A Verdadeira História do CORPUS CHRISTI: Origem e Significado na Bíblia

Existe uma festa que atravessa quase oito séculos de história cristã, que nasceu de uma visão mística, foi confirmada por um milagre de sangue, foi oficializada por um papa que tinha guardado um segredo  há décadas e cujo hino foi composto pelo maior teólogo da Idade  Média em noites de trabalho intenso e lágrimas.

Essa festa é o Corpus Cristória  que vai ouvir agora é muito mais profunda,  muito mais rica e muito mais surpreendente do que a maioria  das pessoas imagina. Comecemos pelo milagre em si, mas pelo mundo em que este milagre aconteceu. Porque sem compreender aquele mundo é impossível compreender  porque o Corpus Cristário.

Estamos no século XI. A Europa é um  continente profundamente marcado pela religião, mas que não significa que todos acreditam nas mesmas coisas. Pelo  contrário, este é um dos períodos mais agitados da história do pensamento cristão, com teologias disputadas, movimentos heréticos na  ascensão e a Igreja Católica a travar batalhas doutrinais em várias frentes ao  mesmo tempo.

 Entre as questões mais debatidas da época, uma se destacava  com particular força. O que acontece exatamente durante a missa? No momento em que o sacerdote consagra o  pão e o vinho, a igreja ensinava e continua a ensinar a doutrina da  transubstanciação, ou seja, a crença de que o pão e o vinho transformam-se real e substancialmente no  corpo e no sangue de Jesus Cristo, embora as aparências exteriores permaneçam as mesmas.

  Este ensinamento havia sido solenemente definido pelo quarto concílio de Latrão em 1215. apenas algumas décadas antes dos acontecimentos que vamos narrar. Mas a definição oficial não significou o fim das dúvidas.  Muitos fiéis e até sacerdotes tinham dificuldade em aceitar  que aquilo que parecia cheirava e tinha gosto de pão fosse de facto o próprio corpo de Cristo.

 Alguns hereges, como os cátaros e os valdenses, rejeitavam completamente esta doutrina. Os cátaros, em particular eram um movimento muito influente no sul de França e no norte da Itália e acreditavam que toda a matéria era intrinsecamente má, o que tornava impossível para eles  aceitarem que Deus pudesse estar presente num pedaço de pão.

Rejeitavam não apenas a Eucaristia, mas a encarnação de Cristo,  o batismo com água e praticamente toda a sacramentologia cristã. A igreja havia travado contra eles, a cruzada a obigence e fundado a Inquisição, precisamente  para combater a sua influência. Os valdenses, por sua vez, eram um movimento mais assético que questionava a autoridade clerical  e a necessidade dos sacramentos.

Outros simplesmente  viviam com a dúvida em silêncio, sem saber como resolvê-la. Não era, pois, um mundo de fé simples e unânime. Era um mundo em que a fé estava sob pressão,  em que as questões mais profundas sobre a natureza de Cristo e dos sacramentos não tinham respostas fáceis  e em que a igreja precisava de afirmar com clareza aquilo em que acreditava.

  É neste contexto de fé fervorosa, misturada com dúvidas  profundas que a nossa história começa. Antes de falarmos do milagre de Bolsena, precisamos de recuar ainda mais no tempo até uma freira de nome Juliana, que nasceu por volta do ano 1193 na região de Liege, no atual território  da Bélgica.

 A Juliana perdeu os pais ainda criança e foi entregue ainda menina ao cuidado das agostinianas freiras,  que habitavam um mosteiro chamado Mont Cornion, junto à cidade de Liege. Aí foi criada, educada  e formada espiritualmente. Desde cedo demonstrou uma piedade eucarística fora do comum, passando longas horas em oração diante do Santíssimo Sacramento.

Quando tinha cerca de 16 anos, portanto, por volta de 1209, Juliana teve a primeira de uma série de visões que iriam mudar  a história da Igreja. Nesta visão, ela viu a lua cheia, brilhante e perfeita, mas com uma mancha escura num dos lados. A imagem era bela, mas perturbadora. Ela ficou intrigada com aquilo e passou anos em oração tentando  compreender o que significava.

Foram anos de discernimento e de silêncio. Juliana não era do tipo que sai proclamando visões aos quatro ventos. Era  discreta, humilde e tinha medo de enganar alguém ou de ser enganada.  Só depois de muita oração e de consultar pessoas de confiança, é que ela chegou à interpretação que acreditava  ser correta.

A lua cheia representava o ciclo litúrgico da igreja com todas as suas festas e celebrações. A mancha escura, porém, representava uma ausência. Faltava ao calendário da igreja uma festa dedicada exclusivamente  à glória da eucaristia. Isso pode parecer estranho à primeira vista.

 Afinal, já não existia a quinta-feira santa que comemora a instituição da  Eucaristia por Jesus na última ceia. Sim, existia. Mas Juliana percebia, e isso era a essência da sua visão, que a quinta-feira santa  estava envolta em tristeza, porque era parte da semana santa que culmina com a paixão e a  morte de Cristo.

 O que Cristo queria, segundo a visão de Juliana, era uma festa alegre, solene, cheia de louvor, dedicada especificamente a celebrar a sua presença real na Eucaristia. sem o peso da paixão. Juliana guardou essa visão por quase  duas décadas, 20 anos. Ela orava, discutia com suas companheiras mais íntimas e hesitava em levar aquilo às autoridades eclesiásticas.

Só por volta de 1230, já com mais de 30 anos, ela encontrou coragem para compartilhar sua experiência com alguém de fora do convento, um sacerdote e teólogo de Liege chamado Thago Pantaleon. Este homem, inteligente e espiritualmente atento, ouviu Juliana com seriedade, acreditou na autenticidade da sua experiência e começou a ajudá-la a propagar a ideia de uma nova festa eucarística.

 Com o apoio de Thiago Pantaleon e de outros clérigos simpáticos à causa, Juliana conseguiu que o bispo de Liege, Roberto de Torote, aprovasse localmente a celebração de uma festa em honra ao corpo de Cristo, que passou a ser celebrada na diocese de Liege a partir de 1246. Era uma celebração local, modesta, sem reconhecimento universal, mas era o começo.

 Contudo, Juliana não viveria para ver sua visão abraçada pela igreja inteira. Ela enfrentou oposição dentro do próprio mosteiro, foi forçada a abandonar Moncornion.  Passou anos peregrando e buscando abrigo em diferentes conventos e comunidades religiosas. O priorado de Moncornion ficou dividido entre os que a apoiavam e os que a viam com desconfiança, e os adversários conseguiram eventualmente afastá-la.

 Ela nunca mais voltou para casa. Viveu uma vida de sofrimento, incompreensão e exílio. Morreu em 1258 na abadia de Felville, sem saber que em breve a festa que ela havia sonhado se tornaria uma das celebrações mais  importantes de toda a cristandade. A igreja a canonizou em 1869. Seu dia é celebrado em 6 de abril e aqui a história toma um dos giros mais surpreendentes  que a providência já nos apresentou.

 Lembra de Thiago Pantaleon, o sacerdote que ouviu Juliana e acreditou nela? Pois bem, o tempo passou e Tiago Pantaleon construiu uma carreira eclesiástica notável. Foi Arsedago em Liege, depois bispo de Verdã e depois patriarca de Jerusalém. Em 1261, num dos maiores azares ou providências da história da igreja, Tiago Pantaleon foi eleito papa.

 tomou o nome de Urbano Pense nisto. O único homem vivo que sabia em profundidade da visão de Juliana de Liege, o único que tinha ouvido dela pessoalmente a mensagem de que Cristo desejava uma festa especial dedicada à Eucaristia, esse homem acabou de sentar na cadeira de Pedro. Era como se as peças de um quebra-cabeça enorme, espalhadas por décadas, começassem finalmente a se encaixar.

Mas Urbano 4 estava em Orvieto, uma cidade medieval assentada no topo de uma rocha de tufa nabria italiana, governando uma igreja que enfrentava desafios imensos por todos os lados. E então, no ano de 1263, chegou a notícia de um milagre ocorrido a menos de 100 km dali, numa pequena cidade chamada Bolsena.

 Para entender o milagre de Bolsena, precisamos conhecer um homem chamado Pedro, sacerdote originário de Praga,  na Boia, região que corresponde hoje à República Checa. Pedro era um homem de fé, sem dúvida, mas a dúvida o atormentava. Especificamente,  ele lutava com a questão da presença real de Cristo na Eucaristia.

 Toda vez que ele levantava a hóstia durante a missa, uma voz dentro dele perguntava: “É realmente Cristo que está aqui? O pão parece pão. Tem textura de pão, cheiro de pão, gosto de pão. Como posso crer  que é o corpo de Cristo? Esse tipo de dúvida, que poderíamos chamar de crise de fé eucarística, não era incomum na época.

 Muitos sacerdotes a vivenciavam em silêncio, envergonhados de admitir que pregavam uma verdade que lhes custava acreditar. Pedro, no entanto, decidiu fazer algo a respeito. Resolveu empreender uma peregrinação a Roma, aos túmulos dos apóstolos Pedro e Paulo, buscando graça divina para superar suas dúvidas. As peregrinações medievais eram empreendimentos sérios.

 Não havia trens nem estradas pavimentadas. O peregrino andava a pé ou a cavalo, enfrentava clima, bandidos, doenças e exaustão. Mas era também um tempo de profunda oração e interioridade,  um tempo em que a alma ficava exposta sem as distrações da vida cotidiana. Peregrinar era, no fundo, colocar o corpo em movimento para que a alma pudesse seguir junto.

 Uma forma de oração encarnada. Na sua jornada de praga para Roma. Pedro passou pela cidade de Bolsena e ali decidiu parar para descansar e celebrar uma missa. Bolsena é uma pequena cidade às margens de um lago vulcânico. O lago de Bolsena, o maior lago vulcânico da Europa. O lugar tem uma beleza particular. A água é escura e profunda.

Os montes ao redor têm um ar de mistério e a cidade guarda séculos de história  religiosa. O que tornava Bolsena, especialmente sagrada para os cristãos medievais era a devoção à Santa Cristina, uma mártir que a tradição  situa no século ter ou quarto. Cristina nasceu em Bolsena, filha de um funcionário romano de alta  posição, um magistrado ou governador local que era pagão e muito devoto aos deuses romanos.

Segundo a tradição agográfica, Cristina converteu-se ao cristianismo ainda muito jovem, provavelmente influenciada por escravos ou servas cristãs da casa de seu pai. Quando seu pai descobriu a conversão,  ficou furioso. Não era apenas uma questão religiosa. A apostasia dos deuses romanos podia ter  consequências políticas sérias para a família.

 Ele tentou dissuadi-la, depois ameaçou e finalmente ordenou que ela fosse torturada. O que se seguiu, de acordo com a tradição, é uma sequência impressionante de tentativas de martírio que fracassaram diante de intervenções milagrosas. Cristina foi açoitada. Seus algozes ficaram paralisados. Tentaram jogá-la numa fornalha  e ela saiu ilesa.

 Tentaram jogá-la numa panela com óleo fervente e ela saiu sorrindo. Seu próprio pai mandou que lhe cortassem as mãos e ela teria usado os próprios pedaços de carne para jogar nas estátuas dos deuses pagãos, dizendo que eles que comessem aquilo, já que eram eles que exigiam sacrifícios. A tentativa que mais importa para a nossa história foi a seguinte.

 Vendo que nada conseguia matar Cristina, seu pai ordenou que lhe amarrassem uma pedra pesada ao corpo e a jogassem dentro do lago de Bolsena. Os soldados fizeram isso. Cristina afundou. Mas então, segundo a tradição, aconteceu o milagre. A pedra flutuou, trazendo Cristina à superfície, onde ela caminhou sobre as águas, sustentada pela pedra, com Jesus Cristo e os anjos ao seu lado.

 As pegadas  de Cristina sobre essa pedra teriam ficado marcadas e essa pedra, com as  marcas dos pés de Santa Cristina tornou-se uma das relíquias mais veneradas de Bolsena.  Ela é conservada até hoje na basílica de Santa Cristina, na cidade. O pai de Cristina, ao ver o milagre, teria morrido de choque no mesmo instante.

Outros governadores e juízes que a julgaram depois tiveram fins igualmente  miseráveis. Cristina finalmente morreu mártir. Alguns dizem que  por flechas, outros que por uma espada, mas apenas quando Deus permitiu. Ela passou a ser chamada de a santa dos infortúnios, porque sua intercessão era buscada por pessoas que viviam em situações desesperadas, sem saída aparente.

Era essa a santa a  quem Pedro de Praga quis pedir intercessão antes de continuar sua jornada. Era o ano de 1263. Pedro se preparou para celebrar a missa na Basílica de Santa Cristina com o coração partido entre a fé e a dúvida. Ele rezou antes de começar,  pedindo à santa que intercedesse por ele.

 Vestiu as vestes litúrgicas, colocou  o corporal, um pano quadrado de linho branco, sobre o altar e iniciou a celebração. A missa medieval era celebrada em latim,  com o sacerdote voltado para o altar, de costas para os fiéis. Era uma liturgia solene e repetida, com gestos precisos. e palavras que o sacerdote conhecia de cor.

 Pedro estava ali como tantas outras vezes. Mas quando chegou o momento da consagração, quando ele pronunciou as palavras que a igreja acreditava transformar o pão em corpo de Cristo, enincorpus meum, isto é  o meu corpo. Algo aconteceu. Enquanto Pedro partia à hóstia consagrada, sangue começou a jorrar. Não um pingo, não uma mancha vaga.

 Sangue vermelho, vivo, escorrendo das mãos de Pedro, pingando no corporal branco, espalhando-se pelo linho com um padrão que os presentes logo perceberiam ser algo além do acidental. Pedro ficou paralisado. Os fiéis que estavam na missa e eram pessoas comuns da cidade, não teólogos nem religiosos, viram o que estava acontecendo.

Há relatos de que alguns gritaram, outros caíram de joelhos, outros simplesmente ficaram mudos de espanto. Pedro tentou continuar, mas não conseguia.  estava em choque. Com as mãos ensanguentadas, o corporal manchado à sua frente. Ele cuidadosamente dobrou o corporal de modo a cobrir as  manchas de sangue e, cheio de lágrimas, deixou o altar e foi até a sacristia.

No caminho, gotas de sangue caíram nos degraus de pedra. A celebração não foi terminada naquele  momento. Pedro pediu que outro sacerdote assumisse. Mas o que ficou no altar foi a hóstia ensanguentada. O corporal manchado e uma comunidade de fiéis absolutamente abalada. A notícia se espalhou pela cidade com a velocidade que apenas os milagres têm.

 Logo, toda a bolsena sabia. O bispo local foi chamado.  Vieram outros sacerdotes. Todos examinaram o corporal  e confirmaram: “O sangue era real. O linho estava manchado de uma forma que ninguém sabia explicar. Naturalmente, havia um padrão nas manchas que os observadores não conseguiam ignorar. O corporal foi recolhido com a máxima reverência e guardado.

 E Pedro, transtornado e ao mesmo tempo transformado, porque sua dúvida havia sido respondida de uma forma que nunca imaginara, partiu imediatamente para Orvieto, onde o papa Urbano estava residindo. Antes de prosseguirmos, vale um parêntese  importante. As relíquias do milagre de Bolsena são físicas e ainda existem.

 O corporal manchado de  sangue está guardado na catedral de Orvieto, chamada Duomo de Orvieto, e é exibido  em ocasiões especiais. As pedras dos degraus da basílica de Santa Cristina, sobre as quais gotejou o sangue da hóstia quando Pedro desceu em direção à sacristia, também foram preservadas  e estão na cripta da basílica.

Análises realizadas ao longo dos séculos confirmaram que as manchas são de sangue de tipo AB,  o mesmo identificado em outras relíquias eucarísticas ao redor do mundo. Coincidência que teólogos e cientistas católicos apontam como significativa. A igreja não exige que os fiéis acreditem nos milagres eucarísticos como verdade de fé obrigatória.

 Eles são sinais, não dogmas. Mas as evidências físicas persistem há mais de 750 anos. Existem hoje, catalogados ao redor do mundo, mais de  150 milagres eucarísticos oficialmente reconhecidos pela igreja. O de Bolsena é um dos mais antigos e o que mais diretamente influenciou a história que estamos contando.

 Quando Pedro chegou a Orvieto e pediu audiência com o Papa Urbano,  ele provavelmente esperava ser recebido com ceticismo. final, um sacerdote desconhecido vindo da Boia, que havia passado anos lutando com dúvidas  sobre a Eucaristia, chegar e anunciar que vira uma hóstia sangrar nas suas mãos, porque o Papa haveria de acreditar.

  Mas Urbano qu era Tiago Pantaleon. Era o homem que havia ouvido Juliana de Liege décadas antes. Era o homem que havia guardado em seu coração a visão da freira, que a igreja precisava de uma festa dedicada à eucaristia.  E aqui estava um sacerdote trazendo um sinal de sangue que parecia confirmar  exatamente aquilo.

O Papa ouviu Pedro atentamente. Não se sabe a extensão exata do encontro, mas as fontes concordam que Urbano 4 ficou profundamente comovido  e convencido da seriedade do relato. Ele não se precipitou, porém antes de agir mandou verificar. Urbano convocou dois  dos maiores intelectos da cristandade de então, Frei Tomás de Aquino, da Ordem dos Pregadores, os dominicanos, e Frei Boaventura da Bagnorégio,  da Ordem dos Frades Menores, os franciscanos.

A escolha não era aleatória. Tomás de Aquino e Boaventura eram os dois maiores teólogos vivos da época, rivais no estilo, mas profundos em santidade. Tomás  era o teólogo sistemático por excelência, uma mente analítica capaz de organizar verdades complexas com precisão cirúrgica. Boaventura era mais inclinado ao misticismo e à espiritualidade afetiva, embora também fosse um filósofo rigoroso.

 Os dois tinham estudado em Paris no mesmo período sobres comuns. Conheciam-se, respeitavam-se e representavam as duas grandes escolas do pensamento cristão medieval, o tomismo aristotélico  e o agostinianismo franciscano. Ambos foram enviados à Bolsena para examinar as relíquias  e interrogar as testemunhas do milagre.

 A investigação foi minuciosa. Eles examinaram o corporal,  entrevistaram os fiéis que estavam presentes na missa de Pedro. Inspecionaram  as pedras dos degraus com as manchas de sangue. Consultaram o  pároco e o bispo local. Fizeram as perguntas que qualquer investigação séria deve fazer.

 Qual é a situação mental do suposto vidente? Há sinais de fraude ou manipulação? As testemunhas são credíveis? As evidências físicas são coerentes com o relato? Ao final, tanto Tomás quanto Boaventura concluíram que não havia explicação natural para o fenômeno. O milagre era autêntico. As manchas de sangue no corporal eram reais.

 As circunstâncias do sacerdote Pedro, um homem em crise  de fé, que não não tinha qualquer interesse em fabricar um milagre, antes, pelo contrário, tornavam o relato particularmente credível. Tomás de Aquino ficou especialmente impressionado. Ele já tinha escrito extensamente sobre a Eucaristia, defendendo com rigor filosófico a doutrina da transubstancia contra os argumentos dos céticos.

 Ver com os próprios olhos as evidências físicas daquilo que ele tinha apenas intelectualmente argumentado  deve ter sido uma experiência de profundidade única. Os dois teólogos regressaram a Orvieto com as relíquias e com o relatório da investigação. Levavam consigo o corporal manchado de sangue, reverentemente envolvido.

 E como aconteceu no passado remoto com as relíquias de mártires, as as pessoas foram saindo das aldeias e das cidades ao longo do caminho para se juntar à procissão. Aquilo que começou como um grupo de investigadores e clérigos tornou-se uma multidão de fiéis, cantando, rezando, chorando, enquanto o corporal era transportado pelas estradas da Ummbria em direção a Orvieto.

Quando a procissão se aproximou de Orvieto, o Urbano Quarto foi informado e depois fez algo que nenhum papa tinha feito antes. desceu do seu palácio, vestiu os seus paramentos pontificais e foi pessoalmente ao encontro da procissão. Quando os dois grupos se encontraram, o papa vindo de Orvieto, a procissão vindo de Bolsena com o corporal, Urbano quarto  ajoelhou-se.

 O vigário de Cristo, o chefe da Igreja Católica, Genofletiu diante da hóstia ensanguentada,  que acreditava ser o próprio corpo de Cristo presente no pão consagrado. Foi o primeiro  ato de adoração eucarística pública de um papa em procissão. E esse gesto tornar-se-ia a alma  de todas as celebrações de Corpus Criste pelos séculos seguintes.

procissão  do santíssimo sacramento pelas ruas, com o povo ajoelhado e os hinos cantados. O papa  caminhou então à frente da procissão, transportando pessoalmente o corporal pelas ruas de Orvieto até à  catedral. A cidade inteira estava nas ruas, tocavam sinos. Era um momento de devoção  coletiva, de uma intensidade que os relatos da época mal conseguem descrever.

 Em 11  de agosto de 1264, Urbano emitiu uma bula pontificial denominada Transiturus de Oc Mundo, passando deste mundo. Título tirado das primeiras palavras do documento, que por sua vez vem do Evangelho de João, capítulo 13. Antes da festa da Páscoa, Jesus, sabendo que tinha chegado a sua hora de passar deste mundo para o Pai.

Este documento é um dos mais importantes da história litúrgica da igreja. Nele, Urbano decretou a criação de uma nova festa para toda a Igreja Universal. A solenidade do corpo e do sangue  de Cristo. Corpus Criste em latim, a ser celebrada na quinta-feira após  a Santíssima Trindade.

 Portanto, aproximadamente 60 dias após a Páscoa. A bula foi cuidadosamente redigida.  Ela começa por evocar o amor de Cristo, que o levou a instituir a Eucaristia  na última ceia. e a sabedoria divina que estabeleceu que um dom tão grande  não fosse apenas recebido, mas também celebrado com alegria e gratidão.

De seguida,  explicita o objetivo da nova festa, que os cristãos não só recebessem  o corpo de Cristo na comunhão, mas que também se reunissem para adorá-lo, exaltá-lo e agradecer-Lhe publicamente. Bula menciona explicitamente os milagres eucarísticos como sinais divinos que confirmam a fé da Igreja e institui a procissão como elemento central da celebração.

O Santíssimo Sacramento deverá ser levado pelas ruas em ostenso para que os fiéis possam adorar Cristo presente em seu meio. Havia ainda uma outra providência necessário, uma liturgia à altura da grandeza do mistério. Urbano sabia que uma festa solene necessitava de uma liturgia solene. Ordenou, por isso, que fossem compostos hinos e orações próprias para a nova festa.

 E para essa tarefa convocou os melhores teólogos disponíveis, entre eles Tomás de Aquino e Boaventura.  O que aconteceu a seguir? entrou para a lenda, embora tenha bases sólidas na tradição histórica. Tomás de Aquino passou noites a trabalhar. Ele compôs  uma série de textos litúrgicos extraordinários. O Lauda Sion,  um hino longo e teologicamente preciso que descreve o mistério eucarístico em versos rimados.

O tantum ergo, que é a estrofe  final do hino língua Pange e que até hoje é cantado durante o benedíssimo sacramento em todo o mundo. O panis angélicos, o pão dos anjos,  o os salutares hóstia e a sequência poética para a missa do Corpus Criste. Quando chegou o momento em que todos os Os teólogos convocados apresentariam as suas composições ao Papa, Boaventura  foi o primeiro a ler a sua obra.

Depois, o Tomás começou a ler o seu. À medida  que as estrofes do Lauda Sion eram recitadas, os presentes eram silenciando.  A precisão doutrinária era perfeita. Cada verso, uma afirmação teológica limpa,  exata, incontestável. Mas havia também uma beleza poética inesperada,  uma musicalidade, uma profundidade devocional que ia para além da teologia académica e tocava o coração.

Diz a tradição que Boaventura, ao ouvir Tomás ler, pegou no seu próprio manuscrito e a  rasgada, não por humilhação ou derrota, mas por reconhecimento genuíno. Aquilo que Tomás tinha composto era simplesmente insuperável.  Porquê existir dois textos quando um deles já era perfeito? O Lauda  Sion começa com uma ordem.

 Lauda, Sion, salvató.  Louva, Sião, o Salvador. Sião é o nome poético para  a igreja e a chamada ao louvor é imediata, urgente, sem preâmbulos. O hino segue explicando que nenhum louvor humano é suficiente para o mistério eucarístico, mas que a própria insuficiência do o louvor é um motivo para louvar mais.

 É uma lógica de amor, não de cálculo.  O tantum ergo contém dois versos de teologia condensada. >>  >> Et anticum documentum, novo Sedat ritui. E que o antigo ensinamento  ceder ao novo rito, é uma referência ao modo como a Eucaristia da Nova aliança cumpre e supera os sacrifícios e os ritos da  antiga aliança.

 O pão e o vinho da última ceia são o cumprimento de tudo o  o que os sacrifícios do templo apontavam. Há um relato transmitido por biógrafos antigos de Tomás, de que enquanto ele escrevia estes hinos, foi visto em  êxtase, com o rosto banhado de lágrimas. A aparição de Cristo ter-lhe-ia  dito: “Tomás, escreveste bem de mim, que recompensa desejas?” E o Tomás  teria respondido: “Nenhuma outra, além de ti, Senhor”.

 Este episódio pertence à rageografia de Tomás e não é historicamente verificável  nos termos modernos, mas diz algo profundo sobre como a igreja entendeu a espiritualidade  do que ele havia produzido. Estes textos têm sido cantados, rezados e meditados há mais de 750  anos. Muitos sabem-nos de cor. Poucos apercebem-se que nasceram naquele período febril de composição de um dominicano do século XI, que acreditava tão profundamente no que escrevia que não conseguia não chorar enquanto o fazia.

Aqui a história tem  uma reviravolta dolorosa que poucos conhecem. Urbano morreu em outubro de 1264, apenas alguns meses após a emissão do  bula transituros. Ele não viveu para ver a primeira celebração universal de Corpus Criste. A Bula existia, mas a a sua implementação prática dependia do Papa.

 E o novo Papa Clemente tinha outras prioridades  políticas e militares. Corpus Crist ficou em suspenso. A bula estava  lá, o hino estava composto, as relíquias estavam em Orvieto, mas a festa não foi adoptada universalmente de imediato.  Continuou a ser celebrada em algumas dioceses, sobretudo na Alemanha e na Bélgica,  onde existia uma tradição de devoção eucarística mais intensa.

 Mas a disseminação universal demorou. Foi apenas no Concílio de Viena em 1311 e 1312, durante o pontificado de Clemente Cinto, que Corpus Cristal da Igreja Católica. A partir desse momento, já não havia  ambiguidade. Cada bispo em toda a diocese do mundo, deveria celebrar a solenidade do corpo e sangue de Cristo na data estabelecida por Urbano Curiosamente, o mesmo Concílio de Viena que confirmou o Corpus Cristou a supressão da Ordem dos Templários.

Dois eventos de natureza completamente distinta  que partilham as mesmas atas conciliares, como sóia acontecer na história da igreja, que raramente tem apenas um assunto na pauta. E então a festa explodiu. Nos séculos XIV  e XV. Corpus Crist tornou-se uma das celebrações mais populares e elaboradas do calendário cristão, sobretudo na Europa  Ocidental.

>>  >> Antes de falarmos das procissões medievais, precisamos de parar em Orvieto, porque o que ali aconteceu é único na história da arquitetura cristã. Uma catedral foi construída especificamente para albergar uma relíquia eucarística. A construção do Duomo de Orvieto, a catedral de Orvieto, teve início em 1290, alguns anos após os acontecimentos que narramos.

 A decisão de a construir foi tomada pelo Papa Nicolau I, que queria dar ao corporal manchado de sangue de Bolsena  uma casa digna da sua importância. O projeto original era relativamente modesto, mas ao longo dos séculos foi sendo ampliado  e enriquecido até se tornar uma das obras-primas da arquitetura gótica italiana.

 A fachada da catedral de Orvieto é considerada uma das mais belas do mundo. É um mosaico de pedra esculpida, ouro, mosaicos, relevos narrativos e estátuas que contam a história sagrada desde a criação até ao juízo final. No interior existe uma capela dedicada  ao corporal, a capela del corporale, construída especialmente  para abrigar a relíquia.

 O corporal manchado de sangue é guardado num relicário monumental, uma obra de ouro e veszaria medieval de  extraordinária beleza, decorado com esmaltes que narram a história do milagre de Bolsena. Numa das paredes da capela, o  pintor Ugolino de Prete Hilário pintou no século XIV um ciclo de frescos, descrevendo o milagre com riqueza de pormenores.

 Esses frescos são hoje uma das fontes iconográficas mais importantes para compreender como os contemporâneos  visualizavam os acontecimentos de 1263. Orvieto, portanto, não é apenas uma bela cidade na Umbria, é literalmente uma cidade construída em torno de um milagre eucarístico. Uma das dimensões de Corpus  Cristou para cidades  medievais.

 Hoje, a procissão do Corpus Criste pode parecer um evento religioso  interno da igreja, uma celebração de comunidade paroquial. Na idade média era outra  coisa completamente. A cidade medieval era organizada em torno da paróquia, da guilda, do bairro. As identidades coletivas eram concretas,  visíveis, espaciais.

 E Corpus Criste era a ocasião em que toda a cidade, toda a ela,  não só os fiéis mais devotos, saía à rua para honrar o santíssimo sacramento. As procissões eram elaboradíssimas. Havia uma hierarquia precisa de quem marchava em que posição. Na frente vinham os membros das guildas de artesãos,  cada guilda com o seu estandarte.

 Depois vinham as confrarias religiosas. com os seus mantos e as suas velas. Depois, o clero por ordem de  hierarquia, do simples padre ao bispo. E no centro, num ostensório, uma peça de ouro evezaria em forma de sol, feita para exibir a hóstia consagrada. O santíssimo sacramento era transportado pelo sacerdote mais  importante presente.

 As ruas eram decoradas, as casas eram  enfeitadas com flores, tecidos coloridos, ramos de ervas aromáticas. No norte da  Europa, especialmente na Alemanha e nos países baixos, verificou-se a tradição de cobrir o chão das ruas com tapetes de flores e folhas, de modo a que o Santíssimo Sacramento passasse sobre uma superfície florida.

 Esta tradição de tapetes  de flores para Corpus Cristias e latino-americanas, incluindo o Brasil. Nas cidades  medievais inglesas, alemãs e ibéricas, surgiu ainda uma tradição particular. Os autos sacramentais eram peças de teatro encenadas durante as festividades de Corpus Criste, que narravam cenas bíblicas ou alegorias teológicas.

 Na Inglaterra, estes ciclos ficaram conhecidos como Mystery Place e incluíam peças sobre a criação, o pecado original, Noé, Abraão,  a anunciação, a natividade, a paixão e a ressurreição. Em Espanha e nas colónias espanholas da América, o elevado sacramental atingiu  um nível literário altíssimo, com autores como Calderon de la Barca, escrevendo obras de grande complexidade filosófica.

>>  >> e poética, exclusivamente para a festividade de Corpus Criste. O teatro nasceu em boa medida das celebrações religiosas medievais e Corpus Cristas  incubadoras mais férteis. Para quem vive no Brasil, Corpus Cristória que se confunde com a própria história do país. Imagem. >> Quando os portugueses chegaram ao Brasil em 1500, trouxeram consigo  a devoção eucarística.

 que era central na espiritualidade ibérica da época. Portugal tinha uma fortíssima tradição de Corpus Criste, com procissões elaboradas  que percorriam as principais cidades do reino desde o século XIV. Ao longo da colonização, as As procissões de Corpus Criste foram estabelecidas em todas as  cidades e vilas brasileiras.

 Eram ocasiões de grande aparato em que as autoridades civis, governadores, capitães, vereadores marchavam ao lado das autoridades eclesiásticas num sinal visível da aliança entre a coroa e a igreja que sustentava  o projeto colonial português. Os índios catequisados participavam  das procissões.

 Os escravos africanos, batizados e incorporados na cristandade  colonial, com todas as as contradições que isso implica, também participavam, por vezes com as suas próprias confrarias, como a irmandade do Rosário dos Homens Pretos, que tinha  posição garantida no cortejo do Corpus Criste. Estas irmandades negras foram, paradoxalmente espaços de preservação de laços comunitários e de alguma dignidade dentro de um sistema  que negava aos africanos escravizados qualquer outro reconhecimento social. rezar

juntos, marchar juntos na  procissão, carregar o andor. Esses atos tinham um peso social e espiritual que ia muito para além do religioso. Com o passar do tempo, as cidades brasileiras desenvolveram tradições locais particulares. A mais famosa é talvez a de Congonhas  do Campo em Minas Gerais, onde o adro da Basílica do Bom Jesus de Matozinhos, decorado com as famosas estátuas dos profetas esculpidas por Aleijadinho, é palco de uma  das mais belas procissões de corpos criste do país. Em muitas cidades do Nordeste,

como em Sergipe, a festa mantém um intenso carácter popular, com tapetes de serradura colorida cobrindo as ruas, andores ricamente decorados e a participação de toda a comunidade  na preparação e na procissão.  Os tapetes de serradura são uma arte em si mesmos. Grupos de moradores trabalham toda a noite antes da festa, deitados nas ruas, desenhando com serradura colorida.

 pétalas, areia e cal, imagens religiosas de grande beleza e complexidade que serão destruídas  pela passagem da procissão. Um ato de oferta que consiste precisamente em fazer algo belo  e entregá-lo. Hoje, o Corpus Criste é feriado nacional no Brasil, celebrado na quinta-feira depois da Santíssima  Trindade, 60 dias após a Páscoa.

 é uma das festividades  religiosas mais amplamente observadas no país, mesmo por pessoas que não têm uma prática religiosa regular. Para entender Corpus Crist  plenamente, precisamos de compreender o que a Igreja Católica  acredita sobre a Eucaristia e porque este é considerado o centro e o coração de toda a vida cristã.

A doutrina da transubstancia afirma que quando um sacerdote ordenado pronuncia as palavras da consagração durante a missa, as mesmas palavras que Jesus pronunciou  na última ceia, o pão e o vinho transformam-se substancialmente no corpo e sangue dos Cristo. As aparências  exteriores, o sabor, a textura, a cor permanecem as mesmas.

 Mas a substância, o que as coisas são na sua realidade mais profunda, muda completamente. Isto significa que a igreja  acredita que em cada tabernáculo de cada igrejinha do mundo mais remoto, onde há uma hóstia consagrada guardada, Jesus Cristo está presente de um modo real, não simbólico,  não metafórico, real.

 Tomás de Aquino, ao defender esta doutrina filosoficamente, utilizou a distinção aristotélica  entre a substância e a acidente. A substância é aquilo que uma coisa é. Os acidentes são como ela aparece. >>  >> O milagre eucarístico opera na substância, e não nos acidentes. Por isso, o pão consagrado  continua parecendo pão, mas já não é pão, é Cristo.

 Os protestantes na reforma do século X  rejeitaram em graus variados esta doutrina. Lutero manteve uma versão modificada denominada consubstanciação.  Cristo está presente no pão, mas o pão não se torna Cristo. Calvino acreditava numa presença espiritual, mas não corporal.  Zuinglio via a Eucaristia como um memorial puramente simbólico.

  Estas diferenças sobre a Eucaristia estiveram entre as causas das guerras religiosas do século X e X na Europa e são até hoje um dos pontos de divisão  mais significativos entre os tradições cristãs. Corpus Criste, portanto, não é apenas uma festa bonita com flores  e procissões. é uma afirmação pública e celebratória de uma das doutrinas  mais debatidas e mais centrais do cristianismo, que Jesus Cristo está realmente presente na Eucaristia e que essa presença merece adoração, louvor e gratidão. O de

Bolsena não foi o único milagre eucarístico da história e conhecê-los ajuda a compreender  por a tradição da igreja toma estes acontecimentos tão a sério. Um dos mais famosos  é o milagre de Lanciano, ocorrido na cidade italiana de Lanciano por volta do séc. VI.

 Um monge que duvidava da presença real de Cristo  na Eucaristia, exatamente como Pedro de Praga seis séculos depois estava a celebrar a missa quando, após as palavras  da consagração, a hóstia transformou-se visivelmente em carne e o vinho em sangue. As relíquias foram preservadas e no século XX foram  analisadas cientificamente.

 O resultado, a carne é tecido cardíaco humano, músculo cardíaco especificamente.  E o sangue é do tipo AB, com propriedades que os Os cientistas que analisaram não conseguiram explicar. O milagre da Buenos Aires de 1996 é particularmente notável pela sua proximidade histórica. Uma hóstia descartada  impropriamente foi encontrada e colocada em água para se dissolver, como é o procedimento litúrgico  adequado.

Em vez de se dissolver, ela torna-se transformou numa substância avermelhada. O então cardeal Jorge Bergolho, o atual O Papa Francisco,  mandou preservar a hóstia e enviou amostras para a análise científica. O professor Ricardo Castahon Gomes, que não era católico à data da análise, recebeu a amostra sem saber a sua origem.

O seu relatório concluiu que se tratava de tecido cardíaco humano, músculo do ventrículo esquerdo, em estado de inflamação grave, como em alguém que está a morrer. O tipo sanguíneo era AB. Castahon Gomes converteu-se ao catolicismo depois de concluir o estudo. A lista é longa, os casos documentados são numerosos  e as análises científicas modernas de várias destas relíquias produziram resultados que os cientistas envolvidos, alguns dos quais não eram católicos, não conseguiram explicar  por causas naturais.

Corpus Criste não é apenas uma festa, é o ponto de convergência da  uma espiritualidade que produziu alguns dos maiores santos da história cristã. Francisco de Assis  tinha uma devoção eucarística tão intensa que chegava a tremer quando se aproximava da comunhão. Dizia que os sacerdotes  deviam ser honrados acima de todos os outros seres humanos, não por virtudes pessoais, mas porque tinham o  poder de fazer Cristo presente no altar.

 Havia uma coerência absoluta entre o Francisco, que abraçava o leproso, e o Francisco que se prostrava diante da hóstia.  Em ambos os casos, via Cristo presente numa realidade que o mundo preferia ignorar. Catarina de Siena, nascida em 1347, passou  longos períodos a viver quase exclusivamente da Eucaristia. Os médicos da época documentaram o seu jejum prolongado e não encontraram explicação natural para a forma como ela sobrevivia sem comida sólida.

 Catarina foi também uma das vozes mais influentes da vida pública medieval. chegando a escrever cartas ao Papa, incluindo cartas duras, exigindo que regressasse a Roma de Avinhon com uma autoridade que vinha diretamente da sua vida eucarística. Tomás de Aquino não comia muito, não dormia muito, mas ia à missa todos os dias e era frequentemente visto em estado de êxtase durante a celebração, sobretudo no momento da consagração.

A missa não era para ele um ritual habitual, era o centro  de cada dia. O Padre Pio de Pietrecina, o frade franciscano capuchinho italiano do  século XX, que transportou os estigmas durante décadas, celebrava missas que duravam horas. Não porque fosse lento ou distraído, porque ele se absorvia tão profundamente no mistério  eucarístico que perdia a noção do tempo.

 A sua missa era uma contemplação. João Paulo I,  na sua última autobiografia, escreveu que a Eucaristia era o centro de toda a a sua vida desde a infância. Ele celebrou missa todos os dias do seu pontificado,  incluindo nos dias em que estava gravemente doente e mal conseguia ficar de  pé. A lista de santos eucarísticos é interminável e o que partilham é uma convicção que  vai para além da doutrina intelectual, a certeza experi que Cristo está ali, que é possível encontrá-lo, que a comunhão não é uma

cerimónia, mas um encontro. Vivemos num tempo radicalmente diferente do séc. XI. A Europa medieval de Pedro de Praga e Juliana de Liege era um mundo em que a a religião penetrava todos os aspectos da vida: o calendário, a arquitetura das cidades, a organização social, a linguagem, a arte.

 Hoje, pelo menos no Ocidente,  a religião é frequentemente vista como um assunto privado, pessoal,  separado da vida pública. E, ainda assim, Corpus Crist persiste. As procissões continuam, os tapetes de flores  continuam, o laudacion continua a ser cantado em muitas partes do mundo, no Brasil, na Polónia, nas Filipinas, em várias regiões  da Espanha.

A festa é ainda celebrada com um fervor popular que surpreende quem  acredita que a religiosidade pública está em declínio irreversível.  O que explica esta  persistência? Parte da resposta é cultural. Corpus  Cristelaçada com identidades locais, com memórias familiares, com tradições de bairro que atravessam gerações.

 As avós que fazem tapetes de serradura  colorida ensinam as netas. Os grupos de jovens que organizam as procissões recebem o testemunho dos mais velhos. A festa é também um  património cultural, não apenas religioso, mas há algo mais. Num mundo de virtualidade  crescente, de relações mediadas por ecrãs, de experiências que se tornam cada vez mais abstratas  e desencarnadas, a tradição eucarística afirma algo radical, que o divino se fez carne, que Deus não ficou à distância, que Cristo, segundo a fé cristã, está

presente de modo concreto,  físico, tangível, num pedaço de pão em milhares de igrejas. a qualquer hora do dia ou  da noite. Esta é uma afirmação filosófica e teológica de enorme ousadia. E Corpus Crist,  entre outras coisas, a festa em que este afirmação sai do interior das  igrejas e vai para as ruas, onde todo o mundo pode ver, onde não é possível ignorar, onde a cidade inteira  é convidada a perguntar: “O que é que estão a carregar? Por que razão estão ajoelhados? 

Em que acreditam? É legítimo perguntar: por nem todos os cristãos  celebram Corpus Crist? A resposta está na teologia eucarística. Corpus Crist é uma festa que faz  sentido apenas se acreditar na presença real de Cristo na Eucaristia, no sentido católico ou ortodoxo do termo.

 Acredita, como a maioria dos protestantes reformados, que a ceia do Senhor é um memorial simbólico, ou que a presença de Cristo é espiritual, mas não corporal? Assim, uma procissão com uma hóstia consagrada num  ostenso não faz sentido teológico. Você não estaria a adorar Cristo, estaria a adorar um pedaço de  pão.

 É exatamente aí que a divisão teológica manifesta-se de forma mais clara. e mais concreta. E é por é isso que Corpus Cristen  tradições católica, ortodoxa e algumas anglicanas,  mas não em grande parte do protestantismo.  Isto não significa que os que não celebram a festa sejam menos cristãos ou menos graves na sua fé.

 Significa que situam-se numa tradição teológica diferente, com uma interpretação diferente  dos textos bíblicos. sobre a ceia do Senhor. E o respeito mútuo entre as tradições exige que cada uma seja compreendida nos seus próprios termos, sem caricaturas nem condenações fáceis. O que é importante notar é que a divisão não é superficial, é uma divisão sobre o que Cristo é agora, neste momento e onde ele se encontra.

  E isso tem consequências profundas para a espiritualidade, para a liturgia, para a vida cristã  concreta. Chegamos ao fim da nossa viagem e vale a pena parar um momento para contemplar o que esta história  diz-nos sobre como as grandes coisas acontecem. Juliana de Lieg era uma freira desconhecida, órfã desde criança, que teve uma visão aos 16 anos e demorou 20 anos a ter coragem de a contar.

 Ela nunca ficou famosa em vida. foi perseguida, exilada, morreu sem ver a sua visão concretizada e ainda assim, sem ela não haveria corpus criste. Pedro de Praga era um sacerdote comum em crise de fé, viajando a pé de Praga para Roma, com a esperança de encontrar respostas  que nem sabia se existiam. Não era um santo, não era um teólogo, não era um homem importante,  era alguém que duvidava e que, em vez de ficar parado na dúvida, colocou-se em movimento.

 E esse movimento levou-o à Bolsena. Tiago Pantaleon era um sacerdote de província que ouviu uma freira com atenção, quando teria sido muito mais fácil ignorá-la. Esta escuta atenta, somada à trajetória extraordinária que o levou à cadeira de Pedro, foi o fio que costurou tudo junto. O milagre de Bolsena aconteceu numa missa comum, num dia comum, numa pequena cidade à beira de um lago.

 Não havia câmaras, não havia redes sociais, não havia jornais, havia um sacerdote, uma hóstia, sangue e testemunhas. E isso foi suficiente para mudar a história da Igreja. E destas peças aparentemente dispersas,  a visão de uma freira, a dúvida de um sacerdote, a abertura de um clérigo, um inesperado milagre, dois teólogos investigando, um papa que tinha guardado um segredo durante décadas e um dominicano escrevendo  hinos de madrugada com lágrimas nos olhos.

 Nasceu uma das festas mais importantes e duradouras da  história cristã. Uma festa que ainda hoje, oito séculos depois, leva milhões de pessoas às ruas em todos os continentes. O corpo e sangue de Cristo. Corpos Criste. Se chegou até aqui, é porque existe em si uma curiosidade sobre as grandes questões da fé e da história.

Esta curiosidade é preciosa. Ela foi a mesma que levou Pedro de Praga a fazer uma peregrinação em vez de ficar quieto com as suas dúvidas. Que levou Juliana a orar durante 20 anos sobre uma visão que não entendia. Que levou Tomás de Aquino a escrever hinos de madrugada  em lágrimas sobre um mistério que ele compreendia melhor do que ninguém  e que exatamente por isso, o deixava sem palavras.

As grandes questões merecem tempo, meditação e coragem. Que esta história tenha dado um pouco de cada uma destas coisas a si. Bíblia viva.

 

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