Mas o caminho até o clube não foi simples. Num teste para as camadas jovens, Ronaldinho enfrentou outro obstáculo. Carlos Alberto, um dirigente do Grêmio conhecido pela sua arrogância e preferência por jogadores de famílias mais abastadas. Carlos Alberto viu o futebol como um negócio e para ele, um miúdo de favela como Ronaldinho era um risco, e não um investimento.
“Ele é habilidoso, mas não tem físico. Não vai aguentar o profissional”, disse a um assistente, sem se importar que Ronaldinho estivesse por perto a ouvir tudo. O menino, com o coração apertado, decidiu que aquelas palavras seriam apenas mais um desafio a superar. O teste final para ingressar no Grêmio aconteceu num jogo contra um time rival, o Internacional, num clássico das camadas jovens que encheram as bancadas do estádio olímpico.
Carlos Alberto, sentado na tribuna, já tinha escolhido o seu favorito, um avançado corpulento, filho de um empresário local, que acreditava ser a cara do Grêmio. Ronaldinho, escalado como reserva por pressão do dirigente, entrou no segundo tempo, com o jogo empatado e a multidão inquieta. O que aconteceu em campo foi pura magia.
Em a sua primeira jogada, apanhou a bola no meio-coampo, driblou dois adversários com um toque subtil e lançou um passe milimétrico que resultou no golo da virada. Minutos depois, ele próprio marcou com um remate de fora da área que explodiu no ângulo, deixando o guarda-redes sem reação.
A claque, que até então mal conhecia o miúdo, gritava o seu nome: “Ronaldo, Ronaldo.” Carlos Alberto, com o rosto vermelho de embaraço, viu o seu favorito ser ofuscado por aquele menino que subestimara. No balneário, o treinador principal do Grêmio, um homem chamado Luís Felipe, chamou Ronaldinho à parte. “Você é especial, miúdo.
Não deixe que ninguém lhe dizer o contrário”, disse com um aperto de mão que selou o futuro do jovem. A vitória no clássico foi o passaporte de Ronaldinho para a equipa de base do Grêmio, mas a arrogância de Carlos Alberto teve consequências. O dirigente, furioso por ter sido desmentido pelo talento de um miúdo que ele rejeitara, tentou limitar o tempo de jogo dos Ronaldinho nas partidas seguintes, alegando que precisava de proteger a hierarquia da equipa.
Ele favorecia o seu protegido, o atacante que não tinha sequer metade do brilho de Ronaldinho, e dava ordens aos técnicos para manterem o menino de Ruben Berta no banco. Mas o futebol, como a vida, tem uma forma de punir quem tenta apagar a luz dos outros. Durante um torneio estadual com olheiros de clubes europeus nas bancadas, o O técnico Luís Felipe ignorou as ordens de Carlos Alberto e colocou Ronaldinho como titular. O miúdo não desiludiu.
Em uma partida transmitida em direto para todo o Rio Grande do Sul, marcou três golos, fez duas assistências e encantou todos com uma jogada em que passou a bola por baixo das pernas de um defesa antes de finalizar com um toque de classe. A multidão explodiu e os os olheiros anotaram o seu nome com letras garrafais.
Carlos Alberto, pressionado pela direcção do Grêmio, que agora via em Ronaldinho uma mina de ouro, foi afastado das suas funções. A sua tentativa de abafar o talento do miúdo acabou sendo o Estopim para a sua própria queda. Entretanto, Ronaldinho começava a construir a sua lenda. Ele assinou o seu primeiro contrato profissional com o Grêmio aos 17 anos.
Um momento de orgulho não só para ele, mas para toda a família. Miguelina chorou ao ver o filho com a camisola tricolor e João, mesmo debilitado por problemas de saúde, sorriu como se visse os seus próprios sonhos se realizarem. Roberto, agora um jogador profissional, abraçou o irmão e disse: “Vais ser maior do que todos os nós, maninho”.
Nos campos do Grêmio, Ronaldinho continuou a encantar, com dribles que pareciam desafiar a gravidade e uma alegria que contagiava até os adversários. Mas o que ninguém esperava era que aquele torneio estadual seria apenas o início. Os olheiros europeus, impressionados com o que viram, começaram a enviar relatórios para clubes como o Paris Saint-Germain e o Barcelona.
O nome de Ronaldinho Gaúcho começava a ecoar para além das fronteiras do O Brasil, transportando consigo a promessa de um futebol que não era apenas competição, mas arte, celebração e alma. A trajetória de Ronaldinho até àquele momento não era apenas a história de um miúdo talentoso. Era a prova de que o talento, quando aliado à determinação e à alegria, pode superar qualquer barreira.
O senhor Zé, o treinador que se riu dele e Carlos Alberto, o dirigente que tentou apagá-lo, eram apenas sombras no caminho de um menino que transformava cada obstáculo numa chance de brilhar. Pensaram que podiam limitar Ronaldinho, mas sem saberem abriram as portas para que este conquistasse o mundo. Cada drible, cada golo, cada sorriso era uma resposta aos que duvidaram, uma afirmação de que o futebol brasileiro, com a sua ginga e o seu alma, não podia ser contido.
E assim, das ruas de Porto Alegre ao brilho dos holofotes, Ronaldinho começava a escrever uma história que mudasse o desporto para sempre. O sol brilhava alto no céu do Rio de Janeiro, tingindo de dourado as areias de Copacabana e o relvado do Maracanã, onde o Brasil inteiro se reunia para celebrar a sua paixão maior, o futebol Ronaldinho Gaúcho.
Agora, uma estrela global, já já não era apenas o menino sorridente de Porto Alegre. Ele tinha conquistado a A Europa com a sua magia nos campos do Paris Saint-Germain e do Barcelona, onde transformava cada partida num espetáculo de arte, dribles e alegria. Os seus passes de trivela, os seus golos impossíveis e, acima de tudo, o seu sorriso inabalável tinham redefinido o que significava ser um craque.
Mas para os brasileiros, Ronaldinho era mais do que um jogador. Ele era a personificação da ginga, da alma do futebol que pulsa nas veias de um país que respira o desporto. E agora, de regresso ao Brasil para um torneio internacional de clubes, estava pronto para reacender a chama do futebol na sua terra natal.
O torneio chamado Taça das Nações do Sul reunia gigantes sul-americanos e europeus. E o Maracanã estava lotado com multidões cantando, bandeiras a ondular e uma energia que parecia fazer com que o estádio pulsar. Ronaldinho, vestindo a camisola do O Flamengo, o seu clube temporário para o acontecimento, caminhava pelo túnel com a leveza de quem sabia que o campo era o seu palco e a bola, o seu parceiro de dança, mas nem todos viam Ronaldinho com admiração.
Entre os adversários estava Diego Salazar, um defesa argentino veterano, conhecido pela sua ferocidade em campo e a sua língua afiada fora dele. Salazar, com quase 20 anos de carreira, era uma lenda no seu país, famoso por neutralizar os atacantes com marcações implacáveis e jogadas duras que roçavam o limite do permitido. Ele se considerava o último bastião de um futebol a sério, onde a força e a disciplina superavam aquilo a que chamava de firulas.
Para Salazar, Ronaldinho não passava de um palhaço de circo, um jogador que fazia graça para os adeptos, mas que, na sua visão carecia de seriedade. Dias antes do torneio, numa entrevista televisiva, Salazar não poupou palavras. Ronaldinho, é um showman, não um jogador de futebol. No meu tempo, estes gajos não duravam 5 minutos contra uma defesa a sério.
Vou mostrar-lhe como se joga de homem”, disse com um sorriso sarcástico que irritou até os jornalistas brasileiros presentes. As palavras chegaram aos ouvidos de Ronaldinho, que fiel a si mesmo, apenas sorriu e respondeu com uma frase que ecoaria: “No campo, a bola fala por mim.” Mas por dentro, sabia que aquele jogo seria mais do que uma partida.
Seria uma hipótese de calar a arrogância com o que fazia melhor, jogar com alegria. O torneio avançava e o Flamengo de Ronaldinho enfrentava adversários cada vez mais fortes. Em cada partida, ele encantava. Num jogo contra um clube chileno, driblou três defesas com um elástico seguido de um toque de calcanhar, finalizando com um pontapé colocado que levantou a multidão.
Contra uma equipa uruguaia. marcou um golo de falta com uma curva tão perfeita que o guarda-redes nem se mexeu, paralisado pela beleza do lance, a imprensa internacional já o chamava de maestro do Maracanã. E os adeptos brasileiros sentiam-se orgulhosos de ver o seu filho pródigo a brilhar em casa.
Mas o verdadeiro teste viria na meia-final contra o Boca Juniors de Salazar. O confronto era mais do que um jogo, era um embate de filosofias. De um lado, Ronaldinho, com a sua leveza, criatividade e amor pelo jogo. Do outro, Salazar, com o seu rigidez, força e desdém por tudo o que não se encaixasse na sua visão antiquada do futebol.
A tensão era palpável e o Maracanã, com mais de 70.000 mil vozes, parecia um caldeirão pronto a explodir. Antes do jogo, nos balneários, Salazar continuou a sua campanha de provocações. Durante o aquecimento, ele passou por Ronaldinho e murmurou alto o suficiente para ser ouvido. Prepare-se, palhaço. Hoje vai aprender a respeitar.
Ronaldinho, como sempre, apenas sorriu, abanando a cabeça como quem sabe que as palavras não ganham jogos. Mas os seus companheiros de Flamengo indignados queriam reagir. “Deixa-o falar, malta”, disse Ronaldinho. “Com calma. No campo a gente responde.” E foi exatamente o que ele fez. Quando o apito inicial suou, o jogo começou a um ritmo frenético.
O Boca Juniors, treinado para pressionar, tentou impor o seu estilo físico e Salazar marcou Ronaldinho de perto, usando o corpo para o empurrar e os braços para o desequilibrar. Numa das primeiras jogadas, Salazar deu um carrinho que raspou na canela de Ronaldinho, deixando o brasileiro no chão. O árbitro assinalou falta, mas não deu cartão.
E Salazar, com um sorriso provocador, estendeu a mão para ajudar Ronaldinho a levantar-se, apenas para puxar lá para trás no último segundo, rindo. Os adeptos vaiaram e os jogadores do Flamengo avançaram, prontos para confrontá-lo, mas Ronaldinho conteve-os. “Calma, calma, ele quer isto. Vamos jogar”, disse com os olhos a brilhar de determinação.
A partir desse momento, Ronaldinho transformou o jogo no seu palco pessoal. Na jogada seguinte, ele recebeu a bola na ala esquerda com Salazar colado a ele. Com um movimento rápido, rodou o corpo, passou a bola por entre as pernas do defesa e correu para o espaço livre, deixando Salazar desequilibrado e os adeptos em êxtase. O drible, conhecido como lambreta foi apenas o início.
Minutos depois, num contra-ataque, Ronaldinho driblou dois marcadores com toques curtos e precisos, como se estivesse a dançar, e deu um passe de calcanhar que encontrou um companheiro livre na área. O golo saiu e o Maracanã explodiu. Salazar, furioso, começou a perder a compostura, gritando com os seus colegas de defesa e tentando recuperar o controlo.
Mas Ronaldinho estava apenas a começar perto do fim do primeiro tempo. Ele cobrou um canto com efeito e a bola caiu nos pés de um avançado do Flamengo que marcou o segundo golo. No intervalo, com o Flamengo a vencer por 2-0, Salazar entrou no balneário do Boca Juniors, vociferando, culpando todos menos a si mesmo.
Entretanto, Ronaldinho, no vestiário oposto, ria com os companheiros, mantendo a leveza que o definia. No segundo tempo, o Boca Juniors voltou mais agressivo e Salazar intensificou as suas provocações. Numa disputa de bola, deu um empurrão disfarçado em Ronaldinho, que caiu perto da linha lateral. O árbitro novamente deixou passar e Salazar aproximou-se, sussurrando.
Levanta-te, palhaço, ou quer chorar? Ronaldinho levantou-se lentamente, com o mesmo sorriso de sempre, e respondeu com um olhar que dizia tudo. O jogo ainda não acabou e surgiu então o momento que entraria para a história. Aos 30 minutos do segundo tempo, com o jogo ainda 2-0, Ronaldinho recebeu a bola no meio-coampo.
Salazar avançou para intercetá-lo, confiante de que poderia desarmá-lo com força, mas Ronaldinho, com uma finta de corpo, fez Salazar passar direto, como se o defesa fosse um cone de treino. Em seguida, driblou outro defensor com um toque de lado e avançou em direção à baliza. A torcida, sentindo que algo mágico estava para vir, ficou de pé.
Perto da área, Ronaldinho defrontou o último defesa e o guarda-redes, que saía desesperado. Com uma calma surreal, ele deu um toque subtil, encobrindo o guarda-redes com uma cavadinha perfeita. A bola flutuava no ar como se estivesse em câmara lenta e caiu suavemente no fundo da rede. O Maracanã veio abaixo.
Ronaldinho correu para a torcida, apontando para o céu e dançando, enquanto os narradores gritavam: “Que pintura, que génio! Ronaldinho Gaúcho é o rei do futebol. O golo foi mais do que um lance de génio, foi uma resposta definitiva à arrogância de Salazar. O defesa, humilhado, ficou parado, olhando para o relvado enquanto os seus companheiros tentavam consolá-lo.
O Boca Juniors ainda tentou reagir, mas o Flamengo, inspirado por Ronaldinho, segurou o resultado e avançou para a final. Após o jogo, a imprensa cercou Ronaldinho, que com a sua humildade característica, desviou os holofotes. O importante foi o equipa vencer. A bola é nossa amiga e hoje ela quis dançar comigo”, disse a rir.
Salazar, por seu lado, recusou entrevistas, saindo do estádio em silêncio, com o peso da derrota nos ombros. Nos dias seguintes, a imprensa argentina foi implacável, chamando o jogo de alição de Ronaldinho e questionando a carreira de Salazar. Ele, que planeava se aposentar como uma lenda, viu a sua imagem manchada.
Semanas depois, numa entrevista forçada, Salazar pediu desculpas públicas, admitindo que subestimara Ronaldinho e que aprendera a respeitar o seu estilo. Mas o mal estava feito. A sua carreira nunca recuperou o brilho. O impacto desse jogo foi para além do Maracanã. A exibição de Ronaldinho reaccendeu o debate sobre o que o futebol deve ser.
No Brasil, onde o desporto sempre foi um misto de competição e celebração, muitos treinadores e dirigentes ainda defendiam um estilo mais tático e defensivo inspirado pelo futebol europeu. Ronaldinho, com o seu performance, lembrou a todos que a essência do futebol brasileiro estava na alegria, na criatividade e na liberdade. Clubes de todo o país começaram a investir mais nas suas categorias de base, procurando novos Ronaldinhos nas ruas e bairros de lata.
A Confederação Brasileira de Futebol, CBF, inspirada para o torneio, convidou Ronaldinho para ser embaixador de um programa nacional de desenvolvimento de jovens talentos denominado Joga Bonito. O programa incentivava os treinadores a valorizar a técnica e a expressão individual, em vez de priorizar apenas o físico ou a disciplina tática.
Ronaldinho, com o seu humildade, abraçou a causa, visitando escolinhas de futebol nas comunidades carentes e partilhando a sua história. “O futebol salvou-me e agora quero que ele salve outros rapazes”, disse em um acontecimento com lágrimas nos olhos. Entretanto, a vitória sobre Salazar tornou-se um símbolo. Os adeptos criaram memes e vídeos que se tornaram virais, mostrando o drible e a cavadinha de Ronaldinho com legendas como A Resposta da Jinga e Salazar aprendeu a respeitar.
O jogo foi repetido inúmeras vezes e a cavadinha entrou para a galeria dos momentos mais icónicos do futebol brasileiro. Para Ronaldinho, porém, o verdadeiro triunfo não estava na humilhação do adversário, mas naquilo que ele deixara no coração dos adeptos. Em uma noite tranquila, após o torneio, ele estava num barzinho no rio, rodeado por amigos e fãs, quando um rapaz de uns 12 anos aproximou-se com uma bola surrada.
“Tio, ensina-me a ensinar a cavadinha?”, perguntou o menino com um sorriso tão brilhante como de Ronaldinho. Ele riu-se, pegou na bola e passou horas no calçadão de Copacabana, brincando com o miúdo e outros que se juntaram sob as luzes da cidade. Naquele momento, Ronaldinho não era uma estrela, era apenas um brasileiro apaixonado pelo futebol, partilhando a sua alegria.
A história daquele torneio não foi apenas sobre um golo ou uma vitória, foi sobre como Ronaldinho, com a sua bola e o seu sorriso, desafiou a arrogância e a redefiniu o desporto. Salazar pensou que poderia apagar o brilho de Ronaldinho, mas só conseguiu torná-lo mais forte. Ronaldinho não precisou de erguer a voz nem responder às provocações com raiva.
Ele respondeu com o que sabia fazer de melhor, transformando o futebol num celebração da vida. A sua história é um lembrete de que no Brasil o futebol é mais do que um jogo. É uma forma de resistir, de sonhar e de mostrar ao mundo que a verdadeira força está na alegria, na humildade e na coragem de ser quem se é.
E assim, a cada drible, Ronaldinho Gaúcho continuou a escrever a sua lenda, não só como o maior jogador da sua geração, mas como o homem que fez o mundo inteiro sorrir com uma bola nos pés. M.