto, conduzido pelo motorista pessoal Edu, que trabalhava com  o fenómeno fazia 7 anos. Destino: A discoteca Priviled, em Itangá, zona oeste do Rio, uma das casas noturnas mais badaladas da cidade.

Ronaldo entrou pela porta VIP 11h40 da noite, pediu uma garrafa de whisky e sentou-se numa mesa ao fundo com dois amigos brasileiros. 2:20 da madrugada do  28 de abril, Ronaldo saiu da discoteca acompanhado de três pessoas. A imprensa brasileira, durante os 10  anos seguintes, referiu-se a estas três pessoas como três mulheres, mas as três não eram mulheres, eram três travestis.

 Os nomes apareceram nos boletins de ocorrência. André Albertino, 25 anos. Sirley Matias, 27  anos. Rodrigo Henrique de Sousa, conhecido por Sabrina, de 29 anos. Ronaldo, como ia declarar dois dias depois na sexta esquadra do Rio, levou as três para o motel VIPs porque achava que eram três mulheres. O motorista  Edu viu as três a subir para o Mercedes 2:25, conduziu até ao motel VIPS a 15 minutos do privilégio.

  Chegaram 2:40. Ronaldo e os três acompanhantes entraram na suí presidencial, o quarto mais caro do motel, alugado por 6 horas. O que aconteceu naquele quarto, irmão?  Durante as 3 horas seguintes, entre as 2:40 da madrugada e as 5:40 do dia 28 de abril de 2008,  foi declarado pelas três travestis na esquadra 6 às 9:30 da manhã do mesmo dia.

  As três versões batiam exatamente. As três declararam que Ronaldo dentro do quarto descobriu que as três eram travestis depois de mais ou menos 40 minutos. As três declararam que o fenómeno reagiu com violência verbal extrema. As três declararam que ele ameaçou destruir-lhes a carreira e a vida dela se a notícia saísse nos jornais.

 As três declararam que durante as duas horas seguintes, Ronaldo obrigou elas a ficar no quarto contra a sua vontade, enquanto consumia substâncias ilícitas identificadas como  cocaína de qualidade pura, trazida ao quarto por um dos funcionários do motel. E as três declararam que 5 horas da madrugada,  uma delas, a André Albertino, pediu ao fenómeno R$ 50.000 R$ 1.

000 para calar tudo o que tinha acontecido naquele quarto. A frase da Andrea registada Verbatim no boletim policial número 643/08 tinha 14 palavras. Dizia: “Se não pagar 50.000 agora, amanhã a Bia sabe de tudo e o Brasil também”. Ronaldo se recusou pagar. 5:20 da madrugada, o fenómeno abriu a porta da suí presidencial e saiu para o corredor.

 As três travestis ficaram no interior. Ronaldo desceu para o lobby. O recepcionista do turno da madrugada,  um tipo de 50 anos chamado António Carlos, viu o fenómeno chegar ao balcão. Ronaldo pediu pro recepcionista chamar a Polícia Civil. Pediu para virem os três travestis por tentativa de extorção, mas as três travestis decidiram ficar, decidiram esperar pela polícia e decidiram contar tudo o que tinha rolado durante as 3 horas anteriores naquele quarto, estás a ver? Quando a Polícia Civil chegou ao motel

VIP 5h40 da madrugada, o delegado de de serviço não deteve as três travestis, recolheu os depoimentos das quatro pessoas dentro do quarto e o boletim de ocorrência número 643/08, assinado 9:30 da manhã do mesmo dia, apresentou acusação contra Ronaldo Luís Nazário de Lima por uso de substâncias ilícitas, violência verbal contra civis dentro de um estabelecimento privado e retenção  forçada de três cidadãos brasileiros durante 3 horas.

 As acusadas não foram as três travestis. O acusado foi o fenómeno. 2 da tarde do 28 de abril, Bia Anthony Souza Nazário, mulher fazia 43 dias do fenómeno e mãe da Maria Sofia de 4 meses, ligou a televisão na mansão da Barra da Tijuca e viu a cara do marido em rede nacional. A legenda informava que Ronaldo tinha sido detido num motel do Rio com três travestis e o casamento naquela sala da Barra da Tijuca, exatamente 14h2 de 28 de Abril de 2008.

 Maria Sofia tinha 4 meses. 3 da tarde do mesmo dia, Bia Anthony fez duas chamadas telefónicas do telefone fixo da mansão. A primeira foi para a mãe dela em Niterói, a segunda foi para o advogado pessoal da família, um tipo chamado Roberto Carneiro, que trabalhava com o casal fazia 10 anos. Pro Carneiro pediu uma coisa só.

 Pediu que iniciasse os trâmites legais para uma separação judicial provisória. Carneiro recebeu a instrução 3:15 da tarde do dia 28 de abril de 2008, 24 horas depois da madrugada do motel VIPs. No dia seguinte, 29 de abril, os principais jornais brasileiros saíram com a notícia na primeira página. O Globo do Rio publicou uma foto do fenómeno saindo da esquadra sexta-feira com óculos escuros por baixo da manchete Ronaldo detido com três travestis em motel do Rio.

 Folha de São Paulo publicou a versão preliminar do boletim policial número 643/08. A revista Veja na edição especial dessa semana publicou as fotografias das três travestis cariocas à saída da esquadra com os nomes reais das mesmas. O escândalo chegou à imprensa europeia em menos de 48 horas. A Gazeta deo Desporto de Itália, o Marca de Espanha e o Lequipe de França publicaram a notícia com pormenor.

 Os companheiros do Real Madrid de onde Ronaldo tinha jogado até Janeiro de 2007, ligaram para o telemóvel dele nos três dias seguintes sem receber resposta. Roberto Carlos. O mesmo Roberto Carlos, que ia ser testemunha do momento mais negro do fenómeno 10 anos antes, tentou-lhe, 18 anos seguintes até hoje, não deu uma única entrevista pública onde explica detalhadamente o que aconteceu dentro daquele quarto.

 Evitou em toda a entrevista com a imprensa europeia, evitou em todo o documentário autorizado. Evitou no livro biográfico publicado em 2018. Evitou na participação no podcast Flow Sport Club do 2022. O silêncio do fenómeno foi tão completo que a imprensa desportiva brasileira começou a tratar o caso como um capítulo esquecido, como se o 50.

000 nunca tivessem sido exigidos, como se o delegado nunca tivesse assinado o boletim que acusava o jogador. Mas o auto de notícia número 643/08 continua arquivado na Polícia Civil do Rio. E os autos do processo marcados com esse número ainda existem. 4 anos depois, em Maio de 2012, os advogados do Ronaldo e da Bia Anthony emitiram um comunicado conjunto anunciando o divórcio.

 Maria A Sofia tinha 4 anos. Maria Alice, segunda filha nascida em abril de 2010, tinha dois. O acordo financeiro ficou em torno de R$ 30 milhões deais, mais pensão alimentar mensal de cerca de R$ 120.000 para as duas filhas até aos 18 anos. Em setembro de 2015,  Bia Anthony deu uma entrevista à revista Caras.

 Nessa entrevista contou uma frase que alterou a leitura pública do divórcio. A frase tinha 11 palavras. Dizia: “O motel de 2008 foi o último golpe depois de muitos outros piores que ninguém soube. Muitos outros piores. Essa palavra abriu a porta para a história verdadeira por trás do divórcio do fenómeno. Porque a descida silenciosa do fenómeno não começou naquele motel de 2008.

 Começou 8 anos antes numa noite de hospital em Milão. E esta noite do hospital de Milão, irmão, é a que vamos contar agora. Regressa 8 anos atrás. 12 de abril de 2000. Estádio Olímpico de Roma. Final da Taça de Itália entre o Inter de Milão e o Lácio, 72.100 pessoas. 2 da tarde, hora local, céu limpo, 22º de temperatura.

Ronaldo Luiz Nazário de Lima saiu do túnel do Olímpico com a camisola número 9 do Inter e a braçadeira de capitão no braço direito. 23 anos. era considerado o melhor jogador do mundo em atividade. A Milene Domingues, mulher há 4 meses, grávida de seis semanas, estava no camarote VIP com o presidente Máximo Moratti.

 Ninguém na imprensa europeia sabia da gravidez ainda. 2 e 2 minutos começou o jogo. E o que aconteceu no minuto 7 do primeiro tempo? O futebol mundial recordou nos 26 anos seguintes. Ronaldo recebeu um passe do companheiro Vieri, avançou três passos, acelerou, tentou fazer uma arrancada semelhante a as que tinha feito centenas de vezes antes, mas no quarto passo, o corpo do fenómeno se quebrou por dentro.

 O tendão rotuliano do joelho direito, o mesmo que tinha inflamado pela primeira vez no PSV em 94. O mesmo que transportava fazia se anos como uma bomba silenciosa, se rompeu por completo a meio. Sem contacto físico, sem choque e sem choque prévio. Ronaldo caiu no relvado do Olímpico como uma árvore cortada pela raiz.

 O áudio do estádio naquele momento existe. O que se escuta em primeiro lugar é o silêncio. 72.000 1 pessoas a compreender num segundo que algo de grave tinha acontecido. Depois o grito do Ronaldo, um grito que durou mais ou menos 7 segundos seguidos. Vier chegou primeiro, ajoelhou do lado do fenómeno, viu que a rótula estava deslocada do lugar normal, benzeu-se, chamou o árbitro Pier Luiz de Colina, que pediu maca imediata.

Mas antes da maca, Ronaldo fez uma coisa que o público viu sem compreender. O fenómeno chorando no relvado, tentou levantar, apoiou as duas mãos no pasto, o joelho direito cedeu de novo. Caiu,  tentou novamente, caiu mais uma vez. Vier falou-lhe em italiano uma frase que dá para ler clarinho nas repetições da televisão.

 A frase foi para não se mexer, por favor. Ronaldo foi levado para o Hospital Humanitas de Milão nessa mesma noite. O médico chefe do Inter, Dr. Piero Volp, examinou o joelho durante duas horas. Ressonância magnética. O tendão rotuliano do joelho direito estava por completo quebrado. A cirurgia foi marcada pro 14 de Abril de 2000. Sala de operações número 3.

 4:20 de operação. A cirurgia foi para reinserir o tendão rompido no osso da rótula, utilizando uma técnica relativamente nova naquela época. A operação foi considerada bem-sucedida no final. Prognóstico oficial:  6 a 8 meses de recuperação. A Milene Domingues, grávida de seis semanas do primeiro filho do fenómeno, voou de São Paulo para Milão na manhã do dia 13 de abril, um dia antes da cirurgia.

 Chegou no Hospital Humanitas 9 da noite, hora italiana. Entrou no 4 12 do quarto andar onde o Ronaldo estava à espera da operação. O casal ficou a conversar em voz baixa durante 2 horas. A Milene contou ao marido, como ela própria falou na autobiografia publicada em 2008, que a gravidez estava confirmada seis semanas. Era o primeiro filho dos dois.

Ronaldo chorou sem dizer nada durante 15 minutos seguidos. A mulher abraçou-o  e antes de sair do quarto 11 da noite, a Milene falou para o fenómeno uma frase curta que aparece verbatim no livro dela. A  frase foi: “Tu tem de estar bem para conhecer o seu filho em setembro. Setembro de 2000.

Faltavam 6 meses e Ronaldo Júnior ia nascer um mês depois, em abril de 2001, 11 meses depois da cirurgia do 14 de Abril de 2000. Mas 7 dias depois da cirurgia do Humanitas no dia 21 de abril de 2000, Ronaldo estava a fazer trabalho de reabilitação demasiado cedo na sala de fisioterapia do hospital.

 Movimento passivo, movimentozinhos do tornozelo. Sem esforço sobre o joelho operado. O fisioterapeuta italiano Fabrício Tencone segurava a perna do fenómeno com as duas mãos. No quarto movimento de alongamento controlado, irmão, rolou a segunda ruptura. O tendão rotuliano, recém reinserido s dias antes, desprendeu-se de novo do osso da rótula.

 O fisioterapeuta descreveu o som depois numa entrevista ao La Gazeta de Desporto como um som seco, semelhante a um ramo de árvore a partir-se em dois. Quando o O Dr. Volp entrou na sala de reabilitação, encontrou o Ronaldo sentado na maca. O fenómeno estava com os olhos abertos, não chorava, não gritava.

 A única coisa que falou quando viu o médico entrar  foi uma frase curta de quatro palavras que o Dr. Volpes citou depois na autobiografia  publicada em 2018. A frase do fenómeno foi: “Doutor, não aguento mais”. E nessa noite, no quarto 12 do quarto piso do Hospital Humanitas, Ronaldo Luiz Nazáo de Lima quase tomou uma decisão que o futebol mundial só teve conhecimento 14 anos depois.

O quarto 12 do quarto piso do Hospital A Humanitas  de Milão tinha mais ou menos 4 m por6. Uma maca clínica com grades de metal, uma pequena mesa de apoio com um copo de água,  uma janela grande que dava para a Avenida Alessandro Manzone, três luzes fluorescentes em cima da cama e um ar- condicionado central que fazia um zumbido contínuo durante toda a noite.

 Eram 4 da manhã do 22 de abril de 2000. Ronaldo,  23 anos e 7 meses, estava deitado com o perna direita engessada desde a anca até ao tornozelo. Tinha 6 horas sem dormir. O O Dr. Piero Volp tinha receitado antidepressivos nessa mesma tarde depois da segunda rotura do tendão. O vidro dos comprimidos estava em cima do mesinha de apoio, do lado do copo de água.

 O vidro tinha  30 comprimidos de um antidepressivo chamado paroxetina, receitado pela psiquiatra do Hospital Humanitas, a Dra. Féderica Galimbert. Depois de avaliar o Ronaldo durante uma hora completa, a médica  tinha diagnosticado o fenómeno com depressão clínica aguda associada a perda de capacidade física  súbita.

 Era o primeiro diagnóstico psiquiátrico oficial da vida do Ronaldo. E ninguém no futebol mundial soube até 14 anos depois. O vidro de 30 comprimidos de paroxetina sobre a mesinha, acabado de receitar naquela mesma tarde. Guarda isso na cabeça, estás a ver? É um caramelo desta  história. 4:10 da madrugada.

 Ronaldo sentou-se na maca, olhou para a janela do quarto durante 10 minutos seguidos  sem se mexer. Depois olhou para o vidro de paroxetina em cima da mesinha. Depois olhou para o relógio de parede que marcava 4:20 da madrugada durante as 6 horas anteriores, desde que o Dr. Volp tinha confirmado para ele 10 da noite minuto.

 Tinha ligado à mãe Sônia no Rio de Janeiro, 11 da noite, hora italiana. A conversa com a mãe durou 6 minutos. A mãe falou para o filho que rezava todas as noites pela recuperação dele. Ronaldo não contou a verdade da segunda ruptura. Disse que a cirurgia estava bem e que em seis meses estaria a jogar.

 Mentiu pela primeira vez na vida para a mãe. Depois de desligar com a mãe,  tentou telefonar para Milene Dominguez em São Paulo. A Milene não atendeu. Ronaldo deixou quatro chamadas  perdidas entre às 11 e 1 da madrugada. Depois deixou de tentar. O que aconteceu nos 30 minutos seguintes,  Ronaldo contou pela primeira vez numa entrevista que deu ao programa Desporto Espetacular da Rede Globo no dia 14 de junho de 2014,  certo? 14 anos depois do incidente.

 Foi a única vez na vida pública que o fenómeno falou dessa noite. A frase exata que Ronaldo usou nessa entrevista  olhando para o jornalista Tadeu Schmi tinha 14 palavras. A frase verbatim do fenómeno  foi: “Aquela noite em Milão não queria viver mais. Achei que a minha vida tinha acabado.

 E o que  a entrevista da Globo não contou, irmão. O que o Tadeu Smith não perguntou ao fenómeno naquela tarde de domingo de 2014, foi o que o Ronaldo fez nos 30 minutos seguintes naquele quarto 12.º O fenómeno pegou no vidro de paroxetina da mesinha, abriu, deitou os 30 comprimidos na palma da mão direita e ficou a olhar para os 30 comprimidos brancos durante 20 minutos seguidos sem se mexer.

4:45 da madrugada, o telefone fixo do quarto 12 tocou. Ronaldo, com os 30 comprimidos ainda na palma  da mão direita, olhou para o telefone, pensou em não atender. O telefone tocou cinco toques, depois seis, depois sete. Quando chegou ao oitavo toque, Ronaldo pegou no auscultador com a mão esquerda.

 Do outro lado da linha estava a Milene Domingues, mulher dele, a ligar de São Paulo. Eram 23h45 no Brasil. A Milene tinha seis semanas de gravidez, não conseguia dormir nessa noite. Tinha sentido um pressentimento estranho.  Tinha marcado o número direto do quarto do hospital. A Milene, sem saber o que o marido tinha na mão direita naquele momento exato, falou-lhe só três frases breves.

 As três frases da gravidez recém-cirmada.  As três frases foram: “Estou grávida de seis semanas. A gente vai ter um bebé. Precisa de ficar bem para conhecer o seu filho. Ronaldo, com os 30 comprimidos na mão direita, sentado na maca do hospital de Milão, escutou estas três frases da mulher dele do outro lado do telefone. A Dra.

 Federica Galimbert, no relatório oficial de 23 de Abril, descreveu este momento como um ponto de viragem clínico que provavelmente salvou a vida do jogador. O fenómeno guardou os 30 comprimidos de volta no vidro, fechou, colocou-o de novo em cima da mesinha, apagou a luz do quarto e ficou deitado com a perna direita engessada,  a olhar para o teto durante o resto da madrugada sem dormir.

 6:30 da manhã, a enfermeira de serviço da noite, a Roberta Pellegrini, entrou no quarto 12 para verificar os sinais vitais do paciente. Encontrou o Ronaldo acordado, o vidro de paroxetina fechado em cima do mesinha, os 30 comprimidos completos dentro. A anotação oficial da enfermeira Pellegrini, arquivada no Hospital Humanitas tinha sete palavras.

 Dizia: “Doente acordado desde as 4, estado emocional  instável”. Esta frase de sete palavras, irmão, foi o mais perto que o futebol mundial esteve durante as seis semanas seguintes de saber que o melhor jogador do mundo em atividade tinha quase tirado a própria vida na madrugada anterior num quarto de hospital de Milão.

 Mas a imprensa europeia não soube, nem a brasileira, nem os companheiros do Inter, nem o Massimo  Morati, nem o Roberto Mancini. A única pessoa no mundo que soube naquela noite sem saber foi a Milene Domingues, grávida de seis semanas, ligando de São Paulo por um pressentimento de que ela própria não soube explicar.

 Ronaldo saiu do Hospital Humanitas no 2 de Maio de 2000, mudou-se para uma casa alugada nas colinas de Como engordou 15 kg nos primeiros 12 meses. A Dra. Galimbert continuou cuidando dele durante os 18 meses seguintes, sessões três vezes por semana. Antidepressivos em doses ajustadas. Ronaldo Júnior, primeiro filho do fenómeno, nasceu a 6 de abril de 2001.

 O pai chegou ao parto com a perna direita ainda a coxear e o fenómeno só voltou a jogar futebol profissional no dia 14 de Outubro de 2001. 18 meses completos sem pisar um campo oficial. O regresso foi contra o Brecia. Ronaldo entrou no segundo tempo, fez um golo ao minuto 7 da entrada. O estádio Joseppe Meaza fez uma ovação que durou 12 minutos inteiros.

 Mas o Ronaldo que regressou naquela tarde de outubro de 2000 e um não era o mesmo que tinha caído no relvado do Olímpico 18 meses antes, pesava mais 15 kg. O joelho doía-lhe a cada jogo. A depressão seguia controlada com remédio e a cabeça do fenómeno transportava o peso dos 30 comprimidos brancos que tinha tido na palma da mão numa madrugada de Abril de 2000.

 Este peso foi o que dois anos depois explodiu no casamento do fenómeno e foi a primeira de uma cadeia que terminou 8 anos depois no motel VIPs do Itanhangá com as três travestis cariocas a exigirem R$ 50.000. Mas ainda não se sábio o mais forte desta história, irmão. Tem uma noite anterior até a Roma.

 Uma noite que aconteceu num quarto de hotel de Paris dos anos antes da lesão do Olímpico. Uma noite que o Mário Zagalo, a Nike e a Confederação Brasileira de Futebol esconderam do mundo durante 28 anos seguidos. Antes de chegar a essa noite, tem que se perceber uma coisa mais. Algo que aconteceu em junho de 2002, a regresso milagroso do fenómeno na Copa do Mundo da Coreia e do Japão.

20 meses depois da cirurgia do humanitas, Ronaldo Luiz Nazário de Lima foi convocado pelo selecionador Luís Felipe Colari para o Campeonato do Mundo do A imprensa europeia tinha dado o fenómeno como acabado.  Os Os médicos especialistas achavam que o joelho direito não ia aguentar a pressão de um Mundial, mas Ronaldo viajou com a seleção brasileira para a Coreia do Sul em Maio de 2002.

 chegou no seu com 5 kg a mais do que o ideal para uma copa. O que o fenómeno fez naquele torneio contrariou todos os palpites médicos. Oito golos em sete partidas, goleador do torneio e dois golos na final contra a Alemanha no dia 30 de junho de 2002 no Estádio Internacional de Yokohama. O O Brasil ganhou 2-0, quinto título mundial.

 A segunda bola de ouro ele ganhou 5 meses depois, em dezembro de 2002. A imprensa europeia falou em volta milagrosa. Nélio Nazário, ausente da vida dos filhos durante 15 anos, reapareceu nessa mesma semana numa entrevista para um jornal do Rio a pedir perdão público ao filho. Ronaldo não respondeu, mas a verdade por detrás daquele Mundial de 2002 é uma coisa que o O público brasileiro nunca conheceu na época.

 A razão pela qual o fenómeno começou aquele torneio com tanto medo. A razão pela qual em cada jogo da Taça, durante o caminho para a final,  olhava para o técnico Escolari, como se esperasse receber uma ordem silenciosa que já tinha recebido 4 anos antes de outro técnico. A razão era que 4 anos antes, noutra taça, outro técnico tinha feito com fenómeno uma coisa que mudou a forma como confiou no futebol brasileiro para o resto da vida.

 E essa outra Taça, irmão, a do 98 na França, é a que vai saber agora. O 12 de julho de 1998 era o dia da final do Campeonato do Mundo da França. Brasil contra França. Estádio de França, subúrbio norte de Paris, 75.000 pessoas. Transmissão em direto para mais ou menos 1700 milhões de pessoas no planeta inteiro.

 A seleção brasileira estava hospedada no hotel Sofiteu Santooré, primeiro bairro de Paris. Mário Zagalo era o treinador. O médico oficial era o Dr. Lídio Toledo. O presidente da Confederação Brasileira era Ricardo Teixeira. E o patrocinador principal da seleção no terceiro ano de contrato milionário era a Nike. Ronaldo, com 21 anos recém- completados e sete golos no torneio, dormia a sesta da tarde no quarto 514 do Sofitel.

 Dividia quarto com o Roberto Carlos. As duas camas separadas por uma pequena mesa, cortinas de tecido grosso fechadas antes da final. Roberto Carlos tinha saído do quarto 12:40 do meio-dia para descer no lobby e ir buscar água mineral. Quando voltou, 12 minutos depois, encontrou o Ronaldo no chão do quarto entre as duas camas, com o corpo rígido, os olhos abertos, mas sem foco, as mãos fechadas em punho e uma espuma branca a sair da boca.

 O fenómeno estava no meio de uma convulsão.  Roberto Carlos contou depois no documentário O mistério de Ronaldo da Rede Globo em 2018, 20 anos depois da final, que ficou paralisado à porta do quarto durante mais ou menos 5 segundos. Nunca tinha visto uma convulsão na vida. Saiu correndo para o corredor, tocou a campainha do quarto vizinho, onde estavam o Edmundo e o Leonardo.

 Edmundo e Leonardo entraram no quarto 514 125 do meio-dia do 12 de Julho de 98. Ronaldo estava no chão. A convulsão durou mais ou menos 7 minutos completos. Durante os quatro primeiros minutos, o corpo do fenómeno sacudiu-se com espasmos violentos. A espuma branca saía pela boca e descia pela barba. Edmundo segurou a cabeça para ele não bater no chão.

 Leonardo enfiou um cinto dobrado entre os dentes para ele não morder a língua. 13:2, a convulsão parou. O corpo do Ronaldo afrouchou. Os olhos fecharam-se. O fenómeno tinha perdido os sentidos. Edmundo desceu a correr para o lobby. Procurou o O Dr. Lídio Toledo, médico oficial da seleção.

 Encontrou-o tomando café no restaurante do hotel. Lídio Toledo subiu para o quarto 514 na hora. Eram 13:06.  O médico examinou o fenómeno durante mais ou menos 4 minutos, pegou pulso, tensão arterial, verificado  pupilas, verificou respiração. 13:10, o Dr. Lídio Toledo tomou a decisão que aquele dia mudou a história do futebol mundial.

 ligou para o técnico Mário Zagalo, que estava num quarto diferente do hotel preparando a conferência técnica antes do jogo. Falou o que tinha acabado de acontecer. Zagalo desceu imediatamente. Eram 13:15. Faltavam mais ou menos 6 horas para o início da final. O que aconteceu naquele quarto 514 do Hotel Sofitel Santo Hororé durante os 40 minutos seguintes, o irmão, entre as 13:15 e as 13:55 do dia 12 de julho do 98.

 é o que a Confederação Brasileira, Mário Zagalo e a Nike esconderam do público mundial durante os 28 anos seguintes. E é o que vai saber agora, já viu? Mário Zagalo, técnico da seleção brasileira com 67 anos nesse momento, entrou no quarto 514 e olhou para o Ronaldo em cima da cama. O fenómeno tinha recuperado parcialmente a consciência, estava semiconsciente, murmurava palavras incompreensíveis.

Roberto Carlos, sentado na cama ao lado, segurava-lhe a mão esquerda. O Dr. Lídio Toledo falou para o Zagalo em voz baixa e com a porta fechada, o que tinha encontrado. Disse duas coisas. A primeira que Ronaldo tinha tido um episódio convulsivo de origem não identificada e necessitava de avaliação neurológica urgente num hospital de Paris.

 A segunda, que sob qualquer critério médico responsável, Ronaldo Luiz Nazário de Lima não podia jogar a final do campeonato do mundo nessa mesma tarde. 13:20, Zagalo saiu do quarto e caminhou até ao quarto 522, onde estava hospedado o coordenador Zico. O Zagalo pediu ao Zico ligar imediatamente para o Ricardo Teixeira,  presidente da CBF, hospedado numa suí do mesmo hotel, dois andares acima.

 Ricardo Teixeira desceu para o quarto 514, 13:30. E juntamente  com ele, sem que nenhum jogador da seleção nacional soubesse no momento, chegou um quarto homem. Um homem que não era do comando técnico oficial, um homem que não era da CBF, um homem que estava no Hotel Sofitel desde três dias antes, aguardando precisamente a final.

 O quarto homem era o representante da Nike na Europa. O seu nome foi documentado em livros publicados anos mais tarde por jornalistas brasileiros como Juca Cufouri e Paulo Vinícius Coelho. O representante da Nike presente no Sofitel nessa tarde chamava-se Jeff Friedman, vice-presidente de relações desportivas da Nike para a Europa com base no escritório de Biverton, Oregon.

Friedman tinha viajado para Paris três dias  antes com dois advogados da Nike, precisamente para estar presente na final, onde a marca americana esperava um retorno publicitário calculado em mais ou menos 240 milhões de dólares anuais só do contrato com a seleção brasileira. 13h40 de 12 de julho 98, no quarto 514 do Hotel Sofitel Santooré de Paris, com Ronaldo Luiz Nazáo de Lima, semi-consciente em cima da cama, houve uma conversa entre quatro homens que mudou a história do mundial.

VÍDEO: veja como os franceses queriam travar Ronaldo em '98 - TVI Notícias

Mário Zagalo, treinador, Lídio Toledo, médico, Ricardo Teixeira, presidente da CBF e Jeff Friedman, representante da Nike. O conteúdo da conversa apareceu reconstruído no livro A glória e a Tragédia do jornalista brasileiro Paulo Vinícius Coelho, publicado em 2016. O livro foi retirado do mercado brasileiro dois meses depois da publicação por pressão legal da família Teixeira, mas as primeiras edições ainda  circulam em bibliotecas privadas e arquivos de imprensa.

 Segundo a reconstituição do Paulo Vinícius Coelho, baseada em depoimentos de duas pessoas que estiveram presentes durante a conversa, o conteúdo foi o seguinte: Lídio Toledo apresentou o diagnóstico médico, concluiu pedindo que Ronaldo fosse retirado da convocatória e hospitalizado imediatamente. Zagalo concordou com a recomendação médica.

 Ricardo Teixeira ouviu as duas opiniões sem falar durante os três primeiros minutos. Quando interveio,  fez uma única pergunta ao representante da Nike. A pergunta do Teixeira pro Freezman foi:  “O que acontece com o contrato se o Ronaldo não entrar em campo esta tarde?” Friedman respondeu com uma explicação de 3 minutos.

 Se Ronaldo não jogasse a final, a Nike considerava violação parcial do contrato  assinado 3 anos antes. O contrato estipulava que a seleção brasileira tinha de apresentar o jogador mais reconhecido nos jogos finais do mundial quando estivesse em condições físicas mínimas. Se Ronaldo não jogasse sem justificação médica pública e verificável, a Nike retinha 70%  do próximo pagamento anual à CBF, mais ou menos 180 milhões de dólares.

 E tinha um segundo ponto. Se Ronaldo não jogasse por motivo  médico, a versão médico oficial entregue pra A imprensa internacional tinha de ser revista pelos assessores jurídicos da Nike antes de ser publicada.  A marca americana não tinha sofrido um episódio neurológico grave antes da final do Mundial.

13:50 do dia 12 de Julho de 98, Ricardo Teixeira tomou a decisão que alterou a história do futebol brasileiro durante os 28 anos seguintes. Ordenou que o Mário Zagalo escalasse Ronaldo Luiz Nazário de Lima na equipa titular do jogo e ordenou ao Dr. Lídio Toledo assinar um relatório médico declarando o jogador apto para competir.

 Ronaldo recuperou a consciência completa mais ou menos 14:30 do 12 de Julho. Roberto Carlos ajudou ele a sentar-se. O fenómeno, como contou depois na entrevista  de junho de 2014, não se recordava da convulsão. Achava que tinha dormitado. Quando viu o relógio e olhou pr as caras dos companheiros,  compreendeu que algo tinha rolado.

 Perguntou ao Roberto Carlos o que tinha acontecido. Roberto Carlos disse a verdade, convulsão, inconsciente.  Chegaram o Edmundo, o Leonardo e o Dr. Toledo. Depois subiu o Zagalo e depois subiu Ricardo Teixeira. Ronaldo fez pro Roberto Carlos uma pergunta só. Vou jogar a final. Roberto Carlos não  respondeu, baixou o olhar para o chão e este silêncio do lateral esquerdo da seleção brasileira, a olhar para o chão do Sofiteu,  sem responder a pergunta do companheiro, foi a única resposta que o Ronaldo precisou naquele

momento. 15:40 a seleção brasileira entrou no balneário do estádio de França. Ronaldo entrou caminhando sozinho, vestia a camisola amarela número nove. Tinha um olhar fixo para a frente e caminhava devagar, como se disse-me cada passo. Ronaldo não falou com nenhum companheiro durante os 40  minutos antes do jogo.

 Fria, se olhou para o espelho durante mais ou menos 3 minutos sem se mexer e voltou a cadeira. Quando o árbitro sair de Belcola, tocou à campainha para chamar as equipas para irem para o campo, Ronaldo levantou-se, pegou na bola do jogo e saiu pro túnel do estádio de France com os companheiros.

  olhou para o Mário Zagalo naquele momento desde a entrada do vestiário. Zagalo não retribuiu o olhar. 16:15 hora local de Paris, no dia 12 de julho do 98,  começou a final do campeonato do mundo. Brasil contra França, 75.000 pessoas no estádio de França, 1700 milhões ver pela televisão no planeta inteiro.

 O que o mundo viu durante os anos 90 minutos seguintes,  irmão, foi Ronaldo Luiz Nazário de Lima caminhar pelo campo do estádio de France como um fantasma sem foco. Não  marcou golo, não criou perigo, não deu um único pontapé para a baliza e, como confessou 16 anos depois pro Tadeu Schmi, não se lembrava de uma única jogada do jogo.

 A França ganhou 3 a 0 e o fenómeno carregou durante os 28  anos seguintes o peso de um jogo que ele não se recorda e que provavelmente nunca devia ter jogado. Durante os 20  anos seguintes, nem Zagalo, nem Ricardo Teixeira, nem Jeff Friedman, nem o Dr. Lídio Toledo deram uma única entrevista pública onde explicassem o que se passou no  quarto 514 do Sofitel nessa tarde.

 A versão oficial da CBF falava apenas de uma indisposição física menor do jogador, sem nunca mencionar a palavra convulsão.  O Dr. Lídio Toledo faleceu no dia 14 de março de 2018 aos 82 anos. No velório, Ronaldo apareceu vestido de luto, ficou na igreja durante toda a cerimónia e na saída falou à imprensa brasileira uma única frase de cinco palavras.

 Falou: “Ele fez o que pôde”. Mas antes de morrer,  numa entrevista privada que o Lídio Toledo deu ao jornalista Mauro César Pereira em fevereiro de 2016, o médico admitiu, pela primeira e única vez na vida, que naquela tarde do 12 de Julho de 98, ele tinha assinado um documento que,  segundo as suas próprias palavras, não devia ter assinado nunca.

 A entrevista foi publicada parcialmente  pelo Mauro César Pereira no canal do YouTube em setembro de 2018, se meses depois da morte do médico. Na parte que veio a público,  Lídio Toledo falou: “Eu era o médico da seleção, tinha um contrato com a CBF, tinha um contrato com a Nike, tinha família, tinha filhos na universidade.

 Naquela tarde de Paris, alguém tinha de assinar o papel e eu assinei, ele assinou”. E por essa assinatura do Lídio Toledo, feita sob pressão combinada do Ricardo Teixeira e do Jeff Friedman, Ronaldo disputou a final do Mundial contra a França em condições físicas que qualquer médico teria considerado desclassificatórias. E dois anos depois, a 12 de abril de 2000, esse mesmo  corpo que tinha sido obrigado a competir em Paris caiu sozinho no relvado do Estádio Olímpico de Roma, com tendão rotuliano do joelho direito completamente rompido. E

20 dias depois, no quarto 12 do Hospital Humanitas de Milão, esse mesmo tipo quase tirou a própria vida aos 30 comprimidos brancos de paroxetina porque pensava que a vida tinha acabado. Tudo o que se viu nesta história começou naquela tarde de Paris, de Julho de 98, quando quatro homens adultos decidiram que 240 milhões de dólares valiam mais do que a saúde de um jogador de 21 anos recém- completados.

 Há uma pergunta que o público brasileiro nunca fez com todas as as palavras durante estes 28 anos. Uma questão que a imprensa desportiva mundial nunca quis  responder. Uma questão que o próprio Ronaldo evitou em cada entrevista da vida pública. A questão é se nessa tarde de 12 de Julho de 98, no quarto 514 do hotel Sofitel Sentonoré, o Dr.

 Lídio Toledo se tivesse recusado a assinar o relatório médico falso. Se o Mário Zagalo tivesse recusado a colocar Ronaldo na onze titular? Se o Ricardo Teixeira tivesse colocado a saúde do jogador acima do contrato da Nike, se os quatro homens adultos naquele quarto tivessem tomado uma decisão diferente, o que teria acontecido com o resto da vida do fenómeno? Provavelmente a convulsão teria sido investigada por neurologistas especialistas em Paris nessa mesma semana.

 A origem exata, que 28 anos depois segue sem ser identificada oficialmente teria sido encontrada. O tendão rotuliano do joelho direito, enfraquecido por anos de sobrecarga, não teria rompido no Olímpico de Roma do anos depois. Os 30 comprimidos brancos de paroxetina nunca teriam estado na palma da mão do fenómeno no quarto 12 do Hospital Humanitas.

 Os 15 kg de madre não se teriam acumulado pela depressão clínica nunca diagnosticada atempadamente. O casamento com a Milene Dominguez não teria sido destruído pela descida silenciosa de 8 anos. A madrugada do motel VIPs com os três travestis cariocas não teria rolado e a Bia Anthony não teria estado sentada no sofá branco da Barra da Tijuca com a Maria Sofia de 4 meses nos braços, vendo em rede nacional a imagem do marido descendo às escadas da esquadra sexta-feira do Rio.

 Mas esta decisão diferente não foi a que os quatro homens tomaram nessa tarde e por isso durante os 28 anos seguintes, o melhor avançado do planeta carregou silenciosamente as consequências de uma assinatura médica feita sob pressão comercial num quarto de hotel de Paris em pleno Mundial de Futebol do 98. A carreira de um jogador irmão, por mais extraordinária que seja, vale menos do que o contrato comercial que ele veste.

 E quando o dinheiro e a saúde entram no mesmo quarto de hotel em plena copa, com 240 milhões de dólares em cima da mesa, não decide o médico, nem o técnico, nem o presidente da federação. Também não decide o próprio jogador semiconsciente em cima de uma cama com espuma branca ainda na barba. Quem decide é o representante da Nike sentado do lado da cama com um telefone na mão e dois advogados à espera do lado de fora.

Hoje, em 2026, Ronaldo Luiz Nazário de Lima tem 49 anos, vive entre Espanha e o Brasil. Está casado em terceira união com a modelo brasileira Celina Lox. A Maria Sofia tem 18 anos e estuda em Madrid. A Maria Alice tem 16 e vive com a mãe no Rio. Ronaldo Júnior tem 25 anos. tentou ser futebolista profissional sem conseguir.

 Hoje trabalha em gestão desportiva. O pai Nélio Nazário faleceu no 8 de novembro de 2018 aos 74 anos  numa pensão de Niterói, cirrose hepática avançada. Fazia dois anos que não falava com o filho. Ronaldo não foi no velório. A mãe no bairro Tijuca do Rio. A mãe continua a ser o único contacto familiar permanente do fenómeno até hoje.

 Mas numa casa de três quartos do bairro Bento Ribeiro, no mesmo bairro onde Ronaldo jogou descalço com a bola de plástico azul quando tinha 5 anos, vive ainda hoje um dos irmãos do fenómeno. O irmão mais velho, Nélio Júnior, que tinha 17 anos quando o pai abandonou a família em Março de 87. Nélio Júnior nunca deu uma entrevista pública sobre o irmão, não conhece pessoalmente os sobrinhos e guarda na sala da casa do bairro Bento Ribeiro, em cima de uma prateleira de madeira do lado da televisão, um único objeto que liga a família com o mais novo dos

filhos. O objeto é a bola de plástico azul que um vizinho do bairro deu ao Ronaldo aos 5 anos. A bola original com a pintura azul já gasta pelo tempo e pelos pontapés da infância. A bola azul, irmão, em cima da prateleira de madeira do lado da televisão. Esta bola é o que resta do miúdo que jogava descalço na rua de terra batida do bairro Bento Ribeiro aos 5 anos, antes do primeiro contrato profissional, antes da primeira bola de ouro, antes do 4 do Sofitel de Paris, antes do Olímpico de Roma, antes do quarto 12 do Humanitas, antes do motel

VIPs, antes de mais. Este miúdo que a mãe Sónia,  grávida, escolheu chamar Ronaldo porque tinha lido este nome numa revista velha. Esse miúdo que o pai Nélio Nazário abandonou aos 11 anos e nunca mais voltou a procurar. Este miúdo que um vizinho do bairro deu uma bola azul numa tarde de 1981. Este miúdo já não existe.

 O que existe hoje em 2026 é um homem de 49 anos com cicatrizes ano no 18 de setembro,  no dia do seu aniversário. Ronaldo recebe uma chamada telefónica de Bento Ribeiro do Rio. A ligação vem do irmão mais velho, Nélio Júnior, o único da família paterna que continua a manter o contacto regular com o fenómeno. A ligação dura entre 2 e 4 minutos.

 Falam da mãe Sónia, falam dos sobrinhos. Antes de desligar, em cada aniversário, o irmão mais velho fala para o fenómeno a mesma frase,  uma frase que o Nélio Júnior começou a falar com Ronaldo quando o Caçula tinha 12 anos e assinou o primeiro contrato amador com o São Cristóão.

 A frase do irmão mais velho é: “A bola ainda está aqui”. E que, no fim de toda a história, é o único contacto que sobra para o melhor avançado do planeta com a única família que tivera antes da fama, antes do dinheiro, antes da Nike, antes dos mundiais, antes dos bolas de ouro e antes do quarto 514 do Sofiteu de Paris.

 Uma bola azul em cima de uma prateleira de madeira e um irmão mais velho que continua à espera. Se essa história fez pensar em algum pai que abandonou um filho  ou em algum filho que carregou sozinho o peso da família, envie este vídeo para esta pessoa nessa noite. Subscreve o canal para continuar a descobrir as verdades que ninguém do futebol mundial teve coragem de contar.

 

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