O Brasil conhece a face de Susana Vieira há 63 anos. É um rosto que atravessou a história da televisão, desde os primórdios da TV Tupi em 1962, passando pelo auge da hegemonia da Rede Globo, até a era frenética das redes sociais. Ela é a atriz que não conhece o ostracismo, a celebridade que não aceita o silêncio, a mulher que, aos 81 anos, insiste em viver como se a idade fosse apenas um detalhe irrelevante em uma narrativa que ela própria escreve. No entanto, existe uma distância abismal entre a Susana que o público consome como entretenimento e a Sônia Maria Vieira Gonçalves que sobreviveu a dores que derrubariam titãs.
Para entender Susana, é preciso despir-se da imagem da diva irreverente e olhar para a engenharia de uma sobrevivente. A sua trajetória não é linear; ela é feita de contrastes brutais. O mesmo palco que a consagrou em novelas inesquecíveis como Mulheres de Areia e Senhora do Destino também serviu de cenário para a exposição pública de suas crises pessoais.
A maternidade, em particular, é um ponto de fratura que ela expõe com uma honestidade quase desconcertante. Susana, sem rodeios ou defesas corporativas, admitiu aos 80 anos ter vivido em função da carreira, relegando o crescimento do filho, Rodrigo, a um plano secundário. Para uma sociedade que exige das mães o sacrifício total e a presença constante, essa declaração é um terremoto moral. Mas a história tem um desfecho que desafia o senso comum: a distância do passado deu lugar a uma cumplicidade inabalável no presente. Hoje, Rodrigo, aos 50 anos, é não apenas seu filho, mas o maior defensor público da liberdade da mãe, aplaudindo suas escolhas amorosas com uma leveza que poucas famílias brasileiras conseguiriam sustentar.
O comportamento de Susana no âmbito pessoal é, para muitos, um mistério indomável. Ela não se curva aos roteiros de “avó recatada” que a cultura impõe às mulheres na terceira idade. Seja beijando um advogado de 26 anos diante das câmeras, ou revelando ter encontrado um novo amor em um barco durante o próprio casamento do filho, ela ignora solenemente a censura social. É uma postura que irrita os conservadores e fascina os que clamam por autonomia, mas, acima de tudo, é uma demonstração de alguém que não pede desculpas por existir.
Contudo, nem tudo é hedonismo ou sucesso profissional. Há o silêncio. Um silêncio que ecoa mais alto que qualquer fala de personagem. Em 2008, o ex-marido de Susana, Marcelo Silva, foi encontrado morto em um apartamento, após um período turbulento de exposição midiática e denúncias sobre abuso de drogas. Sobre este capítulo, Susana Vieira traçou uma linha vermelha. Ela nunca elaborou detalhes, nunca vendeu o sofrimento em entrevistas e nunca permitiu que o sensacionalismo da época definisse o seu luto. Esse silêncio é, talvez, o ato mais profundo de autopreservação de uma mulher que teve cada detalhe de sua vida devassado pela imprensa brasileira.
Se o passado é marcado por sombras e polêmicas, o presente de Susana é um duelo constante com a própria biologia. O diagnóstico de leucemia linfocítica crônica, seguido por uma anemia hemolítica autoimune e complicações da Covid-19, colocou-a diante da sua própria mortalidade. Ao ouvir dos médicos que sua condição era incurável, sua reação não foi o luto antecipado, mas uma pergunta que sintetiza sua filosofia de vida: “Como que não tem cura?”. Não foi a pergunta de quem nega a ciência, mas de quem não reconhece o fim como uma possibilidade.
Ela passou três anos em quimioterapia enquanto continuava a trabalhar, a gravar e a se fazer presente. A sua “cura” não veio de milagres, mas de uma disciplina quase militar, herdada talvez do pai militar e da vida entre embaixadas na juventude. Ela mantém a rotina, a alimentação sem restrições, o trabalho constante e, fundamentalmente, uma paz que intriga até os especialistas que a acompanham.
Susana Vieira representa, hoje, uma anomalia cultural. Em uma indústria que descarta mulheres assim que elas perdem a juventude, ela ocupa o centro do palco não por piedade ou nostalgia, mas por uma pertinência implacável. Sua biografia, lançada recentemente, é o espelho de uma vida que se recusou a ser editada por terceiros.
Ao final de seis décadas, o que resta de Susana Vieira não é a imagem da estrela de novela. É a imagem de uma mulher que, após passar por traumas públicos, doenças incuráveis e o peso constante de ser uma figura nacional, decidiu que o seu roteiro é a única autoridade que ela obedece. Ela não é a celebridade que envelheceu bem; ela é a prova de que a liberdade, quando vivida sem concessões, é a única coisa que realmente resiste ao tempo.
Enquanto o Brasil debate seus beijos, seus papéis e seus silêncios, Susana segue, impassível, trabalhando. Pois, como ela mesma resumiu, seu maior desejo sempre foi, e continua sendo, apenas ser “empregada” e manter seu lugar na mesa. Uma ambição simples para uma vida complexa, e talvez esse seja o seu maior e mais guardado segredo.