O Último Galã de Ouro: A Vida Dupla, os Amores Secretos e o Legado Oculto de Tab Hunter na Velha Hollywood

A era de ouro de Hollywood sempre foi mestre na arte de criar ilusões. No pós-guerra, os grandes estúdios de cinema transformaram-se em autênticas fábricas de propaganda, desenhando o padrão ideal do que deveria ser o “estilo de vida americano”. Se até à década de 1940 o público feminino suspirava por galãs de traços morenos e exóticos, como Clark Gable ou Tyrone Power, a nova ordem mundial exigia uma estética diferente. A América precisava de rostos que transmitissem pureza, força, patriotismo e juventude. Queriam rapazes altos, loiros, de olhos claros e físico atlético. Foi neste cenário milimetricamente calculado que nasceu um dos maiores fenómenos de popularidade do século XX: Tab Hunter.

Nascido sob o nome de Arthur Andrew Kelm, a 11 de julho de 1931, o jovem que viria a personificar o sonho americano era, na realidade, a antítese de tudo o que a sociedade conservadora da época tolerava. Filho de pai judeu e mãe alemã, Arthur cresceu numa pobreza extrema e sob os rigores de uma criação profundamente católica. O abandono do pai logo após o seu nascimento e a descoberta precoce da sua homossexualidade — numa época em que a própria palavra “gay” era substituída por insultos degradantes — moldaram uma juventude marcada pela timidez e pela rejeição interna. Desesperado por fugir de uma realidade sufocante, mentiu sobre a sua idade aos 15 anos para ingressar na Guarda Costeira, de onde acabou por ser expulso assim que a verdade foi descoberta.

Tab Hunter Dead: 'Damn Yankees' Star and Gay Icon Dies at 86

Contudo, o destino tinha reservado para Arthur um caminho longe do anonimato. Dono de uma beleza fulgurante e de um corpo esculpido pelo trabalho árduo como entregador, vendedor e cuidador de cavalos, o jovem limpava estrume num estábulo quando foi descoberto pelo ator Dick Clayton durante uma sessão fotográfica. Impressionado pelo carisma e pelos 1,83 metros de altura do rapaz, Clayton introduziu-o a Henry Wilson, um dos agentes mais influentes e infames da velha Hollywood. Wilson, conhecido tanto pelo seu poder de lançar estrelas como Lana Turner e Rock Hudson quanto por usar a sua influência para exigir favores sexuais, rebatizou imediatamente o jovem. Arthur passou a chamar-se Tab Hunter, uma alusão direta aos cavalos do tipo “hunter” que costumava tratar no celeiro.

A estratégia inicial de marketing não passou pela atuação, mas sim pela superexposição mediática. Tab começou a ilustrar centenas de capas de revistas de cinema antes mesmo de ter um papel relevante no grande ecrã. A consagração física chegou com o filme “A Ilha do Desejo” (1952), ao lado da diva trágica Linda Darnell. A produção capitalizou intensamente a nova tendência dos “beef cakes” — a sexualização do corpo masculino que ganhou força no pós-guerra. Em mais de metade do filme, Hunter surgia sem camisa, bronzeado e de calções curtos, estabelecendo-se como o novo objeto de desejo do público.

O verdadeiro estrelato bateu-lhe à porta quando assinou um contrato de exclusividade com a gigante Warner Bros. Após quase protagonizar o clássico “Juventude Transviada”, papel que acabou por imortalizar James Dean, Tab Hunter conquistou o papel principal em “Battle Cry” (1955), retirando a oportunidade ao próprio Dean. O filme foi um sucesso estrondoso, consolidando Hunter como o galã do momento. A máquina de publicidade de Hollywood tinha encontrado a sua versão masculina de Doris Day: o rapaz saudável, patriótico, o soldado perfeito que inspirava os jovens a alistarem-se e fazia as plateias delirar.

Tab Hunter, 1950s Hollywood heart-throb, dies aged 86 | Tab Hunter | The  Guardian

No entanto, à medida que a sua imagem pública atingia o zénite, a sua vida privada transformava-se num campo minado. No mesmo ano em que alcançou a fama, a sua mãe sofreu um esgotamento nervoso severo, culpando o próprio ator após ser submetida a dezenas de tratamentos de choque. No amor, Tab enfrentava as restrições de um sistema implacável. O seu namoro com o famoso patinador artístico Ronnie Robertson gerou uma onda de hostilidade nos bastidores, culminando com o vandalismo do seu automóvel. A separação foi inevitável para salvaguardar as aparências.

O golpe mais duro desferido pela imprensa ocorreu em setembro de 1955, quando a temida revista de escândalos “Confidential” publicou uma reportagem de capa revelando que Tab Hunter fora detido numa “festa do pijama” gay antes de ser famoso. Anos mais tarde, o ator descobriu que a história fora deliberadamente vertida pelo seu ex-agente, Henry Wilson, numa manobra cruel para desviar as atenções dos média de Rock Hudson, que também enfrentava rumores sobre a sua sexualidade. Apesar da gravidade da denúncia para os padrões da época, a devoção dos fãs era tão cega que o escândalo foi abafado. O estúdio continuou a vendê-lo como o “solteirão cobiçado” e exigente, organizando encontros forçados com atrizes para manter a farsa.

Foi nos bastidores deste teatro de aparências que Tab Hunter conheceu aquele que seria um dos grandes amores da sua vida: Anthony Perkins. O romance começou discretamente no icónico hotel Chateau Marmont e rapidamente evoluiu para uma vida em comum na residência de Hunter. O casal vivia o segredo mais partilhado de Hollywood. Viajavam juntos, acompanhados por mulheres para despistar os fotógrafos, e regressavam para a mesma casa. Contudo, a ambição de Perkins e a homofobia sistémica acabaram por minar a relação. Sentindo-se traído após Perkins aceitar um papel no cinema que o próprio Tab cobiçava e tinha idealizado, o distanciamento entre ambos tornou-se definitivo, deixando a promessa de um amor que poderia ter durado uma vida inteira.

Tab Hunter Names the Gay Actors of Old Hollywood He Dated in Secret -  YouTube

A versatilidade de Tab Hunter estendeu-se também à música. A sua gravação da canção “Young Love” em 1956 alcançou o topo das tabelas norte-americanas, desbancando ninguém menos que Elvis Presley. Furiosa por não lucrar com os direitos musicais do seu ator, a Warner Bros proibiu-o de lançar mais discos e fundou a sua própria editora, a Warner Bros Records. Décadas mais tarde, este mesmo selo discográfico lançaria ao estrelato ícones mundiais como Madonna, Bruno Mars e Anitta — um legado cultural massivo que, indiretamente, deve a sua existência à rebeldia musical de Tab Hunter.

Cansado do controlo asfixiante e da vigilância constante sobre os seus passos, Tab Hunter tomou uma decisão drástica em 1959: comprou o seu próprio contrato à Warner Bros pela impressionante quantia de 100 mil dólares, uma fortuna que desestabilizou as suas finanças. O preço da liberdade foi o declínio da sua carreira no circuito principal de Hollywood, transitando para produções televisivas e filmes de série B na Europa. Apesar das dificuldades financeiras, Tab nunca demonstrou arrependimento. Longe das amarras dos grandes executivos, viveu a sua verdade, envolvendo-se romanticamente com figuras como o lendário bailarino soviético Rudolf Nureyev.

A sua grande redenção artística e a forma mais audaz de assumir a sua identidade perante o mundo aconteceu na década de 1981, quando aceitou participar no filme de culto “Polyester”, realizado pelo abertamente gay John Waters e co-protagonizado pela famosa drag queen Divine. A ousadia repetiu-se quatro anos mais tarde em “A Louca Corrida do Ouro”. Foi precisamente nos bastidores desta última produção que Tab Hunter conheceu o homem com quem partilharia o resto dos seus dias: o produtor Alan Glaser, 28 anos mais novo.

Incentivado pelo companheiro, Tab Hunter publicou a sua autobiografia em 2005, que rapidamente se tornou um best-seller, seguida pelo aclamado documentário “Tab Hunter Confidential” em 2015. O homem que outrora fora obrigado a esconder-se tornou-se uma das raras vozes da sua geração a assumir a sua homossexualidade de forma direta, transparente e sem subterfúgios.

Vítima de problemas cardíacos crónicos, o eterno galã faleceu a 8 de julho de 2018, aos 86 anos, escassos dias antes do seu aniversário. Tab Hunter partiu, mas deixou uma marca indelével na história do cinema. Mais do que um rosto bonito na tela, ele foi o homem que desmascarou a hipocrisia de uma indústria e de uma sociedade desenhadas para odiar a diferença, provando que a verdadeira coragem reside na liberdade de sermos quem realmente somos.

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