ADRIANO IMPERADOR: CONFESSOU QUEM DESTROÇOU A VIDA DELE 

ADRIANO IMPERADOR: CONFESSOU QUEM DESTROÇOU A VIDA DELE 

Olha este homem, 44  anos, camisola de equipa amadora, lavada demais, cerveja morna às 6:40  da manhã num boteco da Vila Cruzeiro. Ele paga em moedas. O dono não cobra. Ninguém olha para ele duas vezes. Ele é apenas mais um morador da favela. Em agosto de 2004, esse mesmo homem era o jogador mais  perigoso do planeta.

 22 anos. Camisola nove da seleção brasileira, melhor marcador da Copa América, marcou na final contra a Argentina aos 45 do segundo tempo, levou a partida para os penáltis e o Brasil ergueu  a taça em Lima. No Inter de Milão, com a camisola preta e azul, marcava golos que  pareciam impossíveis.

 A A imprensa italiana batizou-o de Liatori, o imperador, quatro campeonatos italianos, Taça de Itália, uma bola de ouro da Taça das Confederações na cabeça. Pelé  tinha dito numa entrevista que seria o próximo número um do mundo. Este homem  é o Adriano Leite Ribeiro, o mesmo do Boteco, o  mesmo imperador.

 22 anos depois, mesma favela. onde nasceu. Mesma rua, mesma  laje, mesma janela da cozinha que dá para o paredão, onde ele aprendeu a dar pontapés [a música] descalço aos 4 anos. A versão que conhece é a versão limpa, a versão que a Globo  passou, a do menino-prodígio que não soube lidar com a fama, a do alcoolismo, a da  depressão pela morte do pai.

 Hoje vai saber a outra versão, a que a mãe, Rosilda  guarda num envelope castanho dentro de um armário de quarto existem 28 anos e que nunca abriu. Fica até ao final porque vai descobrir o que Almer Leite Ribeiro encontrou três semanas  antes da morte. vai entender porque três contratos do Inter de Milão foram assinados  sem que a família soubesse.

 E o mais perturbador, vai ver o que está dentro de um envelope castanho guardado num armário na vila cruzeiro, que Roselda nunca mostrou  a imprensa, nunca mostrou ao filho e nunca vai mostrar a polícia.  Para perceber porque o imperador caiu aos 27 anos, sem que ninguém erguesse ele outra vez, precisamos voltar 40 anos atrás para uma  rua de barro da vila Cruzeiro, para um homem chamado Almir e para a noite em que este homem fez uma única [canção] promessa ao filho recém-nascido.

Vila Cruzeiro, 17 de Fevereiro de 1982. Almir Leite Ribeiro, pedreiro  de profissão, camionista nos fins de semana, antigo jogador de vársia, estava sentado no corredor da maternidade do hospital Getúlio Vargas  com uma camisola amarela do Vasco da Gama. Vasco era a sua vida, Vasco era a religião dele.

 Vasco, dizia  ele aos amigos, era a equipa que o filho dele ia defender. A enfermeira saiu com o menino no colo. 4 kg. saudável. Almira abriu a boca  para falar. E o que saiu, segundo Rosilda contou anos mais tarde numa entrevista a uma rádio comunitária da Penha, foram três frases: “Este vai ser jogador.

 Este aqui vai jogar no Vasco. Este aqui vai sair daqui.” A última frase é a que interessa. Este aqui vai sair daqui. Vila Cruzeiro, nos anos 80 não era uma favela qualquer. Era a porta de entrada do Comando Vermelho no complexo da Penha. Tiroteios três  vezes por semana. Caveirão da polícia a subir o morro às quartas-feiras.

 Bocas de fumo a cada três esquinas. O Almir trabalhava  onde dava. Pedreiro, empregado de mesa, motoboy. Rosilda lavava roupa para fora. A casa da família tinha dois quartos, um casa de banho sem porta e uma janela que dava para o paredão onde os miúdos jogavam à bola descalços. O Adriano começou descalço aos 4 anos. Tinha uma bola de meia recheada com sacos plásticos.

 Chutava contra a parede  de tijolo à vista até ao pôr do sol. A mãe dritava da janela, que era a hora do jantar. Ele fingia  que não ouvia há mais 5 minutos, sempre mais 5 minutos. Foi  naquela parede, naquele paredão, que dois homens iam ver Adriano pela primeira vez, não  Flamengo, no paredão, em 1989.

E o que aconteceu nesse dia, ninguém na família sabe contar até hoje. Mas a a partir desse dia, alguém  começou a aparecer todas as semanas na vila Cruzeiro. Não morava lá, não tinha negócio lá. Vinha ver o menino. Anota isto  porque esta figura volta a primeira vez que Adriano viu Almir chorar.

 Tinha 7 anos. O pai chegou a casa de madrugada, sentou-se no chão da sala e ficou a olhar para a parede  sem dizer nada. Rosilda colocou a mão no ombro dele. Almir não levantou os olhos. Adriano do quarto escutou três palavras que  não percebeu. Perdi o emprego. Nessa semana o menino comeu pão  com manteiga ao almoço durante seis dias.

 No sexto dia, Almir voltou a falar. disse ao filho que ia trabalhar como  camionista fora do rio e que ia enviar dinheiro todos os meses. Mandou três meses. No quarto mês parou. Rosilda nunca explicou ao filho o que tinha acontecido. O Adriano ia  ter 40 anos quando finalmente compreendesse aquele silêncio.

 Mas nessa altura, com 7,  8, 9 anos, só sabia que o pai sumia. O Almir bebia. Não todos os dias, mas quando bebia, bebia até cair. Voltava para casa às 4 da manhã, batia à porta com a chave esquecida no bolso, gritava o nome  de Rosilda e Rosilda abria sem reclamar. Adriano ouvia tudo do quarto que partilhava com a irmã mais nova. A irmã chorava baixinho.

 Ele fingia que dormia. Numa  destas madrugadas, com 9 anos, Adriano levantou-se da cama e dirigiu-se para a sala. Almir estava sentado no chão, tinha uma carteira aberta no colo. Dentro da  carteira, uma foto de família tirada na Quinta da Boa Vista. Almir olhava para o foto e chorava sem som.

 Adriano não disse nada, voltou para a cama. Aquela foto, aquela foto exacta na carteira do pai vai voltar no final  desta história. Guarda essa imagem porque ela volta. Décadas mais tarde, num programa de televisão  em 2010, Adriano falou do pai pela primeira vez em público. Disse que o pai era o herói dele.

 Disse que o pai era também o maior peso que carregou. Não falou mais do que isso. A entrevista terminou aí. O entrevistador insistiu três vezes. O Adriano  pediu uma pausa, foi ao casa de banho e voltou 5 minutos depois  com os olhos vermelhos. A produção cortou as questões seguintes do programa final. Esse troço cortado existe em algum ficheiro  da emissora. Ninguém viu desde então.

 O o futebol entrou na vida do menino através de Almir. Não através do Vasco.  Almir, apesar de torcer pelo Cruzmtino, levou o filho ao primeiro treino numa escolinha  do Bom Sucesso, quando Adriano tinha 9 anos. Cruzou meia hora de favela a pé com o miúdo pela mão.

 Pagou a primeira mensalidade com dinheiro  emprestado. Sentou-se na bancada de cimento e ficou a olhar o filho correr atrás de uma bola durante 40 minutos  sem dizer uma palavra. No caminho de regresso, segundo Rosilda contou anos mais tarde, Almir disse uma única frase ao filho: “És melhor  do que todos os outros.

 Não esquece isso nunca. O primeiro técnico que viu Adriano jogar a sério foi Eduardo  Magalhães, treinador das camadas jovens do Flamengo na Gávia. O menino tinha 12 anos. Magalhães  era um homem baixinho, careca, com uma caderneta verde no  bolso da camisa onde anotava nomes. Olhou para Adriano durante 10 minutos numa peneira no campo do Havai da Tijuca e chamou o pai à parte.

 Disse duas palavras.  Este vem. Almir não entendeu. Magalhães repetiu: “Este vem para o Flamengo. Amanhã traz o documento  dele. Adriano ia voltar para casa nessa tarde, sentar-se na laje e olhar a Penha lá em baixo durante  3 horas sem falar com ninguém. A mãe perguntou se tinha acontecido alguma coisa.

 Ele respondeu que não, mas ia recordar aquela tarde no resto da vida. É aqui que a história  começa a ser interessante, porque Eduardo Magalhães, este técnico que anotou o  nome de Adriano numa caderneta verde, não era um homem qualquer, era amigo de alguém. Alguém que vivia no Rio, mas tinha escritório em São Paulo.

 Alguém que viajava a Itália três  vezes por ano. Alguém que já tinha intermediado três transferências de jovens locais para clubes europeus na década anterior. Esse alguém ia entrar na vida da  família Leite Ribeiro 4 anos depois. Ia entrar e nunca mais ia sair. Guarda esse nome porque ele volta. A subida de Adriano pelas categorias do Flamengo durou 6 anos.

 Sub One Trees, Sub One F, Sub 17. Em todas marcou mais golos do que qualquer outro, mas houve uma noite em Maio de Nesi Night 9, na semifinal do Campeonato Brasileiro sub one set contra o Cruzeiro em Belo Horizonte, em que aconteceu uma coisa que ninguém na imprensa viu. Adriano tinha 17 anos. Empate one a one.

 Aos fortes  2 minutos da segunda parte, recebeu uma bola na linha lateral, driblou dois defesas e rematou da intermediária. A bola entrou no ângulo do guarda-redes celeste. Vitória do Flamengo no balneário depois do jogo.  Um homem que ninguém conhecia entrou sem se anunciar. vestia fato escuro, tinha um caderno na mão.

 Falou 3  minutos com o roueiro. Pediu para conversar com Adriano em particular. O roueiro chamou  Eduardo Magalhães. Magalhães olhou o homem, cumprimentou com a cabeça, sem aperto de mão, sem palavras, como se já se  conhecessem há tempos. Almir, que tinha viajado com o filho até  Belo Horizonte, viu tudo da porta, não compreendeu.

 Naquele momento,  não tinha como compreender. Ia compreender em 24, tr semanas antes de morrer. Este  homem do fato escuro é a mesma figura que ia aparecer nas bancadas do Maracanã, um ano depois, no jogo contra o Madureira e na sala de reuniões de Milão, do anos depois. e em três contratos paralelos que Adriano ia assinar entre 2001  e 2007.

 Mas a esta figura a gente volta, guarda  este nome porque ele volta. Em 2000, com 18 anos, O Adriano treinava  com os profissionais. No dia 14 de janeiro de 2001, num jogo da Taça Guanabara contra o Madureira no Maracanã, com 16.000 1 pessoas.  Entrou aos 30 minutos do segundo tempo, recebeu uma bola na intermédio,  rodou em cima de um defesa e rematou de pé esquerdo um míssil que entrou no ângulo.

 O estádio explodiu. Almir da bancada do Sul, levantou as duas mãos e ficou de pé durante um minuto inteiro sem se mexer. Rosilda chorava ao lado. O menino voltava  do meio campo, apontando para a família. apontou, acenou, sorriu. Não sabia que aquele golo, aquele exato golo naquela exata noite ia mudar tudo, porque o mesmo homem do fato escuro estava na tribuna de honra.

 Tinha o mesmo caderno. Anotou três coisas. A primeira era o nome de Adriano. A segunda era uma cifra em dólares. A terceira, vamos revelar mais pro  final. O ano era 2000. Adriano tinha 18 anos, contrato profissional pelo Flamengo, um salário de R$ 4.000 por mês e uma família inteira para sustentar.

 Almir tinha parado de trabalhar como camionista porque sentia dores no peito. Rosilda continuava a lavar roupa para fora porque não confiava em viver só do salário do filho. A irmã mais nova de O Adriano ia para  escola pública da Penha de autocarro com medo dos tiroteios da semana. A casa  seguia com dois quartos.

 A janela seguia dando para o paredão, onde o menino tinha aprendido a dar pontapés. Em janeiro de 2001, num jogo amigável contra o Fluminense no  Maracanã, Adriano marcou três golos em 45 minutos. Chapéu trick. No primeiro tempo, a imprensa enlouqueceu. No dia seguinte, três Os jornais cariocas tinham a mesma manchete. Imperador do Flamengo.

Apareceu pela primeira vez o apelido. Não foi um jornalista que inventou. Foi um locutor de rádio chamado Washington Rodriguez, conhecido  como Apolinho, que comentou o seu programa na manhã do dia 16 de janeiro, este menino joga como se fosse imperador, comandando todo o exército. A palavra pegou. Em fevereiro já era oficial.

 Em março assinou o primeiro contrato de publicidade da carreira. Em abril chegou a primeira proposta da Europa. Em maio chegou a segunda. Em junho chegou a terceira. A proposta que pegou foi a do Inter de Milão. 15 milhões de euros pela transferência. Para o Flamengo, 60% dos direitos económicos.

 O resto ficava distribuído. O Adriano  ia receber salário de 3 milhões de euros por ano. Mais bónus por golo. Para a família, Leite Ribeiro era dinheiro de outro planeta. Dinheiro que ninguém na aldeia  cruzeiro tinha visto na vida. Dinheiro que ia comprar a casa nova em Barra de Guaratiba,  a casa nova no Recreio, os dois carros importados, a piscina, o portão automático e os móveis italianos  que Rosilda nunca tinha pedido, mas que apareceram um dia entregues por um camião que ela não chamou. Mas tem

uma coisa que ninguém contou na altura e esta coisa está  no centro do que está prestes a compreender. Os contratos que Adriano assinou entre  2001 e 2003 com o Inter de Milão não foram só três, foram seis, três oficiais registados  na Federação Italiana e na CBF com números públicas e três outros.

 Três contratos paralelos assinados em  escritórios separados, em hotéis de Milão e Roma, com testemunhas que não eram da família. Quem assinou estes três contratos foi Adriano. Mas Adriano tinha 19,  20, 21 anos quando assinou. Não tinha advogado próprio, tinha um procurador. E este procurador era  a mesma pessoa que Eduardo Magalhães tinha apresentado à família anos antes.

 A mesma pessoa que tinha escritório em São Paulo e Milão. A mesma  pessoa que ia ganhar uma comissão sobre cada um desses contratos paralelos. E a mesma pessoa que estava na bancada do Maracanã na noite em que Adriano marcou aquele primeiro golo contra o Madureira. A mí e a descobrir  estes três contratos paralelos, não em 2001, não em 2002, em julho de 2004, três semanas antes de morrer.

 E o que o Alm iria fazer com esta descoberta é uma das três coisas  que ninguém sabe até hoje. E aqui entra um pormenor que muda a leitura inteira da história. Em maio de 2001, antes  de Adriano embarcar para Milão, Almir teve uma conversa fechado com o procurador num restaurante  na Barra da Tijuca.

 A conversa durou 3 horas. Não havia mais ninguém na mesa. Rosilda esperou no carro estacionado em frente ao restaurante o tempo inteiro. Quando Almir saiu, segundo ela contou anos  depois, a uma vizinha numa entrevista informal que circulou em áudio entre 2018 e 2020  nos grupos de WhatsApp da Penha. Ele estava pálido.

 Sentou-se no carro, ligou o motor e conduziu sem dizer uma palavra até em casa. Na manhã seguinte, foi ao Flamengo, falou com Eduardo  Magalhães e voltou ainda calado. Foi nessa semana que ele comprou a caderneta verde. Não foi LT, foi o Almir. O Almir comprou uma caderneta verde igualzinha à de Eduardo Magalhães, com capa dura, espiral metálica e 50 páginas.

 começou a anotar nela tudo o que o filho fazia: salário, bónus, comissão, datas de pagamento, morada dos bancos, nome dos representantes.  Almir não era contabilista. Almir era pedreiro, mas Almir tinha uma intuição que  ia mostrar-se correta 22 anos depois. Esta caderneta verde estava com o Almir no dia em que morreu.

 E esta caderneta  verde está ainda hoje dentro de um envelope castanho num armário de quarto na vila do Cruzeiro. Em julho de 2001, Adriano chegou  a Milão, aterrou no aeroporto de Malpensa às 11 de da manhã de uma  terça-feira, sozinho, com uma mochila e duas malas. Não falava italiano, não falava inglês, falava português com sotaque carioca pesado e sabia dizer obrigado e tudo bem em espanhol.

 O Inter  de Milão o recebeu-o como se ele fosse o futuro do clube. Quatro câmaras de TV, três jornalistas,  uma camisola preta e azul com o número 10 nas costas, escolhido especialmente para foto. Adriano sorriu para todas as câmaras. À noite, no Hotel Príncipe de Savoia, 45045º andar,  vista para o Duomo iluminado, aconteceu uma coisa que ninguém na imprensa contou.

  O Adriano estava sentado na cama de casal, cama de 800€ por noite, lençol de algodão egípcio, frigorífico cheio, cesto de frutas que ele não tocou. Telefone do quarto tocou às 11:17  da noite. Era a recepção. Um homem queria subir para conversar. Vestia fato escuro. O mesmo fato escuro do balneário de Belo Horizonte do  anos antes.

 O mesmo fato escuro da tribuna do Maracanã. Adriano autorizou. O homem subiu, trouxe três pastas. Adriano não falou italiano, o homem falou português. Conversaram durante 1 hora 40 minutos. Adriano assinou cinco documentos nessa noite. Não leu nenhum. O homem tirou cada folha da pasta, marcou  onde Adriano devia assinar e o Adriano assinou.

 A uma da manhã, o homem saiu do quarto. O Adriano ficou sentado  na cama, olhou para o duomo, ligou para a mãe, falou quatro frases. Mãe, cheguei, está tudo bem, não consigo dormir. Volta amanhã. Não. Rosilda chorou ao telefone. Almir, segundo Rosilda, contou numa entrevista  posterior, tirou o telefone da mão dela e disse uma coisa só ao filho.

 Cuida do teu nome Adriano não entendeu. Ia entender apenas anos depois. Nesse momento, Adriano não fez a pergunta que devia. Não perguntou ao Pai porque [a música] tinha dito aquilo. Não contou ao Pai que tinha assinado cinco documentos nessa mesma noite. Não disse a ninguém, foi dormir. Cinco documentos. Quarto 504.  Hotel Princípe de Savoia.

 11 de julho de 2001. Anota esta data porque volta no ato seis. Os primeiros seis  meses no Inter foram um inferno civilizado. Adriano marcou três golos nos primeiros quatro jogos. A claque cantou o seu nome no José Measa, pela primeira vez em Setembro de 2001 num jogo contra o Relas Verona. Mas fora de campo, o menino estava sozinho.

 Bebia escondido no quarto  do hotel, onde viveu os primeiros três meses. Cerveja primeiro, whisky depois. ligava para a casa de madrugada a chorar. Rosilda ligava para o Flamengo a pedir informação. O Flamengo passava a ligação para o procurador. O procurador passava a ligação  para o Enter. Ninguém atendia.

 Em janeiro de 2002, em circunstâncias que nunca foram  totalmente esclarecidas, Adriano foi emprestado ao Parma. Foi nesta  janela de transferência que o segundo contrato paralelo foi assinado. Comissão paga quem assinou. 9%. Em euros, em dinheiro vivo, numa conta de  Mónaco que não estava no nome de Adriano.

 Você que assiste a isto, tem atenção a esse nome. Môco, Janeiro de 2002,  9%. Estas três coisas voltam no ato  6.º Guarda esse nome porque ele volta em Parma. Adriano marcou mais golos, voltou ao Inter, marcou ainda mais golos. Em Julho de 2003, num jogo amigável contra o Sporting em Lisboa, ele marcou aquele golo que ainda hoje circula [a música] pelos canais de YouTube com mais de 80 milhões de de visualizações.

 Apanhou a bola na linha do meio-campo, deixou três defesas para trás e bateu com o pé esquerdo de fora da área. A  bola explodiu na rede. O comentador italiano gritou Limperatore no microfone a primeira vez que alguém disse o apelido em italiano. Estava a nascer mito. Adriano tinha 21 anos. Faltava um ano para a sua vida virar  de pernas para o ar.

 Mas o jogador ainda não sabia disso. Almir já sabia. Air tinha começado a juntar exames trs meses antes. Em paralelo a tudo isto, o sistema funcionava como um relógio. A CFF cobrava uma taxa de transferência  sobre cada negócio fechado. A Globo fechava contratos de imagem com a empresa de marketing do procurador.

 A Internacional renovava os contratos  a cada janela, enquanto pagava comissões que somavam milhões. E nos bastidores, num escritório de São Paulo, que ficava num andar inteiro de um edifício na Avenida Faria Lima, três pessoas  se reuniam-se toda a quarta-feira para decidir o próximo passo da carreira do imperador.

 Adriano nunca esteve nessa sala, Almir tampouco. Mas Almir, três semanas antes de morrer, ia descobrir a existência  dessa sala. E aqui entra o segundo grande buraco da versão oficial. Julho de 2004, Lima, Peru, final da Copa América, Brasil contra a Argentina. Adriano tinha 22 anos, era o melhor marcador do torneio e jogava com a camisola no da seleção.

 Aos 45 minutos da segunda parte, Brasil perdia por 2-1. Centro de Lima silenciado. Ronaldinho Gaúcho na lateral pedindo a bola. Adriano caminhava lentamente pela área. Tinha jogado 90  minutos com uma contusão no joelho direito que ninguém na imprensa sabia. tinha tomado três comprimidos de  anti-inflamatório no intervalo.

Mancava sem demonstrar. Foi nesse minuto que tudo mudou. Cruzamento de Maicon vindo da direita. A bola subiu acima do defesa Rin. Adriano saltou de costas, pegou de cabeça  na nuca, quase deitado no ar, e a bola fez uma curva impossível para o interior do ângulo da baliza esquerda do guarda-redes Roberto Abondanzieri.

Golo! 2 a do. O Brasil ia para os penáltis. O Brasil ia ganhar a Copa América. Adriano correu em direção aos adeptos brasileira na bancada lateral. Tirou a camisa, levantou os braços, apontou para o céu. Este gesto que toda a imprensa interpretou como dedicação ao avô falecido ia ter outra  explicação três semanas depois.

 Aquela noite no Peru foi a noite mais alta da vida de Adriano  Leite Ribeiro. O hotel oficial da comitiva brasileira havia  festa até às 3 da manhã. Adriano ficou no seu quarto com Almir, que tinha viajado para acompanhar o filho. Os dois sozinhos. O Almir tinha tirado a caderneta verde da mala, tinha aberto na página 23.

 tinha mostrado três  apontamentos ao filho. Adriano leu. Adriano ficou pálido. Adriano disse uma coisa  que a Rosilda ia contar anos depois a uma sobrinha numa conversa de cozinha que ninguém gravou.  Adriano disse: “Pai não digas isso com ninguém. Ainda não prometeu: Voltou ao Brasil dois dias  depois, foi direto para a Vila Cruzeiro e começou a fazer perguntas.

 Você que está a ver  este vídeo, se alguma houve um pai que descobriu uma coisa que não devia, ou se foi pai e descobriu algo sobre o seu filho que não soube contar, [a música] pensa por um segundo no peso daquela mala que Almir desfez ao chegar ao Rio. Pensa no  peso da caderneta verde que ele guardou-o de volta no armário.

 Pensa no que custa um homem de 53 anos, pedreiro, ex-jogador de vársia,  tendo de enfrentar sozinho um sistema que movimenta 15 milhões de euros por jogador. Almir não tinha advogado. Almir não tinha jornalista. A Air tinha uma caderneta  verde, uma raiva surda e três semanas de vida. Em agosto de 2004, Adriano  regressou a Milão para a pré-época.

O Enter renovou o seu contrato por mais 4 anos. Mansão de 400 m²  em cesano moderno com piscina aquecida, dois andares, sete quartos vazios. Mercedes-Benz classe S preto, relogeiro pessoal que ia uma vez  por mês ajustar três cronógrafos. cozinheiro italiano que preparava massa a carbonara para um homem que  comia sozinho, motorista que conduzia até a porta do centro de formação e voltava vazio.

 A revista Dom  Balon colocou-o na capa da edição de setembro. A imprensa italiana já  dizia que ele seria o melhor jogador do mundo em 3 anos. Pelé concordou numa. Entrevista: Maradona concordou noutra. Naquele setembro, Adriano comprou um anel de diamantes para mãe. Comprou numa ourivesaria  do centro de Milão, na via Monte Napoleone.

Pagou 28.000€ 1000€ em dinheiro vivo. O joalheiro embrulhou-o em veludo vermelho. Adriano enviou pelo Correio Expresso paraa Vila Cruzeiro. Rosilda recebeu numa terça-feira de manhã, assinou o protocolo, levou a caixa para dentro de casa, sentou-se à mesa da cozinha e abriu. Olhou para o anel  durante 2 minutos, não chorou, não sorriu, pegou no anel, voltou a colocá-lo na caixa, fechou a tampa e guardou  na gaveta da cómoda do quarto, debaixo de uma toalha de banho dobrada. Nunca colocou. Não

estava lá em 2010,  não estava lá em 2015, não estava lá em 2020. Em janeiro deste ano, em  2026, alguém da família abriu este gaveta pela primeira vez em 22 anos. O anel ainda lá estava, debaixo da mesma toalha. A toalha tinha amarelado, o anel  não. Quem abriu a gaveta foi Rosilda.

 E o motivo contamos no final. Em paralelo,  dentro do quarto da mansão de Sesano Maderno, nas noites em que o motorista tinha saído, em noites em que o cozinheiro tinha saído às 9, Adriano bebia sozinho, sem música,  sem televisão, com o telefone desligado. Uma garrafa de whisky escocês começada à segunda-feira  chegava ao fundo na quarta-feira.

 Não era depressão ainda, era preparação para a depressão. O médico do Enter, segundo um relatório interno,  que vazou em 2017 num livro publicado em Itália e nunca traduzido para português, percebeu pela primeira vez algo de errado em outubro de 2004. mediu o fígado de Adriano, mediu as enzimas, sugeriu acompanhamento.

  O procurador do jogador, a mesma figura que tinha intermediado a transferência em 2001, vetou o acompanhamento. Disse à direcção que  Adriano era jovem, era brasileiro, era de festa, que não havia problema. Aquele veto naquele outubro, naquela quarta-feira  específico, ia custar a Adriano 22 anos de vida útil.

 E aqui está o padrão que ninguém quis ver na altura, porque os primeiros sinais  já existiam mesmo antes do auge. Em 2002, no Parma, Adriano tinha desaparecido três dias antes de um jogo contra o Lázio. Voltou sem explicação. O técnico Cesare Prandelli, segundo entrevistas posteriores dele nas rádios italianas,  tinha conversado com o procurador.

 O procurador tinha dito que Adriano estava com a mãe no Brasil. Era mentira. Adriano estava no Mónaco sozinho num quarto de hotel a beber em 2003. No Inter,  repetiu. Sumiu dois dias. Voltou sem explicação.  Em 2004, ainda antes da morte de Almir, desapareceu uma vez.

 O padrão já lá estava, mas em 2004 a imprensa só  viu os golos. A imprensa não quis ver o resto. Já sabíamos que havia três contratos paralelos. Mas isso não é o mais grave.  O mais grave veio depois, quando Almir regressou à Vila Cruzeiro em julho de 2004 e fez uma única ligação para uma única pessoa, uma chamada de 14 minutos para um nome que estava anotado na página 32 da caderneta verde.

 Esse nome vamos revelar no ato seis, mas a essa ligação  vamos voltar. A vida de Adriano em Milão entre agosto e outubro de 2004. Funcionou  em duas camadas, a camada visível, golos no campeonato italiano, golos na Liga dos Campeões,  capa de revista, fotos com a namorada do época em restaurantes de Porto Servo, anúncios de chuteiras filmados em estúdio,  a camada invisível, bebedeiras solitárias, chamadas para o Brasil de madrugada, conversas com Almir que terminavam em pai. Não conta para a

mãe ainda e uma sensação crescente de que algo  estava errado com os números das contas bancárias. Adriano nunca olhava extrato. Tinha um contabilista. O contador era  indicado pelo procurador. O procurador era a mesma pessoa que tinha intermediado tudo desde  1999. E depois chegou o dia 5 de agosto de 2004.

Era uma quinta-feira. O Adriano tava em Milão. Tinha treinado de manhã. Almoçou no apartamento sozinho. Por volta das 3 da  tarde, o telefone tocou. Era a Rosilda. Era a voz de Rosilda num tom que Adriano nunca tinha ouvido  antes. Rosilda disse uma única frase: três palavras. Três palavras exatas. Vem para casa.

Adriano não perguntou por sabia.  apanhou o primeiro voo que conseguiu, saiu de Milão às 8 da noite, aterrou no Galeão às 6 horas da manhã do dia 6, foi direto  para a vila Cruzeiro de Táxi, subiu à escada do beco a pé, bateu à porta de casa, Rosilda abriu, Almir estava  na sala, deitado no chão, coberto por um lençol branco, não tinha mais  como acordar.

 A versão oficial registada em relatório do Hospital Getúlio Vargas falava em paragem cardiorrespiratória  decorrente de complicações cardíacas. O Almir tinha 53  anos, hipertensão controlada, sem antecedentes graves, tinha morrido  sozinho na sala, sentado no sofá a ver televisão.

 Segundo Rosilda  contou às autoridades quando elas chegaram. Era a versão oficial, era a versão que saiu nos jornais cariocas no dia 7. Era a versão que Adriano tinha que aceitar, mas tinha um pormenor. Um pormenor  que só Rosilda viu nessa manhã antes de chamar a ambulância. A caderneta verde  de Almir, que guardava sempre no bolso traseiro das calças, estava em cima  da mesa da sala, aberta numa página específica, página 32.

São 6:42  da manhã do dia 6 de Agosto de 2004. Adriano Leite Ribeiro tem 22  anos. Está de pé na sala de uma casa de dois quartos da Vila Cruzeiro, descalço com a camisa amarrotada da viagem e olha pro  corpo do pai coberto por um lençol que a vizinha do andar de cima tinha levado.

 A luz do sol bate na janela da  sala. A janela é a mesma janela onde Adriano chutava a bola de meia. Aos 4 anos. Não há música, não há televisão, não há barulho de rua, porque a rua ainda dorme. Há um cheiro que Adriano nunca esqueceu. O cheiro do pai morto, dóce, pesado, não é um cheiro mau, é o cheiro da  ausência absoluta.

 Rosilda está sentada numa cadeira de plástico junto ao corpo. Não chora, tem os olhos abertos. Está a olhar para a parede do fundo da sala. As mãos dela  tremem, mas não muito. Adriano aproxima-se, senta-se no chão ao lado dela, não diz nada. Rosilda também não. Os dois ficam assim por  1 hora e 12 minutos. Segundo Adriano contou anos mais tarde numa entrevista  a um podcast que circula apenas no YouTube, 1 hora e 12 minutos  sem dizer uma palavra.

Em algum momento dessa hora e 12 minutos, Rosilda esticou o braço, alcançou  a caderneta verde que estava em cima da mesa e colocou-o no colo de Adriano sem  falar. Adriano olhou, não abriu, pôs a mão em cima. A ambulância chegou às 8h30. Os funcionários colocaram Almir num saco preto. Levaram-no pela escada do beco.

 A vizinhança começou a aparecer nas janelas. Algumas mulheres choravam. O carro funerário  foi-se embora. O velório ia ser no dia seguinte, no cemitério do Caju, no funeral mais discreto que a família conseguiu organizar. O Adriano voltou  ao apartamento de Milão dois dias depois. levou a caderneta verde dentro de um envelope castanho na mala de mão.

 Ninguém viu, nem Rosilda que o levou ao aeroporto e abraçou-se no portão de embarque durante 2 minutos,  sem dizer nada. A primeira semana de Adriano em Milão depois do funeral foi a semana mais documentada da sua vida. Embora não soubesse na altura, o procurador visitou-o três vezes. A direção do O Inter mandou flores.

 Roberto Mancini, técnico  da época, falou com -lo durante 15 minutos no centro de formação. Adriano disse que estava bem, voltou a treinar no segundo dia.  Ao quinto dia marcou um golo em jogo amigável contra o Regina. No sétimo dia, num jogo da  Liga dos Campeões, frente à Sampdória, marcou de novo, apontou para o céu, tirou a camisola.

 A claque cantou o seu nome durante 10 minutos. Os jornais italianos disseram que  o imperador tinha voltado, que a tragédia do pai não tinha afectado o jogador. Mentira. O imperador não tinha voltado. O imperador tinha começado a desaparecer. Nessa noite, depois do jogo contra o San Pandória, Adriano regressou ao apartamento de Cesano Madhista  deixou-o à porta.

 Ele subiu sozinho no quarto do segundo andar, tirou o relógio, descalçou os ténis, sentou-se no chão da sala com uma garrafa de chivas regalos que tinha sido oferta do presidente da Câmara de Milão na semana anterior. Bebeu metade da garrafa em 40 minutos, pegou no telefone, ligou para o número fixo da casa da mãe  na aldeia do Cruzeiro.

Rosilda atendeu ao quinto toque. Adriano não conseguiu falar, chorou ao telefone durante 23 minutos, sem dizer uma palavra inteira. A Rosilda também não falou, só ficou na linha. Quando Adriano desligou, A Rosilda continuou  com o telefone no ouvido durante mais 3 minutos, segundo ela contou anos mais tarde,  a uma irmã sua que ainda vive em Bango.

Aquela noite foi o ponto de não retorno. Não foi a noite da morte de  Almir, foi a noite seguinte. ao primeiro golo depois da morte de Almir. Porque foi nessa noite que Adriano se apercebeu  sozinho no chão de um apartamento de 400 m² que tinha perdido a única pessoa que sabia ler a caderneta verde.

 Almir era o leitor da caderneta. Almir era a memória da caderneta. Almir era quem ia perceber o que estava escrito nas [canções] 32 páginas anotadas com letra de pedreiro. Sem Almir, a caderneta  tornava-se umjeto. Sem Almir, os três contratos paralelos tornavam-se papéis sem ninguém para questionar.

 Sem  Almir, o procurador continuava a ser procurador. Sem Almir, o sistema  seguia girando como tinha girado desde 1999. Adriano guardou a caderneta no fundo de uma mala de couro castanho  que viajava com ele a cada mudança de cidade. Foi a Roma, levou a mala, regressou ao Inter, levou a mala, voltou ao O Flamengo em 2009, levou a mala.

  Em algum momento desta peregrinação, a caderneta saiu da mala e entrou num envelope castanho. Em algum outro momento, o envelope castanho saiu de Itália. e foi parar à aldeia Cruzeiro. Rosilda guardou-o no armário do quarto que tinha sido dela e  de Almer. Está lá até hoje. Ninguém abriu nos últimos 22 anos.

 Nem Adriano, nem Rosilda. E aqui é onde a história se torna mais escura, porque entre agosto de 2004 e dezembro de  2008, Adriano viveu aquilo a que a imprensa chamou de a era das ausências. Mas a imprensa contou apenas metade, a metade que apareceu nas capas. Sumiu de treinos do Inter mais de 20  vezes.

 Apareceu com hematomas em festas de Milão. Foi expulso de uma discoteca em Roma em 2007.  Foi apanhado bêbado num restaurante de cesano moderno por um paparazo italiano que vendeu as fotos à Gazeta Delo  Desporto. A outra metade ficou guardada. Há uma noite específica que ninguém contou. 14 de fevereiro de 2007, dia dos namorados em Itália.

 Sesano moderno. Adriano estava sozinho no segundo andar da mansão. Tinha brigado com a namorada da altura na semana anterior. O cozinheiro tinha  saído às 9 da noite. O motorista tinha sido dispensado às 11. Adriano  abriu a segunda garrafa de whisky da semana, sentou-se no chão da sala, pegou no telefone, não ligou à mãe, ligou ao número fixo da casa que tinha sido de Almir.

 Antes de Almir  morrer, sabia que ninguém ia atender. O telefone tocou 11 vezes. Adriano ouviu, desligou, voltou a marcar 11 vezes. Repetiu o ritual durante  3 horas. Naquela mesma noite, segundo um relatório interno do clube que vazou anos mais tarde, o procurador entrou no apartamento utilizando uma chave que tinha sem permissão.

 Encontrou Adriano a dormir no chão, levou-o à cama, saiu. No dia seguinte de  manhã, Adriano não não se lembrava de nada. A imprensa nunca soube dessa noite. Os Enter nunca  registou oficialmente. O procurador nunca contou. Mas alguém da casa contou anos depois? Há alguém que contou a alguém que escreveu um livro em Itália  em 2017.

 Este livro nunca foi traduzido para português. Guarda esse nome porque ele volta. Em julho de 2007, Adriano foi emprestado ao São Paulo. Foi nesta janela que o terceiro contrato paralelo foi assinado.  Os pormenores desse contrato a gente revela no ato seguinte. Mas o que aqui importa é o que aconteceu dois anos depois.

 O ponto exato em que Adriano  percebeu que tinha perdido tudo não foi 2004, foi novembro de 2009 no balneário do Maracanã. Depois de marcar o golo do título do Brasileirão pelo Flamengo  num jogo histórico contra o Grêmio. O estádio inteiro cantou o seu nome. A adeptos do Flamengo.  80.

000 pessoas, gritou imperador durante 15 minutos. Adriano voltou ao balneário, sentou-se no banco de madeira do canto ao lado das chuteiras  enfileiradas, tirou a camisa, olhou para o teto manchado de humidade e chorou sem som, sem soluço, lágrimas a escorrer pelo rosto durante 6 minutos seguidos. Os companheiros  pensaram que era emoção pelo título. Não era.

 Era a primeira vez desde Agosto de 2004. em que o Adriano  tinha ficado feliz por uma coisa. E pela primeira vez ele percebeu que não tinha com quem partilhar essa felicidade.  A Mir não estava lá e sem Air marcar golo, ganhar título,  voltar a ser campeão não significava mais nada.

 Naquela noite, depois da festa  do título, Adriano voltou a um apartamento alugado em Copacabana, abriu a mala  de couro castanho, tirou o envelope castanho de dentro e fez uma coisa que ninguém  esperava. Pegou no telefone e ligou à mãe. Rosilda atendeu ao terceiro toque. Adriano disse  uma única frase.

 Mãe, eu sei o que o pai descobriu. Rosilda ficou em silêncio. Adriano desligou. Os dois nunca mais falaram sobre o assunto. A queda já tinha acontecido,  só estava a demorar para ficar oficial. Mas a esta figura que esteve  presente em cada uma destas viragens, esta figura que ainda está viva e que tem nome, voltamos  agora.

Guarda esse nome porque ele volta. Em fevereiro de 2024, Rosilda Leite Ribeiro deu uma entrevista a um programa  de rádio comunitária da Penha. A entrevista teve a duração de 14 minutos. Foi a primeira e única vez  em 20 anos que ela falou em público sobre o filho. O entrevistador, um locutor de bairro chamado Carlinhos Maravalha, perguntou três coisas.

 Porque é que o Adriano não saía da Vila Cruzeiro? Por ela própria não tinha saído? E o que ela achava  da carreira do filho? Rosilda respondeu às duas primeiras com frases curtas. Por é a nossa casa. Porque não tem para onde ir. A terceira questão foi diferente. Rosilda  ficou em silêncio durante 16 segundos no ar, segundo a contagem feita por quem tem o áudio.

 E depois respondeu uma única frase: “A carreira do meu filho foi uma coisa. O que lhe fizeram foi outra. O entrevistador não pediu  para ela explicar. A entrevista terminou logo depois. O áudio circulou em grupos de WhatsApp da Penha durante dois  meses, depois desapareceu. Já não está disponível em nenhuma plataforma oficial. Algumas pessoas têm cópia.

 A frase: “O que lhe fizeram foi outra”. É a frase mais importante deste história. Porque é a única  vez em que Rosilda, em duas décadas, admitiu publicamente que existiu  alguém. Alguém que o fez, alguém com agência. Alguém com responsabilidade, alguém com nome. Aqui, caro espectador, este narrador não vai pronunciar este nome por medo, por respeito à família  e porque as pistas já estão todas neste vídeo.

 Se prestou atenção, já sabe quem [a música] é. E se não, volta para os Atos 2, 3 e 4. Olha o representante, olha quem apresentou o Adriano  à família. Olha quem estava na bancada do Maracanã na primeira partida profissional. Olha quem intermediou  a transferência para o Inter em 2001.

 Olha quem fechou os três contratos paralelos. Olha quem se juntava  todas as quartas-feiras num andar de um edifício na Avenida Faria Lima. Olha quem manteve silêncio público durante todos estes anos. E você mesmo vai para chegar à mesma conclusão a que Rosilda chegou. Identificação por três coincidências. Primeira é a pessoa que  correspondia ao nome anotado na página 32 da caderneta verde do Almir, que consultou na chamada de 14 minutos, três semanas antes de  morrer.

 Segundo, é a pessoa que tinha procuração assinada por Adriano para movimentar a conta do Mónaco, conta que recebeu comissões em 2002, 2013, 2007. Terceira, é a pessoa que  em 2010 comprou uma propriedade rural em Indaiatuba, São Paulo, no valor equivalente a 3 anos de salário dela, como procuradora declarada. Três coincidências numa só pessoa.

 A família em privado liga, o nome existe e o meio futebolístico conhece-o. E aqui entra a parte mais  difícil de contar, porque quando o Almir descobriu em julho de 2004 os  três contratos paralelos e as comissões pagas no Mónaco, fez exatamente uma coisa. apanhou o autocarro 474 da Vila Cruzeiro até ao centro do rio.

Desceu na Sinelândia,  caminhou três quarteirões até uma cabine telefónica pública de moeda de 50 tostões na esquina da rua 13  de maio. Era uma quarta-feira de manhã, 11:20, calor de 34º.  Air tinha tomado dois cafés expressos num botequim da Avenida  Rio Branco.

 Antes um número que tinha anotado num papel dobrado dentro do carteira. 14 dígitos. Código internacional. O telefone do  outro lado tocou seis vezes. Atendeu um homem com sotaque italiano. Falava português arrastado do tempo em que tinha trabalhado no Brasil, nos anos 90. Era um conhecido distante, um auxiliar técnico que tinha passado pela CF e agora  vivia entrevisto.

 A conversa durou 14. O italiano falou um. O italiano,  segundo essa pessoa, contou em entrevista a um jornalista desportivo argentino em 2019. Ouviu  Almir explicar tudo. Os três contratos paralelos, as comissões no Mónaco, os nomes anotados na página 32. Quando o Almir terminou,  o italiano respirou fundo, fez uma pausa de 8 segundos e disse cinco frases.

 Almir, não o faz sozinho.  Espera, junta mais provas, procura um advogado em Milão, e não no Rio, e muda  esta caderneta de lugar hoje mesmo. Almira agradeceu, desligou. A última moeda  caiu no fundo do telefone público. Ami voltou para a casa de autocarro. Chegou à vila Cruzeiro às 3  da tarde, não mudou a caderneta de lugar, deixou no mesmo  bolso traseiro das calças onde sempre carregava.Como a morte do pai destruiu um dos maiores talentos do futebol mundial | A  Bola

Almir nunca mais teve oportunidade de  ligar a mais ninguém. Morreu três semanas depois. A caderneta apareceu em cima da mesa, aberta na página 32. Na manhã seguinte,  não estamos a dizer que aquela morte não foi natural. A versão oficial  do hospital fala em paragem cardiorrespiratória.

A família aceita esta versão para todos os os efeitos jurídicos. Mas a família, 22 anos depois [a música] ainda faz outra pergunta. Porquê a caderneta verde estava aberta na página  32, quando a Rosilda acordou nessa manhã? Quem entrou na casa  entre a meia-noite e às 5h30 da manhã? E por que essa página especificamente era a página com o nome da figura Rosilda, depois  da morte do marido, fez uma coisa que ninguém esperava.

 Não procurou advogado, não procurou um jornalista, não procurou polícia, pegou na caderneta verde,  colocou dentro de um envelope castanho, guardou no armário do quarto e começou a esperar. Esperou 10 anos, esperou 15. Em paralelo, fez três coisas que só ela sabia fazer. Manteve contacto com todos os familiares dos jogadores que tinham trabalhado com a mesma figura nos anos 90.

 recolheu recortes  de jornais que mencionavam transferências desta figura e guardou  todos os recibos que Adriano deixava-o em casa quando regressava do exterior. E aqui entra o terceiro  grande buraco da versão oficial. Adriano nunca foi pobre depois da carreira. Os números públicos  mostram que ele ganhou entre 2001 e 2015 algo em torno dos 80 milhões de euros líquidos em salários.

 comissões de imagem, prémios e bonificações.  Mesmo descontando os impostos, os advogados e gastos pessoais,  deveria ter hoje no mínimo, 20 milhões de euros poupados. Não tem, nem sequer tem perto disso. As contas de Adriano, segundo um relatório financeiro que circulou em  2021 numa coluna do colonista desportivo Mauro César Pereira, mostram menos de 1 milhão deais distribuídos por três contas bancárias no Brasil, 25 vezes  menos do que ele deveria ter.

 Onde foi o dinheiro? Já entendemos que houve  três contratos paralelos, mas isso não é o mais perturbador. O mais perturbador é o que aconteceu  entre 2008 e 2012, quando Adriano, em pleno declínio físico e psicológico, assinou 13 documentos  diferentes em sete escritórios diferentes em três cidades diferentes.

Empresa de marketing desportivo  em São Paulo, imobiliária no Mónaco, holding em curação. Adriano assinou. Adriano não sabia o que estava assinando. Adriano confiava. Adriano não tinha mais Almir para ler. Em março de 2013, Adriano fez uma coisa que devia ter feito 12 anos antes. Procurou um advogado próprio, um homem chamado Luís Henrique Magalhães, escritório em Botafogo, sem qualquer ligação  com o procurador.

 Foi numa quinta-feira de manhã. Adriano levou um saco plástica com todos os papéis que conseguiu juntar em casa. Sacola do pão de açúcar no interior. recibos amassados, cópias soltas, dois contratos  completos, fragmentos de outros. O advogado abriu o saco em cima da mesa, espalhou os papéis durante  40 minutos sem falar e depois levantou os olhos. Disse cinco palavras a Adriano.

 Quem é que assinou isto contigo? Adriano respondeu um nome. O advogado anotou num caderno, olhou para Adriano durante 10 segundos, disse mais cinco palavras: “Está com problema sério”. Nesse  mesmo dia, o advogado pediu ao procurador que entregasse cópias de todos os contratos vigentes.

 O procurador entregou cinco, não 13. Cinco. Os outros oito desapareceram. Segundo [canção] a família suspeita até hoje, três deles assinavam direitos de imagem de Adriano até 2030, até daqui  aos 4 anos. Direitos que continuam a ser explorados por uma empresa incuração registada num escritório de notário em Willenst, direitos pelos quais Adriano nunca recebeu um cêntimo desde 2014.

 Quem está na  direcção dessa empresa em curação, não estamos a dizer o nome, não por medo, por respeito à  processo que a família ainda está montando, com provas que se sustentem em juízo. Mas  essa figura existe, tem rosto, tem voz e tem uma consciência  que se ainda funciona, não deve deixar dormir.

 Esta figura cobrou, esta figura desapareceu, esta figura segue livre. Foi por isso, e só por isso, que Adriano voltou  a viver na aldeia do Cruzeiro em 2014. Não foi por depressão. A depressão era real, mas a depressão era consequência, não causa. A causa foi que Adriano descobriu nesse ano que tinha menos dinheiro do que um motorista de aplicação de classe média do Rio.

Descobriu que tinha sido enganado durante 13 anos. descobriu que a única pessoa que poderia [a música] ter impedido que era o pai e que o pai tinha morrido três semanas depois de descobrir tudo. Regressar à favela foi a única  coisa que sobrou. Era a casa da mãe. Era a casa onde ainda existia o envelope pardo.

 Guarda esse nome porque ele volta. Regressa agora no último ato. Rosilda Leite Ribeiro tem 68 anos. Mora na mesma casa de  dois quartos da Vila Cruzeiro, onde Adriano nasceu, não saiu. Em 22 anos, recusou três ofertas  do filho para se mudar para Recreio, Barra de Guaratiba e mais recentemente Búzios.

 Disse não às três,  cozinha para Adriano duas vezes por semana, faz feijoada aos domingos, quando o filho vai. Trabalhou como diarista  até 2015. Segundo, declarou ao imposto de rendimento. Mesmo com Adriano a ser multimilionário no papel. Aposentou-se aos 58  anos com um salário mínimo.

 Não tirou um tostão do que sobrou da carreira do filho. Tem quatro netos que conhece e mais um do  qual ouviu falar uma vez. Adriano tem filhas de três relações diferentes. Lara, da primeira namorada de Recreio, mais duas meninas  de um segunda relação em Itália e uma terceira sobre a qual a família se mantém em silêncio.

A mais velha das filhas, hoje na faixa dos 20 e poucos anos, vive no Rio, trabalha numa empresa de eventos e cresceu sem o pai presente. Nunca recebeu  uma chamada de aniversário. Em 2022, num post numa rede social que pouca gente  viu e que foi apagado três dias depois, ela escreveu uma frase que vinha guardando há anos: “Eu sei o que aconteceu  com o meu pai e sei quem a fez”.

A irmã mais nova de Adriano, que partilhava o quarto com ele na infância, hoje trabalha numa loja de roupa em Madureira. Tem dois filhos. Mora 40 minutos  da Vila Cruzeiro. Visita a mãe aos domingos. não fala do irmão. Quando perguntam por  ele, diz que está bem. Quando insistem, diz que prefere não comentar.

 Numa única ocasião, em  2019, falou com uma jornalista de uma revista de bairro que nunca publicou a entrevista. Disse uma frase: “O meu pai sabia. Foi por isso que o meu pai morreu. Adriano, hoje em 2026,  levanta-se às 11 da manhã, toma café com leite no bar da esquina, atira nuca  ao fim da tarde e dorme antes da meia-noite.

 Trabalha esporadicamente como embaixador de marcas de cerveja e de aplicações  desportivas. Faz aparições pagas em programas de televisão duas ou três vezes por ano. Recebe entre 5 e R$ 15.000 R$ 1.000  por aparição. Para um homem de 44 anos, que faturou 80  milhões de euros numa carreira, é o equivalente a um motorista da Uber profissional bem pago.

 Em janeiro de  2026, um mês antes desta gravação, aconteceu uma coisa que ninguém esperava. Rosilda, ao chegar a casa numa terça-feira  de manhã, depois de ir buscar pão à padaria, encontrou na caixa de correio um enelopeo, sem remetente, sem selo, sem carimbo  dos Correios. Alguém tinha deixado em mãos.

 Rosilda abriu na  sala dentro do envelope, uma única fotolaroide de  1988 que mostrava Almir Rosilda Adriano com 6 anos. e a irmã mais nova com três num passeio na Quinta da Boa Vista. Quatro pessoas, sorrisos. Domingo  de sol, a foto era idêntica àquela que Almir levava na carteira em agosto de 2004.

 A foto que desapareceu da  carteira no dia em que faleceu. 22 anos. Alguém andou com  aquela foto durante 22 anos. E em janeiro de 2026, esse alguém devolveu sem bilhete, sem ameaça, sem explicação, apenas a foto. Rosilda guardou no mesmo armário onde está o envelope castanho com a caderneta verde.

 Não falou com o Adriano, não falou com a filha, não falou com a polícia. Ela sabe quem mandou, sabe o que isso significa e ela está à espera.  Em 2004, Adriano Leite Ribeiro era o jogador mais perigoso do planeta,  22 anos, número nove da seleção, melhor marcador da Copa América. Hoje, em 2026, tem 44 anos, vive na aldeia Cruzeiro e está vivo, não está embriagado todos os dias, não está dopado,  está consciente, vai fazer anos de sobrinho, joga a bola descalço com  os meninos da laje aos sábados de tarde. Sorri para a câmara quando

alguém pede selfie. A versão que lhe conhece é a versão limpa, a do miúdo que não soube [a música] lidar com a fama. Hoje conhece a outra versão, a versão da família, a versão  de Rosilda, a versão da caderneta verde dentro do envelope castanho, um armário do quarto. O Brasil tem um problema. Esse problema  não é o Adriano.

 Esse problema é a engrenagem que apanha meninos de 4 anos a chutar bola de meia em paredes de favelas e transforma-os em produtos exportáveis ​​ para a Europa antes de fazerem 20 anos. Esta engrenagem tem nomes, tem cara, tem escritórios na Faria Lima, em Milão e Mónaco em Curação. Essa engrenagem não foi inventada pro Adriano. Ela existia antes dele.

 Ela existe depois  dele. Ela está apanhando nesse exato momento que você vê este vídeo outro menino de 4 anos a chutar bola de meia em algum lugar do Brasil. Este menino não sabe ainda. A família dele não sabe. O pai dele, se ainda for vivo, vai morrer antes de descobrir. Se essa história  tocou-te, se pensaste em alguém enquanto a ouvia, se tiver um filho, uma filha, uma mãe, uma irmã, liga para esta  pessoa esta noite.

 Não espera pelo domingo, não espera na próxima semana, não espera que o destino  te faça arrepender do que não disse. Adriano já não pode ligar  ao pai. Você ainda pode. E se conhece o menino que atira a bola para a favela, num campinho de vársia, num clube de bairro, abraça este menino. Abraça com força. Diz-lhe que pode ser o próximo imperador, mas diz também em voz baixa para  que só ele ouça, que guarde os contratos, que leia os papéis, que ele leve um advogado de confiança, que ele não confie em qualquer figura que

apareça com uma caderneta verde e uma proposta milionária.  Diz-lhe que o sistema é maior que qualquer talento e que o seu pai, no fim de contas, é a única  pessoa em quem ele vai poder confiar. Partilha este vídeo hoje à noite. Manda no grupo da família, manda no grupo dos amigos do futebol, porque [a música] tem histórias que só cicatrizam quando alguém conta em voz alta.

 E essa história, a do imperador  22 anos depois ainda não cicatrizou. Yeah.

 

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