Melhor marcador do Campeonato Brasileiro, ídolo eterno do Vasco, ídolo eterno do Palmeiras, o animal do futebol brasileiro. E esse mesmo gajo a matar três pessoas inocentes, incluindo uma rapariga de 16 anos a encontrar o próprio irmão baleado e abandonado dentro de um carro. Hoje vai saber a verdade de como e por matou três pessoas, mas o pior é o que fez para sair em 37 horas da cadeia.
Ainda mais obscuro, vai saber. Porque o irmão mais novo do Edmundo foi executado a tiro e abandonado num Fiat. E no final vai saber porque é que o Edmundo fez maus tratos com um pobre chimpanzé em frente do filho de um ano. Mas antes, tem que perceber quem era o Edmundo antes de ser o animal. O bairro da Fonseca é um dos locais mais pobres de Niterói.
Casas de tijolo amontoadas na subida do monte. Ruas estreitas que inundam quando chove. Uma estação de comboios, onde os operários descem da manhã para o centro do rio e regressam cansados à noite. Nos anos 70, as crianças da Fonseca cresciam entre o rádio do vizinho, as brigas de bêbados do botequim da esquina e o rumor longínquo do estádio do Vasco do outro lado da Baía.
É aí que nasce Edmundo Alves de Sousa Neto, no dia 2 de abril de 1971. Família pobre, pai operário, mãe dona de casa, quatro filhos. Edmundo, o segundo Luís Carlos o mais novo, aquele que ia ter que enterrar 31 anos depois. A casa da família Souza tinha três quartos pequenos. O Edmundo dormia com os dois irmãos num quarto de 4 m², com um único candeeiro no teto e uma janela que dava para o quintal, onde a mãe lavava roupa toda dia para tirar uns reais extra.
Guarda esse nome na cabeça. Luís Carlos Alves de Sousa. A gente vai voltar nele no segundo bloco desta história. Com 9 anos, o Edmundo jogava futsal no clube do Fonseca, pequeno, rápido, colado à bola, como se tivesse nascido com ela. As crianças do bairro tinham medo dele quando ficava zangado na quadra. Ficava vermelho de raiva, dava pontapés a quem o marcava, lutava com adversários mais velhos que ele.
Essa raiva interna ninguém entendia naquela altura. Nem a mãe, nem o pai, nem os professores do futsal da Fonseca. O Edmundo, aquele miúdo que muitos do bairro definiam como problemático, carregava lá dentro um vulcão que nenhum adulto sabia como apagar. E este vulcão, durante os 30 anos seguintes, ia queimá-lo e a todo o mundo que se aproximasse.
O namorado de uma tia sua, um homem chamado Edson, era professor de judo num clube do centro de Niterói. O Edson viu o miúdo numa pelada do bairro numa tarde de 1980. viu-o driblar três adolescentes de 15 anos seguidos. Falou com a família Souza nessa mesma noite. Disse que este filho tinha talento de jogador profissional e que ele, o Edson, conhecia um olheiro do Vasco da Gama.
Aos 9 anos, o Edmundo entrou nas divisões de base do Clube de Regatas Vasco da Gama. O clube que a família Souza tinha acompanhado pelo rádio durante três gerações. Paraa dona Marlene, a mãe que naquela tarde chorou em silêncio na cozinha enquanto lavava o roupa, era o milagre que ela tinha pedido para Deus todas as noites durante 9 anos.
O que a dona Marlene não sabia naquela tarde de 80, enquanto chorava com o avental molhado nas mãos, era que o filho de 9 anos ia dar-lhe mais alegrias do que qualquer mãe de Niterói podia imaginar e também ia dar a dor mais grande que uma mãe pode aguentar. Dois anos depois de ter entrado no Vasco, em 82, o Botafogo de Futebol e Regatas ofereceu uma prova ao Edmundo.
O miúdo, com 11 anos, viajou sozinho de Niterói até General Severiano, na zona sul do Rio, onde se encontrava a concentração do Botafogo. Era a primeira vez dele numa concentração profissional. ia ficar três dias no alojamento do clube. Na noite do segundo dia, os técnicos do Botafogo encontraram o miúdo completamente nu no meio do quarto da concentração, dançando sem roupa, sem vergonha e sem qualquer explicação que fizesse sentido para os adultos que estavam em volta.
expulsaram-no naquela mesma noite. O Botafogo nunca deu explicações públicas sobre o incidente. O próprio Edmundo nunca contou os pormenores. A família Souza recebeu o miúdo na manhã seguinte com a cara baixa e os olhos vermelhos. A dona Marlene abraçou-o sem perguntar. O pai não falou com ele durante uma semana. Tinha 11 anos. E não foi a última vez que o vulcão de dentro veio à superfície.
Aos 22 anos, no verão de 93, o Edmundo Alves de Souza Neto celebrou um contrato com a Sociedade Desportiva Palmeiras de São Paulo. O time verde não ganhava um Campeonato Paulista desde 76. A seca de títulos durava 17 anos. O Edmundo chegou juntamente com o Evair, o César Sampaio e o Roberto Carlos.
O presidente Mustafá Contourci tinha assinado um contrato milionário com o treinador Vanderley Luxemburgo para acabar com a seca. O Palmeiras ganhou o Campeonato de Portugal de 93. O Edmundo marcou 12 golos em 31 jogos, mas o mais forte desse ano surgiu com o apelido. O Osmar Santos, o narrador desportivo mais famoso do Brasil naquela altura, comentava um jogo do Palmeiras frente ao São Paulo no estádio Morumbi quando o Edmundo entrou em campo no segundo tempo.
O miúdo de 22 anos fez uma jogada que deixou três defesas do São Paulo sentados no relvado. Quando marcou o golo, o Osmar Santos gritou no rádio uma frase que apareceu verbatim na gravação original do jogo. Uma frase que durante os 33 anos seguintes colou-se no Edmundo como uma segunda pele. A frase de Osmar Santos naquela tarde de 93 no Morumbi foi: “Emmundo, o animal do futebol brasileiro.” O animal.
A partir dessa tarde, o Edmundo Alves de Souza Neto deixou de existir no futebol brasileiro. O nome dele desapareceu. O que ficou foi o apelido, o animal. E este apelido, durante os 22 anos seguintes, ia definir tudo o que ele fez dentro e fora do campo, a raiva, os golos, as brigas, os escândalos, as mortes e a cadeia.
Mas antes da cadeia, antes das mortes, antes dos escândalos, o animal viveu três anos de pura glória desportiva. E o primeiro mais novo que tinha na vida dele, o Luís Carlos Alves de Souza, acompanhava-o em cada estádio onde o animal jogava. O Luís Carlos Alves de Souza, o mais novo do Edmundo, tinha menos 4 anos que o animal.
Era magro, falava pouco. Os vizinhos de Fonseca recordavam-no como um menino tímido que andava sempre atrás do irmão mais velho. Seguia ele em tudo, estás a ver? Como uma sombra. Quando Edmundo entrou no Palmeiras em 93, o Luiz Carlos tinha 18 anos e optou por ficar em Niterói com os amigos do Fonseca.

Estes amigos do Fonseca, durante os nove anos seguintes, iam destruir a vida do Luís Carlos Alves de Souza de uma forma que nenhuma família devia ter de enterrar. O Edmundo, já no Palmeiras a ganhar o salário de jogador profissional, tentou arrumar a vida do mais novo, mandava dinheiro todo mês, pagava à dona Marlene uma pensão fixa, ofereceu trabalho, apartamento e uma clínica de tratamento contra a toxicodependência em 96, quando já era claro que o Luís Carlos tinha caído na cocaína.
O mais novo recusou todas as ofertas, uma por uma, sem explicar à família porquê. Guarda isso na cabeça, a cocaína do Luiz Carlos aos 21 anos. A gente vai voltar a isso no segundo bloco dessa história. No início de 1995, o Edmundo deixou o Palmeiras numa negociação turbulenta e fechou com o clube de regatas do Flamengo por aproximadamente 4 milhões de dólares.
Chegou ao Flamengo em fevereiro de 95, tinha 23 anos. ganhava R$ 150.000 por mês. Vivia num apartamento de cobertura no Ipanema e tinha um Jeep Gran Sherokei importado. Os fotógrafos esperavam-no à porta para obter a foto do animal a sair bêbado às 5 da manhã. O Vanderlei Luxemburgo, O seu treinador no Palmeiras, tinha avisado a direcção do Flamengo antes da assinatura com uma frase verbatim que aparece no livro biográfico do próprio Edmundo, publicado em 2019 pela editora Seuman, o Luxemburgo falou aos
dirigentes: “Este rapaz tem um deus e um diabo dentro. Vocês não sabem qual dos dois vai aparecer cada manhã. O diabo apareceu na sexta-feira, primeiro de Dezembro de 95. E para perceber o que aconteceu naquela noite, temos que perceber o que o Edmundo Alves de Souza Neto fez durante as 12 horas anteriores a batida, que ia matar três pessoas inocentes na Avenida Borges de Medeiros.
No primeiro de Dezembro de 95, uma sexta-feira, o Edmundo treinou com o Flamengo na Gávia de manhã. Saiu do treino às 14h40. Foi almoçar num restaurante de comida brasileira no Leblon com um amigo próximo chamado Marxon Pontes, conhecido no grupo do animal. Como Marcão. O Marcão era amigo do Fonseca, da infância do animal em Niterói.
Era o único amigo do bairro que o animal tinha mantido durante toda a carreira profissional. Saíram do restaurante do Leblon às 5:20 da tarde, subiram para o Jeep Grand Cheroke do Edmundo, aquele verde-escuro importado, e foram diretamente para um bar conhecido do Leblon chamado Universidade do Shopping, uma das casas noturnas mais frequentadas pelos jogadores do Flamengo nesses anos.
O bar abria às 18 horas. O Edmundo e o Marcão entraram às 5:42. Segundo o depoimento que o proprietário do bar ia dar ao detetive Fábio de Melo quase um mês depois do acidente. Na Universidade do Shopping, entre as 5:42 da tarde e às 11 da noite, o Edmundo Alves de Souza Neto consumiu 52 shoppings brasileiros. 52.
º O número apareceu verbatim no inquérito policial do caso, assinado em 5 de Janeiro de 96 pelo detetive Fábio de Melo da Polícia Civil do Rio de Janeiro. O recibo original do bar, conservado nos arquivos do processo judicial número 37/95 do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, tinha dois nomes anotados à mão pelo empregado de mesa do turno, Marcão e Edmundo.
52s, uma dose de frango à passarinho, uma dose de batatas fritas, 50 e 2 shoppings em 5:1. Esse recibo, o recibo original com a letra do empregado de mesa, 52 shoppings. A anotação Marcão e Edmundo em tinta azul. Guarda aquele recibo na cabeça. É um dos caramelos físicos desta história. A gente vai voltar nele no Clímax.
Às 11 da noite do primeiro de dezembro, o O Edmundo e o Marcão deixaram a universidade do shopping e subiram no Jeep Gran Cheroke. Três mulheres entraram no carro com eles à porta do bar, eram amigas do grupo. A Roberta Campos, modelo de 22 anos, sentou-se no banco do Carona. A Débora Ferreira, outra modelo de 20 anos, atrás do carona.
E à Joana Couto, uma menor de 16 anos, no banco traseiro atrás do condutor. A Joana Couto era amiga da Roberta Campos. As duas tinham conhecido três semanas antes numa discoteca de Panema. A Joana Couto tinha dito aos pais nessa tarde que ia dormir a casa da Roberta Campos. A verdade era que ia sair com o animal.
A Joana Couto tinha 16 anos, ia fazer 17 em Março de 96. Estudava no colégio Santo Inácio em Botafogo, um dos melhores colégios particulares do Rio. Era filha única. O pai era médico cirurgião, a mãe dentista. Aquela noite do primeiro de Dezembro de 95, a Joana Couto subiu no Jeep Grand Cherokei, verde-escuro do animal e enviou uma mensagem a uma amiga do liceu do telemóvel novo, que o pai tinha dado três semanas antes para o aniversário de 16 anos.
A mensagem recuperada pela polícia quatro dias depois do acidente tinha oito palavras. Dizia: “Estou com o animal, Vou para a lagoa”. Guarda essa frase na cabeça. Joana Couto, 16 anos, colégio Santo Inácio. Estou com um animal, vou para a Lagoa. A próxima paragem do Jeep A Grand Cherokey foi uma pizzaria chamada Skipper, na Avenida Atlântica de Copacabana.
Chegaram à Skipper às 11:20 da noite. Os empregados de mesa montaram uma mesa no fundo do local, encomendaram uma pizza grande de quatro queijos e começaram a beber. Na pizzaria Skipper, entre as da noite do primeiro de dezembro e às 3 da madrugada do dia 2 de Dezembro, o Edmundo consumiu mais 27 shoppings e dois tequilas ouro.
O número aparece verbatim no inquérito policial do caso. O recibo original da Skipper, conservado nos ficheiros do processo, tinha a mesma anotação à mão. Marcão e Edmundo. Soma total verificada pelo inquérito policial, 79 centros comerciais brasileiros e dois tequilas em aproximadamente 9 hor 18 minutos antes de subir para o Jeep Grand Cheroke com quatro acompanhantes e conduzir pela Avenida Borges de Medeiros em velocidade superior a 90 km/h.
O detetive Fábio de Melo, no relatório que assinou cinco semanas depois do acidente, escreveu uma frase que apareceu verbatim no processo judicial. A frase tinha 14 palavras. dizia: “É impossível que um ser humano consumir essa quantidade de álcool e conduzir um veículo. Mas a lei seca brasileira não existia naquela época.
Só ia ser aprovada 13 anos depois, em 2008. Em Dezembro de 95, os condutores no Brasil não eram obrigados a fazer teste de alcolemia. O Edmundo nunca foi testado nessa madrugada. O teste de o álcool nunca apareceu no processo e que durante os 17 anos seguintes permitiu para o animal escapar da cadeia.
Saíram da pizzaria Skipper às 3 em ponto da madrugada do dia 2 de Dezembro de 95. Sábado estava a fazer 28º de temperatura. O céu limpo, a Avenida Atlântica vazia. O Marcão ofereceu-se pro Edmundo a conduzir o Jeep Grand Cherok. O animal disse que não, que conduzia, que conhecia o caminho, que em 5 minutos chegavam à discoteca.
O destino era uma discoteca chamada Help, no cruzamento da lagoa com o Leblon, uma das casas noturnas mais exclusivas da zona sul do rio naqueles anos. O Edmundo tinha saído da Skipper com a intenção de continuar bebendo na Help até às 6 da manhã. As cinco pessoas dentro do Jeep Grand Cheroke verde-escuro estavam embriagadas.
Quatro das cinco não usavam cinto de segurança. Só a Roberta Campos no banco do Carona tinha ele colocado. A Joana Couto no banco traseiro atrás do motorista não. O Edmundo arrancou no Jeip Grand Cherokei, na Avenida Atlântica, às 3h02 da madrugada. saiu em direção ao Leblom, subiu pela Avenida Vieira Solto, no sentido Oeste.
Cruzou a Avenida Delfim Moreira, no Leblom, e entrou na Avenida Borges de Medeiros, a avenida que circunda a Alagoa Rodrigo de Freitas, do lado do Leblon, às 3:07 da madrugada. A Avenida Borges de Medeiros, neste troço, tem curvas acentuadas. O limite de velocidade permitido era de 60 km/h. O Jeep Gran Cheroqui do Edmundo, segundo a perícia feita pelos peritos criminais Carlos Roberto Faria e António Sérgio Pereira, às 5h20 da madrugada do mesmo 2 de dezembro, circulava a uma velocidade superior a 90 km/h.
A perícia técnica nunca conseguiu precisar a velocidade exata. As marcas de travagem no asfalto não permitiam o cálculo aritmético, mas os dois peritos concluíram. Verbatim no relatório oficial que a velocidade era totalmente inadequada ao local. Às 3:10 da madrugada de Dezembro de 95, numa curva da Avenida Borges de Medeiros, na altura do número 560, o Jeep Gruncher o que verde escuro do Edmundo cruzou-se com um Fiat Uno branco.
O Fiat Uno vinha em sentido contrário. Conduzia o Fiat Uno um rapaz de 23 anos chamado Carlos Frederico Pontes. No lugar do pendura ia a namorada dele, a Alessandra Perrota, de 20 anos. Os dois regressavam de uma festa familiar em Botafogo para o apartamento do Carlos no Leblon. Iam casar em Abril de 96.
Tinham o convite de casamento impresso há duas semanas. 500 convites impressos numa papelaria. O que aconteceu naquela curva da Avenida Borges de Medeiros? Às 3:10 da madrugada do mês de Dezembro de 95, os Os peritos criminais descreveram no relatório oficial do Jeep Grand Cherokey do Edmundo sofreu um desvio direcional à direita por força centrífuga devido à velocidade inadequada.
A segunda, o pneu dianteiro do lado do pendura do Jeep impactou o setor lateral posterior esquerdo do Fiat Uno, capotando ambos os veículos. Em linguagem humana, o animal perdeu o controlo do Jeep na curva, embateu de lado no Fiat Uno e os dois carros capotaram em cima da avenida. O Carlos Frederico Pontes morreu no ato no interior do Fiat Uno por traumatismo craniano e lesão cerebral.
A Alessandra Perrota, namorada deste, ainda respirava quando os bombeiros chegaram às 3h40 da madrugada. Morreu na ambulância a caminho do Hospital Miguel Couto às 4h10 da madrugada. causa oficial da morte, fratura de crânio e edema cerebral. Mas a vítima que ia marcar para sempre a vida do Edmundo Alves de Souza Neto não era nenhuma das duas do Fiat Uno.
A vítima era uma rapariga de 16 anos que ia no banco traseiro do próprio Jeep Grand Cheroke a Joana Couto. Atrás do condutor sem cinto de segurança. A Joana Couto foi lançada pela força do impacto contra o tejadilho do Jeep Grand Cherokei. A cabeça bateu duas vezes. A caixa torácica recebeu o peso completo do corpo de Marcão Pontes, que estava sentou-se ao lado dela e caiu em cima dela quando o Jeip capotou.
A Joana Couto ainda estava viva quando os bombeiros tiraram-lhe o corpo do Jeep capotado. Tinha sangue a sair pela boca e pelos ouvidos. Faleceu às 4:22 da madrugada na sala de emergência do Hospital Miguel Coutto, enquanto os médicos tentavam estabilizá-la. Causa oficial da morte. Traumatismo de tórax e abdómen com diversas lesões.
Hemorragia interna e anemia aguda. Joana Couto, 16 anos, colégio Santo Inácio, filha única, estás a ver? Às 4:22 da madrugada do dia 2 de Dezembro de 95, no Hospital Miguel Couto do Rio de Janeiro. O pai da Joana Couto, o Dr. Pedro Couto, cirurgião do próprio hospital Miguel Couto, onde a sua filha acabou de morrer.
Chegou à sala de emergência 10 minutos após o óbito. Tinha sido chamado pela polícia às 4:05 da madrugada no telefone de casa em Botafogo. A sua mulher, a dentista Cristina Couto, tinha ouvido o telefone e passou a chamada ao marido. Os dois chegaram juntos ao hospital. Viram o corpo da filha única coberto com um lençol branco.
O lençol tinha manchas de sangue seco. O Dr. Pedro Couto, médico cirurgião do Hospital Miguel Couto, durante os últimos 17 anos, falou nessa madrugada ao chefe da sala de emergência, colega dele da Faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense. Uma frase que apareceu verbatim no processo judicial 4 anos depois.
A frase registada por duas enfermeiras do turno da madrugada tinha 11 palavras. A frase do O Dr. Pedro Couto ao ver o corpo da filha foi: “A minha filha de 16 anos acabou de morrer por culpa do Edmundo”. E enquanto o Dr. Pedro Couto pronunciava estas 11 palavras ao lado do corpo coberto pelo lençol branco, o Edmundo Alves de Souza Neto, o animal do futebol brasileiro, estava a ser transportado numa segunda ambulância da Avenida Borges de Medeiros para o mesmo Hospital Miguel Couto.
Tinha um corte na testa, uma fratura ligeira no braço direito e 81 copos de álcool no sangue que nunca foram medidos. Às 5:30 da madrugada do Dezembro de 95, o animal do futebol brasileiro entrou no Hospital Miguel Couto do Rio de Janeiro, em Maca, consciente, conversando com os paramédicos. E aquela madrugada começou a história mais obscura do futebol brasileiro dos anos 90.
Às 7 da manhã do dia 2 de Dezembro de 95, sábado, todos os jornais do Rio de Janeiro tinham a notícia na primeira página. O Globo, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo. A mesma foto nas três capas. O Jeep Gran Cheroqui verde escuro capotado na Avenida Borges de Medeiros, o Fiat Uno branco destruído 30 m adiante.
Os bombeiros a tirar corpos com tesouras hidráulicas. A manchete do jornal O Globo em Corpo Grande tinha cinco palavras. Animal do Flamengo mata três. A manchete do Jornal do Brasil, oito palavras. Três mortos em acidente com Edmundo embriagado. Mas a palavra bêbado nunca apareceu depois no processo judicial. O Edmundo nunca foi testado.
E a palavra bêbado durante os 16 anos seguintes foi a única coisa que a imprensa pôde manter sem ser desmentida em tribunais. O Dr. Pedro Couto, pai da Joana Couto, chegou a casa da família Souza, no bairro Fonseca de Niterói, na segunda-feira, 4 de Dezembro de 95, às 11 da manhã. Conduziu ele próprio sozinho, sem advogado.
Entrou em casa onde o Edmundo estava refugiado desde sábado anterior, escondido da imprensa com o médico do Flamengo a tratar da fratura do braço direito. O encontro durou aproximadamente 40 minutos. O que foi dito não ficou registado por escrito. A dona Marlene, única testemunha presencial, contou 30 anos depois numa entrevista para o programa Profissão Repórter da Globo, emitido a 12 de dezembro de 2025.
A frase verbatim do O Dr. Pedro Couto pro animal, segundo a dona Marlene, foi: “Algum dia Deus vai cobrar-lhe tudo o que aconteceu naquela madrugada. Algum dia Deus ia cobrar dele. No sábado 2 de dezembro de 95, às 6h10 da manhã, o animal saiu do Hospital Miguel Coutido. O seu advogado, o Roberto Pessoa, tinha chegado ao hospital com um abbias corpus preventivo assinado por um juiz amigo.
O documento permitia pro Edmundo abandonar o hospital sem escolta policial. Nunca passou pela esquadra, nunca prestou depoimento em sede policial. Só no dia 8 de dezembro, seis dias depois do acidente, o detetive Fábio de Melo conseguiu obter o depoimento dele nos escritórios dos advogados do Flamengo. Nesse depoimento, o Edmundo falou que tinha bebido meio copo de cerveja, provavelmente.
Esta frase Verbatim consta do processo judicial número 37/95. O detetive Fábio de Melo continuou investigando. Visitou a Universidade do Shopee no dia 5 de dezembro. visitou a pizzaria Skipper no 7 de dezembro. Conseguiu os dois recibos originais. Reconstituiu os movimentos do animal hora a hora.
No primeiro de Fevereiro de 96, apresentou o inquérito policial completo na procuradoria pública do Rio. 79 shoppings, dois tequilas ouro, velocidade superior a 90 km/h, três mortos, três feridos, acusações, triplo homicídio negligente e tripla lesão corporal negligente. Pena máxima prevista, 8 anos de prisão.
No 14 de Outubro de 99, quase 4 anos depois da batida, o juiz Moacir Pessoa de Araújo proferiu sentença. O Edmundo foi condenado a 4 anos e 6 meses de prisão em regime semiaberto, mas esta pena durante os 12 anos seguintes nunca foi cumprida. A defesa apresentou 21 recursos sucessivos: Rabias corpos, embargos, apelações, características especiais, características extraordinários.
Cada recurso parava a execução durante meses. O Edmundo esteve 17 horas detido em 1999, logo depois da sentença. Foi libertado por um abias corpus assinado pelo ministro Vicente Leal do Supremo Tribunal de Justiça. 12 anos depois, em junho de 2011, uma segunda ordem de detenção foi executada.
A polícia encontrou o animal num flat de São Paulo depois de uma denúncia anónima, 18 horas detido, foi libertado por outro abiascorpos. Total acumulado em prisão, 37 horas, por três mortos e três feridos graves. No 15 de setembro de 2011, o ministro Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal declarou extinta a pena por prescrição. O animal ficava livre para o resto da vida.
A única coisa que pagou foram as indemnizações civis para as famílias e uma pensão vitalícia para Roberta Campos, a única sobrevivente com sequelas permanentes. O valor nunca foi tornado público. E aqui aparece a questão que ainda hoje, 31 anos depois da madrugada da Avenida Borges de Medeiros, nenhum jornalista brasileiro respondeu em público.
A questão é: como o animal conseguiu durante 16 anos seguidos ficar fora da cadeia, apesar de uma condenação firme? Quem pagou os 20 e um recursos legais? Quem cuidou das relações com os juízes? Quem garantiu que as ordens de prisão nunca fossem cumpridas? Essa resposta vai ter no final dessa história, mas antes tem que perceber o que o animal fez durante os se anos que se seguiram a batida e compreender porque o seu próprio mais novo, o Luís Carlos Alves de Souza, nestes mesmos se anos, afundou-se num poço que
nenhuma família devia ter de resgatar um filho. Em Dezembro de 98, o Edmundo foi vendido pelo Flamengo à Fiorentina de Itália de aproximadamente 8 milhões de dólares. chegou a Florença com 27 anos, mas entre Janeiro e Fevereiro de 99, durante a semana do carnaval do Rio de Janeiro, o animal apareceu a sambar no Sambódromo do Rio, em vez de jogar o jogo decisivo do Escudeto contra a Udinese.
A A Fiorentina perdeu esse jogo e perdeu a liderança da tabela. O presidente Vitório Sec Gori vendeu o Edmundo de regresso ao Vasco da Gama em Agosto de 99. Antes do regresso ao Brasil, em Julho de 98, o Edmundo tinha vivido a final do Campeonato do Mundo da França. O Mário Zagalo tinha-o convocado como reserva.
O Edmundo entrou nos últimos 15 minutos do jogo com a França. O O Brasil perdeu 3-0. A única imagem que a imprensa internacional registou do animal nessa final foi a bronca pública que deu no Rivaldo quando o companheiro deitou a bola fora por respeito desportivo depois da queda do Zinedines e Dani, enquanto o animal entrava e saía do mundial, enquanto viajava paraa Itália e sambava no sambódromo, enquanto apresentava 21 recursos legais para não pagar as três mortes da Avenida Borges de Medeiros, no bairro Fonseca de Niterói, o mais novo dele, Luís Carlos Alves de Souza,
estava a cair num posto de onde já não ia sair. Aos 21 anos, em 1996, o Luiz Carlos foi detido pela primeira vez pela Polícia Civil do Rio. Foi com seis papelotes de cocaína no bolso. Em 1997, foi detido por corrupção de menores, vendendo cocaína a adolescentes de 15 anos numa favela perto do bairro da Fonseca.
pagou caução o próprio Edmundo. Mas o incidente mais doloroso paraa família Souza aconteceu na madrugada do dia 22 de Março de 98. O Luís Carlos Alves de Souza tentou assaltar a casa do próprio irmão na Barra da Tijuca. Saltou para a grade da mansão às 3:20 da madrugada, acompanhado de dois amigos do Fonseca, com a intenção de roubar dinheiro em numerário e jóias.
Os seguranças do condomínio detiveram eles. Ligaram ao Edmundo, que estava no apartamento de Ipanema. O animal chegou na casa da Barra da Tijuca às 4:30 da madrugada. Viu o próprio mais novo algemado no chão com o nariz a sangrar, a chorar. Não apresentou queixa formal. Pediu para a polícia soltar o Luís Carlos.
Pagou a fiança dos dois amigos do Fonseca com um cheque de 10.000$. E quando os polícias foram embora, às 6 da manhã, o Edmundo entregou ao mais novo um cheque de 100.000 para pagar uma clínica de tratamento contra a toxicodependência em Petrópolis. O Luís Carlos nunca entrou nessa clínica.
Levantou o cheque no dia seguinte, comprou cocaína no valor de 50.000, gastou o resto numa semana de festa com os amigos do Fonseca e voltou para as ruas do bairro. Em 2000, foi detido por posse ilegal de arma. Em 2001, por tentativa de assalto a uma farmácia em Niterói. A A dona Marlene, durante estes 6 anos, viu como mais novo afundava-se num poço que nenhum dinheiro do animal podia resgatar.
E enquanto o Luiz Carlos caía, o Edmundo Alves de Souza Neto assinava em Outubro de 200 e um o contrato mais surpreendente da sua carreira, um contrato com um clube do outro lado do mundo, o Tóquio Verde do Japão. No final de Outubro de 2001, o Edmundo assinou contrato com o Tóquio Verde da primeira divisão japonesa.
Era o clube mais popular do Japão nessa década. ofereceram ao Edmundo 2 milhões de dólares por temporada, mais casa paga no bairro Shibuya de Tóquio. Mais vo em classe executiva para ele e para a mulher dessa época, a Andreia Falcão, sempre que quisessem voltar para o Brasil. O Edmundo viajou para Tóquio no dia 15 de Novembro de 2001. Tinha 30 anos.
chegou no aeroporto de Narita com três malas grandes e a ideia de passar pelo menos do anos no Japão. A cocaína do mais novo perseguia-o desde Niterói. O processo das três mortes perseguia-o desde o Rio. As multas da Fiorentina perseguiam ele desde Florença. E o Japão, 15.000 1000 km a Este do bairro da Fonseca parecia o único lugar do planeta onde o animal podia respirar tranquilamente.
O que o animal não calculou quando subiu no avião do aeroporto de Cumbica de São Paulo nesse dia 15 de novembro de 2001, foi que estar a 15.000 km de distância também queria dizer estar a 15.000 km do único mais novo que tinha e que durante os próximos 12 meses, estes 15.000 1000 km iam transformar-se numa distância que nenhum avião, nenhum voo em primeira classe, nenhum cheque de 200.
000$ poderia percorrer a tempo. Em fevereiro de 2002, o Edmundo lesionou-se no pé direito num jogo do Tókio Verdi contra o Yokohama F Marinos. Voou pro Brasil para fazer uma cirurgia numa clínica de São Paulo. A operação foi bem-sucedida. Quatro dias depois da cirurgia, apareceu de muleta no Sambódromo do Rio de Janeiro, acompanhando um desfile do Salgueiro.
A foto do animal de muleta no Sambódromo deu a volta ao mundo. Os dirigentes japoneses quase rescindiram o contrato. O Edmundo regressou a Tóquio no 8 de Março de 2002 com um cheque de multa de 20.000. Nesta rápida viagem ao Brasil, entre 22 de fevereiro e 8 de março de 2002, o Edmundo viu o Luís Carlos pela última vez na vida dele.
O jantar foi na mansão da Barra da Tijuca num sábado à noite. Estavam presentes o Edmundo, a Andreia, a dona Marlene e o Luís Carlos. A dona Marlene contou depois que o Luís O Carlos chegou tarde, com a roupa suja, os olhos vermelhos, as mãos a tremer. O jantar durou menos de uma hora. O Luiz Carlos não comeu, bebeu três copos de whisky seguidos.
E quando o Edmundo perguntou se estava a usar cocaína novamente, o mais novo não respondeu. Antes de se ir embora da mansão, naquela noite do sábado primeiro de março de 2002, o Luís Carlos abraçou o irmão mais velho durante aproximadamente 2 minutos. A dona Marlene viu da cozinha. O Luís Carlos chorava no ombro do animal.
O O Edmundo abraçava-o sem dizer nada. E quando se separaram, o mais novo falou uma frase curta que a dona Marlene ouviu claramente da cozinha e contou 31 anos depois, na entrevista do Profissão Repórter de 2025, a frase de Luís Carlos para o irmão mais velho na sala da mansão da Barra da Tijuca, naquela noite do primeiro de Março de 2002, tinha sete palavras.
A frase foi: “Mano, desta vez não vou sair. Desta vez não vou sair, estás a ver?” O Edmundo subiu para o táxi que levou-o para o aeroporto às 5 da manhã de segunda. Viu o Luís Carlos pela última vez na vida, pela janelinha do táxi. O mais novo estava parado no portão da mansão de pijama, despedindo-se com a mão. Era 4 de Março de 2002.
O Edmundo não regressou ao Brasil durante os 10 meses seguintes. O clube japonês exigiu presença contínua depois do incidente do Sambódromo. Ligava à dona Marlene uma vez por semana aos domingos. Falavam 15 minutos. A mãe falava sempre que o Luís O Carlos estava tranquilo em casa, mas essa informação era uma mentira piedosa.
O Luís Carlos tinha desaparecido do bairro Fonseca no final de Outubro de 2002. A a dona Marlene não sabia onde ele estava e escondeu isso do filho mais velho durante três semanas à espera que ele aparecesse. Mas o Luís Carlos não apareceu. No dia 25 de novembro de 2002, segunda-feira, 8h40, hora local do Rio de Janeiro, uma chamada anónima chegou à central da Polícia Militar do Estado.
A chamada foi gravada, a voz era de um homem. A gravação arquivada até hoje no banco de provas do 26 Batalhão da Polícia Militar tem 18 segundos de duração. A única coisa que a voz anónima diz nestes 18 segundos é: tem um Fiat Pálio Vermelho abandonado na estrada do Rio Velho, no bairro Anchieta. O porta-bagagens está fechado. Tem cheiro. Tem cheiro.
A patrulha da Polícia Militar chegou à estrada do Rio Velho, fechadas à chave. O porta-bagagens também fechado. O cheiro era inconfundível pros polícias com experiência. Os dois agentes de serviço da manhã, Cabo António Sérgio Almeida e soldado Marcos Pinheiro, esperaram 15 minutos pela chegada da perícia técnica antes do Palho Vermelho na estrada do Rio Velho, no bairro Anchieta do Rio de Janeiro.
Com uma alavanca de ferro, o tampa da bagageira saltou e o que apareceu no interior foi o corpo de um homem de aproximadamente 25 anos com três impactos de bala. Dois no peito e um na cabeça, enrolado numa manta castanha velha, com as mãos atadas atrás com arame e sem documentos nos bolsos. O cabo António Sérgio Almeida não reconheceu o corpo, nem o soldado Marcos Pinheiro, nem o perito Roberto Mendes.
O corpo foi transportado para o Instituto Médico-Legal do Rio de Janeiro, às 11 da manhã do mesmo dia. Ficou na Câmara Fria da sala número 7 do IML do Rio, sem identificação durante as 48 horas seguintes. Nomearam-no Homem não identificado, número 120/2002. Mas na sala do fundo do IML do Rio, um funcionário do Arquivo dactiloscópico chamado Geraldo Vasconcelos, de 59 anos, perto de se aposentar, fez o procedimento de rotina de comparar as impressões digitais do corpo não identificado contra a base de dados da
Polícia Civil do Estado. E às 4:32 da tarde do dia 27 de Novembro de 2002, dois dias depois da descoberta do corpo, o ecrã do computador do Arquivo dactiloscópico mostrou uma coincidência. 100% de coincidência. O nome que apareceu no ecrã em Letras Pretas sobre Fundo Branco era Luís Carlos Alves de Souza, de 26 anos, brasileiro, nascido em Niterói, antecedentes criminais por posse de estupefacientes e posse ilegal de arma.
Última detenção, agosto de 2001. Irmão mais novo do jogador de futebol Edmundo Alves de Souza Neto, conhecido como o Animal. Irmão mais novo do animal. O Geraldo Vasconcelos, o funcionário do arquivo dactiloscópico, ligou por telefone interno para a sala do chefe do IML. Explicou a descoberta.
O chefe do IML, Dr. Marcos Lacerda, ordenou que fosse notificada imediatamente a família do corpo e foi feita outra chamada para casa da dona Marlene, no bairro da Fonseca de Niterói. A dona Marlene atendeu o telefone às 17 horas do 27 de Novembro de 2002. O que a dona Marlene ouviu do outro lado do telefone nessa tarde, durante os 14 anos seguintes, nunca repetiu a ninguém.
só contou pela primeira vez numa entrevista privada ao jornalista Sérgio Xavier Filho, autor do livro Edmundo, Instinto Animal, publicado em 2019 pela editora Sioman. A frase Verbatim do funcionário do IML para a dona Marlene tinha 19 palavras. A frase, segundo o livro de Sérgio Xavier Filho, foi: “Senora Marlene, precisamos que a senhora venha ao Instituto Médico Fixe para reconhecer um corpo que achamos que é do seu filho, Luís Carlos.
” A dona Marlene desmaiou com o telefone na mão. Às 9:17 da noite do 27 de Novembro de 2002, hora do Rio de Janeiro, tocou o telefone fixo do apartamento do Edmundo, no bairro Shibuia de Tóquio. Em Tóquio, eram 9:17 da manhã do dia 28 de novembro, 12 horas de diferença. O Edmundo tinha acabado de sair do treino matinal com o Tóquio Verde.
Estava na cozinha do apartamento se servindo um café. A mulher Andreia Falcão, ainda de pijama, atendeu o telefone. Do outro lado da linha estava o primo do Luís Carlos, o Fernando Souza, que tinha viajado de Niterói para o Rio nessa mesma manhã para ajudar a dona Marlene com os trâmites do IML. O Fernando contou ao André Falcão o que tinha acontecido.
A André Falcão passou o telefone ao animal. O Edmundo ouviu a notícia de pé na cozinha com o café na mão esquerda. O que o primo Fernando falou, palavra por palavra, o Edmundo nunca se ia lembrar. A conversa, segundo o próprio animal contou no podcast Inteligência LTDA de 5 de outubro de 2021, durou aproximadamente 4 minutos.
O Edmundo não chorou durante a chamada, não gritou, não perguntou pormenores. A única coisa que falou ao desligar o telefone foi uma frase curta para a mulher Andreia Falcão. A frase que o Edmundo disse à mulher na cozinha do apartamento de Shibuia, às 9:22 da manhã do dia 28 de novembro de 2002, tinha nove palavras.
A frase foi: “O meu irmão apareceu morto. Preciso voltar para o Brasil.” Mas o animal não regressou ao Brasil. Não pôde voltar ao Brasil. E aqui aparece o pormenor que durante os 19 anos seguintes o Edmundo carregou como a mais pesada culpa da vida dele. Mais pesada que as três mortes da Avenida Borges de Medeiros. Mais pesada que a cocaína do mais novo, mais pesada que todas as brigas, todos os os escândalos, todas as cadeias que nunca cumpriu.
Às 10 horas da manhã daquele 28 de Novembro de 2002, hora de Tóquio, o O Edmundo ligou ao diretor desportivo do Tóquio Verde para pedir a autorização de viajar para o Brasil, para o velório do caçula. O diretor desportivo, um japonês chamado Hiroshi Yamoto, falou pro Edmundo que não era possível. O Tóquio Verde tinha jogo decisivo no sábado seguinte contra o Júbilo e a Ata pelo rebaixamento.
O Edmundo era o goleador do time. Se não jogasse, o clube descia paraa segunda divisão japonesa e o contrato do Edmundo numa cláusula específica negociada em Outubro de 2001 estabelecia uma multa de 500.000 por ausência injustificada em jogos do calendário oficial. O velório do Luís Carlos Alves de Souza foi na sexta-feira, 29 de Novembro de 2002, no cemitério do Marui, em Niterói.
3 horas de duração. Estiveram presentes a dona Marlene, o pai Souza, os irmãos Tony e Andreia Souza, o primo Fernando Souza e aproximadamente 40 amigos do bairro da Fonseca. O Luís Carlos foi enterrado no campo 22 do cemitério do Marui, num túmulo simples, sem lápide de mármore, com uma cruz de madeira e uma placa de metal com o nome e as datas.
Luís Carlos Alves de Sousa, 1976, 2002. O Edmundo, a 15.000 km de distância, não estava naquele velório. Era a primeira vez na sua vida que faltava num evento familiar importante. Era a primeira vez que o animal não podia ficar do lado da dona Marlene num momento de dor extrema. Era a primeira vez que o dinheiro, a fama, os milhões de dólares, os contratos milionários não serviam absolutamente para nada.
19 anos depois, no dia 5 de outubro de 2021, o Edmundo Alves de Souza Neto foi convidado pro podcast Inteligência LTDA, comandado pelo Rogério Vilela. A entrevista durou 3:20 e às 2:14 da gravação, o animal do futebol brasileiro com 60 anos de idade, já reformado do futebol, avô de duas crianças pequenas, chorou em câmara perante 1 milhão de espectadores brasileiros em direto e confessou a frase que durante 19 anos tinha carregado em silêncio.
A frase Verbatim do Edmundo chorando no podcast Inteligência LtdaDA, transmitido em direto no dia 5 de outubro de 2021, tinha 22 palavras. A frase foi: “O o futebol afastou-me dele e o futebol também não me deixou despedir-me dele. Quero abraçar o meu irmão de novo. Eu quero voltar a abraçar o meu irmão. No 5 de Janeiro de 2003, o Edmundo voltou a pro Brasil depois de 3 meses em Tóquio.

O Tóquio Verde tinha finalmente autorizado umas férias de 15 dias. Desceu do avião no aeroporto Galeão do Rio de Janeiro às 7h20 da manhã. ia sozinho. A Andreia Falcão tinha ficado em Tóquio. A primeira coisa que o animal do futebol brasileiro fez ao pisar de novo o solo brasileiro não foi ir para casa da dona Marlene no bairro da Fonseca.
Também não foi para a mansão da Barra da Tijuca. Também não foi cumprimentar os amigos do Fonseca. A primeira coisa que fez naquele dia 5 de janeiro de 2003 foi conduzir ele próprio, um carro alugado do aeroporto do Galeão até ao cemitério do Marui, em Niterói, onde estava sepultado o mais novo dele.
Chegou ao cemitério do Marui às 9 da manhã. O cemitério do Marui é um dos mais velhos de Niterói, tem túmulos do século XVI e uma placa de metal. A placa dizia Luiz Carlos Alves de Sousa, 19762. O Edmundo ficou parado em frente a este túmulo durante aproximadamente 40 minutos, sem se mexer, sem falar e sem chorar.
O zelador do cemitério do Marui, um homem de 60 anos chamado Anísio, viu ele da guarita da entrada, reconheceu ele, era o animal do futebol brasileiro, ouviu. Mas o zelador Anísio, numa entrevista para o programa Desporto Espetacular da Rede Globo, de 24 de março de 2015, contou que o animal tirou do bolso do casaco um objeto pequeno e colocou em cima da cruz de madeira.
Um objeto que o zelador não conseguiu identificar da distância. Algo brilhante, prateado, pequeno. Esse objeto prateado, pequeno, em cima da cruz de madeira do túmulo do Luiz Carlos. Guarda esse objeto na cabeça, estás a ver? é o último caramelo físico dessa história. A gente vai voltar nele no fecho.
3 anos antes do enterro do Luís Carlos, em Setembro de 1999, o Edmundo Alves de Souza Neto vivia o melhor momento futebolístico da carreira dele. Tinha voltado ao Vasco da Gama da Fiorentina em agosto desse ano. Tinha 28 anos. jogava ao lado do Pedrinho, Filipe, Juninho Pernambucano. Era o melhor marcador do Campeonato Brasileiro com 29 golos, um recorde histórico que ia durar 23 anos.
Na quarta-feira, 22 de Setembro de 99, o Vasco jogou contra o Corinthians no estádio Pacaembu de São Paulo para o Campeonato Brasileiro. O Edmundo marcou dois golos nessa noite. Vasco 4, Corinthians 2. O animal saiu do estádio às 23h30 da noite, embriagado de alegria. Esperava ele o avião fretado do clube para regressar ao Rio naquela mesma madrugada.
E no dia seguinte, na quinta-feira, 23 de setembro, era o aniversário de um ano do segundo filho do animal, o Edmundo Júnior. O que aconteceu naquela festa de quinta-feira, 23 de Setembro de 99, no campo de futebol da mansão da Barra da Tijuca. Durante os 27 anos seguintes, foi o episódio mais bizarro da vida pública do animal do futebol brasileiro e ao mesmo tempo o episódio que melhor revelou quem era realmente o Edmundo Alves de Souza Neto, quando ninguém lhe exigia se comportar como um homem adulto.
A festa começou à 1h da tarde de quinta-feira, 23, de Setembro de 99. O tema era o circo. A mansão do Edmundo na Barra da Tijuca tinha um campo de futebol próprio atrás da casa, aproximadamente meio hectare de Relvado, onde o animal treinava durante as férias. Neste campo, os funcionários do Circo Garcia montaram uma tenda completa de circo durante a manhã do dia 23, 12 m de altura, lonas amarelas e vermelhas, assentos circulares para 180 convidados.
Chegaram ao aniversário aproximadamente 120 pessoas. Familiares do Edmundo, jogadores do Vasco da Gama, mulheres de jogadores, filhos pequenos da mansão vizinha, fotógrafos contratados pela assessoria de imprensa do animal. O Donizete, companheiro do Edmundo no Vasco, chegou às 14h com a família. O Pedrinho, também companheiro do Vasco, chegou às 2:30.
A mulher do Edmundo nessa altura, a Ana Cristina Andrade Souza, tinha contratou a própria assessora de imprensa do Vasco da Gama, Alíia Almeida, para coordenar a festa. A Lia Almeida era também, por coincidência, a assessora de imprensa do Circo Garcia, que armou a tenda nessa manhã. O show do Circo Garcia começou às 16 horas. Palhaços, equilibristas, trapezistas.
E no final do concerto, por volta das 5:20 da tarde, entrou no picadeiro o chimpanzé mais famoso do circo Garcia naquela época. Um chimpanzé macho de aproximadamente 8 anos de idade, 42 kg de peso, treinado durante 3 anos para fazer truques de circo. O nome artístico dele era o Pedrinho. Os funcionários do Circo Garcia, numa piada interna do grupo do Vasco da Gama tinham apelidado o Pedrinho naquela tarde com um nome alternativo, Odvan.
Era o apelido de um defesa do Vasco, companheiro do Edmundo, que nessa altura pesava aproximadamente a mesma coisa que o Chimpanzé. Os jogadores riam-se da coincidência e às 17h35 da tarde da quinta-feira, 23 de setembro de 99, em pleno picadeiro de circo armado, no campo de futebol da mansão da Barra da Tijuca, em frente ao aproximadamente 120 convidados que aplaudiam com copos de cerveja na mão, o Edmundo Alves de Souza, Neto, cometeu o ato mais bizarro e publicamente documentado da sua vida.
O animal tirou o chimpanzé Pedrinho dos braços do treinador do circo Garcia, levantou-o, sentou-o em cima dos próprios joelhos numa cadeira de madeira no centro do picadeiro. Pediu a um empregado do buffet um copo de chope brasileiro gelado e começou a dar de beber ao chimpanzé diretamente do copo, segurando a cabeça dele com a mão esquerda enquanto o animal abria a boca e engolia.
O chimpanzé O Pedrinho tomou aproximadamente 450 ml de cerveja à pressão brasileira em menos de 4 minutos. Depois, segundo os depoimentos dos funcionários do Circo Garcia, recolhidos pelo Ibama três meses depois, o Edmundo pediu um whisky escocês e serviu o chimpanzé Pedrinho aproximadamente 70 ml de whisky escocês puro numa segunda dose.
Aos 7 minutos do primeiro copo, o chimpanzé Pedrinho já não conseguia estar direito nos joelhos do animal. Os olhos fechavam-se, a cabeça caía para a frente, as mãos pendiam inertes. O treinador do Circo Garcia, um homem chamado Manuel Garcia, tentou apanhar o animal de volta. O Edmundo Riu passou o chimpanzé inconsciente para o treinador como se fosse um saco de batatas.
Os 120 convidados aplaudiram. Três fotógrafos tiraram fotografias ao mesmo tempo e uma destas fotos tirada pelo fotógrafo profissional Alberto Sampaio, contratado pela assessoria de imprensa do Vasco da Gama para documentar a festa do aniversário. Acabou publicada na segunda-feira, 27 de Setembro de 99, na primeira página do jornal O Globo do Rio de Janeiro e nas 72 horas seguintes deu a volta ao mundo.
A manchete do Globo nessa segunda-feira tinha oito palavras: Edmundo em bebé da chimpanzé, na festa do próprio filho. A foto mostrava o animal do futebol brasileiro, sentado numa cadeira de circo com o chimpanzé Pedrinho desmaiado em cima dos joelhos, com um copo de whisky vazio na mão direita. Atrás, as lonas amarelas e vermelhas do circo Garcia e a esquina do campo de futebol da mansão da Barra da Tijuca.
O IBAMA, Instituto Brasileiro do Ambiente, abriu investigação oficial contra o Edmundo no 8 de Outubro de 99. O processo foi arquivado no dia 14 de Janeiro de 2000 por falta de provas suficientes para acusação formal. O representante do IBAMA naquela decisão, Carlos Henrique de Abreu Mendes, declarou à imprensa uma frase verbatim que apareceu no Diário do Grande ABC no dia 24 de Janeiro de 2000.
A frase dizia: “As fotografias não permitem concluir com certeza que o líquido do copo fosse álcool. O líquido do copo era álcool.” Confirmaram os funcionários do circo Garcia. Confirmaram três empregados de mesa do buffet. Confirmaram dois fotógrafos contratados. E o próprio Edmundo, 22 anos mais tarde, numa entrevista para Vasco TV, transmitida no dia 3 de setembro de 2021, confirmou Verbatim.
A frase do animal nessa entrevista tinha 11 palavras. dizia: “Foi cerveja de pressão e whisk. Eu dei cerveja e whisky ao chimpanzé. Eu dei chope e whisk para o chimpanzé. Mas o caso já estava arquivado desde há 21 anos. A justiça brasileira não podia reabrir ele. E o chimpanzé Pedrinho do Circo Garcia, segundo os registos do próprio Circo Garcia conservados até hoje, foi retirado do concerto principal depois do episódio de 23 de Setembro de 99.
transportado paraa sede do circo Garcia, no interior do estado de São Paulo, e morreu 4 anos depois, em 2003, de causas não especificadas aos 12 anos de idade. Os chimpanzés em cativeiro podem viver até aos 45 anos, três mortos na madrugada do dia 2 de dezembro de 95. Um mais novo executado no porta-bagagens de um Fiat Pálio no dia 25 de Novembro de 2002.
Um chimpanzé embebedado e morto. Quatro defeso. Cinco vidas, todas ligadas com o mesmo homem. Edmundo Alves de Souza Neto, o animal do futebol brasileiro. E a pergunta que durante 27 anos ninguém do jornalismo desportivo brasileiro ousou fazer em público é por quê? Porque um homem que tinha talento, dinheiro, fama e família durante toda a vida adulta destruiu tanta gente que se aproximou dele.
Porque é que um pai ausente do bairro da Fonseca, que rezava todas as noites pelos filhos numa casa de três quartos, terminou enterrando um e vendo o outro escapar à cadeia durante 16 anos seguidos? por alguns factos que servem para ver o padrão completo. O Dr. Pedro Couto, pai da Joana Couto, reformado da cirurgia aos 62 anos, ainda hoje vive em 2026 na mesma casa de Botafogo, onde a filha única cresceu.
Tem 79 anos. A sua mulher, Cristina Couto, morreu vítima de cancro da mama em 2015. Nunca tiveram outro filho depois da Joana. O quarto da Joana Couto, na casa do Botafogo, mantém-se intacto desde 2 de Dezembro de 95. Os livros do colégio Santo Inácio em cima da mesa, a roupa pendurado no armário, o uniforme escolar passado, o telemóvel novo, presente do pai pelos 16 anos.
Ainda na mesinha de cabeceira, a dona Marlene Souza, mãe do Edmundo e do Luís Carlos, ainda hoje vive em 2026 numa casa modesta do bairro da Fonseca de Niterói. Tem 81 anos. O Edmundo comprou para ela uma casa maior na zona sul do Rio em 2003. A dona Marlene recusou-se a mudar. queria ficar perto do túmulo do Luís Carlos no cemitério do Maruí.
Visita o túmulo todos os domingos desde 2 Dezembro de 2002, 24 anos seguidos, sem faltar a um domingo. Leva flores frescas, limpa a Cruz de Madeira, fala com o mais novo durante aproximadamente 20 minutos. O próprio Edmundo Alves de Souza Neto, em 2026, tem 55 anos. tá aposentado do futebol desde 2011.
Trabalha como comentador desportivo da Rede Globo e da Band Esports. Se filiou no partido PSD em 2026 e vai ser candidato à deputado federal pelo estado do Rio de Janeiro nas eleições de outubro. Tem quatro filhos. O Edmundo Júnior, o do aniversário do Chimpanzé, tem 27 anos e trabalha em gestão desportiva.
O Alexandre, filho não reconhecido inicialmente com a modelo Cristina Mortágua, tem 32 anos e se assumiu homossexual em 2018. E no podcast Inteligência LTDA, de 5 de outubro de 2021, quando o jornalista Rogério Vilela perguntou ao animal se ainda pensava na Joana Couto, a menina de 16 anos do banco traseiro do Jeep Grand Cherokee, o Edmundo respondeu com uma frase curta que apareceu em todos os cortes virais do podcast nessa semana.
A frase do animal em cadeia nacional, transmitida em direto para aproximadamente 1 milhão de espectadores brasileiros, tinha 14 palavras. A frase foi: “Penso todos os dias. Não há um dia em que não pense naquela menina. Não há um dia em que não pense naquela menina. Mas pensar não é cumprir uma cadeia.
Pensar não é enterrar uma filha. Pensar não é pagar as consequências. Pensar durante os últimos 31 anos foi a única coisa que o Edmundo Alves de Souza Neto fez com respeito às três pessoas que matou numa madrugada de Dezembro de 95. Pensar, chorar em podcasts, pedir perdão em entrevistas, falar que quando morrer espera encontrar toda a gente do outro lado, mas nunca, nem uma única vez em 31 anos, cumprir mais de 37 horas de cadeia pelo que fez naquela madrugada.
Tem uma cruz de madeira no campo número 22 do cemitério do Maruí em Niterói, onde está sepultado o Luís Carlos Alves de Sousa. Tem um quarto intacto numa casa de Botafogo, onde o Dr. Pedro Couto cuida há 31 anos dos livros de colégio da filha única e tem uma mansão na Barra da Tijuca com um campo de futebol atrás, onde um dia de Setembro de 99 um chimpanzé do Circo Garcia desmaiou em cima dos joelhos do melhor melhor marcador do Campeonato Brasileiro.
Três lugares, três histórias, três tragédias e um único homem ligando todas. Cada ano, no 2. dezembro, a data aniversário da embate da Avenida Borges de Medeiros, o O Dr. Pedro Couto e a falecida mulher Cristina Couto costumavam ir no local exato do acidente. Dirigiam de Botafogo até ao número 560 da Avenida Borges de Medeiros.
Desciam do carro, colocavam um ramo de flores brancas em cima do asfalto e ficavam parados aproximadamente 15 minutos, olhando o local onde a filha única tinha faleceu às 4:22 da madrugada do dia 2 de Dezembro de 95. Desde a morte da Cristina Couto em 2015, o Dr. Pedro Couto vai sozinho. Continua a ir todos os 2 de dezembro, até hoje em 2026, 31 anos seguidos, sem faltar um, leva um ramo de flores brancas, fica 15 minutos parado em silêncio e volta a Botafogo.
O pequeno objeto prateado que o Edmundo deixou em cima da cruz de madeira do túmulo do Luís Carlos no cemitério do Marui, naquela manhã do dia 5 de janeiro de 2003, era uma medalha. Uma pequena medalha de prata com o escudo do Clube de Regatas Vasco da Gama gravado no centro. A medalha que o animal tinha ganho como artilheiro do Campeonato do Brasil de 99.
A medalha dos 29 golos, a medalha do recorde histórico que ia durar 23 anos, a única medalha que o animal do futebol brasileiro tinha prometido ao Luís Carlos quando os dois eram miúdos no bairro da Fonseca. Essa medalha ainda hoje está, em 2026, em cima da cruz de madeira do túmulo número 22 do cemitério do Maruí.
A dona Marlene limpa ela todos os domingos quando vai visitar o mais novo. O Edmundo não voltou a tocar nessa medalha em 23 anos. Há pais que não estavam presentes na vida dos filhos. Há irmãos que caíram em postos de onde ninguém os pôde resgatar. Tem filhas únicas de 16 anos que nunca tiveram um casamento em abril. Tem mães que rezam todos os domingos em cemitérios velhos do estado do Rio de Janeiro.
E há homens que cumpriram 37 horas de cadeia por três mortes, porque tinham os advogados certos, os amigos certos e a fama certa. Essa história não é sobre o animal do futebol brasileiro. Esta história é sobre todo o mundo que estava à volta do animal do futebol brasileiro durante os últimos 55 anos.
Uma mãe que enterrou um filho, um pai que perdeu uma filha, uma mulher que aguentou, um chimpanzé que não escolheu aparecer naquela festa e uma menina de 16 anos que só queria ir para a lagoa numa noite de sexta-feira em dezembro. E no final, o que sobra é uma medalha de prata em cima de uma cruz de madeira no cemitério do Marui e um quarto intacto em Botafogo, com o equipamento do colégio Santo Inácio pendurado no armário.
É isto que a fama do animal do futebol brasileiro deixou de herança. Não os golos, não os títulos e não os recordes. Uma medalha e um quarto que ninguém tocou em 31 anos. Se esta história fez se pensar em algum pai que perdeu um filho, em alguma mãe que enterrou um irmão ou em alguma família que esperou justiça e nunca chegou, envia este vídeo para essa pessoa nessa noite.
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