Por Trás da Imagem Perfeita: as acusações contra um cirurgião e o relato de duas mulheres separadas por uma década

Por Trás da Imagem Perfeita: as acusações contra um cirurgião e o relato de duas mulheres separadas por uma década

Quando Maya Willow Sias chegou a Los Angeles, trazia consigo uma ambição definida. Natural da Carolina do Norte, queria construir uma carreira artística e tornar-se conhecida pela música. A aparência marcante abriu-lhe inicialmente as portas do mundo da moda, levando-a a participar em campanhas publicitárias e a surgir em capas de revistas. No entanto, para Maya, a atividade de modelo era apenas parte de um projeto maior.

Grande parte do dinheiro que recebia era investida na produção musical. Paralelamente, criou uma loja virtual de óculos com modelos próprios, negócio que ganhou visibilidade ao atrair clientes conhecidos do meio artístico. A combinação entre moda, música e empreendedorismo ajudou-a a construir uma presença pública, embora a sua vida pessoal também acabasse por despertar a atenção das redes sociais e da imprensa.

Antes de conhecer o homem que mais tarde acusaria de agressões e controlo, Maya tinha-se relacionado com homens significativamente mais velhos. Um desses relacionamentos foi com David Simonini, um jogador profissional de blackjack de 63 anos.

A relação tornou-se pública quando Maya começou a partilhar fotografias do casal. A diferença de idade e os presentes luxuosos oferecidos por David alimentaram comentários de que ela seria uma “sugar baby”, expressão utilizada para descrever mulheres jovens que mantêm relacionamentos com homens mais velhos e financeiramente abastados.

Maya rejeitava esse rótulo. Afirmava que trabalhava desde muito jovem e defendia que as suas conquistas profissionais eram resultado do próprio esforço. Ainda assim, a relação continuou a ser observada sobretudo através da perspetiva da diferença de idade e do estilo de vida luxuoso.

Durante aquele período, a sua loja cresceu e uma das suas músicas alcançou uma posição de destaque numa tabela de R&B do iTunes. Para os críticos, o sucesso estaria ligado ao apoio financeiro do companheiro. Para Maya, esse tipo de comentário ignorava os anos de trabalho e investimento pessoal.

A exposição pública acabou por afetar o casal, que posteriormente terminou o relacionamento.

Em abril de 2023, Maya encontrava-se em Miami quando participou numa festa realizada num iate. Foi nesse ambiente que conheceu Ammar Mahmoud, cirurgião plástico com cerca de 40 anos.

A primeira impressão foi positiva. Ammar apresentava-se como um homem educado, sofisticado e profissionalmente bem-sucedido. Tinha formação em engenharia biomédica, exercia medicina e estava ligado ao ensino. Pacientes descreviam-no publicamente como atento e dedicado.

Após trocarem contactos, Ammar começou a enviar mensagens frequentes, flores e convites para encontros. A aproximação foi rápida e acompanhada por presentes, demonstrações intensas de afeto e viagens internacionais.

Maya passou algum tempo no apartamento de Ammar, situado na Quinta Avenida, em Nova Iorque. Também viajaram juntos para o Dubai. Para ela, a relação parecia reunir romance, estabilidade e conforto.

Contudo, segundo a ação judicial apresentada posteriormente por Maya, o comportamento do médico começou a mudar depois de a relação se tornar mais séria.

O passado conjugal de Ammar já continha acusações semelhantes.

Em 2011, a mãe dele, também médica e de origem síria, viajou à Síria com o objetivo de encontrar uma possível esposa para o filho. Durante a viagem, conheceu uma dermatologista chamada Maisa Naciri.

Maisa desejava viver e trabalhar nos Estados Unidos. Depois de ser apresentada a Ammar, os dois começaram a conversar através de videochamadas. A relação à distância prolongou-se por aproximadamente dois anos.

Em 2013, Maisa mudou-se para os Estados Unidos e casou-se com ele. Depois do casamento, passou a viver com o marido e os sogros.

A adaptação ao país revelou-se difícil. Como não dominava plenamente o inglês e ainda não tinha conseguido validar as suas qualificações médicas, ficou financeiramente dependente da família do marido.

Segundo as acusações que apresentaria mais tarde, a humilhação começou logo nos primeiros dias. Maisa afirmou que a sogra insistiu em submetê-la a um exame íntimo para verificar se era virgem. O procedimento teria sido realizado dentro da residência familiar, sem condições médicas adequadas.

Maisa relatou ainda que a primeira experiência íntima com o marido foi traumática. Segundo ela, Ammar ignorou os seus pedidos para que agisse com cuidado e passou, a partir daquele momento, a impor uma relação marcada pelo medo.

Nos meses seguintes, as alegadas agressões tornaram-se mais frequentes. Em dezembro de 2013, de acordo com o processo, Ammar agrediu-a e tentou impedi-la de respirar utilizando uma almofada. Maisa declarou ter ficado com vários hematomas.

Em março de 2014, durante outra discussão, ele teria utilizado um livro para a atingir repetidamente. Mais tarde, expulsou-a da residência durante uma noite de inverno, quando ela vestia apenas um pijama leve.

Maisa afirmou igualmente que Ammar era obcecado com exercício físico e com o crescimento muscular. Utilizava substâncias hormonais e pressionava a esposa a transformar o próprio corpo.

Quando ela se recusou a utilizar os mesmos produtos, o marido, segundo a denúncia, começou a injetá-los nela contra a sua vontade.

Sem amigos próximos ou independência financeira nos Estados Unidos, Maisa procurou ajuda junto dos sogros. Contudo, afirmou que eles ignoraram as denúncias e apoiaram o filho.

Em segredo, passou a comunicar com os familiares na Síria, descrevendo aquilo que dizia estar a enfrentar e pedindo auxílio para regressar ao país.

Em 2014, conseguiu divorciar-se e voltar para a Síria.

Mesmo depois da separação, porém, o conflito continuou. Maisa acusou a antiga sogra de divulgar entre amigos e familiares a alegação de que ela não era virgem quando se casou. Segundo o relato, a afirmação teria sido baseada no exame realizado dentro da casa da família.

Num ambiente social conservador, a acusação teve consequências sérias para a reputação de Maisa e para as suas possibilidades de reconstruir a vida pessoal.

Determinada a procurar reparação, apresentou nos Estados Unidos uma ação contra o ex-marido, reunindo dezenas de alegações relacionadas com agressões físicas, abuso emocional e difamação.

O processo prolongou-se durante anos. Maisa enfrentava uma dificuldade comum em casos de violência doméstica: grande parte dos episódios teria ocorrido dentro da residência, sem testemunhas independentes.

Além disso, por ter acabado de chegar ao país, conhecia poucas pessoas fora da família do marido.

Na época, as acusações receberam atenção limitada. Ammar continuou a exercer medicina e a manter uma imagem profissional respeitada.

Quase uma década depois, o relato de Maya apresentaria vários elementos semelhantes.

Depois de aproximadamente três meses de relacionamento, Ammar propôs que ela se mudasse para o seu apartamento em Nova Iorque. Apesar de viverem em lados diferentes do país e de se conhecerem havia pouco tempo, Maya aceitou.

Acreditava que estavam a construir um futuro em conjunto.

Segundo Maya, os primeiros sinais de instabilidade surgiram durante festas e encontros sociais. Ammar consumia álcool e outras substâncias em excesso e mudava de comportamento ao longo da noite.

O homem carinhoso e sofisticado que ela tinha conhecido passava a agir de forma arrogante, possessiva e agressiva.

Num primeiro episódio, ele teria empurrado Maya. Noutra ocasião, levantou a mão contra ela. Maya disse-lhe que não aceitava aquele comportamento e que pretendia terminar a relação.

Ammar teria respondido com pedidos de desculpa, presentes e promessas de mudança. Esse ciclo de agressividade e reconciliação acabou por se repetir.

Ao mesmo tempo, segundo Maya, o médico começou a controlar os seus movimentos. Utilizava ferramentas de localização para saber onde ela se encontrava e acompanhava de perto as suas deslocações.

Maya inicialmente interpretou o comportamento como ciúme. Posteriormente, passou a considerá-lo uma forma de vigilância e controlo.

Ela acusou ainda Ammar de regressar frequentemente a casa sob o efeito de substâncias. Numa dessas noites, quando recusou manter relações íntimas, ele teria ignorado a sua recusa.

Durante algum tempo, Maya afirmou não ter compreendido plenamente que aquilo constituía violência sexual dentro de um relacionamento. Como muitas vítimas, acreditava que poderia tratar-se de uma obrigação associada à vida em casal.

O ponto de rutura ocorreu em junho de 2023, pouco tempo depois de se ter mudado definitivamente para Nova Iorque.

Na madrugada de 7 de junho, Maya acordou com ruídos provenientes da sala. Ao sair do quarto, encontrou Ammar acompanhado por três mulheres que, segundo ela, tinham sido contratadas por ele.

Maya confrontou-o e pediu que as mulheres abandonassem o apartamento.

De acordo com o processo, Ammar reagiu violentamente. Maya afirmou ter perdido a consciência durante a agressão. Quando acordou, apresentava extensas lesões no rosto e no corpo, incluindo uma fratura na região em torno do olho.

Ela alegou que, depois desse episódio, foi mantida praticamente isolada dentro do apartamento durante várias semanas.

Segundo Maya, Ammar pretendia esperar que as lesões se tornassem menos visíveis antes de permitir que ela saísse. Como era médico, assumiu o controlo dos medicamentos administrados à companheira.

Maya declarou que recebia substâncias que a deixavam desorientada, sonolenta e com pouca capacidade de reação.

A combinação entre ferimentos, medicação, isolamento e medo fez com que se sentisse incapaz de fugir.

Embora por vezes a porta não estivesse trancada, Maya temia que Ammar a localizasse caso tentasse escapar. Ele conhecia os seus contactos, acompanhava a sua localização e tinha recursos financeiros que, na perceção dela, poderiam ser usados para a perseguir.

Maya relatou que, ao tentar preparar as malas para abandonar o apartamento, foi novamente atacada. Ammar teria utilizado uma almofada para impedir a sua respiração, levando-a a perder a consciência.

Ao recuperar, apresentava novas lesões.

Outro episódio descrito no processo teria ocorrido quando Maya ouviu ruídos no quarto de hóspedes. Ao entrar no local, encontrou outra mulher. Antes que pudesse compreender a situação, foi atingida por ela.

Maya alegou que Ammar tinha pago à mulher para participar na agressão e que permaneceu a observar e a rir.

As lesões acumulavam-se. Segundo os documentos citados no relato, Maya apresentava fraturas na região ocular, danos no crânio e ferimentos nas mãos.

Ammar teria então decidido tentar corrigir pessoalmente parte das marcas no rosto da companheira.

Em vez de a encaminhar para um hospital ou para outro profissional, teria realizado um procedimento improvisado no apartamento. Segundo Maya, introduziu uma agulha na região da maçã do rosto e aplicou um produto de preenchimento na tentativa de ocultar a fratura próxima do olho.

O procedimento teria sido feito sem anestesia adequada.

Apesar da fragilidade física e emocional, Maya começou a preparar uma fuga. Quando recuperou o acesso ao telemóvel, registou fotografias das lesões e guardou possíveis provas.

Ao mesmo tempo, procurou demonstrar submissão para diminuir a vigilância do companheiro.

A oportunidade surgiu quando afirmou ter recebido uma proposta de trabalho como modelo em Los Angeles. Argumentou que a ausência prolongada começaria a levantar perguntas entre amigos e profissionais.

Convencido de que ainda a controlava, Ammar permitiu que ela viajasse.

Depois de sair do apartamento, Maya dirigiu-se à polícia e apresentou uma denúncia.

Foi nesse momento que descobriu que Ammar já tinha sido acusado anteriormente pela ex-mulher.

Para Maya, a existência do processo de Maisa demonstrava que o comportamento relatado por ela não era um episódio isolado.

Ammar foi detido, mas posteriormente libertado mediante pagamento de fiança. As acusações passaram a ser discutidas nos tribunais, enquanto ele continuava a exercer medicina e a negar as alegações.

Imagens divulgadas posteriormente mostraram o médico a sair da clínica e a circular acompanhado por outras mulheres. Para Maya, essas aparições reforçavam a sensação de que ele tinha retomado a vida normalmente, enquanto ela ainda enfrentava as consequências físicas e psicológicas do relacionamento.

Determinada a tornar o caso público, Maya começou a falar com a imprensa. Relatou que as lesões, o isolamento e o trauma afetaram a carreira de modelo, o projeto musical e a loja de óculos.

Também apresentou uma ação civil na qual exigia cerca de dez milhões de dólares por danos.

Ammar contestou as acusações. A sua defesa afirmou que as alegações ainda precisavam de ser demonstradas em tribunal e que a exposição mediática não poderia substituir o devido processo legal.

Parte da atenção pública voltou-se indevidamente para os relacionamentos anteriores de Maya com homens mais velhos. Críticos utilizaram o seu passado e a imagem de “sugar baby” para questionar a sua credibilidade.

Contudo, a escolha de um parceiro, a diferença de idade ou o estilo de vida de uma mulher não anulam o direito ao consentimento, à segurança e à proteção contra agressões.

O elemento mais relevante para a investigação era a semelhança entre os relatos de Maya e Maisa, duas mulheres de contextos culturais diferentes, que não se conheciam e que acusaram o mesmo homem de comportamentos comparáveis.

Ambas descreveram uma fase inicial marcada por romantismo, atenção e promessas de estabilidade. Em seguida, relataram uma mudança rápida para o controlo, o isolamento, a humilhação e a violência.

Nos dois casos, as mulheres afirmaram ter ficado dependentes ou afastadas das suas redes de apoio. Também descreveram pedidos de desculpa e promessas de mudança depois das agressões.

Essas semelhanças tornaram-se centrais para a discussão pública, embora a responsabilidade criminal por cada acusação continue a depender da avaliação das provas e das decisões judiciais.

O caso revela igualmente como a posição social pode influenciar a forma como uma denúncia é recebida.

Ammar era um médico estabelecido, professor e profissional reconhecido. Para os pacientes e colegas, apresentava-se como alguém atencioso e respeitável.

Maisa, por outro lado, era uma imigrante recém-chegada, sem independência financeira, sem domínio pleno da língua e sem uma rede de contactos fora da família do marido.

Maya tinha visibilidade pública, mas enfrentava preconceitos devido à sua imagem, à carreira de modelo e aos relacionamentos anteriores.

As duas mulheres encontraram obstáculos diferentes, mas semelhantes na essência: ambas tiveram a credibilidade questionada com base na sua condição pessoal, e não apenas nas provas que apresentaram.

O processo envolvendo Maya continua a ser uma disputa judicial na qual as alegações deverão ser examinadas pelos tribunais. Ammar mantém o direito de defesa e deve ser considerado inocente relativamente às acusações criminais que ainda não tenham sido definitivamente julgadas.

Ao mesmo tempo, os relatos reunidos mostram a importância de investigar padrões de comportamento, especialmente quando várias pessoas que não mantêm contacto entre si descrevem experiências semelhantes.

O caso também chama atenção para os mecanismos de controlo presentes em relações abusivas. O perigo nem sempre surge de forma imediata. Muitas vezes, começa com gestos de intensidade extrema, presentes, promessas e tentativas de acelerar a convivência.

Depois, o parceiro pode procurar controlar a localização, as finanças, as amizades, a comunicação e a autonomia da outra pessoa.

A alternância entre agressões e pedidos de desculpa pode dificultar a saída. A vítima passa a acreditar que o comportamento será temporário ou que a relação regressará à fase inicial.

Quando há isolamento, dependência emocional, medo e ausência de apoio, escapar pode exigir planeamento, documentação e ajuda externa.

Para Maya, fotografar as lesões, recuperar o telemóvel e criar uma justificação profissional foram passos essenciais para conseguir abandonar o apartamento.

Para Maisa, a única saída possível foi contactar secretamente a família e regressar à Síria.

Separadas por quase dez anos, as duas histórias convergem numa questão ainda sob análise judicial: se as acusações forem confirmadas, quantos sinais foram ignorados antes de as autoridades e a opinião pública reconhecerem um possível padrão?

Independentemente do desfecho final, o caso demonstra que prestígio profissional, riqueza, aparência ou formação académica não são garantias de caráter.

Também evidencia que nenhuma pessoa perde o direito à proteção por causa do seu passado amoroso, da sua profissão, da sua origem ou das escolhas que fez antes de denunciar uma situação de violência.

Por detrás da imagem de sucesso, luxo e perfeição, podem existir relações construídas sobre medo, controlo e silêncio. Romper esse silêncio é frequentemente o primeiro passo para que as acusações possam ser investigadas e para que outras possíveis vítimas reconheçam os sinais antes que a situação se torne ainda mais grave.

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