A Promessa de Amor que Terminou numa Armadilha: o Caso Joelson Ramos
Na manhã de 11 de julho de 2011, funcionárias de um motel situado em Ananindeua, na região metropolitana de Belém, começaram a estranhar o silêncio vindo de um dos quartos. O período contratado já tinha terminado, mas o hóspede não atendia às chamadas nem respondia às batidas na porta.
Depois de várias tentativas sem sucesso, as funcionárias decidiram entrar utilizando uma chave mestra. O que encontraram transformaria aquele dia num dos mais perturbadores da história policial do Pará.
O quarto estava desorganizado. Na casa de banho, havia vários sacos de plástico. Dentro deles, foram encontrados restos humanos. A cabeça e os dedos não estavam no local, o que indicava uma possível tentativa de impedir ou atrasar a identificação da vítima.
A Polícia Civil foi imediatamente chamada. Começava ali uma investigação que receberia o nome de Operação Viúva Negra, numa referência ao comportamento atribuído a determinadas espécies de aranhas, em que a fêmea elimina o macho após o acasalamento.
Naquele momento, porém, os investigadores não sabiam quem era o homem encontrado no quarto, quem o tinha levado até ali nem por que razão alguém teria preparado uma armadilha tão cuidadosamente planeada.
A resposta encontrava-se numa relação virtual que tinha começado anos antes.
Um jovem reservado e dedicado à família
Joelson Ramos de Souza tinha 32 anos. Era descrito por familiares e conhecidos como um homem tranquilo, reservado e trabalhador.
Durante a juventude, viveu no bairro da Marambaia, em Belém, com o pai, a mãe e quatro irmãos. Após a morte da mãe, o pai decidiu regressar à sua terra natal, no estado do Amapá, levando consigo a maior parte da família.
Joelson, no entanto, preferiu permanecer em Belém. Com o apoio de familiares maternos, concluiu uma formação técnica na área de informática e passou a trabalhar como vigilante.
Depois de alcançar alguma estabilidade financeira, começou a viver sozinho. Apesar da distância, mantinha contacto frequente com o pai e os irmãos, visitando-os sempre que possível.
Foi durante uma dessas aproximações com o Amapá que Joelson conheceu Savana Natália Barbosa Cruz.
As fontes apresentam versões diferentes sobre o início da relação. Algumas afirmam que os dois se terão conhecido pessoalmente durante uma viagem de Joelson ao estado. Outras indicam que o contacto começou exclusivamente pela internet, através do Orkut, uma das redes sociais mais populares no Brasil naquele período.
Independentemente da forma como se conheceram, o relacionamento desenvolveu-se principalmente à distância.
Joelson acreditava ter encontrado a mulher com quem construiria uma família.
O namoro virtual e as promessas de futuro
Durante vários anos, Joelson e Savana mantiveram uma relação virtual. Trocaram mensagens, fizeram planos e falaram sobre viver juntos.
Joelson passou a enviar presentes e dinheiro à namorada. Segundo os relatos apresentados durante a investigação, ele considerava Savana praticamente sua esposa e acreditava que os recursos enviados serviam para preparar a vida que ambos teriam no futuro.
A família de Joelson sabia da existência da jovem. Para os parentes, ela era a namorada com quem ele planeava casar e estabelecer-se no Amapá.
Enquanto Joelson alimentava esse projeto, a realidade da vida de Savana era muito diferente.
Segundo os depoimentos recolhidos, ela teve uma infância marcada por conflitos familiares. Depois de sair de casa, foi acolhida pela avó e tentou construir uma vida independente. Chegou a iniciar um curso universitário de Filosofia, mas abandonou os estudos e começou a trabalhar num supermercado em Macapá.
Savana alegou que, durante os primeiros anos de relacionamento virtual, teria sido fiel a Joelson e que chegou a nutrir sentimentos verdadeiros por ele.
A situação mudou por volta de 2008.
A entrada de Raimundo na história
Enquanto trabalhava no supermercado, Savana conheceu Raimundo Nonato, um taxista que costumava transportar uma das suas colegas.
Raimundo era casado e tinha dois filhos. Ainda assim, passou a cortejar Savana. Segundo a versão posteriormente apresentada, ela inicialmente rejeitou as investidas, mas acabou por aceitar manter um relacionamento com ele.
Joelson nunca foi informado.
A partir desse momento, Savana passou a conduzir duas relações paralelas. De um lado, mantinha o namoro virtual com Joelson, recebendo dinheiro, presentes e promessas de uma vida futura. Do outro, vivia um relacionamento presencial com Raimundo.
A investigação concluiu que parte dos recursos enviados por Joelson beneficiava não apenas Savana, mas também o homem com quem ela se relacionava secretamente.
Durante anos, Joelson continuou a confiar nela. A distância dificultava a verificação das histórias que ouvia e permitia que Savana adiasse indefinidamente o encontro definitivo.
Essa situação permaneceu relativamente confortável enquanto o relacionamento existia apenas no mundo virtual.
O problema começou quando Joelson decidiu transformar os planos em realidade.
O aviso que Joelson não aceitou
Antes da mudança, Joelson chegou a receber um alerta sobre Savana.
Uma antiga amiga da jovem, identificada como Edigleuma da Silva Trindade, entrou em contacto com ele através da internet. A mulher afirmou que conhecia Savana há muitos anos e relatou episódios que, na sua opinião, demonstravam que ela não era uma pessoa de confiança.
Entre as acusações apresentadas estava um episódio envolvendo uma criança da família de Edigleuma. Segundo o relato, Savana teria levado o menino para passear e regressado algumas horas depois com ele gravemente indisposto. A criança foi encaminhada para o hospital, mas não sobreviveu.
Edigleuma afirmou que médicos teriam levantado a hipótese de envenenamento. No entanto, não há informações públicas suficientes sobre exames, conclusões médicas ou responsabilização criminal de Savana nesse episódio.
A mulher também declarou que, enquanto a família acompanhava a criança no hospital, vários objetos e uma quantia em dinheiro desapareceram da sua residência.
Essas afirmações permaneceram como relatos de uma antiga amiga e não foram apresentadas, no material disponível, como conclusões judiciais definitivas.
Ainda assim, Edigleuma tentou alertar Joelson. Disse-lhe para se afastar de Savana e afirmou que ela poderia ser perigosa.
Joelson não acreditou.
Apaixonado e convencido de que conhecia a namorada, manteve a relação e continuou a preparar a mudança.
A decisão de começar uma nova vida
No início de 2011, Joelson informou à família que iria deixar o emprego e mudar-se para o Amapá.
O plano era viver com Savana e abrir uma pequena lanchonete. Ele chegou a conversar com o pai sobre a possibilidade de receber ajuda financeira para investir no empreendimento.
A mudança começou a ser organizada meses antes da viagem definitiva. Joelson embalou móveis, eletrodomésticos e objetos pessoais. Parte dos bens foi transportada por uma carrinha indicada pela própria Savana.
O motorista era Raimundo.
Joelson não sabia que aquele homem era amante da sua namorada.
Como os pertences não cabiam todos no veículo, o transporte foi dividido em várias viagens. Joelson acreditava que os objetos estavam a ser levados para o Amapá, onde Savana os guardaria até à sua chegada.
Na realidade, segundo a investigação, os móveis estavam a ser utilizados para equipar uma pequena residência onde Savana vivia em Santa Isabel do Pará, a poucas dezenas de quilómetros de Ananindeua.
A fraude tornou-se ainda mais evidente durante a última etapa da mudança.
Joelson entregou a Raimundo um envelope com cerca de dois mil reais, que deveria ser levado a Savana. No caminho, o motorista apropriou-se de parte do valor e desapareceu por alguns dias.
Sem saber que Raimundo era seu companheiro, Savana telefonou a Joelson e afirmou que o motorista tinha desaparecido com o dinheiro e os objetos. Ela forneceu os dados do homem e pediu que fosse apresentada uma queixa.
No dia 4 de julho de 2011, Joelson registou uma ocorrência contra Raimundo por suspeita de roubo.
Dois dias depois, Raimundo regressou à casa de Savana. Percebendo que a denúncia poderia criar problemas para ambos, ela voltou a contactar Joelson e afirmou que tudo não tinha passado de um mal-entendido.
Savana pediu que ele retirasse a queixa.
Joelson não o fez.
Poucos dias depois, comprou a passagem para o Amapá. A viagem estava marcada para 11 de julho de 2011.
Quando Savana soube que ele estava prestes a chegar, percebeu que as mentiras acumuladas durante anos seriam descobertas.
Joelson encontraria outra pessoa no lugar da mulher que idealizara. Descobriria que os seus móveis não estavam no Amapá, que Savana vivia noutra cidade e que o motorista acusado de roubo era, na verdade, seu amante.
Segundo a acusação, foi nesse momento que Savana e Raimundo decidiram impedir que ele chegasse ao destino.
As compras realizadas antes do encontro
Na noite de 10 de julho, Savana e Raimundo saíram de Santa Isabel do Pará em direção a Ananindeua.
Durante o percurso, pararam num supermercado localizado próximo da BR-316. As câmaras de segurança registaram o casal a circular tranquilamente pelos corredores.
De acordo com a investigação, compraram sacos de lixo de grande capacidade, produto de limpeza, doces e um objeto cortante.
O pagamento foi realizado pouco depois das 21 horas.
Essas compras tornaram-se fundamentais para demonstrar que o encontro no motel não tinha sido improvisado.
Após saírem do supermercado, o casal apanhou um táxi e perguntou ao motorista onde ficava o motel mais próximo. Foram levados ao Motel Colonial, que possuía uma fachada semelhante à de uma pousada.
Savana e Raimundo chegaram ao estabelecimento por volta das 21h40. Embora estivessem juntos, pediram quartos separados.
Ela ficou no quarto 403. Raimundo ocupou o quarto 405.
Nenhum dos dois apresentou documentos, devido a uma falha nos procedimentos do motel.
Pouco depois, Savana telefonou a Joelson.
O encontro que Joelson acreditava ser uma surpresa
Naquela noite, Joelson estava numa cafetaria pertencente a uma prima quando recebeu a chamada.
Savana disse que estava em Ananindeua e que o esperava no Motel Colonial.
Joelson deveria encontrar-se com ela apenas quando chegasse ao Amapá. A presença inesperada da namorada na cidade poderia ter provocado desconfiança, mas ele parece ter interpretado a situação como uma surpresa romântica.
Possivelmente acreditou que Savana tinha viajado até Belém para acompanhá-lo na mudança.
Entusiasmado, pediu a um mototaxista que o levasse ao endereço indicado. Durante o percurso, parou numa farmácia e levantou dinheiro num terminal eletrónico para pagar o transporte.
Às 22h29, Joelson entrou no motel. Informou na receção que uma mulher já o aguardava e foi encaminhado para o quarto 403.
Não apresentou documento nem preencheu corretamente uma ficha de identificação.
Essa falha dificultaria significativamente o trabalho da polícia horas depois.
No quarto, Joelson encontrou pela primeira vez, ou reencontrou, dependendo da versão sobre o início da relação, a mulher com quem planeava viver.
Segundo Savana afirmou posteriormente, ele percebeu que ela estava nervosa e perguntou por que razão tremia. Ela respondeu que se sentia ansiosa por finalmente o ver.
Em determinado momento, Savana terá dito que ele não deveria ter ido ao motel. Joelson respondeu que apenas tinha comparecido porque ela própria o chamara.
O que aconteceu nos minutos seguintes foi contado de forma diferente pelos dois acusados.
Duas versões contraditórias
Savana afirmou que Joelson retirou a camisa e se deitou de lado, de costas para a porta. Ela teria então usado como pretexto a necessidade de buscar algo no frigorífico e telefonado para o quarto vizinho.
Raimundo entrou pouco depois.
Segundo a versão de Savana, foi ele quem atacou Joelson, enquanto ela ajudava a impedir que a vítima gritasse.
Raimundo apresentou uma narrativa diferente. Alegou que Savana já estava armada dentro do quarto e que foi ela quem iniciou e executou a agressão. Disse que só foi chamado depois.
Apesar das acusações mútuas, ambos admitiram participação na preparação do encontro, na ocultação do corpo, na limpeza do quarto e na retirada dos bens da vítima.
A investigação também apontou que os dois já teriam considerado eliminar Joelson noutras ocasiões, embora os planos anteriores não tenham sido concretizados.
Depois da morte, o casal tentou dificultar a identificação. Partes do corpo foram colocadas em sacos e deixadas na casa de banho. Os dedos foram descartados na canalização, enquanto a cabeça foi retirada do motel.
Savana utilizou produto de limpeza para tentar apagar vestígios. No entanto, o trabalho foi incompleto. Permaneceram no quarto impressões, pegadas, manchas e objetos que mais tarde ajudariam a reconstruir os acontecimentos.
O casal percebeu que não conseguiria transportar tudo sem ser visto. O quarto não permitia acesso direto de veículos, e qualquer deslocação de grandes sacos pela receção levantaria suspeitas.
Por isso, deixaram a maior parte no local.
Antes de sair, levaram documentos, cartões, relógio, dinheiro e outros pertences de Joelson.
Raimundo abandonou o motel primeiro, por volta das 00h50. Savana saiu cerca de 15 minutos depois, aparentando tranquilidade.
Na receção, pagou a conta e afirmou que o homem que estava no quarto permaneceria ali durante a noite.
A madrugada após o crime
Depois de deixar o motel, Raimundo seguiu pela BR-316 e descartou o saco que transportava numa zona próxima de uma pizzaria. A cabeça de Joelson nunca foi recuperada, de acordo com os relatos apresentados.
Em seguida, dirigiu-se à estação rodoviária, onde combinara encontrar Savana.
Ela saiu do motel, apanhou um táxi e pediu para ser deixada perto de uma cafetaria. A partir dali, caminhou até à rodoviária.
Mesmo depois do que tinha ocorrido, os dois decidiram voltar à casa de Joelson para retirar os últimos bens que ainda restavam.
Enquanto Savana aguardava, Raimundo seguiu até à residência da vítima. Regressou algumas horas depois com uma mochila e um saco contendo objetos de valor.
Na rodoviária, o casal sentou-se numa lanchonete. Testemunhas recordaram que os dois fumavam de forma constante, trocavam gestos de carinho e pareciam inquietos.
Uma funcionária afirmou ter reparado em manchas avermelhadas na roupa de Raimundo.
Antes de saírem, utilizaram o cartão bancário de Joelson para levantar cerca de 800 reais.
Depois regressaram à residência que Savana tinha mobilado com os bens da própria vítima.
A descoberta no Motel Colonial
Na manhã seguinte, as funcionárias do motel entraram no quarto 403 e encontraram os sacos na casa de banho.
A Polícia Civil iniciou imediatamente a recolha de provas. Como não havia documentos no quarto e a cabeça e os dedos tinham sido retirados, a identificação parecia inicialmente difícil.
Durante uma busca na fossa do motel, os investigadores encontraram os dedos. Contudo, estavam demasiado degradados para permitir uma recolha imediata de impressões digitais.
No quarto foram recolhidas pegadas, impressões e manchas biológicas. Dois objetos aparentemente insignificantes também chamaram a atenção: uma embalagem de doces Tic Tac e uma escova de cabelo.
Através dos códigos de barras, a polícia conseguiu rastrear o supermercado onde os artigos tinham sido comprados.
As câmaras do estabelecimento mostravam Savana e Raimundo a realizar as compras pouco antes da entrada no motel.
As imagens não eram suficientemente nítidas para permitir uma identificação facial imediata, mas confirmavam que um casal estivera envolvido na preparação do encontro.
Ao mesmo tempo, as câmaras do motel revelaram que os dois suspeitos tinham chegado juntos, ocupado quartos diferentes e saído em momentos distintos.
As matrículas dos táxis utilizados também foram identificadas. Os motoristas ajudaram a elaborar retratos falados dos passageiros.
A identificação de Joelson em direto
A notícia espalhou-se rapidamente pelos meios de comunicação do Pará.
Durante uma transmissão televisiva, foram exibidas as roupas encontradas no quarto. Poucos minutos depois, uma mulher telefonou para o programa e afirmou reconhecer as peças.
Ela descreveu com precisão a camisa, as calças, o calçado, a altura e a compleição física do sobrinho desaparecido.
O nome dele era Joelson Ramos de Souza.
A família acreditava que ele tinha iniciado a viagem para o Amapá. Por essa razão, o desaparecimento ainda não tinha provocado alarme.
No dia 13 de julho, um tio compareceu ao centro de perícias e reconheceu marcas de nascença de Joelson. Posteriormente, um exame de ADN confirmou oficialmente a identidade.
O corpo foi entregue à família e sepultado no Cemitério de São Jorge, no bairro da Marambaia.
Enquanto os parentes tentavam compreender o que tinha acontecido, a polícia concentrava-se na identificação do casal registado pelas câmaras.
O computador que revelou a namorada virtual
Os investigadores foram até à residência de Joelson. A casa estava praticamente vazia, pois grande parte dos seus bens já tinha sido enviada.
No entanto, o computador permanecia no local.
Ao analisar as redes sociais da vítima, a polícia encontrou o perfil de Savana. A fotografia correspondia às imagens de segurança e ao retrato falado divulgado pelos taxistas.
Num bloco de notas, Joelson tinha registado o nome completo, o documento de identidade e outros dados da namorada.
Os investigadores também encontraram uma cópia da ocorrência apresentada contra Raimundo poucos dias antes.
Ao consultarem fotografias e contactos de Savana, perceberam que Raimundo era alguém próximo dela. A imagem do homem correspondia ao segundo suspeito visto no supermercado e no motel.
A polícia passou então a divulgar os nomes e as fotografias dos dois.
Durante alguns dias, uma cabeleireira do bairro da Marambaia chegou a ser confundida com a suspeita devido à semelhança com o retrato falado. A mulher apresentou-se às autoridades e foi rapidamente excluída da investigação.
Savana e Raimundo, entretanto, já tinham iniciado a fuga.
Trinta e um dias escondidos
Depois de verem a cobertura televisiva e ouvirem o nome de Savana associado ao caso, os dois perceberam que seriam identificados.
No dia 12 de julho, deixaram a residência e passaram por várias cidades do Pará. Posteriormente, decidiram separar-se para dificultar o trabalho das autoridades.
A intenção, segundo confessaram, era chegar ao Maranhão e permanecer escondidos até que a repercussão do caso diminuísse.
A fuga durou 31 dias.
No dia 11 de agosto de 2011, exatamente um mês depois da descoberta no motel, Savana foi localizada num barco com destino a Almeirim.
Por coincidência, um familiar de Joelson encontrava-se na mesma embarcação. Ao reconhecê-la, contactou a polícia, que conseguiu interceptá-la antes da chegada ao destino.
Raimundo foi encontrado em Novo Repartimento. Estava acompanhado pelo irmão, Francisco Ferreira dos Santos, acusado de ajudá-lo durante a fuga.
No momento da abordagem, Raimundo tinha consigo um documento pertencente a outra pessoa e preparava-se, segundo a investigação, para substituir a fotografia.
Com os dois suspeitos detidos, a polícia começou a recolher os depoimentos.
Acusações mútuas
Savana e Raimundo admitiram que atraíram Joelson até ao motel, mas tentaram atribuir um ao outro a principal responsabilidade pela morte.
A defesa de Savana alegou que ela teria sido coagida por Raimundo. Segundo essa narrativa, ele sentia ciúmes de Joelson, ameaçou a amante e obrigou-a a participar.
Os advogados de Raimundo sustentaram a versão oposta. Afirmaram que Savana tinha mantido Joelson como fonte de apoio financeiro e que decidiu eliminá-lo quando percebeu que ele se mudaria para viver com ela.
Para essa defesa, Raimundo teria sido convencido a colaborar num plano criado por Savana.
As compras realizadas antes do encontro, a reserva de dois quartos, as chamadas telefónicas, a utilização dos bens da vítima e os atos praticados depois da morte foram considerados indícios de premeditação e participação conjunta.
Inicialmente, os dois foram acusados de latrocínio — roubo seguido de morte — e ocultação de cadáver.
Os julgamentos e as condenações
O primeiro julgamento ocorreu em novembro de 2011.
Savana foi condenada a 27 anos e oito meses de prisão. Raimundo recebeu uma pena de 27 anos e cinco meses.
Apesar de as defesas terem apresentado versões incompatíveis sobre a autoria principal, ambas recorreram da classificação jurídica do crime.
Os advogados argumentaram que a morte tinha sido planeada antes do roubo e que os bens retirados posteriormente não constituíam a motivação central do homicídio. Também sustentaram que os objetos e valores anteriormente enviados por Joelson tinham sido entregues voluntariamente.
O objetivo do recurso era substituir a acusação de latrocínio por homicídio qualificado, cuja pena mínima poderia ser inferior.
Em 2014, o recurso foi parcialmente aceite. Os julgamentos anteriores foram anulados e um novo júri foi marcado.
Os acusados permaneceram presos durante o processo.
O novo julgamento começou em 28 de janeiro de 2015. Ao contrário do que as defesas esperavam, a alteração não resultou numa redução das penas.
Savana Natália Barbosa Cruz foi condenada a 40 anos de prisão.
Raimundo Nonato recebeu uma pena de 38 anos e seis meses.
A decisão reconheceu a gravidade do planeamento, a utilização da confiança da vítima e os atos praticados para dificultar a identificação e ocultar o crime.
Uma confiança construída durante anos
O caso Joelson Ramos tornou-se emblemático não apenas pela forma como o crime foi executado, mas pela longa manipulação que o antecedeu.
Durante anos, Joelson acreditou estar a investir numa vida em comum. Enviou dinheiro, presentes, móveis e objetos pessoais. Deixou o emprego, organizou a mudança e comprou uma passagem para finalmente viver ao lado da mulher que considerava sua companheira.
Savana, entretanto, mantinha outro relacionamento e utilizava os bens de Joelson para construir uma vida com Raimundo.
Quando a chegada da vítima ameaçou expor a verdade, os dois decidiram preparar uma armadilha.
A ausência de controlo na entrada do motel dificultou a identificação inicial, mas uma sequência de pequenos vestígios conduziu a polícia até aos suspeitos: uma embalagem de doces, uma escova de cabelo, imagens de supermercado, matrículas de táxis, roupas exibidas na televisão, um computador e anotações deixadas na casa da vítima.
Joelson não foi atraído por um desconhecido. Foi chamado pela pessoa em quem mais confiava.
A relação que ele acreditava representar um futuro partilhado tinha-se transformado, sem que soubesse, num instrumento de exploração financeira e manipulação.
O plano concebido para apagar a sua identidade acabou por ser desmontado pelos próprios rastos deixados pelos responsáveis.
E o encontro que Joelson imaginava ser o início da vida que esperara durante anos tornou-se o último capítulo de uma promessa que nunca foi verdadeira.