Um Morador de Rua cantava “Ela Partiu” enquanto olhava fixamente para um Violão —Tim Maia Ouviu Tudo

Ademir contou que tentou continuar trabalhando, mas já não conseguia tocar sem chorar. As contas começaram a atrasar. O desespero aumentou. Ele começou a beber para esquecer a dor e a fazer apostas, pensando que ia recuperar o dinheiro que estava a perder, mas quanto mais se afundava, mais apostava e bebia.

No final de 1976, tinha perdido tudo. O apartamento foi para pagar dívidas, os instrumentos foram vendidos, os amigos afastaram-se e ele viu-se na rua, sem nada além das roupas do corpo e a memória da mulher que tinha amado. Passaram 10 anos desde então. 10 anos a dormir debaixo de marquises, pedindo comida, trauteando as músicas que costumava tocar, só para não esquecer quem era antes de mais desmoronar. E ela partiu.

Era a que ele mais cantava, porque era a que mais doía, a que mais se lembrava dela, a que mantinha viva a memória do amor que ele tinha vivido. ouviu tudo em silêncio, olhando para a montra da loja, vendo aquele violão pendurado ali, tão perto, mas tão longe para Ademir, pensando em quantas vezes ele próprio tinha passado por situações em que a vida parecia não fazer mais sentido, onde a dor era tão grande que parecia impossível continuar.

Ele compreendia o que era perder alguém importante. Compreendia o que era afundar em vícios tentando esquecer. Entendia o que era ser julgado e subestimado. E ali parado naquela calçada do centro do rio, ao lado de um homem que tinha perdido tudo. Tin sabia exatamente o que precisava de fazer.

Os dois entraram na loja de instrumentos e o vendedor olhou desconfiado para Ademir, mas quando viu que estava acompanhado por alguém que parecia estar ali para comprar algo, o tratamento mudou imediatamente. Tin apontou para o violão da montra e pediu para o vendedor levar aquele modelo. Ademir continuava ali parado, sem acreditar no que estava a acontecer.

as pernas a tremer, o coração acelerado, pensando que a qualquer momento aquilo ia acabar e ele ia acordar debaixo de alguma marquise, descobrindo que tudo não tinha passado de um sonho. O vendedor voltou com a guitarra e colocou em cima do balcão. Tin olhou para Ademir e perguntou-lhe se queria tocar para testar, mas Ademir abanou a cabeça dizendo que não, que aquilo era caro demais, que não tinha como pagar.

Tin pediu ao vendedor para ir buscar a caixa original do instrumento e os acessórios que vinham junto. E depois, quando ele saiu, Tim tirou o boné e os óculos escuros devagar e olhou diretamente para Ademir. Os olhos dele arregalaram-se imediatamente e ele sussurrou: “És o Tim Maia.

” Tin sorriu e respondeu: “Sou eu próprio e este violão agora é seu. Eu vou pagar.” Ademir tentou dizer alguma coisa, mas as palavras não saíam. Apenas as lágrimas começaram a descer pelo rosto dele enquanto o vendedor regressava com a caixa e os acessórios. O Tin colocou o boné e os óculos de volta. pagou pelo violão.

O vendedor embrulhou tudo e entregou a Ademir que segurava a caixa como se estivesse a segurar algo sagrado, tremendo da cabeça aos pés, sem conseguir acreditar que aquilo estava realmente a acontecer. O Tin colocou a mão no ombro de Ademir e disse: “Agora vem comigo. Vamos para o meu estúdio. Precisa de comer alguma coisa e depois quero ouvir-te tocar de verdade.

” Os dois saíram da loja. O Tin chamou um táxi e deu a morada do seu estúdio. Durante o caminho, Ademir continuava em silêncio, segurando a guitarra no colo com as duas mãos, olhando pela janela, sem conseguir processar tudo o que estava acontecendo. Em menos de uma hora, ele tinha saído de invisível na calçada para estar dentro de um táxi ao lado de Tim Maia, dirigindo-se para o seu estúdio com um violão novo.

Quando chegaram ao estúdio, os músicos e técnicos que lá estiveram olharam surpreendidos para Ademir, mas ninguém fez perguntas. Eles conheciam Tin o suficiente para saber que se ele tinha trazido alguém, era porque tinha um motivo. E esse motivo não precisava ser explicado. Tin levou a Demir para a cozinha do estúdio e mandou preparar comida.

Em poucos minutos, a mesa estava cheio de arroz, feijão, bife, salada, sumo. E Ademir olhava para aquilo como se estivesse a ver um banquete. Fazia dias que não comia uma refeição de verdade. Tin sentou-se à frente dele e disse: “Come tranquilo, sem pressas, depois falamos”. Ademir começou a comer devagar no início, como se tivesse medo que aquilo desaparecesse, mas à medida que ia sentindo o sabor da comida, as lágrimas voltaram a descer.

Não eram lágrimas de tristeza, eram lágrimas de quem se tinha esquecido do que era ser tratado como gente, o que era sentar-se numa mesa e comer com dignidade. Tin comeu juntamente com ele sem fazer perguntas, sem pressionar, apenas estando ali presente. E quando acabaram de comer os dois, ficaram sentados durante alguns minutos enquanto Ademir recuperava o fôlego.

Depois do almoço, Timou a Demir para a sala principal do estúdio, onde tinha instrumentos, amplificadores, microfones, tudo preparado para gravar. Apontou para uma cadeira e disse: “Senta-te aí, pega na guitarra e toca alguma coisa para mim. O que quiser”. Ademir sentou-se, tirou o violão da caixa com as mãos a tremer, passou os dedos pelas cordas, sentindo a textura do instrumento novo.

E quando começou a tocar os primeiros acordes de Ela Partiu, a emoção tomou conta do estúdio inteiro. A voz de Ademir saiu fraca no início, mas foi ganhando força à medida que ia-se entregando à música. 10 anos sem tocar, não tinham apagado o talento dele. A técnica estava enferrujada, mas a alma estava intacta.

e tin ali sentado ouvindo. Percebia que aquele homem não era apenas alguém que tinha tocado em bares, era alguém que percebia música de verdade, que sentia cada nota, cada pausa, cada respiração da canção. Quando Ademir terminou de tocar, baixou a cabeça e ficou em silêncio, olhando para a guitarra no colo dele.

Tin levantou-se, caminhou até ele e disse: “Tens talento, Ademir? Talento de verdade, e não vou deixar que volte para a rua. A gente vai encontrar um jeito de você recomeçar. Ademir levantou o rosto e olhou para Timeguir falar. Apenas abanou a cabeça concordando enquanto as lágrimas caíam. E nesse momento, os dois sabiam que algo tinha mudado, que aquele encontro na calçada não tinha sido acaso.

Tinha sido o destino colocando duas pessoas no mesmo lugar, no momento exato em que uma necessitava de ajuda e a outra precisava de ajudar. Tin explicou ao Ademir que conhecia o Lar de Narcisa, um orfanato no Rio de Janeiro que acolhia crianças em situação de vulnerabilidade e que estavam precisando de um professor de música para dar aulas voluntárias aos crianças.

Ele disse que ia ligar para ali, ia explicar a situação de Ademir, ia arranjar uma vaga para ele morar temporariamente no orfanato, em troca de dar aulas de guitarra e canto aos meninos, e que entretanto, Ademir poderia ir recuperando, se reorganizando e, quem sabe se um dia voltar a tocar profissionalmente. Ademir ouviu tudo aquilo e, pela primeira vez em 10 anos, sentiu algo que tinha esquecido completamente.

esperança, a sensação de que talvez a vida ainda fizesse sentido, de que talvez ainda existisse um futuro possível para ele. O Tin pegou no telefone ali mesmo no estúdio, ligou para o lar de Narcisa, explicou a situação e em poucos minutos estava tudo combinado. O Ademir poderia ir para lá no dia seguinte, teria um quarto pequeno mais digno, três refeições por dia e a oportunidade de ensinar música a crianças que, tal como ele, um dia precisaram de alguém que acreditasse nelas. No dia seguinte, Tim procurou a

Demir no local onde dormia, trouxe roupa limpa, levou-o para tomar banho no estúdio, cortar o cabelo e a barba. E quando Ademir se olhou no espelho ao fim de 10 anos, ele quase não se reconheceu. Já não era o homem invisível da calçada, era alguém que tinha voltado a existir. O Tin levou-o pessoalmente até ao lar de Narcisa, apresentou à diretora, explicou toda a situação, entregou a guitarra nas mãos de Ademir e disse: “Agora é com você.

Estas crianças precisam de alguém que compreenda o que é sentir-se perdido e és a pessoa certa para as ensinar que música pode salvar. Ademir apertou a mão de Tim força, os olhos cheios de lágrimas e pela primeira vez numa década sentiu que tinha um propósito, que tinha uma razão para acordar no dia seguinte, que a sua vida ainda poderia fazer a diferença para alguém.

Tin saiu dali, sabendo que tinha feito o que tinha de ser feito. Não porque quisesse reconhecimento, não porque esperava algo em troca, mas simplesmente porque quando vê alguém a afundar-se e tem a possibilidade de estender a mão, você estende. É tão simples quanto isso. As primeiras semanas de Ademir no lar de Narcisa foram difíceis.

Estava habituado com a rua, com a solidão, com o silêncio e de repente se viu rodeado de crianças barulhentas, curiosas e cheias de energia. No início, mal conseguia segurar o violão sem tremer. A ansiedade de estar num ambiente novo era grande, mas aos poucos as aulas de música começaram a criar uma rotina e essa rotina foi trazendo de volta a confiança que tinha perdido.

e começou por ensinar acordes básicos, depois melodias simples e em poucas semanas algumas crianças já conseguiam tocar músicas inteiras e o orgulho que ele sentia ao ver aquilo era algo que não experimentava desde os tempos em que tocava nos bares com a esposa viva ao lado dele. Ele começou por ensinar acordes básicos, depois melodias simples, e em poucas semanas alguns as crianças já conseguiam tocar músicas inteiras.

E o orgulho que sentia ao ver aquilo era algo que ele não experimentava desde os tempos em que tocava nos bares com a esposa viva ao lado dele. À medida que os meses foram passando, Ademir foi-se transformando. O corpo ganhou peso com a alimentação regular. O rosto recuperou a cor. Os olhos voltaram a ter brilho, mas a maior alteração não era física, era interna.

Ele tinha voltado a sorrir, a fazer planos, a acreditar que o futuro poderia ser diferente do passado. E tudo isto por causa de um encontro casual numa calçada do centro do rio com alguém que decidiu parar e ouvir em vez de passar direto. Tin visitava o orfanato de vez em quando, sempre discreto, sempre sem alarido, só para ver como estava o Ademir.

E, cada vez que ele chegava, as crianças corriam para o abraçar, gritando: “Tio Tim! Tio Tim! E Ademir agradecia com os olhos, sem ter de dizer nada, porque os dois sabiam que aquele simples gesto de comprar um violão e dar uma oportunidade tinha salvo uma vida. Um dia, durante uma dessas visitas, Tinha assistiu a uma apresentação das crianças tocando.

Ela partiu  em couro com Ademir na guitarra e quando a música terminou e as crianças aplaudiram felizes, Tin olhou para Ademir e viu nele a mesma coisa que via em si mesmo nos palcos. pura alegria de fazer música não para ser famoso, não para ganhar dinheiro, mas simplesmente porque a música é o que dá sentido a tudo. A história de Ademir ensina algo que a as pessoas esquecem no meio da correria da vida, que toda a gente que vê na rua, invisível, pedindo ajuda, dormindo debaixo de Marquise, é alguém que um dia teve sonhos, que amou, que perdeu, que

sofreu e que merece uma segunda oportunidade. A diferença entre estar de pé e estar caído muitas vezes é apenas uma sequência de acontecimentos maus, uma perda que destrói, um vício que domina, uma solidão que engole. E julgar alguém pela situação em que ela se encontra sem saber a história toda, é um erro que todos comete, mas que deve evitar.

Tim Maia, nessa tarde, no centro do rio, não viu um sem-abrigo. Ele viu um músico que tinha perdido o instrumento, um homem que tinha perdido o amor, uma pessoa que precisava de ser lembrada de que ainda existia. E esta capacidade de ver o ser humano por trás da situação é o que separa quem passa a direito de quem para ouvir.

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