Você quer que eu entre lá e cante qualquer coisa? Porque eu posso fazer isso, mas não vai ficar bom. A resposta veio com risos forçados dos músicos que não sabiam se apoiavam ou Nelson. Nelson sentiu a paciência a esgotar-se. Tin estava a transformar uma exigência profissional em questão de ego, como se pedir-lhe para trabalhar fosse ofensa pessoal.
Mais 40 minutos se passaram e Tin continuava a procrastinar. Agora não só contava histórias, como dava opinião sobre como a gravação deveria ser feita, sugeria alterações nos arranjos, questionava mistura de canções que ainda nem tinham sido gravadas. Era claro que aquilo não era contribuição artística, era forma de manter o controlo e adiar o momento de entrada na cabine.
Elson estava à mesa sentindo raiva, cansaço e frustração de lidar com génio embalado em comportamento impossível. Olhou para o relógio. Eram quase às 18 horas, mais de 3 horas desde que a sessão deveria ter começado. Não tinham gravado uma nota, zero, nada. O dinheiro do estúdio sendo desperdiçado, ficando o prazo impossível.
Foi quando se levantou pela terceira vez, caminhou até Timos pesados, chegou perto e com voz exausta disse: “Tim, por amor de Deus, pára de falar e vai gravar agora. A gente não tem mais tempo. E foi nesse momento que veio a resposta ameaçadora de ir embora daquele estúdio. O silêncio que veio depois da ameaça de Tim foi pesado. Ninguém se mexia porque qualquer movimento podia piorar a situação.
Os músicos olhavam para os instrumentos fingindo não prestar atenção. O técnico de som mexia em botões sem necessidade. Nelson continuava parado à espera de ver se aquilo era blef ou se o Tim realmente ia embora. Tin estava com os braços cruzados, queixo levantado, aquela postura de quem não vai recuar.
Ele tinha transformado um pedido simples em questão pessoal. Ceder significava admitir que alguém mandava nele. Todos sabiam que Tin preferia perder dinheiro, perder trabalho, do que aceitar ser controlado. Nelson conhecia este padrão. Sabia que por detrás da arrogância tinha medo e insegurança. Mas isso não tornava a situação menos frustrante quando se via horas de trabalho a serem desperdiçadas? Porque um artista genial não conseguia simplesmente fazer o que era pago para fazer.
Tin deu alguns passos em direção à porta, como se realmente se fosse embora. Cada passo calculado para criar drama, para ver se alguém lhe ia implorar ficar. Era um jogo psicológico que ele jogava instintivamente. Alguns músicos entreolharam-se com pânico. Se o Tim se fosse embora, o dia deles teria sido completamente desperdiçado.
Tinham recusado outros trabalhos para estar ali, tinham cancelado compromissos, tinham chegado a horas e ficado 3 horas à espera. Agora corriam o risco de não receber nada porque a gravação não tinha acontecido. Mas ninguém disse nada porque ninguém queria ser a pessoa que suplicava. Isso daria ao Tim exatamente o que ele queria.
A sensação de poder absoluto. Nelson ficou parado sem dizer uma palavra. Ele já tinha aprendido que com Tin não podias mostrar desespero. Não podia implorar. Então, simplesmente esperou de braços cruzados enquanto Tin continuava a dramática caminhada. Quando Tin chegou à porta e colocou a mão na maçaneta, parou.
ficou ali por segundos que pareceram eternos. depois virou lentamente para trás como se estivesse a pensar. Você podia ver no rosto dele aquela guerra interna entre sair só para provar que podia e a consciência de que aquilo seria prejudicar o próprio trabalho por puro orgulho. Nelson continuou sem dizer nada, mantendo a mesma expressão.
Ele sabia que qualquer palavra seria interpretada como fraqueza ou provocação. A melhor estratégia era deixar o Tim decidir sozinho. Era um teste de vontades onde quem falasse primeiro perdia. Tin largou a maçaneta, deu alguns passos de volta, mas em vez de ir para a cabine, sentou-se numa cadeira, acendeu outro cigarro, ficou ali a fumar em silêncio com cara de criança teimosa, que não quer admitir o erro, mas também não quer as consequências.
Era um meio termo patético que prolongava o impasse sem resolver nada, mas pelo menos significava que ele não tinha ido embora. Passaram 15 minutos com Tim fumando, Nelson fingindo rever configurações, músicos em silêncio desconfortável, onde ninguém sabia se devia quebrar a tensão ou se isso ia piorar tudo.
O relógio mostrava 6:20 da tarde. A sessão, que deveria ter terminado às 5, ainda não tinha produzido nada. Foi quando o baixista, que era amigo pessoal de Tim há anos, quebrou o silêncio com voz cuidadosa. Tim, nós viemos aqui para fazer música. Vamos fazer então. Deixa o resto para depois. Não foi pedido a Nelson, não foi ordem, foi apenas lembrete amigável de alguém que também estava sendo prejudicado.
Tin olhou para o baixista, deu a última tragada no cigarro, apagou no cinzeiro com movimentos lentos, como se ainda estivesse a considerar. Assim, de repente, levantou-se e caminhou para a cabine de gravação. Sem dizer palavra, todos soltaram a respiração, mas ninguém festejou, porque qualquer demonstração de alívio podia ser interpretada como deboche e fazer com que ele mudar de ideias.
Tin entrou na cabine, colocou os auscultadores, ajustou o microfone com gestos técnicos precisos que mostravam que por baixo do caos ele era profissional que sabia exatamente o que estava a fazer. Fez sinal com a cabeça para Nelson, indicando que estava pronto. Naquele momento, a energia do estúdio mudou porque toda a gente sabia o que vinha.
Nelson deu sinal aos músicos. A base começou a tocar. Quando Tinha abriu a boca, o que saiu foi pura perfeição. A voz estava impecável, a emoção exata, a interpretação era tudo o que Nelson tinha imaginado. Era como se aquelas 3 horas e meia de caos simplesmente evaporassem e no lugar ficasse apenas aquele talento absurdo que ninguém no Brasil conseguia igualar.
A primeira tomada foi perfeita. Não precisou de segunda, não teve de ajustar nada. Tin cantou do princípio ao fim com facilidade que fazia parecer que não tinha desperdiçado a tarde inteira a enrolar. Quando a música terminou, tirou os fones, saiu da cabine e com maior naturalidade perguntou: “Então? Ficou bom?” como se não tivesse ameaçado ir embora meia hora antes, como se aquelas horas de tensão não tivessem existido. Nelson olhou para Timustão.
Ficou perfeito, Tim. Primeiro take. A resposta saiu sincera porque era impossível negar a qualidade do que tinha sido gravado, mas vinha carregada de cansaço, de quem tinha pago o preço demasiado alto para chegar àquele resultado. Tin sorriu como se tivesse feito a coisa mais natural do mundo. pegou noutro cigarro, voltou a conversar com os músicos como se nada tivesse acontecido, como se não tivessem passado horas atrasando o trabalho de todos, como se não tivesse ameaçado ir embora e deitar tudo para o ar. Para ele, aquilo
já o era no passado, mas para Nelson e toda a gente que tinha vivido aquela tarde, era mais um episódio num padrão que se repetia constantemente. O padrão de transformar trabalhos simples em drama desnecessário, de criar crises onde não precisava existir, de desperdiçar tempo e dinheiro só para no final entregar exatamente o que era esperado, como se aquele caos todo tivesse feito parte do processo criativo quando, na verdade era apenas autossabotagem.
Aquele episódio no estúdio não foi único, foi apenas mais um em série infinita de situações semelhantes que marcaram o percurso de Tim na música brasileira. Nelson Mota contaria que história e variações dela dezenas de vezes ao longo dos anos, sempre dividido entre a irritação pelo comportamento e respeito pelo talento.
Outros produtores, outros músicos, outros empresários, todos tinham versões parecidas. Sessões que deveriam durar 3 horas e duravam oito. Espetáculos que quase não aconteciam porque Tim decidia que não estava com vontade, projetos atrasados porque não conseguia focar. Mas sempre no final o resultado era brilhante.
Sempre a música saía perfeita, valia sempre a pena no sentido artístico, mas deixava rasto de desgaste nas relações profissionais. A A indústria musical brasileira aprendeu a lidar com o Tim, sabendo que contratá-lo significava aceitar o pacote completo. Não tinha opção de pegar só o talento e deixar o resto de fora. Era tudo junto.
Quem não estava disposto a pagar esse preço, não trabalhava com ele e perdia a hipótese de ter uma das vozes mais incríveis do Brasil nos seus projetos. O paradoxo mais cruel era que quando Tim finalmente parava de criar o caos e fazia o trabalho, ele era impecável. Não necessitava de várias tomadas, não precisava de correção, não precisava de nada além de entrar na cabine e cantar.
Era como se todo aquele talento estivesse sempre pronto, à espera de ser utilizado, mas alguma coisa dentro dele não conseguia ir direto ao assunto sem antes criar confusão. Nelson Mota e outros que trabalharam com Tim desenvolveram teorias sobre o que causava esse comportamento. Alguns achavam que era medo de falhar, então ele criava obstáculos externos para ter desculpa caso algo corresse mal.
Outros achavam que era necessidade de provar que ninguém mandava nele porque tinha crescido sendo subestimado e rejeitado por causa da cor da pele. Outros simplesmente concluíam que era a impulsividade extrema, misturada com génio, que não funcionava dentro de estruturas normais. Provavelmente era um pouco de tudo isto junto.
Mistura complexa de trauma, talento, orgulho e autossabotagem que transformava Tim num um dos artistas mais duros e mais brilhantes com quem alguém podia trabalhar na música brasileira. A história de Nelson pedindo três vezes para o Tim ficar quieto e a receber como resposta uma ameaça de abandonar tudo, ensina algo profundo sobre o preço que O génio às vezes cobra das pessoas ao redor.
Para quem estava ali no estúdio nesse dia, para Nelson especificamente, a aprendizagem foi penoso, mas claro, trabalhar com verdadeiro génio significa aceitar que ela não vem em pacote limpo e organizado. Ela vem desarrumada, ela vem com atrasos, com dramas, com ameaças vazias, com horas desperdiçadas. Mas quando finalmente se manifesta, ela produz algo que mais ninguém conseguiria produzir daquela forma.
A questão não era se Timha direito de se comportar daquele jeito. Obviamente que não tinha. A questão era saber se o resultado final justificava o processo caótico e para Nelson naquele momento, ouvindo aquela gravação perfeita que tinha saído na primeira toma após 3 horas de inferno. A resposta era sim: justificava, doía, mas justificava.
O legado daquele episódio vai para além das gravações que dele resultaram. Está na lição sobre como lidar com pessoas difíceis que têm um talento inegável, sobre até onde vai para preservar parceria profissional quando esta parceria custa a sua sanidade mental. Sobre o equilíbrio impossível entre proteger a sua própria paz e não desperdiçar a hipótese de trabalhar com grandeza.